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A verdade � silenciosa,
fica oculta nos cantos mais obscuros da mente,
esquecida em antigos artigos jur�dicos,
encoberta em princ�pios confusos
ou apenas presa por repress�o ou ignor�ncia,
como se fosse um desses animais que hibernam muito tempo,
mas continuam vivos.
VERDADE OCULTA
N�o pensam. Sentem.
Como em "As Mil e Uma Noites".
S� seguem os caprichos da vulva.
Voc� ri porque tenho raz�o.
Mulheres n�o s�o boas nem m�s,
apenas s�o assim, extremas.
Quando est�o apaixonadas, s�o capazes de cruzar o oceano
para transar com algu�m.
Mas, quando o amor acaba, voc� n�o existe mais.
Elas veem voc� sedento no deserto
e oferecem aliche em vez de �gua.
� impress�o minha ou...
apesar das piadas, voc� est� bravo com ela?
N�o estou bravo.
Decepcionado.
Talvez tenha criado expectativas demais.
Mas n�o quero sofrer.
Ela se foi. Outras vir�o.
Felizmente, um cara como eu
tem mulher de sobra, n�?
Bom...
Parece que o problema n�o s�o as mulheres que tem de sobra,
e sim a �nica que est� faltando.
Apesar das piadas, � isso que incomoda voc�.
-At� a semana que vem? -Tchau. At� l�.
-Quem � aquela garota? -Se chama Paula Vanussi.
Foi indicada pelo Cigano. Disse que era urgente.
Lembra que voc� me pediu para encaix�-la?
Lembro.
-Voc� parece cansado. -Um pouco.
Tome. � para voc�.
E para Fernando.
Obrigada.
Deixe-a entrar e pode ir. Est� tarde.
-Tem certeza? -Tenho.
-At� amanh�. -At�.
Primeiro quero agradecer por me atender de �ltima hora.
N�o precisa agradecer.
Imagino que tenha lido jornal nas �ltimas semanas.
N�o. Voltei agora de viagem e estou desinformado.
Mas o que as not�cias t�m a ver com voc�?
H� uma semana, encontraram o corpo do meu pai
num lago na beira da estrada.
-Sinto muito. -Se chamava Roberto Vanussi.
Era um empres�rio importante, ent�o essa morte virou not�cia.
Entendi.
N�o, acho que n�o entendeu.
N�o sou uma garota inconsol�vel com a morte do pai.
-Espero n�o decepcion�-lo. -N�o decepciona.
Faz tempo que aprendi que nada � o que parece.
Mas conte por que est� aqui.
Quero que voc� ajude o assassino do meu pai.
Desculpa, n�o...
Acho que n�o entendi.
Voc� quer ajuda para quem matou seu pai?
Por que voc� quer isso?
Porque � meu irm�o.
Al�.
Al�. Sou eu. Alejandra.
Sei quem �.
Sabe que dia � hoje?
N�o.
Se voc� quer tanto saber,
olhe no calend�rio, em vez de ligar a esta hora.
Hoje faz um ano que n�o nos vemos.
Voc� decidiu me deixar
e foi morar nesse povoado a 1.000km de dist�ncia.
Sente saudade?
Por que ligou?
N�o sei. Deve ser a data.
Ou vai ver eu queria escutar voc�.
-Voc� esqueceu uma calcinha. -Voc� a vestiu?
Ainda n�o.
Pedi para n�o me ligar mais, lembra?
Tudo bem. Vou desligar.
Faz um ano que voc� partiu.
Dr. Rouviot?
Bom dia. Tenho reuni�o com o dr. Rasseri.
Paula Vanussi avisou da sua vinda.
-Isso. -Venha comigo, por favor.
-J� conhecia a cl�nica? -N�o.
Recebi alguns convites, mas nunca pude vir.
Rasseri disse que chamou voc� para dar palestras.
-�. -Por aqui.
Li todos os seus livros.
Adoro sua explica��o de Lacan. Parab�ns.
Obrigado.
Entre.
Com licen�a. � o dr. Rouviot.
Claro. Eu o estava esperando.
-Muito prazer. Sente-se. -Obrigado.
-Quer beber algo? -Caf� puro e sem a��car.
-Luciana. -Puro e sem a��car.
-Ela � bonita, n�o acha? -Talvez.
E admira muito voc�.
Ficou nervosa ao saber da sua vinda hoje.
Est� come�ando na psicologia, e seus livros a atra�ram muito.
N�o tenho uma obra t�o extensa e importante...
Mas incomoda alguns colegas.
N�o sei como surgiram tantas divis�es...
Gest�lticos, sist�micos, cognitivos,
e voc�s, � claro, psicanalistas.
� como a elite da psicologia
olhando com desprezo para o resto,
inclusive para n�s, psiquiatras.
Quero crer que essa pol�mica ficou no passado.
A verdade � que respeito muito o trabalho que fazem aqui.
E sabe o que fazemos aqui?
Voc� � mais jovem do que pensei.
Obrigado. Vou tomar como elogio.
Claro. Me diga como posso ajud�-lo.
Fale mais sobre Javier Vanussi.
Claro, mas posso fazer uma pergunta antes?
Claro.
Por que se envolveu nesse caso?
Acredite, tamb�m n�o sei.
Paula Vanussi me pediu para testemunhar como especialista.
O que ela quer que voc� fa�a?
Um parecer que declare o irm�o como inimput�vel,
mas, antes, quero ver do que se trata.
Paula Vanussi, outra mulher bonita.
Voc� me parece suscet�vel � beleza feminina.
Tome cuidado.
Isso ainda pode causar problemas.
Obrigado pelo conselho. Teria sido �til h� uns anos.
Agora j� � tarde.
Voltando ao caso, posso ver o hist�rico do Javier?
N�o.
Vou fazer algo melhor que isso.
Esse � Javier Vanussi.
-Parece apenas um garoto. -Isso, mas tem 22 anos.
Eu o conheci h� mais de 10 anos, e j� tinha problemas.
Sen�o o pai n�o o teria mandado para c�.
Mas era s� um garoto, ent�o tinha esperan�a.
O pai o mandou ou veio traz�-lo?
Em todos esses anos, nunca fez uma visita.
Ligava �s vezes e pagava em dia.
Mas o garoto n�o vinha sozinho.
Claro que n�o.
�s vezes, Paula o trazia, mas geralmente era Francisca.
-Francisca? -A empregada da casa.
� quase uma m�e substituta,
pois a m�e das crian�as morreu faz tempo.
Nesses casos, � comum vermos
pais fracassados e m�es ausentes.
-A m�e do Javier era ausente? -Victoria Pe�a era especial.
Amava os filhos, mas estava apaixonada pelo homem errado.
-E quem era o homem errado? -Roberto Vanussi, o marido.
Esse estado dele � induzido por medica��o, certo?
Isso. A decis�o foi minha.
-Qual � o diagn�stico? -Personalidade lim�trofe.
-E a sintomatologia? -Ele apresenta n�veis elevados
de irrita��o e viol�ncia.
Javier tem dificuldade em se comunicar.
Apesar disso, se desespera com a ideia de ficar sozinho.
Qualquer coisa pode deix�-lo incapacitado pela ansiedade,
e ele compensa isso com masturba��o compulsiva
ou perigosos ataques de f�ria.
Al�m disso, ele tamb�m toma atitudes de autodestrui��o.
Por que voc� decidiu induzir esse coma?
Depois de muito trabalho, Javier conseguiu melhorar,
mas o surgimento do cad�ver do pai o desestabilizou.
Ele deve ter sentido medo de ser descoberto.
Um dia Paula me ligou para dizer que Javier tentou se matar.
Ela o viu ao chegar em casa,
ca�do no ch�o do banheiro numa po�a de sangue.
Tinha cortado os pulsos, estava sem roupas e ferido.
Autoflagela��o?
Tinha se flagelado com golpes de cinto.
De quem era o cinto?
Do pai dele.
-Pablo. -Oi.
-Caf� puro e sem a��car? -Por favor.
-O chefe n�o est�? -N�o. Est� no hospital.
Deve voltar �s 15h30, 16h... Est� no ensaio.
Certo.
Pode fazer um caf�?
-Esta � a caixa postal de... -Dr. Jos� Heredia.
Cigano, atenda. Preciso conversar.
Com licen�a. Pode fazer uma dedicat�ria?
-Claro. -Obrigada.
-Como se chama? -Selene.
Eu o admiro muito.
-� psic�loga? -N�o, prostituta.
Bom, tamb�m estudo psicologia.
Sabe o que mais admiro em voc�? A paix�o.
Ou melhor, sua obsess�o por descobrir a verdade.
S� que a mentira pode ser poderosa.
O que quer dizer?
� simples: a mentira de que Javier Vanussi matou o pai
nos leva � verdade de que � inimput�vel.
N�o h� julgamento nem investiga��o.
A verdade j� foi dita
e � sustentada por sua preciosa assinatura.
Quem � voc�?
Algu�m que quer fugir do inferno dos Vanussi.
Por que est� me dizendo isso?
Se aceitar o caso e atestar que Javier Vanussi � inimput�vel,
n�o haver� julgamento, investiga��o nem nada.
A m�fia Vanussi cr� que achou o homem certo.
Que seu prest�gio vai encerrar o caso.
Acho que se enganaram.
Sua paix�o pela verdade vai agir contra eles.
Diga que n�o me enganei.
Desculpa, mas n�o entendi. Aonde quer chegar?
Al�.
Tem certeza?
Certo, estou indo.
Meu tempo acabou. N�o sei se eu o convenci,
mas temos um amigo em comum que talvez explique melhor isso.
Que amigo?
Fernando Arana. Pergunte a ele sobre Vanussi.
Adeus.
Espere.
Espere!
Ei!
Espere!
Ei!
N�o a vi! Ela atravessou...
Atravessou de repente. N�o a vi.
Ela atravessou...
Mantenha dist�ncia, doutor. Isso.
Esquerda, direita, embaixo.
Esquerda, esquerda. Mantenha dist�ncia, saia da�.
Levante a guarda!
Chega, chega, parou. Parou.
-O que quer? -Venha.
Vanussi n�o era s� um empres�rio poderoso.
Era tamb�m um lixo.
Um cara sem princ�pios.
O que ele fazia?
De fachada, neg�cios imobili�rios.
De fachada?
Os neg�cios existiam.
-Mas ele n�o fez fortuna assim. -Ent�o como foi?
-Diziam muitas coisas. -Que coisas, Fernando? O qu�?
Tudo de ruim que puder imaginar.
Ei, Fernando!
Quem � Selene?
De onde tirou esse nome?
-Tudo bem, doutor? -Tudo bem.
N�o esfrie. Quero que lute um round antes de ir.
-Calma, Paco. J� vou. -Certo.
Vanussi produzia prostitutas de luxo.
Eram profissionais de verdade.
Bonitas, elegantes, cultas.
Voc� a viu.
-Uma mulher linda. -E voc� n�o viu as outras.
Adolescentes, Pablo. Menores de idade.
Eles as tiravam da pobreza, davam educa��o,
ensinavam a se pentearem, se vestirem, se maquiarem.
Quando estavam prontas,
eram apresentadas em festas de gente importante.
Importante como?
Pablo, n�o sei o que voc� tem a ver com Vanussi.
-Mas tenha cuidado. -Eu? E voc�?
Como sabe tudo isso?
-Como a conheceu? -Por meio de um amigo juiz.
-Quero conhecer esse juiz. -Ficou louco?
Como amigo, n�o como advogado, sugiro que n�o se envolva.
-Quero saber quem matou Vanussi. -Pare. Calma. Pare.
Pronto, doutor. De volta ao ringue.
-Talvez consiga uma revanche. -Valeu, Paco.
Qualquer um pode t�-lo matado.
O chefe desta academia fazia neg�cios com Vanussi.
O dr. Ferro tamb�m tinha, talvez algum paciente seu.
Isso n�o morreu com ele.
Tchau. Eu te ligo quando terminar aqui.
Fa�am um intervalo.
O que foi? Candela me contou.
-No que voc� me meteu, Cigano? -Do que est� falando?
-Paula Vanussi, lembra? -� minha ex-aluna. Linda, n�?
-Estou falando s�rio. -Do que est� falando?
-Sabe por que ela me procurou? -Porque admira voc�.
Achei que precisava de um analista.
Acredita que ela cr� em suas bobagens?
Ela me pediu para testemunhar no julgamento do irm�o.
-O qu�? -J� vou explicar.
-Vamos � delegacia. -Por qu�? Tenho ensaio.
-Vou explicar. Vamos. -N�o estou sozinho.
Venha! As rela��es n�o exigem esfor�o?
Por isso eu o levo comigo. C�ozinho, entre! Isso!
Viu? Ele j� me obedece.
-O nome dele � Peludo. -Peludo? Combina com ele.
Eu gosto.
Vamos deix�-lo em casa para comer, a� sa�mos.
-� cilada. -Que paranoia... Vou te drogar.
-Pare de bobagem um pouco. -� s�rio. Est� exagerando.
A garota Vanussi tem muita grana
e quer pagar pelo seu parecer.
Fim de papo. Por que est� preocupado?
Sabe o que me preocupa?
Hoje uma garota morreu depois de me pedir
para n�o assinar nada. N�o acha estranho?
-Foi um acidente. -Acidente?
�. S� o que � estranho � estarmos aqui
na delegacia a esta hora feito dois idiotas
esperando um cara que n�o tem por que nos atender.
-Ele vai nos atender. -Por qu�?
Porque um juiz mandou.
Sim, senhor.
Senhores, venham comigo.
Quero agradecer por nos receber.
Sei que est� tarde e n�o � hora para falar desses assuntos.
Bom, nenhuma hora � boa para falar de morte.
E acho que voc�s n�o dominam esse assunto.
Trabalhei alguns anos numa UTI infantil.
Vi muitas crian�as morrerem.
Claro, mas n�o tem nada a ver com este outro lado da morte.
-Ent�o a morte tem dois lados? -Tem.
Onde voc� trabalha, os pacientes morrem
cercados de m�dicos, enfermeiros e parentes.
J� os meus mortos se v�o sozinhos e apavorados.
A �ltima coisa que eles veem � a cara do assassino.
Quem �?
Rosa Galvan.
Foi morta aos 26 anos.
Foi estuprada e espancada por um filho da m�e
que n�o teve nenhuma piedade.
Na minha humilde opini�o, acho que est� enganado.
N�o acho que foi um homem que cometeu o crime.
Do que est� falando? A v�tima foi estuprada.
H� provas de penetra��o e vest�gios de s�men.
N�o entendi sua teoria.
N�o me refiro ao estupro, e sim ao assassinato.
H� sinais de �dio, o que indica uma mulher rancorosa e ciumenta.
Veja os olhos.
Est�o cheios de pavor e ang�stia.
O assassino quis que ela sofresse at� o �ltimo segundo.
Dr. Heredia.
Isso � loucura.
Um violento descontrole emocional parece correto.
Mas n�o se engane.
N�o procure uma mulher prepotente e violenta.
Talvez seja o contr�rio: calma e at� pac�fica.
Uma mulher agrad�vel,
que transmita tranquilidade e alegria, e n�o �dio.
At� algu�m ver do que � capaz. � sempre assim.
� verdade que o estuprador � um homem,
mas, para ach�-lo,
primeiro tem que encontrar essa mulher.
Est� bem.
O que querem saber sobre o caso Vanussi?
Tudo que puder nos contar.
O corpo foi encontrado h� duas semanas.
Estava jogado num lago na beira da estrada.
Foi encontrado por um jovem que passou por l�.
O modo de desovar o corpo foi t�o desleixado
que foi um milagre n�o ter sido encontrado antes.
Por isso supomos que o assassino n�o � experiente.
A aut�psia determinou o uso de um objeto cortante.
Uma faca, na verdade.
Havia mais de dez les�es, mas s� uma causou a morte.
O resto poderia sarar com antibi�ticos e repouso.
Mas um dos cortes acertou um ponto vital.
Sabe a data aproximada do crime?
A per�cia calcula de 40 a 45 dias,
mas acho que posso ser mais preciso.
Por que diz isso?
Vanussi tinha uma passagem para a Fran�a.
Um dia antes realizou suas atividades normalmente.
Depois disso ningu�m mais o viu.
Presumiram que ele tinha viajado.
Por isso n�o denunciaram o desaparecimento.
Ent�o ele n�o embarcou?
N�o, por isso suponho que foi a data do assassinato.
Como conclu�ram que o assassino era o filho?
Porque o crime foi muito mal encoberto.
O descuido ao lidar com o corpo
indica que foi arrastado por uma pessoa s�.
At� tinha um ferimento na cabe�a posterior � morte.
Isso mostra que n�o foi manuseado com facilidade.
O lago ficava perto da casa dos Vanussi.
Parece que o assassino queria se livrar do corpo,
e o medo o levou a fazer isso o mais r�pido poss�vel.
Revistando a propriedade, encontramos rastros de sangue
indo at� a sa�da da casa.
� claro que era o sangue do Vanussi.
Mas a morte n�o foi imediata.
Ele deve ter se arrastado at� cair morto no pavimento.
Acreditamos que Vanussi morreu em casa,
mas nada indica que foi Javier.
Achamos a arma enterrada num dos canteiros da casa.
Tinha as digitais dele e o sangue do pai.
S�o provas demais. � f�cil demais.
N�o entendo o que quer dizer.
Depois de acharmos o corpo, tudo levou ao garoto t�o r�pido
que isso me chamou a aten��o.
A� o juiz pediu o julgamento do menino,
e me mandaram fechar o caso. Foi estranho.
Delegado, j� deve ter visto muitas coisas na vida.
Acredita mesmo que Javier matou o pai?
N�o me fa�a dizer o que n�o quero.
-N�o pude interrogar o garoto. -Como �?
-N�o pude. -N�o falou com ele?
N�o deixaram.
Talvez voc� tenha mais sorte.
A Estrela.
Significa juventude, beleza,
que dias de felicidade se aproximam.
O Sol: uma uni�o feliz.
Amor, muito amor e alegria.
O Mundo.
Tudo que saiu antes est� aos seus p�s.
Maravilhosa.
Rubio!
O que mais?
Dr. Rasseri? Desculpa incomodar.
Sei que � tarde, mas preciso falar com voc�.
O Diabo.
-Recebeu meu recado? -Claro, por isso liguei.
Obrigado. Quero pedir um favor.
-Por que o chama de Rubio? -Porque se chama Rouviot.
Preciso falar com Javier Vanussi.
Mas viu como ele est�.
Quero que voc� o acorde. Preciso falar com ele uma vez.
-Entende o que est� pedindo? -Claro.
Qualquer perito pode atestar que Javier n�o pode ir
para uma pris�o comum.
A Lua. Significa confus�o, escurid�o.
-Mas tem algo que me incomoda. -O qu�?
Duvido muito de que Javier seja culpado pela morte do pai.
N�o pode ser!
A Morte.
Vou pensar. Respondo amanh�, sim?
-Obrigado. -Nos falamos.
At� amanh�.
Como sabia que o caso n�o estava resolvido?
Voc� estava l� comigo. O que viu?
Um c�modo escuro, sujo.
As paredes tinham infiltra��es, o ch�o estava uma zona.
S� o que estava organizado era a pasta de fotos.
Sabe por que tentou nos comover com a foto da garota?
-N�o. -� a foto que o comove!
-Estava se projetando. -Exato.
Deduzimos que a foto � importante para ele.
Ela fica � m�o e, quando ele est� sozinho,
olha para ela em busca das respostas que n�o encontra.
Berm�dez � um bom policial.
Se ele sabe mais, por que esconde?
Tr�s op��es: est� envolvido,
pediram para n�o se meter ou ele tem medo.
Tire uma carta.
A Sacerdotisa.
Mas saiu de ponta-cabe�a.
O que significa?
Que h� uma mulher com inten��es ocultas.
Rancor e maldade.
O que faz aqui?
Rasseri me pediu para avisar que aceitar� seu pedido.
E que Javier vai demorar algumas horas at� acordar.
N�o podia ligar amanh� para dizer?
Ent�o por que voc� veio?
N�o sei.
O psic�logo � voc�.
-N�o pense que fa�o isso sempre. -Nem eu.
Est� bem. Sou Luciana Vitali.
Tenho 25 anos. Estudo psicologia.
O que voc� foi fazer na cl�nica?
-Conhece Javier Vanussi? -Conhe�o.
� um paciente VIP. Falei com ele algumas vezes.
Parece estranho, mas � um amor.
Do jeito que est�, ele n�o mataria uma mosca.
Mas como estava na �poca do crime?
Voc� poderia saber pelo hist�rico dele.
Eu sei, mas n�o me deixaram ver.
Precisa ver?
-Fernando. -E a�, Pablo? Falou com o juiz?
Ele me p�s em contato com o delegado.
-Fico devendo essa. -N�o me deve nada.
-Mas n�o diga nada a Helena. -� segredo.
J� encontrei esses caras. S�o muito perigosos.
-N�o ligam de... -Cheguei � casa do paciente.
Nos falamos depois. Tchau.
Obrigado.
-Pois n�o? -Oi. Pablo Rouviot.
Entre.
Bem-vindo. Eu estava ansiosa.
Eu imagino.
Mas n�o se anime muito, pois ainda n�o decidi.
-Eu sei. -Como assim?
Bastava telefonar para dar uma resposta.
� uma boa dedu��o.
Antes de mais nada, posso pedir um favor?
Claro.
Na verdade, estou com medo. Seus pedidos n�o s�o f�ceis.
N�o, este � mais simples. Pode me chamar de Paula?
� claro.
Paula, ontem � noite falei com o dr. Rasseri.
Eu sei. Falei com ele.
Logo poder� perguntar o que quiser ao Javier.
Isso � muito importante. Obrigado.
Aceita uma bebida?
Certo. Caf� puro e sem a��car.
E essa m�sica?
Venha. Quero apresentar algu�m.
Com licen�a... Posso entrar?
Pode.
Quero apresentar meu amigo Pablo.
Essa � Camila, minha irm�.
-Oi. -Oi. Ouvi voc� tocar.
-O que posso dizer? Incr�vel. -Obrigada.
-Tem quantos anos? -Tenho 13.
Mas � a mais madura dos tr�s.
A �nica que fez tudo direito.
Achei que eram s� dois irm�os.
N�o tivemos muito tempo para conversar.
Se n�o se importam, preciso praticar.
Foi um prazer conhec�-la e ouvi-la.
O que Camila sabe sobre a morte do pai?
Tudo. � dif�cil esconder algo dela.
Tamb�m era filha dele.
O que levou Javier a ser visto como o suposto assassino?
Por que "suposto"?
Sabia que seu pai fazia neg�cios perigosos?
Sei bem quem ele era:
um homem ausente com quem n�o tivemos nenhuma rela��o.
� horr�vel dizer isso, mas n�o ligo.
N�o sinto saudade e acho melhor que esteja morto.
Isso me torna suspeita?
N�o descarto isso por enquanto.
Quanto mais investigo, mais duvido da culpa do Javier.
Ele n�o tem culpa.
Javier � doente, n�o assassino.
Esse � Alberto M�guez, advogado e amigo da fam�lia.
� um prazer conhec�-lo.
Eu j� conhe�o voc�. � um prazer t�-lo conosco.
Ent�o vai ver Javier amanh�?
Falarei com ele quando o dr. Rasseri permitir.
-Posso prazer uma pergunta? -Claro.
� necess�rio falar com Javier?
N�o basta t�-lo visto, al�m do que Rasseri falou?
S� pedimos um parecer dizendo que Javier n�o sabe o que faz,
que tem uma doen�a mental.
N�o. Me pediram para declar�-lo inimput�vel.
Isso pode ter consequ�ncias graves.
Pablo far� o parecer quando terminar a per�cia.
-N�o �? -Com certeza.
Bem, vou deix�-los conversar.
Sua profiss�o e a minha dependem de conversar.
Conversar at� a verdade aparecer.
Foi um prazer.
-Nos falamos, Paula. -Obrigada por vir.
Um bolinho para viagem?
Fa�a logo o parecer para acabarmos com isso.
Eu j� disse. Quando o dr. Rasseri permitir.
Amanh�.
Espero que ele permita amanh�.
Revistando a propriedade,
encontramos rastros de sangue quase impercept�veis
indo at� a sa�da da casa.
� claro que era o sangue do Vanussi.
Mas a morte n�o foi imediata.
Ele deve ter se arrastado at� cair morto no pavimento.
Calma...
Loba!
N�o! Senta!
Relaxe que ela n�o morde.
-Posso sentar tamb�m? -Claro.
Com licen�a.
-Terminou de praticar? -Aquilo nunca tem fim.
Estou descansando antes de continuar, s� isso.
-J� sei quem voc� �. -Sabe?
Sei. N�o � um amigo. � um psic�logo.
Os psic�logos tamb�m t�m amigos.
Claro, mas voc� n�o � amigo da minha irm�.
Sua irm� disse quem sou?
N�o.
Mas vi sua foto em muitos livros dela.
-At� folheei alguns. -S�rio?
Fico feliz. N�o tenho muitos leitores da sua idade.
-Meus livros s�o mais te�ricos. -E meio chatos.
-Fico feliz. -Por qu�?
Voc� � madura, mas seria preocupante se entendesse
minha hip�tese sobre a m�e na esquizofrenia.
No que est� pensando?
-N�o podia ser esquizofr�nica. -Por qu�?
Minha m�e morreu quando eu tinha quatro anos.
N�o deu tempo de me deixar louca.
Sente saudade dela?
Todos os dias.
Sente saudade do seu pai?
Prefiro n�o falar dele, certo?
Est� ficando mais frio e tenho que voltar a praticar.
Certo. Foi um prazer conhec�-la.
-Obrigada por me salvar do c�o. -N�o, imagina...
Pablo.
Algum dia posso mostrar o concerto que estou ensaiando.
Voc� gostaria que eu voltasse?
-Temos um problema. -Diga.
-Sabe quem � Pablo Rouviot? -N�o.
N�o! N�o, n�o, n�o!
-N�o... N�o o conhece? -N�o.
� um psic�logo renomado
que Paula Vanussi contratou como perito.
Olha, doutor...
Garantiu que o caso era simples e que ningu�m investigaria nada.
Caso n�o se lembre, o senador depositou
uma quantia expressiva para resolver logo o caso.
Claro que lembro e juro que, se n�o sair como combinamos,
-vou devolver cada centavo. -� idiota ou est� fingindo?
Pode enfiar o dinheiro no rabo.
Combinamos que encerraria o caso.
Foi isso que voc� prometeu que faria.
-Ficou claro? -Sim, senhor.
-Com licen�a. Tem fogo? -N�o fumo.
Muito bem, doutor. Tem que cuidar da sa�de.
A vida � fr�gil demais para arriscar com bobagens.
N�o acha?
Voc� � um cara de sorte.
A vista da sua varanda � impressionante.
-O que voc� quer? -N�o me pergunte isso.
Aceite meu conselho.
Sei que Paula � muito bonita,
mas acredite: n�o vale a pena.
A outra vale mais.
Como se chama? Alejandra Mariani.
Se eu fosse voc�, iria busc�-la.
Afinal 1.000km n�o � muito.
N�o acha?
-Al�. -Alejandra.
-Oi... -Sou eu, Pablo.
N�o insista. N�o posso atender. Deixe seu recado ap�s o sinal.
Me ligue assim que ouvir este recado.
Eu n�o sabia que estaria aqui.
Quando o dr. Rasseri contou que voc� veria meu irm�o,
decidi vir.
N�o quero que o primeiro rosto que ele vir seja desconhecido.
-Sabe por que est� aqui? -Sei.
Porque matei meu pai.
Quer falar sobre isso?
Eu o amava.
Estou doente.
Tem dias em que n�o me reconhe�o no espelho.
Outros dias, me sinto o cara mais in�til do mundo.
Mas n�o quer dizer que n�o sinto dor.
O que d�i mais?
Meu corpo.
Meu corpo inteiro d�i.
Sempre doeu saber que, por eu ser assim,
meu pai nunca conseguiu me amar.
Voc� se lembra da sua m�e?
Minha m�e era linda.
Como Paula.
A mesma voz, o mesmo corpo.
Se visse uma foto, seria dif�cil distinguir entre elas.
Voc� n�o sabe como ela era delicada
e indefesa.
Ela foi se esvaindo.
O corpo foi encolhendo.
At� que um dia desapareceu.
Com licen�a.
Como vai, Javier?
Est� na hora da medica��o.
Aqui est�. Muito bem.
Javier,
se lembra daquele dia?
Claro.
Quer me contar?
Naquele dia, eu estava inquieto.
Tinha ouvido uma conversa das minhas irm�s.
Me assustei.
Camila, o papai voltou!
-Quando? -Hoje. J� est� chegando.
Entrem.
Queria dormir, mas voltei a ouvir gritos.
...mais 15 d� 30, 35, 39...
Era a voz da minha m�e.
E eu soube o que precisava fazer.
-Por favor, n�o... -Calma...
-N�o, por favor! -Vamos...
Pare!
-Javier... -Deixe-o em paz.
Pare.
-Saia, Javier. -Tudo bem. Tudo bem.
Saia, Javier.
Estou pedindo. Deixe-o em paz!
O que foi, Javier? Me d� isso.
O que est� fazendo? O que est� fazendo?
O que est� fazendo? Me d� isso.
Voc� vai se machucar!
Eu n�o sentia nada: nem ang�stia...
nem raiva nem dor.
Venha ficar comigo, por favor!
Venha aqui! Estou aqui!
Fa�a o que quiser! Deixe-o em paz!
N�o sei quanto tempo fiquei assim.
Minha m�e tinha sumido.
Meu pai estava dormindo.
E eu o matei.
Sabia que ningu�m iria ajud�-lo.
Est� vendo esse sil�ncio, pai?
Agora podemos ir juntos at� o lago.
Qual � seu diagn�stico?
Pode ser uma psicose mista.
Pode me explicar?
O transtorno que ele tem no corpo,
esse corpo que d�i,
que o castiga,
que �s vezes ele n�o reconhece...
Creio que Javier tenha tra�os esquizoides.
Ele tem um del�rio claro e concreto
em que v� o pai todas as noites
maltratando e matando a m�e.
A voz da m�e o atormenta.
E o modo de acabar com isso � mat�-lo.
N�o � por ter algo contra o pai,
mas � o �nico jeito de silenciar os gritos da m�e.
Ao mat�-lo, ele a mata tamb�m.
Na mente dele, isso tem uma l�gica extraordin�ria.
-Ent�o... -� paranoia.
Exato.
Como eu disse, � uma psicose mista.
Ent�o me diga: o que pretende fazer?
Algu�m matou Vanussi.
Se n�o foi Javier, foi outra pessoa.
A verdade n�o some por ser desconhecida.
S� precisamos ouvi-la.
-Dr. Rouviot. -Oi.
-Venha comigo. -Algo aconteceu?
Todos os hist�ricos ficam aqui.
O que voc� vai fazer?
N�o queria o hist�rico de Javier Vanussi?
-Aqui est�. -Voc� ficou louca.
Abel, que trabalha aqui, est� de licen�a hoje.
Devo ler agora? N�o tem uma c�pia?
N�o. A copiadora fica na administra��o.
N�o podemos us�-la.
Se voc� sair, pode fazer uma c�pia.
Eu fico at� as 16h. Temos duas horas.
-Oi. -Boa tarde.
Uma c�pia completa. N�o mude a ordem.
-Tudo isto? -�.
Vai levar uns 20min.
Tudo bem, eu espero.
Pablo.
Rasseri disse que voc� tinha ido embora.
N�o. Como podia ir embora?
Esperei na recep��o, na porta, fui dar uma volta.
Estava com meu livro favorito, a� vim tomar caf� e ler.
Escute. Acho que vai gostar:
"Poucas coisas se parecem tanto com a morte
quanto a falta de amor, por isso o luto � t�o doloroso."
"Porque uma pessoa que ama precisa da outra para viver.
Sente o abandono como se fosse a morte."
-"N�o ser mais amado..." -"De certo modo...
� deixar de existir."
Ent�o temos que achar algu�m que nos ame, n�?
Claro.
-Gostou? -Mais ou menos...
Eu poderia ter escrito algo melhor.
-O que achou do meu irm�o? -� dif�cil.
Se Rasseri n�o definiu um diagn�stico durante anos,
ser� dif�cil que eu fa�a isso ap�s um encontro.
Mas n�o pedi um diagn�stico.
Pedi para decidir se ele � inimput�vel.
Para ser inimput�vel, precisa ter cometido o crime.
Acho que Javier est� longe disso.
O que quer dizer?
N�o vejo como ele pode ter matado algu�m.
N�o entendo como n�o foi visto.
Voc�, por exemplo.
Onde estava quando seu pai morreu?
N�o posso responder, pois n�o sei quando ele foi morto.
-N�o sabe? -Claro que n�o.
� dif�cil...
� dif�cil pedir ajuda a algu�m, e ele desconfiar da gente.
Juro que estou cansada.
Cansada de...
da hist�ria que vivi...
Mas tudo bem.
Agora falta pouco.
O que falta?
Acho que ouvir a senten�a do juiz,
saber o que vai ser do meu irm�o
e enterrar meu pai. Acho que � isso.
Ei! Aqui est� seu pedido.
Ligue quando decidir sobre seu parecer.
-Est� bem. Amanh�. -Passarei o dia em casa.
Obrigada.
O que est�o fazendo? Algo aconteceu?
Chegou um envelope com tudo isto.
-As minhas s�o de hoje cedo. -As minhas s�o de ontem.
E da�? N�o posso sair com uma garota?
-As do Fer s�o mais velhas, n�? -Da semana passada, em Ros�rio.
-Foram at� Viedma para isso. -As da Alejandra s�o recentes.
Precisa parar com isso, Rubio.
N�o � s� problema seu. Todos n�s estamos envolvidos.
No que voc� est� pensando?
Vai continuar?
QUER CONTINUAR?
N�o podemos voltar atr�s. Tudo bem se Rouviot n�o assinar.
Voc� me disse que um parecer ajudaria.
Mas voc� escolheu o cara errado, que n�o est� ajudando.
Estou certo de que Javier n�o matou o pai.
Querem me for�ar a assinar uma mentira.
Sei muito bem o que estou pedindo.
N�o pretendo assinar nada.
Que outra sa�da nos resta?
A verdade.
A qualquer custo?
Pablo, se quer se matar, o problema � seu.
Mas essas s�o pessoas que amam voc�,
e todos n�s estamos em perigo.
Voc� entende?
Pense bem, por favor.
Me perdoem.
Sinto muito.
Nenhum advogado correria o risco que voc� me pede!
Entenda bem, Alberto.
Eu o procurei para assumir o caso
e n�o farei nada sem falar com ele.
Fa�a o que quiser, mas decida r�pido.
A velocidade da Justi�a nem sempre coincide
com a da psicologia.
Al�. Oi...
-Voc� quebrou minha coluna! -Levei um susto!
-N�o, n�o se mexa... -Nem posso! Voc� me quebrou.
-Peludo, estou bem... -Tire-o daqui...
-V� para o sof�. -Para a varanda!
-Para a varanda! -Varanda!
Voc� me d� a chave de casa, a� me bate?
-Por que n�o tocou a campainha? -Toquei, mas voc� n�o atendeu.
N�o gostei do que houve no consult�rio.
-Por que foi � cozinha? -Para buscar uma faca.
Por qu�?
Dois caras me amea�aram.
-O qu�? -Foi ontem.
E hoje mandaram as fotos.
Acho que � hora de acabar de uma vez com essa hist�ria.
Esses caras s�o perigosos!
Se tiverem que matar, far�o isso sem titubear.
Se voc� quiser fazer o parecer para Paula, fa�a.
Se n�o quiser, n�o fa�a.
Mas n�o se culpe. Ningu�m vai culp�-lo.
Sabe o quadro que voc� adora?
Sabe por que eu o escolhi?
Porque aquela onda d� medo.
Representa a for�a da verdade que h� dentro de todo mundo.
Todos fogem disso, menos n�s.
� verdade.
Tenho medo.
Tenho muito medo.
Mas sinto que, se fugir disso, nunca mais serei o mesmo.
� verdade.
Mas n�o temos poderes especiais.
N�o curamos com as m�os.
N�o somos diferentes de advogados, marceneiros,
cantores e dan�arinos, mas quer saber?
Duas coisas nos diferenciam:
escutamos o que os outros n�o conseguem
e sempre buscamos a verdade.
Veja, Cigano.
O que acha...
deste coquetel?
Que merda... � o que Javier toma?
Coitado.
Mirethol � um antipsic�tico.
� moderno e pouco usado por custar caro.
Al�m disso, os efeitos colaterais s�o fortes.
Mas acaba com del�rios quase de imediato,
e deve ser por isso que usaram.
Alcorex.
� um ansiol�tico muito usado em doses menores,
mas 4mg est� no limite.
Epafenol � um antidepressivo e tamb�m est� na dose m�xima.
Coitado do garoto... Ele est� dopado, n�?
Cigano,
acha que esse garoto matou o pai?
Quer minha opini�o?
Pense no que � melhor para os filhos.
Duvido que o melhor seja revirar essa merda.
Assine, Pablo.
Assine para eles viverem em paz.
Abra o port�o que eu vou l�.
-Oi. -Oi.
Paula saiu, mas n�o vai demorar. Pediu para esperar.
Tudo bem, eu espero.
Voc� gostaria de me ouvir tocar?
Adoraria.
N�o se engane. O segredo n�o est� aqui.
Est� aqui.
O arco � a virtude dos grandes violinistas.
-O segredo est� na m�o direita. -Achei que...
N�o. A m�o esquerda deve ser �gil e sens�vel,
mas � a m�o direita que n�o pode falhar.
-Parece t�o pequeno... -�.
� pequeno, mas se adapta melhor a mim.
� a c�pia de um Guarnieri 1742.
Paula me deu quando eu tinha 10 anos.
Foi lindo o que voc� tocou.
Obrigada. N�o foi nada.
Foi s� um improviso em r� menor.
Achei que voc� gostaria de tons baixos.
Por qu�?
Porque geram uma sensa��o de tristeza.
E quem disse que eu gosto de tristeza?
Voc� � analista, n�?
Aquilo sim � maravilhoso.
O que �?
O "Concerto em Mi Menor" de Mendelssohn.
� o grande desafio de todo violinista.
Voc� vai toc�-lo?
Bem, vou tentar.
Fa�o aula duas vezes por semana e pratico oito horas por dia,
e mesmo assim n�o fica como deveria.
� a vida.
S�o anos de sacrif�cio por alguns minutos de arte.
As coisas nem sempre s�o o que parecem.
Vista de fora, esta � a mans�o de uma fam�lia linda.
� como os vizinhos nos chamam.
Mas por dentro � diferente, como voc� pode imaginar.
Sem minha m�e, com um irm�o doente, com meu pai que...
O qu�?
-Prefiro n�o falar. -Como quiser.
Por que disse "sem m�e"?
Voc� teve m�e.
�... mas faz tanto tempo...
Voc� se lembra de algo?
Me lembro de tudo.
Ela pintava muito bem
e amava m�sica.
Esta � minha m�e.
-Ela era muito bonita. -Era.
Quer falar sobre ela?
No que voc� est� pensando?
No �ltimo concerto a que fomos juntas.
Ela estava t�o emocionada...
Disse que eu escutaria a melhor m�sica do mundo
e nunca me esqueceria daquela noite.
Ela tinha raz�o.
Foi incr�vel.
Quando sa�mos, eu disse que queria ser violinista.
Ela me abra�ou e come�ou a chorar.
Prometi que um dia tocaria esse concerto para ela.
Seu pai gostava de m�sica?
Eu disse que n�o quero falar dele.
N�o fale sobre ele.
Fale sobre voc�.
O que sentia e o que sente por ele.
Nunca entendi por que minha m�e o amava tanto.
Ela queria que eu o amasse, mas...
nunca me convenceu.
Ela falava muito dele, mas eu percebia que tudo era mentira.
Voc� viu o filme italiano "A Vida � Bela"?
Vi.
Bem...
Minha m�e tentava fazer algo parecido.
Para eu acreditar que tudo estava bem.
Sendo que tudo ia mal.
�.
Sobretudo em algumas noites.
-O que acontecia nessas noites? -Era como o filme.
Mam�e ligava uma m�sica alta e estendia uma toalha no ch�o
para brincarmos.
Acho que eu sabia o que estava acontecendo.
-Mesmo que n�o entendesse. -E o que estava acontecendo?
Meu pai era um cara mau.
Sei que ele fazia coisas ruins.
Que coisas?
Ele batia na minha fam�lia.
Em quem?
Paula e Javier.
Acho que na minha m�e tamb�m.
E em voc�?
N�o.
Ele nunca encostaria em mim.
Voc� quer brincar?
-O qu�? -Voc� quer brincar?
-N�o entendi... -Tive um dia dif�cil.
Seria bom me distrair, sair, brincar...
-N�o est� velho para isso? -Estou...
Mas ningu�m precisa saber.
Voc� quer brincar ou n�o?
-Quero. -Legal. De qu�?
45, 46, 47,
48, 49, 50.
Camila!
Camila!
-Ela passou por aqui? -N�o sei.
N�o estou brincando. N�o me convidaram.
Voc� n�o sabe como brincar faz bem �s crian�as.
Estudar demais n�o...
Camila precisa brincar.
Camila!
Camila!
Cami!
Camila!
Est� a�?
Cami!
Vou achar voc�...
Camila...
Cami...
Cami...
Camila!
Cad� voc�?
Venha c�.
Venha...
Venha, Cami.
Venha.
Cami...
Venha.
Venha.
Camila!
Camila.
Est� tudo bem.
Achei voc�. Voc� est� segura.
N�o vai acontecer nada de ruim.
Eu juro.
Calma...
Sou eu, Pablo.
Estou aqui porque voc� quis brincar comigo.
Se voc� pedir,
saio agora mesmo.
N�o farei nada que voc� n�o quiser.
Camila, pode confiar em mim.
Ela dormiu.
Demorou, mas acabou dormindo.
Ela precisava disso.
Obrigada.
O que houve no esconde-esconde?
� uma t�cnica para as crian�as expressarem o que n�o falam.
Sua m�e?
-�. -Voc�s n�o s�o parecidas.
Nem todas as filhas s�o parecidas com as m�es.
Por que essa surpresa?
Por nada.
Estive revisando o hist�rico do Javier.
E a�?
Matar � algo que quase qualquer pessoa pode fazer.
Mas com a medica��o que seu irm�o tomava...
� imposs�vel enrolar um corpo,
coloc�-lo num carro, dirigir v�rios quil�metros,
tirar do porta-malas, arrastar e jogar o corpo,
voltar para casa, limpar as digitais...
� imposs�vel.
Voc� n�o vai assinar?
N�o me escutou?
N�o entende o que est� acontecendo?
Voc� n�o me respondeu.
O que importa se eu assinar ou n�o?
O que vai mudar?
O destino do meu irm�o, Pablo.
E o seu destino?
Aqui est�.
-Achei que n�o ia assinar. -Se enganou.
Assinei, agora quero que voc� me pague.
-Qual � o pre�o? -A verdade.
Voc� est� falando de qual verdade?
Daquela que, se voc� n�o falar, vai te enlouquecer.
Daquela que perturba sua irm� e est� em cada canto da casa.
Veja os quadros.
A predomin�ncia de preto e vermelho.
Marrom.
Os rostos. Os olhos pequenos ou grandes demais.
As transpar�ncias.
As figuras desorganizadas s�o sinais de ang�stia.
O telhado pontudo, o pinheiro.
� a prova de que algu�m est� escondendo algo.
As ra�zes que parecem veias,
os homens escondidos, as v�timas.
S�o composi��es dos manuais de psicologia.
A pessoa que pintou os quadros sabia o que queria mostrar.
Ela est� denunciando que sofre abusos.
Que vive uma tortura.
Quando vi as iniciais VP, pensei em Victoria Pe�a.
VP. N�o � Victoria Pe�a.
� Vanussi, Paula.
Foi voc�.
Voc� pintou os horrores desta casa,
os gritos que perturbavam Javier e os monstros atr�s da Camila.
Paula...
me diga o que fizeram.
Me conte o que aconteceu.
Para qu�?
Voc� n�o me contratou por esse papel
que qualquer psic�logo poderia assinar.
Voc� me contratou para ajudar a pessoa que matou seu pai.
Para ajudar voc�.
-Quer saber a verdade? -Quero.
Confie em mim.
A casa ficava cheia de carros e homens importantes.
Eram as famosas festas de Roberto Vanussi.
As festas extravagantes da linda fam�lia, segundo os vizinhos.
N�o havia homens com menos de 50 nem mulheres com mais de 20.
Este era meu pai.
Aqui era o pal�cio dele, onde, � claro, ele era o rei.
Para mim, foi um inferno.
Veja o dem�nio.
Bem-vindos!
N�o havia limites aqui.
Todos faziam o que ele queria.
Ningu�m podia recusar.
At� que um dia chegou minha vez.
E eu n�o pude recusar.
O que ele fez?
N�o bastava ter minha m�e.
N�o bastavam as festas de merda.
N�o bastou estragar a vida de centenas de garotas.
Mas o que ele fez com voc�? O que ele fez?
Tudo que ele quis.
Ele me estuprou
v�rias vezes.
Era uma festa particular.
Eu n�o aguentava mais.
Tinha que acabar com aquilo.
O que voc� fez?
Eu o matei.
Porque ele n�o tinha limites.
Eu tamb�m n�o bastaria.
Quando eu o vi morto, nem acreditei.
Pensei na pol�cia,
na cadeia... N�o era justo!
Ele me for�ou a fazer aquilo!
Como me for�ou em todas aquelas noites!
Eu enrolei o corpo
e o levei ao lago.
-O que voc� vai fazer? -N�o sei.
Se falar, Paula ser� presa por homic�dio.
Foi agravado pelo v�nculo. Ela nunca ser� solta.
Mesmo assim, ela � culpada.
Acha que ela merece apodrecer na pris�o por um filho da m�e?
-Ela quis proteger os irm�os. -E as outras garotas?
Que continuam sendo usadas pelos filhos da m�e?
Cigano, juramos sempre buscar a verdade.
Nosso juramento � mais forte que o inferno que elas sofreram?
Dane-se nosso juramento.
�timo.
�timo.
Voc� tinha raz�o. N�o se enganou.
� t�o inteligente quanto seu pai.
Voc� n�o sabe se defende a verdade ou a garota que adora.
Sabe que ela teve pulso firme ao mat�-lo.
Pedi para confiar em mim e prometi segredo.
Dei minha palavra e n�o...
O que voc� disse?
Em menos de 72h, o caso estar� encerrado.
Voc� quer que eu aproveite para dar o cheque a Rouviot?
N�o. J� paguei ontem � noite.
-Que voc� adora a garota. -N�o, quando falou...
Que ela teve pulso firme ao mat�-lo.
Como n�o percebi antes?
-Al�. -Doutor, venha � delegacia.
-Agora sou eu que preciso. -O que foi, Berm�dez?
N�o se fa�a de bobo, sabe do que estou falando. Venha.
-Estou indo. -O que foi?
Acho que descobrimos a verdade.
Ela chegou �s 9h e foi levada � minha sala.
Estava em choque, e n�o conversamos.
Chamei a irm�, e est� com ela, mas n�o a reconhece.
Por isso chamei voc�.
Preciso de uma resposta, ou chamarei o conselho tutelar.
-Voc� sabe o que quero dizer. -N�o, por favor. Por favor.
Camila.
-O que est� fazendo aqui? -Eu o chamei.
-Vou ligar para o dr. Rasseri. -Preciso falar com ela.
N�o tenha medo. Tudo vai ficar bem.
Confie em mim.
Oi, Camila.
Eu vim para ajudar.
Mas, como disse na sua casa, eu saio se voc� quiser.
Sei muito bem que isso n�o � um estado de choque.
Qualquer profissional saberia disso.
Por que veio aqui?
Porque ouvi o que voc� conversou com Paula.
-Ouviu o qu�? -Tudo.
Paula contou que matou meu pai.
Paula mentiu, n�o �?
Me conte o que aconteceu naquela noite.
N�o quero falar sobre isso agora.
Vai falar comigo ou com a pol�cia. Voc� escolhe.
Naquela noite, ouvi os gritos da Paula.
Por favor, pare!
Deixe-o em paz...
Pedindo para ele parar.
Para n�o fazer mais aquilo.
Pare, por favor!
Voc� vai mat�-lo! Deixe-o em paz!
Pai...
Venha ficar comigo...
Deixe-o em paz. Venha.
Por que voc� ficou olhando?
Porque eu queria ver tudo.
Estava cansada de imaginar.
Porque percebi que seria a pr�xima.
Aquilo iria acontecer comigo se ningu�m fizesse nada.
Depois daquilo, fui para o quarto.
Fiquei sentada na cama um bom tempo.
At� que ouvi barulhos na cozinha.
Camila...
Como voc� est� linda...
Voc� est� crescendo.
Estou.
J� estou crescida.
Venha.
Eu sabia que minha m�o direita n�o falharia.
Fique tranquila. Voc� n�o falhou.
J� acabou.
Eu sabia que s� voc� conseguiria falar com ela.
-O que ela disse? -N�o muito.
Descarregou a raiva que sentia pela morte do pai.
Ela se sente culpada.
Ele morreu sem que eles tivessem um acerto de contas.
Mas por que ela veio � delegacia?
N�o sei. Entreguei meu parecer e considero o caso encerrado.
Que estranho...
Quando ela entrou na sala, parecia ter algo para confessar.
Algo que causava muito medo.
Chegou sozinha, chorando, abra�ada ao violino.
O que foi?
� um violino, n�?
Ela n�o esqueceu.
Sabe o que � um ato falho?
Se soubesse quantas vezes fiquei diante daquela casa
vendo as garotas entrarem para os filhos da m�e usarem...
Nunca pude fazer nada, nada, nada...
Vanussi pode estar morto,
mas h� outros no comando deste neg�cio.
Este caso n�o est� encerrado.
J� est� tarde. V� embora. V� embora.
Obrigado, de verdade.
A verdade, que � t�o desejada e temida,
se cala.
�s vezes, por maldade,
outras vezes, por sofrimento,
ou apenas porque o tempo cobriu tudo com um v�u de esquecimento.
Quanto mais escondida,
mais forte ela �.
Porque pode ser silenciada,
esquecida,
mas, ainda assim, pede, a seu modo, para ser notada.
Mesmo que �s vezes a vida mostre
que ningu�m pode ser completamente feliz
se n�o for com alguma ignor�ncia.
Legendas - DISPOSITIVA Tradutora: Samantha Silveira
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