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Original subtitles

LONGE DO PARAÍSO

Mãe, posso dormir em casa do Hutch? A Sra. Hutchinson deu licença.

Não. O pai e eu vamos sair. Tens de ficar com a tua irmã.

Bolas.

Sai do caminho para eu poder estacionar.

Produção

A Sherry Seeger diz que só custam ou dólares.

Por favor, mãe, compra-mas?

Sybil, graças a Deus!

Eu sabia que ia às compras.

David, por favor ajuda a Sybil a descarregar o carro.

Porque não é a Janice a ajudar ela?

"A ajudá-la." A Janice leva as coisas dela e vai tomar banho.

O pai e eu temos um compromisso

e quero que jantem mais cedo, portanto ajuda a Sybil.

Sybil, o meu marido telefonou?

Não depois de ter saído.

Mãe, por favor, compra-mas?

Já disse que falo com o pai. Agora despacha-te.

David, arruma a bicicleta e ajuda a levar as compras. O teu casaco?

Está lá dentro.

Olá. Não vou ver-te daqui a três horas?

Vais. Deixei os caterers e vim cá num pulo.

- Tens as amostras? - Claro.

Entra. Apanhaste-me por um triz.

Não posso demorar-me. Tenho imenso que fazer.

- David, o que te disse eu? - Vou buscar o último saco.

Imagina, com o arranjo de mesa que te mostrei...

Este tom... Não fica lindo?

- Muito. - Gostas?

De manhã telefono ao caterer, tu confirmas com a Dorothy

e, minha querida, mãos à obra.

- Magnatech '57, contem connosco. - Absolutamente.

- Obrigada por teres vindo. - Vemo-nos às 20 horas.

Conheces o Frank. Pontualíssimo.

Mãe, em pequena era parecida comigo?

Então, quando eu crescer, serei como a mãe?

É isso que queres, querida?

Sim, espero ser assim tão bonita.

Que lindo elogio vindo da minha lindíssima filha.

19:15! Onde está o teu pai?

Sybil! Deixei as luvas na mesa da entrada?

Sim, estou a vê-las.

São quase 19:20 e o meu marido ainda não telefonou.

Estou nervosíssima. Obrigada.

Já telefonei para o escritório, mesmo sabendo que não está lá ninguém.

Espero que seja ele, porque se não for...

Residência Whitaker.

É da esquadra de Hartford para Sra. Frank Whitaker.

- Quem é? - É da Polícia.

Está?

Estou a falar com Sra. Frank Whitaker?

Um momento, por favor.

Cathy...

- Estás bem? O que aconteceu? - Está tudo bem.

Tratou-se só de uma confusão.

Mas tens de vir buscar-me. Não me deixam sair sozinho.

Não te preocupes. Irei o mais depressa possível.

Posso fazer alguma coisa, Sra. Whitaker?

Vigia os pequenos. Acho que não me demoro.

A sua cópia. E o recibo.

Digo-te uma coisa, se não fosse aquele parvo daquele polícia novato,

não tinham arranjado esta confusão toda.

Não queriam era ficar mal. Eu vi o "vadio" que eles perseguiam,

mas não me ligaram nenhuma.

Então... houve copos depois do trabalho?

O que queres dizer?

Falaram... num grau de embriaguez.

Céus! Bebi um cocktail com o Bill enquanto discutíamos o portfolio !

Também devo ser preso por isso?

Claro que não, querido.

Tudo isto pôs-me fora de mim.

Ele está bem e o carro também. O Frank diz que foi só o pára-choques.

Mas sabes como eu sou, não entendo nada disso.

Só tenho pena de não termos ido à festa.

Ela estava bem.

Disse que a festa foi uma maçada com os mexericos da Mona Lauder.

Desculpa.

Querido, não tens nada que pedir desculpa.

Tudo não passou de um engano tolo.

Estou tão cansado...

Claro que estás. Agora dorme.

Chegou o autocarro!

Tenham um bom dia de escola.

Pensei que comias outra torrada.

É tarde. Já devia estar no escritório.

Posso arranjar-te o almoço?

Não, obrigado. Tenho almoços de trabalho toda a semana.

Sybil, se for o leiteiro, o cheque dele está na gaveta.

Estou contente por estares melhor, querido.

Obrigado, querida.

Desculpe, minha senhora.

Sra. Whitaker, é Sra. Leacock. Diz que tem uma reunião consigo.

Céus, esqueci-me das horas. Por favor desculpe-me.

Desculpe, mas as fotos espontâneas são sempre as melhores.

- Adeus, querida. - Adeus, querido.

- Sra. Leacock. - Foi um prazer, Sr. Whitaker.

O seu marido é um homem muito simpático, Sra. Whitaker.

Obrigada. Nós gostamos muito dele.

Façam o favor de entrar. Estejam à vontade.

Confesso que não sei porque querem entrevistar alguém como eu.

As leitoras da Gazeta Semanal são mulheres como a senhora,

com famílias e lares para cuidar.

Um bom jornal social não precisa ser um manancial de fofocas.

É a orgulhosa esposa de um gerente de vendas de sucesso,

organiza festas e faz publicidade ao lado do seu marido.

Para toda a gente de Connecticut

são o Sr. e a Sra. Magnatech.

Obrigada. Sinto-me muito lisonjeada,

mas a minha vida é igual à de qualquer esposa e mãe.

Aliás, acho que nunca quis nada...

O que foi?

Creio que vi passar alguém no jardim.

Como é que...?

Talvez devesse chamar a polícia.

Desculpe. Deseja alguma coisa?

Quem é o senhor?

Desculpe. Sou Raymond Deagan. O filho de Otis Deagan.

Estava só a tirar...

É filho do Otis?

Desculpe ter-lhe falado assim.

Não sabia quem estava aqui.

Não faz mal.

Como está o seu pai? Soube que esteve hospitalizado.

O meu pai faleceu.

Não fazia ideia. Lamento muito.

Os meus sentidos pêsames. Era um homem maravilhoso e dedicado.

Obrigado.

Sra. Whitaker? O caterer está ao telefone.

Obrigada. Desculpe. Dá-me licença por um momento?

Peço imensa desculpa, Sra. Leacock. É só mais um minuto.

Bom dia. Magnatech International. Com quem deseja falar?

- Bom dia, Sr. Whitaker. - Bom dia, Kitty. Lindo vestido.

- Obrigada. - Bom dia, Marlene. Stan.

Bom dia, Sr. Whitaker.

Como está o segundo melhor jogador de golfe de Hartford?

Já gastaram demais em publicidade?

Não me digas que as nossas mulheres apresentaram o orçamento da festa.

Quase tão fatal. O Millstein ligou. Nova Iorque antecipou uma semana.

- Estás a gozar-me. - Quem me dera.

Querem acabar connosco? O Doug sabe?

Telefonei-lhe logo.

Telefona ao Doug e aos outros. Reunimo-nos durante o almoço.

Marlene, marca a apresentação para o jantar,

e por favor liga para a minha mulher. Obrigado, Stan.

Sra. Whitaker está na linha um.

Tenho muita pena, Frank.

Eu compreendo. Só quero é que não trabalhes demais.

Principalmente depois de... Eu sei.

Está bem...

Então, até logo. Adeus, querido.

Desculpem as interrupções. Onde me queriam?

Só mais uma junto da lareira.

Isso mesmo... Agora sorria.

- Não está um encanto? - Não se mexa...

Acho que é tudo. Bob, Rick, meus senhores...

Tem a certeza que vai bem sozinho?

Obrigado, David. Mas como segundo comandante do USS McMillan,

acho que posso localizar o meu carro sem protecção.

Até amanhã bem cedo!

Para onde vais, bonitão?

David, mandei-te acabar com esse berreiro e ires para a cama!

- Mãe, por favor. Só esta vez? - Não, e ponto final.

Bolas...

E não usamos essa linguagem cá em casa... Rápido.

Não te esqueças de lavar os dentes.

Identificação, por favor.

Identificação. Carta de condução.

Obrigado. Tenha uma boa noite.

O que deseja que lhe sirva?

Um scotch. Simples, por favor.

Aqui tem.

Mais um igual.

"Então está certa a lendária máxima que atrás de um grande homem,

"está uma grande mulher? Neste caso, esposa, mãe,

"a própria Sra. Magnatech,

Cathleen Whitaker prova que assim é."

"Uma mulher tão devotada à família como bondosa para os pretos."

Deixa-me ver isso. O que é que essa mulher pensa?

A Cathy é liberal desde o tempo das tournées da faculdade

com todos aqueles judeus charmosos.

Porque pensam que lhe chamavam "Vermelha"?

Por favor! Vamos para dentro antes que o Joe McCarthy passe por aqui.

Oh! Adoro aquele lenço!

Tenho a certeza que foi para trás da casa.

Este não é o teu dia, pois não?

- Chamavam-te "Vermelha"? - Nancy, francamente!

Alguém quer outro daiquiri ?

É melhor não.

O meu limite é um.

Muito bem, meninas, deixemo-nos de mais evasivas.

Nancy?

Eu não sou capaz.

Não pode ser assim tão grave.

Bem... o Mike insiste...

Ele insiste numa vez por semana.

Tens muita sorte.

- Uma vez por semana? - Tens sorte.

O Ron quer duas ou três.

- Três? A sério? - E como...

Isso não é nada. Uma amiga minha, a Shirley Dawson...

...o marido... é todas as noites da semana. E ainda...

...mais três vezes aos fins-de-semana.

Imaginam?

Foi um encanto, Cathleen!

Adeus, meninas!

O frango estava divinal.

Telefono-te amanhã.

Isto será...? Oh, desculpe.

Encontrou-o.

Estava pendurado num dos vidoeiros.

Estava imenso vento. Ia entrar em casa e fugiu-me do pescoço.

Pressenti que fosse seu.

Quem mais seria tão distraída...

Não, é a cor. Ajusta-se a si.

Obrigada, Sr. Deagan. Por o ter encontrado...

Por favor trate-me por Raymond.

Obrigada, Raymond.

Está tudo uma maravilha.

Acho que temos tudo controlado.

Não pode ter sido fácil substituir o seu pai assim de repente.

O trabalho do meu pai, a minha loja e cuidar da minha filha,

não me deixa muito tempo para reflectir.

Não sabia que tinha filhos.

- Só uma menina. Chama-se Sarah. - E quantos anos tem a Sarah?

Onze.

De certeza é uma linda menina que é o seu orgulho e da sua mulher.

A minha mulher morreu quando a Sarah tinha cinco anos.

Lamento muito.

Obrigado. Eu e a Sarah...

...entendemo-nos muito bem. Tenho uma fotografia dela.

Aqui está ela. É a minha Sarah.

É um amor! Que olhos...

E tem uma loja de quê?

De plantas. É uma loja pequena, em Hawthorn.

Comecei por servir jardineiros. Depois abri a loja há seis anos.

Por enquanto a licenciatura em gestão só serviu para isso.

É esplêndido. Deve estar muito orgulhoso.

Sim, estou. Se passar por lá, vá vê-la.

Irei com certeza.

- Obrigada. - Não tem de quê.

Se for o vosso pai... Deixa, Sybil, eu atendo.

Está? Frank, ainda não saíste?

Outra vez?

Está bem. Até logo, querido.

Não vem para casa outra vez?

Não, vai chegar tarde.

O pai nunca quer vir para casa.

Claro que quer. Está com imenso trabalho e muita pressão.

- Pois! - Cala-te!

Janice, basta!

Ouve, Sybil...

Prepara o prato de Sr. Whitaker. Eu vou levar-lho.

Ao escritório?

Não é assim tão longe, os pequenos estão bem

e poupo ao meu marido outra noite de bolos e café.

Vou levar uma coisa ao meu marido, Sr. Whitaker.

- Está bem. - Obrigada.

Frank...?

Cathy...

O Sr. Maynard deixou o orçamento para o telhado.

Pu-lo na cozinha.

1.200 dólares.

Não consigo.

Eu não...

O quê?

Sabes...

...uma vez... há muito tempo...

...há muito, muito tempo...

...tive...

...problemas.

Pensei que nunca mais acontecesse.

Nunca imaginei...

Tiveste problemas?

Tive.

Nunca falaste com ninguém? Um médico?

Com ninguém?

Não compreendo.

Eu também não.

Tem de haver pessoas que...

Não sei.

Porque...

...doutro modo não sei o que eu...

Está bem.

Obrigada.

Sr. e Sra. Whitaker? O Dr. Bowman.

Como está, Sr. Whitaker?

Sra. Whitaker... Está linda.

Acho que podemos começar.

Sra. Whitaker, acho melhor eu e o seu marido falarmos a sós.

- A sós? Com certeza. - Penso que é melhor.

Com certeza, Sr. Doutor. Até já.

Até já, querida.

Hoje, a atitude para com este género de comportamento

é mais moderna e científica que dantes.

Mas para quem procura tratamento

e tem a vontade e o desejo de levar uma vida normal,

ainda só há entre 5 a 30% de garantia

de uma total conversão heterossexual.

Para muitos, é o tratamento que altera a mentalidade do doente.

De que consta o tratamento?

Geralmente de sessões psiquiátricas duas vezes por semana, às vezes mais.

Só conversa?

Alguns doentes exploraram métodos mais comportamentais.

Comportamentais?

Electro-choques, por exemplo. Ou reequilíbrio hormonal.

Eu sei que ao princípio parece assustador.

Sugiro que pondere o assunto.

Pense nas diversas opções, discuta-as com a sua esposa...

Não. Já decidi. Quero iniciar o tratamento.

Não posso deixar que isto destrua a minha vida.

A vida da minha família.

Eu sei que é uma doença, porque me faz sentir...

...desprezível.

Prometo-lhe que vou vencer isto.

Vou acabar com isto. Juro por Deus.

Marque as próximas consultas com a Rosalyn.

Espero por si na terça-feira à mesma hora.

Obrigada, Sr. Doutor.

- Frank? - Diz.

Orgulho-me de ti. Só isso.

- Não digas isso. - É verdade.

O Dr. Bowman parece um homem muito honesto, não achas?

Não sei, Cathleen. Suponho que sim.

Deves ter gostado dele para quereres voltar.

A quem mais hei-de recorrer?

Tenho a certeza que há muitos médicos em Hartford ou Springfield se tu...

Eu quero é acabar com isto!

Compreendes isso?!

Por favor, não faças isso.

Desculpa.

Desculpa, Cathleen.

- Bom dia, Sr. Whitaker. - Espero que tenha um bom dia.

Bom dia, Sr. Whitaker.

Encontrei isto no armário.

O que é isso?

O candeeiro do seu gabinete que faltava.

- Mando consertá-lo? - Sim. Obrigado.

Sr. Whitaker, o Sr. Fine tem estado à espera...

Não te vi aí sentado.

Está tudo bem?

Claro. Que novidades há?

Fui buscar as provas à gráfica.

- Como estão? - Óptimas.

Deixa-as aí, vejo-as assim que puder.

Depois dás-me a tua opinião?

Claro. Tu encabeças a minha lista.

Quando é que voltas a jogar? Há semanas que não te vemos.

- Eu sei. - Domingo. Nada de desculpas.

- Combinado. - Faço-te cumprir.

- Obrigadíssima. - Não queres mesmo mais nada?

Os caterers têm tudo. Só pensei em mais uns extras.

Lembra-te da exposição no sábado. Começa já a convencer o Frank.

Ele esquiva-se sempre a tudo.

Lamento mas a Mona Lauder vai estar lá.

O tio de Nova Iorque está cá e ele negoceia em arte.

Conheci-o numa festa da Mona. Um nadinha efeminado para meu gosto.

O que queres dizer?

Tu sabes, amaricado.

Sim, querida. Ele é um desses.

Posso estar enganada, mas fiquei com essa impressão.

Não gostas deles?

Nem por isso. Embora não conheça nenhum.

Chama-me antiquada, mas eu gosto que os homens sejam homens.

Porquê tanta insistência?

Não é insistência, só queria saber a tua opinião.

Li um artigo numa revista. O que foi?

Nada. Vejo que te interessas por outra causa cívica. Já estou a ver:

"Cathleen Whitaker e a sua bondade pelos homossexuais."

Essa palavra...

- Até sábado. E leva o Frank. - Tentarei.

E o Billy Hutchinson roubou a bola nas 10 jardas e fez um touchdown.

O pai devia ter visto.

Pai, quer ver os passos que aprendi para a récita?

- Eu estava a falar com o pai! - Meninos, deixem o pai jantar.

Queres outra costeleta, querido?

Tenho o suficiente.

- Tenho mais no forno. - Não, obrigado.

No sábado jogamos com o Lincoln. Se não for trabalhar...

No sábado é a inauguração da exposição de que te falei.

A que é organizada pelo grupo da Eleanor.

Sei que detestas essas coisas, mas a Eleanor pediu-me para te levar.

E eu? Ninguém se importa comigo.

Desculpa, mas sábado tenho um compromisso inadiável.

O pai podia ir ao jogo, não podia?

Veremos.

Janice, por favor passas-me a manteiga?

Foste lá?

Fui.

Não disseste nada.

Como te deste com o doutor?

Bem.

E não queres partilhar mais nada com a tua adorável esposa?

O que eu falo com o médico é particular, está bem?

- Faz parte da terapia. - Eu compreendo, querido.

Vais ver os hors d'oeuvres...

O caterer está a fazer um excelente trabalho.

Acho que vais ficar muito contente este ano.

CENTRO CULTURAL DE HARTFORD

Eleanor, desculpa o atraso.

Olá, Mona.

Quero apresentar-te ao meu tio, Morris Farnsworth,

um conceituado negociante de arte de Nova Iorque

que teve a gentileza de assistir à nossa provinciana reunião.

Querido, apresento-lhe a minha querida amiga Cathleen Whitaker,

cujo rosto e actividades cívicas são uma constante nas colunas sociais.

Francamente, Mona. Não faça caso, Sr. Farnsworth.

- Encantado. - Espero que goste da sua visita.

O Morris estava a falar-nos sobre a falsificação de um Rembrandt.

Não te detenhas. Sei que queres ver a exposição.

Estou ansiosa por vê-la.

Está um encanto. Deves estar orgulhosa, Eleanor.

Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Farnsworth.

Igualmente, minha querida.

A esposa de um executivo de Hartford comungando com Picasso?

Sra. Leacock, é um prazer voltar a vê-la.

E como está o seu encantador marido?

Está muito bem, obrigada.

- Dá-me licença? - Com certeza.

Raymond. Que grande surpresa encontrá-lo aqui.

Como está, Sra. Whitaker?

- É a sua filha? - Sim, é a minha Sarah.

Olá, Sarah.

Não é o Hutch e o irmão que estão a brincar lá fora?

Não te lembras deles?

No dia que fomos a casa dos Hutchsinsons...

Porque não vais ver se eles querem brincar?

Vá lá. Faz a vontade ao pai.

Linda menina.

- Ela é um amor. - Obrigado.

Como soube da exposição?

Eu leio os jornais.

Claro que sim. Só estranhei a coincidência.

Eu sei. Estava a brincar.

Eu não tenho preconceitos.

O meu marido e eu sempre defendemos a igualdade de direitos para os pretos

e apoiamos o NAACP.

Fico feliz por isso.

Só quis que soubesse.

- Obrigado. - Não tem de quê.

Mais a direito, Tommy! Tens de o lançar mais a direito.

E com mais força. Um... dois... três... força!

É pesada demais.

O quê?

A parte de trás do avião.

Alguém te perguntou? Anda, Bobby.

O que pensa da arte moderna?

É difícil de expressar. Só sei do que gosto e do que não gosto.

Como este - não sei como se pronuncia - "Mirra"?

Miró.

Miró. Não sei porquê, mas gosto muito dele.

O sentimento que transmite... Eu sei que é terrivelmente vago...

Confirma algo que eu sempre me questionei sobre a arte moderna.

O quê?

Que talvez seja uma continuidade da arte religiosa,

tentando mostrar-nos a natureza divina. O artista moderno

limita-se aos elementos básicos da forma e da cor.

Mas quando olha para esse Miro, sente essa natureza divina.

Disse-o maravilhosamente.

Para ser franca, eu preferi sempre o trabalho dos Mestres.

Rembrandt, Michelangelo...

Dá-me licença?

Está tudo uma maravilha.

Quem é aquele homem? Puseste toda a gente em alvoroço.

Porquê? Por causa daquela história ridícula?

Quem é ele?

É o Raymond Deagan, o filho do Otis Deagan.

O teu jardineiro ?

Ele faleceu e o Raymond ocupou o lugar dele.

Parecias muito familiarizada com ele.

Que ideia é essa? Ele tem pontos de vista muito interessantes sobre Miró.

Olha as horas. Tenho de ir. Estão a limpar-me as carpetes para amanhã.

- A que horas chegam os caterers ? - Disseram às 16.

Chegarei mais cedo. Para apoio moral.

Não quer dizer que seja contra a integração.

Creio que é a atitude mais cristã.

Mas o que aconteceu em Little Rock podia ter acontecido aqui.

- Que disparate. - Porquê?

No Connecticut não há um Governador Faubus.

E, principalmente, não há pretos!

Pois não, mas há cá pessoas pró-integração muito perigosas.

- Perigosas? - Sim. E muito atraentes.

Famosas, dizem-me, pela sua bondade com os pretos.

Pára, Dick. Onde ouviste uma coisa dessas?

- A Shirley leu-me a notícia. - Eu já devia saber.

- O que é que ele ouviu? - Absolutamente nada.

Eu trago mais bebidas. Com licença.

Aqui está ela! A mulher mais bonita da sala!

A bebida traz à superfície o teu lado texano. Oxalá a Eleanor não ouça.

E se ouvir? Continuo a dizer que o Frank é o mais sortudo dos homens.

É tudo aparência. Deviam vê-la sem maquilhagem.

Ele tem razão. Nós nunca somos o que parecemos.

- Cada rapariga tem o seu segredo. - Se tem.

Queres trazer outra bebida ao teu marido?

- Não achas que já bebeste demais? - Não, acho que não.

Quero fazer um brinde aos nossos anfitriões

e a mais outra gloriosa festa anual na sua casa.

À saúde do Frank e da Cathy, Sr. e Sra. Magnatech.

Muito obrigada. Quem mais posso servir? Ron?

- Eu. - Tu ainda tens muito.

Eu levo isso, Sra. Whitaker.

Está tudo bem, querida?

Porque perguntas?

Nunca vi o Frank tão "alegre".

Ele tem trabalhado muito. Está sob uma pressão tremenda.

De certeza que é só isso?

- Se fosse algo mais, dizias-me? - Claro que sim!

Acho que organizámos uma festa de categoria.

Correu tudo muito bem, não foi?

Cathleen, voltaste a superar-te.

Acho que foi uma excelente festa, dadas as circunstâncias...

Só queria...

...que não tivesse acontecido aquilo...

...diante dos nossos amigos.

Sinceramente, se não tivesses insistido...

O que foi?

Céus! O que está a acontecer? Nem sequer consigo...! Meu Deus!

Não faz mal. O importante é continuares a insistir.

Tenho a certeza que o Dick Dawson

não se importava de ser prestável de vez em quando.

Tu não te importavas, pois não? Um tipo bem-parecido como o Dick.

Talvez até o Stan desse uma ajuda.

Tu és o único homem que eu alguma vez quis.

Deixa-me!

Para mim és muito homem! Tu és um homem!

Cathy, desculpa-me.

Estou bem. Foi um acidente.

Estás a sangrar?

Só um bocadinho.

Vai buscar-me gelo, querido.

- Gelo? - Sim.

Eu sei. Não tem importância. Eu estou bem.

Olá, querida. Não posso ficar. Vou almoçar com o Stan no clube.

Deixei-te ir embora sem as travessas.

Ficas gira com o cabelo assim.

- Experimentei. - Fica lindo.

Obrigada.

- Cathy? - Diz.

O que aconteceu à tua testa?

Nada. Bati na porta. A maior das parvoíces.

Cathy...

Aconteceu alguma coisa entre ti e o Frank?

O que queres dizer?

Eu sou a tua melhor amiga.

Não aconteceu nada. Absolutamente nada.

Eu sei...

Eu sou a tua melhor e mais íntima amiga.

Telefona-me seja a que horas for, estás a ouvir?

Sra. Whitaker?

Há alguma coisa que eu possa fazer?

Tem a certeza?

Eu estou bem.

É um momento difícil. Com o meu marido.

Acontece com todos os casais.

Eu sei. É embaraçoso.

Por favor desculpe-me.

Desculpá-la?

Ouça, Sra. Whitaker, eu tenho de ir buscar uns arbustos

a uma quinta nos arredores, por isso tenho de ir andando.

Porque não vem dar um passeio?

O ar puro e a mudança de ambiente podiam distraí-la.

Não, não posso ir.

Obrigada pela oferta. É muito amável.

Tem a certeza?

- Sra. Whitaker? - Sim, Sybil?

- A Sra. Barker está ao telefone. - Vou já.

Tenho de ir.

Não faz mal. Eu tencionava ir buscá-los às cinco.

Quer trocar para quinta-feira? Não vejo problema nenhum.

Ainda bem que pude ser útil.

Com certeza. Adeus.

Raymond!

Sra. Whitaker.

Recebi um telefonema e tudo se alterou.

Mudou de ideias. Óptimo.

Que encanto. O que é?

Uma hamamélia em flor. Muito rara nesta região.

É linda. Tinha razão. Que sítio encantador.

Isso é um caminho?

Acho que sim.

Vamos bisbilhotar.

Às vezes é nas pessoas fora do nosso mundo que mais confiamos.

Mas uma vez que confiamos... que abrimos o coração,

passam a fazer parte do nosso mundo, não é?

Veja! Que encanto!

Foi ele quem fez isso?

Foi sem querer.

Lamento muito.

Deus sabe que todos temos os nossos problemas. Tenho a certeza que você...

Não sei... desde que o encontrei na exposição

que não paro de pensar como será... ser o único na sala.

A única pessoa de cor...

O que deve sentir.

Eu tenho a certeza que nunca...

Acho que crescemos acostumados a isso.

Não me interprete mal. Há um mundo, mesmo aqui em Hartford,

onde todos são como eu.

O mal é que muito poucos saem desse mundo.

Eu só quero o que todo o pai quer para o seu filho,

as oportunidades que eu nunca tive. - Naturalmente.

Mas se está interessada, proponho-lhe uma coisa.

Diga.

Tem fome? Quer comer qualquer coisa?

Acho que sim.

Então, deixe-me levá-la a um dos meus sítios preferidos.

Nos dias bons tem comida quente, bebidas frescas e música perceptível.

É difícil resistir.

O Edsel verde!

Estou aqui.

Muito obrigada.

Meu Deus...

Permita que a ajude.

- Venho tão mal vestida... - Está muito bem.

Não se preocupe. É um sítio muito agradável.

Olá, Esther. Já não se cumprimenta?

Pelo aspecto estás óptimo.

Estás zangada porque eu não tenho aparecido...

Achas que sim?

Queres trazer-nos umas bebidas?

O que deseja?

Um daiquiri, se...

Um daiquiri e um bourbon com gelo. Obrigado, jóia.

Qual é a tua, rapaz?

Espero que ache a situação divertida.

Como assim? Isto é um sítio muito acolhedor.

Como estás, Gus?

Está a ver?

Obrigada.

Obrigado, Esther.

Brindemos a ser o único.

Não temos de ficar, se não se sente à vontade.

Desde que esteja longe da Esther, acho que estou bem.

Obrigada, Raymond... por uma tarde encantadora.

Obrigado eu, Sra. Whitaker. Para mim também foi.

Sra. Whitaker é tão formal. Quer...

Quero o quê?

Convidar-me para dançar?

Está uma maravilha. Onde havemos de a pôr?

Ali, junto da janela.

- Sim, fica muito bem. - Sem dúvida.

Onde pus a lista?

Prometi à Janice que não chegaria tarde à récita.

Não pode perdê-la.

Sybil... queria perguntar-te...

Como se chama o grupo da igreja a que tu pertences?

Em Ebenezer? A escola Baptista?

Acho que é esse.

Ou é o da igreja Baptista de South Green? A do peditório...

Não sabia que havia mais que um.

Eu estou sempre a colaborar em qualquer coisa.

É espantoso arranjares tempo, com tanto que trabalhas aqui.

Tenho muita coisa no sótão de que quero desfazer-me,

pensei que conhecesses uma igreja ou associação que aceitasse um donativo.

Claro. Não faltam organizações necessitadas.

Tens toda a razão.

Boa tarde. Posso ajudá-los?

Boa tarde, minha senhora. Chamo-me Reginald Carter

e esta é Martha Livingston. Somos membros da secção local

da Associação Nacional para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor.

Conheço a vossa organização.

Talvez esteja interessada em ler a nossa brochura.

Quer assinar a nossa lista de apoiantes?

Já estou atrasada. Sybil, assina por mim, sim?

Mãe!

Olá, querida. A récita começou agora?

Onde estão as outras meninas da tua classe?

Estão ali.

Janice?

Sybil?

- Cathy. - El?

Ainda bem que estás em casa. Passei o dia a telefonar-te.

O que se passa?

- Ainda não ouviste nada? - Não. O que aconteceu?

- Tem havido falatório. Do pior. - Acerca de quê?

De ti.

Pelo amor de Deus! O que há agora?

É a Mona.

Tem andado numa roda-viva, jurando a pés juntos

que te viu com um homem de cor,

algures em Franklin, a saíres de uma camioneta.

O mesmo homem de cor com quem falaste na exposição.

É absurdo.

Falei com o Sr. Deagan ocasionalmente, e parece que...

Eu sei. Não fazes ideia do que tem sido.

O telefone não pára de tocar desde as oito da manhã.

- Tudo isso é tão absurdo... - Eu sei, querida.

O que hei-de fazer?

Acho que deves começar por arranjar outro jardineiro.

Podemos voltar a falar? O Frank acaba de chegar.

- Claro. - Telefono-te mais logo.

O que fazes em casa? Há alguma novidade?

Diz-me só uma coisa.

É verdade o que andam a dizer por aí?

Não acredito que tenhas...

Porque se há algo de verdade, juro por Deus...

Lamento que tenhas ouvido tamanha tolice.

O Dick Dawson não parecia achar que era tolice

quando se esgueirou da secretária para me telefonar.

Ele diz que toda a cidade fala nisso!

- A Sybil vai ouvir-te. - Eu mandei-a à rua!

Tens a mais pequena ideia do que isto pode significar?!

Não avalias o efeito que isto pode ter em mim

e na reputação que eu levei oito anos a criar,

para ti, para as crianças e para a empresa?!

Juro-te que o que a Mona Lauder viu ou pensou ver

foi uma invenção da odiosa imaginação dessa mulher!

Falei com Raymond Deagan ocasionalmente.

Ele levou a filhita à exposição da Eleanor.

Mas parece que até em Hartford, a ideia de uma branca

falar com um homem de cor...

Cala-te com os direitos dos pretos!

Sabes do que essa mulher é capaz!

Além disso, já o despedi

e não voltaremos a ver esse homem.

Óptimo.

Vieste para casa por causa do que o Dick disse?

Aconteceu alguma coisa no escritório?

Podes chamar-lhe uma espécie de subsídio de Natal antecipado.

O que queres dizer?

Um mês de descanso e descontracção.

Na época de mais trabalho do ano. Que grande honra.

Mas considerando o trabalho exemplar que tenho feito

desde que o bom do Dr. Bowman entrou nas nossas vidas

e o que o Millstein chamou de "anos atrasados"...

Eles devem-te umas férias depois de tudo que lhes deste.

Palm Springs deve ser lindo. Os "grandes" assim o dizem...

Eu sei que agora pode não parecer, mas uns dias fora...

umas férias... pode ser o ideal.

Para os dois.

Deves ter tido um dia horrível.

Olha, o pai está em casa! O que faz em casa, pai?

O pai tem trabalho para fazer.

Bebe um copo de leite e vai fazer os trabalhos de casa.

- Sim, mãe. Pai... - Faz o que a mãe disse.

- Sr. Deagan! - Sim, Jake?

- Está uma senhora ao telefone. - Eu vou já.

Obrigada por vir ter comigo. Sei que tem muito que fazer.

Não faz mal. Fiquei contente por ter telefonado.

De certeza que está tudo bem?

Desejam alguma coisa?

- Podemos sair daqui? - Com certeza.

O que se passa? O que aconteceu?

Queria vê-lo pessoalmente.

Eu... eu não posso.

Não pode o quê?

Não é aceitável que eu seja sua amiga.

Tem sido tão amável comigo

e eu tenho sido descuidada e inconsequente ao pensar...

Ao pensar o quê?

Que uma pessoa pode estender a mão a outra? Interessar-se por outra?

Que por um breve instante pode ver para lá da superfície,

para lá da cor das coisas?

Pensa que chegamos mesmo a ver para lá dessas coisas,

da superfície das coisas?

"Para lá do lapso de boa conduta

Veja aquele sempre resplandecente sítio."

Penso, sim.

Eu não tenho alternativa.

Oxalá eu pudesse.

Felicidades, Raymond.

- Sra. Whitaker! - Tu, rapaz!

Quieto com a mão!

É contigo!

Raymond, não, por favor.

É tão bonito.

São elas! Obrigada, mãe! Obrigada, pai!

Feliz Natal, querida.

Agora serei tão boa como todas as outras da classe.

Toma, querido. Exactamente como tu gostas.

- Pai, olhe a máquina a vapor! - Maravilhosa!

Meu Deus! Eu sabia que estava a esquecer-me de qualquer coisa.

Uma coisinha para o Pai e a Mãe Natal.

O que temos aqui?

"Bermudas... Acapulco..."

"Rio... Miami..."

É só escolheres.

- Mãe, ajuda-me a atar as sapatilhas? - Vou já, querida.

Não sei, o Stan está sempre a elogiar Miami...

Miami seria um sonho.

A El diz que é um encanto. É tudo cor-de-rosa.

A sério? Então talvez devamos pensar nas Bermudas.

Adoro-te, querido.

PASSAGEM DO ANO EM MIAMI Festeje a Chegada de 1958

Estás deslumbrante de smoking branco e laço.

Valha-nos isso, mal consigo respirar.

Não está assim tão apertado.

Gostas do meu vestido?

Muito. Não te tinha dito?

Pois não.

É um vestido lindíssimo, numa mulher lindíssima.

Assim fico mais contente.

- Perdão. - Não há problema.

Tem uma família encantadora.

Obrigado. Feliz Ano Novo.

Senhoras e senhores, chegou o momento!

Começa a contagem para o novo ano.

Deve estar quase.

Cinco... quatro... três...

...dois... um... Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo, querido.

Feliz Ano Novo, querida.

Martin! Martin!

Sabes que não podes vir para aqui!

Eu não te disse que não podes vir para a piscina?!

O banho foi bom?

O sol não está uma maravilha?

Sai da piscina.

- Porquê? - Porque eu mandei.

Acabou-se. Chega de conselhos de moda por hoje.

É altura de ler o meu livro.

Que maçada... Deixei-o no quarto. Que tonta!

Queres que vá buscá-lo?

Não. Acabaste de te sentar.

Não me importo de ir.

- Tenho de comprar o jornal. - Obrigada, querido.

Acho que está na mesa de cabeceira.

Hutch, olha.

Rapazes, olhem quem vem aí. A menina do papá.

Onde pensas que vais, menina do papá?

Para casa.

Vais ver o papá? E a namorada branca dele...

Onde vais? Nós só queremos brincar.

Erraste no caminho, menina do papá.

Olha, menina do papá, é por aqui.

Enganou-se no caminho. Tal como o pai.

Chegaram! Estou a ver o carro!

Bem-vindos a casa.

Meu Deus! Que boas-vindas!

- Foi de sonho, mãe? - Ora vejam! "De sonho".

- As férias foram boas, Sr. Whitaker? - Sim, foram muito relaxantes.

David, por favor ajuda a Sybil a levar as malas.

O pai nunca vai adivinhar o que aconteceu na escola. Tente.

- Desisto. - Estou a ajudar, mãe.

O Billy Hutchinson e mais dois rapazes foram expulsos da escola.

Queres dizer suspensos.

Não, expulsos. Atiraram uma pedra à cabeça de uma rapariga.

Isso é horrível. Uma aluna da escola?

Não. Ela era preta.

O quê?! Quem te disse isso?

O Tommy Hawkins. Ele viu, por isso teve de dizer ao Sr. director.

Sybil, é verdade?

É, sim, minha senhora.

O que é que deu nesta cidade?

Foram dois miúdos idiotas.

O Hutch disse que queriam dar-lhe uma lição.

É horrível, e tu nunca mais brincas com o Hutch.

David, liga o televisor ao teu velhote.

Como se escreve "saia"?

Um momento, querida. A mãe está a telefonar.

Não sei se pode ajudar-me...

Recebi a vossa brochura que era muito elucidativa

e queria saber o que é que o vosso programa de voluntariado exige

em termos de aptidões especiais, porque eu...

Sim, posso esperar.

O pai já chegou.

Como correu o jogo?

Começou a doer-me o ombro. Não aguentava mais.

Não disseste nada.

Pai, hoje fiz a espragata. Quer ver?

O pai acabou de chegar e tu tens de acabar os trabalhos da escola.

Nunca mais foste ao médico e acho que deves ir.

Posso telefonar ao Dr. Ellis? Não vais lá há três anos.

Disse-te que o pediatra acha que a Janice precisa dum aparelho?

Tem de ser?

Parece que a nossa menina tem os dentes encavalitados.

Pai, não adivinha o que eu estou a fazer.

- O teu casaco? - Está na garagem.

- E está lá porquê? - Estou a dar cera no carro do pai.

Vai ficar lindo!

Quantas vezes tenho de vos dizer que com este tempo

têm de andar devidamente agasalhados!

Desisto. Se queres morrer de uma constipação, assim seja.

Vê se lhes metes juízo nas cabeças porque o que eu digo não...

O que se passa?

David, Janice, vão para os vossos quartos... Já!

Já!

O que foi?

Aconteceu uma coisa.

O quê?

Apaixonei-me por alguém

que quer viver comigo.

Nunca soube o que é amar assim.

Eu sei que estou a ser cruel...

Eu lutei tanto para me livrar disto.

Pensei que ia conseguir, por ti e pelas crianças.

Mas não consigo. Não consigo.

Presumo... que vais...

...querer o divórcio.

Eleanor... é a Cathy.

Agora vês porque é que eu não podia dizer-te nada.

Minha querida amiga... Nunca teria imaginado.

Não o Frank.

Creio que o pior de tudo foi guardar segredo.

Um segredo infinito. As nossas vidas ocultas na escuridão.

Têm economias?

Quase nenhumas. E menos ainda com o lugar do Frank em risco.

Querida, se precisares de alguma coisa...

Sinceramente. Podes contar connosco.

Obrigada, por ter podido contar sempre convosco.

Sabes, é estranho...

A única pessoa a quem consegui falar dos meus problemas

foi ao Raymond Deagan.

O quê?!

É verdade. Não da maneira que a Mona insinuou...

Apenas conversávamos. E isso fazia-me sentir...

não sei... viva.

Eu sei que é absurdo e ilógico, mas penso nele.

No que faz, no que pensa...

É a verdade.

O que posso dizer? As surpresas são tantas que fico sem fala.

O que queres dizer?

Claro que fiz o papel de absoluta idiota

ao enfrentar a Mona e as ditas invenções dela.

Como podes dizer isso?

Eu não disse nada. Quem sou eu para dizer a alguém como deve viver?

Já te disse que não aconteceu nada entre nós.

Não tenho nada com isso. Mas tu dás a sensação do contrário.

Sra. Whitaker?

Desculpe incomodá-la, mas eu...

Sim, Sybil?

Há uma coisa que eu queria dizer-lhe já há algum tempo.

Algo que creio que quereria saber, mesmo que eu não devesse dizer-lhe.

De que se trata?

É sobre a pequenita de cor que foi apedrejada.

O que há com ela?

Era a pequenita do Sr. Deagan, a Sarah.

O quê?! Não...

As vizinhas dizem-me que ela está bem.

Pobre pequenita...

Como é que não me disseste?! Isso aconteceu há semanas!

Por favor não se zangue. Não queria piorar as coisas.

Sabes onde Sr. Deagan mora?

Creio que mora na casa que era do pai, esquina da 12 com a Governor.

12 com a Governor. Obrigada.

Vai lá agora?

Por favor, vigia as crianças. Não me demoro.

Sra. Whitaker!

Quer que eu vá consigo?

Não. Vou bem sozinha. Obrigada.

Quem será...?

Raymond, só agora soube e meti-me logo no carro.

Como é que está? Como está a Sarah?

Estamos bem. Obrigado.

Tem de ir às traseiras.

Não é nada, Sarah. Eu não me demoro.

O que deve ter sofrido...

O que fizeram aos rapazes?

Nada. Eu não quero que ela pense mais nisso.

Não agora, com pedras a entrarem pelas janelas todas as noites.

Isso é medonho!

Não são os brancos que as atiram. São os de cor.

Parece ser o único sítio onde brancos e negros estão de acordo.

Enfim, não tardaremos a sair daqui para sempre.

Vai-se... embora?

Para onde?

Tenho um irmão em Baltimore. Diz que me arranja trabalho lá.

Estamos a arrumar as coisas.

De sexta-feira a 15 dias, apanharemos o comboio das 16:30 rumo ao sul.

E o seu trabalho, a sua loja?

O trabalho acabou. Ninguém vai contratar-me.

Vou vender a loja a um primo meu.

A vida para mim aqui, acabou.

Vivi sempre em Hartford.

Talvez... daqui a um tempo,

depois de estar instalado, eu possa...

...ir visitá-lo. Ver Baltimore.

Sabe...

...parece que vou voltar a ser solteira.

Oh, Sra. Whitaker...

Por favor, trate-me por Cathy.

Lá, ninguém nos conheceria.

Não sei se isso seria sensato.

Depois...

...de tudo que...

O que importa agora...

o mais importante é o que é melhor para a Sarah.

Aprendi a lição do que é misturar-me noutros mundos.

Vi as consequências disso.

De toda a espécie.

Tenha uma vida feliz.

Uma vida esplendorosa.

Irá fazer isso?

Adeus, Cathy.

Cathy, acordei-te?

Desculpa telefonar tão tarde. Espero não ter...

Não. Eu estava acordada.

Não quis incomodar as crianças.

Evidentemente.

Como é que elas estão?

Bem. Continuam a perguntar quando regressas.

Eu sei. É também por isso que telefono.

Ontem recebi uma chamada do Dick. Ele disse que está tudo tratado.

Os papéis estão prontos e ele queria saber

se estás disponível quinta-feira pelas 15 horas.

Disse-lhe que pensava que nesse dia ias buscar os miúdos à escola,

mas como não tinha a certeza, ia perguntar-te.

Nunca fixaste os dias, e foram sempre os mesmos.

Quartas e sextas, desde sempre.

Claro, quartas e sextas...

- Sou o distraído do costume... - Disseste quinta-feira a que horas?

A reunião. A que horas é?

Às 15 horas.

Está bem.

Óptimo. É tudo. Sei que é tarde.

Pois é.

Então, até quinta-feira.

Até quinta-feira.

Adeus, Cathy.

Adeus, Frank.

57 dólares e 32 cêntimos. Que dia é hoje?

Sybil, não é preciso fazeres isso.

É sexta-feira.

Eu sei, mas há tanto que fazer que não espero que dês brilho aos móveis.

Há que manter as coisas como deve ser.

- Eu sei. - Lembre-se da lista da mercearia.

Obrigada. Não sei o que faria...

- Não me demoro. - Está bem, Sra. Whitaker.

- Porque viramos aqui? - Não me demoro.

- Onde vai? - Fiquem aqui quietinhos.

Todos a bordo!

Vai partir o comboio para Nova Iorque e Washington!

FIM

Tradução Maria Elvira Coutinho Pedroso

Adaptação e Legendagem Carla Martins Costa / CRISTBET, Lda.

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