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Original subtitles

Entre 1854 e 1867,

este país foi sacudido.

A Revolução Liberal eclodiu,

a ditadura de Santa Anna caiu,

a Constituição de 1857 foi promulgada,

a Guerra da Reforma,

a frota franco espanhola inglesa chegou

para cobrar uma dívida inexistente.

A intervenção francesa,

o Império de Maximiliano.

Minha família governa a Europa há 700 anos.

A fuga de Juárez para o norte,

a república guerrilheira de La Chinaca,

a última batalha contra o império.

Em apenas 14 anos,

essa concentração de ações, conflitos e paixões

tem um coração, uma espinha dorsal,

que é a espinha dorsal de uma geração

de liberais que chamavam a si mesmos de "vermelhos" ou "puros",

que mantiveram a unidade

deste país que estava à beira da destruição e divisão,

e que criaram a noção de pátria

que ainda permanece com a gente.

-Olá. -Boa tarde!

Gostaríamos de saber onde fica a fazenda do general Santa Anna em Manga de Clavo.

Ainda falta bastante.

-Bastante? -Sim.

Atravesse a Ponte Binacional, pegue a esquerda.

-A esquerda? -Sim.

Manga de Clavo, onde ficava a fazenda do general Santa Anna…

-O quê? -Manga de Clavo.

Perdidos no deserto.

-Lá está. Chegamos. -Aí está.

Seu nome era Antonio López Pérez.

Mas ele preferia o muito mais retumbante

Antonio de Padua María Severino López de Santa Anna y Pérez de Lebrón.

Mas o apelido que o acompanharia por toda a sua vida seria Quinze Unhas,

porque não tinha uma das pernas.

Então, havia apenas 15 unhas para roubar.

O que não é exatamente correto, porque ele também não tinha um dos dedos,

então, tecnicamente o Quinze Unhas tinha 14 unhas na verdade.

Em 1852, ele é chamado de volta pelos conservadores

para a sua 11ª presidência.

E, em janeiro de 1854,

ele descaradamente chama a si próprio de ditador.

FALTAM 43 KM PARA CHEGAR

BEM-VINDOS A AYUTLA

A consolidação da ditadura de Santa Anna recai em uma área inesperada.

Começa a se organizar uma conspiração no estado de Guerrero.

Um patriarca da época da independência, Juan Álvarez,

publica um manifesto denunciando a ditadura.

Participam Ignacio Comonfort

e uma série de caudilhos militares de patentes inferiores.

PLANO DE AYUTLA

Eles começam a preparar uma revolta militar.

Ditaduras são depostas na bala.

Santa Anna reage muito rapidamente

contra a rebelião insurgente no remoto estado de Guerrero.

Em 15 dias, ele deixa a Cidade do México

com um exército de 5.000 homens para lutar contra, na época,

algumas centenas, duzentos ou trezentos, de rebeldes em Guerrero.

Mas os rebeldes não se entregam. Não conseguem derrotá-los.

RIO PAPAGAYO, GUERRERO

Santa Anna volta para a Cidade do México,

se retira completamente decidido.

Ele estava cansado de ser presidente e, mais uma vez, ele renuncia,

Sim?

Ele vai para Veracruz acompanhado por soldados armados com lanças

deixando para trás um misterioso envelope no gabinete presidencial.

Os homens da Reforma

sabiam que a ditadura não era uma mera questão de tirar um ditador.

Sabiam que precisavam mudar o país.

O que não sabiam era no que estavam se metendo.

Eles não sabiam aquele era o início

de um complicadíssimo e conflitivo processo

de múltiplos fatores insperados intervindo

que duraria 13 anos.

Como vai você?

Ia bem até este momento no qual estou pagando três dólares por uma Coca.

Até agora, estou bem.

Poxa, cara…

NOVA ORLEANS, ESTADOS UNIDOS

Nesta rua aqui nos EUA, Benito Juárez García viveu no exílio.

Ele era um órfão de pais, foi criado pelos avós,

monolíngue, zapoteca, vivia em uma comunidade isolada,

vai para Oaxaca…

e tem uma difícil, dissimílima trajetória…

para se tornar advogado.

Ele foi preso por defender comunidades contra sacerdotes que tentavam roubá-las.

Se torna governador de Oaxaca, durante um curto período liberal.

E a ascensão da ditadura de Santa Anna

foi a sua queda.

Ele será preso, enviado para Ulúa em Veracruz

e, posteriormente…

será deportado.

E ele vem parar aqui.

Nova Orleans será uma fábrica de ideias para a Benito Juárez.

E será, também, o acúmulo de todas penúrias e perrengues do homem no exílio.

A propósito, sabemos foi nesta rua,

daqui até lá,

mas nós não pudemos localizar sua casa.

Exigimos do Consulado Mexicano em Nova Orleans que fizessem

um trabalho de pesquisa histórica.

Quantos Juárez devem ter vivido em Nova Orleans?

Para tentar definir onde…

O que sabemos, no entanto, é onde ele trabalhava.

Juárez consegue um emprego

em Nova Orleans enrolando charutos.

Foi um trabalho mal remunerado que, às vezes, nem sempre era remunerado.

Ele também trabalha numa gráfica onde ele aprendeu a enrolar charutos.

Daí é que vem a obsessão dele por tabaco.

Ele será um fumante ocasional de charutos.

Isso quando ele consegue algum.

Este Juárez sombrio não está mal com este olhar firme.

Quando o Revolução de Ayutla eclode, Juárez decide voltar.

Em seu caminho de volta, ele passará desde o Panamá até a Acapulco,

onde ele desembarca.

Juárez trazia consigo, sem dúvida,

os anos de exílio

e os anos na miséria,

e a clara ideia de que construir um país

é muito mais do que derrubar um ditador.

CIDADE DO MÉXICO, MÉXICO

Quando a Revolução de Ayutla eclode,

Santa Anna decide ir para o exílio

deixando uma carta em uma gaveta…

na qual nomeia seu sucessor.

E Zarco, que estava na Cidade do México, vai para as ruas.

O jovem jornalista se torna um grande agitador popular.

Ele sobe em postes de iluminação pública,

organiza reuniões aqui na Alameda,

e se tornará a força motriz por trás das massas populares,

dos artesãos, de todos que evitarão uma sucessão no estilo Il Gattopardo.

"Tudo deve mudar para que tudo fique como está."

Esse cara será o Zarco.

Por anos,

esta estátua foi o ponto de encontro

para os jornalistas sempre que um colega era assassinado

ou sempre que um jornal estava prestes a ser fechado.

Este lugar é onde vinham pedir para o Zarco que ele nos dissesse

o porquê de a liberdade de expressão ser sagrada.

A história tem uma incrível capacidade de sutilmente voltar,

de um modo incrível, para o presente.

Estamos indo para o lugar onde aconteceram os debates da Constituição de 1857,

foi em um dos salões do palácio.

Foi um dos debates democráticos e da realidade política

-mais importantes que já aconteceram. -E um dos mais longos.

Durou um ano inteiro.

-Olá. -Oi.

Estamos para filmar, ele vai mostrar a nossa autorização.

O quarto é aqui em cima, mas vamos dar a volta.

PALÁCIO NACIONAL, CIDADE DO MÉXICO

Este foi o lugar onde ocorreram as sessões da constituinte.

Este é o local.

Aqui estamos.

É tão imponente.

DIA 5 DE FEVEREIRO DE 1857

Dia 5 de fevereiro de 1857, dez da manhã.

As galerias estão abarrotadas de pessoas.

Os congressistas são recebidos com aplausos, muito colorido,

ou assobios e xingamentos

porque o povo era implacável.

Os congressistas se reuniram para ler a constituição

recém-aprovada e fazerem o juramento.

"A soberania nacional reside essencialmente e originalmente no povo."

"Todo o poder emana povo

e é estabelecido em seu benefício.

O povo tem a qualquer momento o direito inalienável

de alterar ou modificar a forma de seu governo."

E o direito à manifestação é estabelecido.

Claro.

A Revolução de Ayutla fecha o seu ciclo. Temos uma constituição.

Dez!

Carol, vire.

No final de 1857,

o presidente Ignacio Comonfort promove um autogolpe de Estado.

Sua intenção era deslegitimar a recém-aprovada constituição liberal.

O verdadeiro vice-presidente da nação, presidente do Suprema Corte,

Benito Juárez deslegitima o golpe e se manifesta contra.

Declara que, a partir de então, ele será o presidente da nação

de acordo com a constituição,

porque não pode permitir que Comonfort mantenha o poder.

Juárez é preso, foge para o norte,

e, pouco depois, Comonfort será derrotado pela extrema direita

de seus ex-apoiadores.

De fato, naqueles momentos, existem dois governos,

um conservador e um liberal.

Estoura a Guerra da Reforma.

Eu sei que isso pode soar estranho,

mas uma vez Sherlock Holmes disse Watson:

"Se você não tem a menor ideia do que está acontecendo, siga o dinheiro."

E a Revolução Liberal vai perceber que o seu inimigo é o dinheiro,

o dinheiro dos rentistas,

dos privilégios, e o dinheiro dos militares,

e o dinheiro do clero,

do clero todo-poderoso de um México recém-independente.

Na Cidade do México, particularmente,

o clero possui entre 33 e 50% das casas.

Cobram pelos batismos,

cobram por funerais,

cobram por casamentos.

Eles são os donos da vida civil

porque eles mantêm os registros.

Se você não casar na igreja, você não casou.

Se eles não te batizarem, você não está batizado.

Uma geração de generais do santannismo,

todos muito conservadores, realmente conservadores,

e extremamente religiosos,

serão os ponta de lança

da ofensiva contra a república.

Guadalajara será o lar deles.

Aqui eles serão muito populares.

Serão chamados de "os macabeus"

por conta do grupo bíblico que lutou contra o império.

Eles eram encabeçadas por Miramón, que se tornaria uma espécie de príncipe

do cristianismo conservador militar.

E ao seu lado, é claro, Leonardo Márquez,

o mais virulento de todos eles.

A Guerra da Reforma foi financiada

principalmente pela riqueza do clero.

Uma riqueza acumulada

durante todos aqueles anos

que depois de muito vaivém,

se colocarão à disposição dos caudilhos militares…

do lado conservador na guerra.

Quando você olha para essas enormes igrejas

e pensa sobre a estrutura do país,

percebe que há um poder incrivelmente material por trás de tudo isso.

Juárez foi obrigado a fugir da Cidade do México.

Poderia ter ido para o norte

para se refugiar nas zonas armadas de liberalismo mais pungentes,

mas ele decide ir para Veracruz.

E vai transformar o lugar numa área impenetrável.

E onde está o presidente, está o governo, e onde está o governo, está a república.

Veracruz será a capital da república durante um tempo.

Com Juárez e seu governo em Veracruz…

…o Palácio Municipal é transformado em Palácio Nacional,

acontece um debate muito acalorado

para promulgar leis de reforma ainda mais radicais

se comparadas às vigentes após a Constituição de 1857.

Os argumentos a favor são, principalmente:

"Vamos desarticular o clero e o seu poder econômico.

O clero não pode continuar atuando como um banco de segunda categoria

que usa o conservadorismo para manter a guerra."

FAROL BENITO JUAREZ 1872

E, de repente,habemus leis de reforma.

E, paradoxalmente, no muito liberal Porto de Veracruz,

os sinos soaram em júbilo.

E não foi porque o clero estava feliz.

As leis de reforma deram conteúdo para a republica liberal de Juárez

Eles ampliaram as margens da democracia,

destruíram o controle das castas privilegiadas

e, basicamente,

polarizaram a guerra.

Como faço para à fortaleza, o velho forte?

-Em frente ou à direita? -Em frente.

Deve estar aqui.

A SÍNDROME DA CIDADE DO MÉXICO PODE SER CURADA COM COCA-COLA E LIMÃO

Uma verdadeira fortaleza de artilharia.

Miramón tem que quebrar a espinha dorsal de Veracruz,

e destruir o governo para, em seguida, enfrentar a revolta liberal

no centro norte do país.

Ele envia 6.000 homens para Veracruz,

o melhor do exército conservador,

financiado com dinheiro do clero

e empréstimos de ricaços da Cidade do México.

Avançar contra Veracruz não era simples já que eles tinham as defesas reforçadas.

E, naquela altura, a artilharia já estava fortalecida,

trincheiras e fossos foram escavados.

Miramón a chamava de "a Sebastopol da demagogia",

indignado pelo fervor liberal dos veracruzanos.

Se aproximam e a artilharia veracruzana os ataca antes mesmo de se aproximarem,

alguns canhões são neutralizados,

a infantaria não consegue avançar,

e depois de um vaivém que dura vários dias,

decide abandonar a tentativa de avançar sobre Veracruz

e parte em retirada para a Cidade do México.

Para os liberais,

depois da derrota de Miramón em Veracruz, só restava partir para a ofensiva.

Esta cidade tinha uma guarnição conservadora muito poderosa.

Era comandada pelo surdo Castillo, um general que estava completamente surdo.

Não sei como ele podia ouvir a trompeta de guerra,

mas a guarnição de Guadalajara tinha de 7.000 homens.

E, embora ela nunca tenha sido uma cidade fortificada,

o centro da cidade estava cheio de barricadas, artilharia, et cetera.

De tal modo que a batalha de Guadalajara seria sangrenta.

OUTUBRO DE 1860

Foram disparados 7.500 projéteis de artilharia

e 700.000 tiros.

Para uma batalha da Reforma na metade do século 19,

é impressionante a significativa quantidade de pólvora e de balas.

Há algumas tréguas, cessar fogo,

confrontos, e os liberais tomam Guadalajara.

CALPULALPAN, ESTADO DO MÉXICO

Para a hora do confronto final na Guerra da Reforma,

que acontece aqui em San Miguel Calpulalpan,

González Ortega é um pouco a cara do exército liberal.

Ele conseguiu fazer coisas que eram praticamente impossíveis,

como trazer de 400 homens armados e 3.000 desarmados atrás deles,

que esperavam os que estavam na frente caírem para pegar o fuzil e seguirem.

Ele conquistou vitórias táticas muito importantes…

lentamente se tornou o general

do novo exército liberal.

DEZEMBRO DE 1860

O exército republicano avançou.

Aqui, González Ortega tinha de encontrar um jeito…

para quebrar a espinha dorsal do exército conservador.

Atrás daquelas colinas, acontecerão os confrontos.

Logo após o pôr do sol,

os conservadores entraram em formação para disparar seus canhões.

Estava muito frio.

A formação do exército é a tradicional linha de infantaria,

artilharia protegendo, a cavalaria nos flancos.

Participaram 20.000 homens da batalha.

O melhor do exército estava lentamente se integrando ao lado republicano,

mas o exército conservador ainda era forte.

Não houve batalhas definitivas.

Os exércitos derrotados partiam em retirada ao entardecer

para voltar a combater 15 dias, um mês depois.

Foi um confronto brutal.

Para o desalento dos conservadores,

perderam 4.000 homens,

e Miramón partiu em retirada para a Cidade do México.

Calpulalpan abriu o caminho para a Cidade do México.

DIA 23 DE DEZEMBRO DE 1860

Em 23 de dezembro,

tinha uma ópera em cartaz em Veracruz,

e Juárez e sua esposa foram assistir.

A ópera era Os Puritanos de Bellini.

E, de repente,

um soldado republicano coberto de poeira,

e, com urgência,

aproximou-se do camarote presidencial

para falar em privado com o presidente.

Os cantores notaram que algo estava acontecendo

e passaram a, do palco, observar Juárez.

Então, Juárez se levantou e leu a mensagem de González Ortega

de que o exército republicano triunfara em Calpulalpan.

O público aplaudiu.

Foi, sem dúvidas, o triunfo da república na Guerra da Reforma.

Os cantores começaram a cantar "La Marseillaise"

que era uma espécie de hino republicano de libertação

do século 19.

"La Marseillaise"é cantada em qual idioma?

É cantada em francês.

Eles mal sabiam que aquele seria o prólogo

de uma história na qual cantar "La Marseillaise" não cairia tão bem.

Vindo de Veracruz, Juarez retornou triunfante para a Cidade do México.

-A dívida. -A dívida…

Ela começa na época do Santa Anna

com dois empréstimos tomados de duas empresas inglesas.

A partir daí é que começam a não pagar,

os sucessivos golpes de Estado

mudanças de governo, Comonfort,

Juárez, Miramón, Juárez, et cetera.

E, no fim do dia,

chegou a praticamente 70 milhões de pesos.

O total da dívida foi de 80, 85 milhões de pesos

no início de 1861…

-E aproximadamente 70 disso daí… -Eram dos ingleses.

Eram ingleses.

Quando paro para pensar na dívida, é ridículo.

Os espanhóis estavam cobrando as indenizações

pela morte de alguns empresários

cujos assassinos já foram pegos e…

Então, porque eles cobraram o Estado Mexicano?

É coisa de maluco, é escandaloso como…

-Sim, é escandaloso. -…a convenção de Londres, a petição…

É escandaloso, sim, mas não é coisa de maluco.

Eles não eram bobos.

E logo vieram os franceses, porque, das três dívidas, era a mais escandalosa.

-E a menor. -E a menor.

Vieram para cobrar três milhões e gastaram 300 em uma guerra.

Após a potências estrangeiras assinarem os acordos de Londres

e decidem intervir militarmente para cobrar as dívidas,

do nada, há uma frota inglesa, espanhola, e francesa dominando o porto de Veracruz.

AO PERDER, O MÉXICO GANHA SE NÃO FOR HOJE, SERÁ AMANHÃ

Os relatos são de uns 150 navios na primeira invasão.

Eu não sei se realmente foi esse o número, mas foi a impressão ao olhar

entre os navios de guerra,

forças de flotilha, auxiliares, transportadores.

Eles não traziam muitos soldados.

O exército francês era relativamente pequeno naquele momento.

O primeiro desembarque tem menos de 5.000 homens

e levou mais de um mês.

Os ingleses eram 300 da infantaria marinha.

E a frota espanhola era ainda menor do que o francesa.

Ou seja, o mito dos 150 navios de guerra

era, evidentemente, a sensação que tomou Veracruz após ser invadida

por uma frota de todos os impérios da Europa

que marcavam presença com seus navios e canhões.

Juárez tenta criar uma mediação.

Ele consegue milagrosamente desarticular a aliança.

Espanhóis, franceses e ingleses se separam.

Os ingleses, porque a lógica era:

"Já temos a Guerra de Secessão nos EUA, não queremos outra zona de conflito."

Os espanhóis, porque são chefiados por um liberal,

que diz: "Ei, isso daqui é um crime.

Estamos cobrando uma dívida inventada, fabricada."

E o franceses têm, gravada no fundo da alma,

a mentalidade e a lógica política de intervir.

Os franceses embarcam em uma colossal aventura colonial

com o melhor exército do mundo, sem dúvidas,

muito melhor do que o exército inglês, como demonstrado na Crimeia.

Muito melhor do que qualquer outro exército europeu,

como comprovado na Itália e no domínio da Argélia.

Bem armado, boa artilharia, tecnicamente superior,

com oficiais de academia muito brilhantes

e oficiais intermediários muito experientes.

Mas uma coisa é ter o melhor exército do mundo

e outra é colocá-lo no México.

O franceses saem de Veracruz

naquela que será a ofensiva até Puebla e Cidade do México.

Ferdinand Latrille, Conde de Lorencez,

o general francês que comanda do exército invasor,

escreve para o Ministério da Guerra em Paris:

"Somos superiores aos mexicanos na raça,

na organização, na moralidade,

e nos nobres sentimentos

que, portanto, rogo a vossa excelência para informar o imperador

que desde agora, como chefe de 6.000 soldados,

já sou mestre do México."

Primeiro, precisamos entender o que são esses tais "nobres sentimentos"

e, segundo, que esse tal de Lorencez era mesmo um baita de um falastrão.

Por isso, Puebla é a última porta.

A última porta de chegada à Cidade do México é Puebla,

porque vindo de Veracruz, é obrigatório passar por aqui

para chegar à Cidade do México.

FORTE DE LORETO

Essa coisa de ter jovens vivenciando a história é muito legal.

É bem diferente.

Pouco antes de amanhecer no dia 5 de Maio,

Zaragoza montando um cavalo, um cavalo cinza…

DIA 5 DE MAIO DE 1862

…cavalga ao redor das filas do arco que ele criou

para impedir o acesso dos franceses a Puebla.

Ele disse: "Cidadãos do exército do Oriente,

temos diante de nós o melhor exército do mundo."

Tinha que ser muito maluco o louco do Ignacio Zaragoza.

Como você pode dizer que está diante do melhor exército do mundo

para um exército no qual metade são novatos?

Os outros vieram da Guerra da Reforma e tinham alguma experiência.

Mas metade deles eram novatos.

E ele repete: "Mas nós somos os melhores filhos do México."

A mensagem tinha de ser ecoada.

-Um cara na terceira linha dizia: "O quê?" -"O que foi que ele disse?"

"Disse que nós somos os melhores."

-Imagine um enorme eco… -"Os melhores…

-…se espalhando. -…filhos…

-"Os melhores filhos do México." -…do México."

FORTE DE GUADALUPE

Zaragoza tinha apenas dois dias

para reconstruir minimamente a defesa destes dois pequenos fortes…

-Sim. -…Loreto e Guadalupe.

Eles prepararam algumas trincheiras,

mas foi feita nenhuma grande obra de defesa.

Era botar exército contra exército

e contar com o apoio destes dois fortes com a artilharia disponível.

O exército francês era muito peculiar.

Eles trazem 200.000 porções de ração, 400.000 porções de vinho.

Eram como pequeno monstro se aproximando.

Zaragoza vai dizer: "Estão malucos? Estão mesmo vindo de frente?"

Eles avançam em um terreno acidentado

sinuoso e de muitas depressões.

Ao chegarem a 100 metros de distância, já estavam na linha de tiro da infantaria,

e os grandes confrontos acontecem.

Um dos artilheiros veracruzanos,

quando os zuavos chegam nas encostas,

se vê obrigado a contra-atacar da única maneira possível.

Um canhão não pode atirar desse jeito.

Então o que eles fazem é utilizar as mãos para atirar.

Depois de três tentativas de avançar,

os zuavos não tiveram outra opção além de partir em retirada.

E o milagre aconteceu.

Conseguiram derrotar o melhor exército do mundo em igualdade de condições.

Mais ou menos 5.000 homens em cada lado.

O Zaragoza mal podia acreditar.

Ninguém poderia.

Não só o Zaragoza não podia acreditar,

Lorencez não podia acreditar, né?

Eles foram derrotados.

E a grande questão para o exército do oriente era:

"Devemos finalizá-los?"

Avançar será complicado.

A indecisão sobre os confrontar ou não está no ar,

e os franceses se estabelecem em Orizaba.

O próximo capítulo irá acontecer aqui,

em Cerro del Borrego.

É uma área estratégica para atacar o exército francês,

que estava em retirada, e derrotá-los de uma vez por todas.

DIA 13 DE JUNHO DE 1862

À noite, sem serem notados, eles se posicionam.

Os ruídos do acantonamento chamam a atenção das mulheres

que estavam preparando o jantar nos acampamentos franceses

e provocam a mobilização de uma brigada francesa

pelos morros e os peguem de surpresa.

De tal modo que derrota em Cerro del Borrego daria o respiro

que os franceses precisavam para se reconstruírem.

Aqui nós sempre estamos…

-Porra! -…preocupados por Orizaba.

Poucas vezes é possível ter uma perspectiva da cidade como esta.

É uma ótima perspectiva, ou seja, se logo aqui abaixo

estava um aquartelamento na alameda,

González Ortega teve visibilidade completa daqui durante a noite.

Serem pegos de surpresa é um desses acidentes históricos

que mudam tudo.

Se eles tivessem os derrotado em Orizaba,

a segunda batalha de Puebla não teria acontecido.

Os mais rápidos disparavam cinco tiros em dez minutos.

E o tempo eles demoravam para recarregar…

Pegar um cartucho e abri-lo.

Colocar a bala dentro.

-Socar. -Socar.

Estas eram as balas de chumbo, eles que faziam…

Quando atingiam o alvo, elas fragmentavam e por isso eram duplamente perigosas.

O chumbo é muito maleável.

Se colocava o chumbo derretido aqui.

Esperava secar e abria.

Muitos devem ter sacrificado suas coleções de soldadinhos de chumbo

para transformar em balas.

Quando essas balas acabavam,

-colocavam o que encontrássemos. -Isso.

Ou seja, desde rebites, que eram uns troços enormes

que cortavam, até pedras.

Eu nunca vi fotos do Zaragoza com uma pistola.

-Ele era cavaleiro. -Com sabre, certo?

Com um sabre de cavalaria que nem aquele.

Este que é…

um sabre de cavalaria.

Ele é chamado de sabre machete,

É pesado.

Com certeza nas mãos de alguém devidamente treinado,

deve ser uma arma incrível.

-Você está carregando, certo? -E aí fecha.

E aí então, você vai… -Então…

Socado.

Fique a vontade.

-Não tem volta? -Não, senhor.

Eita, cara, a guerra é foda.

Os franceses vão aproveitar

os dez meses de respiro

após a batalha de 5 de maio

para trazer mais de 35.000 homens,

esperando que, em Puebla, mais uma vez,

ficasse na estratégia de resistência.

Não é mais uma pequena aventura colonial.

É um enorme exército

que mobiliza centenas de navios

em viagens de 30 dias.

Eles trouxeram 26.000 cavalos,

pólvora, munição.

E, principalmente, trouxeram um novo general.

Porque a Conde de Lorencez ficou marcado como idiota.

Por isso, trouxeram Élie-Frédéric Forey.

Napoleão mandou com uma carta na qual disse:

"Não cometa o mesmo erro da última vez. Não tente entrar pelo lado dos fortes."

MUSEU INTERNACIONAL DO BARROCO

-Aqui está Puebla. -Sim.

Se a primeira batalha de Puebla em 5 de maio

é relativamente fácil explicar,

uma entrada, um confronto…

a segunda batalha de 1863 é muito mais desafiadora.

Primeiro, porque dura muitos dias,

mais de 60 dias,

o cerco e combates em Puebla.

E, segundo, porque a defesa em Puebla é muito complicada.

Puebla será fortificada para além de Loreto e Guadalupe

em um heptágono de sete pontas,

protegendo o centro de Puebla que é uma cidade relativamente pequena.

Do ponto de vista mexicano,

a ideia era defender Puebla como um bastião.

O exército do oriente em Puebla

e um exército em formação, exército do centro,

como uma reserva.

Porque a ideia original era:

Se derrubassem Puebla para avançar para a Cidade do México,

haveria um exército no centro para contenção,

e o exército Puebla para atacar pela retaguarda.

E se concentrassem em Puebla,

o exército do centro serviria de apoio aos pueblanos que estivessem em combate.

Quando os franceses aparecem em abril,

eles decidem não fazer um ataque frontal,

mas, sim, sitiar Puebla e fazê-la se render.

Então eles se movimentam e cercam a cidade pelos dois lados

Há um problema fundamental.

Quanto mantimento seria necessário?

E González Ortega disse: "Para 30 dias, parece o suficiente."

Mas 60 dias?

Forey inicia uma processo de aproximações sucessivas,

para testar as defesas.

Primeiro, tenta em um reduto, depois em outro, e outro.

Enquanto isso, seguiam atacando os fortes com toda força.

Nas primeiras tentativas, os zuavos fugiram.

E, de alguma forma, González Ortega se sente realmente satisfeito

com as capacidades da defesa, mas os dias passam.

Em determinado momento do cerco, começam a sentir fome.

E González Ortega pediu que a população civil saísse.

Mas o franceses atiram,

porque Forey tinha na cabeça que o negócio era derrotá-los moralmente.

E a pressão de uma população faminta sobre o exército soma ao cenário.

O que protege Puebla é a enormidade de seus muros.

No México colonial, com as suas enormes igrejas

de muros extremamente altos…

-Os conventos. -…com conventos em toda a parte.

Ou seja, o paradoxo é que uma cidade clerical

vai defender os republicanos de uma invasão francesa.

-As construções clericais… -As construções clericais serão a alma.

…é que vão possibilitar.

Tente dar um tiro de canhão com uma bala de 12 kg

a 400 metros de distância, artilharia leve francesa,

o tiro só causa um pequeno estrago, um barulho.

Você não derruba isso tão facilmente.

No final, o franceses decidem concentrar fogo no reduto em San Javier.

Então, eles concentram a sua artilharia, e a construção começa a ruir.

Eles abrem uma brecha.

Uma coluna de zuaves invade. E o que encontram?

Atrás do pátio só há ruínas,

outro pátio, algumas grades, barricadas.

E dos telhados no interior começam a aparecer atiradores oaxacaquenhos.

Do alto das casas, com as pistolas, atiravam o que podiam até acabar as balas

e, depois, usam as pistolas como porretes.

Tanto foi que os franceses desistem de invadir a cidade por San Javier.

Mas aí vem um grande problema.

Estão sofrendo com a escassez de munição, pólvora e de alimentos.

E o exército do Centro de Comonfort não consegue trazer reforços para a cidade.

Depois de dois meses de combates,

González Ortega reúne a unidade técnica do exército do oriente

e diz a eles que já não há solução,

que após a derrota do exército do centro, não haveria mais chances.

MAIO DE 1863

Então eles enviam um representante que negocia com Forey a rendição.

O estado-maior de Forey entra em Puebla.

Forey tem sob o seu comando 26 de generais, 225 oficiais superiores,

800 oficiais subalternos,

e 11.000 prisioneiros, os restos do exército do oriente.

E entre os rendidos,

imediatamente, se espalhou o recado

de escapar e se reunir na Cidade do México

com o exército para voltarem à guerra.

Esses homens serão o coração da guerrilha

que vai desgastar o Império de Napoleão III.

Uma tranquila multidão silenciosa se reuniu no Zócalo.

O presidente esperou até o pôr do sol.

Ordenou que baixassem a bandeira

e gritou curto e grosso: "Viva o México!"

Não falou mais nada.

E as palavras foram repetidas pelas 10.000 pessoas presentes em Zócalo.

Prieto produziu duas frases que realmente empolgam.

"Tenham fé no futuro porque o povo é invencível."

Eita, cara.

E também disse: "Se tomarem um forte, ficaremos ainda mais fortes,

Os claustros, os cemitérios, os pátios, as torres das igrejas, as celas.

De cada cômodo se faz um castelo. De cada porta, uma muralha.

Depois, todas as aldeias.

E se perdermos até isso, as cavernas, as montanhas.

E quando perdemos tudo isso,

nós ainda teremos como pátria os nossos túmulos.

E como o nosso sudário, os pedaços da nossa abençoada bandeira."

Safado filho de uma puta.

Esse Guillermo Prieto tem a capacidade de sintetizar em um determinado momento,

em meio a mais terrível derrota, o que iria permanecer.

"Se tomarem um forte, ficaremos ainda mais fortes…"

Juárez vai para o norte.

O que o Juárez estava pensando?

"Enquanto houver território nacional, haverá resistência."

Enquanto a carruagem continuava andando e levantando poeira no México,

a república existe.

Modesta, insignificante e desengonçada carroça.

A carruagem de Juárez.

CASTELO DE CHAPULTEPÉC

"São personagens de uma comédia maligna,

baseada em traição,

que beira constantemente os limites do ridículo,

desprezível, servil."

Do tipo que o México produz ciclicamente.

Se conhecem, conspiram juntos.

Eles começam a desenvolver contatos, relações, amizades

e a ideia de uma restauração monárquica no México

baseada em algum imperador europeu.

Personagens repugnantes…

indo mendigar nas cortes europeias.

E, então,

começa e se formar na cabeça de Napoleão III

a possibilidade de criação de um governo fantoche no México

porque, no imaginário francês da época,

há certas coisas

que se tornam objetivos estratégicos na política internacional.

As minas de ouro em Sonora,

a possibilidade de criação de um estado-tampão

entre os Estados Unidos e a América Hispânica.

A possibilidade de transformar o México

no grande mercado de importação para mercadorias francesas

para a América espanhola.

E a vontade imperial,

que era a doença do século,

de meados do século 19.

Começam a pensar em nomes de possíveis candidatos.

Um Orleans, um espanhol príncipe.

E, pela primeira vez, o nome de Maximiliano é mencionado.

Simplificando,

não dá para dizer que fosse uma pessoa má.

Ele não é um aristocrata despótico.

Ele é um prisioneiro da sua condição,

de algumas monarquias toscas, podres e velhas.

Era um cidadão do mundo, Ele gostava de vagar.

E ele havia se casado com uma jovem princesa,

Carlota, da Bélgica.

Ambos eram membros de uma realeza que acreditava que o destino

lhes reservava uma enorme cota de poder.

Os conspiradores vão vender para esse cara,

bem, eles e atrás deles a maligna visão de Napoleão III,

a ideia de uma coroa no além-amar.

Em cada vila e cidade,

Benito Juárez foi recebido com constante ovação,

uma série de demonstrações de carinho.

Tudo parecia indicar ao presidente errante

que quem o via passar o converteu em um símbolo.

No início do mês de junho de 1863, o governo se instalou em San Luis Potosí.

Em San Luis, Benito escreve carta após carta.

Seus secretários não descansam.

Organiza, recupera cada centavo perdido em todo o território nacional,

tenta cobrar tarifas aduaneiras e impostos sobre o tabaco.

Incentiva os guerrilheiros e soldados.

Ele resgata oficiais perdidos e lhes dá uma missão, os mobiliza.

Ele escreve incessantemente como se sua caneta de pena

pudesse parar o maremoto que estava por vir.

DIA 3 DE OUTUBRO DE 1863

Em 3 de outubro de 1863, acontece no Castelo de Miramar,

onde viviam Maximiliano e Carlota, uma reunião de cúpula

na qual os traidores oferecerão a Coroa do México.

O tom da oferta foi: "O país está te esperando."

Maximiliano responde com um discurso vago,

que vai proteger os interesses

daquela matilha de lobos mexicanos, as pessoas que ele realmente representa.

O que vê Maximiliano, da varanda em Miramar, ao olhar para o futuro?

O que ele sabe sobre o México?

O que daquilo tudo o que ele leu durante os últimos dois anos?

O que ele sabia sobre mitos? Sobre o exotismo?

Ele conhecia a América, esteve Brasil, Não devia parecer tão estranho para ele.

Ele deve ter tido um olhar paternalista, como todos aqueles malditos…

reis e imperadores.

"Meus súditos."

Ele deve não ter uma ideia clara sobre o que havia por trás.

Mas ele se agarra a este tipo de pacto de três partes

com o exército francês,

os conspiradores que lhe ofereceram a Coroa

e a sua própria versão de destino,

um destino imperial.

DIA 28 DE MAIO DE 1864

Maximiliano e Carlota esperavam outra coisa.

Eles esperavam uma grande recepção.

E, de repente, estão em um Porto de Veracruz

realmente frio.

Carlota está triste e chateada.

E Maximiliano logo perceberá que o que estava acontecendo era uma imposição,

e não o encontro de um aguardado imperador

com os seus novos súditos.

Nos primeiros dias de setembro de 1864,

as colunas dos franceses invasores avançaram para o norte do país.

Benito Juárez seguiu o seu caminho para o Estado de Chihuahua,

onde ele estabeleceria a nova capital da república errante.

Juárez continuou cedendo território, viajando para o norte,

mas estava cedendo terreno para não ceder o país.

Onde quer que Juárez estivesse, onde quer que a sua carruagem fosse,

a república sobrevive.

A ideia de monarquia está ligada a um esbanjamento.

Vinte e seis criados particulares, seis assistentes, confeiteiros,

damas de companhia, criadas,

talheres de prata, porcelanas, cristaleiras,

toalhas de mesa, roupa de casa, vinho,

adornos, cavalos e carruagens.

A carroça da Bela Adormecida

com os anjos de pinto tapado. Não é?

É verdadeiramente ofensiva

a forma como eles impõem o modelo de monarquia europeia

em um país como este.

Foram dedicadas páginas e páginas

sobre as relações amorosas entre Maximiliano e Carlota.

Que ele era estéril, que era impotente,

que tinha casos extra-conjugais,

que ela estava o traindo com um criado particular,

que ela teve um filho fora do casamento,

que o Max teve um caso com a filha de um criado que cuidava do rancho

que ela tinha no jardim Borda em Cuernavaca.

Na verdade, tanto faz.

Acontece que se tratava de um casamento, e isso é absolutamente verdade,

muito sólido em termos de vínculos políticos.

JUNHO DE 1865

Marechal Achille Bazaine vai se casar no México.

Seu casamento será um fato político, não só social.

Maximiliano lhe dará como presente no dia do seu casamento

o Palácio dos Condes de Buenavista, nada menos que isso.

Bazaine é, naqueles momentos, algo a mais do que um marechal

que comanda o exército de intervenção e ocupação.

Ele é o vice-rei.

Da sua boca vinham as cartas de Napoleão III.

Ele é que controla a situação militar e o exército de ocupação.

O exército imperial de Maximiliano ainda estava se adaptando

e, ainda assim, quem gerenciava era o Bazaine.

Fazem um grande baile, um enorme baile,

da aristocracia franco-maximiliana

na Cidade do México.

"Os convites foram enviados com semanas de antecedência.

As damas da nova oligarquia encomendaram roupas especialmente para a ocasião.

Fileiras de carruagens,

escadaria com tapetes,

salões de cerimonia,

Bazaine com Pepita, coberta de joias.

Almonte, um personagem decorativo como os outros.

Os ministros, os conselheiros, suas famílias.

Maximiliano e Carlota deslumbrantes."

Quanto custou o baile?

A palavra "chinaca" significa "sem as calças".

"O nu, o desgrenhado."

La Chinaca foi uma guerrilha de pequenos exércitos

com armamento de péssima qualidade,

lanças, machados e fuzis ruins na maioria das vezes.

Para os franceses, tomar cidades e controlar territórios era essencial.

Perdem Toluca, perdem Pachuca e perdem Querétaro.

Oaxaca já havia caído.

Os republicanos tiveram de abandonar Mazatlán

e se refugiar nas montanhas.

Também perderam Sonora.

Mas e toda a imensidão territorial ali do meio?

Vicente Riva Palacio será

a figura central na resistência republicana

em Michoacán, que é enorme.

Estamos em Zitácuaro,

e a esta cidade vai ser essencial

para o fenômeno conhecido como La Chinaca.

Riva Palacio já é um coronel,

ele conhece Juárez e pergunta: "Para aonde?"

Juárez estava em retirada enquanto as cidades estavam sendo perdidas.

E, então, Juárez, diz para ele:

"Vá para Michoacán e mova montanhas."

E ele vai com uma mula, 100 pesos…

e chega a Zitácuaro.

Vicente Riva Palacio conseguiu reunir um exército de chinacos,

de guerrilheiros que controlavam de alguma maneira esta região.

Quando os franceses chegavam aqui,

o chinacos imediatamente corriam para as colinas.

E, de lá, eles atacavam.

O fato é que estavam construindo um exército guerrilheiro…

-Sim, é… -…que opera com técnica da vespa:

-Ataque, resistência, reorganização. -Isso mesmo.

Eles são derrotados por forças superiores como os traidores,

ou a aparição por aqui da legião belga,

cuja função, na teoria, era escoltar a imperatriz.

Mas Bazaine os coloca para guerrear.

E os belgas queimam Zitácuaro, não é?

Sim, queimam em 15 de abril de 1865.

Incendiar uma cidade é parte de uma lógica muito tóxica

de guerra anti-popular.

Ou seja, não serão mais só batalhas, mas acabar com os meios de se manter, né?

E o ódio contra os belgas vai cruzar as fronteiras.

De tal modo que a guerrilha vai acabar os destruindo.

A legião belga é praticamente liquidada em Michoacán.

Juárez vai para Paso del Norte.

A essa altura, não há nada. Nenhum território, não resta nada.

Nem mesmo um pedacinho de terra.

Mas, naquele momento, há uma inversão no fluxo

e as ações das guerrilhas começam a ganhar terreno

no norte e os primeiros sinais de desgaste mais significativo começam a aparecer

no Império de Maximiliano.

Os franceses estão numa situação desconfortável na Europa

devido ao ressurgimento da Prússia como uma potência militar.

Acaba a Guerra de Secessão nos EUA.

Se desfaz o mito da riqueza mineral de Sonora assim como a operação

de apropriação da cidade.

La Chinaca os desgastou.

Eles dominam as cidades, mas não dominam o país.

Dinheiro.

Eles vieram para cobrar três milhões, mas gastaram 300 milhões na guerra.

Então, os franceses deixam o México já desgastados.

Ficaram quatro anos por aqui.

Em 13 de janeiro, 1867,

o primeiro soldado francês que fazia parte da operação de retirada

do exército francês embarcou em Veracruz.

Depois de poucos dias, o exército expedicionário estará na costa da França.

O franceses patriotas dirão:

"O que ganharam para a França, nesta campanha de cinco anos?

Em que gastaram tantos milhões de francos

e por que derramaram tanto sangue francês?"

Acabou.

Agora vem o próximo round.

Os franceses já foram derrotados após uma longa guerra de resistência.

Mas tem de derrotar o Império de Maximiliano,

que ainda é muito forte militarmente.

Pensar que esta cidade passou por quatro anos de dominação francesa

e que não tem marcas de "afrancesamento",

é algo, em termos de cultura, muito significativo.

Quatro anos é muito tempo sob controle total,

entrada contínua de navios, canhões,

tropas, desembarques, mais desembarques.

E a cidade não tem vestígios disso.

De repente, nas montanhas de Michoacán,

Riva Palacio estava tomando café em seu acampamento guerrilheiro

quando chega uma mensagem.

Ele abre e lê:

"Já não há império na fronteira.

A imperatriz foi para a Europa para pedir ajuda."

Então, sutil e rapidamente,

copiando um poema que tinha memorizado de Rodríguez Galván,

"Adeus, ó, pátria minha", ele escreve:

"Feliz é o marinheiro que, com voz pausada, canta,

e ancora e levanta com um estranho rumor.

A nau vai pelos mares pulando como uma bola.

Adeus, mamãe Carlota. Adeus, meu terno amor."

É o único general no mundo que escreve um poema

para a esposa do seu arqui-inimigo só para fazer graça.

"Os Chinacos já estão cantando vitória,

guardando a sua memória sem medo e nem rancor,

eles dizem enquanto o vento acelera a sua embarcação:

'Adeus, mamãe Carlota. Adeus, meu terno amor.'"

Feliz é o marinheiro Que Com voz pausada canta

E ancora e levanta com um estranho rumor

A nau vai pelos mares Pulando como uma bola

Adeus, mamãe Carlota Adeus, meu terno amor

Acabaram no palácio As festas, jogos e bailes

Os frades ficam agitados Com a intensidade da dor

A multidão em Las Cruces Está gritando em polvorosa

Adeus, mamãe Carlota Adeus, meu terno amor

Adeus, mamãe Carlota Adeus, meu terno amor

Abdicar…

é condenar a si mesmo.

É como emitir o próprio certificado de incapacidade.

E isto só é aceitável aceitável para idosos ou imbecis.

Não é a maneira de proceder de um príncipe de 34 anos de idade,

cheio de vida e esperança no futuro.

A soberania é o bem mais sagrado que há entre os homens.

Não se pode abandonar o trono

como se faz em uma reunião com oficiais da guarda.

O império não é nada…

sem um imperador.

Minha família governa a Europa há 700 anos.

Sete séculos governando o mundo.

Muito antes da primeira águia pousar em seu cactus,

a coroa já era carregada pela águia dos Habsburgos.

Às 8h15 da manhã

do dia 12 de fevereiro,

depois de mais de mil e uma voltas

pensando na possível estratégia para atacar

a grande ofensiva que vem do oeste,

do noroeste e do centro-norte do país,

Maximiliano decide ir pessoalmente

comandando o exército imperial que ele reorganizou,

eles partem para Querétaro para combatê-los lá,

para evitarem um confronto na capital,

e se anteciparem.

Exército contra exército.

Ele nunca mais voltará…

ao castelo.

Maximiliano não era mais o mesmo.

Ele não era mais um imperador fantoche dos grandes bailes.

Agora ele era o general de um exército.

E esta composição romântica de Maximiliano…

Às vezes, dá vontade de dizer que era bobo,

mas, sem dúvida, era um bobo romântico.

A ideia de comandar uma guerra, de se sacrificar.

Eu acho que ele sabia muito bem que estava jogando as últimas cartas

do império. E aqui jogaram.

E Escobedo, que foi nomeado, graças às suas vitórias no norte,

como chefe supremo do exército que também tinha vindo para essa cidade,

também sabia disso.

A batalha acontecerá em termos de cercos e contra-ataques.

Cercar Querétaro.

As primeiras batalhas são muito brutais,

eles vão tentar dominar de três grandes promontórios

para conseguirem utilizar a artilharia.

San Gregorio ao norte,

Cimatario ao sul,

as colinas que estão ao redor das defesas da Cidade do México.

Mas isso não fecha o cerco.

O cerco está cheio de buracos.

No entanto, começará uma onda de ataques e contra-ataques…

Não uma batalha.

Mas uma série de ataques e contra-ataques de violência e virulência extremas.

A batalha de Querétaro será uma batalha de homens que atiram,

de demonstrações de bravura em alguns momentos,

de loucura, nos dois lados, sem dúvida.

Os dias passam,

e já passou um mês

e as possibilidades de ajuda

que os imperialistas tinham não se concretizam.

De tal modo que, naquele ponto, o destino dos cercos já estava definido.

Se contarmos a sucessão de batalhas

que fizeram no cerco de Querétaro, é certo que o núcleo vai acontecer aqui.

Escobedo recebe em seu acampamento no norte do cerco

uma visita inesperada.

O coronel imperialista chamado Miguel López

era um compadre do Maximiliano, que era padrinho de um de seus filhos,

que vem trazer uma mensagem diretamente do interior da praça.

E a mensagem do interior da praça é…

ambígua. É…

"Se você deixar Maximiliano escapar para Veracruz,

nós vamos entregar a praça, mas…"

Não está claro.

Escobedo para o Lopéz: "É você quem está oferecendo entregar a praça?"

E aí vem essa coisa sem sentido de: "Bem, Maximiliano, se vocês o deixarem…"

E Escobedo se aproveita da situação e diz:

"Você está me dando acesso ao Convento de la Cruz?"

Era o local onde estava o quarto Maximiliano,

de alguns dos oficiais superiores,

da escolta, do médico e uma das praças mais fortemente armadas do cerco.

Ele termina dizendo:

"Hoje, se você me dá acesso ao convento,

vamos entrar pelo cemitério."

E López responde: "Sim."

Por volta das 4h30 da manhã,

a cidade está começando a enlouquecer.

Maximiliano se veste, pega duas pistolas.

Ali está o Pradillo, o Príncipe Salm-Salm, seu médico, o seu secretário.

E a cidade vai sendo tomada progressivamente.

O cerco vai desmoronando e os republicanos vão entrando.

O fato é que eles fogem,

se concentram com alguns soldados imperiais

que estão resistindo em Cerro de las Campanas.

Até que chega o Escobedo, Corona.

Maximiliano entrega a espada e se rende.

Juárez instruiu Escobedo

a fazer imediatamente uma corte marcial

para julgar Maximiliano, Miramón e Mejía.

Foi um julgamento rápido, durou pouco tempo.

Os três foram condenados à morte

no teatro, hoje é Teatro da República,

antes era Teatro Iturbide.

A pressão exterior, tanto do embaixador da Áustria

como de personalidades famosas que apoiaram a Revolução Liberal,

era para Juárez o perdoar.

Juárez não deu ouvidos para eles,

Lerdo também não deu. Juárez e o Lerdo.

Eles achavam que era hora de fechar a porta

para as aventuras imperiais europeias.

E deixar Maximiliano vivo poderia significar

uma referencia para uma possível contra-revolução nos anos seguintes.

No dia 19 de junho,

o Sol nasce nas colinas de Las Campanas.

Maximiliano enfrenta a morte com elegância.

Uma divisão inteira do exército republicano fica ao redor,

há apenas a frente aberta

por onde vem a carruagem que transporta os condenados à morte.

Eles se alinham.

Maximiliano dá a posição do centro de Miramón,

ele solta a barba, distribui moedas de prata

entre os membros do pelotão de fuzilamento.

DIA 19 DE JUNHO DE 1867

Édouard Manet, o grande pintor impressionista,

pintará pouco tempo depois a cena da fuzilamento.

Há uma mensagem por trás disso, uma mensagem para a França:

"Você mandou cá e o deixou morrer."

Para o Napoleão. Tanto é que o quadro teve a exibição proibida na França.

Os três fuzilados terão um caixão de pinho.

Maximiliano será embalsamado

e seus restos mortais serão enviados para a Cidade do México.

Em 12 de julho de 1867,

Juárez fez uma entrada triunfal na Cidade do México.

E a multidão foi à loucura.

DIA 12 DE JULHO DE 1867

Juárez fez um discurso muito simples, não era um bom orador.

Ele disse, "As honras com que exaltam a minha conduta não me envaidecem

porque eu tenho a convicção

de simplesmente ter cumprido

os deveres que qualquer cidadão mesma condição e posição teria feito."

-E essas coisinhas de soprar? -Esses são apitos.

Veja.

-Quanto? -Quinze pesos.

Tudo bem.

Não tem muitas possibilidades, mas todos são interessantes.

Pensar que este país tão desfavorecido

por Deus

foi capaz de produzir o milagre mexicano

que chamaremos de Revolução Liberal.

Todas as probabilidades, toda as merdas das probabilidades,

estavam contra.

Todas as condições estavam desfavoráveis.

Um país desestruturado,

sem dinheiro, sem recursos,

sem desenvolvimento, sem estradas,

dominado por máfias clericais,

militares e rentistas.

Se livrar de um ditador como Santa Anna,

que era todo-poderoso,

promulgar uma vibrante constituição liberal

cheia de pensamentos sãos, de bondade,

de chamados para a humanidade.

Enfrentar os assassinatos da Guerra da Reforma,

a súbita invasão tripartite.

Os maiores poderes coloniais mais importantes do planeta

metendo os pés aqui

com centenas de navios, em Veracruz.

Uma guerra contra o melhor exército do mundo,

que jogou sobre nós mais ou menos 60.000 homens ao longo de quatro anos.

Um império fantoche cheio de servos,

lacaios, traidores.

Por que um país nestas condições produz um milagre desses?

E a única resposta é que…

havia uma geração

que assumiu a responsabilidade por um povo cansado,

assumiram intelectualmente,

disseram para si próprios que fariam a diferença,

que possibilitaram a criação de uma estrutura de valores espetacular.

Dignidade, honestidade, valores. Até mesmo a loucura, não é?

E que, basicamente, promoveu uma ideia de pátria.

Eu sei que essa palavra está queimada, desgastada, usada e abusada

pela demagogia oficial de países como os nossos.

Mas alguém tem uma explicação melhor?

Alguém que me explique como se levanta um país

contra todas as possibilidades, todas.

E eles conseguem.

ENTRE OS INDIVÍDUOS E ENTRE AS NAÇÕES,

QUANDO NÃO HOUVER RESPEITO, NÃO HAVERÁ PAZ.

BENITO JUÁREZ

BASEADO EM SEU LIVRO "PATRIA"

Tradução: Jean Felipe Lima

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