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Original subtitles

NETFLIX APRESENTA

É ele!

Valentín Esparza?

Só queremos falar, pode ser?

Pare!

Pare!

- Quieto! - Pare!

Pare aí! Pare!

Pare!

Não se mexa!

- Pare! - Pare, porra!

Para aonde foi?

- Aonde? - Por ali!

Valentín!

Pare!

Quieto!

Jonan, a mochila!

Não se mexa.

Não se mexa.

O braço!

Tenho de acabar isto.

Tenho de acabar isto.

Tenho de acabar isto.

Tenho de acabar isto.

Tenho de acabar isto.

OFERENDA À TEMPESTADE

POLÍCIA DE NAVARRA

Posso sentar-me?

A esta hora estou exausta.

Tive um bebé há cinco meses e mal consigo dormir.

Os bebés mudam mesmo a nossa vida, não mudam?

Às vezes, não me surpreende que alguns pais percam a cabeça.

Que idade tinha a tua filha?

Quatro meses.

Para aonde a levavas?

Só queria ficar com ela mais um pouco.

A tua sogra diz que foste a casa dela à noite.

Ouviu barulho, abriu a janela e viu-te a fugir.

Ela não parava de chorar enquanto nos contava.

É uma mentirosa.

Mas ela não está a mentir

quando diz que o corpo da bebé tinha uma marca na testa

que não estava lá quando a pôs a dormir.

Uma marca de pressão de um objeto,

que corresponde exatamente com o olho deste peluche.

A minha sogra é uma grande cabra.

Tu também viste a marca, Valentín. Por isso, cobriste-a com maquilhagem.

E pediste para fecharem mais cedo o caixão.

Mas a cabra da tua sogra não ia desistir.

Foi por isso que levaste o corpo, certo?

Não, isso foi porque queriam cremá-la.

Querias um enterro.

Não pode ser cremada. Tenho de acabar isto.

O que tens de acabar, Valentín?

Se não o terminar,

tudo terá sido inútil.

Para que é isto tudo?

Mataste a tua filha?

Não.

Não a matei.

Entreguei-a.

A quem?

A quem a entregaste?

Para quê?

Diz-lhes para não a cremarem.

Por favor.

Nada de cremação.

A quem?

A quem a entregaste?

Os lábios dele mexem-se, mas não percebo o que diz.

Para quê?

Goñi, vê o que podes fazer quanto ao áudio.

Aliás, encontra alguém que saiba ler lábios.

Sim, chefe.

Alguém arranje a máquina de café, por favor.

- Quem é o responsável? - Eu trato disso.

PADARIA

É impossível a mãe ter saído do rio viva.

Falei com o juiz responsável pelo caso.

Ele concorda com um funeral.

- Ligaste ao juiz Markina? - Ele ligou-me.

Já agora, ele é adorável.

Também falei com o padre Germán.

Decidimos que seria melhor sexta-feira.

- Decidiram? - Sim.

Quanto mais cedo isto ficar tratado, melhor para todos.

Não podemos presumir que está morta sem um corpo.

Não sejas ridícula.

O casaco foi encontrado no rio há mais de um mês.

É um engodo!

- Isso não significa nada. - Acho que é uma boa ideia, Amaia.

Temos de virar a página.

Não acho que esteja morta.

Onde está ela? Sozinha, à noite, uma velha que mal consegue andar.

Não é uma velha que mal consegue andar.

Não importa!

Já chega.

A mãe está morta.

Avisa-me se precisares de ajuda com os preparativos.

Está bem.

Amaia.

Não a viste, James.

Ela fugiu.

Ela veio a esta casa, levou o nosso filho.

Ela não era uma velha fraca.

Era uma mulher determinada. Eu estava lá.

Sim, e eu não. Eu sei.

Mas porque ela não apareceu, Amaia?

A água levou-a.

A polícia disse isso, os teus colegas, até o teu amigo, o juiz.

- Não quero saber, não acredito. - É esse o problema.

Já paraste para pensar no que os outros sentem? As tuas irmãs?

Sobre talvez precisarem de acabar com esta merda toda?

Sei que sofreste muito, Amaia, mas não és a única.

Eu trato.

Olá, pequenote.

Não há nada de errado em ter um funeral.

Eu vou de certeza

e espero que venhas comigo.

- Amaia, querida. - Agora não, tia, por favor.

Por favor.

CENTRO PENITENCIÁRIO PAMPLONA 1

Sou apenas o encenador

numa peça de muitos atores.

A sério?

As imagens da tua fuga mostram um encenador muito dócil.

A obedecer a uma idosa.

Serviu-te de muito. Estás na prisão e ela desapareceu.

Bela encenação.

Engana-se, inspetora.

O sexo do bebé foi inesperado, mas correu como planeado.

Onde arranjaram o braço que deixaram na igreja?

- A Rosario disse-lhe? - Não sei a que se refere.

Quando visitaste Baztan

não ficaste em casa do teu pai nem num hotel.

Creio que tens um sítio seguro, para onde a minha mãe foi quando saiu da gruta.

Onde é essa sítio?

Ela está viva, não está?

O que acha?

Que tinham um plano de fuga e ela usou-o.

É preciso ser-se inteligente para valorizar a inteligência.

Já nos percebemos, você e eu.

Só por isso, dar-lhe-ei um presente.

Ouça bem.

É um recado da sua mãe.

Dorme com um olho aberto, cabra,

porque a qualquer momento,

a mãe...

... vai comer-te.

Abram a porta!

Abram a porta!

Não me ouvem ? Abram!

Ele atacou a tua fraqueza.

Não há mensagem nenhuma da tua mãe.

Ele controlava os guardas, eram como cães.

Onde estás?

Diz-me que vou para aí.

Ligue ao diretor, diga-lhe para o isolar.

Com certeza.

Amaia, lamento muito o que aconteceu.

Vemo-nos esta noite.

Vou buscar-te onde disseres.

Tem de avisar o diretor o quanto antes.

- Tenho de ir, tenho outra chamada. - Não te preocupes.

Sim, Jonan.

Colocámos os buquês e as flores com cuidado.

E, hoje, foi tudo mudado.

Está uma confusão.

O coveiro diz que a laje foi movida.

Por aqui.

Esta foi movida, minha senhora.

Está vazio.

Telefona para a prisão, quero falar com o Valentín Esparza.

Devíamos tê-la enterrado ao pé de casa.

E devias parar de perseguir assassinos de carne e osso.

O nossa querida filha foi assassinada pelo Inguma.

Chefe.

- Sim? - O Valentín Esparza foi assassinado.

O quê?

O colega de cela esfaqueou-o do nada.

Era um preso calado, ninguém sabe o que aconteceu.

E as imagens do interrogatório?

O som tem estática, verifiquei com um fonoaudiólogo.

"Entreguei-a ao Inguma, como muitos outros sacrifícios."

Volta a passar.

"Entreguei-a ao Inguma, como muitos outros sacrifícios."

Inguma.

Um dos demónios mais antigos da mitologia.

Mata pessoas durante o sono,

causa a morte súbita aos bebés

agarrando-se a eles e sugando-lhes o folgo até morrerem.

Deixa-me ver.

Obrigada, Goñi.

Quando vi o caixão vazio, só consegui pensar no da minha irmã.

Nem se incomodaram com a gravilha.

Vamos investigar todas as mortes súbitas no vale

nos últimos cinco anos.

Está bem.

Elena?

Sou a Amaia Salazar.

São os mesmos símbolos que o mestre desenhou

quando sacrificámos animais, mas…

... não sei o que significam.

Elena, sei que a minha mãe está viva,

está escondida algures.

Tenho de encontrar o sítio onde se conheceram, a casa de que me falaste.

É muito importante, imploro-te.

Chegaram a fazer sacrifícios humanos?

Não percebes, Amaia? Se falar, matam-me.

Quem?

Eu protejo-te.

- Não me podes proteger disto. - Por favor.

Por favor, responde-me.

Sacrificaram pessoas?

Naquele tempo,

a tua mãe era a única grávida no grupo.

Se estás viva, é porque tudo foi um disparate.

Agradeci a Deus milhares de vezes

sempre que te via na cidade.

Elena, eu tive uma irmã.

Uma irmã gémea. Ela morreu no berço.

- Onde está enterrada? - Não sei, encontrei o túmulo,

mas estava vazio. - Não!

- Por favor... - Sai da minha casa!

- Sai já da minha casa! - É muito importante.

- Ouve. - Sai!

Pelo menos, diz-me onde estavam os corpos.

O que lhes fizeram? Por favor.

Elena, por favor!

Sai da minha casa!

PRISÃO DE PAMPLONA

Estás bem?

É o meu pai. Acabou de ligar.

Tem uma lesão no coração.

Lamento.

Lamento muito.

Têm de fazer um bypass de emergência.

Dão-lhe a data amanhã, mas...

Vou embora depois do funeral.

Claro.

Amanhã, acabo tudo o que tenho para fazer aqui

e depois trato dos bilhetes.

Estava isolado e não falava com ninguém desde a sua visita.

Um polícia viu que não se mexia, deu o alarme e encontrámo-lo assim.

Não há sinais de petéquias, ferimentos de defesa ou sofrimento.

A julgar pela quantidade de espuma na boca,

diria que tomou algo que causou insuficiência cardíaca.

O Dr. Berasategui não queria morrer.

O suicídio não se encaixa num comportamento narcisista.

Como assim, ele não queria morrer?

Como saberia isso?

Ele chorou ao morrer.

Deitou-se e chorou numa irrupção de autopiedade.

Pare. Clique na câmara cinco.

Ali, ele entregou-lhe algo.

Clique na nove.

Amaia.

Meritíssimo.

Aconteceu alguma coisa?

Saíram sem me dizeres como estás.

Estou bem, obrigada.

Lembra-te, estou aqui para o que precisares.

- Obrigada. - Preocupo-me contigo, Amaia.

Só queria dizer-te

que os meus sentimentos por ti não mudaram.

E nunca mudarão.

Meritíssimo.

Ligou à minha irmã para apoiar o funeral da minha mãe?

Sim, disse-lhe que era boa ideia.

Mas foi ela quem me ligou.

Visitou o Dr. Berasategui na prisão?

Três vezes.

Falou-lhe da fuga da Rosario e dos acontecimentos daquela noite?

Tentei, inspetora, mas ele mudou de assunto.

Acho que a minha mãe está escondida.

E que isto faz parte de um plano muito mais complexo.

Ainda bem que começa a perceber.

Poderá haver uma ligação

entre os antigos ritos de bruxaria no vale

e os eventos desta caverna?

Diz-se que as bruxas comem crianças,

alimentando-se da vida dos inocentes sacrificados.

O que ganhariam em troca?

Saúde.

Vida.

Riqueza material.

Alguém ainda acredita nisso?

Para de questionar se faz sentido.

Não julguem e acreditem que, se algo tem consequências reais,

é real.

Porquê crianças? Como as usaram?

Devem ter menos de dois anos.

Até essa idade, existem em dois mundos

e podem ver e ouvir o que ocorre em ambos.

Há um ritual para as matar.

São muitas vezes sangradas.

Às vezes, também são desmembradas

para serem usadas por partes.

O crânio e os ossos mais compridos são os mais valiosos.

Alguns rituais usam unhas, cabelo, dentes

e o pó dos pequenos ossos esmagados.

Para aonde levariam um corpo roubado para ser sacrificado?

Para um lugar mágico, seguro e protegido.

Sei que está a pensar em templos ou igrejas, inspetora,

mas a bruxaria não é satanismo.

Ofender Deus não é o objetivo.

É sim invocar e adorar os espíritos.

Que espíritos?

O Aker.

Por exemplo.

É o que chamam ao demónio em Baztan.

Acredita nisso?

Mais uma vez, essa é a pergunta errada.

Não se trata de crer.

Tem a ver com o poder por trás disso.

O que importa são as consequências reais

e há pessoas dispostas a morrer e a matar por isso.

JAMES, ESTOU PREOCUPADA, TELEFONEI-TE.

A Sonia disse que o Valentín não se calava

com as tradições e o poder da terra.

Pediu-lhe para dar à luz em casa,

mas ela nasceu prematuramente no hospital.

Ela falou numa parteira?

Não, mas eu falo com ela.

É o Iriarte.

Nos últimos sete anos, houve cinco mortes súbitas em Baztan

e os Serviços Sociais investigaram três delas.

Pergunta-lhes o que lhes chamou a atenção e como reagiram as famílias.

Está bem.

Atenção, todas as unidades para a avenida Padre Donostia. Terminado.

É ao pé da padaria.

Selem todas as entradas, por favor.

Muito bem.

Montes, o que aconteceu?

Apareceu o corpo de uma mulher.

A filha dela encontrou-a.

Veio de Pamplona porque não atendia o telefone.

A médica disse que algo não bate certo.

Eu vou já.

Traz a escada para pular o portão.

Muito bem, vamos trabalhar.

Entendido.

Inspetora.

Parecia-me ter sido uma hemorragia interna que colapsou os pulmões.

Mas olhe.

O vómito dela está cheio de pedaços de casca de noz.

Cortam como lâminas.

Devem ter-lhe perfurado o estômago, o duodeno e a traqueia

e causaram estragos quando ela os vomitou.

É uma forma horrível de suicídio.

A minha mãe nunca se mataria.

Além disso, odiava nozes. Ela tinha medo delas.

Em miúda, fez-me jurar que não lhes tocaria.

O comportamento dela estava estranho ultimamente?

No último mês, parecia muito nervosa.

Paranoica.

Não consegui saber nada.

Obrigada.

És a filha da Rosario, não és?

Já vi a minha mãe chorar tantas vezes por causa dela…

Daqui é o Aloisius Dupree.

Deixe mensagem e ligarei mais tarde.

Aloisius, todos os envolvidos estão a morrer.

Acho que há alguém a criar uma barreira à minha volta.

Por favor, liga quando puderes.

Onde estavas?

Estive preocupada o dia todo.

Estou aqui agora.

Liguei-te várias vezes e não atendeste.

Às seis da tarde? Ao fim do dia?

O que se passa, James?

Diz-me tu.

Não sei.

Vão operar o meu pai na segunda-feira.

Reservei bilhetes para nós os três para os Estados Unidos no sábado.

Vem comigo e com o Ibai, Amaia.

Tira uns dias de folga.

Vai ser bom para ti fugir de tudo e de todos.

Eu faço-o.

Está bem.

- Desculpe, não a queria assustar. - Está tudo bem.

Quando fui para a cama, mexi na almofada e...

... encontrei isto.

É para si.

Acho que tinham razão e...

... a pobre mulher matou-se.

É a localização de um sítio onde ela costumava ir com a minha mãe.

Só isso.

Eles sabem.

Disse-te que descobririam.

Ninguém te pode proteger deles.

Algo está a corroer o meu interior, sinto que me vai matar

e não vale a pena continuar a escondê-lo.

É uma casa grande e velha, com paredes sujas e um telhado escuro.

É na estrada da Orabidea.

Não se vê de cima,

mas dá para ver quando a estrada vira.

É uma casa escura e não por causa da cor,

mas pelo que está lá dentro.

Se és quem dizes ser

e sobreviveste ao destino que tinham preparado para ti,

não importa se os procuras ou não.

Vão acabar por encontrar-te.

Que Deus te ajude!

- Bom dia. Em que posso ajudar? - Bom dia.

Procuro uma casa antiga. Acho que é aquela ali em baixo,

mas parece bastante nova... - Não sei sobre casa nenhuma.

Tem de me ajudar, por favor!

Está a investigar essa escumalha?

Sim.

Alguma vez viu alguma destas pessoas por lá?

Vi esse homem várias vezes.

Mas nunca vi essas duas amarguradas.

Pode dizer-me o seu nome?

Ana Mari Ezkurra.

Vive aqui há muito tempo?

Pergunte-lhes pela Ainara.

Ainara é o único nome que importa. Corra!

Espere!

Bom dia.

Sou a inspetora Salazar, do Departamento de Homicídios.

- São os donos desta casa? - Sim, porquê?

Tenho más notícias.

O seu amigo, o Dr. Berasategui faleceu.

Como é que o conhecia?

A nossa relação é protegida pelo sigilo profissional.

Se nos dá licença...

Desculpe, uma última pergunta.

Alguma vez viu o Dr. Berasategui com esta mulher?

Nunca a vimos.

- Há mais alguém na casa? - Inspetora.

Acabou de nos dizer que alguém muito querido morreu.

Precisamos de tempo para digerir.

Se tiver mais perguntas, fale com o nosso advogado.

A pobre mulher morreu ao ingerir objetos cortantes.

E garanto-lhe que não foi voluntariamente.

Alguém a obrigou a engolir cascas de noz

até rebentar os órgãos internos.

Uma vez morta,

forçaram-lhe mais cascas pela garganta até rebentar os intestinos.

Obrigada, doutor.

- Chefe, temos a certidão de nascimento. - Ótimo!

Ainara Martínez Batón, 11 de dezembro de 1977.

É a filha dos donos.

Nasceu em casa, em Argi Beltz.

A parteira foi a Fina Hidalgo.

Merda!

Mas não encontro a certidão de óbito em lado nenhum.

- "Argi Beltz" significa "Luz Negra". - Sim, Montes.

Falámos com as famílias investigadas pelos Serviços Sociais.

Quando as bebés morreram, eram pessoas perfeitamente normais,

mas agora estão cheios de dinheiro.

Empresas farmacêuticas,

imobiliário, uma firma de advogados…

A vida tratou-os bem.

Tiveram uma sorte dos diabos.

Há uma advogada

que tinha cancro terminal e agora está rija como o aço.

- Como se chama? - Karmele Andía.

É sócia da Lejarreta e da Andía.

O Berasategui, a minha mãe, a Elena Ochoa. Todos têm a casa em comum.

Esse grupo de pessoas,

e um casal de advogados ricos de Pamplona.

Acho que também perderam uma filha.

Encontraste algo alarmante nos relatórios dos Serviços Sociais?

Não.

Encontraste uma ligação direta entre essas famílias?

Não, mas poderia ser uma enfermeira chamada Fina Hidalgo.

Ela fez o parto de todas as crianças, incluindo o da minha irmã.

Ela admitiu ter matado recém-nascidos na minha cara.

"Poderia ser". Não tens a certeza.

Não posso prová-lo.

Mais alguém ouviu a parteira admitir os atos?

Não.

Javier, por favor, preciso da tua ajuda. Tenho de entrar em Argi Beltz.

Preciso dos ficheiros da parteira.

Se as certidões de óbito das crianças estiverem lá,

teremos de exumar os corpos.

Vou emitir um mandado de busca para os ficheiros.

Mas o que estás a pedir, Amaia...

Por favor.

É verdade que o comportamento da parteira é suspeito.

Mas não encontraste uma ligação entre todas essas pessoas.

Traz-me algo sólido, Amaia.

Trarei.

Está tudo bem?

Quando eu tinha 12 anos, a minha mãe engravidou outra vez.

Os meus pais estavam radiantes.

Correu tudo bem, o bebé nasceu saudável.

Mas, às três semanas, o meu irmão morreu.

A partir desse momento,

a minha mãe só falava para perguntar sobre o bebé.

Ela enlouqueceu com o desgosto.

Até tentou suicidar-se e foi internada numa clínica.

Morreu dois anos depois.

Não vou abrir um túmulo...

... para desenterrar tanto sofrimento.

A menos que me tragas uma testemunha que tenha visto um pai a matar a filha,

um depoimento de um examinador a alterar o seu relatório

e com novas provas.

Senão, não autorizarei a exumação de um bebé.

Como o superaste?

Através do perdão, Amaia.

Perdoei a minha mãe,

o meu pai,

o meu irmão mais novo.

Até a mim.

Devias experimentar.

Qual é a piada?

Foi bom dizer-te.

Nunca contei a ninguém.

Conto com o mandado de busca.

Tu não vais parar, pois não?

Nunca.

Inspetora Salazar, vou beijar-te.

Não deverias.

Não deverias fazer isso.

Que horas são estas para se chegar a casa, menina?

Como está o teu pai?

Está animado.

Ficas connosco?

Tenho de fazer uma coisa e já volto.

- Está bem? - Sim.

Amaia.

Já pediste folga?

Sim, mas ainda não responderam.

Está bem.

- Não demores. - Não.

De certeza que não queres pão com isso?

De certeza, tia.

Minha querida...

Por aqui.

Os ficheiros dos pacientes estão nos armários.

Os certificados e as atas...

Desapareceram.

Não há nada.

Vamos.

Que coincidência terrível.

Diz que vêm buscar os ficheiros

mas ontem tive vontade de limpar.

- Os certificados? - A sua visita lembrou-me

que estavam a juntar pó, por isso, deitei-os fora.

O que lhes fez?

O que se faz com papel inútil.

- Chefe! - Um fogo como deve ser.

Está tudo queimado, as cinzas foram esmagadas.

Não parece uma mulher de sorte.

Vamos.

Amaia.

Quero os nomes de todos os que sabiam que vínhamos

e uma lista de chamadas da esquadra e dos telefones pessoais também.

Está a acusar-nos?

Claramente, alguém foi descuidado.

Este mandado não era confidencial.

Falámos hoje cedo.

Não vínhamos a uma plantação de coca.

Vínhamos buscar uns papéis. Não exageremos.

Quero o nome do responsável quando voltar.

Já mostrei estas fotos à polícia muitas vezes.

As pessoas de lá são estranhas.

Há 40 anos, vi um casal que estava sempre nu.

Criavam animais e tinham sempre grandes encontros.

Queimavam ervas com cheiro forte e ouvíamos gritos.

Como se fosse um matadouro.

A Ainara era filha deles.

Ela tinha pouco mais de um ano.

Não lhe prestavam atenção nem a alimentavam.

Estava sempre imunda e sozinha.

Não alimentavam a filha?

Um dia, fiz biscoitos,

a pobre rapariga esfomeada cheirou-os e veio até aqui.

É ela.

Demos-lhe biscoitos com leite

e ela comeu-os tão vorazmente

que pensei que se engasgava.

Os pais dela ainda são donos da casa,

mas já não são hippies.

São podres de ricos.

Estão sempre a receber visitas em carros chiques, com guarda-costas.

Não me surpreenderia ver o presidente.

O que aconteceu à Ainara?

Uma noite, levei alguma roupa usada das minhas filhas

e, quando cheguei lá,

estavam a celebrar algo.

Perguntei pela Ainara e disseram

que ela tinha morrido de enfarte.

A criança estava morta e eles pareciam tão felizes.

Nem sequer fizeram um funeral.

Disseram que foi durante uma viagem a Inglaterra

e que foi enterrada lá.

Alguma vez viu esta mulher?

Inúmeras vezes.

Essa continua a vir.

Obrigada. O seu testemunho será muito útil.

É um pouco tarde.

Tem cuidado, menina.

As bruxas e o diabo não podem ser mortos com balas.

Desculpe.

Desculpe.

Só um segundo, por favor.

Por favor!

Espere.

Pare!

Larga-me, assassina!

- Pare! - Tenho direitos.

- Quieta! - Assassina.

Sou polícia. Só quero falar.

Está bem? Quero saber porque tiravas fotos a essa casa.

Porque aquelas pessoas...

... mataram os meus filhos.

Nunca quis ter filhos.

O meu marido é que queria.

Mas quando nasceram e vi as suas carinhas…

Como se chama o seu marido?

Ele é francês.

Ainda somos casados.

Embora…

Agora, ele vive na nossa casa em Ainhoa com uma puta qualquer.

Como é que ele se chama, Yolanda?

Marcel Tremond.

No início, ele foi tão gentil comigo,

mas conheceu as pessoas daquela casa enquanto eu estava grávida

e foi tudo por água abaixo.

- Ele sugeriu um parto em casa? - Sim, de facto.

"À moda antiga", dizia ele.

Descartámos isso quando soubemos que eram gémeos.

Como é que morreram?

Morte súbita.

Ambos na mesma noite.

Chorei tanto.

Parecia que a minha garganta se rasgava.

Admito que fiquei louca.

Por perdê-los e...

... pelo que o meu marido fez quando os enterrámos.

O que fez ele?

Levou os corpos.

Foi isso que ele fez.

Disse que tudo ficaria bem depois da morte deles.

Ele queria os caixões fechados, mas eu abri-os.

E só havia toalhas e pacotes de açúcar.

Disse-lhe que não acreditava que os nossos bebés estavam nos túmulos

e queria que fossem abertos, mas…

... o mausoléu de Ainhoa pertence à família dele e recusaram.

Depois, o marido estava sempre fora.

Ela seguia-o, tirava fotos e ele ia sempre a esta casa.

Só por curiosidade chefe, como chegou lá?

À procura da minha mãe.

Goñi, a Yolanda tem vários cartões de memória com fotos.

Eu falo com ela.

As empresas do marido são representadas pela advogada de Pamplona.

- Tudo encaixa. - Nem tudo.

É o primeiro caso de irmãos a morrer ao mesmo tempo.

E rapazes, em vez de raparigas.

Além disso, um juiz pode considerá-la uma ressentida a tentar vingar-se do marido.

Eu sei, Montes, mas é tudo o que temos. Consigamos os relatórios das autópsias.

O Markina não nos deixará abrir o túmulo de uma criança sem provas.

Mas chefe,

Ainhoa fica em França, fora da jurisdição do Markina.

Vamos.

Chefe, eu...

Sim?

Estamos todos a dar a litro por aquelas raparigas, por todas elas.

Como assim?

Estamos do lado delas.

Não somos bufos desleixados.

AINHOA, FRANÇA

Está bem, percebi.

Os filhos da Yolanda morreram no hospital onde nasceram.

Tanto quanto sabemos, não houve autópsia.

Vá lá.

POLÍCIA

Sim, estou?

Sim, sou eu.

Sou eu.

Para! Espera.

Está bem.

Obrigada por me avisar.

Algum problema, Meritíssima?

O juiz responsável pelo caso não autoriza isto.

Isso é para outro caso, não está relacionado.

Ouça-me. Nunca mais. Conhece essa palavra?

Nunca mais me volte a ligar. Não vou colaborar, está claro?

Põe no sítio.

Não.

Não! Os meus bebés.

Não, os meus bebés...

Javier, por favor, deixa-me explicar.

JUIZ MARKINA

Daqui é o Aloisius Dupree.

Por favor, deixe mensagem e eu ligo-lhe de volta.

Voltaste cedo, querida. Que bom.

Olá, querido.

Limpa o rio, Amaia. Lava a ofensa.

Devias secar o teu cabelo.

Vais constipar-te.

Quanto tempo estive a dormir?

O Ibai já está na faculdade e...

Sabes?

Queres dizer-me o que se passa?

O caso complicou-se muito.

E cometi um erro terrível.

Traí um juiz.

E, agora, não sei o que vai acontecer.

Markina?

Sabes...

... às vezes é melhor desistir hoje para lutar amanhã.

Estarei sempre ao teu lado.

Eu sei.

Nunca me esqueço.

Vai fazer-te bem sair daqui uns dias, desligar.

Amanhã, vou contigo ao funeral da Rosario.

E depois vamos juntos ver o teu pai.

Está bem.

Iriarte, o que se passa?

Por volta da meia-noite a Sra. Yolanda Berrueta

explodiu as sepulturas dos gémeos para ver se eles estavam lá dentro.

Aparentemente, encontrou explosivos antigos

que não tinham sido usados

nas minas que pertencem à família dela.

Os explosivos foram detonados, mas não explodiram.

Ela aproximou-se para ver o que tinha corrido mal

e explodiram-lhe na cara.

A explosão destruiu dois dedos

e outros dois foram encontrados no túmulo oposto.

Ela também perdeu um olho.

Lamento muito,

mas se o juiz descobrir que eu lhe disse...

Não te preocupes, Gaspar. Até breve. Obrigado por tudo.

Fico-te a dever.

Apesar dos ferimentos, conseguiu rastejar até à sepultura

e aproximou-se o suficiente para olhar para dentro.

JANEIRO DE 1905

Meritíssimo?

Lá estarei.

A minha ex-mulher sempre foi muito frágil.

Foi descuidada durante a gravidez. Fumava, bebia...

Tomou tranquilizantes, comprimidos para emagrecer...

Os rapazes nasceram com problemas respiratórios

e sentiu-se muito culpada.

Tentou matar-se duas vezes.

Convencemo-la a vir para a nossa clínica.

Não são só os sogros da Yolanda.

A Lisa é a chefe de Pediatria

do hospital onde os rapazes nasceram e morreram.

Se tiver alguma pergunta, inspetora, é a altura certa.

Porque não fizeram uma autópsia?

É o protocolo para morte súbita.

Não foi morte súbita.

Foi causada por insuficiência respiratória presente desde o nascimento.

Além disso, ela recusou.

"Não abram os meus bebés", disse ela.

A Yolanda tomava medicação muito forte.

Confunde datas, situações...

Confunde tudo, inspetora.

Qual é a vossa relação com os advogados Lejarreta e Andía?

São nossos conselheiros e amigos.

Eles apresentaram-vos

aos Martínez-Batóns? - Sim.

Qual é a natureza das reuniões que tiveram com o Dr. Berasategui?

O médico liderou um grupo de apoio para pais que perderam um filho.

Ficámos chocados ao saber das acusações contra o médico.

Ele sempre foi exemplar connosco.

Muito obrigado. Foram muito gentis.

Eu acompanho-vos.

Muito obrigado.

Obrigado.

O que faço consigo, inspetora?

Foi um erro ter recorrido à juíza francesa.

Pensei ter uma nova linha de investigação.

Porque não me consultaste primeiro?

- Agora, sou a Amaia outra vez? - Dou-te tudo o que pedes.

Viro as costas e tratas-me como se não fosse ninguém.

Como correu a busca dos ficheiros?

Mal.

Alguém avisou a parteira e ela queimou tudo.

Suspeitas de alguém da esquadra?

Cuidado com as acusações que fazes.

Podes causar problemas.

Vou-me ausentar uns dias, Javier.

Tenho assuntos pessoais a tratar e...

... tenho de me afastar de tudo.

Tudo?

Da investigação.

Devo levá-la para a esquadra ou para casa?

Deixa-me na igreja.

Não sei porque vai ao funeral da sua mãe.

Sabe que não está morta.

Não sei nada, Jonan.

- Posso estar enganada nisto também. - Não.

Uma coisa é fazer asneira, outra é desistir. São diferentes.

Não fiz asneira.

Cometi um erro que quase custou a vida de uma pessoa.

Ela é louca, Amaia.

O Markina não te pode responsabilizar.

Não teríamos chamado a juíza francesa se ele te tivesse apoiado.

Não devia ter passado por cima dele.

Está a cometer um erro.

Não está a ser objetiva, chefe.

Ensinou-me que os instintos são essenciais para os investigadores.

Investigar é cometer erros, levantar-se, insistir

e encontrar pistas novas.

Lutar como soldados.

Mas hoje, vai contra tudo o que me ensinou.

Não consigo pensar, Jonan.

Não quero voltar a fazer asneira.

O casaco era um engodo.

Sabemos que a sua mãe não está morta. Digam o que disserem.

Também acredito que alguém avisou a parteira.

- E o juiz... - O quê?

Está cega pelo envolvimento pessoal.

Como te atreves?

Faça-o porque me importo.

Nunca deixaria a minha vida afetar uma investigação.

Não comeces hoje.

Vai-te já embora.

- Tia. - Olá.

- Não estavas no funeral? - Quase fui.

Não podes ir ao funeral de alguém que acreditas estar vivo.

Não sou falsa, Amaia.

Além disso,

não consigo rezar pela alma dela.

Ela tentou matar o Ibai e quase me matou.

Posso ser devota, mas...

... não sou parva.

O que sabes sobre bruxaria no vale?

Há um século,

acreditar em bruxas era mais comum do que acreditar na Santíssima Trindade.

Poderá alguém estar a invocar essas forças agora?

Céus!

A minha querida amante da lógica a falar de bruxaria no século 21.

Tia, estão a matar bebés.

Como sacrifícios.

Oferendas diabólicas.

Alguém está a tentar despertar deuses menores.

Querida, ontem deitei as cartas e vi algo assustador.

O que foi?

Disseram-me que um bom amigo teu corre perigo.

Aparentemente, vieram atrás dele.

Aloisius.

Não, não temos notícias do agente Dupree há vários dias.

Ele não enviou o relatório que disse que ia enviar

e também não nos ligou.

Ele disse-me que estava a investigar um caso perigoso.

Acha que pode estar ligado?

Ele estava a investigar grupos de controlo e…

Suspeitamos que pode ter sido capturado.

Não posso dizer-lhe mais nada.

O que quer dizer com: "grupos de controlo"?

Estou a falar de seitas, Amaia.

Mas não posso dizer-lhe mais.

Aviso-a assim que ele entrar em contacto, prometo.

Obrigada.

A missa foi linda.

E tinha tanta gente!

A cidade inteira.

A María Rosa manda cumprimentos, tia. Quer estar contigo em breve.

Está bem.

Já que estamos aqui, queria dizer-vos uma coisa.

Se a Amaia conseguir pousar o telemóvel, claro.

- É importante. - É só um minuto.

O mundo continuará a girar sem ti.

Queria dizer que comecei uma relação.

Na verdade, voltámos.

Chama-se Fermín.

A Amaia conhece-o bem.

- Trabalha para ela. - Montes.

Ele próprio.

- Se te faz feliz, Flora... - Sim.

Ele diz que vais embora uns dias.

Sim, já vos tinha dito.

Desculpem, tenho de telefonar.

A pessoa que está a tentar contactar não está disponível.

A Flora vai voltar para o Elizondo.

Ela quer a parte da Rosa na pastelaria.

Foi por isso que discutiram.

O que foi, Amaia?

Estou bem, apenas...

... sinto-me...

... um pouco nervosa.

Posso fazer alguma coisa?

Não, está tudo bem.

Estou?

Inspetora Salazar?

Sim.

Sou a mãe do inspetor adjunto Etxaide.

Desculpe ligar, mas estou um pouco preocupada.

O meu filho está consigo?

Não, o Jonan foi para Pamplona esta manhã.

Estou em Elizondo. Aconteceu alguma coisa?

Ele disse que vinha a casa almoçar à uma,

mas não tenho notícias dele.

Liga sempre e o telefone está desligado.

Não se preocupe.

De certeza que está com um colega. Eu ligo-lhe já.

Vou fazer uns telefonemas e depois contacto-a.

- Não se preocupe. - Obrigada, Amaia.

Ligou para o Jonan Etxaide. Deixe uma mensagem. Adeus.

Jonan, é a Amaia. Por favor, liga-me assim que puderes.

Sim, chefe?

Fermín, a mãe do Jonan ligou. Está preocupada, não consegue falar com ele.

Não te preocupes, eu ligo ao Goñi. Vive perto, vai verificar.

Deve ter adormecido com o telemóvel em silêncio.

Por favor, faz isso.

O que se passa?

Amaia.

Amaia, o que se passa?

Tenho de ir.

Aonde vais?

- O que se passa, Amaia? - Volto já.

- Montes. - Chefe, o Etxaide estava em casa.

O Goñi encontrou a porta da frente aberta.

- E? - Raios, Amaia! Estava deitado no chão.

Foi alvejado.

Meu Deus! Vamos.

O que disse o Goñi?

Estava prestes a tocar a campainha quando viu que a porta estava um pouco aberta.

Entrou e encontrou-o no chão.

Quantos disparos foram? Onde?

Não sei, tinha acabado de entrar quando falámos.

Liga-lhe.

- Já tentei, não atende. - Merda! Volta a ligar.

Não atende.

Ele está em que hospital?

Está em casa.

Porquê?

Não sei, podem estar a estabilizá-lo.

Encosta.

- Abram alas! - Cuidado.

Porque está aqui o Dr. San Martín?

Entre.

- Deixa-me passar. - Não devias.

- Deixa-me passar! - Não.

- Deixa-me! - Por favor, não!

- Por favor! - Deixa-me!

Larga-me.

INVESTIGAÇÃO FORENSE

Não!

Não!

Sinto muito.

Não lhe toques.

Perdoa-me.

Perdoa-me, Jonan.

Credo, não!

Quer ser escoltada até casa, inspetora?

Se algum de vocês não suportar estar aqui, pode ir embora.

Não sou a chefe dos Homicídios por acaso.

Vão tirar-nos do caso em breve, por isso, tirem fotos de tudo.

Antes que sejamos expulsos.

- Claro, inspetora. - Sim, chefe.

CASA FUNERÁRIA IRACHE

James.

Não vás, por favor. Fica comigo.

Não posso, Amaia. Tenho de lá estar.

Eu sei, não sei porque digo isso. É só que...

É tão difícil.

Eu sei.

- Amo-te. - Amo-te.

Amo-vos aos dois.

Vemo-nos em breve, está bem?

O assassino usou munições subsónicas de 9 mm com silenciador.

Foi por isso que os vizinhos não ouviram nada.

Parece que o Etxaide conhecia o atacante.

Abriu-lhe a porta, deixou-o entrar...

E entrou com ele.

Por isso é que o corpo dele estava no fundo da sala.

E não parece um assalto normal.

Não havia confusão

e só levaram o portátil,

a câmara, os discos rígidos e os cartões de memória.

E a arma.

Uma arma limpa é mais valiosa do que dinheiro para um assassino.

O inspetor Clemos enviou o relatório da autópsia.

Não suporto aquele idiota.

Se ele não começar a comunicar por escrito, talvez lhe dê um murro.

De acordo com isto, foi alvejado no tronco e na testa

e a primeira trajetória indica que o assassino estava sentado

ou de joelhos.

Um assassino não dispararia de um ângulo tão baixo.

O segundo seria uma confirmação,

mas de acordo com o relatório, o primeiro tê-lo-ia matado.

Como assim?

Voltou a disparar para acabar-lhe com o sofrimento.

Foi misericordioso.

Por amor de Deus, Salazar!

Uma bala na cabeça, misericordioso?

É, se não quiseres causar mais dor do que a necessária.

E sabes isso só porque disparou outra vez?

Por isso...

... e porque lhe fechou os olhos.

Lamento.

Lamento.

Inspetora.

Obrigada por ter vindo.

Por favor, chame-me Amaia.

O Jonan gostava de si e respeitava-a muito.

Eu também.

Os Assuntos Internos verificaram

que o Etxaide acedia ao seu portátil pessoal

remotamente e fazia, muitas vezes, cópias de segurança de ficheiros e emails.

Claro que fazia.

Era meu assistente. Tinha acesso total.

Sim, mas dizem que ele acedeu ao seu portátil pessoal

no dia em que visitámos a parteira e pode ter sido ele a avisá-la.

Isso é impossível.

Montes.

Ele acedeu mesmo ao teu portátil sem autorização?

O Etxaide sabia tudo o que eu fazia. Não precisava de autorização.

Nem para ver o teu email pessoal?

Talvez o tenha acedido para instalar um antivírus

ou algo assim.

Amaia.

Sou o Marc.

O marido do Jonan.

Marc.

Não sabia que o Jonan era casado.

Não se preocupe.

Sabe que ele era reservado.

Mas ele falava muitas vezes de si.

Vou apanhá-lo, Marc. Juro.

Isso não o vai trazer de volta.

Não.

Ele sabia, Amaia.

Ele sabia que estava em perigo.

Ele disse alguma coisa?

Ele temia pela vida e deixou-te uma mensagem.

Que mensagem?

Não é bem uma mensagem,

mas há cerca de duas semanas, disse que estava a trabalhar em algo,

e se não to pudesse dar,

eu devia dar-to.

O que era?

Uma palavra.

Disse que saberias usá-la.

"Oferenda."

Oferenda e o número dele.

Só isso?

És em quem ele mais confiava.

E se ele não conseguisse dar-ta,

eu deveria lembrar-me disso.

Oferenda e o número dele.

Amaia.

Meritíssimo?

O que fazes aqui?

Lamento muito.

Obrigada.

Queres tomar uma bebida?

Conheço o lugar ideal.

Sim.

Não te imaginava a beber uísque.

A mim em particular ou qualquer mulher?

Não imaginava a inspetora Salazar.

Tem algo...

... que entorpece a dor.

Ao mesmo tempo, mantém a mente lúcida.

Uma vez, fui a um funeral irlandês.

Em vez de lamentarem a morte do amigo,

celebraram a vida que teve.

Segundo a lenda local,

os funerais duravam três dias

para garantir que o falecido não estava a fingir a própria morte,

porque nenhum irlandês resiste

a três dias de uísque e festas com amigos

sem se levantar da túmulo.

Obrigado.

Nunca vi o Jonan beber.

Uma vez, vi-o beber uma cerveja.

Mas acho que era sem álcool.

Quando o conheci, pensei

que era um espertinho.

Quase presunçoso.

Depois percebi

que só me queria impressionar.

Uns dias depois,

vi-o a interrogar umas crianças que foram abusadas

e percebi que era um prodígio.

Um dos... bons.

E carinhoso.

Liguei ao comissário nesse dia

e disse-lhe para não se atrever a tirá-lo de mim.

Em poucas semanas,

tinha-se tornado indispensável.

Alguma vez lhe disseste?

James.

Amaia, o cirurgião acabou de sair. Disse-nos que correu tudo bem.

Isso é ótimo.

O único problema que temos agora é que alguém aqui sente a tua falta.

Não é verdade, Ibai? Tens saudades da tua "ama"?

Ouve, vamos comer algo antes que o meu pai acorde.

Só queria ligar-te e dizer-te, está bem?

Claro. Obrigada. Dá-lhes um beijo, está bem?

Claro, vou fazer isso agora mesmo.

Amo-te.

Amo-te.

NOVO EMAIL DE JONAN ETXAIDE

TEM UM NOVO EMAIL

HORA DE ENTREGA DE JONAN ETXAIDE

O UTILIZADOR QUER PARTILHAR FICHEIROS E IMAGENS

DIGITE A PASSWORD

OFERENDA

Iriarte, qual é o número do crachá do Jonan?

OFERENDA1269

Obrigada.

DISCO PRIVADO DO JONAN ETXAIDE

Merda, Jonan!

O pai da Yolanda confirmou que, um ano antes do nascimento dos gémeos,

ela teve uma filha, a Haizea, que faleceu de morte súbita.

Levou a Yolanda à depressão e à loucura.

A juíza não nos deixará examinar a sepultura.

Não serviria de nada.

O marido fechou a laje no dia seguinte à explosão.

Que idiota.

Os bebés falecidos eram todos de cidades

vizinhas ao rio Baztan.

A Fina Hidalgo, a parteira, é a única ligação entre os casos.

Ela também trabalhava em Guipúscoa,

por isso, também pode ter atuado lá.

Primeiro, temos de encontrar a ligação

entre a parteira e os pais dos bebés falecidos.

- Só então, o Markina nos dará um mandado. - Vou investigá-la.

Segundo, verificar todas as mortes súbitas em Guipúscoa e Navarra,

sobretudo de filhas, nas cidades perto do rio Baztan.

- É o Bidasoa no Norte. - Eu trato disso.

Verifiquem se as famílias ficaram ricas após as mortes

para estabelecer um padrão de lucro.

Terceiro, preciso de um mandado para o Argi Beltz.

Não posso fundamentar, por isso, investiguem os Martínez e consigam-no.

Eu fico com isso.

Vamos manter a mente aberta e considerar todas as possibilidades.

Desculpem.

Queria...

... pedir-vos desculpa pelas minhas acusações no outro dia.

Já está esquecido, Amaia.

E queria pedir-vos para confiarem no Jonan.

O caso foi reaberto graças a ele.

Ele merece a nossa admiração e respeito.

Certamente, inspetora.

Podem ir.

Sim?

Marc.

Desculpa ter ligado.

- Não queria incomodar-te. - Não te preocupes, fizeste bem.

Pensei que já tivessem limpado tudo,

mas quando vi que ainda estava lá, congelei e não consegui entrar.

Eu trato disso.

Obrigado.

Sim, espero por eles. Obrigada.

Vou pedir ao professor Santos que faça a análise.

É um especialista forense em tecidos. Já trabalhámos com ele.

Meu Deus, desculpa! Lamento imenso.

Amaia, lamento muito o que aconteceu.

Está tudo bem?

Sim.

Pensei que passaríamos a noite juntos.

Tenho tanto para fazer.

E há um juiz que não para de me pedir provas.

Tenho de entregá-las.

Não vais parar, pois não?

Amaia, tens de parar. Não vês a dor que te estás a causar?

Amo-te e quero que fiques,

mas não resultará

se continuares obcecada com fantasmas do passado.

Não é uma obsessão, Javier. É instinto de sobrevivência.

Não posso descansar enquanto andar aí.

A Rosario está morta, Amaia.

Não voltarei a discutir isto e, definitivamente, não contigo.

Se realmente me amas, é por quem sou.

Sou um soldado, um batedor.

Não vou parar.

Fica.

Por favor.

Tenho de ir.

Desde que acordou, já protestou várias vezes,

o que é um bom sinal.

Avisa-me quando puderes falar. Ele gostava de te ouvir. Espero que estejas bem.

Quero que saiba que sou seu amigo

e estou aqui para ajudá-la.

O falecimento do subinspetor Etxaide...

Falecimento não.

Homicídio.

Fez-me pensar que há certos detalhes que devia saber.

Sabe, Navarra sempre foi uma terra de santos, um pilar da Igreja.

Mas talvez, por isso mesmo,

a presença do mal tenha sido constante.

Durante muito tempo,

preocupámo-nos com a multiplicação de seitas no país.

A bruxaria e os rituais satânicos não são coisa do passado, Amaia.

Há três anos, em Madrid,

um homem confessou ter participado num sacrifício humano em 1979,

numa casa em Lesaca.

Mas conheço todos os casos de homicídio em Navarra...

Este não.

O juiz ordenou sigilo.

Encontraram o corpo da bebé?

Nunca.

E o acusador?

Anda fugido desde então.

Sob proteção da polícia e da Opus Dei.

Onde?

Encoste aqui.

Padre Sarasola, inspetora Salazar.

Por aqui.

Esta é a inspetora Salazar.

Há cerca de 30 anos, conheci uma rapariga durante o São Firmino.

Convidou-me para ir a casa dela.

Era uma espécie de colónia

onde vivíamos, dançávamos e andávamos pedrados.

O líder chamava-se Xabier Tabese.

Era um homem muito especial.

Ele falava de magia, espiritismo, bruxaria e...

... de algo a que chamou: "voltar às origens".

É ele?

Não, sou eu.

Ele mantinha-se reservado, mas...

Mas tenho algumas do lugar.

Sabe se Xabier Tabese era o nome verdadeiro dele?

Na altura, não questionei nada, inspetora.

Tinha 25 anos,

tinha amigos com uma plantação de marijuana

e uma rapariga que era louca por mim.

O Tabese disse que se despertássemos as forças primárias com oferendas,

podíamos ter tudo o que quiséssemos.

Mas quanto mais recebíamos, mais ele exigia de nós.

Nós...

Nós adorávamo-lo. Teríamos feito qualquer coisa por ele.

Sacrifícios?

Sempre tivemos isso, sim.

Oferecíamos vidas de animais segundo um ritual que ele dirigia.

Tivemos orgias, bebemos o sangue dele, espalhámo-lo nos nossos corpos.

Sentimo-nos poderosos, como deuses.

E depois...

... os pais dela fizeram-no.

Ofereceram a filha e mataram-na como o Tabese lhes disse.

Depois, ele levou o corpo

e uns dias depois, o grupo desapareceu.

E nunca mais vi nenhum deles.

Sei que todos prosperaram.

Éramos uns pés-rapados, inspetora, e em poucos anos ficámos ricos.

Muito ricos.

O que aconteceu depois?

Anos depois, o meu filho foi diagnosticado com cancro.

No hospital, reconheci um médico que esteve envolvido em tudo.

Ele sugeriu uma oferta para o salvar, um sacrifício.

Considerei-a.

Mas a voz de Deus na minha cabeça era muito mais forte.

Morreu uns meses depois.

Então, decidi falar.

A minha vida desmoronou-se.

Perdi a minha mulher, o meu emprego, os meus amigos...

... perdi tudo.

Sei que havia mais grupos noutras localidades.

Havia um em Baztan, que ia fazer um sacrifício.

Tiveram uma filha que pouco alimentaram,

à espera da oferecê-la.

É tudo o que sei.

Conhece esta mulher?

Sim, estava no grupo de Baztan.

Estava grávida quando a conheci, mas...

Como dizer isto? Ela era...

... muito devota.

E...

... durante o sacrifício...

Lembra-se do processo para se obter o que se queria?

Era sacrificada a Inguma, ao mal.

Tinha de ser uma bebé não batizada.

Pois o batismo é um compromisso com um deus diferente.

Porquê raparigas?

O Tabese disse que, quando o Inguma acorda,

leva sempre vítimas do mesmo sexo

e da mesma idade.

E os corpos?

Eram levados para um lugar mágico, mais antigo do que o Cristianismo,

onde as oferendas também eram deixadas.

- A floresta? - Não sei.

Ele levou-a, mas é tudo o que sei.

O que recebiam em troca?

O que quiséssemos.

- Mas... - Nada de mas, inspetora.

Recebíamos tudo o que queríamos.

O que acontecia aos que escolhiam deixar o grupo?

Não percebe.

Ninguém sai deste grupo. Ninguém.

Mais cedo ou mais tarde, o Inguma cobra a sua dívida.

Nós espalhámo-nos, sim, mas...

... nunca saímos do grupo.

Foda-se!

Merda!

- Fermín. - Amaia.

Alguém entrou na minha casa.

Levaram os discos. Acho que andavam atrás dos ficheiros do Jonan.

Então, saia daí agora!

Certo. Assim farei. O que querias?

O Dr. González ligou para falar consigo.

Disse que o Dra. Takchenko teve um acidente e está na UCI.

Nadia! O que aconteceu?

Pelos vistos, um carro bateu no dela e ela despistou-se.

A polícia disse que o carro foi revistado.

O Dr. estava arrasado.

Obrigada. Vou já para aí.

Foda-se!

Querida, consegues cheirar as lentilhas da tia dos Estados Unidos?

Sim.

Está bem, James, digo-lhe que ligaste, está bem?

Fica bem. Adeus.

Porque estás a cozinhar tão tarde, tia?

Passa-se algo que queiras contar?

Não, está tudo bem.

Já não o amas?

Claro que sim, tia.

Encontrámo-lo, chefe.

O Xabier Tabese, morreu há 11 anos num acidente de barco.

É aquele ali.

Está como terapeuta em vários registos,

mas ainda estamos a investigá-lo.

A questão é que ele tinha, definitivamente, muito dinheiro.

Pois.

Pergunta ao coveiro de aonde vêm as orquídeas.

- Descobre quem as paga. - Está bem.

Yolanda?

Não me olhe assim. Sei os meus direitos.

Posso tirar fotos num sítio público, se quiser.

- Porque está aqui? - Estou a seguir os seus passos.

- Segue-me para onde? - Por todo o lado.

Por favor, vá embora, devia estar no hospital.

Viu as flores?

São como pequenos berços com bebés.

Por favor, vá, não a quero prender.

Prenda, inspetora!

A minha filha desapareceu

e só se preocupa com o seu trabalho.

Largue-me.

Confiei em si.

Mas, no fundo, são todos iguais. Todos vocês.

A família do meu marido, os médicos, o juiz, a polícia...

Só se preocupam com vocês. - O juiz Markina?

Ele disse-me para falar consigo.

Disse-me que era uma grande agente, a melhor.

E, se houvesse uma hipótese, avançaria com o caso.

Não nos conhecemos por acaso?

Ele disse-me para não lhe contar, mas já não me importo.

Obrigada, inspetora. Muito obrigada.

- Não devia conduzir assim. - Vá-se foder!

Só tive pena dela, desculpa.

Ligou para o meu gabinete e não pude fazer nada,

por isso, disse-lhe que, se ficasses interessada no caso,

talvez a ajudasses.

Só dei um conselho a uma pessoa desesperada

que estava a sofrer, só isso.

- Enganaste-me. - Não.

Não queria que ela dissesse que a tinha enviado, percebes?

Não me deixas abrir sepulturas, mas mandas-ma.

Negas os meus pedidos.

Dizes que sou obcecada por um caso e empurras-me para ele.

Não sei qual é o teu jogo.

Não é um jogo.

Só te estou a proteger.

- Como juiz, tenho os meus limites. - É assim que me proteges?

É assim que te protejo e defendo. Só isso.

Mas não quebro regras.

Eu conheço-te. Sei que és brilhante.

Mas não me peças para te seguir, porque tenho de te proteger de ti própria

e dos teus medos.

Vem cá esta noite

e discutamos isto com uma garrafa de vinho.

Não posso, disse à minha tia que ia jantar com ela.

- Tenho de ir. - Em Elizondo?

Sim. Vou desligar.

A florista diz que mudam as orquídeas todas as semanas

e pagam em dinheiro.

Sem nomes.

É sempre uma pessoa diferente.

- Está bem, chefe? - Sim. Vamos.

- Vemo-nos na esquadra? - Sim.

- Chefe, tenho novidades. - Quais?

- Descartando as bebés batizadas... - Sim?

... há cinco casos com as mesmas características.

Se os pais não estiverem juntos, um pode autorizar a exumação.

Faremos uma amanhã em Yanci

e estou à espera de mais duas. - Boa!

- O que foi? - O Clemos encerrou o caso do Etxaide.

O quê?

Diz que foram as máfias orientais por causa do tráfico de droga.

Mas que raio? Onde está a prova?

Foi o que eu disse. Ele diz que vão aparecer.

- Vão aparecer? - Está bem. Chefe?

Está um homem à sua procura.

Ontem recebi a amostra e um bilhete da médica

a pedir uma análise o mais depressa possível.

Ela disse que só lhe devia mostrar a si.

Esta fibra é de cetim, feita de seda de alta qualidade.

Pela assinatura do fabricante na treliça,

diria que foi feita em Inglaterra.

Mas é difícil ter a certeza absoluta

porque foi danificada pelo tiro.

O tiro?

Sim.

Olhe.

Isto é o anel de abrasão.

O pedaço de tecido foi arrancado pelo tiro.

O atirador deve ter escondido a arma no bolso

e o tiro atravessou-o.

Sabíamos que era um plano baixo, mas presumimos que estava sentado.

Eis a sua resposta, inspetora.

É claro para mim.

JUIZ MARKINA

Está aí alguém?

Está aí alguém?

Yolanda?

Yolanda!

Não!

Socorro!

Socorro!

POLÍCIA DE NAVARRA

O Dr. San Martín avisará quando a autópsia terminar.

Obrigada.

O Iriarte e o Goñi estão a caminho de Yanci para abrir um túmulo.

Depois, mais um em Irun.

Entretanto, ainda estou a investigar o Tabese.

E falei com a sua irmã, Flora.

E disse-lhe.

Obrigada.

Os lobos não se matam, Fermín.

Só deixam de ser lobos quando são mortos.

Perseguimo-los,

encurralamo-los e enfrentamo-los.

Ganhas ou morres.

Mas nunca saltam de um penhasco.

A Rosario chorou porque também não queria morrer.

É tudo um monte de mentiras.

Os ficheiros do Jonan só apontam para essas mentiras.

A campa da Yolanda era mentira.

O Berasategui disfarçado a visitar a minha mãe era mentira.

Porque é que o Etxaide tinha uma pasta sobre o caso Basajaun?

Ainda não sei.

Mas é uma coleção de mentiras.

Era o que o Jonan tentava mostrar-nos.

Iriarte!

Sim, Iriarte?

Sim, abre-a.

Prossiga.

Em geral, estava bem hidratada.

Os órgãos dela perfundiram adequadamente

e os membros também.

A pele dela estava em bem.

Tinha as unhas cuidadas, tinha o cabelo cortado...

Parecia saudável.

Não mostra ferimentos que sugiram

que foi exposta aos elementos.

Eu descartaria que estivesse estado no rio.

Obrigada, doutor.

Inspetora.

Perseguiu a sua mãe durante demasiado tempo.

O suficiente para a transformar em algo irreal.

É um pesadelo.

Amaia, não a deixe tornar-se num fantasma.

É só uma mulher idosa, Amaia.

Onde estás?

Estás feliz?

Afinal tinhas razão.

Porque deixas nozes no túmulo da Anne Arbizu?

Não lhes devias ter tocado, são para ela.

Estou farta de mentiras, Flora.

De segredos, medos... Já estou farta, mana.

Quero a verdade e quero-a de ti.

A Anne Arbizu era minha filha.

O quê?

O pai dela era comerciante de gado, conheci-o numa feira.

Tivemos um caso, só isso.

Quando a mãe descobriu, disse para guardar segredo.

E entregá-lo quando nascesse.

E tudo ficaria bem.

Ela disse isso?

- Ela disse "entregar"? - Sim.

Ela apresentou-me uma parteira que trataria de tudo.

Mas como não confiava naquela velhaca, mudei-me para Pamplona.

E quando dei à luz,

dei a minha menina para adoção.

A mãe nunca me perdoou.

A parteira chama-se Fina Hidalgo?

Sim.

Um dia...

... vi a minha bebé na praça da cidade, em Elizondo.

Reconheci-a de imediato, Amaia.

Os Arbizus tinham-na adotado.

Estou presa a esta cidade desde então, para a poder ter perto.

Há dois anos,

a Anne foi à padaria.

Descobriu que eu era a mãe dela e queria conhecer-me.

Nunca me culpou.

Foram os melhores dois anos da minha vida.

Até o Víctor a matar.

Foi por isso que o mataste?

- Não. - Sabias o que estava a fazer.

Suspeitaste que ele estava a matar as meninas?

Não, não tinha a certeza até à noite em que o fui ver.

Estavas armada, deves ter suspeitado.

Podias tê-lo evitado, feito alguma coisa.

Olha.

Esta foto é... a Anne em bebé. Ela deu-ma.

Parte-me o coração ver o Ibai. São idênticos.

Não pensei que o Víctor fosse responsável pelos crimes até à morte da Anne.

Porquê?

Porque percebi como ele escolheu as vítimas.

Como assim? Como?

Pensa no que ele fez aos corpos.

Afogou-as, depilou-as, voltou a transformá-las em meninas

e depois largou-as no rio. Não percebes?

A mãe disse ao Víctor quem era a Anne,

para ele acabar o que ela não tinha feito

tal como ela fez à nossa irmã, a ti e...

... ao Ibai.

Não sei porque escolheu as outras,

mas matou a Anne porque não a entreguei.

Eram ofertas falhadas.

O Víctor estava a entregá-las.

Usaram as obsessões do Víctor.

É isso que os cultos fazem, Amaia. Sabes disso.

Usam bens danificados, como tu e eu.

Porquê nozes?

A Anne disse que as nozes são um símbolo do poder das mulheres

em Baztan há séculos.

Que a sua energia não acaba na morte.

Agora, é a única ligação que tenho com ela.

Lamento por tudo o que tivemos de passar estes anos.

POLÍCIA DE NAVARRA

Boa noite, chefe.

Ambos os caixões estavam vazios.

Os crimes de Basajaun foram ofertas que correram mal.

Oferendas que nunca aconteceram.

Onde estão as outras crianças?

Foda-se esta merda!

O que se passa?

De 1970 a 1990,

havia uma clínica em Las Rozas, chamada clínica Tabese.

Tornou-se conhecida

ao proporcionar novos tratamentos dos Estados Unidos.

O diretor praticava medicina com o nome da clínica,

mas o seu nome verdadeiro era...

... Xabier Markina.

O pai do juiz Markina.

Ele abandonou-nos quando a minha mãe enlouqueceu.

Deixou-me um fundo para despesas e estudos e foi-se embora.

Nunca foste à procura dele?

Saber o que estaria a fazer?

Podia imaginar.

Saltar de uma mulher para outra,

viver como um milionário, viajar, velejar...

... no iate onde acabou por morrer.

Além de trabalhar na clínica, liderou dois grupos em Lesaka e Baztan.

Iniciou-os a rituais ocultos.

Foi identificado por uma testemunha.

Acusou-o de fazer sacrifícios humanos.

- O meu pai? - Sim.

Outra testemunha confirma que há ligação direta

entre os crimes de Basajaun

e as terapias do Dr. Barasategui.

Fizeste a tua pesquisa.

É o meu trabalho.

O que esperas que eu faça?

- O que queres? - Não fales comigo assim.

Não tenho de te dizer o que fazer.

Sou inspetora. Trouxe-te os factos. Foi o que pediste.

Prometi que não passaria por cima de ti.

Perdoa-me.

Perdoa-me.

Isto não é fácil para mim.

Nunca pensei que a minha carreira acabasse assim.

Não és responsável pelos atos do teu pai.

Como é o futuro

de um juiz cujo pai liderou um culto satânico?

Quer seja provado ou não, só a suspeita destruir-me-á.

Não tem de te afetar.

Deixa-me ajudar-te.

Não podes.

Posso.

Não.

James.

Amaia, acabei de falar com a tua tia. Ela falou-me da tua mãe.

Porque não me ligaste a dizer?

Ainda estou a digerir.

Vem para cá, Amaia.

Agora, mais do que nunca, vem e fica comigo e com o Ibai.

Não posso falar agora, estou a trabalhar. Podemos falar depois?

Está bem.

Está bem.

Está bem.

Toma.

O mandado de busca para o Argi Beltz.

Amo-te, Amaia.

Nunca senti isto por ninguém. Não aguentaria perder-te.

Vou ligar ao Iriarte e ao Goñi e vamos lá, chefe.

Tenho outra chamada. Obrigada, Fermín.

- Estou? - Inspetora.

- É o Benigno, o pai da Yolanda. - Sim, olá.

Ela acabou de sair

e disse que ia a um sítio que encontrou graças a si,

disse que ia acabar as coisas. - Disse mais alguma coisa?

Estava muito abalada

e a polícia disse que não tinha usado os explosivos todos da última vez.

- Não sei do que será capaz. - Eu trato disso.

Obrigado.

Porra!

Polícia! Abram!

Polícia! Abram a porta!

Filho da...

Somos nós, Fermín!

Meu Deus! Onde está a Salazar com o mandado?

Está a caminho.

- Ela enviou-mo. - Tecnicamente, temo-lo.

Certo? Ótimo.

Não queremos outro cenário de parteiras. Mexam-se.

Eu cubro-te.

Yolanda!

Para!

Yolanda, para.

A minha filha está lá dentro! Vou entrar!

Seja como for!

Para!

Eu disse: para.

Mas que raio?

A velha deve ter estado escondida aqui este tempo todo.

É tudo?

Onde está a Amaia?

Para! Larga essa barra, Yolanda. Calma. Larga.

Que se foda!

A minha filha está lá dentro e não posso ser parada.

Vou entrar. Custe o que custar!

Quieta.

Vou entrar.

Mesmo que tenha de passar por cima do seu cadáver.

Estás bem?

- Mataste-a. - Estava a atacar-te.

Queria matar-te.

Estão aqui.

Estão aqui, não estão?

Estão aqui.

Não entres.

Amaia.

Amaia!

Não entres.

Vais disparar?

Dispara. Vou entrar nem que seja a última coisa que faço.

Contar-te-ei tudo, mas não entres, por favor.

Porquê?

Porque não impediste isto?

Não posso.

Tentei evitar, mas é impossível.

Mentiras.

No início, também não percebi o meu pai.

Com o tempo, percebi que isto é maior do que pensava.

Tu mesma o disseste.

Tu própria sentiste que isto é maior do que a própria vida.

É eficaz.

- Poderoso... - Mataste o Berasategui?

... eficiente.

Ele ameaçou-te.

Estavas aterrorizada quando me ligaste.

E a minha mãe, mataste a Rosario?

Disseste que não descansavas enquanto ela estivesse viva.

Tu querias isto.

Não entres.

Amaia, não olhes para dentro!

Tu também fazes parte disto.

Sou apenas o canal.

O fio comum de uma religião tão antiga como o tempo.

E tudo começou no teu vale.

Um poder maior do que alguma vez imaginaste.

Mas tem de ser alimentado.

É isso que pensas que estão a fazer?

A alimentar um poder matando bebés?

É um preço alto a pagar,

mas as recompensas são extraordinárias.

É a forma mais verdadeira de falar com as forças vivas.

Não percebes?

Estás doente.

Não.

Não me trates assim.

Tu não.

A minha mãe matou a própria filha, tentou matar-me a vida toda.

Tentou matar o Ibai.

Que merda é essa das forças vivas?

A tua mãe estava obcecada.

Mas isso acabou.

Prometo que ninguém te vai magoar nem ao Ibai, a partir de agora.

Porque me fizeste isto?

Porque me abordaste? Porquê?

Não queria apaixonar-me por ti, mas aconteceu.

É difícil aceitar isto tudo, mas foste feita para mim.

Eu sei.

Pertences-me a mim e eu a ti.

Não.

Todas essas mortes...

As meninas no rio.

A Nadia.

A Elena Ochoa.

A filha da Flora,

a minha irmã.

Quantas mortes estão sobre ti?

Nenhuma.

Nenhuma, Amaia.

Somos todos donos das nossas vidas

e eu sou responsável pela tua.

Amo-te e não posso deixar que te magoem.

A tua mãe não teria parado de tentar.

Não me podes condenar por te proteger.

Que poder tens sobre essas pessoas?

Mataste o Jonan?

Não me perguntes isso.

Tive de o fazer.

E agora tenho de fazer isto.

Desculpa.

Eu amo-te, mas...

Não.

Tenho de o fazer.

Ele tinha a arma do Jonan.

Abrimos a campa do Tabese.

Está vazia.

Precisamos de um mandado de detenção internacional.

Certo.

Estou?

Entendido.

A cidade de Hondarribia está em estado de choque

depois de duas pessoas, não identificadas, morrerem ontem à noite neste cemitério.

Ainda não temos muitos detalhes sobre o que aconteceu,

mas parece que uma das vítimas do duplo homicídio

é o renomado juiz Navarro, Javier Markina.

As últimas especulações apontam

para a sua morte poder estar relacionada com um dos casos de que estava encarregue,

alguns destes muito conhecidos nos últimos meses.

De acordo com fontes não oficiais da polícia...

Está tudo bem.

- Amaia. - James.

Estás bem?

Vens?

Aconteceram muitas coisas.

Temos de falar.

Não foi isso que te perguntei, meu amor.

Só preciso de saber se te vais juntar a mim e ao Ibai

para podermos ir todos para casa.

Responde-me, por favor.

Vens?

Sim.

Está bem.

A TRILOGIA DE BAZTAN

Legendas: Ema Nunes

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