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Marvin?
Bijou!
Tu �s paneleiro, Marvin!
Mas que maricas t�o querido!
H� quanto tempo, Bijou.
N�o querias?
V� l� com a pele dele � suave.
T�o lindo.
Olha para este maricas!
Agora lambe. V�, abre.
Abre a boca!
Lambe! V�, lambe!
O que foi? Algum problema?
Qual � o teu problema? N�o gostas?
Todas as putas gostam.
V� l�.
Com essa boquinha.
Paneleiro!
Vamos embora.
Paneleiro!
Vejo-te a olhar pela janela
Como se fosse eu
Como se estivesse na tua cabe�a
Acredita, irm�, o sil�ncio e o frio
Isso sei eu de cor
Passei por isso antes de ti!
Vejo que aguardas, aguardas que a tua sorte mude
Dan�o, com total indiferen�a
Tu refazes a lista do que n�o vale a pena
Nem tudo � triste, diz isso a ti pr�pria!
Irm�,
compreendo a tua dor e pesar
Pois senti o mesmo no meu cora��o
�s t�o chato, Gerald. Baixa o som. N�o se ouve nada.
N�o me interessa! Vai come�ar.
Tiras o som ou n�o?
'Tou-me a cagar!
Toca a mexer, rapazes.
Limpem a mesa.
O que � que tens na cara?
Andaste � pancada?
Raios.
N�o desaperta.
O que foi, trinca-espinhas? N�o gostas?
N�o tenho muita fome.
Tu sabes que ningu�m gosta disto.
Porque n�o fizeste batatas fritas?
J� comemos ontem. E foi � borla. Deu-nos a vizinha.
Que chatice!
Estamos a pastar.
� isso que achas?
N�o h� batatas fritas. Acabaram ontem.
Est�s a ser parvo!
- Requentado � horr�vel. - Tamb�m estou farto.
Vou contigo.
Idiotas! N�o v�o encontrar nada. Est� tudo fechado.
O supermercado n�o. E mexe esse rabo.
P�e o �leo a aquecer.
- N�o vais aquecer o �leo? - Eles que se lixem.
Eles n�o foram buscar batatas.
Pois! Duas garrafas, entretanto!
S� uma n�o vale a pena.
N�o aqueceste o �leo!
Pensava que comiam fora, porque a minha comida n�o presta.
Quero l� saber o que tu achas.
N�o me interessa.
Vamos tomar um aperitivo.
Remy, para a cama.
- N�o tenho sono! - N�o me interessa. Cama!
S� fiz amor sozinho.
Quanto a mulheres,
n�o foi por falta de tempo,
foi falta de coragem.
Antes de morrer...
gostava que ela me beijasse o ventre.
QUE SE FODA A POL�CIA MORTE AOS PANELEIROS
Paneleiro.
O que Homi Sorabji disse, e que nos ir� explicar n�o tarda,
� que a opress�o come�a antes de algum ato de opress�o.
Uma ferramenta usada para tornar o oprimido num objecto
consiste em impor-lhe uma identidade.
Ou seja, o opressor d� uma identidade ao oprimido.
Por exemplo, ser negro aos olhos de um branco.
Hoje, a palestra do Abel estava lotada.
Sou eu o respons�vel do website da Escola de Teatro de Nancy.
Escrevo as biografias dos convidados, entre outras coisas.
Ganho algum dinheiro,
e posso ir a Paris visitar o Abel e o Pierre.
Somos todos actores.
- Quem n�o tem nada a ver com teatro? - Eu.
N�o tenho a certeza. Vi fotos do seu jardim.
Tamb�m � uma forma de cenografia, com as plantas?
Concordo plenamente.
Passeamos nos teus jardins como se fosse uma hist�ria.
Bem visto.
Sim, talvez, mas hist�rias sem palavras. Mudas.
Apenas o que se v� e o que se cheira.
Tamb�m n�o levantou a m�o.
Que liga��o tem ao teatro?
Fa�o uma pe�a sozinho.
Sobre qu�?
O que achas que � o que eu fa�o?
� uma hist�ria de amor complexa,
pura, m�ltipla
e composta.
� o que diria...
J.D. Salinger.
Est�o prontos? Vamos recome�ar.
Conta-lhes.
Fala de um mau come�o.
Como se chama?
Marvin Bijou.
N�o mudes nada, Marvin.
� bom assim, quando abanas o rabo.
N�s gostamos assim. A menina.
Sai daqui!
Toda a gente tem as folhas de "As Artimanhas de Scapino"?
Quem n�o tem?
Podem partilhar, mas amanh� tragam.
As Artimanhas de Scapino, de Moli�re,
� uma pe�a de teatro com tr�s actos.
Quem me sabe dizer quanto tempo tem um ato?
Um acto tem 30 minutos.
� o tempo que dura uma vela. N�o havia electricidade.
Esta pe�a...
foi estreada em 1671 no Th��tre du Palais Royal.
Algu�m me sabe dizer outras obras de Moli�re?
"O Avarento".
Muito bem, C�line.
A pe�a n�o teve grande sucesso...
- Estou, quem fala? - N�o acredito!
O que vos disse?
� a Carolus que est� aos gritos.
� doida.
Est� nervosa?
V� l� abaixo tomar os comprimidos!
Tome, isto caiu da sua cabe�a.
Inacredit�vel. S�o uns animais.
Carolus, porque � que bebes sempre Carlsberg?
J� chega!
Acalmem-se.
Continuemos.
Algu�m me sabe dizer o que significa "Artimanha"?
Algu�m...
Entre.
Sentem-se, por favor.
Bom dia, Sra. Carolus. Desculpe interromper a sua aula.
Temos um comunicado a fazer aos alunos.
Como sabem, vou sair desta escola.
Queria apresentar-vos a minha substituta.
Dou a palavra � Sra. Clement.
- Bom dia. - Bem-vinda.
O Sr. Metzinger j� vos disse. Vou ser a nova directora.
Espero que nos demos bem.
Pela minha parte,
n�o preciso que me achem porreira.
Ser� rec�proco.
� mais f�cil para mim fazer os maus sofrerem
do que o contr�rio.
Espero que saibas chupar.
Todas as mi�das gostam de fazer bicos!
N�o te mexas.
Vamos p�r-te bonito.
Isso, assim.
Que lindo.
Ficas lindo, assim.
T�o lindo.
Fica atento.
Agora vais-me chupar, sim?
Sem dentes!
Se me aleijares, morres.
Gostas assim, sua puta!
Vem l� algu�m!
38.5!
Apanhaste alguma na piscina. As piscinas s�o um nojo.
- Posso ficar em casa? - N�o faltaste muito?
Nem por isso.
A minha m�e n�o via nada.
N�o fazia ideia do que me acontecia na escola.
N�o fazia perguntas, n�o dava por nada.
Era uma m�e...
n�o obstante.
Uma m�e apesar de si pr�pria.
Como todas as m�es demasiado jovens.
Uma m�e apesar de si pr�pria, como todas as m�es demasiado jovens.
Era uma das leis da aldeia.
N�o ter filhos...
significava que eras fr�gida
ou l�sbica.
Raios, isto mata-me...
Na verdade, � como quando estou com pris�o de ventre.
Fui a correr para a casa de banho.
Nem precisei de fazer for�a.
Ouvi um barulho e olhei.
O mi�do estava l�.
Podias ter sido tu.
Mas fui uma idiota,
estava cheia de medo.
Nem imaginas.
Puxei o autoclismo. Nem queiras saber...
O teu pai ficou doido.
� normal, era o seu primeiro filho.
O primeiro.
Bem...
Sou uma galinha poedeira.
Pai?
O que quer dizer paneleiro?
Est�s a gozar?
Est� escrito na paragem.
Sabes bem o que significa.
Uma coisa de degenerados.
Como uma doen�a mental.
Ent�o!
Sabes bem o que significa!
� uma esp�cie de doen�a mental.
Uma coisa de degenerados.
E eu lembro-me bem do que pensei nesse dia.
Um pensamento de crian�a, claro.
Ou seja, muito l�gico.
Pensei, bem...
se ser paneleiro � uma doen�a,
ent�o n�o posso ser paneleiro,
porque n�o sou maluco.
Hoje gostaria de trabalhar no sentimento de melancolia,
vamos fazer algo rapidamente,
definir a palavra, cada um de n�s,
de uma forma �ntima para si.
E que seja uma defini��o bem r�pida.
Vamos come�ar por ti.
� como uma nostalgia que se aprofunda.
- Tu? - Uma onda de mem�rias.
Tu.
Boa resposta.
- Tu? - Um sentimento profundo.
� como se flutu�ssemos.
Como se flutu�ssemos. Porque n�o?
Abel tem pouco mais de 40 anos,
mas ainda parece a crian�a que foi outrora.
Um rapaz engra�ado que vos deixa s�s sem uma s� palavra.
Abel tamb�m fugiu para se tomar noutra pessoa.
Foi o Abel que me ensinou como me tomar noutra pessoa.
Ou seja, tu pr�prio.
Para poderes reinventar-te.
Ele diz que basta arrancar o cora��o e j� est�.
Arrancas o cora��o.
Cortas todos os nervos e veias.
E foges a correr.
Sem olhar para tr�s.
Quem � o pr�ximo no banho? Est� a ficar fria!
Seca-te e veste o pijama.
Vamos l�, meninos. Vamos!
Ainda est�s nu? Vem l� a minha m�e.
E ent�o?
Ela nunca viu um homem nu?
Olha!
Eu gosto de trabalhar nu!
- Ol�, pai. - Tudo bem?
J� me come�as a chatear!
Quem � que manda aqui?
- Ol�, Vanessa. - Ol�!
Ol�, querida. O Pat n�o veio?
N�o, discutimos.
Bolas.
Solta-te um pouco s� uma vez.
Apanha o azul!
Doem-me as costas.
Dany! �s p�ssimo!
Quanto custa isto?
Dois euros.
Dois euros cada.
� s�?
Dois euros, por favor.
Remy!
Pai, onde est� o Remy?
N�o est� contigo?
Desapareceu.
� assim que tomas conta do teu irm�o?
N�o serves para nada!
- Ele perdeu o mi�do. - O qu�?
Remy?
Deviam cortar os tomates a estes tipos e obrig�-los a comer.
Sem pena de morte,
s� h� paneleiros e violadores de crian�as.
Remy!
Onde est�s, cara�as?
Mas que merda � essa?
- Onde estava ele? - Na igreja!
Na igreja.
N�o acredito.
J� viste o que as tuas merdas nos fazem?
Vamos, para a cama.
- N�o tenho sono. - J� viste o que fizeste?
Estragaste-nos a festa.
Olha para mim quando falo contigo.
Porque � que me chateias assim?
Porqu�?
Eu assento-lhe a m�o.
J� perdeste o jeito?
- Como se tivesses levado. - N�o �s o meu pai verdadeiro!
O meu batia-me, n�o era, m�e?
O pai batia-me.
E eu agrade�o-lhe por isso.
� normal. Voc�s educam-nos mal!
Mete-te na tua vida.
O medo � melhor que a dor.
Vai-te deitar.
N�o estou cansado.
N�o discutas. Vai-te deitar.
Olhem s� como educaram o Marvin.
Acham que o educaram bem? Fizeram dele uma menina!
E n�o tarda tamb�m o Remy ser� uma menina.
O que foi?
Eu dou cabo de ti!
N�o batas no teu irm�o.
Espera at� teres filhos. Depois podes falar!
Deixa o teu irm�o!
Para com isso, Gerald.
Como � que aguentas isto? Ter aquilo c� em casa?
Aquele maricas!
� uma merda!
Eu mato-te!
Dou cabo de ti, sacana!
Vais-te arrepender.
- Larga-me! - N�o batas no teu pai!
Gerald, p�ra!
Morram!
N�o me interessa se morrem! Estou farto!
N�o me interessa se morrem!
N�o me toques.
De onde vem aquilo?
A quem saiu ele?
Alguma vez bati?
Batiam-me era a mim.
A merda do meu pai � que nos batia!
Que arda no inferno.
Alguma vez vos levantei a m�o?
Alguma vez?
O Gerald deve estar a gozar.
Isto n�o est� certo.
N�o est� certo.
E o outro? Porque se comporta como um maricas?
O que se passa com ele?
� s� para nos chatear?
Porque � que nos envergonha?
O que faz a�, Bijou?
N�o foi � piscina.
Perdi o autocarro.
Mas n�o pode ficar a�.
Desculpe, Sra. Carolus. Tenho aqui o Bijou.
Muito bem.
Fica melhor aqui.
Obrigada, Julie.
Queres tentar, Marvin?
- Tentar o qu�? - Improvisar.
Ficas no meio e fazes qualquer coisa.
N�o sei.
Algo que tenhas visto. O que quiseres.
Para a mesa!
Parecemos vacas a pastar!
Olha o que a tua m�e nos d� para comer.
E depois queixas-te que o Marvin � um trinca-espinhas!
V�o fazer dele uma mi�da, com estes jeitinhos dele!
N�o fales assim do teu irm�o!
Sim, mas sabes? Remy, liga a televis�o!
J� sei o que vou fazer.
Vou ao supermercado comprar batatas e cerveja.
Quero l� saber. N�o contem comigo para aquecer o �leo.
Gerald, vens comigo?
'Tou-me a cagar, j� disse!
N�o me chateies!
- Ol�. - Ol�, Pierre.
- Tudo bem? - Sim, e tu?
- Ol�, Abel. - Ol�, tudo bem?
Trouxe uma coisa.
Que simp�tico.
N�o precisas de trazer alguma coisa sempre que vens c�.
N�o sabia o que escolher...
�ptimo! Vamos p�-lo no frio.
Obrigado.
Quando muda o tempo, apetece-me ostras.
Devem ser t�o caras.
N�o te preocupes com isso esta noite.
N�o � hoje, � sempre. Pagam sempre voc�s.
Isso d�-te alguma estabilidade.
De qualquer modo, falamos mal da rotina e bem da novidade.
Ele � mesmo assim. Ele est� a falar a s�rio.
N�o gostas?
Gosto.
V�.
P�es um pouco de lim�o, assim.
Se se mexer... viste?
Significa que est� fresca.
Depois engoles tudo de uma vez.
Deixa-o fazer.
- Est�s a olhar para onde? - Para o buraco na tua camisola.
N�o, tu n�o!
Ele � igual. Fica doido.
� a descontra��o burguesa.
O Pierre teve pouca loi�a lascada e camisolas com buracos na inf�ncia.
N�o tem nada a ver. J� vi que n�o s�o artistas.
Ent�o?
� o meu lado Caravaggio.
Caravaggio usava as roupas at� se desfazerem.
Quando forem verdadeiros artistas, tamb�m ter�o buracos.
Fa�am um esfor�o, rapazes.
Com certeza.
O que fazemos a seguir?
Querem sair?
Eu n�o, obrigado.
Tenho um dia de trabalho de artista para terminar.
Mas estejam � vontade.
Quem quer salada?
N�o, obrigado.
Bebes alguma coisa?
Deixa-me s� cumprimentar.
Est�s sozinho?
N�o, estou com um amigo.
- Dan�amos, depois? - Sim, mais tarde.
At� logo.
Queres?
Muito obrigado.
Bravo!
Bem educado.
Queres o qu�?
Para beber ou para a minha vida?
Para beber, para come�ar.
O mesmo que voc�.
Gosta de jovens?
Desses, sim, muito.
Sobrinhos?
N�o, s�o meus filhos.
V�-se alguma parecen�a.
Sim.
Menos do que gostaria.
Senta-te.
�s parecido com os teus pais?
Mais do que gostaria.
O que fazem eles?
O meu pai vende coca e armas e a minha m�e � puta.
Ela prefere dizer "acompanhante".
O meu pai pode nem ser meu pai.
Nada mau.
E tu, o que fazes?
Estudo numa escola de teatro.
Estou a ver.
Teatro.
N�o vais seguir o neg�cio do teu pai?
Estou a pensar nisso.
N�o penses muito. N�o percas tempo. Decide depressa.
O segredo � esse.
Para ter um carro daqueles?
Entre outras coisas.
Ent�o quando devemos reflectir?
Sobre qu�?
Pobrezinho, quer reflectir.
� quando pensa, que o trapezista cai.
Reflectir...
O quarto � ali.
Roland...
Eu n�o vou ficar.
Est� bem, como queiras.
Obrigado pela bebida.
J� percebi... Car�cter.
For�a moral, n�o �?
Car�cter ou queres excitar-me?
N�o.
Car�cter.
Muito bem.
N�o �s assim t�o puta.
N�o est� nos teus genes.
� um motivo para nos reencontrarmos.
Convidou-me para o seu c�rculo mais �ntimo.
Devo dizer-lhe as minhas impress�es.
Ele vai declarar-se!
A primeira vez que a vi, gritei para mim:
"Como � bela esta mulher!"
Senhor Paul!
- Sim? - Nada, continue.
No segundo dia, disse:
"Que am�vel e espirituosa."
Lisonjeador.
Mas cedo fiquei triste.
Porqu�?
Ao ver o seu isolamento, n�o pude deixar de pensar nas flores do deserto
que morrem, infelizmente,
sem que lhes tenham sentido o cheiro.
Mas...
Mulher austera!
Est� na hora de limpar as l�grimas e abra�ar a vida.
E vida � bela para quem sabe amar.
Sim?
�?
Acho que sim.
� bom dizer a um homem, de qualquer idade:
"Aqui est� o meu cora��o. D�-me o teu...
e partamos para Assni�res."
Asni�res!
Diz-se Assni�res.
N�o!
N�o � Assni�res, � Asni�res.
�s t�o burro.
� Assni�res.
Asni�res, mas estiveste muito bem.
A aula terminou.
Lembro-vos que preciso de saber
quem quer fazer a audi��o para as aulas de teatro na Escola d'Epinal.
Parece que estamos a falar chin�s.
Se houver candidatos, temos de saber.
Que porcaria est�s a fazer?
Sai.
Tu ainda n�o te vestiste a esta hora?
N�o me chateies.
N�o me lixes a cabe�a.
Assim n�o vamos sair!
N�o quero saber do fato de treino!
Doem-me as costas!
� preciso repetir?
Mal me consigo dobrar para vestir as cuecas.
N�o vou vestir umas cal�as.
N�o me consigo dobrar.
N�o fazes nada o dia todo e n�o vais buscar o Marvin?
Mais alguma coisa? Raios!
N�o gasto uma gota de gasolina nessa merda do teatro.
Achas que somos ricos?
J� viste o pre�o da gasolina?
Ele mente. Est� sempre a mentir.
Tem sempre dinheiro para bebida e tabaco.
Tr�s ma�os por dias para os dois.
� muita gasolina.
E ele n�o anda nu por lhe doerem as costas.
Ele gosta de andar assim.
J� o disse.
Ele fala do dinheiro para nos envergonhar.
O que est�s a fazer?
Quero foder-te.
N�o disseste que gostavas?
N�o me mentiste, pois n�o?
Sobre uma coisa t�o importante.
Bijou?
O que faz aqui?
Os seus pais n�o o podem vir buscar?
Est�o a trabalhar.
Correu bem, o Labiche.
N�o � nada mau como sedutor.
As aulas de teatro na Epinal n�o lhe interessam?
Pensava que gostava de teatro.
Sim, � fixe.
Fixe?
Ent�o o que vai fazer?
N�o gosta que seja um internato?
Seria a mesma coisa na escola t�cnica.
Deixe-me aqui na pra�a.
N�o, eu levo-o a casa.
Eu termino as minhas tarefas.
Depois � mais complicado.
Deve haver uma rua. N�o seja infantil.
Se gosta de mim, deixe-me aqui.
O qu�?
Desculpe, nem lhe agradeci ontem.
N�o teve tempo, mas n�o � tarde.
Obrigado, ent�o.
Queria dizer-lhe que vou tentar as aulas de teatro.
A s�rio?
Ent�o, ao trabalho.
"Juventude, aten��o ao que vos digo
Tudo pode surgir de uma palavra que se perde
Tudo, o �dio e a tristeza!
N�o protestem! Os vossos amigos sabem, a vossa voz � suave,
Mas aquela palavra que achavam n�o ter sido ouvida,
Murmurada num lugar sombrio e escuro,
Mal sai, parte, escapa, para longe da escurid�o!"
"Sobe as escadas, abre a porta, passa,
Entra e, tro�ando, olha o homem nos olhos
E diz: 'Aqui estou eu, sa�da da boca de algu�m'
Est� feito, tem um inimigo mortal."
Boa. Est� melhor.
Mas gostaria de sentir a presen�a do autor.
Ponha-se no lugar dele.
Procure sentir cada palavra. Ainda soa um pouco a escola.
� normal. Estou na escola.
Respond�o.
Outra vez.
"Juventude, aten��o ao que vos digo
Tudo pode surgir de uma palavra que se perde
Tudo, o �dio e a tristeza! N�o protestem!
Os vossos amigos sabem, a vossa voz � suave..."
N�o � um hotel tradicional.
A localiza��o � excelente e fica perto de um templo.
- Kyoto? - � incr�vel, Kyoto.
Fui l� h� muito tempo.
Marvin, vem c� para te apresentar.
D�-me a morada.
O nome. A morada n�o ajuda.
� verdade.
Isabelle Huppert.
� um rapaz bem interessante.
N�o duvido.
- Quanto tempo vais? - Dez dias.
Adoro ver esta casa cheia.
Ent�o, Marvin, ouvi dizer que � actor.
Aposto que � de com�dia, pela forma da sua boca.
N�o sei se o que fa�o � engra�ado.
N�s julgaremos isso.
� sobre...
o que tenho em comum com grandes homens.
E tem algo em comum com grandes homens?
Por exemplo, tenho algo em comum com Caravaggio.
O pintor.
O pintor...
Mas n�o tem a ver com pintura.
Ele usa as roupas at� se estragarem.
E eu tamb�m.
Isso n�o tem mesmo piada.
Enganaste-te em rela��o ao Marvin. Nada doce sai daquela boca.
Apenas o que l� foi posto.
Suponho.
P�ra!
N�o sei nadar.
Tens o teu telefone?
Divertiste toda a gente, mas as piadas v�o perdendo a gra�a.
E os velhos dentes podres fazem rir menos que os jovens.
Tens de tratar dos dentes.
Escreve.
Escreve.
Philippe Bagenelles.
5, Avenue Weber.
Ortodontista.
Vais da minha parte.
N�o te preocupes com o dinheiro.
Ol�.
- Tudo bem? - Sim, e consigo?
Est� t�o calado. N�o fala Ingl�s?
O menos poss�vel.
Sa�de.
Mas devia.
Falar uma l�ngua estrangeira � como um disfarce.
Sabe se o Roland saiu?
Sim, o nosso amigo ingl�s queria sair e o Roland levou-o.
Mas acho que foi por causa do Jaguar.
� surreal o efeito daquele carro sobre os jovens.
N�o dan�a?
Vou morrer.
Tudo bem?
H� algum problema?
- Vou morrer. - Vais?
Que merda.
Queres beber alguma coisa primeiro?
Anda.
Vou fazer um ch�. Ele vai morrer.
Tens alguma coisa mais forte?
Posso dormir c� esta noite?
Claro.
Deixa c� ver.
O que fizeste aos dentes?
Foi um tipo que pagou.
O que andas a fazer?
N�o sei o que ando a fazer.
Por onde tens andado? Desapareceste.
- Estive no campo. - Fixe!
N�o, n�o � nada fixe.
"Foi um tipo que pagou".
Fixe.
Nunca irei conseguir.
- Fazer o qu�? - Nada.
� demasiado dif�cil. Fui burro em pensar...
O teu espect�culo n�o est� a andar?
Os espect�culos n�o andam.
� demasiado dif�cil. Vou desistir.
Parece-me bem que j� desististe.
N�o dizes mais nada? N�o devias tentar anim�-lo?
E digo o qu�? N�o tenho nada a dizer.
"Tens de continuar.
N�o posso continuar.
� preciso continuar. Vou continuar."
Samuel Beckett.
Deixa l� isso. Ningu�m pediu uma cita��o.
Ele quer a tua opini�o e n�o do Beckett. � pedir muito?
- Minha mesmo? - Sim, tua mesmo.
- Minha mesmo? - Sim, tua.
Est� bem.
Eu explico-te.
O eu � um tesouro
que se guarda c� dentro e se abre de vez em quando
no momento da verdade.
Quando nos exprimimos.
Ele est� em palco.
Isto s� me preocupa um pouco.
Desculpa, n�o h� nada �ntimo
ou pessoal no que ele fez.
� a hist�ria t�pica. Tudo.
O Marvin � um maricas atormentado do proletariado
que arranjou um atalho para mudar de campo, certo?
Em cima da cama.
Isso � tudo muito bom.
Piscinas...
carros de luxo...
dentes todos bonitos.
Estou farto de ser pobre. O que poderei vir a ser?
Burgu�s, claro!
E bem rico.
Pois claro.
Estou enganado?
Estou?
Mas que merda.
Acho que tocaste ali num nervo.
V�, isso n�o � nada.
Anda.
Marvin Bijou?
Vem.
E assim termina um ano
E assim terminam os dias
� a esta��o onde tudo cai Com golpes fortes do vento
Um vento que vem do t�mulo E que golpeia os vivos tamb�m
Caem aos milhares Como uma pena in�til
Que a �guia larga no ar
Para que as penas novas
Aque�am as suas asas Com o chegar do inverno
Muito obrigado.
Pr�ximo.
Marvin Bijou.
"O Segredo" de Victor Hugo.
"Juventude, aten��o ao que vos digo
Tudo pode surgir de uma palavra que se perde
Tudo, o �dio e a tristeza!
N�o protestam! Os vossos amigos sabem, a vossa voz � suave.
Escutem com aten��o.
T�te-�-t�te, � noite,
porta fechada, em vossa casa, ningu�m � vista,
Murmuras ao ouvido do teu amigo, se n�o sentires tanto �dio...
- Fuma? - Em ocasi�es especiais.
Mas n�o inalo o fumo.
E ent�o?
Acho que s� fiz porcaria.
Duvido.
De qualquer modo, agora � s� aguardar.
V�!
Boa!
Continua!
V�!
Acelera!
Esta barulheira n�o acaba?
Seus malandros!
Saiam daqui!
J� nos est�s a chatear, � gorda!
J� vais ver a gorda quando a� for!
Cala-te, cabra!
Enfio-te um pontap� no cu!
Anda l�! Mexe esse rabo!
Puta!
J� calaste aquela puta.
V�!
Mais r�pido!
Namoras com algu�m?
Talvez.
N�o chegou nada da Seguran�a Social?
N�o chegou nada da escola?
N�o, raios!
O teu pai podia trabalhar se quisesse.
S� lhe interessa a bebida e os amigos.
A Sra. Clement!
Ent�o, Bijou?
A festejar com cerveja?
- A festejar o qu�? - Como assim?
Entrou na escola de teatro.
N�o recebeu a carta?
Bravo.
Parab�ns.
Que mau humor � esse?
Mas que mau humor!
Que raio!
Eu ia dar-te a carta.
- Quando � que chegou? - N�o fa�o ideia.
Quero l� saber quando chegou.
Onde est�?
V� l� se te controlas!
Se me provocas vais ver!
M�e. O Marvin vai perder o comboio.
Eu vou lev�-lo � esta��o.
Assim param de me chatear.
Se n�o gostas, azar.
Esquece. Eu levo-o.
Temos que falar.
Antes que me esque�a.
Seria chato.
N�o � muito, mas...
D� para beberes uma Coca-Cola.
Ou o que quiseres.
Queria dizer-te...
que l�...
s� h� ral�.
Pretos, �rabes, mais nada. Tem cuidado.
Principalmente marroquinos.
Esses s�o os piores.
Se te assaltarem, d�s-lhes tudo.
Dinheiro, telefone, tudo.
Certo?
Se resistires, matam-te.
Desculpem!
Mas ver maricas a ro�arem-se durante duas horas � uma seca de morte.
N�o concordo. Porque comparas a homossexualidade com a morte? � diferente.
N�o pode ser. Se s� houvesse paneleiros a humanidade acabava.
"Quando" e n�o "se".
Quando comes uma mi�da, bates-lhe o sangue.
Com um rapaz, bates-lhe a merda.
Bates?
Onde foste buscar essa?
Que express�o � essa?
Bijou?
Sra. Clement?
Entre!
Eu preparo-lhe um banho.
N�o me vou despir em sua casa!
Desculpe.
O cigarro incomodou-a?
N�o estava a dormir.
� uma daquelas noites, mais vale nem me preocupar.
Posso?
Lembra-se do que me disse h� muito tempo,
para que eu n�o o levasse at� casa?
Disse: "Se gosta de mim, deixe-me aqui."
E eu deixei, porque gosto de si como �.
O que n�s somos n�o interessa.
Somos o qu�? Poeira?
Mas � poss�vel viver em paz com isso.
Com o n�o sermos nada.
O que interessa � o que fazemos.
Nem isso.
O que interessa � o que est� dentro de n�s
e que n�s nem sabemos. E isso que interessa.
Depois disso,
o que fazemos ou n�o...
Sabiam que ele quer fazer uma digress�o com o seu espect�culo?
Tenho de arranjar um pseud�nimo.
N�o gostas de Fran�ois Chasson?
N�o � nada mau. Olha l� ele, chama-se Wilfrid e n�o se queixa.
Marvin Bijou � o teu verdadeiro nome?
Claro, n�o � nome que se escolha.
Marvin Bijou. � de loucos! � brutal!
Ricardo Cora��o de Le�o ficaria com inveja.
Queremos progredir.
Tens raz�o. Este ano tenho a impress�o que n�o progredi.
Est�o a exagerar. Eu acho que progredi.
N�o se pode fazer teatro sem derrubar a quarta parede, hoje em dia.
J� viram o novo director? Parece t�o novo!
E � Portugu�s. Filho de um pedreiro e de uma empregada de limpeza.
Grande promo��o. E incr�vel.
Ele deve merecer.
N�o � muito diferente de ti.
Tamb�m n�o te deram o diploma e a gl�ria...
Sim, mas de tanto andar com pessoas como voc�s...
Chamou ao seu programa "Ex�lios".
Deu muito �nfase �s minorias, � homossexualidade...
Porqu� essa escolha?
Responderei a isso com uma pequena hist�ria.
Uma crian�a negra,
a quem chamavam "preto porco" na escola.
Regressa a casa, magoado.
Est� triste, perturbado.
Mas os pais est�o l�.
Apoiam-no, confortam-no.
Est� em sua casa, protegido e acompanhado.
Por outro lado,
uma crian�a gay.
Chamam-lhe maricas,
e quando vai para casa ningu�m o apoia.
Ningu�m o conforta.
Est� s�.
Ao ponto de nem sequer falar do assunto.
Porqu�?
Porque na sua pr�pria casa, a sua pr�pria fam�lia,
� uma fam�lia culturalmente pobre,
chamam-lhes paneleiros e l�sbicas.
Para mim, esta � uma forma radical de ex�lio.
Esta crian�a, pobre,
triste,
e gay, que eu fui,
j� n�o se sente bem em casa.
� um estranho na sua pr�pria casa,
entre os seus.
J� venho.
Ol�.
Estou no primeiro ano.
Onde?
Aqui, no teatro.
Muito bem.
Posso falar consigo?
N�o estamos j� a falar?
Queria dizer-lhe que...
Sou como voc�.
Exactamente igual.
N�o h� problema que n�o tenha solu��o.
H� o rev�lver.
A corda.
Tamb�m pode saltar do d�cimo andar. � muito eficaz.
E a psican�lise, mas n�o pode ter pressa.
Se � como eu...
J� que � como eu,
fa�a algo com a sua diferen�a.
O teatro serve para isso.
J� sabe isso.
N�o � s� fogo de vista.
Tudo bem?
Como se chama?
Ol�, Marvin.
Pierre, vem c� para te apresentar.
Talvez possamos beber um copo.
Quer beber alguma coisa?
"Objectivo:
Pedir a altera��o do apelido.
Tendo em conta o car�cter
(especificar se �:
desagrad�vel, indecoroso,
insultuoso, ofensivo,
grotesco) do meu apelido,
� do meu interesse pessoal e profissional alter�-lo.
� por isso
que solicito que considerem
a mudan�a do meu nome actual, Marvin Bijou,
para Martin Clement."
Ai sim? Martin Clement?
"Clement" como a Sra. Clement?
N�s n�o somos suficientes para ti?
� incr�vel podermos mudar de nome.
� caro? Deve ser.
Cerca de 100 euros.
A s�rio? Pensava que era mais.
Um nome n�o � muito caro.
O teu pai vai-se passar por j� n�o teres o nome dele.
No entanto,
Martin Clement � melhor que Dany Lapine.
O que � isso, Dany Lapine?
O Dany tem uma namorada. Ela chama-se Lapine. (coelha)
N�o acredito.
Jo�lle Lapine.
Quando ele disse que ia recome�ar do zero, foi mesmo do zero.
Eu acho que ele anda � toa.
Foi como quando ele foi para o sul com o seu �rabe.
�rabe? Qual �rabe?
Sei l�.
Chamava-se Neige. (neve)
Acreditas? Neige?
Ele nunca falou disso?
Est� sempre a mentir.
S� sei que n�o se largavam.
Depois o Dany regressou, de rabo entre as pernas, sem um tost�o.
E foi isto.
Fala Isabelle Huppert.
Ol�.
J� sabe?
Do Roland?
Calculei que ningu�m lhe ligasse,
Ele teve um acidente, Marvin.
Morreu.
O qu�?
Numa estrada na Alemanha.
N�o sobrou nada do Jaguar.
Ficou aos bocados.
N�o penses muito. N�o percas tempo.
O segredo � esse. Decidir depressa.
Ent�o quando devemos reflectir?
Pobrezinho, quer reflectir.
N�o deves reflectir.
� quando pensa, que o trapezista cai.
Ele falava pouco dos seus "gatos vadios".
Era assim que chamava aos seus protegidos.
Eles iam e vinham.
S� isso.
Como voc�... Bem...
N�o s� voc�.
N�s �mo-nos...
h� poucas semanas. Encontr�mo-nos em Gen�ve.
Ele disse que seria boa ideia ficar de olho no Marvin.
N�o sei o que lhe disse. Devo ter dito:
"N�o tenho tempo para os teus gatos."
E ele disse: "N�o s�o todos, � s� o Marvin."
Engra�ado, n�o?
E eu disse que sim.
N�o sei porqu�, mas disse-lhe que sim.
Se precisar de mim, basta miar.
Mesmo ao longe. Eu oi�o bem.
A sua opini�o � muito importante para mim.
N�o exagere.
N�o me toques!
N�o me toques!
De onde vem aquilo?
A quem saiu ele?
Eu bati-lhe?
A mim � que me batiam.
O meu pai batia-me. Que arda no inferno.
Eu alguma vez vos levantei a m�o?
Alguma vez?
O Gerald deve estar a gozar.
Isto n�o est� certo.
N�o est� certo.
E o outro?
Porque se comporta como um maricas?
� s� para nos chatear?
Porque � que nos envergonha?
Muito bem.
� bom fazeres os pap�is todos.
N�o sei.
Tens algum gui�o?
Presumo que tenhas um gui�o.
Claro.
Obrigada.
Belo caderno.
Onde est�o as plantas do Pierre?
Levou-as com ele quando saiu.
Como a loi�a voadora do filme "Fantasia".
Nunca viste o "Fantasia"?
� normal.
Gostava de ficar a falar mas tenho de trabalhar.
Para de sair de cena.
Como assim, o Pierre saiu?
Sair de cena?
J� falas como o Pierre.
Falo como as pessoas de quem gosto. Tamb�m falo como tu.
O Pierre saiu a semana passada.
Saiu porque...
Eu j� n�o tinha hist�rias para lhe contar.
Esgotei as magias todas.
Comecei a ficar calado.
E ele aborreceu-se.
Eu tamb�m.
Comigo e n�o com ele.
A� tens.
Deveria chorar, acho eu.
N�o seria contra isso.
Chorar.
Se soubesse faz�-lo, choraria.
Vou tentar no fim-de-semana, quando acalmar.
Ou vou para casa da minha m�e.
Cara�as, isto vai-me matar.
Ao menos sei do que vou morrer.
Costumavas contar uma hist�ria a quem estivesse interessado.
E tamb�m a quem n�o estivesse.
E eu, idiota, pensava que era pris�o de ventre.
Do�a-me como se estivesse com pris�o de ventre.
Sabes como magoa quando me contas isso?
Corri para a casa de banho. Nem precisei de fazer for�a.
Ouvi um barulho e olhei. E l� estavas tu, na sanita.
Que belo ber�o!
� a piada do ano!
No meu sonho, est�s completamente nua.
Completamente.
Toda a gente a olhar para ti.
Pareces estar a gostar.
Ningu�m diz nada.
Tens um buraco enorme em vez de um rabo.
Como uma galinha limpa.
Uma galinha do supermercado.
Pareces contente por estar vazia e limpa.
L� dentro,
n�o resta nada.
Nada de entranhas.
Pelo buraco,
a luz do dia entra no teu corpo.
Carne branca e rosada. P�rola.
� muito bonito.
� uma pena teres morrido.
E eu, idiota, estava cheia de medo.
Aterrorizada, nem imaginas.
Puxei o autoclismo.
Olhei e vi o qu�? Ali estavas tu.
No meio do WC Pato.
N�o querias partir.
N�o quero partir.
Quero regressar.
Nunca quis mais nada, mas n�o te digo isso.
� por isso que n�o me escutas.
Peguei no pia�aba e empurrei-te pelo buraco.
Logo!
De qualquer maneira.
Mas foi por causa do p�nico.
Era �bvio que n�o irias caber.
Eras demasiado grande.
Mesmo que empurrasse.
Deixa-me regressar.
M�e, deixa-me regressar.
O Dany teria ficado lixado se perdesse o seu primeiro filho.
� compreens�vel.
Mas sou uma boa galinha poedeira e ele tem uns grandes tomates.
Far�amos outros.
Deixa-me regressar.
� o sucesso do ano: "Quem matou Marvin Bijou?",
a pe�a autobiogr�fica de Martin Clement que representa com Isabelle Huppert,
e que esgota todas as noites.
A imprensa parisiense � un�nime.
Mas na pequena aldeia de onde o jovem autor � origin�rio,
a fam�lia n�o partilha da mesma vis�o das coisas.
N�o percebo porque na pe�a ele nos representa como atrasados mentais.
Teve tanto amor como os outros.
N�o somos homof�bicos.
N�o pensem isso.
Eu amo os meus filhos!
Profundamente.
N�o somos uma fam�lia carinhosa?
Ele � meu filho.
� o meu orgulho.
Era o meu preferido.
O Marvin foi sempre um pouco diferente.
Lembro-me de quando jog�vamos � bola,
eles nunca jogava como os outros.
Est�s c�?
Entra.
Se fosse a ti, fugia.
O Gerald sabe a tua morada em Paris.
Disse que ia esperar-te � porta e bater-te com um taco de basebol.
Diz adeus aos teus belos dentes.
Ai sim? O Gerald quer matar toda a gente.
Sim, e vais faz�-lo.
N�o devias ter vindo aqui.
Est�s a matar-nos a todos.
Sabes bem disso. Destru�ste as nossas vidas.
As vossas vidas?
As vossas? E a minha n�o?
N�o � ao contr�rio? N�o foram voc�s que me mataram?
Achas que me esqueci que os maricas devias todos morrer?
Achas que me esqueci disso?
Sa�ste-te bem, afinal.
E a carta da escola?
Quem a escondeu o ver�o inteiro? Mesmo que perguntasse todos os dias?
Perguntei todos os dias! N�o foi para me tramar?
N�o chores. Pensei que estivesses zangada.
Prefiro que estejas zangada.
N�o percebes que ele deu o seu melhor?
Ele fez como sabia. Sabes como ele foi criado.
Pretos, gays, paneleiros. N�o sabia outras palavras.
� disso que eu falo na merda da pe�a!
N�o percebes que tento salvar-nos a todos?
� disso que eu falo.
As pessoas como n�s s� sabem foder a sua vida
e a dos outros, para ningu�m ter inveja.
Ele est� orgulhoso de ti, fica a saber. Ele n�o � idiota.
Quem?
O Dany.
Sim, claro.
Ele s� sabe que apareces na televis�o.
Mas est� orgulhoso.
Este � o... Martin.
Jo�lle, a minha companheira.
Maryline.
Linda.
Mickael!
� o Mickael.
Os mi�dos.
Veio de Paris?
- Fez boa viagem? - Sim, foi boa.
A comida n�o se faz sozinha.
Vamos fazer as espetadas.
Salsichas e costeleta de borrego, sim?
�ptimo.
Disseram-te l� em casa que arranjei emprego?
Em casa? J� n�o h� casa. Foi vendida.
Queres?
Serve-te.
Ent�o n�o gostavas de "Marvin"?
Ningu�m se chama assim.
� isso que � bom.
N�o h� muitos.
Mas h� imensos que se chamam Martin.
Achas mal?
N�o.
Cada um sabe de si.
Tu � que sabes.
Est� tudo a correr-te bem.
- N�o diria tanto. - Ent�o...
Jornais, televis�o. � incr�vel.
N�o vi a pe�a.
N�o faz mal.
Tamb�m h� um livro, parece.
Posso comprar no supermercado?
N�o sei.
Eu trago-te um.
� preciso tomates para fazer o que fizeste.
Podem casar-se, voc�s.
Agora.
N�s?
Os gays.
Agora dizes "gays"?
Sim, n�o � assim que se diz?
Vais casar?
� preciso amar algu�m para isso.
Porque me casaria? Tu casaste e eras infeliz.
Estamos a falar de ti.
Qual � a diferen�a?
Lembras-te porque casaste com a Odile?
J� a tinhas deixado antes, n�o foi?
Foste para o sul com o Neige.
Com o Neige, sim.
Mas...
O que fazias com o Neige?
N�o, eu...
N�o � nada do que tu pensas.
Raios!
Est�s enganado.
N�o quero partir.
Quero regressar. Nunca quis mais nada.
Mas n�o te digo isso, � por isso que n�o me escutas.
Qual � a diferen�a entre aquilo que viveu
e o que se pode ver na sua pe�a?
Nada do que se passa no palco � a vida real.
� teatro.
Mas os factos s�o verdadeiros, n�o inventei nada.
A sua inf�ncia foi assim t�o dif�cil?
� claro que houve momentos de alegria,
at� de felicidade.
Mas o sofrimento � como uma luz que nos encandeia � noite.
Faz tudo o resto desaparecer.
Ent�o � tudo real?
N�o inventei nada.
Vivi tudo aquilo.
�s vezes vivemos as coisas sozinhos. S� n�s sabemos que aconteceram.
N�o quer dizer que n�o existam. Existem apenas para n�s.
N�o quero ir para casa.
Porqu�?
O meu pai vai fazer enguias. E a terceira vez esta semana.
Acho-as nojentas.
Ao menos n�o tens de com�-las vivas.
As ostras � que s�o nojentas.
O meu pai pesca, por isso comemos muito peixe.
Apanhar enguias n�o � pescar. Basta atirar uma rede.
� para os cal�es.
Cala-te! � assim que se pescam, pronto.
Toda a gente sabe que o teu pai n�o faz nada.
Vais calar a boca?
� verdade. O teu pai n�o faz nada.
- Retira o que disseste. - Nem penses.
Larga-me!
Retira o que disseste!
Retira!
Retira!
Marvin, larga-me!
QUEM MATOU MARVIN BIJOU?
Para o Dany, com todo o meu...
Tudo bem?
Estava com medo de n�o te apanhar.
Esqueci-me do livro no comboio.
N�o faz mal.
Os mi�dos arranjam na internet.
Toma.
J� que fal�mos de casar.
Toma. N�o uso.
Dantes valia alguma coisa.
N�o a ponhas no bolso.
P�e na carteira.
Assim est� segura.
Pronto, rapaz.
Ripadas por: RicardoB/2018
:: Ressincroniza��o ferneiva ::
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