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NETFLIX APRESENTA
Prezados clientes,
em alguns minutos nosso expediente será encerrado.
Três para controle.
Um alarme disparou nos eletrodomésticos.
Droga!
Ei! Parado!
Tarapara.
Tarapara.
Quantas vezes já veio aqui, Hector?
Sete.
O que eu disse na última vez?
Muitas coisas.
Qual foi a última? A que disse antes de você sair.
Que não iria mais me liberar.
E na penúltima vez, o que eu te disse?
Que não iria mais me liberar.
E qual é a sua conclusão?
Você mente.
Sabe a diferença entre certo e errado?
O aquecedor do asilo da minha avó quebrou.
E isso é certo ou errado?
Errado.
E roubar uma moto é certo?
E invadir uma loja?
E ter uma arma branca?
E um assalto violento? É certo?
Você machucou seriamente o segurança.
Ele bateu a cabeça e ficou três dias em coma.
Nem toquei nele. Foi culpa dele.
Só me diga que é errado.
Minha avó esperou 3 semanas pelo conserto do aquecedor.
E isso justifica o que fez?
Eu acho que não.
Não devia ter pego o barbeador.
Por que estou aqui?
Como assim? Não me ouviu?
Quem me denunciou?
Foi meu irmão?
Com certeza foi você.
Olha, este é o Código Penal.
Aqui diz tudo que você não pode fazer.
Se está aqui, é errado.
Pegue. Leve para onde vou mandar você.
Quando sair, em dois anos, já será adulto.
E terá que encarar as consequências.
Aconselho que decore tudo.
Bom dia. Vamos.
-Está muito cedo. -Sem essa. Venha.
-Bom dia. Vamos, Mario. -Que saco...
Bom dia, Hector.
Advogado, divida o conhecimento. Não coma os artigos.
-Advogado... -Ei, silêncio.
Chega de risada.
Em alguns anos, ele vai livrar vocês das encrencas.
Como assim? Vamos sair daqui renovados, moça.
Parem...
pensem...
e respondam.
Ouvir não é a mesma coisa que escutar.
Só seguir nossos instintos é um erro.
Esta é nossa caixa de ferramentas. É a única maneira de evitarmos problemas.
Precisam aprender a pensar,
a detectar o pensamento antissocial, automático, até mesmo tóxico,
e a eliminá-lo antes que ele tome conta de vocês.
Troquem por um pensamento sociável e eficaz.
ADVOGADO RETARDADO
Estão no auge da adolescência.
E, sem aviso, logo serão adultos.
O que está havendo? E essas risadas?
Quero saber.
Hector, por favor. Sente-se.
Vou precisar chamar o segurança?
Filho da mãe!
Lá vai o advogado.
Ei, camarada. Aonde você vai?
-Vai! -Isso aí!
Pare! Parado!
Lá está ele!
Anda, anda! Vamos!
Bem-vindo ao lar, babaca.
E aí, advogado? Bateu o recorde?
Bem-vindo de volta, cara.
Esse seu joguinho vale mesmo uma semana no isolamento?
Pode trazer oito rolos de fita?
Melhor trazer dez.
Venha.
Continuem andando. Isso. Você, vá por trás. Ótimo.
Muito bem.
Assim mesmo.
Continue andando. Vá por trás.
Como foi a semana de férias?
Venha, venha. Isso. Continue andando.
E aí? Se animou?
Cachorros são para os deficientes.
Não.
São para quem tem problemas para interagir.
O que preciso fazer?
Cuidar deles, passear, brincar,
ensinar alguns truques,
conviver...
e falar com eles.
-Eles vão ficar aqui? -Não.
Eles virão uma vez por semana.
Não sei cuidar de cães.
O objetivo é aprender mesmo.
Todos têm dono.
Não, acho que sobrou um.
Vamos dar uma olhada.
Vamos?
Obrigada.
-Olá. -Oi.
-Se chama Roman, certo? -Isso.
-Podemos ver o cão que sobrou? -Claro.
O resgatamos hoje de manhã, a caminho daqui.
Qual artigo do Código Penal condena maus-tratos e abandono?
O 337.
Os donos dos cachorros violaram o Artigo 337.
Por que devo aprender a cuidar de um cão?
Para aprender a cuidar de você mesmo.
Está me chamando de cachorro?
Mais ou menos.
Eu ia te dar um sermão sobre identificação, mas...
-Deixa para depois. -É.
Vou deixar para depois.
Qual é o nome dele?
Ele ainda não tem nome. Você pode escolher um.
Vamos tirá-lo dali? Ele é muito bonzinho e dócil.
Ele parece um carneiro.
Não o chame assim.
Venham. Não pisem um no outro.
Olhem para o cão. Fran, olhe para o seu.
Vai, olha para ele.
Olhem para o que eles estão fazendo.
Continuem, continuem.
Olha só! O advogado com os retardados!
Ele achou seu lugar no mundo!
O que é isso? Fiquem quietos.
Vão embora. Vocês estão com inveja.
Vamos, continuem. Continuem.
Continuem andando. Vamos.
Vamos, continuem. Vamos.
Muito bem. Continuem assim.
Não parem. Não parem.
Hector.
Aqui. Ele estava te esperando.
Vamos para lá. Formem um círculo.
Carneiro.
Diga o nome dele e dê a comida. Assim ele vai aprender.
-Carneiro. -Muito bem.
Da cabeça à cauda. Escovem tudo.
Senta. Senta!
Isso mesmo, muito bem!
Dá a pata.
Carneiro.
-Senta. -Muito bem.
Perfeito. Muito bem.
Vamos, Carneiro. Vamos.
Antes de começarmos,
é essencial que o cão saiba sentar e ir até você.
Não quer ir brincar?
Oi.
COMPORTAMENTO CANINO
A gengiva está boa, mas você está com tártaro.
Pula! Pula!
Não quer ir brincar?
Tudo bem.
Eu também não quero.
Carneiro!
Oi.
Carneiro. Fica.
Dá uma volta. Muito bem.
Devia estar feliz.
-Por quê? -Porque ele foi adotado.
E tudo graças a você.
Você o tornou sociável, obediente e carinhoso.
E agora ele achou um lar. Um dono.
O dono dele sou eu.
Hector, eu avisei que os cães não são de vocês.
Eles vieram ajudá-los. E o Carneiro ajudou muito, não é?
Pense nisso. Você é ótimo em treinar cães e cuidar deles.
Trouxemos outro cão para você. Você pode cuidar dele.
Não quero cuidar de outro cachorro.
Quero cuidar do meu.
Hector.
Hector, não faça isso.
Espere...
-Hector! -Lá vai o advogado!
Hector, pare!
Pare!
Hector!
Hector!
Hector!
Volta aqui!
Vamos!
-Bom dia. -Bom dia.
VENDE-SE
Alô.
Quando ele fugiu?
Ontem à tarde.
Esperamos a noite toda, caso fosse só uma crise...
Ele já fez isso outras vezes, mas sempre voltou.
Como assim?
Com esta, foram 21 vezes.
Por quê?
Prefere ficar isolado, mesmo que por alguns dias,
do que ficar com os outros.
Isso é típico dele. Típico.
Avisamos o Juizado de Menores e a polícia.
Não, mas...
Falta pouco para ele sair, não?
-Menos de 2 meses. -Então por que ele fugiu?
Acho...
que foi pelo cachorro.
-Cachorro? -Isso.
O Carneiro.
Minha nossa...
Faltam só dois meses,
mas o aniversário dele é daqui a dois dias.
Ele vai fazer 18 anos.
Se cometer algum crime,
será julgado como adulto.
Se for antes do aniversário, mesmo que seja julgado como menor,
o juiz pode colocá-lo na prisão.
Com o histórico dele, isso é bem provável.
Eu tentaria mantê-lo longe dos problemas
e o fazer voltar sozinho.
Isso pode ser visto como arrependimento, as consequências serão menores.
Não entendi nada. Desculpe, mas...
Ele te procurou?
Não. E nem vai procurar.
Sabe aonde ele pode ter ido?
O nome do cachorro era Carneiro?
Isso.
Oi.
Oi, vó.
Tarapara.
O Hector veio aqui?
Não minta para mim, vó.
Você sempre o defende.
Ele não vem ficar com você para ver televisão
e roubar doces sempre que se dá mal?
Não, porque ele é adulto.
Já parou de fazer essas besteiras, certo? Ele parou com essas coisas.
Saia debaixo da cama.
Anda logo, imbecil.
Você me cansa.
Me cansa.
O que diabos faz aqui?
Estou visitando a vó.
Olha... Vamos.
Não.
Chamaram a polícia. Devem estar chegando.
Já vou.
-Vai voltar comigo. -Não.
-Agora. -Não vou.
O quê? Você enlouqueceu?
Tarapara.
Ela não gosta que falemos assim.
Por que você fugiu? Pode me explicar?
Não diga que foi pelo cão.
Então não direi.
Foi mesmo por causa dele?
Me pediu para não dizer.
Não acredito que fugiu...
Não, pode dizer. Por favor, diga.
Diga que fugiu por causa do maldito cão.
Ele não é maldito.
Ele é meu, e o tiraram de mim.
Ele não é seu.
É meu, sim. E vou recuperá-lo.
Ah, claro. E qual é o plano?
Vou perguntar ao abrigo quem o roubou.
E acha que a carrocinha vai dizer quem o adotou?
É um abrigo.
-Não vou perguntar onde ele está. -Que droga...
Só falta um mês e meio. Não pode esperar? Por favor.
Não.
Sabe o que acontece se o pegarem?
-Sabe o que me disseram? -Não vão me pegar.
Só se me denunciar como antes.
Vamos, Sabe-Tudo.
Aonde?
Ao canil. Ou ao abrigo, sei lá. Vou te levar.
Vamos seguir seu plano de merda.
A vó precisa ir.
-O quê? -Ela está morrendo.
Ela está morrendo há cinco anos, desde o derrame.
Você está morrendo, vó?
-Tarapara. -Viu?
Olha, chega dessa bobeira.
Médicos não falam bobeiras.
Acham que ela não entende nada,
mas ela sabe tudo.
Tarapara.
O nível de oxigênio desceu para 78%.
Se chegar a 70%, ela vai morrer.
Não sei nada de medicina,
os médicos disseram na frente dela.
Eu estava embaixo da cama.
Ela cuidou de nós a vida toda.
E nunca nos pediu nada em troca.
Só quer ser enterrada com o vô Chiri e que não xinguemos.
E nós dois a prometemos isso.
Certo.
-Quando ela morrer, faremos isso. -Vai deixá-la morrer sozinha?
Eu não vou fazer isso. Ela é sagrada.
-Ela não pode ir com a gente, Hector. -Pode, sim.
Peça a alta voluntária. Vão dar cadeira de rodas,
um cilindro de oxigênio e um oxímetro portátil.
Depois você devolve tudo.
E eu roubei alguns sedativos,
pois não sei se vão nos dar.
Um a cada 12 horas para ela ficar tranquila.
E o que você quer?
Buscar seu cachorro ou enterrar a vó em casa?
As duas coisas.
Mas que merda, começamos bem mesmo...
Dois dias.
Em 2 dias você será adulto. E ficamos assim.
-Como? -Como você quiser, Hector.
Mas sem mim.
Como sempre foi.
Você não roubou isso. Fui eu.
Olha, não pode cometer nenhum crime até voltarmos ao centro.
Entendeu?
Nada disso. Sim ou não?
Sim.
Tarapara.
Até a vó concordou.
Ela não concordou,
disse que vamos ver.
-Qual é o nome do abrigo? -Asproan.
Tem que ir pela 231, pegar a 623 e depois a 234.
Que nada, a autoestrada é mais rápida...
Não, lá tem mais polícia.
Temos que ir por outras vias.
E se eu não tivesse vindo?
Como faria tudo sozinho?
Não sei.
-Não sabe? -Não, não sei.
-Sabe tudo, menos isso. -Não.
Por que sempre repete a pergunta?
Para melhorar sua resposta.
Ver se pensa em algo melhor.
Por que veio de trailer?
Para ver se alguém o compra.
Ia me dar o trailer quando eu fizesse 18 anos.
É, quando você me jurou que não se encrencaria de novo.
Cumpriu isso? Então pronto.
A Marta te deixou?
O que está dizendo?
É por isso que está morando aqui.
-Ela não me deixou. E não moro aqui. -Dá para ver que mora.
-Não moro. -Porque ela te deixou.
Então vamos ficar aqui discutindo?
Por mim, beleza. Vamos esquecer o cão.
Ficaremos aqui. Não se preocupe.
Sabia que você viria.
-O quê? -Sabia que você viria.
É minha segunda resposta.
Foi melhor que a primeira?
Nem um pouco.
Então não repita a pergunta.
É ali.
-Deixe o motor ligado. -Por quê?
Se precisarmos fugir.
Fugir? Ninguém foge daqui.
Vou entrar sozinho, fique aqui. Devem ter avisado a eles.
Vão chamar a polícia.
O que vai fazer?
-Algo que você nunca fez. -Matar?
Pedir educadamente.
Não vai funcionar. Você mesmo disse.
Disse que não funcionaria para você.
Porque é incapaz de raciocinar.
Ia se confundir e estragar tudo.
Só entende as coisas do seu jeito, que está sempre errado.
Certo. Mas deixe o motor ligado.
Escute.
Senão, ninguém vai escutar você.
E nem tente fazer ligação direta.
-Boa tarde. -Olá.
Tem um minuto?
-Tenho, claro. -Olha...
É que a minha...
namorada veio na semana passada para adotar um cachorro.
Ela se apaixonou por um chamado Carneiro.
Acho que era isso. E eu vim para...
Ele foi adotado.
Foi o que pensei.
Acha que tem alguma chance de que eu possa falar com quem...
Não, não podemos dar informações sobre os adotantes.
Que droga...
Não imagina o quanto ela queria aquele cachorro.
E por que não o adotou?
Ela queria falar comigo primeiro, para termos certeza.
Ninguém vem aqui para escolher. Só para adotar.
Se alguém precisa consultar outra pessoa sobre um animal,
é porque não quer.
É meio drástico, não é?
É, sim.
Porque a situação dos cães é drástica.
Não temos espaço para dúvidas.
Sabe quantos nos devolvem um cão porque mudaram de ideia?
Entendi.
Deixa pra lá.
Pois não?
Onde o encontraram?
Certo.
Primeiro precisa levá-lo ao veterinário para ver se tem microchip.
Isso, o cachorro.
Vó, não morra até eu voltar.
Tarapara.
Pense bem antes de deixá-lo aí.
Se ninguém o procurar em dez dias...
Exatamente.
ADOÇÕES
Aonde o Hector foi?
Tarapara.
"Tarapara" uma ova!
Que porra está fazendo?
Disse para deixar o motor ligado.
Volte aqui com esse cachorro, garoto!
Que merda você fez?
-Peguei um cachorro. -Mas por quê?
-Para a troca. -Que troca?
Quando acharmos o Carneiro,
diremos que o abrigo errou e que ele é meu,
mas que não tem problema, pois temos outro para trocar.
Fantástico, você é um gênio! Todos ficarão felizes.
Isso, todo mundo feliz.
-Ele só tem três patas! -Eu sei.
Acha que isso vai ajudar?
Eu o escolhi por isso.
Porque também te falta uma coisa: um cérebro.
E você não tem...
Se disser, te largo aqui com esse bicho de três patas.
Nem se atreva.
Coração.
Devo descer?
Pensei que ia dizer "bolas".
Eu falei que te faltava uma coisa,
não duas.
Se eu não tivesse coração, acha que faria tudo isso?
Vai ver está tentando recuperá-lo.
Você não roubou nada, entendeu?
Fui eu que roubei.
A pasta e o cachorro.
Certo?
Certo.
Quando esteve com o cachorro pela última vez?
Na quarta passada.
Desde quarta, adotaram o Gnomo,
o Toy,
a Lola, o Rocky,
o Lucky...
Nada sobre o seu cão. Acabou.
O nome deles muda na adoção.
Se não gostam do nome, trocam.
Se não fosse "Carneiro",
manteriam o nome e teríamos um problema a menos.
Duas aqui são fêmeas.
Dois problemas a menos.
Pronto.
Me dá.
O que vai fazer?
Vou ligar para cada contato.
Não vamos ligar.
Vamos lá vê-los.
Se o encontrarmos, vamos ver.
Vamos ver?
Vamos aos 3 lugares porque você quer?
Vai que a gente acerta no primeiro?
Ou no segundo.
Pronto. São $ 75,40.
Vou pagar. Anote os endereços.
Compre comida.
-Só tem cerveja na geladeira. -Fala sério.
E minha carteira?
Merda!
No abrigo...
Deve ter caído com as chaves.
-Disse para deixá-las aqui. -Quieto.
Você tem dinheiro?
A vó tinha cinco euros.
E acha que cinco euros...
Olha, de verdade, acabou a missão.
Vamos devolver a pasta e o cachorro.
Vou me desculpar e pegar minha carteira.
-Não tem câmeras aqui. -E daí?
-Podemos sair sem problemas. -Não.
Vou explicar a situação para ele.
-Deixe o motor ligado. -Não.
Ainda não entendeu? Não é assim que funciona.
Perdeu a carteira depois de encher o tanque?
É, mas ela não está longe daqui.
Está a uns 20 minutos. Vou lá e volto rápido.
Certo.
-Mas deixe algo comigo. -Claro.
O cachorro.
É sério, ele está conosco a vida toda.
Claro.
O cão, o garoto e a avó ficam aqui enquanto você vai.
Já abandonaram muitos cães aqui.
Avós e garotos também, mas bem menos.
Vou buscar a carteira.
Não podemos voltar lá. Vão nos pegar.
Vou sozinho. Vocês ficam aqui.
Por que o motor está ligado?
Onde conseguiu o canivete?
Vamos antes que percebam.
Que percebam o quê?
A família no bar. Já estão pagando.
Como assim?
Você roubou isso?
Avisei que estava com fome.
-Vai comer sacos de dormir também? -Não.
Volta aqui, seu maldito! Volta já pra cá!
Você não roubou, fui eu.
Entendeu?
E me dá um bolinho.
Já pensou no que vai fazer depois?
-Como assim? -Se o plano der certo.
Imagine se a gente chegar e contar o que aconteceu,
e eles se comoverem e disserem que sim,
que ficam com o cão de três patas e devolvem o seu.
O que vai fazer?
Porque vai voltar para o centro.
Mas e o cachorro? Onde ele vai ficar?
Não sei. Vou pensar na hora.
Comigo ele não vai ficar.
-Não enche. -Não enche?
Você é que me irrita!
Quero morrer toda vez que me diz isso.
-Deixe o motor ligado. -Chega disso.
Não.
Vó, não morra até eu voltar.
Pare! Aonde você vai?
-Vou bater à porta. -Não bata.
Podem estar esperando a gente.
É, o FBI deve estar lá.
-Quer que me peguem. -Eu adoraria mesmo.
Adoraria que colocassem um fim nisso.
Não posso confiar em você.
O que quer fazer?
Subir no muro para procurá-lo.
Se não estiver lá, saímos de fininho.
Porque até agora não chamamos a atenção.
-Chamamos, sim. -Fui irônico.
Me ajuda a subir.
Consegue escalar uma cerca de 4m e quer ajuda com um muro?
Isso. Venha.
Já me acostumei com você pisando em mim.
Merda...
E esses chinelos?
-Levaram meus tênis. -Por quê?
Para eu não fugir.
Adiantou muito.
É o seu cachorro?
-Hector, é ele ou não? -Espera.
Não foi uma pergunta difícil.
Não era ele. Vamos.
Já deu por hoje.
-A vó dormiu? -Dormiu.
-Deu o sedativo para ela? -Dei.
-Olhou o oxímetro? -73%.
Por que diabos está com meu cinto?
Vou fazer uma coleira.
-Valeu por pedir emprestado. -De nada.
Fui irônico.
Quer uma cerveja?
Ah, desculpe.
Já vai fazer 18 anos,
não vamos estragar seu histórico imaculado.
Fui irônico de novo.
Não gosto de beber.
Por quê?
-Não quero perder o controle. -Ah, claro.
Você é bem controlado.
Só por curiosidade,
por quanto tempo serei preso pelos crimes que cometi hoje?
Se me pegassem agora neste piquenique, o que iria acontecer? Me diga.
Você usou força ou intimidação no abrigo?
Só comigo mesmo.
Não.
Roubo de remédios, de documentos, de cachorro, de um carro,
fuga do posto de gasolina, roubo de uma moto.
-Tudo isso... -Que moto?
Como acha que cheguei na vó?
Crime continuado de roubo
tem pena prevista nos Artigos 234 e 244 do Código Penal
em relação ao Artigo 74.
E estelionato está previsto no Artigo 248
e no segundo parágrafo do 249.
Certo.
-Tem antecedentes? -Tenho.
Você.
Não, querido.
Sem antecedentes criminais,
seria uma pena de 12 a 18 meses pelo crime continuado
e uma multa de 1 a 3 meses pelo crime de estelionato.
Você não seria preso.
Ótimo!
Ótimo, já posso dormir tranquilo.
-Não vai dar um nome para ele? -Não.
O dono dele vai.
Por que está agindo assim por aquele cachorro?
Eu sei.
Quer saber?
Não.
Quando era pequeno e ficava de birra,
ou quando ficava nervoso, o que acontecia sempre,
quem te acalmava?
Eu. Bem,
eu fingindo ser um cachorro.
Seu cachorro.
Você ria e tudo passava.
Não se lembra?
-Não. -Claro.
"Agoria".
O cachorro "Agoria".
Você dizia "agoria" em vez de "agora".
"Aonde vamos 'agoria'?"
"Quero ver TV 'agoria'."
"'Agoria' estou sem fome." "'Agoria' não vou brincar."
"'Agoria' eu choro, 'agoria' grito..."
Chega, já entendi.
Aí eu ficava de quatro...
e dizia: "Oi! Sou o cachorro Agoria!"
Eu latia e rosnava...
Colocava a língua para fora, te dava a pata e uivava.
Você tapava os ouvidos, me pedia para deixá-lo em paz,
mas eu nem escutava.
Eu grunhia
e subia na sua cama.
Aí a sua expressão mudava.
Seu medo ia embora. Sua raiva, sei lá.
Você ficava bem.
Agora diga que não se lembra.
-É familiar. -Que cara de pau...
Os velhos tempos...
Quando éramos irmãos.
Que cachorro mala...
-Ele gosta de você. -Não gosta.
-Deixe-o subir. -Não.
Cachorro dorme no chão.
Prefere ficar sem dormir?
Ele vai cansar.
Você não cansou até hoje. Deixe-o subir logo.
Vó, não morra hoje.
Tarapara.
Bom dia, vó.
Levante a língua, vó.
Tarapara.
Você não tem falado com a Marta.
Nem mandou mensagem. Ela te largou?
Do que está falando?
-Liga para ela. -Não.
Vou ligar quando eu quiser.
Ela largou você.
O que fez? Por que permitiu isso?
Credo, você é irritante. É pior que uma ressaca, cara.
-Sei que não está bem. -Como?
Desde quando se preocupa comigo?
Não me preocupo, mas percebo.
Você faz isso se está mal.
-O quê? -Isso.
Olha, já parei. Estou bem.
Cuide da sua vida.
Certo, vou cuidar.
É bom mesmo.
Seu cão deve estar ali.
Assobie para ver.
Não é assim.
-Oi. -Tudo bem?
Não peça para o motor ficar ligado.
Então não vou pedir.
Vamos fazer o que já deveríamos ter feito.
Falar a verdade. Entendeu?
-Entendi. -Sim ou não? Olhe para mim.
Entendi.
Você vem comigo.
Olá.
Com licença.
Você adotou um cachorro recentemente?
-O nome dele é Rocky. -Sim.
-E daí? -É que...
meu irmão está em um centro para jovens.
Ele está de licença agora.
Ele fazia terapia com cachorros.
E pode ser que o seu cachorro seja o mesmo que estava com meu irmão,
e eles ficaram muito próximos.
Olha como ele está agora.
O cão é o único ser vivo que interessa a ele,
além da nossa avó.
E o que querem?
Ver se é o mesmo cachorro.
Se for, podemos trocar por este cachorro de três patas.
Ele está sempre deitado. É muito fiel e companheiro.
Olha, não sabemos o que queremos.
Nem por que viajamos, nem por que estamos aqui.
É a verdade.
Venham comigo.
Obrigado.
Vamos.
O encontrei dentro de um carro que chegou com perda total.
Estava assustado e desnutrido.
Então eu descobri que o carro era do dono dele,
que havia morrido no acidente.
Ninguém sabe como ele aguentou.
Os protetores o levaram. Mas, depois de alguns meses,
estava desmontando o carro e me lembrei do cachorro.
Liguei para o abrigo
e me disseram que ele ainda não tinha sido adotado.
Então fui até lá
e o trouxe comigo.
Mas ele não sai do carro desde que chegou.
Ele está ali.
É ele?
Não.
Então vamos.
Hector.
O que está fazendo?
Ele está com unhas grandes, pele descamando e sem pelo na orelha.
É leishmaniose.
Precisa levá-lo ao veterinário.
Ele vai precisar ser tratado pelo resto da vida.
Não tenho dinheiro para isso.
É a minha carteira?
Ele vai morrer sem isso.
Não, guarda isso.
-Pegue. -Hector.
Não, isso é meu. Hector.
-Por que roubou minha carteira? -Não roubei.
-Não roubou? -Não, eu a achei.
Ah, mil desculpas, senhor. E por que não me devolveu?
Guardei para imprevistos.
-Que imprevistos? -Como esse.
Você é que é um imprevisto.
Só mais um dia e pronto. Não aguento mais essa merda.
São só três cães, mas já erramos nos dois primeiros.
Isso só acontece comigo.
Na verdade, só acontece com você.
Mas agora não vamos mais errar.
O que é isso?
Merda...
Vamos para a cidade.
Padre.
Não deve se lembrar, mas sou neto do Chiri e da Cuca.
Olá.
-É verdade. -Tudo bem?
Tudo bem, filho?
Bom...
Por esta santa unção e pela Sua infinita misericórdia,
o Senhor venha com a graça do Espírito Santo,
para que, liberto dos teus pecados, Ele alivie os teus sofrimentos. Amém.
Onde vão enterrá-la?
Aqui.
Com o vô Chiri.
Viemos para isso.
O que foi?
Cadê meu avô?
O contrato venceu.
Como assim, "venceu"?
A duração era de 75 anos.
Venceu há um ano.
Não receberam um aviso?
Minha avó está no asilo há cinco anos.
O que acontece se não for renovado?
O lugar fica disponível.
Certo.
Quanto custa para renovar?
São 5.581 euros por 75 anos, que é o máximo de tempo.
-Isso é um absurdo... -Vamos conseguir o dinheiro.
-Temos que enterrá-la aqui. -Também acho, mas...
Não recebemos o aviso por culpa sua.
-Minha culpa? -É, sua culpa.
Você a colocou no asilo e nos mudamos.
Você não sabe de nada. Desculpe.
Acha que eu poderia pagar isso?
Maldito Sabe-Tudo...
-Vamos vender o trailer. -Já está à venda, mas não é fácil.
Já teve ofertas, mas não vendeu por não ter onde morar.
Não enche o saco. Temos um problema novo.
É um imprevisto. E, quando eu vender o trailer,
não será em vão.
Não é em vão.
-Olha... -Calma, meninos. Não discutam.
Mesmo que quisessem renovar, já não podem mais.
Por quê?
-Já alugaram o espaço. -Quem?
Seu primo Ignacio.
Então onde está meu avô?
Na urna.
Onde?
Bom corpo lúteo...
Quando levará Vicenta para Lausana?
Depois de amanhã.
Vou terminar aqui e darei uma olhada nela.
Ela está ovulando.
Prepare o embrião, vou anestesiar a cauda dela.
Se eu não tivesse alugado, outra pessoa alugaria.
O cemitério é pequeno.
Mas por que não me avisou?
Há quanto tempo não vem aqui?
Vá até a casa da vó. Depois conversamos.
Ela está morrendo.
Deve ter poucas horas.
E tudo que ela queria era ser enterrada aqui com o vô.
Sinto muito, primo. Mas não será possível.
Eu dei o espaço para meu sogro, o Kalín.
Que belo presente...
Cuidado com o que diz.
Ele está com câncer terminal.
Tem outros túmulos. Por que não pega outro?
A vó não precisa saber.
Eu vou saber. E o Hector também.
Mas você ia poder pagar?
Como pôde tirar o vô,
incinerar o corpo dele e colocá-lo num cinzeiro público?
-Cinerário. -Tanto faz.
O colocou com outros num cinzeiro.
Sabe qual é o pH das terras daqui?
-Como assim? -É abaixo de cinco.
A terra é muito ácida.
E daí?
Eu não o tirei de lá, primo.
Ele não estava mais lá. Sabe o que havia na cova?
Nada.
Nada mesmo. Ah, não.
Tinha o relógio dele. Ficou comigo.
Eu digo que a vó está morrendo e que a trouxe até aqui,
mas você não quer nem a ver.
O que você quer?
Que eu me sinta mal?
Mas não.
Não.
A vó foi embora.
Ficou anos sem aparecer aqui.
Sou o único que ficou da família.
O cemitério é para quem mora aqui.
Se não se importa, preciso trabalhar.
Não quero mais discutir isso.
Não se preocupe, vó. Já resolvemos tudo.
É mentira, vó. Roubaram seu túmulo.
Você é idiota?
-Ela não gosta de mentiras. -Eu sei, porra, mas...
Deixa pra lá.
Não aguento mais isso. Minha cabeça...
Pare de fazer planos. Acabou.
A terra é ácida, entendeu?
O corpo do vô não estava lá, só sobrou o relógio dele.
Essa terra de merda come até os mortos.
Então chega.
Na vida, precisamos saber perder.
Para ganhar alguma coisa, qualquer coisa,
precisamos saber perder.
Eu já sei perder.
Nem sabe o que é isso, Hector.
Não faz ideia.
Uma coisa é perder. E nós perdemos muito.
Outra coisa é aprender a perder, com orgulho. Aceitar a derrota.
Só nos resta ficar com ela e esperar.
Entendeu? E não diga "entendi", você nunca entende.
Só concorde.
Aonde vai?
Levar a vó para passear.
Passear? Ela está morrendo.
Para ela se despedir da cidade.
Nada disso. Eu conheço você.
Fique aqui, não confio em você.
Então venha com a gente.
Boa ideia.
Trazê-la para ver a casa caindo aos pedaços.
É a cereja do bolo?
Como era a história do vô?
A que a vó sempre te contava.
Ela me contava muitas histórias.
É, mas tinha uma
sobre uma vaca que ele perdeu...
-A vaca Elvira. -Isso.
Ele não perdeu, ela fugiu.
É, mas como era a história?
As vacas pastavam em terrenos comunitários,
que cada criador usava numa época do ano.
Se aparecesse uma vaca que não era sua, você podia pegá-la
e pedir um resgate.
Chamavam de "capturar". E era legal.
A Elvira fugiu uma vez,
era a vaca que mais dava leite.
Ela foi capturada.
Resgatá-la custou uma lata de azeite, um saco de farinha,
meio quilo de açúcar e ovos.
Como castigo,
o vô Chiri dormiu com a Elvira no celeiro por uma semana.
Ficou fedendo a urina e cocô de vaca.
Nem podia se lavar para ir à escola.
Ao fim do castigo, o vô continuou dormindo com a Elvira.
Ninguém entendia o motivo.
A vó disse que, na escola, batiam nele.
Mas, quando ele fedia, ninguém chegava perto,
e ele ficava em paz.
Sabemos a quem você puxou.
Com muito orgulho.
A vó contava outra história sobre vacas. Qual era?
Não sei. Só gostava dessa.
O que está fazendo?
Aonde vai?
-Para o trailer. -Não é por aí.
Está tramando algo.
-Não estou. -Claro que está.
O que é? Me fala.
Dá para ouvir você pensando.
É porque estou aprendendo a perder.
Ignacio disse que estava aqui.
-Sinto muito por sua avó. -Obrigado.
Por seu pai também.
Ele é mesmo...
Papuco.
Quanto tempo tem de vida?
Três meses, há sete meses.
Vamos enterrá-los juntos. Ficarão felizes.
Desculpa.
Deixa que eu sirvo.
E então?
-Se anima para jogar uma partida? -Não, obrigado.
-É por conta da casa. -Não.
Isso eu posso pagar.
Conta a do holandês.
Não, é muito boba.
Não, é ótima.
Uma vez, um holandês postou no Facebook...
Pare.
-Essa todo mundo sabe. -Eu, não.
Desculpem, mas eu não conheço a história do holandês do Facebook.
É uma bobagem, primo.
Outro dia, um holandês postou no meu Facebook
que queria comprar minha vaca.
Eu nem respondi.
Ele insistiu, aí eu disse: "Vendo por 60 mil euros."
Porque eu não queria vender.
E ele concordou.
Eu disse: "Nossa!
Esse cara tem grana."
Eu venderia.
Tudo ficou difícil com as rotas leiteiras.
Estão até matando as vacas.
Que nada...
A chave é procriar.
A Vicenta vai ter bons filhotes.
Você extrai um embrião. Ou dois, três, vinte...
E os vende pra ganhar dinheiro.
Quanto conseguiu com as vacas inseminadas?
Te digo amanhã.
BICARBONATO DE SÓDIO
E aí?
O que está fazendo?
-Você se lembrava. -Do quê?
Da outra história. Sobre capturar as vacas.
Você nunca esquece nada.
Por que não me contou? Diga.
Não entendi.
A história do pessoal daqui, que, para pagar as festas,
roubava as vacas dos sítios
e as capturava, dizendo que foram pegas no pasto.
Não me diga que não se lembra.
-Não. -Então quer saber?
O primo tem uma que é o Messi das vacas.
-Não gosto de futebol. -Vai gostar.
Ela é campeã de um monte de coisas de vaca,
e o primo pode vendê-la por 60 mil euros.
E os embriões dela?
É uma vaca incrível!
Na semana que vem, ela vai à Lausana para um campeonato europeu
de alguma merda que acontece a cada 3 anos.
É a Champions League bovina.
Não gosto de futebol.
Combinamos de só ficarmos com a vó e aprendemos a perder.
Desde quando você me escuta?
Teve 18 anos para isso
e quer começar agora?
Escuta.
É a história de uma captura.
Pegaram seu cachorro e você me pegou.
O primo Ignacio pegou nossa cova, e agora nós...
-Não vamos roubar a vaca. -Não.
Nós, não. Mas eu vou roubar.
E não é roubar.
É capturar.
Um roubo agravado pelo valor do item que foi roubado
são dois a cinco anos.
Com os outros crimes, cadeia.
E daí? Tudo pela vó, não é?
Está bêbado.
Um pouco. E daí? Me dá coragem.
Não, te deixa idiota.
Um palavrão! Muito bem.
Não vamos recuperar o túmulo assim. Vai ser pego.
Vamos ver.
E vamos ver se o primo gosta mais do sogro ou da vaca.
Como vai tirá-la de lá? E onde vai escondê-la?
Pensou nisso tudo antes de fugir pelo seu cachorro?
Então não me encha o saco.
Para que quer os sedativos?
-Para usar na vaca. -Nada disso.
Não vai drogar a vaca. O 337 é sagrado.
O que é o 337?
Maus-tratos aos animais.
Não quero que vá, Isma.
Não vai.
Vou dizer uma coisa.
Essa sua atitude
de saber a história das crianças, porque sabia de cor,
e não usar a informação para não se encrencar...
Isso mostra que você aprendeu a controlar suas crises.
Então, hoje, oficialmente,
você aprendeu a perder.
Parabéns!
Vó, não morra até eu voltar.
Vamos.
Minha nossa...
São todas iguais. Qual é a certa?
Esqueci a merda do celular...
PARE DE MANDAR ÁUDIOS, NÃO VOU OUVIR. NÃO QUERO SABER DE VOCÊ.
Oi. Vi que você está on-line.
Estou na cidade da minha avó. E ela está bem mal.
Pode morrer hoje ou amanhã. Não sabemos.
Lembrei de você, porque vocês se davam muito bem.
Não sei por que estou falando isso, você nem escutou os outros áudios.
A terra não é ácida.
Que susto...
Misture a terra com água e bicarbonato de sódio.
-Se não reagir, não é ácida. -O quê?
-Aprendi no centro. -E ainda reclama...
Trocar pensamentos tóxicos por pensamentos sociáveis.
Por isso não contei a história das crianças.
Eu sabia.
Mas o primo mentiu.
O quê?
Ao desenterrarem o vô, além do relógio,
devem ter achado dentes e ossos.
-Com certeza. -Filho da mãe...
-Vamos embora. -Não.
Não sem a vaca.
-Ela não está aqui. -Como não?
-Claro que está! -Não.
Elas ficam de quarentena antes dos campeonatos.
Também aprendeu no centro?
Não, li na internet.
É o meu celular?
Como sabe minha senha?
-Silêncio. -Por quê?
-O que foi? -É por ali.
Messi.
Uma merda de cadeado. É todo seu. Faça sua mágica.
Achei que não queria que eu cometesse crimes.
Não é crime, vamos libertá-la. Acha que ela quer estar aqui?
Use a música ou seus superpoderes. Mas abra.
Por que mora no trailer?
-O quê? -A Marta te deixou?
Não estraga o clima. Vai.
Só se me contar.
Hector, sem essa. Abra.
Ela deixou você.
Ainda não sei.
Como assim? Ela te deixou ou não?
Mais ou menos... Vamos mesmo fazer isso aqui?
-Vamos. -Agora?
É.
-Eu conto depois, porra. -Não.
Ela está grávida.
Foi inesperado...
Mas é verdade.
Não nos cuidamos, porque nem ela, nem eu...
Mas aí ela disse que queria o bebê.
Eu falei: "Meu amor, como vai ficar com ele?
Como faremos?"
Ela disse que "sim", e eu que "não".
Ela disse: "Como assim?", e eu disse que não podia.
Eu não quero.
E foi isso.
Não tenho coração. Pode falar.
Isso, beba e relaxe.
O que vai fazer?
Ah, claro...
Faça o que quiser.
Você aprendeu muito mesmo.
Não quero que seja como o papai.
Vamos.
Pare.
É o carro do primo!
Não deu tempo de ele descobrir. Ou deu?
Existe rastreador por GPS para animais.
-E só me diz agora? -É.
Ele não pode nos ver com ela. Vamos.
-Ele não vai embora. -E o que faremos?
A capturamos para pedir o resgate.
Então vamos pedir.
O que faz aqui, primo?
O que eu já devia ter feito. Vim me despedir da vó.
Nossa, Hector. Você está enorme.
-Você também. -É.
-Só veio para isso? -Não.
Vim me desculpar. Fui um babaca mais cedo.
E depois, Jesus,
a história da vaca no bar.
Sinto muito, primo. É isso.
Certo.
Olha, primo...
Queremos o túmulo do vô.
Queremos o túmulo.
O túmulo.
Sinto muito em dizer, mas é impossível.
É possível, sim.
Não, primo. Menti para você.
As terras daqui...
não são ácidas.
Havia restos mortais no túmulo, claro que sim.
Mas eu estava mal com a Rosa.
Ela disse que eu não cuidava das meninas, nem da família dela.
Que só ficava com as vacas,
que amo mais a Vicenta.
Que não a levo para dançar, mas coloco música para a vaca.
O pai dela adoeceu,
e eu fiz tudo sem pensar nas consequências.
Eu adoraria poder devolver o túmulo
para a vó e o vô.
Isso arruinará minha vida.
Falei com o prefeito, mas não há mais vagas.
Mas reservei um nicho na 2a fileira, que é a melhor.
É a mais cara de todas.
Por 3.000 euros.
E eu vou pagar.
Não é a mesma coisa.
E entendo se não quiserem mais falar comigo.
Não precisa...
ser tão radical, primo.
Está tudo bem.
Quer dizer...
Não se torture. Olhe para mim.
Às vezes fazemos as coisas
sem pensar. Precisamos ser compreensivos.
E aprender a perder.
Aprender a perder. E pronto, primo.
Ei, olha para mim. O nicho na 2a fileira é fantástico!
Viu?
-E queremos o relógio. -Isso.
Claro, Hector. Podem ficar com ele.
Podem pegar. Para que vou querer isso?
Pronto, primo.
Primo, primo...
Relaxa, fica tranquilo. Obrigado.
Primo...
Escuta, primo...
Primo, me escuta.
Lembra de quando capturaram a vaca do vô Chiri?
Bem...
A 6a fileira não é tão ruim...
É mais privativa.
Ninguém vai incomodar.
Vó, agora pode morrer tranquila.
Não, ainda não.
Sério, cara?
E agora, MacGyver?
Não, Hector.
Venha comigo, vô Chiri.
Vó?
-O que foi? -Ela melhorou.
A oxigenação subiu para 81%.
Depois de tudo isso, decidiu não morrer?
-Tarapara. -"Tarapara" uma ova.
Você quer que ela morra?
Não. Como assim?
Mas parece que vocês querem tornar minha vida um inferno.
-Vamos. -Não.
-Vamos esperar. -Pelo quê?
-É normal melhorar antes de morrer. -O quê?
Você se sente bem porque vai para um lugar melhor.
Gasta o pouco que restou.
-Vamos esperar ela terminar. -Não.
Vamos terminar o que começamos.
A vó não vai morrer.
Ou o centro ou o cachorro, Sabe-Tudo.
Você é mais legal bêbado.
Tarapara.
Por que está tão sério?
Estou sempre sério.
Você? Imagina, como assim?
Você é a alegria da festa.
É sério, Hector.
Precisa aprender sobre ironia.
Porque o mundo é irônico.
Quer que eu explique?
-Ironia é falar besteira. -Certo.
Já que você já sabe...
Então me explique.
Um exemplo fácil:
imagine que digo para o primo Ignacio: "Primo, está tudo bem.
Que bom que tirou o vô Chiri do túmulo
para passear na floresta..."
E por que seria ironia?
Porque eles não passearam.
E ele sabe que meu comentário não foi simpático.
Que tem outro significado, não é literal.
Que é uma crítica.
Entendeu?
Não sei.
Vai, tenta. Faz um comentário irônico.
Pensa em algo que te incomoda muito.
-Que você me denunciou. -Minha nossa, de novo isso...
Mas serve.
Diga que adorou que eu o denunciei.
-Não adorei. -Eu sei.
Por isso.
Diz que foi a melhor coisa que te aconteceu.
Obrigado por me denunciar para se livrar de mim.
Faltou dar o ar cômico.
"Então, Isma. Obrigado por me mandar para o acampamento de verão. Valeu!"
Não é um acampamento.
-Essa é a ironia. -E não foi só um verão.
-Essa é a piada. -Não, é um inferno.
Deixa pra lá. Tem razão. Desisto.
Ironia é falar besteira.
Olha, deve ser alguma daquelas casas.
-Pare o trailer. -Oi?
Não começa.
-Pare o trailer. -Não vou parar merda nenhuma.
Vamos até a porta.
Ele não está aqui.
-Por quê? -Não.
O Carneiro não está aqui.
Está, sim. É o único lugar que não vimos.
Ele estava na primeira casa.
Como assim, na primeira?
Hector, não sacaneia!
Estava na primeira casa?
Por que não disse nada?
Pode falar de uma vez e dizer o que está havendo?
Se tiver inventado que a vó está morrendo, te mato.
Não brinco com a saúde dela.
Mas brinca com a minha?
Pode acabar com a minha?
Desculpa.
Aonde...?
Pronto, Hector.
Vou ser preso porque não me contou antes,
mas tudo bem.
Mas quero entender...
Se passamos por toda essa merda
para achar o cão, por que não disse nada?
Ele estava com um velho debilitado ou com um doente?
Não.
Estava com um cachorro.
Com um cachorro?
É, com um cachorro.
Com outros cães.
-É seu cachorro? -Espera.
Hector, é ele ou não?
Hector, não foi uma pergunta difícil.
Ele não gostava de cães.
Tinha medo deles. Não chegava nem perto.
Não brincava com eles.
Preferia ficar sempre sozinho.
Não, não é ele.
Não queria que a viagem acabasse.
Por isso não disse nada.
Boa noite, vó.
Tarapara.
Não se iluda, certo?
NOS FALAMOS QUANDO VOCÊ VOLTAR...
O quê?
PARE DE MANDAR ÁUDIOS, NÃO VOU OUVIR.
É A ÚLTIMA VEZ QUE TE ESCREVO.
É QUE A GRAVIDEZ ME ASSUSTOU MUITO.
MAS NÃO É QUE EU NÃO QUEIRA, É PELO HECTOR.
SOU O PAI DO MEU IRMÃO HÁ 17 ANOS.
FIZ UM PÉSSIMO TRABALHO. OLHA ONDE ELE ESTÁ.
JURO QUE TENTEI, MAS FIZ TUDO ERRADO.
TUDO ERRADO. POR ISSO NÃO QUERIA O BEBÊ.
MAS AGORA ACHO QUE MELHOREI, ACHO QUE APRENDI.
PASSEI UNS DIAS COM ELE E FOI TUDO BEM.
FIZ COISAS QUE NUNCA HAVIA FEITO.
POR ELE. POR MIM. POR NÓS.
E ELE VAI FAZER 18 ANOS, SABE SE CUIDAR.
VOU TER MAIS TEMPO PARA VOCÊ E PARA NOSSO FILHO.
E NÃO SEREI COMO MEU PAI. VOU VENDER O TRAILER.
PARA TERMOS DINHEIRO. E ESCREVI UMA MÚSICA.
EU CONSIGO. POSSO VOLTAR?
Como descobriu minha senha?
Usar seu ano de nascimento é ridículo.
É verdade.
Não vai chegar pra lá?
Desde quando é conselheiro matrimonial?
Já decidiu tudo por mim, Doutor Amor?
Não tem nada para decidir.
-Não? -Não.
E me preocupo, sim.
Com o quê?
Se você está mal.
Me preocupo.
Feliz aniversário.
Pensei que ia me dar o trailer.
-Que eu merecia. -Claro.
Não delira.
Os tênis estão grandes.
Coloque algodão dentro.
Não tem algodão aqui.
Então papel higiênico.
Não tem papel higiênico?
-Tem um buraco. -Que merda, cara...
Não reclame. Você está de chinelo.
-É verdade. -É.
Obrigado.
Aleluia, irmão.
ADOÇÕES
A oxigenação caiu.
O que quer dizer?
Estava boa há três minutos.
E agora caiu...
-O três-patas a curou. -O três-patas a curou.
-Sério, Hector? -Não.
Você a curou com insultos.
Você fez um comentário irônico.
E você fez uma besteira.
Não morra até eu voltar. Certo, vó?
Tarapara.
E você cuide dela.
Taraparo.
"Taraparo?"
Taraparo.
É só mais um mês e meio.
Nada de fugir ou se encrencar.
Quando fizer 18 anos, Hector...
isso tem que parar.
Disse que não queria que acabasse.
Para não acabar...
precisa entrar.
Senão, é impossível.
O quê?
Sermos irmãos de novo.
Em um mês e meio,
pense nos livros sobre cães que você vai decorar.
Já vai ser até veterinário.
O problema não é ficar aqui.
E qual é?
Depois...
Depois o quê?
Você não estará aqui.
Quando eu sair, não estará aqui.
É...
Você tem razão.
Não estarei aqui.
Mas seu cachorro estará.
O Taraparo não é meu.
Não estou falando dele.
E o Carneiro está bem.
Não é o Carneiro.
Oi, Hector.
Certo.
Tchau, Isma.
Até logo.
Gravando, gravando.
Pronto. Vamos ver se agora vai.
Vem logo, maldito Sabe-Tudo.
Legendas: Érica Silveira
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