Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Simplified)
Chinese (Traditional)
Corsican
Croatian
Czech
Danish
Dutch
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
French
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Greek
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hebrew
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Italian
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Polish
Portuguese (Portugal)
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkish
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Vietnamese
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
Downloaded From www.AllSubs.org
Há dois dias que navegamos à vista de dois continentes,
Europa a bombordo
e Ásia a estibordo.
Para trás de nós, ficaram as águas do nosso Mediterrâneo,
e também as do mar de Mármara.
E longe, muito longe, a nossa terra pátria.
O Imperador de Constantinopla
solicitou a ajuda de Tirante e seus homens
para lutar contra o perigo muçulmano
que pairava sobre os territórios de Bizâncio.
Cada dia que passa, o mundo fica mais estranho aos nossos olhos.
Ao cabo de mais alguns dias, este baixel entrará no Corno de Ouro
e pouco depois chegaremos, por fim, a Constantinopla.
No dia de hoje, 29 de Março
do ano de 1401, de nosso Senhor,
chegamos ao porto de Constantinopla.
São poucos os nossos cavaleiros e soldados de infantaria,
ainda que aguerridos
e bem instruídos nas tácticas do nosso comandante,
Tirante el Blanco.
Não podíamos esperar grandes festejos, tendo como motivo a nossa chegada.
O lmpério chora o príncipe Miguel,
morto em batalha contra os turcos.
Como homenagem a Tirante
e em demonstração da confiança depositada na nossa força,
o imperador em pessoa,
excepcionalmente saiu, para nos dar as boas vindas.
É meu desejo que sejais vós a dirigir toda a gente de armas,
pois, por minha desventura, caiu em batalha aquele meu filho
que consolava o meu ânimo.
E não podendo eu combater,
é a vós, e não a outro, Tirante,
a quem concedo o comando.
Senhora, este é o nosso comandante
que veio para lhe prestar homenagem.
Seja bem vindo!
Senhora, por minha fé, quero crer que a voz que estou a ouvir é a da Imperatriz!
Quem és, filho?
O meu nme é Hipólito,
e é minha obrigação dizer que, a minha santa mãe, era assim tão formosa como vós!
Meu senhor, aquele que detenha o comando do lmpério
tem o poder de abrir as janelas,
a todas as pessoas olhar na cara,
e tirar-lhes o luto e a pena!
Senhor!
Sim, podeis!
Majestade,
vejo que o povo desta cidade anda muito triste e aflito
devido à morte do Príncipe, vosso filho.
Esse cavaleiro insígne!
Refreai a vossa dor!
Bendito quem a causa de Deus serve,
e por ela entrega a sua alma e a sua força!
Agora nós devemos esforçar-nos contra os turcos
em sua honra e sacrifício!
Cobri-vos, Princesa!
Que se passa convosco?
Jamais acreditaria que esta terra albergasse tais maravilhas!
Os ares desta terra penetram subtilmente nas nossas cabeças.
Passai!
- Desejais algo mais? - Não, obrigado!
Que se passa?
Está em estado de ausência!
Na Sicília recebeu um tremendo golpe de mangual.
Desde então, tem ausências como esta.
Mas recupera
dando um toque num ossito que desponta dentro do seu ouvido.
Eu amo...
E o vosso comandante?
Está um bocado indisposto,
mas não é mais nada senão um problema devido a mudança de ares.
Pediremos aos físicos que lhe receitem algo.
Amoras do mato e mosto de Corinto, aliviam os maus humores.
Ainda não conheço os vossos nomes.
Eliseo!
Agnes!
Prazerdeminhavida.
O meu pai é um famoso poeta, encantou-o dar-me este nome.
Podeis chamar-me "Prazer", se gostardes.
O meu marido caiu em batalha ao serviço do falso Papa, Alexandre XIII,
conhecido como "el zote".
Apodam-me de Viúva Repousada.
Alteza,
guardai estas palavras no mais secreto da alma:
Tirante el Blanco, o famoso cavaleiro,
veio a Constantinopla somente para vos ver
e servir!
Oh, Deus!
Poderei eu dizer que viesteis todos por amor de mim
e não para combater os turcos?
Não há dúvida, dai-o por seguro!
Tomai o meu abraço!
Dai parte a Tirante, mas guardai-o também para vós!
Minha Senhora!
Santa Maria!
Prazer!
Senhora, senhora...
Agnes!
Inclinai a cabeça para trás!
Sangrar pelo nariz é sinal de boa saúde!
É bem conhecido que Tirante permanece de joelhos
durante toda a missa.
Maria!
Minha senhora!
Leva a minha almofada a Tirante.
Sim, minha senhora!
Cuidado, estais a passar os limites da modéstia.
A minha senhora envia-vos esta almofada para que estejais melhor.
Não tem aspecto humano.
É um anjo!
Que se passa?
Qualquer um ficaria contente se a sua senhora lhe enviasse a sua almofada.
Privou-se dela só para vos agradar.
Eu amo, mas não sei se sou amado.
Não tenho esperança de alcançar o que desejo.
A fortuna é sempre contrária aos que amam com zelo.
Confortai o desejo
e não consintais que alguém saiba das vossas angústias.
Pedi licença ao Imperador para ir ver o campo dos turcos.
Diafebus!
Entrega este livro de horas à Princesa.
Primeiro matas o cavalo! Depois, o turco!
Assim!
Primeiro o cavalo, assim!
Na jugular! Com um golpe!
Depois, cravas um dardo num olho do turco.
- Saudações, comandante! - Bem!
Rápido, esquivas-te, como um tigre!
Aprende a saltar!
Bem!
Agachas-te e vais para o próximo cavalo.
Bem!
Senhor, tendes uma visita!
A Princesa veio despedir-se de vós.
Esperai aqui e eu farei com que ela venha ver-vos.
- Mas permiti-me que vos dê um conselho. - Dizei!
Na sua presença, sede tão firme
com uma donzela sem armas como o sois na batalha!
Assim serei!
Permiti-lhe que vos beije na palma da mão.
Beijar a palma da mão é sinal de amor.
Tomai a minha mão.
Dizei-me, Tirante, assim Deus vos conceda o que desejais,
quem é a senhora que tão mal vos faz passar?
Minha senhora, a dama que aqui vereis
pode dar-me a morte ou a vida.
Jamais ouvi dizer tão graciosa declaração!
Não vos compreendo, minha senhora!
Ele ama-me!
Ai, senhora minha!
Por vereda com urtigas ousais entrar!
Dizei-me, senhora,
é próprio que vossa alteza faça tanta festa
a um servidor de vosso pai que chegou
com roupas de ouro e seda emprestadas?
Fazei mercê do título que tenha,
seja de rei, de duque, de conde ou marquês.
E por esse homem quereis perder
a perpétua fama de vossa pureza sem mácula?
Quereis que vo-lo diga de uma vez? Mais vos valeria morrer
ou não ter nascido
que cair nos braços de homem que apenas busca conseguir a fama!
Nâo será mau prenúncio que ainda sem causa
já me tenha repreendido a viúva que me deu o leite?
Que faria ela se me tivesse visto fazer alguma coisa desonesta?
Nem cuidado de dona, nem de pai, nem de mãe
a deterão!
Deve amar-se se o eleito for virtuoso e o seu amor honesto.
Mais, quando a donzela ama para seu prazer,
tal amor parece-me muito melhor que nenhum outro.
Duas maneiras há de amar: a virtuosa e a viciosa.
E não serei eu quem vai dizer que uma delas é a má.
Toda a mulher responde a três qualidades.
Eu sei porque, para meu mal, conheço o alheio.
Primeiro, somos ambiciosas. Segundo, somos gulosas.
E terceiro, somos voluptuosas.
Eu sou tudo isto!
E vós?
Aparentais frieza de pensamento.
Pois sou pura luxúria!
Tenho dois grilitos que cantam toda a noite,
mas estão bem escondidos, aqui.
Porque uma coisa é o parecer e outra o ser.
- E que posso eu ser, dizei-me?! - Sois o prazer da carne!
Basta tocar-vos para que vós estremeçais,
seja a mão de homem ou mulher.
Ali vem o cavaleiro despedir-se do Imperador.
lde vê-lo e repreendê-lo,
mas que ele o entenda bem.
Que é que devo vestir?
O traje de cerimónia.
Peço ao Deus de todo o Mundo que vos dê vitórias com honra,
e vos leve ao triunfo, à semelhança de Alexandre!
A princesa roga-vos que espereis!
Eu penso que não será de bom senso
demandar amores àquela que é a filha do Imperador.
Tal audácia merece severo castigo.
O amor move os céus!
Mas estou a ver com que falta de piedade me condenais à destruição total!
E já que o meu coração cometeu tão grande ofensa,
com as minhas próprias mãos o partirei em dois, antes que o sol se oculte.
Eu prometo!
Se a minha língua vos ofendeu,
peço que não fiqueis com isso na vossa memória.
Rogo-vos que me perdoeis!
Se alguma coisa de mim quiserdes, dizei-o,
que eu vos certifico que vos será concedida!
Minha senhora, suplico-vos que me concedais uma mercê.
Se for razoável, será concedida.
Minha senhora,
não quero pedir outra coisa
senão que vossa alteza me faça mercê da camisa que traz vestida,
porque está colada à vossa preciosa carne,
e que eu a possa desnudar
com as minhas próprias mãos!
Santa Maria! Que estais a dizer?
Fico muito contente em vos dar a camisa
as joias, a roupa, e tudo quanto possuo,
mas não seria justo que as vossas mãos cheguem
onde alguém jamais chegou!
- Estefania! - Sim, Princesa!
- Diz a Tirante que espere! - Vós ordenais, senhora!
A princesa roga-vos que espereis!
Um lenço! Um lenço, por favor!
- Outra vez? - Parece que sim!
Sangue da Princesa!
Acontece com frequência!
Como é que um cavaleiro tão delicado
pode chegar consigo a tão sujas pretensões?
Peço a Deus que esses rufiões nos livrem dos turcos.
Sabemos que não dormis.
Sabemos a razão do vosso desvelo.
- O vosso pai está velho. - A vossa mãe está caduca.
Passa o dia a esfregar as partes.
O vosso irmão apodrece na terra há três meses.
- Quem vai herdar o Império? - O lmpério cairá sobre vós
muito antes de que façais uso da razão.
Ireis combater os Turcos?
Já podemos ir trocando a Cruz pelo quarto crescente do inimigo!
As nossa mulheres depressa serão violadas por esses cães!
Muçulmanos!
Dizei-me que devo fazer!
Não pertence à casa nobre!
O Imperador nunca o irá aceitar, e muito menos, a minha mãe
a lmperatriz!
- Aceitarão Tirante! - Faremos com que o aceitem!
Estais a dormir?
Não.
Os anciães contam as horas, minha filha!
As damas andam temerosas ouvindo falar da guerra,
pelo que demando uma graça a vossa majestade.
Diz, filha!
Mesmo jovem como sou, é meu desejo ir ao campo de batalha,
a fim de sentir e conhecer como é a guerra,
porque o futuro assim mo exigirá.
É um facto bem conhecido
que quem primeiro vem ao mundo, deverá ser o primeiro a baixar à sepultura,
e oxalá que vivais para sempre!
Minha filha,
já que tanto o desejas, eu fico contente com isso.
Mas antes pergunta à tua mãe o que lhe parecerá melhor:
ficar ou ir.
Filha! Carmesina!
A tua mãe disse que Tirante está enamorado de ti.
Tu também gostas dele?
Gosto dele como gosto de todos os que aqui habitam!
Os meus sentidos não estão noutra coisa.
lremos todos!
Fora!
Conquistamos nove e meia de dez partes do Império.
Resta-nos atacar este castelo
e caminhar vinte e cinco léguas até Constantinopla,
prender o Imperador pela barba e condená-lo a prisão perpétua.
E que sua filha Carmesina,
seja a camareira-mor da nossa câmara.
E a Imperatriz será a cozinheira das nossas hostes.
Sois descendente do profeta Mahomé e, portanto, a vossa é a sua voz.
Concedei uns momentos a recordar a moderação que deu fama
a vosso pai, Mohamed lll.
Sêde prudente!
Quero que Bizâncio pereça e que Constantinopla seja minha!
Quero apagar o seu nome da face da terra,
quero que se chame Istambul!
Está bem que Tirante mate, mas que não morra!
O maior guerreiro do mundo, é Tirante!
A sua espada é invencível!
Os homens de Tirante são poucos, mas são batalhadores e astutos!
No entanto, o inimigo é forte
e poderoso!
O Gran Turco é arrogante e feroz!
Quer dobrar e vencer a cristiandade!
Só Tirante nos pode salvar!
Não presteis atenção a palavras vãs!
O Gran Turco é jovem e decidido!
Homem de grandes dotes.
Podeis salvar o lmpério e muitas vidas desposando-o!
Em posição!
Aguentai!
De cara à morte!
Atenção aos cavalos!
Aguentai!
Onde está o nosso comandante?
Senhor, Tirante anda a perseguir e a matar turcos!
Eu tomo conta dos prisioneiros!
- Quantas baixas? - Essa ferida deve ser vista pelos físicos!
Tirante, hoje merece a coroa de louros que impuseram a César!
É uma grande vitória nas mãos de Tirante!
Peço a São Jorge e ao nosso Santo Pai
que vos conceda as bençãos que mereceis!
Esta vitória é um emblema da nossa fé cristã!
A quem aguardais, senhora?
E tenha atenção vossa alteza não lhe dêem
algum rei estrangeiro e velho que agrade a vosso pai
ou outro rei mouro ou turco
que vos faça filhos que sejam devotos de Alá!
É a Tirante que deveis confiar a incumbência
de vos guardar do mal, a vós e a todo o lmpério!
Vinde a meus braços!
Honra a Tirante, victorioso contra os turcos!
A força da paz reside na vitória!
Se o Gran Turco agora quiser Carmesina,
terá que pagar um alto preço!
Uno-me às palavras de agradecimento do nosso Imperador!
Obrigada!
Gozai para sempre dos favores de Marte e de Vénus!
Que se passa com ela?
Luxúria!
Beijo a mão que nos levou à vitória sobre os infieis!
- Dai-me uma oportunidade para vos visitar! - Falai à Estefanía!
Vamos, minhas damas,
que hoje é dia de partida e o Imperador já está pronto!
Santa Maria me valha! Que olheiras são estas?
É necessário chamar os físicos com urgência!
Não! Não é preciso!
É que a brisa do rio fez-me mal, ontem à noite!
Atenção não te faça mal aos calcanhares!
Já sabes o que os físicos dizem,
que nas mulheres a primeira dor vem pelas unhas,
depois passa aos pés,
depois, aos joelhos e aos músculos,
e às vezes entra na câmara secreta, e lá, provoca grande tormento!
Bons dias, minha senhora!
Se me mostrares a tua língua, eu dir-te-ei o que se passa.
Esta noite perdeste sangue!
Não o saberia negar!
Oh, do nariz me saiu!
Eu não sei se foi do tornozelo ou do nariz, mas que perdeste sangue, perdeste!...
O que é que tanto vos diverte?
Vinde!
Não vos direi tudo o que sonhei, a não ser que tenha permissão para isso.
Tendes a minha permissão e ficais absolvida de toda a culpa.
Sonhei que eu dormia numa câmara
na companhia de outras damas,
quando, de repente, apareceu Estefanía, levando Tirante e Díafebus.
Deixai-me, Tirante!
Tende piedade!
Suplico piedade ao cavaleiro Tirante!
O que se passou a seguir não pude vê-lo,
mas sim, pude ouvi-lo!
Por favor, não me faça mal, meu senhor!
Não querais vencer a minha resistência, meu senhor!
Não posso, não posso!
Perdoai-me!
Tende piedade!
Tende piedade e não me queirais matar!
Tirante!
Deixei-te ficar aqui, pelo muito amor que te tenho
e para te dar um pouco de consolo.
A pedido de Estefanía alcançaste esta amorosa entrega,
deixando-me vencer por amor verdadeiro.
Peço-te que queiras gozar do favor que alcançaste.
E caso eu me atrevesse a gozar de tal graça,
não seria pouco o dano que vos causaria,
porque se a virginidade se for, é para sempre.
Trista!!!
Eu morro!!!
Ai cama,
quem te viu e quem te vê, tão vazia e só!
Tens sonhado mais?
Diz-me tudo!
Por Santa Maria, vos asseguro
que vos contarei tudo!
Vai-te, cruel verdugo de nenhum amor!
Não tens piedade nem compaixão das donzelas!
Vai-te, violador de minha castidade,
ladrão do despojo de minha virginidade!
Santa Maria me valha!
Ao meu casamento não vieram minha mãe nem meus parentes,
as bodas fizeram-se às escondidas.
Este é o meu sangue e é forçoso que o amor
o repare!
Queira vossa mercê
aceitar-me para vosso futuro esposo.
Beijai-me como prova de boa fé!
O que se passou a seguir, melhor que eu, vós o tendes na vossa memória.
Não é preciso que vo-lo conte!
Ai de mím!
Posso fechar os meus olhos e aceitar a minha sina?
Outros aman e isso perturba os meus sentidos até à morte
se alguém não me socorre.
Tal como à Estefanía, e tal como a vós.
Isso é falso! É mentira, é mentira!
Tão completa estou agora, como ontem pela manhã!
Pela frente estais inteira, e isso é o que conta!
Muito me congratulo que Tirante me tenha respeitado ontem à noite.
E prometo, aqui e agora,
nada lhe conceder às escondidas.
Tomai um pouco de água, senhor.
A aplicação da beberagem, escurece e queima sobre a pele,
mas também abre a boca das veias.
Serve para limpar úlceras,
e é muito eficaz, quando aplicado sobre o músculo dorido,
ao qual dá vigor.
- Usou a água da cisterna baixa? - Sim, senhor.
- Duas ferveduras breves? - Conforme as vossas ordens!
Bem!
E Holofernes quis oferecer-lhe dos seus próprios manjares
e dar-lhe a beber do seu vinho.
E Judith disse: Não comerei de teus manjares,
pois isso seria ofender os meus!
Eu fa-lo-ei!
"Comerei do que trago comigo".
E Holofernes respondeu-lhe:
E quando o teu se esgotar, onde poderemos arranjar mais?
Pois não existe aqui ninguém da tua nação!
E Judith replicou-lhe:
É tão verdade como terdes alma, meu senhor,
que esta tua serva não consumirá as suas provisões antes de que Deus,
pela minha própria mão, leve a cabo os seus desígnios".
Cuidado!
A Imperatriz está presente
e se ela se dá conta, serás tido por temerário.
Sim, por temerário.
E poderá repreender-te para que deixes a sua filha em paz.
Minha senhora, deveis desejar a morte ao inimigo,
e não a quem vos ama e deseja servir-vos.
De que estais a falar?
Majestade, estávamos a falar dos embaixadores
que dizem que virão demandar a que a Princesa seja esposa de um cão,
filho de cão, que renegou o seu Deus e Senhor.
Não são senão rumores!
Ninguém veio pedir a sua mão!
Mas podem fazê-lo!
Isso não irá acontecer!
- A minha filha não se casará com um mouro! - Nem com um Turco?
O Imperador decidirá!
Senhora!
Permitireis que entreguem esta pérola a um cão sujo?
Deixai-o por minha conta!
Eu falarei com o Imperador!
Dizem que o Gran Turco
é jovem, forte e sábio.
Carmesina, continua tu.
"E caminhou até à cabeceira da cama,
onde jazia Holofernes,
e pegou na sua espada com ambas as mãos.
Aproximou-se muito dele, junto à sua cabeça, pegou-lhe pelos cabelos e disse:
Fortalece-me, oh, Senhor de lsrael, nesta hora!
E com toda a sua força, golpeou-o duas vezes no pescoço,
cortando-lhe a cabeça.
Já decapitado,
envolveu o corpo com os lençois da cama
e, em seguida, saiu da tenda entregando a sua cabeça à criada,
que a guardou na bolsa da carne.
- Eliseo! - Princesa!
Senhora? Minha senhora?
Princesa?
- Calma! - Aqui estão!
Que é que se passou?
- A princesa desmaiou! - Por acaso bebeu água fria?
- Uma infusão de malvas, quente. - Façamos com que lhe chegue um pouco de ar fresco!
Não deveis abandonar a cama!
E a princesa?
Está bem! Sua alteza já se recuperou!
Rogo-vos que me digais se está alguém dentro,
para me poder guardar.
Não vos diría uma coisa por outra, senhor! Podeis entrar!
Entrai!
Com que direito entrais na minha câmara?
Vem aqui!
Beija meus peitos
para minha consolação e teu repouso!
- Não, isso não! - Por favor!
- Não pode ser! - Por favor!
Deixai-me!
O Imperador vem a caminho daqui!
Como está a minha bela filha?
O tom rosa voltou à tua face!
Os teus olhos brilham!
Estás completamente curada, de saúde!
E vós...
Os físicos disseram, de forma muito clara, que deveis repousar!
E eu digo que deveis repousar
para voltar a ganhar batalhas tão cedo quanto possível.
Já tendes mais côr, meu senhor!
Meu senhor,
dai-me remédio ou dai-me a morte! Que é que eu fiz para merecer
estar longe daquele que teve a minha virginidade?
Dizei-me, senhor comandante!?
Conseguirei eu livrar-me desta dor que tanto me atormenta?
- Fazei por mim, que eu farei por vós! - Estefanía,
minha irmã de alma, eu farei o que for necessário!
lrei ao campo de batalha
e farei com que Diafebus venha cumprir o que vos deve!
E vós,
Viúva Repousada,
que quereis de mim?
Talvez espereis que vos busque um marido
que seja duque, conde ou marquês.
Agradeço muito a vossa senhoria,
mas não quero nenhum marido, por grande senhor que possa ser,
senão um
ao qual, como a Deus amo e como a Deus adoro,
e está sempre no meu coração.
Comandante, senhor, não percais a esperança!
Roma não se fez num dia.
Apenas quero dizer que todas ajudaremos para que vossa senhoria
seja feliz!
Todas?
Porquê?
Queremos um Imperador para o lmpério!
Já consultei os físicos,
mas eles não Têm mais remédio que o de sempre:
dormir e comer,
comer e dormir...
Triste de mim, que quando quero dormir não posso!
A noite é mais comprida do que eu quereria.
Coisa que coma, amarga-me como fel!
O meu coração não tem gozo nem repouso!
Minha senhora, eu sei bem por aquilo que estais a passar,
mas não sei se posso falar-vos com a franqueza do coração.
Falai!
Dizei-me!
Se vossa alteza soubesse as coisas que Tirante disse,
as vis palavras como as que declara o pouco que vos ama...
Saí todas daqui!
Dizei depressa!
O que ele me disse em segredo, fazendo-me jurar sobre a Bíblia
- que não diria nada a ninguém? - Falai duma vez!
Seja, minha senhora, pela fidelidade que vos devo!
Tirante é um homem cruel e grande despota!
Na sua demência, ele pensa que vê mais que os outros,
quando apenas tem menos vergonha e pudor.
Quereis ouvir o que disse de vós?
Que não ama nem quer bem a mulher alguma do mundo
a não ser pela sua fortuna!
Quer o lmpério, a todo o custo!
Dísse-me em confidência
que se outra noite acontecesse como a de Malvecino,
ele tomará a vossa virgindade pelo prazer ou pela força!
E depois rir-se-ia de vós!
Vossa alteza foge de mim,
de mim, que vos dei o meu leite,
e confia em Estefanía e Placer de minha vida.
Elas venderam-vos,
e assim conseguiram ocultar o seu grande erro.
Não notais como Estefanía traz o ventre volumoso?
Peço a vossa alteza que guarde as minhas palavras em segredo.
Se Tirante o soubesse,
não duvido que me mandasse matar.
Eu guardar-vos-ei a vós de dano,
e a mim de culpa.
Que se passa convosco?
Por que são essas lágrimas?
Deixa-me estar sozinha,
e livra-te de que todo este mal não caia sobre ti!
Obrigada, senhor, por ter permitido restabelecer-me
antes de partir para o campo de batalha.
Estou pronto para lutar de novo contra os Turcos.
Permiti-me que peça a vossa permissão para o casamento
da dama Estefanía de Macedonia com Diafebus de Sant Angel.
Parece razoável o pedido.
Contudo...
tendo em conta a obediência que me é devida,
eu dou todo o meu poder a minha filha,
de forma a que se faça conforme o seu desejo,
se a sua mãe o consentir.
Porque é que diz, "dou o meu poder"?
Quer dizer que sendo conhecedora de que houve amores secretos,
declino toda a responsabilidade.
Sejam secretos ou não,
tendes o meu consentimento!
E o meu também!
Encomendai-vos a Deus
e celebrai o vosso casamento!
Como é que se celebrará, se o Imperador mostra tal desdém?
Não haverá festas nem divertimentos?
O quê?
Que necessidade há de festas no casamento?
Festas e divertimento, é bom que aconteçam, mas é na cama!
Senhor!
Antes da vossa partida, será preciso que nos esforcemos todos
em conseguir que a princesa vos dê mostras do seu muito amor,
mesmo que à custa dum bocado da sua honra.
Eu sei bem que nada conseguiremos se não se misturar um pouco de esforço,
pois assim como sois valente cavaleiro no campo de batalha,
é mister que também o sejais na cama!
Não quereria fazer coisas que não fossem do agrado de minha senhora.
Vejo que vós só andais pela rama
e quereis passar pela rua que não tem saída.
Como podeis ser tão duro batalhador e amante tão indolente?
Donzela!
Peço-vos que pensemos entre todos e façamos o melhor.
Como é que vos ocorre pensar que uma donzela não queira ser amada?
O temor de ficar envergonhado
tira-me a vontade de ganhar o paraíso neste mundo!
Não sabeis o que disse o salmista?
Se quereis conquistar dona ou donzela,
não tenhais temor nem vergonha. Amai-a sobre todas as coisas,
mas se estiverdes com ela numa cama,
deixai-vos de cortezias, porque ela dispensa-as bem!
Por favor!
Rogo-vos que me leveis à cama de minha senhora!
Desnudai-vos!...
Que Deus me valha, como és irritante!
Não me queres deixar dormir?
Saís do banho e tendes a pele macia e delicada!
Dá gosto tocar-vos!
Toca se quiseres,
mas não tão abaixo!
Dormi em paz e deixai-me que toque o vosso corpo,
que é meu, pois estou aqui a representar Tirante.
Oh, falso Tirante! Onde estás agora?
Se esta fosse a sua mão,
estaria feliz e contente!
Estás com a tentação de quereres experimentar o que é contra natura?
Calai-vos, calai-vos!
É Tirante, que por vós se deixaria enforcar!
Por favor, não faleis!
Que se passa, minha senhora?
Pela janela, meu senhor!
Minha senhora! Por favor, minha senhora!
É a princesa!
A princesa está com uma dor!
Meu senhor!
Meu senhor, por aqui!
Descei por aqui!
Usai a porta do refeitório para voltar à vossa câmara!
Vamos!
Que aconteceu? Um pesadelo?
O monstro comeu-te as orelhitas?
Aqui está a mamã!
Não aconteceu nada, meu bebé!
Acalma-te, acalma-te!
Uma rata, uma rata muito grande!
Subiu para cima da cama e saltou por cima da minha cara!
Não seria assim tão grande!...
Tinha as unhas grandes e afiladas, qual tigre!
Graças a Deus, que não tocou nos meus olhos!
Que aconteceu?
São as loucas das damas, que não estão boas da cabeça!
Uma rata que passou por cima de Carmesina!
Que, todo o mundo, volte para a cama!
Estefanía!
Tirante precisa de ajuda!
Está tudo bem!
Tenho que retirar a corda!
- Não chega ao solo! - Como?
A corda!
Não chega até ao solo!
Onde está essa rata?
Meu senhor!
Quando a imperatriz morrer, vou casar-me contigo!
Deus!
Não há mais remédio, tenho que retirar a corda!
Sinto uma dor como jamais senti!
Os médicos que exerçam o seu mister e que ninguém o saiba!
O vosso mal é de tal ordem, que não se pode esconder, meu senhor!
Principalmente pelo escândalo que causará no palácio!
Levantai o coração e fazei como quem vai para a batalha!
Então diremos que o cavalo caiu sobre vós.
- Tem feridas graves? - Uma perna partida!
- Vou buscar um cavalo! - Fazei-o!
Comandante Tirante! Está ferido!
Os médicos têm que o ver!
E como é que conseguiu partir as duas pernas?
Vontade tinha eu de que partísseis para o campo de batalha,
onde muitos turcos se assenhoreiam nas minhas cidades,
mas faltando Tirante, terei que fazer das tripas coração
e, velho como sou, conduzir as batalhas por mim mesmo!
Ficai certo, senhor,
que no dia conveniente,
com ou sem uso das minhas pernas,
eu estarei pronto para partir!
Eu creio que não existe grande risco,
mas sem dúvida pode acontecer
que o osso fémur lhe saia para fora e se lhe veja o tutano lá dentro.
Jesus!
Minha senhora!
O cavaleiro disse que não tinha a intenção de devolver
o roubo, mas se o bispo disposesse de cem moedas de ouro,
e se lhas emprestasse...
com gosto devolveria o dinheiro ao seu vassalo.
Entrai!
Qual é o pecado maior,
"o do cavaleiro que não tem vontade de devolver o roubo
ou o do bispo que, dispondo de dinheiro,
não quer emprestá-lo ao cavaleiro"?
Como está, a minha senhora a Princesa?
Meu senhor Tirante, não conheceis as mulheres!
Uma coisa é dizer e outra é sentir!
Carmesina ama-vos tanto como vós a ela,
e desmaiou ao saber dos vossos males!
Dizei-lhe que sinto a ofensa!
Dizei-lhe...
que encontrarei para mim a pena que mereço!
Que dizeis?
Lamentai não terdes conseguido o que era vosso desejo.
Chegou o momento de que se cumpra!
Juro-vos que será o nosso Imperador!
Esperai aqui!
Não vos movais!
Hipólito!
Vejo a tua cara alterada, pálida e fraca!
E não sem motivo,
porque se Tirante está a sofrer, isso em muito afecta os seus companheiros!
Entendo isso muito bem!
Eu mesma passo as noites inquieta
como se ele fosse meu marido, filho ou irmão!
Assim passam as minhas horas de insónia!
Porque vossa alteza dorme sozinha
e os prazeres da cama são ignorados!
Parece que conheces muito bem o penar das que dormem sozinhas!
Sim, minha senhora! Também sofro,
peno e tenho insónias, todas as noites!
- E quem te atormenta assim? - Minha senhora!
Quem será aquele que confesse a sua dor a dama tão excelente?
Vamos, fala!
Não te envergonhes de contar a glória dos teus segredos!
E muito menos a alguém como eu,
alguém que os sabe guardar em seu peito!
Minha senhora, já que insistis,
vos digo que é o amor aquilo que me atormenta
e não a camisa que possa mudar.
Vem, aproxima-te!
Tu dizes que amas
e eu pergunto-te a quem?!
É a vossa majestade a quem o céu ordenou
que eu deva amar e servir todos os dias da minha vida!
Diz-me, Hipólito,
um cavaleiro sente-se afortunado se uma grande dama sentir amor por ele?
Senhora,
eu sentir-me-ei feliz por tudo que vossa majestade me ordenar!
Se tu me jurares que, nem o Imperador, nem nenhum outro o virá a saber,
podes pedir-me aquilo que mais prazer te possa dar!
Meu senhor, não seria melhor para vós uma mulher
que fosse sabedora no amor, mesmo não sendo donzela?
Afastai-vos, por favor!
Eu sei que, concerteza, vos querem tirar a chama da vida!
Estais rodeado de malvados que apenas fingem lealdade.
Se eles tivessem a segurança da paz,
Carmesina seria a primeira a arrastar-vos
para a casa do eterno e amargo penar.
lde-vos, senhora!
As vossas palavras, mesmo não sendo verdadeiras, doiem na minha alma!
Eu farei com que depressa acrediteis nelas!
Acaso vos apetecem mais as fontes secas de uma criança a meio servir?
Acho que este possa servir-vos, senhora!
Bem!
Levo este espelho!
Tu! Vem aqui!
- Quantos anos tens? - 16, minha senhora.
Vou procurar-te um vestido.
A minha senhora não comeu nada!
Vossa majestade sente-se mal?
Doi-me a cabeça!
Quer vossa majestade que peça aos físicos
- que vos preparem um remédio? - Não!
Os físicos não sabem nada!
Eu é que sei do que preciso!
Podeis ir-vos!
Tu também, Eliseo!
A gente vai murmurar!
Estou enamorada por alguém que poderia ser meu neto!
Vem!
Com o meu corpo
te dou o meu coração e o meu espírito!
A prova que me pedisteis!
Carmesina!
Que estará a ler?
A sua imagem dá-me prazer, mas gostaria de ouvir a sua voz!
A princesa não lê para vós.
Está a ler para alguém que está muito próximo.
Juanón, o jardineiro,
é muito apreciado por certas senhoras conhecidas
devido ao seu libidinoso apetite!
Como podeis ver, a princesa continua a guardar
com firmeza a sua virginidade!
Não!
Deixa!
Senhor Tirante!
Desejais a quem não vos ama.
Recusai essa lasciva princesa que vos engana a vós, e à sua mãe,
e se submete às ânsias de um negro mouro!
Tomai-me, meu senhor!
O meu corpo e a minha alma, são vossos!
Que grande glória seria para vós ter-me a servir-vos
a todo o meu poder,
de dia e de noite,
na vossa câmara ou na vossa tenda!
Não vos esforceis mais!
Tão difícil é que eu esqueça a princesa,
como as águas do rio correrem para cima!
Tende piedade!
Tende piedade!
Quero dar-te uma prenda, Hipólito!
Leva isto em minha honra
e que te sirva para recordar aquela que te ama mais que à própria vida!
Hipólito, pede a Deus que eu viva,
pois não será de espantar que, dentro de pouco tempo,
eu te imponha uma coroa de ouro!
Há quantos dias está ali?
Três dias, senhor! Mas não acho que esteja doente.
Dá sinais de bom apetite com os alimentos que lhe passamos.
Batei à porta!
- Quem está a bater? - Abre depressa!
Deixa-me em paz!
Abre a porta ou dou ordem
de que a derrubem!
Senhor! Eu tenho a chave!
Esconde-te!
Hipólito!
Que mau cheiro é este?
Há dois dias que não abro as janelas!
Porque é que estais tão desnuda?
Como a vossa mãe vos pariu!?
No meu sonho, devia despojar-me do meu camisão.
Sonhei que o meu filho estava vivo
e que a sua boca graciosa, mamava nos meus peitos.
O teu filho...
Sempre o teu filho!
Também era meu filho!
Falai! Que notícias trazeis?
Senhor,
perdão vos peço pela dor que possa causar-vos as novas que vos trago!
Os turcos entraram na cidade de São Jorge
e o melhor da nossa cavalaria deve dar-se por perdida.
Onde está a Imperatriz?
Dizei a Tirante que ponha em seus braços
a força que não tem
nas suas pernas!
Ele vai compreender!
Tal é o estado de vosso pobre pai!
Um dia parte-se a meio!
Esperai!
E pior ainda...
é que ele está caduco! Um dia vira de todo do juízo
e pode entregar-vos ao Gran Turco, com quem fareis filhos heréticos!
Quatro horas levaram os físicos a recuperá-lo
depois que desmaiou!
E se um dia desmaia e não volta a si?
Quem será o nosso Imperador?
A vossa mãe,
que também está louca e regressou a uma segunda juventude?
Vós,
com, apenas, dezasseis anos e que ainda brincais com bonecas?
Entregai a vossa virgindade a Tirante, que é como dar-lhe a chave do lmpério
a um grande cavaleiro que nos salvará a todos de muitos males!
De que estais à espera?
Deus misericordioso,
porque é que não posso ter um casamento como as demais,
uma boda com banquete?
E porque é que não poderei oferecer-me ao homem que ame quando for meu marido?
Porque será?
Porque sois a princesa,
porque tendes um pai caduco e uma mãe demente,
e o Império depende de vós!
Oh, senhor Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro, que submete à tua santíssima pessoa
o querer deixar possuir esta coroa a meu senhor Tirante
com título e senhorio de todo o Império da Grécia,
após a morte de meu senhor pai!
A princesa é vossa, meu senhor!
Ofereceis-me o paraíso
quando tenho grandes lousas atadas aos pés às mãos.
Eu vos valerei!
É tua vontade, princesa?
Di-lo-ei com tristeza no coração.
Coloquei-me tanto à frente, que voltar atrás já não sei,
e se queres que assim se faça,
não devo recusar o que tanto anseias! Contudo,
peço-te que te submetas ao meu desejo de querer conservar a minha pureza,
e que por ti não seja violada.
É bastante claro que meu senhor Tirante está a ponto de não aguentar mais,
e que ao abrigo que a princesa tem entre as pernas,
declara o seu apetite, como a água que nasce na boca, ante um manjar.
Deixai-vos pois de tonterias e entregai-vos ao prazer
que ambos desejais e a que tendes direito!
Mesmo suspeitando que o meu desejo nunca será cumprido,
eu jamais o poria adiante do pedido que a princesa me fez.
Agora és meu senhor,
e serás meu senhor tanto como a vida me acompanhará.
Não quero mais saber de vossos amores!
Se vieste virgem, e virgem te vás, é porque há muita vergonha
e confusão entre os dois.
Acabou-se!
Envia-me ante a tua majestade
o senhor dos senhores da mahomética seita,
o gran Soldán de Babilónia,
Mohamed lV, filho do gran Mohamed lll.
Por ordem do nosso excelentíssimo Soldán, venho dizer-te, senhor,
que se tua majestade deseja harmonia e concórdia,
o Soldán te poderá ter por pai e tu a ele por filho,
se lhe quiserdes dar como prémio
a tua filha Carmesina por mulher.
Com tal pacto, é condição
que se ela parir um filho,
este deverá pertencer à seita do nosso santo profecta, Mahomé.
E o Soldán, em recompensa do dito matrimónio,
te devolverá todas as cidades, castelos e palácios
que tomou dentro do teu lmpério.
Embaixador,
nosso venerado Jesus Cristo
nos ordena comungar na sua Santa fé cristã!
Eu suplico ao Gran Soldán, na sua imensa bondade,
que não me deixe fazer coisas que sejam contra a nossa Santa fé católica,
e que me livre
de dar a minha filha por mulher a homem que,
ainda que merecedor do nosso respeito,
é de lei diferente da nossa.
Não esqueças que o teu invencível comandante
tem as patas partidas!
Matéria tão importante requer um tempo de meditação.
Voltai amanhã, senhor Embaixador!
Sede prudente e aceitai
o que vossos pais decidirem em justiça e razão!
Trata-se de boa paz para todos!
Finalmente, princesa, finalmente!
Agora gritai, dizei e exclamai o que é próprio duma donzela!
Não queirais vencer-me, meu senhor!
Permiti-me que vos possa resistir!
Ai, senhor!
Porque é que fazeis tanto mal à pessoa amada?
Não prossigais, por piedade!
Tende piedade desta pobre donzela!
Eu amo-vos!
Oh, triste esperança!
Aqui tendes uma princesa vencida!
Com a dor própria de quem nasceu e cresceu
no que entendemos e cremos que é a única e verdadeira fé,
com o convencimento
de que a nossa decisão é prudente e traz a paz aos povos,
decidimos aceitar as condições do Gran Soldán,
no entanto, se o que nascer for menina,
nos seja entregue para ser educada na nossa fé.
lde pois em busca do Gran Soldán,
e dizei-lhe que neste ponto
lhe entrego por esposa a minha filha Carmesina.
Não pode ser!
Não pode ser!
Não pode ser porque desde há umas horas
tenho a semente de Tirante dentro do meu corpo,
e suplico a Deus que a prenda na minha carne!
Vamos ter guerra!
Para trás!
Mata, mata!
O turco morreu!
Tenho uma dor muito grande no meu peito.
Os físicos estão no acampamento. Depressa vos aliviarão!
Diafebus, amigo...
Estou a morrer!
Quero ver Carmesina!
Leva-me até Carmesina!
O gran Turco morreu às mãos de Tirante!
O gran Turco morreu às mãos de Tirante!
Diafebus!
Tirante está pior! Desmaiou!
Morreu!
Em marcha!
Escreveu esta nota
umas horas antes de morrer.
"A cruel fortuna não quis que pudesse morrer nos vossos braços.
O fim da minha vida, seria assim menos amargo!
Guardai a minha lembrança e encomendai a minha alma ao criador,
de quem a recebi, e a quem agora a devolvo com dor.
Beija-vos os pés e as mãos, vosso Tirante."
Onde está o meu Tirante?
Podes ouvir-me?
Onde estás?
Podes ver desde aí como está despedaçado o meu coração?
Só quero a morte!
E prometo morrer!
Porrín de volta a casa.
Há dois dias que navegamos pelo mar de Mármara
com terra à vista de ambos os lados.
Só que agora,
a Ásia está a bombordo e a Europa a estibordo.
Europa a estibordo
A princesa Carmesina,
tendo deixado voluntariamente de comer e de beber,
morreu de inanição dois meses mais tarde.
O Imperador sucumbiu pouco depois aos seus achaques
e devido aos tristes acontecimentos.
Hipólito casou com a Imperatriz
e, pouco depois, converteu-se no novo Imperador de Bizâncio.
Placerdemivida é a sua acessora
e, segundo dizem, também a sua amante.
A Viúva Repousada encontrou alívio nos braços de um guerreiro.
Apenas restam cinzas!
Fomos expulsos do paraíso!
Mas os turcos nunca entrarão em Constantinopla!
Pelo menos, até agora!
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.