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Diane Kruger Fala sobre o Filme
Fale-nos sobre o seu papel.
Quando Ii pela primeira vez o argumento,
achei imediatamente que a Gloria era uma óptima personagem feminina.
Não só é uma personagem...
Como hei-de dizer? Ela ainda está viva
e agradou-me imenso desempenhar uma pessoa que existiu realmente,
um personagem histórico.
Achei que a personagem dela era muito violenta
em muitos aspectos da sua vida.
Em algumas cenas do argumento
achei-a terrivelmente...
... dificil de desempenhar. Quando dizia aos filhos
que a separação entre negros e brancos era vontade de Deus.
Era uma coisa natural para ela
e eu fiquei aterrorizada por ela dizer estas coisas
como se não fossem nada.
Isso para mim foi um desafio.
De certa forma,
foi muito difícil relacionar-me com a personagem devido a isso.
Mas eu queria tentar compreender a complexidade da época em que viveu,
em que foi criada, bem como a mudança fantástica
a que ela assistiu.
Achei que era uma evolução interessante de representar.
Começa por ser muito racista
e depois transforma-se por completo, muda completamente de mentalidade.
Também fiquei muito empolgada quando a conheci,
porque a Gloria é uma mulher adorável em pessoa,
é muito calorosa e alegre.
Eu nunca tinha feito papel de mãe,
e ela sempre se dedicou aos filhos.
É uma grande mãe de família
que daria a vida pelos filhos e pelo marido.
Ela sempre os apoiou
e eu achei isso lindo na personagem,
apesar dela ter tido uma mentalidade extremamente racista
em jovem.
Essa é uma contradição que eu tento retratar.
Encarná-la foi um grande desafio para mim.
Acha que conhecer a verdadeira Gloria foi uma vantagem
ou poderá ter sido uma desvantagem?
Conhecer a verdadeira Gloria Gregory foi uma grande inspiração.
Eu achei que isso...
Achei o papel muito estimulante logo no guião.
"Como posso desempenhar esta mulher
"que inicialmente é tão racista?
"Como me posso identificar com ela
"e conseguir que o público também se relacione com ela
"e não a odeie apenas?"
O facto de a ter conhecido foi uma grande ajuda,
porque ela é uma pessoa muito calorosa.
Agora também é muito religiosa.
Passou por grandes provações na vida, perdeu dois filhos.
E pude fazer-lhe perguntas para as quais precisava de resposta,
de modo a retratá-la de uma forma mais cativante,
em termos de...
Será que ela acreditava mesmo nas coisas que dizia?
Será que acreditava mesmo naquilo que ensinava aos filhos?
E porque é que não reagiu mais, porque não questionou mais
se o clima político em que vivia era verdadeiro e correcto?
Isso para mim foi muito útil.
Por exemplo, perguntei-lhe se ela acreditava mesmo...
... que Mandela era um terrorista,
que ele era mesmo aquilo que o governo dizia à população.
E ela disse que sim, sem dúvida.
Eu não compreendia e ela então explicou-me
que só tiveram uma televisão em 1976.
As mulheres da época, ou pelo menos ela,
nem sequer sabiam como era Mandela,
o que me parece inacreditável.
Ela só soube como ele era fisicamente
no dia em que ele foi libertado.
Só em 1976 é que viu uma fotografia dele.
E nunca lera a "Carta da Liberdade",
algo que o governo descrevera como um documento comunista.
De certa forma, ela representa muitos brancos
que viveram na África do Sul naquela época.
Ela tinha um medo terrível do movimento do ANC.
Acreditava que era uma ameaça à segurança dela,
à segurança da família dela.
As pessoas viviam na ignorância.
À esse nível, consigo relacionar-me com ela.
Conhecê-la, ver como ela adora a família,
ver o apoio que deu ao marido, como acreditou nele...
O James era o único acesso que ela tinha...
... a esse mundo.
E viveu imensos anos na ilha sem televisão nem jornais todos os dias,
sem saber o que Se passava.
E isso ajudou-me imenso a tentar retratá-la.
Na sua opinião, qual é a mensagem que esta história passa actualmente?
Eu acho que era muito importante fazer este filme.
Não só porque trata da História recente...
É extremamente recente.
Mas eu, sendo alemã, identifico-me particularmente com esta história,
porque o que aconteceu na História do meu país
é muito semelhante em termos de as pessoas normais, comuns...
... Viverem num país
sem terem noção do que se passa debaixo do nariz delas.
A Gloria, em particular,
é do tipo de pessoa
que aceitou o clima em que vivia
e acreditou em tudo o que lhe disseram sem pôr nada em causa
nem tentar distanciar-se e ver as coisas de uma perspectiva mais abrangente.
Eu acho isso assustador.
Mas pode acontecer e ainda acontece em muitos países.
Acho que é muito importante mostrar...
... que nem todas estas pessoas eram monstros...
Nem todas elas odiavam os negros nem eram racistas.
Isso não é verdade, apenas foram criadas nessa época
e acreditavam nisso.
Isso é a coisa mais assustadora,
o não ensinarem as pessoas a pensar para além das normas
e o sermos passivos com o que acontece na nossa vida.
E filmes como este mostram que todos nós nascemos iguais
e somos iguais, independentemente da cor ou da religião.
E que isso deve ser respeitado, senão geram-se situações destas.
Para mim, a história mostra o quão poderoso pode ser um homem
sem recorrer a violência, sem...
... sem nunca mostrar ódio em relação aos brancos,
apesar de ser alvo do ódio dos brancos
e de ter passado tantos anos na cadeia.
Ele saiu de cabeça erguida e mostrou-nos a nós, brancos,
que nos considerávamos mais instruídos e pessoas melhores,
o que um homem pode fazer por acreditar na bondade humana.
Eu acho isso muito importante.
, Até que ponto conhecia a África do Sul, a História do país,
Mandela e o Apartheid antes de fazer o filme?
Antes de receber o argumento já sabia alguma coisa sobre o país
porque rodei cá o meu primeiro filme.
Já tinha estado na Cidade do Cabo.
Mas quanto a Mandela, ao Apartheid e às coisas que aconteceram aqui,
Só sabia o que toda a gente sabe
através dos jornais, da comunicação social.
Por exemplo, nunca lera "A Long Walk to Freedom".
Mas li todos esses livros durante a minha pesquisa.
Passei cá muito tempo antes de começarmos a filmar.
Estive a aprender o sotaque,
e passei cá uns tempos a visitar partes diferentes da cidade
que os turistas em geral não costumam ver.
Sinto que tenho uma boa ideia de como as pessoas vivem aqui.
Fui a algumas povoações segregadas
e apesar de só vermos as coisas superficialmente...
Mesmo que nos esforcemos, não sabemos como é viver ali.
Mas ficamos com uma ideia de como deveria ser a vida
há 20, 30, 40 anos. Mas eu noto uma mudança
de há cinco anos, quando cá estive, para cá.
O país está a evoluir no sentido certo,
mas tem um longo caminho a percorrer.
Mas acho que é difícil para uma pessoa...
O que eu quero dizer é que pretendo fazer jus,
com o meu desempenho, ao estilo de vida da época
e àquilo que as pessoas pensavam e sentiam na sua luta
para aceitar a mudança que se aproximava.
E também...
... fazer jus à comunidade negra
porque este é um filme feito do ponto de vista dos brancos.
Isso é que torna o filme interessante,
mas também pode haver quem ache que não é fiel à verdade.
Há uma barreira muito tênue
e acho que o Bille tem muito cuidado em mostrar esse lado,
em mostrar o que aconteceu realmente naquela época.
Temos de mostrar as áreas cinzentas, que não são brancas nem pretas.
"De um lado os bons, do outro os maus." E muito mais complexo do que isso.
O perigo do filme reside aí.
Foi difícil aprender o sotaque típico da África do Sul?
O sotaque da África do Sul é muito complicado
porque é uma mistura de vários sotaques:
inglês, holandês, afrikaans.
Sim...
Tivemos de definir que tipo de sotaque jamos adoptar
e, felizmente, é bastante ligeiro.
O meu é ainda mais ligeiro do que o do Joe, por exemplo.
O sotaque dos homens é mais carregado
do que o das mulheres da ilha.
Mas acho que demorei cerca...
... de dois meses a conseguir imitar mais ou menos.
E esforço-me todos os dias. Felizmente temos a Claire,
a nossa brilhante professora de dialecto.
Sim, é um desafio. Mas eu gosto, adoro imitar sotaques.
Espero imitar minimamente bem o sotaque.
E gosta de rodar na Cidade do Cabo?
Rodar na Cidade do Cabo tem sido uma experiência fantástica.
A equipa é excelente.
Para um filme com este tema,
seria um crime rodar noutro local. Porque filmamos nos próprios locais,
nas áreas onde tudo realmente aconteceu.
E isso é essencial para o aspecto do filme. Acho que...
A casa dos Gregory é realmente parecida com a casa verdadeira,
as ruas também.
Os figurantes são sul-africanos, e todos os outros actores são daqui.
E espero que isso se note no filme e que o torne mais realista.
E é um local agradável, a Cidade do Cabo é linda.
Foi divertido.
Esta foi a primeira vez que trabalhou com o Bille August.
Como foi essa experiência?
Nós conhecemo-nos em Paris, ele foi ter comigo.
Gostei imediatamente dele,
porque é uma pessoa muito dada, muito simpática.
É culto, ele sabia muito sobre o assunto, já tinha feito pesquisa.
E a ideia que tinha para o papel da Gloria era muito interessante
e muito realista. Eu já vi alguns filmes dele
e aquilo que me agrada mais
é que ele tende a retratar as pessoas como elas são na vida real.
Ele dá muita atenção a pequenos detalhes,
às conversas banais do quotidiano.
E isso é muito interessante porque as torna reais,
faz delas pessoas comuns.
Para mim, isso foi essencial. Neste filme,
, a Gloria é igual a toda a gente. E igual a si e a mim, à minha mãe...
E acho que é isso que torna a finalidade deste filme...
... muito interessante. Temos de entender que eles eram humanos
e que tudo isto aconteceu. O Bille é o realizador ideal para este filme
e nota-se que ele investiu muito amor e trabalho no projecto.
É um realizador rápido, não gosta de fazer muitos fakes.
E sabe perfeitamente quando é que já obteve o que queria
duma determinada cena.
Trabalhamos a um ritmo muito acelerado, o que é divertido.
Ao mesmo tempo é um desafio porque temos de vir bem preparados
e ele não gosta muito de ensaios.
Portanto, temos de saber o que estamos a fazer.
É bom, eu venho sempre bem preparada para o plateau.
E o Joseph Fiennes, já tinha trabalhado com ele?
Não.
Mas foi uma óptima surpresa, porque ele é....
... um colega de trabalho generoso.
Temos uma óptima química...
... no plateau.
Neste filme ele faz o papel de um marido maravilhoso, atencioso,
amável.
Há muito tempo que ele queria fazer o filme,
muito antes de eu tomar conhecimento do projecto.
Ele está mesmo empenhado nisto.
Acho que todos os actores, incluindo o Dennis,
estão aqui pelas razões certas. Todos fizemos grandes esforços,
incluindo o Bille e o elenco, para que o filme fosse financiado
e realizado.
Incluindo os produtores, todos os envolvidos...
Este é um trabalho de amor
e espero que isso transpareça no filme.
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