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Tinha seis anos quando levaram a minha mãe.
Gente da aldeia, apoiantes de Franco.
Encontraram-na no dia seguinte, na berma da estrada.
Não puderam levá-la para o cemitério.
O povo da aldeia não os deixou.
Isto fica aqui.
Depois de amanhã já não está cá nada.
Era aqui que os enterravam. Isto era a vala comum.
Olhem... ali... No meio daqueles arbustos.
Atiraram a roupa para ali
e deixaram-na despida.
A vida é tão injusta.
A vida não.
Nós, humanos, é que somos injustos.
Pedro Almodóvar apresenta
Um filme de
Música Original
Montagem
Fotografia
Produzido e Realizado por
O SILÊNCIO DOS OUTROS
1936
Chamamos-lhe Guerra Civil Espanhola, mas começou com um golpe militar.
Este é Franco, ao lado de Hitler.
Franco foi o ditador de Espanha durante quase 40 anos.
1975
Espanhóis...
Franco...
morreu.
Finalmente, os assassinos começam a apodrecer
Enquanto o povo começa a crescer
E cresce também o grito da amnistia...
A esquerda lutou por uma amnistia para libertar os presos políticos.
E pensaram que tinham conseguido.
PARLAMENTO, 1977
Mas a nova lei também concedeu amnistia a todos os crimes da ditadura.
Ficou conhecida por "Pacto do Esquecimento".
É simples esquecimento,
uma amnistia de todos para todos,
um esquecimento de todos para todos.
Uma lei pode instituir o esquecimento...
mas esse esquecimento tem de abranger toda a sociedade.
Temos de nos assegurar de que esse esquecimento é generalizado,
de modo a podermos estender a mão sem rancor.
Aqueles de nós que cresceram depois de Franco
não sabem o que se passou realmente.
Na escola, nunca se falou nisso.
Os nossos pais não nos contaram.
E nós não podemos contar aos nossos filhos porque não sabemos.
MADRID
Anda, vou levar-te a um sítio.
Vou fazer-te uma surpresa.
Pode ser?
JOSÉ M. GALANTE, "CHATO"
Esta é a entrada e aqui é a casa.
Aqui mora Antonio González Pacheco,
aliás "Billy el Niño".
Foi esta a pessoa que por três vezes me torturou
quando eu tinha pouco mais de 20 anos.
Sou obrigado a viver
a escassos metros da pessoa que me torturou.
É este.
"Billy el Niño".
Acho que tinha prazer em provocar terror.
Temos muita informação sobre ele.
Por exemplo, correu a 33ª maratona de Madrid...
e a de Nova Iorque.
É uma figura intocável.
Mas acho que descobrimos uma forma de o levar a tribunal.
Não me digas que fomos os últimos!
Os bárbaros do norte.
Temos aqui 148 torturadores.
Este é o famoso... "Billy el Niño".
Seleccionámos sete que posteriormente exerceram cargos importantes.
A ideia de acusar agora um ministro é descabida, não é?
Mas este é o momento de ir atrás de "Billy el Niño".
É incontestável e ninguém virá em sua defesa.
CARLOS SLEPOY Advogado de Direitos Humanos
Uma musiquinha suave, não é?
Albinoni, os adágios.
Quando uma pessoa é assassinada, é claro:
a justiça tem de perseguir o criminoso e reparar a vítima.
Porém, quando se fala de genocídio ou crimes contra a humanidade,
não é tão claro.
Melhor dizendo, as pessoas começam à procura de argumentos:
"Foi há muito tempo",
"o melhor é esquecer", "temos de virar a página", etc.
CHILE, ANOS 1980
Como é possível obter justiça
por crimes cometidos pelo Estado?
Envolvendo os vários tribunais do mundo.
É essa a ideia da Jurisdição Universal:
os crimes contra a humanidade podem ser julgados, em qualquer altura
e em qualquer lugar do mundo, por qualquer tribunal.
O melhor exemplo foi o que aconteceu no Chile, com Pinochet.
LONDRES, 1998
"Sem escapatória",
gritam os manifestantes à porta da clínica de Londres
onde Augusto Pinochet se encontra retido.
As autoridades espanholas exigem a sua detenção.
O antigo ditador continua sob vigilância
após ter sido emitido um mandado de captura
por um juiz espanhol, Baltasar Garzón.
JUIZ BALTASAR GARZÓN
Eu era advogado nesse caso.
Nem nós conseguíamos acreditar que Pinochet tinha sido preso.
Justiça! Justiça! Foi feita justiça!
Transmitia uma mensagem muito clara para o mundo:
estes criminosos não podem ficar impunes.
Os seus crimes não podem prescrever. Não há fronteiras para os perseguir.
2010
Quando o Juiz Garzón começa a investigar os crimes do Franquismo,
é suspenso da magistratura e fica a aguardar julgamento.
Garzón é acusado de ignorar uma amnistia de 1977 por investigar
a morte e o desaparecimento de mais de 100.000 civis
durante a ditadura de Franco.
Aproveita-se o julgamento do juiz Garzón para declarar
que os crimes cometidos durante a ditadura de Franco
não podem ser investigados.
Foi então que decidimos apresentar queixa na Argentina.
2010
É iniciada uma acção contra os crimes do Franquismo, na Argentina
2 queixosos
BUENOS AIRES, ARGENTINA
Não temos dúvida de que vai crescer.
Desde que foi anunciado publicamente há quatro dias,
recebemos inúmeros telefonemas e e-mails
de familiares das vítimas do regime de Franco.
Está preparado para depor? - Sim...
Se pudesse depor perante um juiz, o que diria?
Sou um dos queixosos,
porque estou a reivindicar o meu direito à justiça.
Juntei-me à queixa... pela morte do meu pai.
O meu pai está sepultado em Baeza com todos os que ali foram executados,
cerca de 900 pessoas.
Estamos no processo
pela execução por garrote do meu irmão Salvador, tinha 25 anos...
O meu pai foi um dos escravos do regime de Franco.
Tenho familiares que passaram quase 20 anos na prisão.
Os fascistas levaram-no para uma estrada a 30 quilómetros
e fuzilaram-no.
O meu avô...
foi espancado até à morte...
porque se recusou a dizer onde estavam os filhos.
A questão é que isto foi abafado até agora.
E de repente... abre-se um caminho.
Uma pequena porta.
Vejam, podemos recorrer à Jurisdição Universal!
BUENOS AIRES, ARGENTINA
A juíza María Servini é nomeada como instrutora do processo.
O seu papel é dirigir a investigação, recolher provas
e preparar o caso para ir a julgamento.
A Lei da Amnistia em Espanha
impediu que o juízes espanhóis investigassem.
Mas os crimes contra a humanidade não prescrevem.
Não há amnistia que os possa abafar ou impedir que sejam investigados.
Não calcula o que é falar com uma pessoa de 80 anos que nos diz:
"Tenho de falar com um juiz porque posso morrer."
Há muitas pessoas a pedir-nos
para testemunhar através de videoconferência.
Achamos que estão reunidos todos os requisitos processuais
para avançarmos com estas medidas.
Há muito para ler.
E precisamos de testemunhas, não é?
Precisamos de testemunhas.
CASTELA-MANCHA, ESPANHA
ANA MESSUTI Advogada de Direitos Humanos
Neste caso, há vários protagonistas.
O tempo é um deles.
Aqueles que não querem ver isto ir a julgamento,
estão a contar com que o tempo acabe por ir levando as vítimas.
Olá. - Olá.
Como tem passado?
Olá, minha querida. Estou bem, e a senhora?
Muito obrigada.
MARÍA MARTÍN
Quando vieram buscar a minha mãe,
puseram-na na escola, que era a prisão das mulheres.
Aí...
raparam-lhes o cabelo.
Ela não tinha feito nada.
Eram ceifeiros...
Disseram que era "comuna".
Andaram com ela pela aldeia com pífaros e tambores
para que todos viessem ver.
As crianças da aldeia seguiam atrás...
mas não me deixaram aproximar-me dela.
Naquela noite, mataram 27 homens
e três mulheres.
Lucia, María,
e a minha mãe, Faustina López González.
O meu pai disse-me:
"Se conseguires, um dia tenta recuperar os restos mortais dela e traz-mos."
Sempre estive sozinha.
Até os meus filhos discutem uns com os outros.
Uns querem, outros não.
Não peço vingança.
O que eu quero são os restos... - O direito a sepultá-la.
... os restos mortais dela. Para enterrá-la com o marido.
Mais nada. É tudo o que eu peço.
Estamos a apresentar o nosso caso na Argentina.
A senhora fará parte do processo.
Como é que eu vou para a Argentina... neste estado?
Não, não, não tem de ir.
O importante é que digam:
"Em Espanha, naquela época, houve crimes contra a humanidade."
E quando isso for dito, o Estado terá a obrigação
de lhe devolver os restos mortais.
Já terei morrido...
A pouca distância de María,
ergue-se um dos poucos monumentos às vítimas de Franco.
Umas horas após a sua inauguração,
depois de décadas de democracia,
alguém disparou contra as estátuas.
O escultor considerou que os disparos tinham completado a sua obra.
O espírito de concórdia e unidade nasceram na transição espanhola...
JOSÉ MARÍA AZNAR Ex-primeiro-ministro de Espanha
não se obtém remexendo em túmulos e ossos, e andando às cabeçadas!
Alcança-se trabalhando arduamente todos os dias pelo futuro do país!
Faz sentido que em 2016 milhares de espanhóis continuem
sem saber onde estão enterrados os seus avós?
MARIANO RAJOY Ex-Primeiro-ministro de Espanha
Não tenho a certeza do que me está a dizer,
nem de que o governo possa fazer alguma coisa para o resolver.
Bem, Sr. Rajoy, é um facto.
Sim, claro, há muita gente que não sabe.
Mas parece-me que fará mais sentido evitar que isto se repita no futuro
em vez de estar sempre a remexer no passado.
Boa noite.
FELIPE VI Rei de Espanha
Estes são tempos
para consolidar uma Espanha de braços abertos e mãos estendidas,
em que ninguém desperte velhos rancores ou abra feridas fechadas.
Sabem o que é o Pacto do Esquecimento?
Não.
Sabem o que é a Lei da Amnistia? - Não.
Não estudamos essas coisas.
A Lei da Amnistia...?
É-me familiar, mas... - Não.
Temos de esquecer o passado, já passaram mais de 40 anos.
Porque algumas pessoas perderam familiares na guerra do lado republicano
e outras perderam pessoas do lado de Franco.
Esquecer tudo e... seguir em frente.
Já não vamos a lado nenhum com isto.
ANTIGA CADEIA POLÍTICA Segóvia
Isto é a retrete e dantes estava aqui.
Isto tem muito a ver com a minha mania de pôr tudo no seu lugar.
Quando aqui estive, devia ter... 24 anos.
Fui condenado por associação ilícita e propaganda ilegal.
A minha história de oposição à ditadura de Franco começa em 1968...
com a criação de um sindicato democrático de alunos.
Não há liberdade de imprensa. Não existe direito de associação.
Um representante deste sindicato, Enrique Ruano,
é assassinado pela polícia.
Deram-lhe dois tiros na cabeça
e empurraram-no pela janela, dizendo que tinha sido suicídio.
Isto causou um profundo impacto.
Foi então que decidi que não tinha outra escolha
se não dedicar a minha vida a pôr um fim à ditadura.
Para a minha geração, a ditadura significava...
privar-nos da liberdade...
de direitos, de tudo.
Pensávamos que havia outra forma de viver.
Com mais plenitude, que podíamos ser mais felizes.
Estava pronta para partir... quando a polícia me bateu à porta.
"Billy El Niño" enfiou-me um pano na boca.
E daí em diante, os socos...
Chegámos à Direcção-Geral da Segurança,
a que habitualmente chamávamos DGS.
Ninguém sabia que ali estávamos.
Simplesmente desaparecíamos.
ANTIGAS INSTALAÇÕES DA DGS Puerta del Sol, Madrid
Neste edifício...
Torturavam pessoas.
Neste edifício...
Assassinavam pessoas.
Foram 40 dias de tortura...
É como se algo dentro de nós cedesse
e nada volta a ser como antes.
Milhares de pessoas viram as suas vidas serem destruídas.
O que foram e o que podiam ter sido.
Perdemos tudo.
E temos de voltar à luta para recuperar o que perdemos.
E muito mais.
E mesmo que seja a última coisa que eu faça,
continuarei a denunciar isto.
MAIO 2013
3 anos após a apresentação da queixa
89 queixosos
A juíza Servini ordena ao Consulado da Argentina em Madrid
que providencie videoconferências
para poder ouvir os testemunhos a partir da Argentina.
Este é um momento histórico
porque os queixosos vão testemunhar perante a juíza,
ou seja, pela primeira vez em tribunal.
Acho que nunca demos um passo tão importante. Jamais.
Boa sorte, querida...
Preparada? - Sim.
Agarre-se!
Está uma hora atrasado. - Oh não!
Estamos tão nervosos, que qualquer coisa nos faz...
Faz-nos pensar...
Sim, diz...
Sim...
Adeus.
Parece que o embaixador...
... ligou à juíza... - Estás a brincar...!
... a dizer que se a videoconferência fosse para a frente
cortava as relações com Espanha.
Por isso foram canceladas as videoconferências.
Escrevam o seguinte:
"Videoconferências canceladas por pressão do governo espanhol."
É uma tentativa de paralisar este processo
que o governo sente que está a crescer cada vez mais
e que se está a tornar imparável...
Há interesses muito poderosos
que querem impedir a investigação destes factos.
1976 1º aniversário da morte de Franco
2016
Arriba Espanha! Arriba Espanha!
FUNDAÇÃO FRANCO
JAIME ALONSO Fundação Franco
Na minha opinião, o que mais importa reter a respeito de Franco
é que ele nunca se enganou.
Franco salvou a civilização ocidental cristã da tirania comunista.
O esquecimento começou muito antes da amnistia.
EISENHOWER, PRESIDENTE DOS EUA
O mundo escolheu esquecer,
envolvendo Franco na luta contra o comunismo.
NIXON, PRESIDENTE DOS EUA
ANTONIUTTI, NÚNCIO PAPAL
DE GAULLE, PRESIDENTE DA FRANÇA
WALDHEIM, SECRETÁRIO-GERAL ONU
Quanto à sucessão do chefe de Estado,
está tudo tratado, não há pontas soltas...
com a nomeação do príncipe Juan Carlos de Borbón como meu sucessor.
Recebo de Sua Excelência,
o chefe de Estado Generalíssimo Franco,
a legitimidade política que surgiu em 18 de Julho de 1936.
JUAN CARLOS I Rei de Espanha de 1975 a 2014
Depois da morte de Franco, a polícia, os juízes e muitos políticos do regime
simplesmente mantiveram-se.
Julgo que o "esquecimento"
era interno referia-se aos próprios políticos.
Não queriam que o povo espanhol soubesse que todos esses políticos
tinham sido anteriormente apoiantes do regime de Franco.
Por isso, interessava-lhes o esquecimento,
porque falar sobre Franco significava falar do passado deles.
Os resultados da votação são os seguintes:
296 a favor.
Dois contra.
Senhores, a Lei da Amnistia foi aprovada.
Escrevi a todos os manda-chuvas, que é como eu lhes chamo.
Ao Rei,
ao filho dele,
ao primeiro-ministro, ao presidente da câmara...
Olá, senhor juiz do Supremo Tribunal de Madrid.
Depois de lhe matarem a mulher,
a única resposta que o meu pai obteve foi:
"Podes levá-la para o cemitério no dia de São Nunca à tarde."
"Pára de nos moer a cabeça,"
"ou ainda acabas como ela."
Cumprimentos da mulher
que continua à espera...
do dia de São Nunca à tarde.
María Martín.
Estou perdida. É ali mais acima?
Sim, é por aqui. - Obrigada, muito melhor.
Esta é a aldeia onde se passou a história toda da minha avó.
Chamo-me María Ángeles Martín, sou filha de María Martín,
neta de Faustina López, a minha avó,
assassinada em Pedro Bernardo.
PEDRO BERNARDO, 1960
As crianças apedrejavam-nos quando passávamos.
Quando descíamos a rua, procurávamos sempre por onde fugir.
Porque quando encontrava alguém...
faziam-me assim com o dedo.
"Não devíamos sequer ter deixado a prole."
Sempre que via a Guarda Civil aproximar-se, a minha mãe urinava-se.
Para ela, eles não tinham mudado com a democracia.
Porque era a mesma instituição.
As mesmas pessoas. O mesmo presidente da câmara.
Às vezes, não sou lá muito a favor de mudarem os nomes das ruas.
Porque trata-se da história, boa ou má, é a história de um país.
Na Alemanha, vês alguma rua com o nome do pessoal do Hitler?
Aquilo foi terrível, uma coisa que não se pode repetir.
A cultura e a história de um país baseia-se no bom e no mau, não é?
E também devemos lembrar-nos do que é mau, não é?
Mas para que não se repita! - Para que não se repita.
Mas não para o homenagear. - Não, não!
Não suporto isto! - Mas porquê?
Acho que é algo que já devia ter sido feito há imenso tempo!
LUIS Filho de María Martín
MADRID
Vivo na rua General Yagüe.
Foi um dos generais que se revoltou com Franco
e é conhecido por "Carniceiro de Badajoz"
porque fez mais de 4000 prisioneiros
e executou-os a todos na praça de touros de Badajoz.
E levanto-me todos os dias
na rua dedicada a este criminoso de guerra.
PRAÇA DO CAUDILHO
BRASÃO DE ARMAS DE FRANCO
PRAÇA ARRIBA ESPANHA
ARCO DA VITÓRIA DE FRANCO
Tenho a impressão de que estamos encurralados.
Temos de dar nova vida a esta acção judicial.
Apresentamos a queixa há três anos...
Não podemos permitir que se alongue por muito mais tempo.
O que é fundamental numa acção destas é o movimento social.
Por isso, temos de ser criativos e perceber de que modo,
através da mobilização social,
podemos fazer pressão para levar isto avante.
Não existe uma aldeia em Espanha onde não haja vítimas do Franquismo, não é?
Não se trata de olhar para o passado.
Estamos a lutar pelo futuro.
Nós vamos aderir como Associação da Memória Histórica de Lora del Río.
Nós vamos juntar-nos a este projecto
com muito entusiasmo.
Queremos estender isto às aldeias.
Recolher assinaturas e reunir declarações de apoio dos municípios.
Um município de cada vez.
Se, efectivamente, a juíza decidir emitir
mandados internacionais de detenção para estas pessoas,
aumentam consideravelmente as nossas possibilidades.
Isto vai tornar-se numa bola de neve.
Chamo-me María Mercedes Bueno. Nasci em La Línea,
uma aldeia na província de Cádis, perto de Gibraltar.
LA LÍNEA, ESPANHA
Tinha 18 anos e estava grávida.
Naquele tempo,
ser mãe solteira era um estigma terrível.
O meu ginecologista internou-me no hospital.
Era 24 de Dezembro, véspera de Natal.
Ele disse-me: "Vou pôr-te a dormir para não entrares em pânico."
No dia seguinte, disseram-me que o bebé tinha morrido.
E explicaram-me que o hospital se encarregaria de tudo.
28 anos depois... Estou a navegar na Internet
e começo a ver imensos casos de bebés roubados
no Hospital Municipal de La Línea.
Com este mesmo médico.
Apercebi-me de que haviam sido roubados milhares de bebés
em toda a Espanha.
Todos os casos parecem ter um denominador comum:
as crianças não estão enterradas no cemitério...
... dos três caixões, dois estavam vazios.
Continham apenas ligaduras e serradura.
Queríamos ver onde supostamente estaria
o registo do enterro da minha filha, de 24 de Dezembro de 1981.
Com esse nome, não aparece aqui nada.
Nada? - Nada.
Descobri que todo este horror começou por volta de 1940
no regime de Franco!
Sempre houve rumores.
Este é o Dr. Vallejo Nágera.
Estudou a eugenia da Alemanha nazi
e tornou-se chefe da psiquiatria militar de Franco.
EUGENIA DA HISPANIDADE E REGENERAÇÃO DA RAÇA
Afirmava que a esquerda carregava um "gene vermelho",
e propôs expurgar esse gene
separando as crianças dos vencidos dos respectivos pais.
Foram entregues milhares de crianças a famílias leais ao regime.
Com o tempo, acredita-se que esta prática foi evoluindo.
Mas a justificação passou de política a moral.
Agora o alvo eram mães solteiras e famílias pobres com filhos "a mais".
Calcula-se que, na Argentina,
a ditadura militar terá levado 500 crianças.
Em Espanha,
conta-se às dezenas ou centenas de milhares as crianças roubadas.
Compreendo que este caso se foque nos crimes cometidos no regime de Franco.
Mas nós também fazemos parte!
Porque quando um sistema está em vigor durante 40 anos
é impossível que a máquina pare em 1975.
Estas práticas continuaram, não havia meio de pararem.
Queremos os nossos filhos, vivos ou mortos!
É só isso que pedimos.
E não é muito. É tão pouco.
É uma miséria, aquilo que estamos a pedir.
Há pessoas horríveis...
SETEMBRO 2013
3 ½ após a apresentação da queixa
235 queixosos
Olha.
Servini ordena a detenção de quatro torturadores.
Isto é histórico!
Uma juíza argentina que investiga os crimes do franquismo
ordenou à Espanha e à Interpol
que detivessem 4 elementos das forças de segurança
para que sejam interrogados a respeito de alegados crimes de tortura.
Quem é que indiciaram? O "Billy"? Boa!
Meu Deus! Boa!
É agora que a luta começa!
Demos um passo de gigante, não foi?
Vamos fazer um brinde!
Saímos onde? - No New York Times!
Deixa-me ver! Deixa-me ver!
Tentem chegar-se mais para aqui. Assim vê-se melhor a porta.
Impedidos de testemunhar em Espanha,
um grupo de queixosos voa para a Argentina.
Chamo-me Ascensión Mendieta Ibarra.
Juntei-me à acção para tentarmos recuperar o meu pai.
Já tinha perdido a esperança.
Mas espero...
que agora o possa ver!
BUENOS AIRES, ARGENTINA
JUÍZA SERVINI
É um prazer tê-los aqui comigo.
Se alguém quiser falar, estou aqui para ouvir.
Chamo-me Paqui Maqueda.
Trago aqui hoje os nomes de 22.000 homens e mulheres
que continuam desaparecidos na região da Andaluzia.
Trago igualmente a nossa enorme gratidão
e a nossa esperança.
O meu pai morreu no dia 16 de Novembro de 1939.
Morreu e deixou 7 crianças pequenas.
Queríamos ver se se fazia justiça
para poder retirá-lo da vala comum.
Quero que compreendam que investigar crimes noutros países é difícil.
Se não faço mais, é porque temos de enfrentar inúmeros obstáculos.
Este é o caso mais importante que tenho no meu tribunal.
Farei o que puder.
Esta viagem está cheia de sinais, estou convencida.
Vejam que arco-íris tão bonito...
ARGENTINA, 1987
CHILE
A partir dos anos 1980,
à medida que vão caindo as ditaduras na América Latina,
muitos países usaram o Pacto do Esquecimento espanhol como modelo.
URUGUAI
Mas com o tempo, os cidadãos exigiram verdade e justiça,
e, um por um, estes países revogaram as suas leis da amnistia.
GUATEMALA
Antigos governantes, polícias e juízes foram levados a tribunal.
RUANDA
Hoje, por todo o mundo, as comissões da verdade e tribunais especiais
trabalham para desmascarar o passado.
CAMBOJA
Antigas cadeias e campos de extermínio transformaram-se em museus
onde as pessoas são encorajadas a lembrarem-se.
ANTIGO CENTRO DE DETENÇÃO SECRETO
Todas as decisões sobre o que acontecia aqui dentro -
quem raptar,
como é que as operações...
Ver uma excursão escolar aqui enche-nos os olhos de lágrimas.
Quando é que iremos ver alunos na Direcção Geral de Segurança a dizer:
"Foi aqui que torturaram o Chato"?
TRIBUNAL NACIONAL Madrid
Enquanto os queixosos esperam por testemunhar na Argentina,
um tribunal espanhol intima os torturadores acusados.
Continua o processo de extradição para a Argentina
de Antonio González Pacheco, aliás "Billy El Niño",
e do antigo elemento da Guarda Civil Jesús Muñecas Aguilar.
Extradição para os torturadores!
BUENOS AIRES
É a primeira vez que a voz das vítimas será ouvida em tribunal,
a 10.000 km do nosso país.
Vá, força!
Pode entrar, minha senhora. Sente-se.
Com a sua permissão...
... a minha família foi exilada,
tal como mais de meio milhão de espanhóis...
... o meu avô foi enviado para o campo de concentração de Camposacos...
... passei por várias prisões de Franco até 1977...
... fizeram desaparecer o meu pai. Lançaram-no a um poço...
... o roubo do meu irmão gémeo, Francisco...
... confiscaram-nos a casa de família...
... fomos vítimas dos centros de prevenção...
... o assassínio de trabalhadores em Vitoria...
... as sentenças contra nós nunca foram anuladas:
ainda somos considerados criminosos...
... ser capaz de dar à minha mãe uma pequena margem de justiça...
... para que não se repita.
MADRID
"BILLY EL NIÑO"
Que espectáculo!
Assassinos!
CAPITÃO MUÑECAS
Aceitou a extradição?
"Os passaportes ficam comigo", disse o juiz Pablo Ruz,
que ordenou que se apresentassem semanalmente no tribunal
e os proibiu de se ausentarem do país...
O próximo passo neste processo
será a audiência de extradição propriamente dita.
Como te sentes? - Muito bem...
Está tudo bem...
Hoje, pela primeira vez em 77 anos...
dois torturadores do franquismo tiveram de responder
às perguntas de um juiz a respeito dos crimes que cometeram.
É um primeiro passo.
Dentro de pouco tempo, veremos o primeiro criminoso na prisão.
MADRID
Não te preocupes, vamos recuperar esses ossos.
TRÊS MESES DEPOIS
Queres um café? - Sim.
Coitadinha, está sempre a dizer:
"Quando o mataram... estaria realmente morto?"
"Como terá caído? De lado? De bruços?"
CHON Filha de Ascensión
Lembro-me perfeitamente, ela passou imensos anos
a suspirar pelo pai, coitada.
O que aconteceu?
Não sei...
Viva.
EMILIO SILVA Activista pela memória histórica
Trago-lhe notícias.
Como está?
A juíza ordenou às autoridades espanholas
que exumassem o cadáver do seu pai.
Querem desenterrá-lo? - Sim.
Minha nossa senhora, que alegria!
Agora, se morrer, já posso levar os ossos do meu pai comigo.
Estou muito satisfeito.
Quer dizer que o vão desenterrar?
Ela ordenou à justiça espanhola que faça o que tem a fazer.
Obrigada, filho. - Não tem de quê.
Tanto tempo...
A minha irmã queria tanto desenterrá-lo
e morreu sem que pudéssemos fazer nada.
A sua viagem fez realmente a diferença.
Virgem santíssima...
Que alegria que me deu, meu Deus! Já posso morrer feliz!
Porque agora já sei que o vou poder ver,
nem que seja um osso, ou uma cinza, ou lá o que é.
GUADALAJARA, ESPANHA
Nesta zona do cemitério,
cada lápide esconde uma vala comum.
Acredita-se que jazem aí mais de 200 pessoas,
incluindo o pai de Ascensión.
MORREU A DEFENDER A DEMOCRACIA E A LIBERDADE
Porém, ainda se vêem na parede os buracos das balas.
Durante 40 anos, esta zona do cemitério esteve encerrada.
Os familiares atiravam flores por cima do muro
e choravam contra ele.
Logo à entrada do mesmo cemitério,
um monumento presta homenagem a vários apoiantes de Franco
que morreram durante a guerra.
Franco está sepultado no maior monumento de todos.
O Vale dos Caídos.
Espanha está repleta de valas comuns.
Nas bermas das estradas.
Nos cemitérios.
No meio dos campos.
No ano 2000, começaram a constituir-se organizações da memória histórica,
financiadas pelas próprias vítimas.
Desde essa altura, sem qualquer ordem judicial,
foram exumados 8000 homens e mulheres.
Mas há mais de 100.000 ainda à espera.
Primeiro viemos aqui por causa do ADN.
Por causa do DM.
A-D-N. - DMA.
N, N. - M, N.
O ADN.
O ADN. - ADN.
Sim, e porque é que o vão recolher?
Para confirmar que sou a filha do meu pai.
Exactamente.
Que o teu pai é o teu pai, e que és filha dele.
Porque há muito mais pessoas enterradas com ele.
O seu nome completo?
Ascensión... Iluminada Ascensión Mendieta Ibarra.
Abra a boca, por favor. - A boca?
Vou esfregar o interior da sua bochecha.
Tiro a dentadura? - Não é necessário.
Já está. - Obrigada.
ASSOCIAÇÃO DE BEBÉS ROUBADOS NA ANDALUZIA
Teve um parto normal? - Normal. Um parto perfeito.
O médico entra,
pega no meu bebé, dá meia volta e sai.
Não me deram nenhuma explicação.
Não me colocaram uma pulseira nem ao meu bebé.
Levaram o menino. - Levaram o meu menino.
Voltou a vê-lo? - Não. Nunca mais.
Ele disse-me... "O seu bebé morreu."
Deram-lhe algum relatório médico? - Não, não há nada.
O meu caso foi muito parecido com o seu.
A forma de agir...
Parecem fotocópias.
Meu Deus, como é que podemos viver com esta verdade...
... escondida nos corações?
Estão a encerrar os nossos casos. Estão a arquivá-los.
Gostava de explicar isto a um juiz...
Mas pode...
Foi o que eu fiz, fora de Espanha, através da acção na Argentina.
Temos advogados a trabalhar connosco gratuitamente.
A acção judicial pode ou não ser bem-sucedida.
Mas, pelo menos, tenho o caminho aberto.
Para a acção reunimos
os nomes dos médicos, parteiras e freiras que raptaram as crianças.
Nomes de empresas que beneficiaram de trabalho escravo.
Não podemos esperar muito mais para apresentar acusações sólidas.
Temos nomes de ministros... como Martín Villa,
que foi ministro durante a ditadura
e depois vice-primeiro-ministro em democracia.
A juíza argentina veio a Espanha.
Enviou uma petição ao governo espanhol,
que a remeteu para os tribunais locais em Espanha,
onde recolheu depoimentos.
Foi uma medida inédita.
Deixe-me dar-lhe um beijinho.
Muito obrigada... por tudo o que está a fazer.
Ouvi 167 depoimentos.
Ficamos comovidos ao ver...
Também nos emocionamos mas...
temos de nos manter frios e objectivos.
PABLO DE GREIFF Relator Especial das Nações Unidas
O capítulo mais negro da nossa história está a ser analisado pela ONU.
Isto inclui as recomendações
para cessar os efeitos da Lei da Amnistia de 1977.
Porque as vítimas, justamente, não esquecem.
ABRIL 2014
4 anos após a apresentação da queixa
Amanhã, "Billy El Niño" terá de comparecer no tribunal nacional,
para a audiência de extradição.
Foi convocado por crimes de tortura de 13 pessoas
entre 1968 e 75.
Os queixosos, que não vão poder testemunhar
na audiência de extradição de "Billy El Niño",
organizam o seu próprio evento.
JUSTIÇA
JUSTA Companheira de "Chato"
Nunca contei nada disto à Justa.
Porque é quase... vergonhoso.
Levaram até lá a minha mulher, estava grávida de três meses.
E para a obrigarem a dizer "fá-lo por mim e pelo bebé",
deram-lhe murros na barriga.
Treze horas seguidas.
Acabaram por me arrancar a pele às tiras.
Como diziam o "Billy El Niño" e os seus capangas:
"Não tenhas esperança. Nada nos vai acontecer."
"Aliás, seremos a polícia do futuro."
Senti-me uma boneca de trapos, atirada da esquerda para a direita,
para a frente e para trás.
A única coisa que me mantinha em pé eram os golpes que o meu corpo recebia,
como se competissem na forma de me atingir para evitar que caísse.
Tremia tanto, tal era a dor e o pânico que sentia,
que não sei dizer se os meus pés alguma vez tocaram no chão.
Algemaram-me pelas costas.
Agarram-me pelos cabelos,
e começaram a bater-me com a cabeça contra a borda da mesa.
O que eu tinha mais medo era de "cantar"
A maneira de resistir era pensar numa cena.
Havia a mesma mesa, os mesmos assassinos a espancarem-me,
mas à minha volta estavam os meus amigos, o meu pai...
As pessoas de quem eu mais gostava.
E não os podia desiludir.
Era a maneira de tentar aguentar.
Mas aos poucos a imagem desvanecia-se,
quando percebíamos que estávamos nus,
que estavam a bater-nos nas nádegas, nas solas dos pés,
nos genitais.
Lembro-me de pensar "Nunca mais vou ter sexo na vida."
Tinha 22 anos... e acabava de ter a minha primeira experiência.
Eu não era uma pessoa, nem sequer um animal.
Era apenas uma coisa.
Ali estava eu, com 22 anos, cheio de medo
e decidido a resistir. A resistir por raiva.
Digo-vos muito sinceramente...
nem mesmo pelas minhas convicções políticas.
Por raiva.
Porque eu era um ser humano.
Durante muitos anos, só queríamos apagar da memória
toda aquela época de amargura...
e repressão.
Não sei...
Se calhar nós todos...
talvez tenhamos colaborado neste silêncio.
Mas é algo de que só nos damos conta mais tarde.
As pessoas não esquecem facilmente.
Mesmo que queiram.
Não é fácil.
Extradição para os torturadores!
"BILLY EL NIÑO"
Antonio González Pacheco,
autoriza a gravação da sua imagem pelos meios de comunicação?
Não autorizo.
As câmaras serão autorizadas a captar breves imagens de costas,
e é permitida a gravação de som.
Conhece os actos pelos quais foi convocado?
Sim.
Consente entregar-se para ser julgado na Argentina?
Claro que não.
Com a sua permissão, Meritíssima. A Lei da Amnistia eliminaria
qualquer responsabilidade hipotética que possa surgir.
Por conseguinte, solicitamos que rejeite inequivocamente
o mandado de extradição do Sr. Antonio González Pacheco.
Mostra a cara, cobarde!
Assassino!
Nenhum canal de televisão espanhol jamais gravou a cara dele... até hoje.
Eis Antonio González Pacheco, também conhecido por "Billy El Niño"
Olá, Sr. Pacheco. Tenho algumas perguntas para si.
Deixe-me em paz. - Ouça, por favor.
Sabia que a justiça argentina pediu a sua extradição?
Deixe-me em paz!
Alguma vez pensou em pedir perdão ao fim de 40 anos?
Deixe-me em paz.
Há uma coisa que me dá particular raiva,
que é quando as pessoas dizem "Não, estão a agir por vingança".
Só se pode achar que estou a querer vingar-me
se considerarmos que ir em busca de justiça é ir em busca de vingança.
Perdoar é um assunto individual.
Um estado não pode perdoar crimes.
Esquecer não leva ao perdão...
Eu acho que gera mais ódio.
Nunca ninguém nos pediu perdão.
As pessoas não pedem, exigem que perdoemos.
Não se pode perdoar.
Pode-se esquecer, mas não se perdoa.
Claro que te perdoo.
A ti, pessoa física que cometeste um acto terrível
porque estavas ao serviço de um regime que me torturou.
Mas exijo justiça.
Porque eu fui condenado ilegalmente e tu escapaste impune.
O Tribunal Nacional não vai extraditar para a Argentina
o ex-polícia conhecido por "Billy El Niño".
Os juízes defendem que os alegados crimes
ultrapassaram o prazo de prescrição e não são crimes contra a humanidade.
Revogação da Lei da Amnistia!
Justiça Universal na América Latina!
Os crimes contra a humanidade nunca... jamais prescrevem!
A nós, e a centenas de milhares de vítimas,
foi-nos negado o direito à justiça!
Obrigada.
Não resistiu...
Foi vencida pela vida.
Partiu sem obter... tudo aquilo por que lutou.
Queria poder estar ali junto aos restos mortais da mãe.
Pessoal, grandes notícias!
A juíza Servini ordenou a detenção
para... a fase de inquéritos
de 20 pessoas.
Um deles é Martín Villa e também Utrera Molina...
Isso é excelente!
Martín Villa!
Já sabes? Acabei de receber a decisão da juíza. Vou já mandar-te.
Estou cada vez mais convencido... de que vai ser feita justiça.
Achamos que este clamor contra a impunidade vai crescer...
A juíza Servini ordenou a detenção de 20 ministros,
um médico acusado de roubar bebés, juízes, advogados,
e um antigo vice-primeiro-ministro, Martín Villa.
MARTÍN VILLA
Quero depor diante da juíza.
A melhor solução é a juíza deslocar-se a Espanha e interrogar os acusados.
A justiça espanhola tem de me deixar recolher os depoimentos.
Se me autorizarem, eu vou.
O médico que me tratou foi acusado graças à acção judicial na Argentina.
É mais um passo na direcção da verdade.
Estamos a pedir justiça e verdade.
É tudo o que nos resta.
JANEIRO 2016
5 ½ após a apresentação da queixa
311 queixosos
Minha nossa senhora, és mesmo famosa!
Estou emocionada.
Minha nossa senhora. - Agarre-se bem.
Estou mesmo emocionada.
Desejava não ter viajado 10.000 km para que isto tivesse de acontecer?
Mas foi o que fiz, e tinha 88 anos.
E voltaria a fazê-lo se fosse necessário.
Tudo isto são valas comuns.
Isto é uma vala comum, aqui é outra vala comum...
São valas comuns, uma ao lado da outra.
Está aqui toda a minha equipa?
Vamos fazer um perímetro, como habitualmente.
As pessoas que estão a trabalhar na vala comum sabem quem são.
PACO Filho de Ascensión
Objecto 1...
Projéctil.
O primeiro corpo...
mostra indícios claros de que foi assassinado.
Daqui em diante, o trabalho será lento.
Ou seja, vai levar alguns dias. - Vamos precisar de vários dias.
UMA SEMANA DEPOIS
Alguma vez tinha visto uma campa tão profunda?
Num cemitério, nunca.
Tinham planeado de antemão quantas pessoas iam pôr aqui dentro.
Abrir uma vala com 22 pessoas
significa que muitas outras famílias poderão recuperar os restos mortais.
Somos familiares de Tomás Vicente Lorente.
E viemos reclamá-lo, claro.
Tenho o meu pai ali, na 13.
O meu tio tinha 28 anos, era um miúdo!
Ali está um pastor de 25 anos.
Não há explicação.
Uma coisa é as pessoas lutarem numa guerra, é assim mesmo.
Mas depois ser-se executado por pensar de forma diferente é inadmissível.
Meritíssimo Juiz...
... do Supremo... Tribunal...
de Madrid.
Custou-me muito envolver-me.
É mais fácil seguir com a vida e não nos metermos nesta confusão.
Cumprimentos...
... da mulher...
... que continua à espera...
... do dia...
... de São Nunca à tarde.
EMBAIXADA DA ARGENTINA
A minha mãe nunca teria imaginado que eu...
me iria envolver desta maneira.
Ficaria muito orgulhosa.
MADRID
Creio que se os juízes espanhóis ouvissem o que eu ouvi,
abririam mais casos aqui.
Foi o que aconteceu no Chile, com Pinochet.
Recusavam-se a investigar até que chegou um momento em que,
com todas as provas que se tinha reunido,
ele foi condenado.
Acho que a longo prazo...
vão conseguir que comecem a investigar aqui.
Muitos casos da Jurisdição Universal nunca chegam aos tribunais,
mas podem desencadear mudanças no país que está a ser investigado.
Apesar da resistência, vários governos autónomos e regionais
aprovaram leis para reconhecer as vítimas,
exumar valas comuns e investigar casos de bebés roubados.
Talvez estejamos finalmente preparados para nos lembrarmos.
CÂMARA MUNICIPAL DE MADRID
O debate sobre a guerra ou a violência em ditadura
nunca deveria estar confinado à esfera privada.
CELIA MAYER Conselheira Cultural
Deveria ter lugar no seio das instituições democráticas.
É por isso que considero de grande maturidade democrática o dia de hoje.
Eis as ruas que irão ser rebaptizadas:
a praça Arriba Espanha, lema de Franco por excelência.
A Praça do Caudilho.
Avenida do Arco da Vitória.
Rua General Yagüe.
É a minha! É a minha!
Passamos agora à votação do texto original.
MANUELA CARMENA Presidente da Câmara de Madrid
Partido Ciudadanos? - A favor.
Muito bem.
Partido Socialista? - A favor.
Partido Popular?
Contra.
Contra.
Certo. Coligação Ahora Madrid? - A favor.
A proposta está aprovada, obrigada a todos.
Sente-se bem? - Estou bem.
Devagarinho.
Tenha calma.
Vamos aproximar-nos.
Chegou a hora. - Chegou a hora.
Olha, mãe.
Onde está o 19...
Coitadinho, meu querido pai!
Uma vida inteira debaixo da terra, querido pai!
Mãe, tu querias vê-lo. Agora já o viste. Pronto, já está.
Sim, era o que eu queria. Eu estou bem.
Paz perdida.
Causa perdida.
Sonhos perdidos.
Pátria perdida.
Todos perdidos.
Perdidos de Espanha.
Em terra de ninguém.
Em campos de raiva.
Aí vêm eles.
Os filhos de Espanha.
Onde uma voz se apaga...
A minha se levanta.
Em Junho de 2018, o primeiro-ministro conservador foi destituído.
O novo governo pondera iniciativas para ajudar a abordar o passado espanhol.
Espanha continua a bloquear a extradição dos acusados na Argentina
e não autorizou a juíza Servini a interrogá-los.
Está em marcha um movimento
que exige que o Parlamento cesse os efeitos da Lei da Amnistia.
Em memória de
Tradução/Sincronia Marta Lisboa/Joca12
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