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- Al�? - Sou eu.

- Estou incomodando, Francesco? - N�o se preocupe.

Tinha que sair do banho alguma hora. Espere um momento, Franco.

O que estava falando, Franco?

Nada, s� estou ligando para saber como est�.

Voc� sabe como as coisas s�o.

A vida continua.

Gnaghi!

Gnaghi, estou gritando por voc� h� horas!

Ele � Chigini, o pesquisador.

- Coluna doze, terceira sepultura, certo? - Gna.

Sepultura tr�s.

Aqui vamos n�s. Sei que j� escutou isso antes.

Mas dessa vez, meu querido Chigini, � para sempre.

Descanse em paz.

Minhas costas!

Que desperd�cio de m�rmore. Nunca vamos consertar isso.

Todos esses enfeites.

N�o sei porque n�o s� cobrem as covas com terra.

A arma! Esqueci a porra da arma!

- Comer! - Gnaghi!

Me d� a p�! Gnaghi, me d� a porra da p�!

Comer!

A� vamos n�s.

Voc� sabe o resto, Gnaghi.

Meu nome � Francesco Dellamorte.

Nome estranho, n�o �? Francisco da Morte.

S�o Francisco da Morte.

J� pensei em trocar.

Andrea Dellamorte seria mais legal, por exemplo.

Sou zelador do Cemit�rio de Buffalora.

N�o sei como a epidemia come�ou.

Algumas pessoas, na s�tima noite ap�s a morte,

voltam � vida: eu os chamo de "Retornados".

Mas, francamente, n�o posso entender porque est�o t�o ansiosos em retornar.

A �nica maneira de se livrar deles � arrebentar suas cabe�as.

Uma p� serve, mas uma bala Dum-Dum � melhor.

- Venha e beba uma ta�a de vinho. - Gna!

� o come�o de uma invas�o? Est� acontecendo em todos os cemit�rios?

Ou Buffalora � s� uma excess�o? Quem sabe?

E no final, quem se importa? S� estou fazendo meu trabalho.

Bom dia, Engenheiro!

- Como voc� est�? - Bem, Sra. Chiaromondo. E voc�?

- O cemit�rio est� aberto, n�o est�? - Para voc�, sempre.

Ol�, gracinha. Aqui. Como est�?

Est� feliz. Ele gosta quando o sol brilha.

Eu n�o sou um engenheiro.

E voc� n�o � uma gracinha.

Pobre Gnaghi. Em sua identidade tem escrito:

''Marcas vis�veis distintas: todas''.

Ele tem paix�o por folhas mortas.

N�o aguenta quando o vento as sopra para longe.

Bem, todos n�s fazemos o poss�vel para n�o pensar sobre a vida.

Requiescat in pace. Amen.

A mulher viva mais bonita que j� vi.

Vou v�-la novamente?

Vim para regar as flores da sepultura de seu pobre pai.

Marido.

H� quanto tempo ele est� morto?

- Duas semanas. - Gra�as a Deus.

- O que? - Quero dizer, eu lamento.

- Voc� n�o respeita a dor? - Eu sei como essas coisas s�o.

- Na hora certa, a dor para. - N�o est� parando nada!

Ele era maravilhoso. Era um amante maravilhoso.

Incr�vel, incans�vel...

Ele era fant�stico.

Estraguei tudo. A perdi. Vou v�-la novamente?

PREFEITURA DE BUFFALORA

Ei, Franco!

Franco � a �nica pessoa viva que sequer me liga.

Passo pelo seu escrit�rio para me lembrar como ele �.

Voc� n�o pode viver s� com mem�rias.

� para voc�. Assine, como sempre.

Tem uma caneta?

- N�o. - Um segundo. Aqui est�.

- Teve visitas ontem � noite? - Duas, sim.

Todo esse trabalho extra. Eles deviam me pagar a mais.

- Conte ao Prefeito. - Contar, e ent�o? Eles fecham o cemit�rio.

- Adeus emprego e adeus casa. - Vamos, quem acreditaria em voc�?

N�o me importa se n�o acredita em mim. N�o � voc� quem me paga.

Eu acredito.

- Voc� est� certo. Pelo menos pe�a hora-extra. - Boa!

- Vamos ao Prefeito, ent�o. - N�o � t�o f�cil.

Primeiro, voc� tem que preencher um formul�rio M3.

Se apresente com um formul�rio M3... Formul�rios...

- Posso acelerar as coisas para voc�. - � mais f�cil atirar neles.

Um formul�rio M3.

- Vamos trepar hoje � noite? - Alguns de n�s, sim.

Tem um momento que voc� percebe que conhece mais gente morta do que viva.

Desculpe pelo outro dia, eu fui grosso. N�o era a inten��o.

Meu nome � Francesco Dellamorte.

Esse � o �nico emprego que consegui, mesmo com diploma em Biologia.

De qualquer maneira, vamos todos terminar aqui mais cedo ou mais tarde, n�o?

Eu tenho uma casinha legal. Quer ver?

N�o vivo sozinho. Tenho um ajudante, Gnaghi.

Ele � muito bom de conversa.

O cemit�rio � pequeno, mas tem um oss�rio maravilhoso.

Um oss�rio!

Eu nunca vi nada t�o excitante.

Nem eu.

- � como nos meus sonhos! - Esse � o meu sonho.

- N�o poderia pedir por nada mais. - Nem eu.

Sabe, voc� tem realmente um belo oss�rio.

Obrigado.

Voc� vai permitir que eu volte, n�o vai?

- Vai me permitir beij�-la uma vez, n�o vai? - N�o.

N�o dessa maneira.

Dessa maneira.

N�o!

Devo ser fiel � mem�ria de meu marido.

N�o posso! N�o posso!

N�o � minha culpa. � este lugar.

Sinto calafrios estranhos. N�o � o frio, n�o estou com medo.

Este lugar quer que eu... Est� me for�ando...

Eu n�o quero!

Eu n�o quero!

Eu n�o posso!

Eu n�o posso!

N�o! N�o!

N�o tenha medo. � s� fogo f�tuo.

Porque aqui? Porque na sepultura de seu pobre marido?

Nunca escondi nada dele. Confi�vamos um no outro implicitamente.

Ele gostaria de saber.

Bem, se � o caso...

- Essas luzes! - Deixe-as observarem.

O que � melhor que observar dois amantes fazendo amor?

S� para ter um pouco de privacidade.

Desculpem, a senhorita quer s� as luzes das estrelas.

Nunca foi assim antes. Com ningu�m, exceto voc�.

Ningu�m vai nos separar.

Gnaghi, a arma!

Eu posso explicar, me escute! Voc� sempre foi t�o compreens�vel!

Assim � a vida.

N�o � nada, meu amor. Voc� est� bem.

- �timo! S� quando n�o preciso mais! - Gna...

N�o fique a� parado, v� chamar o Dr. Vercesi!

V�, busque o doutor! Vamos, mexa-se!

Nada vai nos separar. Eu juro. Nada!

Nada vai nos separar.

Nada, meu amor. Nada!

- Nem mesmo a morte. - Nem mesmo a morte.

Dellamorte? Voc� est� a�? Dellamorte!

Jesus, voc� me assustou!

- Est� me procurando, Chefe Straniero? - Dr. Vercesi ligou.

- O que aconteceu ontem � noite? - Por que me pergunta? Ela est� morta.

Eu sei que est� morta, mas como isso aconteceu?

- Seu marido. - Claro!

Ele voltou dos mortos, a estuprou e espancou at� a morte, certo?

- N�o, ele n�o a estuprou. - Voc� sempre me surpreende, sabia?

- Dr. Vercesi, est� nos espionando? - Aqui est� o certificado.

Seu cora��o parou de medo, n�o foi uma mordida que a matou.

Ela morreu enquanto fazia... Voc� sabe, fazendo aquilo.

Sabe o que isso significa, meu rapaz?

Vou ter que procurar em outro lugar o anormal que a matou.

- Voc� n�o � mais suspeito. - Porque n�o?

Voc� sabe o que quis dizer. Olhe, n�o me fa�a falar.

Vamos, pode falar. N�o me importo. Sou impotente!

N�o use essa palavra. Um homem jovem como voc�, na sua idade!

- Ela deixou herdeiros? - N�o. Sem herdeiros, sem amigos.

Bem, vou ter que dizer... Merda! Definitivamente isso n�o � meu estilo.

- Posso mant�-la aqui? - Se pagar pelo funeral,

pode fazer o que quiser com ela.

- Isso finaliza? - Mas um assassino est� � solta.

O tempo est� mudando, finalmente.

N�o posso me perdoar por ter mentido para voc�.

N�o tenho diploma em Biologia.

Nem mesmo terminei o Segundo Grau.

N�o li mais que dois livros em toda a minha vida.

Um... eu nem terminei.

O outro � uma lista telef�nica.

N�o quero que ela se torne uma Retornada.

N�o quero v�-la novamente.

- N�o! - Sim, meu amor.

- N�o me obrigue a fazer isso. - Mas voc� faz t�o bem!

- N�o com voc�. - Vai ser melhor com voc� do que com outros.

Gna?

Voc� faz.

Vamos! Se terminar r�pido, eu te compro um sorvete.

L� vai o Imperdo�vel!

O homem cujo pau � t�o pequeno que ele precisa de pin�as!

Assim que se faz!

- Ele podia virar mulher. Isso resolveria! - Voc� pode costurar de volta!

Eles podem costurar, se voc� tiver um.

Esque�a, eu comecei o boato.

Quanto mais eles riem, mas al�m eles parecem.

Voc� n�o pode ser t�o diferente, Gnaghi.

- Talvez voc� possa. - Engenheiro!

Engenheiro! Venha, sente-se.

- Ora, ora. Que surpresa. - � um milagre v�-lo aqui.

� um milagre v�-lo aqui, Sr. Prefeito.

Ent�o, como est�o as coisas em nosso cemit�rio?

Como acha que est�o? A popula��o est� encolhendo.

Voc� � sortudo, querido Engenheiro.

N�o pode imaginar como as coisas s�o na Prefeitura.

Agora que as elei��es est�o chegando, � o caos! Certo, Inspetor?

- Ningu�m quer perder seu emprego. - Estava querendo um novo acordo.

- Papai, o que � isso? - Esse � meu assistente, Gnaghi.

Ele � lindo! Vai compr�-lo, papai?

Que legal! Isso sabe at� chorar.

Gnaghi, n�o fique t�o perto dela. Pode se afastar, querida?

- Pode falar para sua filha se afastar? - Sim, claro.

- �s vezes, Gnaghi fica um pouco agitado. - Tenho certeza que ele est� bem.

- O que ele est� fazendo? Dan�ando? - N�o, ele est� prestes a...

- O que voc� est� fazendo, Valentina? - Ele vomitou em mim, Claudio!

Novidade. Quer passear?

Sabia que ia entender.

Arranque!

A prop�sito, um dia desses tenho que te falar desse cemit�rio.

A juventude de hoje. Eles s�o t�o emocionais!

Vamos, Gnaghi, entre, pelo amor de Deus! Entre no carro!

N�o � o fim do mundo. Isso nem a incomodou!

Ela entendeu que isso era s� uma demonstra��o de sua afei��o.

N�o � a primeira vez que voc� vomita em uma mulher, �?

Vamos, Gnaghi, entre!

Olhe, primeiro amor n�o conta. � o �ltimo amor que conta.

Ningu�m veio hoje. Foi um pouco tedioso. Nem mesmo o almirante.

Ele desapareceu! Vamos esperar por amanh�.

- Volte e fique por um tempo. - Ele era um homem muito distinto.

Ele costumava sempre me trazer um pouco de Sambuca.

Vamos, Gnaghi! Voc� vai superar, vai ver.

O tempo passa, nada parece igual.

S� piora!

Meu Deus, � sempre t�o dif�cil tentar fazer com que voc� fique melhor?

O que faria com a filha do Prefeito? Ela � s� uma crian�a!

Isso n�o � verdade.

Voc� n�o � uma crian�a. Voc� � um ano mais velho que eu.

De qualquer modo...

Um dia voc� vai se arrumar com uma pobre criatura como voc�.

Porque se preocupa? Eles v�o terminar aqui, cedo ou tarde.

Mais cedo do que tarde.

Mais r�pido! Acelera!

- Se papai pudesse nos ver agora... - Ele me mataria.

Claudio! Vamos embora!

Vamos! Vamos!

- Se segure! - Coma poeira!

Quatro motos, a filha do Prefeito estava em uma delas.

Sua cabe�a se separou do corpo, e tivemos que costurar de volta.

As motos bateram em um �nibus lotado de escoteiros

em seu caminho de volta da igreja.

Um massacre de inocentes! E eles eram todos t�o novos...

Sentiam que tinham vida pela frente, mas ela estava passando por eles.

- Bem, estamos bem ocupados. - Mais do que imagina.

Gnaghi, vamos precisar de muitas balas.

Claudio, me leve com voc�! N�o me deixe sozinha!

Me leve com voc�, meu amor!

N�o, minha querida. Meu filho n�o estava com voc�!

- Ele estava prometido para a filha do Prefeito! - Mas ele me amava!

- Mentirosa! - Ele era meu, me amava, somente eu!

- Voc� n�o tem respeito por uma m�e? - N�s nascemos para morrer.

Nascemos s� para morrer. Lembra?

Ainda ontem ela estava viva, feliz. Lembra?

Gnaghi at� vomitou nela, e ela encarou t�o bem isso.

E agora, ela se foi. Bem nas v�speras das elei��es!

Melhor pegar a picareta e a p�.

Querida, como p�de fazer isso comigo?

� verdade que os mortos voltam � vida aqui � noite? Diga!

- Quem te contou isso? - � verdade ou n�o?

- E se for? - Tenho que ver Claudio novamente!

- Tenho que saber se ele amava a mim ou a ela. - Se ouvir algo, eu te conto.

- N�o, espere! - V� embora! N�o tenho tempo para os vivos.

Gnaghi?

Gnaghi, eles voltaram mais cedo do que pens�vamos!

Gnaghi, acorde!

Gnaghi, cuidado!

Gnaghi, desculpe. N�o quis fazer isso.

� isso, o tempo acabou. Quero voc� l� em cima pronto em cinco minutos, ok?

N�o! O que ela est� fazendo aqui?

- O hor�rio de visita terminou! - Ningu�m vai me separar dele!

- Saia daqui, r�pido! - N�o, Claudio!

N�o, Claudio! Me leve com voc�!

Garota est�pida.

Vamos!

Por favor, espere!

Claudio, por favor, me leve com voc�! Diga que voc� me ama!

Por favor!

Claudio?

Voc� ama s� a mim, certo?

Droga! Sempre atiro para a direita quando est� frio.

Gnaghi!

N�o, pare! Ele s� est� comendo!

- Se afaste. - N�o se meta, vou ser comida por quem eu quiser!

Esse assunto � meu, eu sou pago para isso.

Os mortos vivos ou os vivos mortos s�o todos iguais.

S�o a mesma coisa.

Mas cuidar dos mortos � um servi�o p�blico.

Al�m do mais, voc� ter� problemas se matar algu�m quando ainda est� vivo.

Espere.

Dessa maneira, eles v�o ficar juntos para sempre.

Sou sentimental.

Paci�ncia, Gnaghi. No amor, a espera � a melhor parte.

Voc� tem que aprender a esperar.

Qual o seu nome mesmo? Gnaghi.

Sou Valentina.

J� n�o te vi antes?

Sim, agora me lembro. Voc� vomitou em mim. Que gracinha!

Mas eu gosto de rapazes t�midos. E voc� nunca recusa um beijo.

Tire vantagem. N�o estou em posi��o de recusar.

Alem disso, n�o acho que fosse recusar mesmo...

Alarme falso!

Era s� um gato.

N�o adianta voc� tentar me ajudar, pequeno.

Se eu n�o consigo, imagine voc�!

Arrumar esse cr�nio

� uma das coisas mais dif�ceis do mundo.

Sabe, voc� � bem nojento quando come, Gnaghi.

Sim, voc� est� certo. Tudo se mistura no est�mago depois.

O que � isso?

N�o era um gato...

N�o podemos! Estou vivo...

E voc� est� morta.

N�o tenho preconceito, meu amor.

Eu a matei.

Eu a matei!

Eu a matei.

A primeira vez, quando seu marido a mordeu, ela n�o estava morta de verdade.

Quando ela acordou e atirei nela, ela estava viva.

Eu a matei. Eu matei a �nica mulher que amei.

Atirei de olhos fechados, n�o mirei na cabe�a.

Por isso ela voltou. Deus, que idiota!

Agora estou infectado tamb�m. Vou ser um Retornado quando morrer?

Quem sabe se o Gnaghi...

N�o, pobre Gnaghi.

Ele nunca teria coragem de arrebentar minha cabe�a com uma p�.

N�o estou morto, seu idiota! Uma mordida n�o pode te matar!

Bom dia, Engenheiro!

Sra. Chiaromondo, eu n�o sou um engenheiro.

- Voc� � ou n�o � o zelador desse cemit�rio? - � claro que sou.

Ent�o voc� � um engenheiro. A prop�sito...

Qual dessas voc� acha que ficaria melhor em minha l�pide?

- Ambas. - Gosto da opini�o de um homem bonito e jovem.

At� logo, Engenheiro!

Bom dia, gracinha!

Mas essa � a lista telef�nica! Est� maluco?

Essa � a minha leitura favorita!

S� porque temos as recentes, mas n�o precisamos jogar as antigas fora.

Esses livros s�o cl�ssicos!

- Gnaghi! - Gna!

Pare de matar os mortos. Eles s�o meus.

Se n�o quer que os mortos voltem � vida,

porque n�o mata os vivos, atirando nas suas cabe�as?

Est� me ouvindo?

- Al�? - Aqui � a Prefeitura.

- Franco, como est�? - Entediado. Estou te incomodando?

- N�o, voc� nunca incomoda. - S� liguei para falar sobre o esc�ndalo.

- Gnaghi, a porta! - Toda essa porcaria. O que me diz?

- Mas que diabos foi isso? - Nada, s� estou trabalhando.

- O qu�? - Voc� sabe, a labuta di�ria.

Se est� dizendo. �s vezes sinto como se estivesse atirando em mim mesmo.

Como est� tudo em sua vida? Como est�o as queridas Mara e Cinzia?

�s vezes eu penso se elas existem mesmo, Franco.

Digo, voc� tem mesmo uma esposa e filha, n�o tem?

S� pergunto por que �s vezes acho que voc� inventou tudo isso.

Franco, voc� me faz rir.

Voc� vai sair um dia.

- Buffalora vai ser s� uma lembran�a ruim. - �, ou talvez n�o.

Se eu conseguisse me soltar. Me sinto como uma mosca num papel pega-moscas.

Voc� vai ver, Franco.

Mara vai se cansar de voc�.

E Cinzia vai crescer e te odiar. E ent�o voc� ser� livre.

Livre para ver como � o resto do mundo.

Como acha que � o resto do mundo?

- O resto do mundo? - Isso.

Quem sabe se o resto do mundo existe?

�s vezes estou � frente do meu trabalho.

Trabalho!

Dellamorte!

Dellamorte!

Gnaghi!

Francesco Dellamorte...

Onde voc� estava entre 11 e 12:30 ontem � noite?

Na cama.

Alguma testemunha?

Estava falando com meu amigo Franco no telefone e acabei dormindo.

- Porque? O que aconteceu? - Algum man�aco matou sete pessoas na cidade.

Mais trabalho.

Bem, voc� vai ter que ir para a cadeia se n�o tiver um �libi.

- Porque eu? - Seu carro foi visto pelas ruas ontem � noite.

- Imposs�vel. Ningu�m dirige aquilo a n�o ser eu. - Na verdade...

N�o acho que foi voc�. Acho que foi seu assistente.

- Gnaghi n�o pode nem andar de patins. - Nem eu, e ent�o?

Quero question�-lo imediatamente.

Deus, o tempo mudou r�pido.

Por favor...

- Deixe-me falar com ele antes. - Diga-lhe que venha de imediato, tudo bem?

Voc� n�o limpa nunca esse lugar? Jesus Cristo, isso fede!

Quando tudo est� triste, quando est� sozinho, fica tudo ruim.

Voc� espera pelo amor novamente, para sentir a batida do cora��o.

Gnaghi!

Tive um sonho horr�vel: estava na cidade e matei sete pessoas de verdade.

Ei, lembra de mim?

Dellamorte! Voc� tem visita importante!

A� vem o tempo onde tudo est� triste, quando est� sozinho, fica tudo ruim.

Entenda, Engenheiro, depois desse massacre, os eleitores est�o furiosos.

Eles t�m votado em voc� por quinze anos.

Se n�o acharmos esse man�aco, Straniero, n�o haver� um d�cimo sexto.

O que sua filha tem a ver com isso?

A cidade inteira est� de luto. Vou lhes mostrar que estou tamb�m.

Vou tirar algumas fotos do corpo

e colocar bem grande nos p�sters da minha campanha.

E em baixo, alguma coisa assim: "Se voc� teve morte na fam�lia,

vote em algu�m que sofre como voc�."

- O que acha? - Bem, sabe, � uma id�ia.

Ou: ''Vote em um homem que perdeu qualquer outra felicidade.''

Pronto para clicar?

O que eu fa�o? Tiro uma do pesco�o para baixo?

Engenheiro! Qual o significado disso?

Papai! Papai!

- Ouviu isso? - N�o sei, depende.

Papai! Papai!

Valentina! Querida!

- E a trama se fecha. - Querida, onde voc� est�?

Onde voc� est�?

Seu pai est� aqui!

- Onde voc� est�? - Pare de falar e entre!

Indo.

Aqui estou, pequena.

- Jesus, est� fedendo aqui. - � minha culpa, papai.

Meu Deus! Valentina!

- O que voc� est� fazendo na TV? - Estou apodrecendo r�pido, papai.

Voc�, monstro nojento! Foi voc� que machucou minha garotinha!

- N�o, ele me ama! - Para tr�s. Eu ordeno, como seu Prefeito!

Com seu consentimento, gostaria de me casar com Gnaghi.

- Essa coisa horr�vel? - Eu n�o sou grande coisa tamb�m, papai.

- N�o enquanto eu respirar. - Tudo bem.

Vamos resolver isso agora mesmo.

- Me ajude, Engenheiro! - Eu n�o sou engenheiro.

Desculpe, Gnaghi.

Ela estava come�ando a ficar um pouco al�m, n�o estava?

Ele est� morto?

- Ele est� morto. Quem mordeu seu pesco�o? - N�o foi eu ou Gnaghi.

Tire um molde de nossa arcada. Vai ver que n�o batem.

- Quem fez isso? - Relaxe, n�o vai ser o primeiro caso sem solu��o, vai?

Esperem!

Vamos, Gnaghi.

O mundo est� cheio de garotas como essa. E elas tem corpo tamb�m.

Ali�s, sabe qual era o nome de solteira da minha m�e?

Nunca acreditaria se eu contasse.

Ela se chamava Dellamore. Dellamore.

Significa "amor".

Voc� n�o � a �nica pessoa no mundo que perdeu um amor.

Des�a!

- O que est� pensando? Des�a! - Esque�a, Engenheiro.

- V� para casa. - Voc� devia dar o exemplo. Volte para seu caix�o!

Voc� n�o pode me deter. Voc� deve seu emprego a mim.

- Lembra? - Volte ou eu vou atirar.

Voc� n�o pode. Eu sou o Prefeito!

Ex.

- Sr. Dellamorte? - O qu�?

Sou Civardi, o novo Prefeito.

- Porque o arame farpado? Entram � noite? - N�o.

- Eles saem, �s vezes. - Se importa de descer?

Voc� reportou uma epidemia que afeta os mortos.

Afirma que eles voltam � vida ap�s sete dias do enterro.

- � o que diz, bem aqui. - Um formul�rio M3.

- Voc� n�o o preencheu? - N�o.

Espl�ndido!

Ent�o vai nos fornecer um negando isso.

Assine aqui.

Franco deve ter enviado. Que boa ideia.

Nada aconteceu. Nada nunca acontece.

Se a imprensa sabe dessa hist�ria, Buffalora seria motivo de risadas,

e voc� perderia o emprego.

Minha secret�ria pessoal.

- Sr. Dellamorte. - Um prazer, Sr. Dellamorte.

Obrigado.

Voc� e eu vamos nos dar bem. Adeus.

Seu nome. N�o pedi seu nome!

Vou v�-la novamente?

Ol�!

Meu Deus!

Desculpe.

N�o quis assustar.

Estava esperando outra pessoa.

Senhorita. Senhorita.

Desde que cheguei na cidade, coisas estranhas tem acontecido comigo.

� como se eu j� tivesse estado aqui antes.

E essa sepultura, e voc�, Sr. Dellamorte.

� como se j� o conhecesse.

� como se eu te amasse h� tempos.

Voc� me ama, tamb�m?

Porque? Tem mais algu�m?

Eu tamb�m te amo.

Eu te amo, eu te amo!

Ouvi o que falam de voc� nessa cidade. � verdade que voc�...

Quero dizer, que voc� n�o pode...

- N�o, � boato da cidade. - Porque eu s� posso amar um homem impotente.

Sim, � verdade.

Eu gosto de homens,

mas a virilidade me aterroriza.

N�o aguento pensar em ter um...

Quero dizer, voc� entende...

- � um tipo de fobia que eu tenho. - Eu n�o tenho uma.

N�o tenho nenhuma mesmo.

Casa comigo?

Vou me casar.

Vou mesmo me casar. N�o finja que n�o escutou tudo.

�? Porque n�o? V� em frente, explique...

- Meu Deus! O que est� falando? - Voc� me escutou.

Meu querido, voc� deve ser bem para baixo, vou te dar umas p�lulas.

Dr. Vercesi, estou falando s�rio.

Olhe, n�o vou ser intimidado em meu pr�prio consult�rio.

- A sala de espera est� cheia de pessoas doentes. - Eu vou pagar.

Sim, eu sei, mas...

Como posso? Quero dizer, todo mundo sabe que...

voc� n�o tem um.

Entendo. Voc� tem um.

Quando voc� quer que eu te alivie do seu...

- ...problema? - Agora.

O que est� esperando? Comece logo!

E agora o que?

J� disse. N�o quero anest�sico.

- Isso n�o � anest�sico. - O que � isso, ent�o?

Uma dose disso, e vai ser como se nunca tivesse tido um.

Dura por um m�s. Veja...

Por favor, n�o me fa�a cortar fora. Hoje n�o estou disposto a isso.

O que est� fazendo? Se virando?

- Tenho que te dar a dose na frente. - Na frente onde?

Fique parado, vai fazer s� um furo.

Maldito a�ogueiro. Deve ter me dado algum tipo de infec��o.

Gnaghi, estou entre a vida e a morte.

Sim, voc� est� certo. Suponho que estou acostumado a isso.

� ela. N�o a deixe entrar. Diga que n�o estou aqui.

N�o quero que ela me veja assim.

Preciso ver o Sr. Dellamorte. Tenho que falar com ele. Ele est� a�?

Daria minha vida para estar morto.

Gnaghi, n�o est� doendo mais! Acho que estou melhor.

Quando isso aconteceu?

Ela era nossa melhor cliente. Os melhores sempre morrem primeiro.

Onde esteve?

Pensei que fosse enlouquecer. Se soubesse o que me aconteceu.

Se soubesse o que me aconteceu.

Preciso falar com voc�.

- Vamos ficar sempre juntos. - Sim, meu amor, sim.

- N�o sei como dizer, mas o Prefeito me estuprou. - N�o!

Espere! Eu gostei. N�o a viol�ncia, n�o.

Mas depois disso, fizemos de novo, direito. Ent�o eu o perd�o.

Foi maravilhoso! Entendeu?

Significa que estou curada. N�o tenho mais a fobia.

N�o posso casar com voc�, agora.

Vou casar com ele. Isso n�o significa nada, ali�s.

Nada mudou entre n�s. Eu ainda te amo.

Voc� sabe disso. S� te amo de uma maneira diferente.

Mas voc� � importante para mim. Ele sabe. Digo, sobre eu e voc�.

Ele � um homem maravilhoso. Disse que est� feliz que possamos ser amigos.

Ainda podemos nos ver. Nada mudou.

Tudo como era.

Tudo!

Voc� procura pela Morte em plena luz,

voc� diz que ainda a ama.

Que voc� � seu escravo, que ela ainda � sua rainha.

Morte, Morte, Morte, a meretriz.

N�o, eu s� fa�o isso por medo.

Voltaria s� para experienciar o mesmo medo novamente.

Temer, sempre temer.

Ol�!

Essa BMW branca ali fora � sua?

Estamos a p�. Poderia nos dar uma carona?

N�o � muito longe.

Vamos!

Sou Magda.

E essa � Laura.

O qu�o distante �?

� aqui que vivemos. Com outra amiga.

Quer entrar para um drink?

Vamos, n�o est� com medo de duas colegiais, est�?

Fa�a um desejo. Eu realizo desejos.

Quero que se apaixone por mim.

Mas j� estou apaixonada por voc�. N�o percebeu?

Est� frio aqui!

Se quiser se lavar, tem uma pia ali.

N�o quis dizer o seu rosto, bobo.

N�o sei se consigo fazer isso. Tenho tomado um rem�dio.

N�o acho que seu rem�dio esteja funcionando.

Voc� me ama?

Sim, se voc� ficar a noite toda.

A vida toda, tamb�m.

Vamos!

Vamos descansar um pouco. Voc� j� fez tr�s vezes.

Duas. A terceira foi falsa.

Ela est� dormindo. Est� estudando o dia todo. Ela tem um exame amanh�.

- S� queria pegar um pouco de vinho. - Sente, eu vou pegar.

Laura disse que voc� pode me pagar?

- Te pagar? - Escola � cara, meu amigo.

- Eu tenho que te pagar? - N�s n�o temos bolsa.

Al�m disso, s�o s� L$100.000.

Ela disse que me amava.

S�o L$ 150.000.

- Ela quis que eu passasse � noite. - L$200.000.

- Pode ser cheque? - � dinheiro, n�o �?

R�pido, querido.

Estou com frio. Venha e me aque�a.

Preciso do seu calor.

Me esquente.

Estou indo, amor.

Agora voc� vai ficar quente para sempre.

Agora estou mesmo farto de amor.

Aposto que ia querer saber onde estava de 1h �s 3h noite passada.

Eu sei, aqui estamos.

N�o vou contar a ningu�m sobre esse cheque. Foi por isso que vim aqui.

Somos ambos homens de palavra, n�o somos?

- Mas isso � uma prova contra... - Quem? N�s pegamos o safado.

Ele botou fogo na casa, voltou e matou sua esposa e filha.

E ent�o se entregou. Est� no hospital, na ala psiqui�trica.

Algu�m roubou meus crimes.

Senhor?

- Com licen�a, esse setor � fechado ao p�blico. - Eu vim para ver o assassino.

Mas voc� n�o pode entrar. Ele est� em coma.

- Ele bebeu uma garrafa de iodo. - Tenho que tirar suas medidas.

Franco!

Voc� parecia bem melhor da �ltima vez que falamos ao telefone.

Ladr�o.

Voc� � um ladr�o.

Voc� pode ter matado sua esposa e filha, seu m�rito.

Mas foi eu quem pegou tr�s garotas!

O que est� fazendo, roubando meus assassinatos?

Que tipo de amigo voc� acha que �?

Imagino que ache que est� me fazendo um favor.

- Apague isso imediatamente, � proibido fumar aqui. - Cale a boca.

Ele est� em coma, n�o vai nem notar.

Merda!

O que disse?

Tudo � uma merda. A �nica coisa que n�o � uma merda � dormir.

- O que est� fazendo no ch�o, Irm�? - Ela est� rezando.

Amigo seu?

Olha, ele n�o tem parentes, e seu coma � irrevers�vel.

- Me d� sua assinatura e eu desligo os aparelhos agora. - V� se foder!

Aqui est�, tome.

N�o vou te deixar morrer at� voc� me dar uma explica��o.

Porque roubou meus assassinatos?

N�o acha que qualquer coisa que eu fa�a conte?

- Meu Deus, o que aconteceu? - Eles se mataram.

Foi um acerto de contas.

- N�o acredita em mim? - N�o.

- Dureza. - N�o!

Desculpe por isso.

Ent�o, n�o tem nada a dizer para seu �nico amigo?

Quem � voc�?

Eu n�o te conhe�o. N�o sei quem voc� �.

V� embora. V� embora!

Dellamorte, espere! Pelo amor de Deus, espere!

Outro man�aco est� � solta. Est� no quarto andar matando pessoas.

J� atirou em tr�s. Voc� tem uma arma. �timo, ent�o pode se defender.

Ou�a meu conselho e d� o fora daqui. R�pido!

Straniero! Fui eu!

Voc� e eu somos iguais.

N�s matamos sem indiferen�a.

Sem amor, algumas vezes.

Mas nunca sem �dio.

Agora n�o sei quem est� morto e quem est� vivo.

Estou cansado de matar.

Estou saindo do jogo, irm�o.

Dellamorte Dellamore d� adeus e est� seguindo seu caminho.

Para onde?

Melhor dar o fora daqui.

At� as est�tuas est�o falando.

Onde pensa que est� indo,

se n�o consegue ver a diferen�a entre a Vida e eu?

Gnaghi, voc� n�o vai trazer isso.

Esse caix�o n�o vai com a gente.

�, errei esse. N�o se preocupe, pegamos o pr�ximo.

Fique calmo, conhe�o cada solavanco dessa estrada.

Eis um.

Veja.

Nunca estive t�o longe.

Conseguimos, Gnaghi.

Quem poderia imaginar isso?

Mais largo que todas as ruas de Buffalora juntas.

Parece n�o terminar nunca.

Se segure, Gnaghi.

Depois desse t�nel est� o resto do mundo.

Com o que acha que o resto do mundo se parece, Gnaghi?

Pode imaginar?

Voc� est� certo. Est� al�m da imagina��o.

Devia saber disso.

O resto do mundo n�o existe.

Gnaghi!

Gnaghi, n�o foi atingido t�o forte, vamos! Vou lev�-lo para o carro. Vamos.

Por que est� assim? Vamos, homem.

Levante, vou te levar at� o carro. Vamos, homem.

Levante.

O qu�? Gnaghi!

Gnaghi!

N�o me deixe sozinho agora. Gnaghi.

Meu Deus!

Morte, Morte, a Morte vem sorrateira,

Morte imunda, o palha�o delirante,

Morte alada, Morte de surpresa,

mal entranhado de olhos horr�veis.

Morte que nasce enquanto a Vida sucumbe,

enquanto Morte e Amor, dois tambores do mesmo tipo,

marcam o tempo at� o Dia do Julgamento, um ator numa pe�a apaixonada,

sem in�cio, sem fim, para sempre, am�m.

Voc� � meu melhor amigo.

Eu nem me dei conta.

Pode me levar para casa, por favor?

Gna.

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