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Original subtitles

Continuamos com nossa programação de hoje...

18 de agosto de 1942.

Fique agora com os fatos mais sangrentos do dia.

Dos campos de batalha da Europa, o "Repórter Esso".

O senhor pode me levar ali adiante?

- Cigarro? - Obrigado.

Eu tenho do bom.

- O senhor ouviu? - Ouviu o quê?

Pára o carro. Pára o carro, homem! Pára agora.

Triunfo? Sabe... Esta é a estrada para Triunfo?

Não sei.

- Nunca ouviu falar? Triunfo? Não? - Nunca ouvi falar, não.

Tem que ser aqui.

Certo. Gasolina? Aonde tem gasolina?

- Não sei. - Sei não?

- Muito quente aí. - Obrigado. Muito.

Quentura, né?

- Vai pra lá ou pra lá? - Eu vou ficar por aqui mesmo.

Certo.

Maria! Maria, me ajuda aqui.

Ô José! Traz aí o funil.

- Essa aí é pra quem? - É pra esse galego aí.

O moço vem de onde, hein?

- Sou da Alemanha. - Não, homem.

Perguntei de onde o moço começou essa viagem...

de onde o moço veio com esse caminhão...

não de onde o moço é, viu?

Comecei no Rio de Janeiro.

- Eu vou pra onde o moço veio. - Pro Rio?

Tentar a vida. Cansei. Cansei dessa...

desse lugar aqui, esse buraco.

- O moço parece cansado, viu? - São 3 meses de viagem.

E agora esse Brasil parece que não acaba nunca.

Lugar que não presta é assim. Demora pra acabar.

- O que disse? - Nada, não.

Fuma?

- Importado? - Nacional.

Fumo, não. Obrigado.

- O senhor sabe esse caminho? - Esse centro eu sei.

Pode me ajudar?

O moço me ajudando, eu posso.

- Paga quanto pelo serviço? - Paga?

Uma coisinha pra me ajudar a continuar a viagem.

Comida enlatada.

Sei.

Faltou o moço acertar o preço do meu trabalho.

Olha, eu não posso lhe pagar mais do que 800 réis.

800, é?

Vou aceitar somente pra ajudar o moço na viagem, viu?

- Qual é o negócio do moço? - O quê?

- Qual é o negócio do moço? - Medicamentos.

- Qual é o remédio? - Se chama Aspirina. Já ouviu falar?

Vi o nome escrito ali.

É novo. É ácido acetilsalicílico.

Se ajudar a matar a fome desse povo aí, o moço vai fazer dinheiro.

Como se chama você?

Ranulpho.

E o seu mesmo? Como é que se diz?

Johann.

Podia repetir?

Johann.

Johann.

- Quê? - E o seu? Repete de novo.

- Ranulpho. - Você é sempre assim?

- "Assim" como? - Assim.

Assim, ácido.

- Podia explicar? - Não...

Esse rádio aí é uma potência, né?

Nessa hora, muito sono.

- Quer que desligue o rádio? - Por favor.

Faz um silêncio.

Quero dormir um pouco.

Um, dois, três, quatro...

menos dez, 3,90 m.

- Faz um buraco, por favor. - Pode deixar.

- Alexandre, desce dessa carroça! - Ei, psiu! Sai daí!

Vai amassar o carro do moço, rapaz! Sai daí! Oxe!

Ô seu menino. Não pode ajudar aqui a cavar o buraco, não?

Pegue umas pedras aí, que adianta o serviço aqui da gente.

Tá fazendo nada.

Bote umas pedras aí, põe a vareta.

Viu? Povo é cismado, pirangueiro, mesquinho, do tempo do ronco.

Como é que o moço vai convencer eles a...

comprar um remédio novo, com esse povo atrasado?

A cidade de São Paulo se apresenta aos olhos do forasteiro...

ainda pouco informado...

como produto inequívoco de extraordinárias virtudes humanas.

Nela, se encontram, à primeira vista...

os exemplos de disciplina, de pertinácia, de energia...

e de habilitação...

que caracterizam a vida dos povos chamados a cumprir no mundo...

uma extraordinária missão civilizadora.

Acabou o carnaval.

Já não resta mais em nosso espírito...

senão a doce lembrança da alegria passada.

São as conseqüências dos prazeres do homem...

da fadiga, das danças e do abuso de bebidas alcoólicas.

Mas fossem assim todos os males do mundo.

Este, ao menos, tem remédio pronto e imediato.

Na hora da dor, não perca a cabeça.

Tome Aspirina, e mostre que tem cabeça.

Danou-se!

Pelo que diz aqui, isso faz vender Bíblia pra Satanás, menino!

- Quer quantas caixinhas? - Vai passar o filme de novo?

- Pensa que é festa? - Quero caixa, não. Quero o filme.

Espalha, homem! Espalha! Vai pra lá, tristeza! Vai pra lá!

O infeliz não quis comprar nada, não.

Ô seu Johann? Cinema de verdade não é assim, não, né?

É num lugar fechado, numa sala escura.

Não é assim, no meio da rua...

com dois pedaços de madeira e um pano branco, não, né?

Não, mas eu gosto mais assim. É mais divertido. Aqui uma rede.

E, se você quiser, aqui uma cama de canto.

O moço não vai dormir aqui dentro, não?

Não, durmo do lado de fora. Ar fresco.

O céu abre a cabeça.

Alguma coisa me atacou hoje. De novo.

Deixa eu ver.

- Marimbondo. - Que é isso?

Incha, dói, depois passa.

- Seu... Seu... - Johann.

Seu Johann...

ganha muito dinheiro pra fazer isso?

- Pra juntar o suficiente. - É.

Tá doendo mesmo, viu?

- Você sabe dirigir? - Não.

Eu queria fazer um pedido pro moço.

Se dava pra parar num lugar que tem comida feita.

Eu não me dei bem com essa comida, não.

Como "comida feita"?

Comida de panela.

Os horários de partida dos navios do governo para a Amazônia...

- Vou botar uma música. - Não, deixa lá. Eu quero ouvir.

...saindo do porto do Recife nas quartas e sextas...

e de Fortaleza nas quintas e sábados.

Os interessados podem se inscrever nas prefeituras.

Avante, soldados da borracha! E o Brasil sempre em marcha!

Mas como assim?

O governo pega os retirantes, os miseráveis...

e manda tudo pra Amazônia.

Obrigado.

Chega lá, você tem que ficar trabalhando no seringal...

fazendo borracha pra americano usar na guerra.

E quem paga essa passagem?

O governo. Tu nunca viu, não?

Os trens empesteados de gente.

Pra Amazônia, é de graça.

- E você nunca pensou em ir? - Deus é mais!

- E eu lá gosto de Amazônia? - E ele?

Tá falando do povo que vai pra Amazônia.

Não é caso nem de se pensar!

Não gosta, não, da Amazônia, não?

- O moço já foi? - Não, eu sou do Recife...

nós nunca fomos pra Amazônia, não.

- Gosta do Recife ou de São Paulo? - Eu gosto do Rio de Janeiro.

- Do Rio, né? - É pra lá que eu vou, moço.

- O moço já foi pra Amazônia? - Não, nunca fui, não.

- Tenho dois primos que foram pra lá. - E aí?

Convidaram pra eu ir lá, mas eu não quero ir, não. Porque lá é perigoso.

Cheio de feras, né? Bicho feroz.

Mas me diga uma coisa:

Essa sua firma só contrata alemão, ou qualquer pessoa?

Qualquer pessoa.

Se eu quiser, eu posso pedir emprego lá?

Precisa saber dirigir.

Mas eles contratam?

Olha, agora, vai ser difícil. Aquela situação da guerra...

A guerra mudou a vida do moço também?

Eu saí de lá antes que tinha guerra.

E correu logo do perigo, né? Saiu de onde tá o perigo, né?

Eu viajei, cheguei no Brasil. Aqui, nada de guerra.

- No Brasil, nem guerra chega. - Chega, não.

Nosso Brasil é bom demais. Calmo.

Que comida é essa?

Tá vendo aquele bicho ali?

Aquilo ali é que o homem tá comendo: Bode.

- É forte. - Bodinho é bom.

Como dizia a minha avó: "Feliz do bicho que come o outro".

- Boa tarde, seu José. - Boa tarde.

De quem será esse caminhão que tá aí?

De um senhor que tá aqui.

Será que dá pro senhor pedir uma condução pra mim?

A senhora quer que eu peça, ou quer pedir?

- Não, peça o senhor. - Só um minuto.

E se essa galinha sujar isto tudo aqui? Como é que vai ser?

- O moço estudou pra fazer isso? - Não.

Quer dizer, estudei, mas não pra fazer isso.

- E é bom? O trabalho é bom? - É.

Viagem é a melhor parte.

Já foi pra onde?

Quase o Brasil todo.

É. Já vi que o negócio do moço é viajar mesmo.

Gosta até de viajar por este lugar infame!

- E o senhor? Viaja muito? - Não. Eu viajo só a trabalho.

É isso, e pronto.

Pra que será que ele faz isso?

Eu acho que não tem serventia nenhuma, não.

É a seca.

O rio estava tão seco que as vacas estavam tudo fugindo pro lado.

- Aí, ele teve que cercar. - Interessante.

Que é que o moço acha de interessante num lugar tão miserável como este?

Nunca estive num lugar assim.

Aqui é seco e pobre.

Mas, pelo menos, não caem bombas do céu.

Se o moço parar na estrada pra toda essa corriola que pede condução...

a gente vai chegar no Rio de Janeiro no ano que vem.

Mas o senhor não pediu uma condução também?

Mas esse povo só faz sujar seu carro.

"Esse povo" que o senhor está falando...

o senhor também faz parte dele, não é?

- Mais ou menos. - Como "mais ou menos"?

Tome isso. Vai lhe fazer um bem!

- Onde você pegou isso? - Tinha uma solta aqui no carro.

Alguém esqueceu. Entra todo mundo aqui dentro.

Obrigada.

Minha desculpa, viu, moço?

Na agonia, eu nem perguntei pra onde o senhor vai.

Triunfo. E a moça?

Eu fico bem antes. Em Flores.

- Quer ouvir uma música? - O senhor tem rádio?

- Tenho. - Quero.

Olha, moça, se chorar de novo...

vou abandonar a moça aqui no deserto.

Então, tá certo. Não vou chorar mais, não.

Mora em Flores, né? Tá voltando pra casa.

Tá com saudade, né?

O senhor quer mesmo saber por que é que eu tô chorando desse jeito, né?

Que é isso, moça?

Meu pai chegou em casa depois de ter tomado umas e me mandou embora.

E foi?

- Como "tomando umas"? - Tava bêbado.

E agora? Vai fazer o que, moça?

Qual é o seu nome?

- Meu nome é Ranulpho. - Jovelina.

Eu vou pra casa da minha irmã, que mora em Recife.

Vou pegar o trem que sai amanhã bem cedinho.

E o seu nome?

Johann.

Bom, em Recife, é uma vida melhor que aqui, né?

E a minha mãe, meus irmãos?

- E a saudade que eu sinto deles? - Saudade...

Saudade é bom porque passa.

Passa pro senhor. A minha só aumenta.

Mata a saudade.

É? O senhor é o quê?

Eu? Sou alemão, o terrível.

Não, não é isso, não. O signo.

- Eu sou Câncer. E você? - Eu?

Eu nasci dia 5 de novembro. É o quê?

- Vixe! Escorpião. - É bom?

É bom e é ruim. Agora, tem um fogo!

Eu tenho uma revista que só fala disso. Eu posso ler?

- Claro. - Claro.

E o senhor?

Eu?

Que signo?

- Meu signo? "Sternzeichen". - "Sternzeichen"?

- Eu sou "widder". - Que é isso, moço?

Aqui, tem uma lâmpada muito forte que joga a imagem pra lá 24 vezes...

por segundo. O filme roda até lá embaixo, vem da serpente...

aqui pra lá, aqui em cima no outro rolo.

Agora, presta atenção: Primeiro, liga o motor; depois, a lâmpada.

Nunca o contrário, senão o filme queima...

e se tem um grande problema.

Algumas dúvidas?

Vamos ligar.

- Esse é o mais romântico. - O que é felicidade?

Um sentimento profundo, uma alegria sem fim.

A qualquer hora, esses momentos podem perder a sua magia.

Com as novas cápsulas de Aspirina...

os momentos de felicidade podem ser duradouros e, às vezes...

para sempre.

- Que foi? - Não. Nada, não.

É que esse filme é tão triste.

Triste? Eu acho feliz.

É feliz, mas é triste.

A gente começa a pensar na vida. E a pensar na vida da gente.

Uma vida que devia ser assim: Buscar a felicidade, e mais nada.

Cada vez que a gente procura, acontece uma coisa errada.

- Gostou? - Gostei.

- A moça podia ser artista de cinema. - Não! Eu não.

- Não? Por que não, moça? - Porque eu quero ser feliz.

Esse povo que aparece aí nem tem cara de quem é feliz.

Nem parece gente de verdade, de carne e osso.

Nem tem linha da vida.

Tá sem sono, seu Johann?

Ah, aquela comida hoje me fez mal.

Tô sentindo dor no estômago. Não consigo dormir.

- E você? - Eu tô sem sono mesmo.

Sou assim desde pequeno. Tenho insônia.

Tá tudo certo aí?

Já disse que não fumo.

Serra lascada de grande!

"Serra lascada de grande"?

Isso é que é maquinaria.

O senhor gosta de máquinas, né?

É a coisa que eu mais gosto.

"BRA-8" anuncia mais outra edição extraordinária.

Os primeiros sobreviventes dos navios bombardeados covardemente...

pelos submarinos nazistas chegaram ao litoral de Pernambuco.

O barco estava bem próximo da costa de Sergipe...

...e com a bandeira brasileira... - Vixe! Sergipe é aqui perto.

...e as reaçôes aos ataques já começam em todo o Brasil.

Dois navios de carga de grande calado postos a pique...

um cargueiro de porte médio afundado...

um pequeno corpo de patrulha afundado...

um grande navio-tanque avariado e incendiado...

um grande cargueiro também avariado...

e um grande navio...

- Oba! - Diga, moço.

Bom dia. O moço pode conseguir um pouco de água?

Dá-lhe água aí pro moço.

- Foi cobra? - Eu não sei.

Se não sabe se foi cobra, é melhor logo sangrar.

- Toma, sangra o homem. - Eu?

Oxente, e não é teu amigo, homem?

- Me ajuda. Vá. - Vamos, rapaz.

O senhor viu o tipo de cobra, moço?

Como?

- Tinha barulho de chocalho? - Eu não entendo!

- Fazia barulho? - Não sei, foi muito rápido.

Vai lá dentro, faz uma mezinha com raiz de mandacaru e traz aqui.

E vamos colocar ele na sombra...

que é pra ele se deitar e descansar um pouco.

Tô ficando tonto. O que acontece?

Isso é assim mesmo, moço. O senhor tem que ficar tranqüilo.

- Isso é assim mesmo. - Arreia aí. Arreia.

- É 30 contos. - Caro, né?

Mas o senhor não se aperreie, não.

Qualquer coisa, coloca esse rosário encostado nele.

Ranulpho?

Acordou?

Diga, tô ouvindo.

Talvez vou morrer aqui.

Vaso ruim não quebra.

Arranjei um emprego de garçom num navio, pra viajar.

Depois de viajar muito, cheguei no Brasil.

Gostei. Fiquei.

Procurei um emprego pra ir embora da Alemanha...

e não lutar nessa guerra.

Fugi dessa guerra com medo de morrer, e olha agora!

Eu não consigo mais.

Conte uma história.

A única história que eu sei contar é a minha.

Conte essa.

Deve ser melhor do que a minha.

É a coisa mais sem graça.

Ainda mais pelo nome da cidade que eu nasci.

Se chama, com a licença da palavra, Bonança.

Umas cinco casas, uma cruz no meio...

uma viva alma...

um sol de lascar.

Um dia, eu olhei pro lado, olhei pro outro, e disse:

"É hoje".

Arribei.

Dormiu?

Penei.

Penei, penei, mas cheguei lá...

na capital.

Quando a fome começou a bater, eu voltei...

fiquei com medo de morrer de fome.

Pensa que levar uma derrota nas costas é triste?

Também, lá é assim.

Nordestino só serve de mangação.

Juntava o povinho todo assim e ficava falando:

"Fala aí de novo, rapaz!"

"Mais um paraíba."

"É verdade que você...

bota peixeira debaixo das calças que nem cangaceiro?"

"Você come calango, é?"

Aí, eu baixava a cabeça.

Agora, não. Agora, vai ser diferente.

Eu nem cheguei lá, e já é diferente.

Agora, eu vou chegar e vou falar com ele assim:

"Como é, rapaz?

Repita aí de novo."

"Calango? Como calango e como o cu da sua mãe, filho-da-puta!"

Eu vou pegar a carteira...

de trabalho assinada com o emprego na fábrica da Aspirina...

e vou mostrar na cara dele assim, ó.

No dia seguinte, vou escrever uma carta pra minha mãe...

contando do novo funcionário da fábrica.

E ela vai abrir...

e vai ler pra todos os moradores de Bonança ouvir.

Trata de levantar daí, homem. Tá bom.

- Quanto tempo eu fiquei aqui? - Dois dias e duas noites.

Já estão indo?

Não quer que eu faça mais alguma coisa, não?

Precisa, não.

Pode ir, fique com Deus.

Eu lhe devo isso.

É fácil pagar.

- E como? - Dá-se um jeito.

"Kupplung" primeira, pra trás. Isso.

- "Kupplung", primeiro. - "Kupplung"?

- "Embalagem", primeiro. - "Embalagem"?

- Embreagem. - Embreagem.

Primeiro, pra trás.

Pra trás.

Segunda. Embreagem, segunda.

Peraí. Calma. Calma.

Calma.

De novo.

Morreu.

De novo.

Embreagem. Pra trás.

Isso é bode, é?

Bode.

- Tem quantos? - Falar a verdade ou a mentira?

- Por quê? - A verdade é 250...

agora a mentira é 400. Tem tanto bode por aí.

Melhorou?

Sabe o que eu vou fazer quando chegarmos em Triunfo?

- Passar os filmes. - E depois?

Descansar, que o moço ainda tá fraco.

Descansar?

Eu passei os últimos anos da minha vida juntando dinheiro.

E agora podia ter morrido, e pronto, ontem.

Dinheiro ia ficar pra quem? Pra você?

Eu vou comemorar a vida. Você é meu convidado.

Até que deitou.

Como se diz na minha terra... Vamos encher a cara!

- Como? - Vamos encher a cara!

Ai, ai!

Devagar.

Notícias da Paraíba. Outra pirataria nazista!

Foi preso nesta manhã na Paraíba um alemão que supostamente...

enviava mensagens de localização de navios na costa brasileira.

Dentro da casa do referido alemão...

...foram encontradas suásticas... - Tá pensando na guerra, é?

...O alemão foi levado ao campo... - Estou.

...de concentração em Aldeia, perto de Recife, onde ficará preso...

Mas não se aperreie, não, que aqui o cabra tá seguro.

É.

Não tem bomba que chegue nesse fim de mundo.

Olha os urubus...

Vambora, minha gente, organiza aí pra vender o produto.

Organiza direito aí a fila, vai.

Quer quantos, moço?

- 20 réis. 20 réis, né, seu Johann? - 20 réis.

20 réis.

- Boa noite. - Boa noite.

- Boa noite. - Parabéns pela apresentação.

Muito boa. Gostei muito.

- Obrigado. - Obrigado.

Tá bom. Quer quantos?

Só dá para um aqui, moço. Toma.

Eu posso comprar todo o seu estoque.

Comprar tudo?

Compro todo o seu estoque. Anuncio por toda a região.

Aí, o senhor vai ver o que é vender.

Agora, tem uma coisa: Na hora de revender, eu dou o meu preço...

...que é pra compensar os custos. - Entendi. Tá certo.

Aspirina e cinema na minha Triunfo.

Quanta honra. Pela primeira vez.

É, porque Triunfo é muito longe do Rio.

O Brasil é um continente!

Isso aqui é maior do que a América.

Sem o Alasca, é claro.

Claudionor José Pereira Carneiro de Assis, às suas ordens.

Qual é a sua graça? Seu nome?

- Johann. - Johann.

Seu Johann, essa é Adelina, minha patroa.

Uma mulher maravilhosa, mas que não entende nada de política.

- "Enchantée", senhor Johann. - Prazer.

Seu nome?

- Ranulpho. - Prazer.

Obrigada pelo brinde, Claudionor.

Desculpe, querida. Isso é que dá casar com mulher avançada.

Já tomaram a tua. É bom, não é?

Suave, né? Ao sucesso da nossa empreitada...

...e ao progresso de Triunfo. - E ao final desta guerra tão absurda.

Ao final de todas as guerras do mundo.

Não repare, não, senhor Johann.

É que Adelina, ela foi educada na França. Quer dizer...

ela viveu um ano e meio na França, e voltou de lá com esses pensamentos.

- Ela é pacifista. - Sim.

Com licença a todos. Vou voltar para as estrelas.

Vai lá.

Senhor Johann, eu gostaria que o senhor falasse sobre o caminhão.

Com licença. Eu espero tu no carro.

- Você já vai? - Fale desse carro.

Tô com um sono danado.

São 4 toneladas...

de equipamento, sabe?

- Esse sistema chama "soundtrack". - "Soundtrack".

"Soundtrack" tecnologia.

São 12 alto-falantes, os filmes são musicados e falados...

pelo moderníssimo sistema "Movie Tone".

E ainda temos um rádio muito forte.

Falando em modernidade...

eu gostaria de lhe mostrar minha coleção de pinturas...

de artistas pernambucanos modernistas, muito bons.

O senhor vai gostar.

Interessante.

Por favor, o banheiro.

À esquerda.

- Amanhã já é nosso caminho de volta. - Muita felicidade.

Você vai ser meu ajudante. Já é contratado, viu?

Muita sorte. Não sei o que fazer com tanta, não. Agora...

não se anime com minha alegria, não, viu?

Que falta tu ainda acertar o preço do trabalho.

Você é muito chato!

E tu? Só melhoraste depois que a cobra te mordeu.

Agora vou lhe dizer uma coisa:

...eu vou beber é muito hoje. - Isso, beba.

É a primeira vez que eu venho. Quer dizer, num cabaré.

Porque antes era no mato, no escuro. Agora, no puteiro, não.

Tô agoniado.

Então, vamos entrar?

Boa noite.

Seu Johann, venha cá.

Rosalina, minha filha, toque uma música mais alegre...

...que isso aqui não é um velório! - Eu vou lá!

Vou ficar aqui com as mulheres.

Meus prezados, Triunfo vai ser a capital de todo o sertão.

Estamos inaugurando uma nova era...

e por isso eu quero brindar a proeza desse alemão autêntico...

que veio lá do outro lado do mundo pra trazer o futuro pra nossa cidade.

- Seu Johann! - Seu Johann!

O doutor bebe o que, aí?

Fermet, uma mistura de cerveja com vermute.

É...

Da Paz!

Ô minha magrinha, traga um fermet pro seu criado aqui!

Tá todo mundo admirado com o moço!

Parece até que ninguém nunca viu um estrangeiro antes.

Eh, povinho besta!

Vai ser o maior sucesso!

Eu vou representar a Aspirina por esse sertão todo.

Meu nome vai estar escrito em cada arruada...

e antes de cada filme vai aparecer:

"Aspirina: Uma organização Doutor Claudionor Assis".

- O senhor vai ganhar é dinheiro. - Às custas dos outros, né?

Os filmes são muito bem-feitos. Eles impressionam todo mundo.

Uma pessoa que nunca teve dor de cabeça vai começar a ter...

somente para tomar remédio.

Principalmente os cornos, não é, seu Johann?

O doutor já gosta de piada de corno, hein?

Abusado esse seu ajudante, né, seu Johann?

Arretou-se! Isso é o sertão:

Miséria, coronel e piada de corno.

Eu não sou coronel; eu sou empresário.

- É a mesma coisa. - Não é, não.

Qual é a diferença?

- A diferença? - É.

É que, se eu fosse coronel, eu já tinha mandado meu capanga te pegar.

Mas, como eu sou empresário...

eu mesmo posso fazer isso. Não preciso mandar ninguém.

Ele está bêbado. Nós três estamos bêbados.

Não tô bêbado, não, seu Johann.

Manuel!

Eu vou cheirar esse sovaco a noite toda!

- Tu vai é morrer! - Vou morrer? Deus é mais!

Cadê a outra, hein? Me dê!

- Maria da Paz. - Bonito.

Mas pode me chamar de "Pazinha", que tá bom.

Tu é galego, não é?

- Como? - Tu é do estrangeiro, né?

Eu? Eu sou da China.

E a senhora?

Eu só trabalho no balcão. E, por favor...

não me chame de senhora.

Cor-de-rosa fica bonito em você.

- Tu acha? - Acho.

- Pois é a cor que eu gosto mais. - É?

O doutor Claudionor disse que era pra gente fazer você se divertir.

- Aquele morrinha disse isso, é? - Disse.

- Ah, é? Então, oxe! - Ai!

- Eu sou quase um contratado. - É mesmo?

Vocês sabem que vocês vão foder com homem importante.

E tu vai dar conta das duas, vai?

Com quem que eu tô aqui? Misericórdia.

Ai, meus pés! Tá cheio de frieira, peste!

Eu vou cheirar esse sovaco até amanhã de manhã.

É isso mesmo, Brasil!

Bom dia, abusado!

Eta trabalho bom arretado, esse!

Que é isso na sua testa?

A guenza fez um estrago na minha cara.

A o quê?

Nada, não.

Nada, não. Bati a cabeça.

Não sai com água, não.

Com água, não? Sai com quê?

Sai com o tempo.

O senhor tem negócio com a Alemanha, né?

Sim, tenho.

Dou por visto.

São 100 contos.

Desculpa.

- Obrigado. - Nada.

"Caro Senhor Johann Ro..."

Rohenfelisdt.

"Decreto 2132 de...

31 de agosto de...

1942.

O governo brasileiro decidiu...

declarar guerra à Alemanha...

e seus aliados.

Nesse processo...

a Cia. Aspirina fica, a partir de agora...

sob intervenção federal...

seus principais diretores e gerentes, presos...

e levados para campos de concentração...

no interior de São Paulo.

Senhor Johann Rohenfelisdt...

deve voltar à capital...

e partir imediatamente...

para seu país de origem, a Alemanha, ou...

se dirigir a algum campo de concentração...

a ser determinado."

Tem certeza que não quer comer nada?

Tenho.

Tá pensando na vida, né?

Eta exagero da gota!

O batalhão, incontrolável, invadiu a fábrica italiana de refrigerantes...

Fratelli Vita, localizada no Recife.

Foram ainda depredadas as lojas Wandell Herman & Sons...

a Casa Loner e as Lojas Slober.

O "Repórter BRA-8" volta daqui a pouco...

depois do intervalo dos patrocinadores.

Que foi isso, moço?

É danado, né?

A gente se divertindo que só, e o mundo todo se acabando.

E tu? Vai fazer o que agora?

Eu não sei.

Mas eu sei: Eu não concordo com essa guerra.

Eu não nasci pra matar gente!

Meu medo era sempre, um dia, perder meus documentos.

Sem eles, não podia fazer nada no Brasil.

Até dormia ruim com isso.

Sabe...

e agora...

é melhor ficar sem documento nenhum.

Seu Johann...

olha o que eu comprei.

Pente pra usar na capital.

E por que você não tinha me falado que já tinha lá?

Como?

Por que você não me contou que você já conhecia a capital?

- Você não tava dormindo, rapaz? - Não.

- Era mentira. - O quê?

Nunca viajei pra lugar nenhum, não.

Eu inventei tudo aquilo.

Nunca tive a sorte de sair por aí, como uns e outros.

Eu tava falando do que acontece com o povo que sai daqui e vai pra lá.

E se eu fracassar?

Fracasso é ruim, rapaz. É difícil, dá uma raiva, uma revolta.

Ainda mais eu.

Que tenho uma natureza assim, meio azeda, né?

Bebe aí.

Pra acalmar o juízo.

- Que é isso? - É a tal da tremosa.

- Boa, né? - É bom. Dá logo mais um.

Tó, homem.

- Quer outro? - Quero.

Sabe como é o nome disso?

Facheiro. Isso aqui é lampião em noite sem lua.

Você já pensou:

Se eu fosse pra guerra, você também ia.

Nunca pensei isso, não.

Aí, a gente poderia se encontrar no campo de batalha.

Você num lado, eu no outro.

Que pensamento é esse?

Aí. Vou dizer para meus camaradas aqui:

"Olha lá...

aquele brasileiro, aquele chato.

Conheço ele. Reclama de tudo."

E eu, que vou estar naquela guerra doida lá...

vou olhar e vou dizer:

"Olha lá, rapaz. Aquele galego que eu conheci lá no sertão.

É ele. É ele que acha tudo interessante, tudo interessante.

Chega a ser um cabra cabuloso."

"Olha lá, aquele brasileiro queria tanto chegar no Rio de Janeiro.

E agora? Se fodeu aqui."

"Queria", não; "vai" chegar.

"Aquele ladrãozinho de Aspirina."

Ah, é?

Nada disso. "Ladrão de Aspirina".

Agora eu é que vou dizer:

"Aquele alemão. Eu salvei a vida dele, né?

Só que, agora, sabe o que vai acontecer?

Eu vou matar esse alemão.

Eu vou fazer isso, antes que ele me mate."

Tá vendo isso aqui?

- Isso aqui é uma espingarda. - Que é isso?

- É? - Olha só.

E o que eu vou fazer? Vou pegar a espingarda.

Isso é o quê?

Uma arma de verdade.

Isso aqui é espingarda, rapaz, espingarda do sertão.

- Feito na Alemanha. - É, venha.

Que é isso, homem?

Que é isso, Johann?

- Isso é bomba, é? - Você já foi!

Não sabe brincar, não, rapaz. Não teve infância, não, rapaz.

Fica soltando bomba aí.

- Acabou a brincadeira. - Você já foi.

Você é isso agora: Poeira.

Acabou, rapaz. Agora, quem vai morrer sou eu.

Caiu a bomba, caiu a bomba. Então sou eu aqui, ó.

Vai, rapaz. Sabe brincar, não.

Acabou. Morri.

Morreu?

- Sai pra lá. Acabou a brincadeira. - Morreu?

Morri, rapaz. Vai pra lá, homem!

- Tô morto. - Vou também.

- Pra onde? - Morrer. Sou alemão.

Eta cabra doido! Olha lá, se matou!

A cabeça parece...

Parece que tem uma guerra que explodiu na minha cabeça, moço.

Quer uma Aspirina?

Já tomei vários desse negócio, não adianta nada comigo, não.

Tomei uma decisão.

Vai pra guerra?

- Vou, não. - Ah, bom.

Amanhã, vou pra Amazônia.

Você pode ser meu ajudante.

Pronto, já arrumei um trabalho, né?

E o caminhão, hein?

Vamos deixar ele aqui, né?

Não precisamos dele pra pegar um trem pra Amazônia.

Pense numa tristeza.

Deixar esse caminhão é de partir o coração.

Essa minha roupa te deixou com cara de paraibano!

- Isso não é ridículo? - É melhor assim.

- Ora, não me dá esse olhar, hein? - Tu tá melhor do que antes.

Tá sonhando?

Que situação desse povo!

Perdeu tudo...

e ainda é obrigado a ir pra aquele fim de mundo.

Eu não quero isso pra mim, não, viu?

A gente chega lá em outra condição.

Eu sei.

Agora, tenho que lhe dizer uma coisa:

Eu vou ficar até o trem chegar. Depois, eu tô indo embora.

- Como isso? Desistiu? - Desisti, não. Eu vou enfrentar.

Vou fazer o que tu vai fazer lá na Amazônia.

Vou fazer meu destino.

E por que não pode ser lá?

O meu destino é outro.

Agora, pra tu, é melhor ficar lá mesmo...

e só sair quando a guerra acabar.

Vocês vão até Fortaleza de trem...

e de lá tomam o navio até a Amazônia. Só entra no trem quando eu mandar.

E, lá em Fortaleza, só sai quando eu mandar...

e ensinar o caminho até o vapor.

Estão me ouvindo?

O país tá cheio de filha-da-puta. Bota uma farda, e pronto.

- Sai gritando com todo mundo. - E essas malas aqui, de quem é?

Isso é jeito de tratar gente?

Somente porque é flagelado.

Você tratava as pessoas às vezes assim no caminho.

- Eu fiz o que fizeram comigo. - E esse menino, tá com quem?

- Tá comigo. - Agora, eu mudei.

- Posso não? - Pode.

Agora, fica todo mundo sentado. A polícia vai fazer uma vistoria.

- Melhor eu esperar no banheiro. - Acho melhor.

- Olha a criança! - Cuidado! Meu pé! Cuidado!

Dá licença!

Pode sair.

O trem tá indo, já.

Eu tenho um presente pra você.

E pode?

Posso não?

Eu vou fazer o que com isso?

Vai ser feliz.

Agora mesmo. Oi?

Tome cuidado com os índios, viu?

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