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Voc� acha que eu nunca tive amigos?
Amigos de verdade?
Voc� acredita que o medo deixa as pessoas mais ego�stas?
Voc� est� com medo?
Voc� ligou para Carmem. Eu n�o posso atender no momento.
Qualquer emerg�ncia ligar em meu celular 88795529...
ou deixa um recado que eu entro em contato assim que puder. Obrigada.
Carmem? Est� a�?
Carmem!
Ah �... n�o quer atender, n�o �?
Sabe o argentino fofo que entrou na minha banda?
Ele veio morar no meu apartamento!
Amiga, ele � lindo e toca violino como ningu�m...
N�o quer atender, n�o, �? Ent�o, n�o atende!
Est� chapada n�? E depois fica falando de mim. Tchau!
Oi, Murilo.
Eu sabia que voc� estava em casa.
- E a�? - E a�, vamos pra uma baladinha?
Est� brincando, n�?
Eu tenho que estudar um monte de coisa.
Eu estou pegando pesado no plant�o.
T�, mas � que eu preciso falar com voc�.
Ele � t�o charmoso e agora est� morando sob o meu teto.
Ai, desculpa, Murilo, mas � que eu estava de sa�da.
Eu estou indo para um compromisso bem importante, depois eu te ligo?
Est� bom... Beijo, beijo, me liga depois.
Um beijo.
Dr. Eduardo, favor comparecer...
Hoje eu estou feliz viu, seu J�lio.
Ai, o senhor sabe que meu filhote completou 22 anos? Acredita?
Estou bonita na fita, hein?
Agora o bezerro t� que t�.
Arrumou uma namorada, n�o larga por nada.
A mulher � mais velha.
Dona Elisa, e quando � que eu vou sair daqui?
Mas j�? Eu estou aqui h� 19 anos e n�o reclamo.
E a�, seu J�lio. Est� melhor?
- Oi. - Tudo bem, Elisa?
�... como que vai nossa futura cirurgi� chefe?
Ah, para, menina, n�o fala assim que d� azar.
Eu preciso falar com voc�.
� que eu estou envolvida com um projeto e preciso de um volunt�rio...
coisa f�cil, uma vez por semana. Topa?
- Eu? - �.
Ai, Elisa eu n�o sei. Eu tenho que...
Deixa eu falar com o Gaspar, depois eu falo com voc� e voc� me explica.
Gaspar. �...
passaram um caso pra gente de apendicite...
mas sem sinal de peritonite.
- Dona Laura. - Oi, Doutora.
Aqui, �.
- Est� indo ao banheiro normalmente? - Estou.
Est� sentindo?
Pera�.
Percebeu?
Ent�o, apendicite n�o � com certeza.
Dona Laura, a gente s� vai pedir mais um exame...
mas acho que est� tudo certo. Est� bom?
- Obrigada. - Ningu�m vai abrir a senhora.
Obrigada, doutor.
- Voc� est� cansada? - N�o. Por qu�?
Voc� nunca teve d�vida nos seus diagn�sticos...
Pera�. A gente vai sair esse final de semana?
A gente j� conversou sobre isso! Acabou, n�?
E o meia idade? Como � que est� o doutor Gaspar?
Ele n�o se toca...
Ah, homem � assim. Voc� n�o d� mole, ele se apaixona.
Casado e quer ter amante?! N�o, n�?
Agora voc� est� no modelo importa��o, �?
- Num �? - Argentino!
Ele caiu na armadilha?
N�o � que caiu?
A gente conversou depois do ensaio.
Reclamou de tudo, reclamou da vida, reclamou das mulheres!
Brigou com a namorada, perdeu o teto. Ela botou ele pra fora.
Ai que podre, Murilo.
Ah, n�o tem nada de podre. Ele sacaneou, ela botou ele pra fora.
Eu estava ali dispon�vel, compreensivo. Cora��o aberto.
Ele n�o � biba?
- N�o, ele � antigo, ele � h�tero. - Jura?
Bonito, sens�vel, inteligente, m�sico...
solteiro e heterossexual praticante?
N�o, desculpa, isso n�o existe.
- Voc� quer? - Quero.
Voc� anda muito sem f�.
Voc� tem que come�ar a acreditar em milagre.
S� se for.
Por falar nisso, faz tempo que voc� n�o vai na minha noite, n�?
Ele vai dar uma canja na banda de uma amiga minha, voc� podia ir l�.
Estou t�o atolada de trabalho, de estudo, n�o.
Desculpa, mas eu estou numa fase meio antissocial tamb�m.
Nossa! Que novidade... Voc� � antissocial!
Olha eu aqui!
Pede a conta. Essa lei fudeu comigo, preciso fumar.
Eu pago. N�o sofre.
V� a conta.
No new message.
Tira a camisa.
Est� tudo bem?
Mais ou menos � uma medida que nem sempre vale para alguma coisa.
E a�, o que foi?
Nada. Est� tudo bem. S� estou um pouco cansada...
A Elisa me chamou para dar umas palestras...
s�bado � tarde numa comunidade.
S� que eu estou t�o ocupada agora.
Voc� n�o tem muito o que reclamar, n�?
Tudo o que voc� queria est� dando certo.
Eu sei.
Gra�as a voc�.
Quem vem a� agora?
� lero lero Olho no olho e nada mais
Esse � do mesmo time
N�o tem pressa e nem atraso Tudo � em paz
Parece o mesmo sangue
Quando pensa o outro sabe Nem fala "n�o"
E quando a vida aperta
� lero lero Olho no olho e me volta a paz
Quero dizer "valeu irm�o"
Quero dizer "valeu irm�o" E nada mais
E o Juan? Lindo, n�?
Talentoso. Eu queria tanto ser aquele violino...
Ele � um gato, um cari�o, n�?
Bonitinho, mas... meio beb�.
Voc� acha? S� se for o meu Beb� de Rosemary!
Eu acho lindo, pequeno. Adoro.
Ele est� vindo a�. Alonga, alonga, alonga.
- Ai, Murilo, voc� me deixa sem gra�a. - N�o me diga!
Oi!
Tudo bom?
- Como � que est�, lindo? - Gostou?
- Muy bien. - Bom.
Carmem, Juan... Calma.
- N�o vou tirar peda�o. - Juan, Carmem.
Oi.
Puta madre.
- Machucou? - N�o.
Perd�n, perd�n.
N�o disse que ele � beb� dem�nio?
Voc� est� legal?
Ei, tudo bem?
Voc� est� bem?
Nossa.
- Mas o que voc� faz? - Oi?
- O que voc� faz? Voc�... - Eu sou m�dica.
Nossa.
M�dica! Aquela pessoa aparentemente educada...
que revela os horrores da exist�ncia humana...
atrav�s da decad�ncia do corpo?
Desculpa, eu falei muito r�pido? Voc� entendeu?
Claro.
- Voc� entende assim portugu�s? - Claro.
Ah, desculpa. Besteira...
Voc� � a primeira m�dica que conhe�o...
no momento que n�o est� trabalhando, sabe?
Voc� n�o se veste como m�dica.
Mas � muito gostosa.
Voc� n�o tem geladeira em casa, n�o, �?
Eu tenho, mas a l� de casa � bem novinha.
- Ah, convencido! - Tchau.
- Tchau, gato. - Te ligo. Vamos?
Vamos.
N�o vai subir?
N�o vai me arrastar para sua cama?
Mas nem no seu melhor sonho. Voc� j� n�o tem companhia?
Desce, vai.
Se eu soubesse que voc� era t�o dif�cil, tinha ficado no clube.
Nem um beijo eu tenho direito?
Um! Unito, Carmem?
Nossa.
Ei, ei, ei, que que �?
Qu�?
- O que voc� estava fazendo? - Nada. Estou brincando.
Al�.
Eu gostaria de falar comigo mesmo. Eu estou?
Voc� � um golpista.
E voc� � uma presa f�cil.
- Buenas Noches. - Carmem, voc� quer jantar...
Olha, esse beat aqui que eu preparei pra gente hoje.
Bueno, ah?
Vamos afinar agora?
Afina. Afina aqui.
N�o, mas � pra afinar que nem homem, n�?
Vai l�, maestro, manda.
Vamos, vamos... Eu digo um, dois, tr�s...
Aqui � um lugar muito especial, viu? Diferente.
� uma comunidade que est� na luta. O MSTC.
- MSTC? - V�m!
O pessoal do movimento dos Sem-Teto.
Olha, chegaram, Maria. Chegaram.
- Oi. - Oi, minha amiga. Que saudade.
Preciso falar contigo, t�? Um neg�cio.
T�.
Que saudade!
Voc�s querem um caf�, uma �gua, tomar l� em casa?
N�o, vamos direto pra l�, � melhor, n�?
Tudo bem.
Oi, gente! Ei...
Vamos prestar aten��o aqui, pessoal. Ei, Ana Paula...
N�s estamos aqui reunidos, todos, mais uma vez...
com a companheira Elisa, que todo mundo conhece...
que trouxe a Dra. Carmem, que � justamente a pessoa...
que vai esclarecer nossas d�vidas sobre sa�de, t�?
Doutora, por favor.
�... voc� j� conversou com eles sobre...
Ei, fala mais alto.
N�o, �, eu estava perguntando pra Leonora...
enfim, se ela j� tinha conversado com voc�s...
Eu sou m�dica, residente...
eu vou vir aqui uma vez por semana, para orientar voc�s.
Para prevenir as doen�as.
Mas eu n�o vou poder tratar de doente...
porque esse lugar n�o tem estrutura.
Aqui a gente vai falar sobre preven��o.
Mas claro, enfim, se acontecer alguma coisa...
eu vou estar aqui tamb�m para ajudar no que for preciso.
E a gente chegou a conclus�o que precisava de algu�m...
aqui de dentro do movimento...
que tenha um bom relacionamento com todos...
principalmente com as mulheres, pra ajudar a coordenar o trabalho.
A Maria!
- Obrigada. - D�-lhe Maria!
Bom, gente, ent�o.
Nas nossas conversas a gente vai falar sobre sexualidade...
higiene, sa�de em geral.
Queria que voc�s se apresentassem, falassem o seu nome...
Na minha casa � rato. Eu boto veneno, o rato volta.
E tenho crian�a em casa. Eu gostaria de saber...
Queria saber como que eu fa�o para colocar o DIU, tomar inje��o...
todo m�s, para n�o engravidar...
Eu sou casada e queria saber como me prevenir...
Que risco que a gente corre assim...
que a gente pode evitar na menopausa?
Ele est� bem.
- Oi. - �Hola, como v�?
- Esperou muito? - Esperaria muito mais...
- Aqui a sua isca. - Funcionou.
Voc� n�o devia ser t�o convencido, n�o, viu?
N�o sou. Sou bem diferente de outros.
Eu sou um velho de vinte e tr�s anos...
Depois que minha m�e morreu, meu pai voltou para Buenos Aires...
e eu resolvi ficar aqui.
Estou super ligado com nossa banda, estamos tirando um som bem legal.
E voc�?
Eu tamb�m n�o sou daqui.
Na verdade, eu estou a bem pouco tempo em S�o Paulo.
- Eu sei. - Sabe? Como?
Voc� andou pesquisando sobre a minha vida?
- N�o, n�o. - Que medo.
Eu sou de Penedo. Do Rio, da mesma cidade do Murilo, conhece?
N�o. N�o conhe�o.
Normal. � bem pequenininha.
E pra l� eu n�o eu volto de jeito nenhum.
Eu preciso de espa�o.
E Penedo n�o � o melhor lugar do mundo para ficar longe da fam�lia.
E seus pais?
Minha m�e j� morreu h� bastante tempo. Meu pai...
Daqui a dois encontros eu te conto isso.
Enfim, eu fui criada pela minha tia, tia Celuta...
adoro ela, mas � que por enquanto cada uma no seu lugar.
O Murilo fala a mesma coisa.
Mas os pais do Murilo t�m dinheiro suficiente para manter ele bem longe.
Realmente, n�o sei o que � pior viu: Ser mulher ou gay em Penedo.
Acho que eu exagerei um pouco, eu estou meio enjoada. Voc� quer?
N�o, n�o, obrigado.
Est� enjoada? J� est� gr�vida?
- Obrigado. - Obrigada.
Que foi?
Eu adoraria ver voc� vestida de m�dica.
Depois adoraria ver voc� sem roupa.
Mas podemos inverter a ordem das coisas.
Primeiro "sem" e depois "com".
Voc�, �s vezes, me deixa quase constrangida.
Eu posso fazer muito mais.
Ah, �? O qu�?
Ele tem dormido aqui quase todo dia.
Tem me atrapalhado bastante...
eu n�o estou nem conseguindo me concentrar direito.
Mas eu n�o posso reclamar, n�o.
� muito bom, vicia. Quanto mais, mais voc� quer.
N�o diga.
Quando n�o tem, tudo bem tamb�m, n�?
Ningu�m vai morrer por isso.
Mas que a vida fica sem gra�a, fica.
Tamb�m, com 23 anos tudo tem gra�a.
� bom passar o dia inteiro com voc�.
Eu estou louco, sabe?
Nunca senti isso. Quero trepar o tempo todo.
Ele est� apaixonado, n�o est�?
Na idade dele, se apaixona e desapaixona numa facilidade.
Voc� me acha muito infantil?
Mas voc� est� aproveitando...
N�o � que eu seja uma pessoa viciada em sexo, mas que � bom �, meu Deus.
Estou falando de tes�o, n�o, estou falando de amor...
Besta.
Quem � que j� sofreu mais do que eu?
Vai deixar essa m�sica a�?
Eu coloquei de brincadeira.
Olha. Sete e quarenta e oito da manh� e o menino j� est� ligando.
Deve est� virado. Ele n�o cansa...
Eu gosto da surpresa que essa m�sica causa nas pessoas. Tipo: Qu�?
� tudo t�o sem surpresa hoje em dia.
E, voc� vai contar?
Sobre n�s?
N�o. Ele n�o ia entender.
Ningu�m entenderia.
Ser�?
Eu queria primeiro saber de voc�s...
quais s�o os nomes de doen�as que voc�s conhecem.
Gostou?
...mas como � que voc�s podem identificar e o tratamento.
- Eles s�o amigos dela. - Gostei, gostei.
- Ele � baixinho, n�? - �, bastante.
- Eu percebi. - Mas d� pro gasto.
Ol�, meninos.
Raul, Francisca.
- Oi, tudo bom? - Juan, Fran.
Gente, adorei. Parab�ns. Voc�s s�o incr�veis.
Foi muito legal.
Gonorreia, a c�ndida, crista de galo, hepatite B.
- Sei, sei. - Agora lembrei...
- mas n�o foi bem assim... - Juan!
Escuta, voc� est� afim de dan�ar mais tarde?
Desculpa, bonita, acontece que tenho um encontro marcado, sabe?
- Muito compromissado ele. - �.
Bom, eu acho que j� fiz meu n�mero, n�?
Bom, voc�s fiquem a vontade, tem comida, bebida.
Eu vou indo nessa...
porque apesar da felicidade do papai e das minhas irm�s...
- tudo tem limite nessa vida. - J� venho.
- Tchau, at� mais. - Tchau.
Tchau. Prazer, linda.
Mala.
Voc� viu?
Vem c�, deu mole pra voc� na sua cara, voc� n�o percebeu isso, n�o?
�... N�o.
Pode usar alguma medica��o sem consulta m�dica.
N�o. N�o, eu sou totalmente contra a automedica��o.
OK, estica o bra�o esquerdo...
leva a ponta do indicador na ponta do nariz.
Olhos fechados. OK. O direito.
Olhos fechados.
Acompanha a ponta do meu dedo.
Esse lado... opa, sem tirar o foco do meu dedo.
No dedo.
Me diz se voc� sente igual dos dois lados.
Eu n�o...
- Eu n�o... - Olha l� no fundo.
Eu tamb�m tenho enjoado bastante.
Na verdade, eu estou bem sens�vel a cheiros ultimamente.
Tenho sentido enxaqueca tamb�m.
J� basta, n�?
N�o seja pessimista. Voc� precisa fazer esse exame.
R�pido.
Mas... eu...
Nossa.
Trem estacionando na plataforma n�mero um...
tem como destino Esta��o Mau�.
Aten��o, a faixa amarela � a sua seguran�a.
Vem pra c�, vem. Vem aqui.
N�o estou conseguindo falar com o Juan.
Desapareceu, parece at� homem invis�vel.
Juan?
Ser� que a gente n�o leva uma cesta b�sica, algo assim?
N�o precisa.
E um �lcool gel pra lavar a m�o.
Deixa de frescura, se voc� der "piti" l� eu te mato, viu?
Ai, acho que vou tirar o �culos, vai ficar muito visual.
- N�o, voc� est� �timo. - N�o, est� pesado, n�o est� legal.
Ai, para de mandar essa mensagem pro Juan, na boa.
Porqu�? O que foi?
Depois a gente conversa, deixa.
N�o, n�o, o que foi? Voc� est� estranha. O que �?
Droga!
- Fala, o que foi? - Desculpa.
- Fala! - Eu fiquei com ele.
Eu fiquei com o Juan.
Voc� est� de sacanagem?
Isso � alguma brincadeira de mal gosto por acaso?
- N�o. Desculpa, Murilo. - Que desculpa.
Mas voc� sabe que isso � uma puta pira��o sua, voc� n�o sabe?
- Pira��o minha? - Voc� sabe disso.
Pira��o minha?
O cara est� na minha casa, como que � pira��o minha?
Sim, isso � uma repeti��o sua, ele � h�tero...
Que repeti��o? Voc� est� dando pra ele esse tempo todo, � isso?
N�o fala assim comigo.
Voc� n�o est� dando pra ele esse tempo todo?
N�o fala assim comigo.
- Voc� quer que eu fale com voc� como? - Para!
- Voc� est� louca? - Para.
Voc� ficou com ele, voc� � uma piranha.
- Para, fica quieto. - Racha larga.
N�o me liga, sai pra l�.
Para, Murilo, para, por favor, desculpa.
- N�o me segue, sua filha da puta. - Desculpa.
Desculpa.
� verdade que voc� n�o quer me ver esta semana?
Voc� � muito masoquista.
E, al�m disso, voc� tem um jeitinho bem especial de ser prepotente.
Ai, que saco.
- Para que essa brigada contra mim? - � que eu n�o te amo.
Grande novidade! Eu tamb�m n�o te amo.
- � mesmo? - �.
Eu preciso de uma massagem.
Geral.
Por dentro?
�. Por dentro.
Tem como?
Acho que hoje voc� vai querer que eu durma com voc�, n�?
O exame � r�pido. Por favor, n�o mexa, t�?
Vamos come�ar?
Voc� viu isso?
Murilo.
Murilo!
Voc� n�o acha que est� na hora de dormir?
- Buenos dias, cari�o. - Buenos dias.
Vai dormir?
- Compus pra voc�, gostou? - Bom pra caralho.
Est� uma merda.
Puta madre.
Est� uma merda.
- Eu fiz pra voc�, sabia? - Vai dormir.
Nossa, est� uma zona aqui, n�?
- Quem � esse? - N�o sei.
Quem � voc�?
Vai, vai.
Quem � voc�..
D�-lhe, louco.
D�-lhe, Murilo, d�-lhe.
- Quem � voc�? - D�-lhe, por favor.
Vai embora, cara.
Meu, vai embora. Sai da minha casa.
Murilo...
- Volta pra c�... - Vai embora!
- Para, para. - Vai embora, cara.
- Vai embora. - Para, para. Vamos, vamos.
Puta saco, hein.
Me tira daqui.
- Vai embora. - Sim, vamos.
Vamos, vai logo.
- Juan. - Vamos.
Tira esse cara daqui.
Vai embora, ei!
Est� todo mundo achando engra�ado, n�?
Olha, mas doen�a n�o tem gra�a nenhuma.
Eu queria que voc�s entendessem a import�ncia de usar camisinha...
e que depois ensinassem os seus parceiros a usar corretamente. T�?
Gente, acabou o tempo hoje.
Na semana que vem, a gente vai falar sobre c�ncer nos seios, certo?
Toma aqui, distribui pra mim, por favor.
Sobre o autoexame tamb�m...
avisem as mulheres com mais de 30 anos pra virem...
e tamb�m leiam isso aqui, esse panfleto...
tem todas as doen�as sexualmente transmiss�veis, os sintomas...
Tchau... Os m�todos contraceptivos.
Acabou, pega aqui.
Dra. Carmem...
Eu e o Nadinho, a gente queria conversar com voc�.
- T�. - � meio particular.
- Agora? - E.
Ai, Maria. Cad�? T�...
- Tudo bem, Nadinho? - Oi, doutora.
- O que foi? - �...
Fala, Nadinho!
Fala...
Nadinho! Fala!
- A Maria... - � que eu estou gr�vida.
Gr�vida? Voc� est� de brincadeira?
N�o, n�o � poss�vel.
Maria, pelo amor de Deus, voc� est� de volunt�ria num projeto...
Quantos anos voc� tem?
Pensei que voc� fosse diferente. Que voc� fosse menos...
Que n�o ia sair por a� se reproduzindo...
que primeiro voc� ia acertar sua vida... Voc�s dois.
Agora voc� diz que est� gr�vida!?
Pera�, doutora, eu nunca disse isso!
Nunca prometi nada...
e al�m do mais a gente quer ter esse filho, n�o �, Nadinho?
�, a gente quer ter esse filho, doutora.
A gente s� quer uma ajuda l� no hospital.
- L� no hospital, fazer os exames. - �.
Desculpe, mas o que eu tenho a ver...
Claro que eu posso fazer isso.
Voc� colocou a camisinha ali t�o bonitinho.
Por que voc� n�o fez isso ao vivo, gente?
Que loucura.
- � um molec�o. - N�o, � uma menininha.
- Molec�o. - Menininha.
� uma menininha.
Meu trabalho l� na ocupa��o n�o est� servindo pra nada.
S�o Paulo n�o � o melhor lugar do mundo pra ficar olhando o c�u.
�. � dif�cil ver estrela aqui.
Acho que o c�u de S�o Paulo � o inverso.
Pra ver as estrelas, voc� tem que olhar de cima pra baixo.
O c�u caiu sobre nossas cabe�as.
Voc� vai comigo?
Meu exame...
voc� vai pegar comigo?
Voc� est� com medo?
Elisa, festa l� na comunidade � invas�o, n�?
Festa? � como eles falam quando v�o ocupar algum lugar.
Quando v�o para a a��o pra valer.
� o jeito que eles encontraram pra conseguir uma moradia pras fam�lias.
Sei.
Tua cara n�o est� nada boa, hein. Teu cabelo tamb�m, hein.
Que corte � esse?
O que foi? Voc� que n�o est� com a cara boa.
Qu� foi que aconteceu?
Ah, o Pedro falou que est� pensando em morar com a "fulana" l�.
Pedro seu filho?
Sim.
Mas, morar a mulher que ele estava namorando?
�.
Ela tem 35 anos!
Voc� j� no dia que a gente sair juntas?
Vai todo mundo perguntar se � minha irm�: "n�o, � minha nora".
Pelo amor de Deus!
Tive que me virar em um milh�o pra criar esse menino.
N�o tive marido pra me ajudar, n�o.
Agora ele vem com essa?! Ah, tem d�, n�!
Elisa, pelo amor de Deus.
Voc� vive falando que a melhor coisa do mundo...
� sair com homem mais novo... Cheio de vitali...
Carmem.
Carmem.
Carmem, voc� est� bem?
Ai, meu Deus, enfermeira, chama o Dr. Gaspar, r�pido.
Tanta gente que a gente n�o conhece.
Imagina dentro desses apartamentos...
J� pensou no risco do anonimato?
J� pensou na gl�ria do anonimato?
Voc� acredita que o medo pode deixar as pessoas mais ego�stas?
� pra voc� ou para mim?
Carmem? Carmem?
- Voc� est� se sentindo melhor? - Estou.
Eu estou �tima.
O Gaspar me contou. N�s estamos bastante preocupados com voc�.
Eu tive uma crise.
Fez os exames?
Na segunda eu pego o resultado.
Que bom. Eu quero ser o primeiro a saber.
Se cuida.
8879-5529. Deixe um recado...
que eu entro em contato assim que puder. Obrigada!
Puta que lo pariu.
- Que foi? - Ela n�o me atende.
Ah, ela � m�dica, n�?
Voc� acha que ela vai ficar em casa o dia inteiro...
esperando voc� ligar pra ela? N�o!
Mas n�o custa nada atender ao telefone e falar:
"Pode parar de me encher o saco, Juan, beijo, obrigado".
Agora eu n�o tenho mais cr�dito.
Eu acho que ela percebeu o lar que ela destruiu.
- Que lar? - O nosso!
O que era promessa de grande casal se transformou em amizade.
Eu acho que ela se tocou...
e resolveu dar mais tempo pra gente se reaproximar.
Voc� fez ela gozar ou, "tsk, tsk", antes?
- Eu sou um animal, cara. - Animal.
Est� vazio, n�?
Vai rolar um baf�o na casa da Francisca que vai pagar super bem.
Ela quer voc� na festa dela.
Vamos come�ar l� no banheiro? Vamos?
Foi s�rio, hein? Est� todo mundo comentando...
Pelo visto, o sistema de comunica��o daqui...
funciona bem melhor que o de sa�de.
Isso eu tenho certeza.
Desculpe, viu?
Eu l� falando do Pedro e voc� passando por um momento...
N�o estou passando por nada, n�o. Est� tudo bem...
�?
Dr. S�nia, favor comparecer a ala B.
E a�, melhorou?
Eu estou �tima.
Como voc� est� vendo � um tumor profundo...
que vem evoluindo j� h� certo tempo.
J� cresceu al�m da fossa media e invadiu o seio cavernoso.
Tem um n�vel de capta��o, me parece, muito preocupante.
O crescimento pode ser lento, mas ele tamb�m pode ser r�pido e fatal.
Ele est� bastante volumoso e isso pode trazer complica��es muito s�rias.
Voc� n�o tem muito tempo.
Fazendo a cirurgia, a gente corre risco.
Pode haver les�o, pode ser que ele volte a crescer...
mas o que a gente espera mesmo � que d� tudo certo.
Tem in�meros casos.
N�o fazer a cirurgia � n�o tentar nada.
Voc� acredita na medicina, n�o �?
Mas essa doen�a vai te obrigar a abandonar a sua carreira de cirurgi�.
O importante agora � a sua vida.
Ent�o, converse com os seus colegas no hospital.
Deixe que as pessoas mais pr�ximas saibam o que est� acontecendo.
N�o existem pessoas mais pr�ximas.
O que voc� est� fazendo aqui?
O que voc� est� fazendo aqui?
Vai embora...
Vai embora, por favor, vai embora.
Me deixa.
- Oi. - Oi.
O que est� acontecendo, Carmem?
Voc� n�o atende o telefone nem o celular.
Voc� est� estranha. E esse cabelo aqui?
Pensava que n�o ia mais te ver.
Comi muito, vi muita televis�o e bati um mont�o de punhetas...
- O que est� acontecendo... - Por favor...
Eu tenho um monte de coisas pra fazer...
- Eu estava estudando agora, por favor. - Isso � um fora?
- Isso � um fora? - Eu...
Quem voc� pensa que �?
Caipira de merda.
Isso que voc� �.
Uma puta de merda...
que acha que n�o � nem uma puta nem � merda. Sabe?
Pensa que � melhor que todo mundo, morando nessa bosta de apartamento.
- Mofando... - Acabou?
Vai se foder. Sabe que voc� est� horr�vel.
Acabou?
Vai embora, menino.
Menino agora, ah?
Mas na hora de foder, voc� gostava do menino.
Voc� � uma piranha mesmo. O Murilo me falou.
O Murilo me falou que voc� era somente...
que eu sou s� uma assist�ncia t�cnica pra voc�.
Para concha tu madre, Carmem.
Para concha tu madre.
Va a la merda.
Adi�s, hija de puta.
Por favor, senta, meu senhor, senta.
Eu sei, meu senhor, todos n�s estamos cansados...
mas � para o bem de todos.
A greve � para o bem de todos.
Minha senhora, por favor, senta.
Meu senhor, eu j� avisei. Calma!
Senta na �ltima cadeira, por favor.
N�s atenderemos todos hoje. Calma.
� importante que voc�s entendam isso.
Minha senhora, n�o d� pra atender dessa maneira.
Presta aten��o.
- Oi, desculpe doutora. - Come�ou, n�?
Desde �s seis da manh�.
Por favor, sentem-se. Sentem-se.
Como � que voc� est�?
Bem...
Eu estou preocupado com voc�. Voc� sabe que eu posso te ajudar.
Ali�s, voc� nem tinha o que estar fazendo aqui hoje.
Voc� devia estar em casa, descansando...
- que voc� n�o est� escalada. - N�o, n�o. Gaspar, por favor.
Deixa eu ficar aqui. Eu n�o quero ficar em casa.
Eu n�o posso ficar em casa. Eu preciso de um tempo, s� isso.
S� que voc� n�o est� em condi��es de trabalhar.
Eu estou, sim.
Olha o seu estado.
- Voc� precisa de um afastamento. - N�o.
Voc� n�o vai me afastar.
- Eu n�o posso perder a vaga... - Modera seu tom.
Ok? Modera.
Desculpa.
Desculpa, desculpa...
Carla de Almeida.
Bom dia! Pode p�r ela aqui, por favor.
O que ela tem?
Ela est� reclamando de dor na barriga.
Dor de barriga? Voc� engoliu um bicho?
Deixa eu dar uma olhada aqui.
Presta aten��o nele.
Olha l� ele.
Olha l� o gatinho.
Entendeu?
Vai, vai, vai...
A�, tem que chegar com a porra toda, t� ligado, j�o?
- Meter o p�. - Olha a geladinha chegando.
No sapato, que maravilha!
N�o pode!
- Voc� quer um docinho? - Puede ser.
Quer?
Vamos subir l�?
Juan!
Juan... Juan...
Juan!
- Juan! Abre a boca dele. - O que foi?
Francisca!
Algu�m faz alguma coisa. Francisca!
Ajuda. Pega ele. Pega ele, porra.
- Segura a�. Chama algu�m. - Faz alguma coisa.
Ele estava �timo, ele estava dan�ando...
estava se divertindo igual todo mundo.
Pra isso eu sirvo, n�?
A quanto tempo, a gente ta sem se falar?
O cara j� est� no hospital...
voc� me liga no meio da noite, doid�o, voc� podia ter evitado.
Puta que o pariu, o que voc� queria que eu fizesse?
Voc� queria que eu te pedisse desculpa? Desculpa!
Voc� d� pro cara e vir aqui ajudar voc� n�o pode?
Para. Para. Para.
Juan?
Ele vai ficar bem?
Olha, numa boa. Eu n�o sou careta n�o, viu?
N�o tenho nada contra divers�o, nada contra droga...
nada contra um bando de coisas...
Mas hoje n�o foi um pouquinho longe demais?
Quem que trouxe ele pra esse hospital? Quem que vai pagar?
Ah, sei l�, quem trouxe... a Francisca. Ela � rica.
Qual � o problema? Deixa ela pagar, meu Deus.
Porque voc� n�o levou ele pro meu hospital?
Hospital p�blico.
Pra morrer de infec��o hospitalar? Voc� est� louca?
Quem fez esse cabelo?
Nossa, esse cabelo est� horr�vel, hein?
Quem fez, fez mal.
Voc� acha que ele casava comigo?
N�o precisava ser um casamento assim, uma rela��o com sexo...
a gente podia s� viver junto.
Eu cuidava dele, ele cuidava de mim...
Murilo, para. Para de falar merda, cara.
Esse cara n�o quer nada com voc�.
Ele s� quer dormir bem, s� que comer bem e pronto.
Voc� n�o percebe isso? N�o � poss�vel!
Voc� est� sentindo esse cheiro?
Voc� tamb�m est�?
Eu n�o estou louca, caralho. Esse cheiro � daqui.
Que cheiro ruim, meu Deus!
� o cheiro da inveja.
N�o tem gra�a nenhuma isso.
Eu estou com um problema.
Eu...
Est�o querendo me tirar do hospital...
por conta de uma doen�a... �.
Foi a Elisa que disse que a senhora n�o vinha...
a�, a gente desmarcou a reuni�o.
O que Elisa tem a ver com a minha vida?
Pelo amor de Deus, me responde.
Quando eu tiver que desmarcar alguma coisa, eu mesma desmarco.
- Pode ser? - Ent�o a senhora...
deveria ter ligado pra desmarcar...
que ficou no s�bado � noite, um bando de mulher aqui esperando pra nada.
E voc�? J� contou? J� sabe?
- Da gravidez? - �.
J�.
Aqui cada um sabe o que faz.
E n�o sou eu que vou julgar ningu�m.
Agora, aqui tamb�m a gente n�o fica passando a m�o na cabe�a de ningu�m.
Porque a gente vive em comunidade e em risco.
E a gente sobrevive gra�as a n�s mesmos.
E cada um sabe o peso que carrega.
Eu acho voc� muito nova, mas ela disse que tudo bem isso.
Leonora! Corre aqui!
Leonora!
Ai, minha m�o.
- Onde �? - Na casa da Domingas.
Minha m�o! Meu bra�o!
- �gua quente. - Ai, minha m�o!
- Que foi que aconteceu? - Caiu �gua quente na m�o dele.
Calma, calma. Voc� vai ficar bom, viu?
Olha aqui, Mateus.
Quantas vezes eu j� disse pra crian�ada...
que n�o pode mexer em �gua quente?
Isso aqui n�o arde, n�o, viu?
- � que est� muito sens�vel a pele. - Ai, est� ardendo.
Eu vou cobrir s� pra proteger mesmo, mas n�o precisa...
Doutora, a gente vai ter que sair agora.
- A gente tem uma atividade. - O qu�?
� uma assembleia do movimento, � uma a��o, uma festa.
- Mas eu n�o te falei nada, t�? - T�.
Nadinho, voc� leva o Rafael e voa pra l�. Vamos, Maria.
- Doutora, depois a gente se fala. - Est� bom.
� importante deixar claro que a nossa luta � por moradia digna.
N�s n�o estamos pedindo esmola pra "seu" ningu�m.
� um direito garantido dentro do artigo quinto...
da Constitui��o Federal, todo cidad�o tem o direito a moradia.
S�o milhares de pr�dios vazios, sem fun��o social da propriedade.
Ent�o, por isso que n�s estamos aqui, reunidos, pra nossa festa.
E hoje n�s vamos tirar aqui os coordenadores do grupo da festa.
Vamos dizer pra onde eles v�o se dirigir.
A gente j� sabe que o pessoal aqui da ocupa��o Mau�...
vai com o grupo do Nadinho. Certo, Nadinho?
E a Comiss�o de Frente vai ocupar o qu�?
O port�o principal da festa. O resto todo mundo j� sabe.
- Porque quem n�o luta? - Est� morto!
- Quem n�o luta? - Est� morto!
- Quem n�o luta? - Est� morto!
- MSTC... - A luta � pra valer!
Desde quando voc� est� fumando?
Passou a raiva?
E agora, est� pensando em fazer o qu�?
N�o sei.
Eu estou com voc�, viu?
Essa greve est� acabando comigo.
- Elisa. - Fala.
Eu preciso conversar.
Voc� pode sair agora?
' Agora n�o d�. E que a coisa ali est� preta.
Termino o plant�o e a gente vai embora juntas. T�?
T�.
- E a�, Nadinho, est� firme? - Tudo firme.
Bomba, voc� que vai abrir, hein, bomba.
O senhor vai continuar reto, t�?
Nadinho est� na escuta?
E a�, Leonora?
Onde � que voc�s est�o? Est�o chegando?
N�s estamos atrasados.
Mas � quest�o de 20 minutos j� estamos chegando.
- Beleza. - Pessoal, a pol�cia!
Todo mundo quietinho.
Santificado seja o Vosso nome.
Venha a n�s o Vosso Reino.
Seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no C�u.
O p�o nosso de cada dia nos da� hoje...
perdoai as nossas ofensas...
assim como n�s perdoamos a quem nos tem ofendido...
e n�o nos deixeis cair em tenta��o, mas livrai-nos do mal, am�m.
- Al�? - M�e?
- Quem �? Quem fala? - Tia Celuta?
- Quem fala? - Sou eu, Carmem.
Ah, Carmem? Aqui � a Gilda.
- Oi, Gilda. - Aconteceu alguma coisa?
- A minha m�e j� esta dormindo? - N�o, ela n�o est�, n�o.
A sua m�e, foi passar uns dias l� na fazenda com a Dona Celinha.
Carmem, voc� est� bem?
- J� � mais de meia-noite. - Gilda?
- Est� tudo certo? - Nada.
- Est� precisando de alguma coisa? - Diz pra minha m�e que eu liguei.
T�...
Est� tudo bem?
Mais uma noite de terror nesta madrugada...
Eu tenho uma coisa pra fazer agora.
Nossos rep�rteres est�o nas ruas acompanhando o trabalho da pol�cia...
que tem grande dificuldade em conter os manifestantes.
Veja agora algumas imagens feitas por cinegrafistas amadores...
que acabam de chegar em nossa reda��o.
Moradia digna!
Moradia digna!
Vai, vai, vai. Entra. Entra, entra.
Vai, vai, vai, entra. Vai, vai, gente.
Pol�cia. Chegou a pol�cia.
Al�?
N�o, eu des�o e resolvo isso.
Sabe, Carmem, a gente est� enfrentando uma greve muito delicada...
e eu vou ter que ser direto.
Voc� est� de licen�a, temporariamente afastada da resid�ncia.
Eu estou dizendo isso porque � uma decis�o que tomamos pro seu bem...
e do hospital.
Carmem, voc� precisa se tratar. Vamos nos curar.
Agora voc� vai pra casa, tenha um pouco de paci�ncia...
J� que o hospital est� nessa situa��o...
ser� que eu posso ajudar?
Ser� que eu posso ser �til?
Eu ainda me sinto perfeitamente capaz de...
N�o seja irrespons�vel!
N�o, tudo bem, olha s�, o m�dico j� mexeu...
n�o mexe mais, n�o, viu?
Agora tu, o que que �?
Ah, est� �timo, muito bom.
Numa a��o coordenada, o Movimento dos Sem Teto...
desencadearam a meia-noite desta madrugada diversas invas�es...
simult�neas em pr�dios vazios da regi�o central da cidade.
O chefe do Comando Militar da PM, o Coronel Matos...
informou que h� alguns feridos entre os manifestantes.
Pol�cia � pra ladr�o!
Eu sou uma cidad�!
Pol�cia � pra ladr�o! Abaixo a enrola��o!
Ocupar, resistir, construir e morar!
Ocupar, resistir, construir e morar!
Voc� vai ficar bem.
Eu estou aqui.
Eu estou aqui.
...que tentam controlar as manifesta��es...
que fogem do controle das autoridades.
Neste momento, os policiais...
do 7� Batalh�o da Tropa de Choque...
come�aram a atirar bombas de efeito moral na multid�o...
que responde com pedras e peda�os de pau.
� uma situa��o imprevis�vel, de muito perigo e que...
Dr. Gaspar, um incha�o abdominal.
Teve parada?
N�o, mas est� perdendo sinais vitais.
Prepara sangue.
- Aqui voc� n�o pode entrar. - N�o!
N�o, n�o, me solta. Me solta. Ele � meu homem!
Me solta. Nadinho! Nadinho!
N�o... n�o...
Carmem, vem comigo. Corre. Vem.
1,2,3, vai.
Amigo, est� me ouvindo?
Press�o 5 por 3, caindo.
Estou no respirador.
Qual seu nome?
- Sinais vitais continuam caindo. - Ent�o pega o pulso.
Quantos anos voc� tem amigo, hum?
- Sem pulso. - Massagem.
-1, 2, 3, 4, 5, 6... - Prepara a adrenalina.
Continua sem pulso. Paciente parado.
Vamos tentar de novo. Massagem.
Segunda adrenalina. Prepara a atropina.
7, 8, 9, 10, 11, 12, 13...
14, 15, 16, 17, 18, 19, 20.
- Feita segunda adrenalina. - Pega o pulso.
- Continua sem pulso. - N�o � poss�vel.
�, gente, infelizmente, pode parar.
Perdemos.
Doutora?
- Carmem, n�o tem jeito. - Que � isso, Carmem?
- Doutora! - Carmem, o paciente est� em �bito.
- Para com isso! - Para, doutora!
- O Nadinho se foi. - Ele est� em �bito. Para, Carmem.
- Doutora, ele morreu! - Carmem, n�o adianta mais.
Para. Para menina, ele est� em �bito!
- Carmem, n�o tem jeito. - Algu�m tira ela...
- Carmem! Meu Deus! - Enfermeira!
Trocar as luvas antes da abertura.
Fio de dura e bisturi.
Voc� acha que eu nunca tive amigos?
Amigos de verdade?
Claro que n�o.
Voc� n�o deixa.
Quantas vezes seus amigos v�o na sua casa?
Qual a necessidade que voc� tem de encontrar com eles?
Voc� � um pouco tacanha com a vida.
Voc� ainda acha que o medo deixa as pessoas ego�stas?
Eu nunca disse isso.
� que voc� n�o se lembra.
Acho. Mas tem cura.
Bisturi.
Preparar para fechamento.
Carmem?
Carmem?
Abra os olhos. Abra os olhos!
Parece um vulc�o ali atr�s. Aquela parte branca.
- Aonde? - Ali, atr�s dela, assim.
- Ai, parece uma pomba. - Que pomba!
� um vulc�o, a� tem o espaldar da cama.
O que �? � uma montanha.
N�o, gente, ningu�m est� vendo uma mulher pelada?
Parece...
Da hora. Um present�o.
- Est� torto, n�o est�? - T�. T�.
- Vai bem pouquinho pra esquerda. - S� um pouquinho.
- Isso a�. - S� um pouco. Est� bom.
- Acho que vai mais... �, est� bom. - Est� bom.
Ficou bonito.
�, tem uma figura meio esquisita l� no fundo.
Menina, � um Paul Gauguin, � um pintor muito importante.
- Eu gosto tanto desse quadro. - �?
Vem c�, n�o parece a Jaqueline do 14? Esposa do Jo�ozinho?
Ai, desculpa, mas parece com voc�.
Comigo?
- Parece, agora que ela falou. - Parece. Agora que eu vi.
Falta um pouquinho de carne.
Vamos, que o povo est� l� nos esperando.
E a gente ainda vai pegar as crian�as.
- T�, voc�s esperam a gente. - N�o demora, hein.
Escuta, mas quem te viu e quem te v�, hein!
- Voc�s est� falando da minha norinha? - Norinha?
�!
- O Pedro que deve estar feliz. - Ah, est�, viu.
Come bem, � bem tratado e ele ganhou.
Porque eu vejo mais o bezerro agora do que antes, acredita?
Eu passei muito tempo chata.
Eu sei. Chata pra caralho.
Foi a pior coisa da minha vida. Pior.
Ainda n�o � f�cil.
Se n�o fossem voc�s: As visitas, o carinho...
eu n�o teria conseguido. Com certeza.
Sabe quando voc� olha pro espelho...
e fica se perguntando onde � que est�o as pessoas?
Elas ali. Ali, bem na frente.
Eu resolvi fazer as pazes.
Com quase tudo.
Veio ver o c�u?
Eu gostei da ideia daqui do c�u ser diferente.
O c�u que tombou sobre nossas cabe�as.
Eu senti sua falta.
Eu achei que n�o fosse mais ver voc�.
Voc� n�o precisa mais de mim.
Voc� ainda n�o me ama?
Eu sempre te amei e muito.
E voc�?
Detesto ser pressionado.
Carmem!
Trouxe para voc�.
- Pra mim? - �.
Maria.
- � linda, n�? - �.
- A primeira foto da Vanessa. - Coisa fofa.
- Parab�ns. - Obrigada.
Voc� n�o acha parecida com o pai?
Eu espero que seja com voc�.
Que linda.
Posso fazer uma pergunta?
- Voc� fala sozinha? - Eu...
Olha, tem umas coisas que v�o ficar sem resposta mesmo.
Tem umas coisas que v�o passar a vida inteira sendo perguntas.
Tem umas que a gente vai aprender.
Outras, n�o.
Mesmo quando tudo pede Um pouco mais de calma
At� quando o corpo pede Um pouco mais de alma
A vida n�o para
Enquanto o tempo Acelera e pede pressa
Eu me recuso fa�o hora Vou na valsa
A vida � t�o rara
Enquanto todo mundo Espera a cura do mal
E a loucura finge Que isso tudo � normal
Eu finjo ter paci�ncia
O mundo vai girando Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo E o mundo espera de n�s
Um pouco mais de paci�ncia
Ser� que � tempo Que lhe falta para perceber?
Ser� que temos esse tempo Para perder?
E quem vai saber?
A vida � t�o rara
Mesmo quando tudo pede Um pouco mais de calma
At� quando o corpo pede Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida n�o para
A vida n�o para, n�o
N�o para, n�o para
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