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Original subtitles

Roma, 15 de novembro 1960

Tudo bem... calmo.

Esperemos.

Estamos prontos, máquina 1.

Conseguirá?

Talvez seja um doido que treinava baratas no recreio da escola.

Parece-me muito empenhado.

Esperemos que não seja demasiado aborrecido.

É um facto que ficou em primeiro em vários rankings, portanto...

Por favor, professor, só um toque...

Peço desculpa.

Obrigado.

Não, não... obrigado.

Senhoras e senhores, boa noite.

A emissão ira prosseguir a partir de agora

com a rubrica "Nunca é tarde demais".

- Cá estamos... - E verdade.

Portanto, veja la...

Sim, estou em direto, nada de loucuras, não se preocupe...

- Só aquilo que acordámos. - Sim, esteja descansada.

O ministério da Instrução Pública e a RAI, Radio Televisão Italiana,

apresentam "'Nunca é tarde demais",

um curso de instrução popular para adultos analfabetos...

Golo!

Ganhámos!

Roma, 1946

- Adeus! - Adeus!

NUNCA É TARDE DEMAIS

Não, obrigado.

Ladrão!

Roubou-me a carteira!

Dá-me a carteira! Onde a meteste?

- Que aconteceu? - Dá-me o dinheiro!

Roubou-me carteira! Sim, é minha!

Rapazes... deixem-no ir, A senhora recuperou a carteira.

- Com quatro filhos que podia fazer? - Deixamo-lo ir...

Deixem-no ir.

- Há demasiada fome. - Safou-se...

Alberto!

Deixa isso, que tens tu a ver? Porque te metes sempre?

- Como vais, Eugenio? - Anda, estava em primeiro.

Olha-me a confusão... E por nove mil liras por mês.

Não, porque é o melhor trabalho do mundo...

Berti, Eugenio Berti!

Sim...

Berti, Eugenio.

Entregaram-lhe uma substituição.

Escola Básica Filippo Corridoni, em Centocelle.

É fora da cidade. Como chego eu a Centocelle?

De trólei.

De trólei...

- Como disse que se chama? - Alberto Manzi.

Esse nome não consta.

Não é possível, licenciei-me com a nota máxima.

Acha que não sei ler?

Não... dizia que talvez lhe tenha escapado.

Perdão, mas se não estás. não estás... chega!

Ei-lo. Centésimo. Não foi colocado.

O jovem fica em casa.

Dê-me a folha...

Desculpe, veja: o segundo da lista tem uma nota inferior à minha.

- Dê-me a folha, por favor! - Dá-lhe a folha...

Dê-me a folha!

Alberto, anda cá!

Quem é que o para?

- O superintendente...? - O corredor à esquerda.

- O superintendente? - Primeira porta à direita.

- Centésimo na lista. - Quem é o senhor? Como se atreve?

Atribuíram-me a pontuação de outra pessoa. Deve-me explicações.

Não lhe devo qualquer explicação. A lista é esta e basta!

Está errada.

Escute, tentaremos remediar isso para o ano, está bem?

- Tenha calma. - Eu tenho fome é agora.

Se não me dá aquilo que me é devido, não saio daqui.

Mas...? Faça o que quiser, mas faça-o lá fora.

Por favor, levante-se...

Como inventaram estas pontuações?

Mas como se atreve?!

- Olhe que chamo a polícia! - Chame!

Assim, explica-lhes porque não me quer deixar ensinar.

Chame-a, vá!

- Como se chama? - Alberto Manzi.

Alberto Manzi...

O senhor pode até ter razão,

mas tem de perceber que as colocações já foram feitas.

E mesmo sendo superintendente, nada posso fazer.

Bela porcaria...

Manzi!

- Que há, descobriram o erro? - Não.

- Então, deixe-me em paz. - Espere...

Chamo-me Nazareno Padelaro. Queria dizer-lhe que tem toda a razão.

Aquelas listas são uma desgraça.

O sobrinho de um prefeito, ou primo de um monsenhor...

Veio atrás de mim para dizer isto?

Não, para lhe dizer que se arranja uma posição.

Não é bem uma posição, mas...

E por que razão ma oferece?

Porque ninguém a quer e o senhor precisa de trabalho.

Casa de Correção.

Deixo-a aqui?

Bom dia!

Chamo-me Alberto Manzi, sou o novo professor.

É você então o novo professor...

Espero que lhe tenham dito que aqui os seus estudos não servirão de muito.

Dê-mo.

O saco...

- Desculpe, que está a fazer? - Estes ficam no meu gabinete.

Restituo-lhos depois da aula.

São os livros que queria mostrar e apontamentos para a aula...

Aqui não se usam nem folhas, nem apontamentos.

- Mas porquê? - É proibido.

Seja como for, os seus livros não lhe serviriam de nada, acredite.

Sem livros, sem cadernos...

Como posso ensinar seja o que for àqueles rapazes?

Com a voz. O senhor fala, eles ouvem.

Isto é uma prisão, Manzi, não um colégio.

Venha...

Que vê?

Rapazes.

Errado. São delinquentes.

Roubaram, assaltaram, enganaram. Alguns até mataram.

Quantos são?

Então? Venha... Vou acompanha-lo.

Então? Venha... Vou acompanhá-lo.

Neste momento, temos 86 detidos. As celas nunca estiveram tão cheias.

O facto é que após a libertação,

os nossos rapazes tornaram-se um povo de ladrões.

Talvez tenham só fome.

Não espere grande coisa; muitos são ainda analfabetos.

- Posso ter um quadro? - Não.

E lembre-se que os detidos não podem ter canetas.

O bico da caneta pode servir como arma

contra si próprios ou contra os outros.

- Quer dizer que vamos usar lápis. - Nem lápis podem usar.

- É proibido pelo... - ... regulamento,.

Mas se os rapazes nada podem ter para ler ou escrever, que faço eu?

Pode ir-se embora, Manzi, como fizeram os outros professores.

Bom dia.

Silêncio, todos para dentro!

Todos para dentro, já!

Voltem já para as celas! Todos para dentro das celas!

Professor, desça, nós esperamo-lo aqui.

Mas eu convosco aqui dentro não dou aula.

O senhor não pode estar aqui sem nós.

Façamos assim:

se alguém me agredir, grito e vocês vêm logo.

De acordo?

Vamos experimentar.

Onde estão os guardas?

Ficaram lá fora.

E quem és tu?

És adulto? Porque te puseram nos menores?

Porque em Regina Coeli já não havia lugar.

E portanto puseram-me aqui.

Que fizeste?

Uma briga. E tu?

Um assalto. Mas eu sou inocente!

Só tenho de esperar pelo julgamento e depois saio.

E tu?

Só sei que tenho de ficar aqui nove meses, e depois se verá.

- E tu, que fizeste? - Também um assalto.

Mas um a sério.

Não é como este que foi rapinar galinhas a uma velha.

Que estás para aí a dizer? Foram três melancias no mercado.

- Quantos anos tens, tu? - Dez, porquê?

Não, tudo bem... E que fizeste tu?

Isso é comigo. Mas foram quatro galinhas.

Rapazes, quando chegar o professor novo, damos cabo dele...

Na verdade, sou eu o professor.

- Professor de quê? - Da escola.

- Escola... - Nós aqui aprendemos sozinhos.

- E tu quem és? - É o Ricotta.

E aqui dentro mando eu.

Eu cá acho que se queres ser chefe deves escolher outro nome,

porque Ricotta é um pouco...

Queres dar aulas? Vamos apostar isso.

Se venceres, há aulas.

Mas se perderes, fazemos o que eu disser.

Está bem. E como jogamos?

- Têm cartas? - Cartas...

Não se joga às cartas, aqui é à porrada...

Vão andar à porrada, malta!

Luta! Luta! Luta!

Que se passa aqui?

Nada, nada... Estávamos a fazer ginástica.

Gosto de começar as aulas com umas flexões,

fazíamos ginástica...

Sim, sim... flexões.

Quantas estás a fazer? Quantas já fizeste?

35, o Ricotta fez 35. Vamos ver quem faz mais, força!

Tem a certeza que não nos quer aqui?

Não, está tudo em ordem, pode ir.

Claro que percebi. A menina Ida Renzi.

Lamento, mas já lhe disse.

Perguntei em toda a parte, na paróquia, no bairro...

Nunca mais cá voltou.

Não é possível, não pode ter desaparecido.

Houve a guerra, mudou de casa...

Não é assim tão estranho o que aconteceu.

Mas olhe... A sua porteira deu-me isto,

Mas são as minhas cartas...

Chegaram todas já ela se fora embora.

Não leu nem uma...

É a sua namorada?

Sim...

Obrigado.

Já percebi, mas não será a única mulher que resta em Roma...

Para mim, é.

O passado não volta, Albè. Temos de virar a página.

Eu por exemplo vou mudar de emprego.

Enlouqueceste?

Já experimentei, Albè...

Duas horas de manhã para ir, duas horas à noite para voltar.

Já não consigo, não é para mim.

E depois olha à tua volta...

Tudo recomeça e nós perdemos tempo a ensinar miúdos...

Vem comigo.

Os miúdos são o futuro.

Sim, sobretudo os teus...

O meu tio encontrou um camião em segunda mão.

- E que fazes com um camião? - O que faço?

Ando pelo país a fazer negócios.

Na cidade há coisas que não há no campo.

Junto a oferta com a procura e já está.

Boa noite!

Já viste como são giras?

Vá, bebamos qualquer coisa...

Que vos sirvo?

Vinho, obrigado...

Não, não bebo nada, vou para casa preparar as aulas de amanhã.

Vais depois, ainda é cedo...

Que pena... boa noite!

É um pouco tímido...

"Minha adorada Ida,

"passámos os últimos dias entre um camião e outro.

"Muitos dos soldados à minha volta estavam feridos.

"Não imaginas quantas vezes pensar em ti

me ajuda a aguentar esta loucura..."

A marchar! Ritmo!

Vamos! Um, dois, um, dois...

Essas costas direitas!

Força!

Mexe-te! Levanta essa cabeça!

Cabeça levantada!

Chamam marcha a isto?!

Ouviste o instrutor? Toca a marchar!

Parecem um bando de idiotas!

Força!

Passo! Passo!

Olhem em frente!

Viva, rapazes!

Como te chamas?

Desçam. Olá, Felice!

Olá, Tommaso!

Olá, Ricotta... Como estas?

- Olá, rapazes. Como te chamas? - Marcello.

- Trouxeste os cigarros? - Não.

Depois voltem para baixo, voltem a descer.

Rapazes... venham cá.

Vi-vos fazer ginástica lá em baixo no pátio.

Não era divertido, pois não?

Sabem porque ensino?

Porque vi muitas injustiças...

...e eu não gosto de injustiças.

Que diz aquele? Onde diabo acha que esta?

Prepotentes que se aproveitam dos mais fracos,

adultos que batem em crianças...

E tu, porque não ris?

Não me apetece.

Chega aqui.

Sabes o que vais fazer agora?

Vai...

- Professor... - Felice!

Diz.

Bom dia.

Manzi... como está a correr?

Bem.

Não se diria, pela sua cara.

O senhor de que lado está?

Sabe perfeitamente que eu assim não sirvo para nada.

Não tenho livros, cadernos, canetas,

não posso ensiná-los a ler ou a escrever...

Se tivesse os guardas consigo, pelo menos ficariam a ouvi-lo.

Não quero os guardas,

porque senão os rapazes só fingiriam ouvir-me.

Pelo menos assim são sinceros.

Mas que ideia é a sua, Manzi?!

Acha mesmo que podemos fazer alguma coisa por eles?

Não sabe o que os espera fora daqui, quando saírem.

Pais que se embebedam,

Irmãos que são presos, famílias que não têm o que comer.

Até pode ensinar-lhes "A Divina Comédia" de cor,

daqui a uns anos estarão de novo aqui!

E é melhor fazer como o Ferrante

que os obriga a marchar a pontapé?

Quer-se ir embora, certo? Não se preocupe, já durou até demais.

Não, eu preocupo-me.

E o senhor também deveria preocupar-se.

Quando enviam um professor para ensinar,

deveriam dar-lhe condições para poder trabalhar.

Quem o impede de trabalhar no reformatório?

Sente-se, por favor...

Tiraram-me tudo.

Livros, cadernos, canetas, lápis, tudo...

Infelizmente, aí nada podemos fazer, Manzi.

Somos só convidados.

- Deixaram-me sozinho. - Sozinho?

Todos os professores estão sozinhos.

Use a imaginação, invente qualquer coisa.

Os miúdos engraxam os sapatos aos soldados americanos;

todos inventam alguma coisa para sobreviver.

Faça-o também você, Manzi.

Por favor, pode levar-me estes documentos aqui abaixo?

- Com certeza. - Obrigado.

- Há cartas para assinar. - Estas?

Ida!

Que decidiu? Deixa ou continua?

Que fichas são aquelas afixadas lá fora?

As colocações das substituições dos seus colegas.

Então tem um registo com as escolas onde foram colocados, certo?

Mas que tem isso a ver com a pergunta que lhe fiz?

Então, decide-se ou não? Fica ou vai-se embora?

Fico! Mas com uma condição.

Qual?

Deixa-me dar uma vista de olhos àquele registo?

Olha, já saíram, disse-te que era tarde.

Estou a despachar-me, Albè, esta coisa não voa...

Vês? A mamã e o papá...

Adeus, Sergio!

- Bom dia, como está? - Tudo bem, obrigada.

Queria dizer-lhe que ainda teve alguma tosse,

portanto amanhã talvez fosse melhor ficar em casa.

Adeus, Lorenzo!

Vá, meninos, até depois!

Ainda não aprendeste a guiar isto...

- Está quase... - Cuidado!

Eu vi-o, tem calma! Olha como aquele parou...

Mas como é que paraste...?

- É só um instante! - Ei-la...

É ela!

Espera, espera...

Espera, espera! Não posso parar aqui.

Anda!

Há mercado, não posso...

Então, eu desço...

Espera...

Ida!

Alberto...!

Se soubesses como te procurei...

Sério? Não me apercebi disso...

Que foi, Ida, aonde vais?

Há dois anos que não nos vemos, Alberto. Talvez te tenhas esquecido.

Mas eu vim logo procurar-te, tu é que não estavas.

Há outra pessoa, Ida?

Responde-me, por favor, tens outro namorado?

Não tens o menor direito de fazer essa pergunta.

Desapareceste, nem sequer sabia se estavas vivo!

Eu escrevi-te, mas havia guerra.

Mas achas que só tu é que passaste pela guerra?

- Ida, ouve... - Não, ouve-me tu!

Acabou, Alberto, já não há nada entre nós.

Vai-te embora, por favor, Alberto! Vai-te embora...

Não, Ida, eu não saio daqui.

Agora que te reencontrei, não vou embora.

Já não acredito em ti.

Amor, tens fome?

Sim.

Uma sopinha...

Linda! Estas a dar-lhe pão?

Que cheirinho...

Como está?

Mamã, olha!

- Cartas! - Sim, são cartas...

De quem são, mamã?

Amor, são... as cartas do papá.

Lindas!

Estou aqui, rapazes.

Comecemos a esclarecer as coisas.

Fora! Quando falo, quero-vos a todos cá fora.

Queres a desforra? Olha que estamos prontos!

Vá, fora...

Olha que sabemos bater...

Sim? E então?

- Mas não te defendes? - Não.

Então, não vale.

Não vale? Não é isto que querem fazer?

Todos contra um?

Deem-me vocês uma lição. Assim até agradamos ao diretor...

Tu és diferente.

És o único que entra aqui sem os guardas.

E não se perguntaram por que razão não os quero?

- Porque ainda não nos conheces! - Não...

Porque nós não somos inimigos.

E porque posso fazer alguma coisa por vocês.

Mesmo?

- Mesmo. - Então, deixa-nos em paz.

Aqui foi sempre assim, professor.

Marchamos no pátio com aquele idiota do Ferrante,

ficamos calados no refeitório para não levar dos guardas,

mas pelo menos aqui, durante a escola,

pelo menos aqui não têm de nos chatear.

Professor, a aula acabou.

Vamos.

Professor, bom trabalho...

Não sabes ler, não sabes escrever...

Que pensas fazer, Ricotta? Ser ladrão toda a vida?

- Talvez. - Talvez...

Bravo, és muito corajoso, Ricotta!

E vocês? É esta a vossa coragem?

Todos à volta dele como ovelhas.

Aprenderem a ler e a escrever.

Aprenderem a pensar pela vossa cabeça.

É esta a verdadeira coragem.

Percebem que se só souberem cem palavras e outro souber mil,

poderá sempre levar-vos a melhor?

Poderá sempre levar-vos a melhor?

"Minha querida Ida, não imaginas a falta que me fazes.

"Esta noite sonhei contigo; foi um sonho lindo.

Espero ansiosamente noticias tuas. Com imenso amor, Alberto."

Pensava que não voltava a ver-te.

Pensava que já não me quisesses.

És doida?

Eu também pensava que nunca mais voltava a ver-te.

Pensava que tivesses casado com outro.

Mas não.

Então, inscrevo-me eu.

Para casar contigo...

Falas a sério?

Claro...

Volta a dizer-mo.

Queres casar comigo?

Sim...

- Queres casar comigo ou não? - Sim.

Até já tenho uma prenda para ti,

Que prenda?

Enfim...

É uma surpresa muito importante, muito bonita.

E onde está?

Tens a certeza? Queres mesmo vê-la?

Claro. Mas é o quê?

Vem comigo...

Mas é o quê?

Já vais ver. Espera...

Ainda...

Já chegámos. Vira-te...

- Pronto? - Sim, estou pronto.

Quem é ela?

É nossa filha...?

Meu Deus, como é linda!

Como se chama?

Chama-se Alda.

Nestes dois anos estivemos sozinhas, eu e ela.

Os meus pais quando souberam que estava grávida

expulsaram-me de casa.

Agora, estamos cá nós.

Agora estamos sempre juntos...

Já viste quem está a chegar? Está a chegar o Marcello.

Sai daí.

Falei com o advogado. Saio daqui a três meses.

Porque não fazemos sociedade, Ricotta?

Ainda tenho de esperar pelo julgamento.

Mas quem falou em saíres? Tens de fugir!

- É um cobardolas. - Mete-te na tua vida!

Que se passa aqui? Come, anda!

É nojento.

Já te disse para comeres.

- Come tu, se gostas tanto! - Comes à mesma!

Já vais ver! Anda!

E também para ligar ao que dizia Rousseau...

Chega...! Parabéns.

Tem uma belíssima média, jovem,

E eu dou-lhe trinta. Dou-lhe até o louvor.

Obrigado.

Porque não lhe chega trinta e louvor?

Não me chega o que estudo, professor. Sou professor primário.

Já me disseram. Trabalha no reformatório.

O problema é que quando dou aulas àqueles rapazes...

- Não o ouvem? - Não.

O que penso é que estão aqui escritas...

lindas palavras e teorias,

mas nenhuma destas páginas parece ter sido escrita para os meus rapazes.

A pedagogia é uma ciência, meu caro.

E a ciência não faz milagres.

E que quer dizer com isso?

Que para os seus rapazes infelizmente chegámos tarde.

Professor, desculpe,

mas mesmo quem tem 16 anos tem direito a ter um futuro.

Se, de facto, pensa conseguir, não desista.

Estude-os, parta do bem que vê neles e confie no seu instinto,

- Obrigado, professor. - Alberto...

É o meu melhor aluno e sabe-o.

Obrigado, professor.

Bom dia...

Bom dia, rapazes.

Aconteceu alguma coisa?

Levaram o Ricotta.

- Quem? - O diretor. Pô-lo na choldra.

Bateu no encarregado. E fez bem!

Sim, fez bem...

- E quando volta? - Não volta.

Vai mandá-lo para a casa disciplinar, com os casos difíceis.

Professor!

Aonde vai?

Soube do Ricotta.

E não está satisfeito? Tirei-lhe o pior.

Não, eu preciso de todos os rapazes.

Mas que se há de fazer com ele?

É violento, péssima influência sobre os outros.

Estou a mandá-lo para onde saberão tratar dele.

Eu fiz grupos de estudo e portanto...

Manzi, não diga parvoíces.

Se o mandar para um instituto onde o tratem como um delinquente,

o rapaz estará perdido para sempre.

Acorde, Manzi, já esta perdido!

Como os outros. É demasiado tarde para eles.

Não, nunca é tarde demais.

Nunca é tarde demais para o Ricotta e para nenhum daqueles rapazes.

E não é tarde demais para si, Sr. diretor.

Caso contrário porque tem este cargo?

Eu estou aqui por acaso, mas o senhor escolheu estar aqui.

E sim, eu quero ensinar-lhes "A Divina Comédia".

E o senhor, que quer ensinar-lhes?

Quer condená-los a serem criminosos que entram e saem da prisão.

Então, porque quis vir para aqui? Porque tem este lugar?

Porque de início também era como você.

E depois?

Depois, mudei de Ideias!

Mas o senhor aqui é o diretor...

Pode mudar as coisas, se quiser.

As pessoas, se quiserem, podem fazer imenso.

Manzi! Façamos um pacto.

Desta vez, mandamos o Ricotta lá para baixo com os outros.

Mas ao primeiro problema, vão-se embora os dois.

Entendido? Pode sair.

Obrigado...

Tão depressa?

Professor, esta é a primeira vez que fico mesmo contente por te ver,

Que fizeste aqui, que tens?

Nada, um arranhão...

Mas como é que conseguiste tirar-me dali?

Disse-lhe que és o melhor aluno da turma.

- E o diretor foi nessa? - Não.

Mas espera-te no fim do ano para um exame de leitura.

Mas eu não sei ler...

Temos nove meses, Ricotta.

Professor, está a gozar comigo?

Não!

Cheguem cá, rapazes. Venham...

Venham, desçam...

Sentem-se. Ora bem, rapazes...

Vamos tentar começar.

Professor, mas já disse que não temos livros ou lápis...

Mas têm-se a vocês.

Mas, professor, viste bem?

Olha aqui... A beleza em pessoa.

Então, façamos assim. Hoje vamos lá para fora.

Não é hora do recreio, é proibido.

Eu é que decido o que é proibido hoje.

Vamos sair!

- E aonde vão? - Lá para fora.

Vamos!

Felice! Felice, aonde vais?

- Vou à cozinha. - Fazer o quê?

Tenho fome.

Que veem lá em cima, rapazes?

O céu, professor.

E mais?

As nuvens.

As nuvens... E como são as nuvens?

Acho que estão carregadas de chuva.

Estão todas cinzentas.

Mas... são todas iguais?

Não.

Pequenas, grandes...

E não se parecem com nada?

Aquela ali parece-me uma girafa.

Professor, aquela ali é mesmo a cara do encarregado.

Professor, custa-me olhar para cima.

Sim, tens razão.

Que estás a fazer?

Anda, Ricotta!

Não disse todos, disse o Ricotta!

- Aqui é duro... - Como as nossas camas.

Ricotta?

- Onde estás? - Aqui!

- Que vês? - Aquela nuvem.

Aquela negra. Está a comer todas as outras.

Vejam como corre...

É uma verdadeira batalha. Professor, está a chover!

E então?

Têm medo de um chuvisco?

A chuva, Ricotta!

Parece que estou debaixo de uma cascata!

Ou num bosque, ao ar livre!

Se olhares para o céu, não há grades, não há muros!

Podíamos estar livres, é verdade...

- Eu gostaria de ser uma nuvem. - Sim, é verdade!

Assim estou lá em cima, no alto,

e se me apetecer, mijo-vos em cima a todos!

E quando me esvaziar, vou-me embora.

Já eu queria ser anjo.

Ponho umas asas aqui nas costas, mesmo pequenas.

Assim, passo o muro e fico livre,

Venham, rapazes, venham...

sabem para que serve aprender a ler e a escrever?

Não.

Serve para contar todas essas coisas lindíssimas que vocês disseram.

E segunda-feira começamos!

Quer que os mandemos para dentro?

Não, não, deixe-os.

Vê-se que tinham vontade de tomar um banho.

Esperem!

Olha que bonito...

Viste, amor, é lindo!

Vais ver como é bonito.

- É esta? - Sim, é esta!

Então?

Linda...

Mas é enorme...

Gostas?

Sim, Alberto. É mesmo linda.

Mas nós podemos pagar esta casa?

Não, mas o senhorio disse que se demoramos a arrendar...

- Alda! - Alda, que estás a fazer?

Encontraste a água...

Linda!

Queres ver o teu quarto, Alda? Venham cá.

Este é o teu quartinho...

Quartinho... é enorme!

E já este... é o nosso.

E lindo... olha-me a vista!

E pomos já isto.

E isto?

Estavas longe... Desenhei-o de cor.

Vamos pô-lo aqui...

Gostas?

Sim, gosto.

Mamã!

Já viste como é bonito? Foi o papá que fez.

Chega aqui...

O senhor não pode entrar aqui como se fosse a sua casa

e pensar que faz aquilo que quer!

Só estou a pedir-lhe alguns lápis, Sr. diretor.

E uns cadernos.

Prometi àqueles rapazes ajudá-los a escrever as histórias deles.

E chega de extravagâncias! Há um regulamento.

Um regulamento... Escreveram-no nos tempos de Pio IX.

Sei de cor esse seu regulamento.

Não é o meu regulamento. Eu estou aqui para fazê-lo respeitar.

Agora, estes rapazes, pela primeira vez,

têm vontade de perceber, querem aprender a ler e a escrever.

E prometo-lhe que isto vai ajudá-los a superar os seus problemas.

Eu nada tenho com os problemas deles, e você também não, Manzi.

Limite-se a fazer aquilo para que lhe pagam.

Saia.

Saia!

A porta!

Feche-a sozinho!

Volto daqui a meia hora. Abre!

Deu-tos?

Toma...

Aqui estão as folhas.

- Trouxe os lápis da professora. - Ótimo.

Segura, só levo dois.

Um...

Mas o padeiro queria saber para que queria tantas folhas.

E tu?

Disse-lhe que são uma prenda, o meu presente de casamento.

E o pároco também quer que marquemos uma data.

Ainda queres casar comigo, não?

Claro... senão, prendem-me.

- Ouve, uma coisa importante. - Diz...

Um dia bom, meu amor.

Para ti também.

Então, que te disse, que casa contigo?

- Sim. - Então, muitos parabéns!

Olhem aqui...

Embrulhos do pão. Que se faz com isso?

- E trouxeste pãezinhos? - Ora, rapazes!

É aqui que vamos escrever as nossas histórias.

Sim, segura um instante.

Vejam o que também trouxe...

Os lápis, para escrever!

E o outro vais dar a quem?

O outro vou dá-lo... ao Tommaso.

Só tens estes dois?

A este ritmo, vamos precisar de duas vidas e meia.

Eu penso sair daqui a um ano. E acho que os outros também,.

Já percebi, mas revistam-me todas as manhãs.

Como hei de trazê-los todos?

Nós ensinamos-te como se faz.

Podes pô-los dentro do forro do casaco.

- Aqui? - Este não sabe mesmo nada...

E aqui também, vês? Debaixo do cinto.

E vejam que também tem meias...

Olha o luxo...

Topem-me as meias do menino, até tem brancas!

E da próxima vez até te ensinamos a arrombar fechaduras.

Está bem!

Como está?

Bem... Trazes-me mais dois, por favor?

Não se vê nada aqui...

- Ajudo-te? - Sim. Aqui há um furinho...

Aqui!

Um ponto...

Perfeito.

Está perfeito, não se vê nada.

Anda...

Uma voltinha...

- Queres revistar-me? - Não, não.

Parece-me perfeito, não se vê nada.

Um verdadeiro espião internacional...

Vamos refazer isso... Não te preocupes.

Bom dia!

Que tem esta manhã, Sr. professor?

Um jeito. Dói-me imenso...

És o Vito? Vito!

Olha a pinta...

Que fixe...

Tommaso... Não, a ti dei-te da outra vez, não foi?

- Roubaram-mo. - Quem to roubou?

Olha, Felice, as meias do menino...

Olha aqui...

Que fixe o professor...

Ricotta...

É a primeira vez que tenho uma coisa minha.

E nem sequer a roubei...

E que muda isso? Roubou-a ele.

Não, rapazes, não roubei nada.

É um presente da minha antiga professora.

Também tinhas uma professora?

Claro. Senão, ficava ignorante.

Como nós?

Esta é o A, esta é o B, esta o C...

Que fazes? Na parede não, na folha!

Na parede é mais divertido.

Entendo, mas assim descobrem-nos.

- Olha as linhas... - Fá-las na folha, vá.

Diz.

Desenhei um círculo.

- Multo bem. - Um círculo!

Olha, um círculo que também pode ser um O.

Então, professor, isso é meu...

Bravo, Tommaso.

- Como corre aqui? - Tudo bem.

Deixa-o escrever um bocadinho também.

E aqui em cima?

- É difícil... - Continua a tentar.

Ri-co-tta. Vês? Não é difícil.

Boa! Tenta tu agora.

- Eu, professor? - Vá, tenta.

- Eu ajudo-te. - O Felice ajuda-te.

Ri-co-tta.

Professor, o meu nome! Parece magia...

Vamos escrever outra coisa agora. Escolhe outra palavra.

- Que queres escrever? - Liberdade, professor!

- Sabes escrevê-la, Felice? - Claro.

Ajuda-o.

Li-bber...

- ...tà, com acento no A. - Mas é só um B.

Bolas...

Professor, sempre liberdade! Liberdade, professor...

Liberdade, rapazes! Liberdade!

Liberdade! Liberdade!

Viva os noivos!

Saúde!

Felicidades! Felicidades!

Professor, consegui!

Agora já não preciso deste.

Olha aqui, professor. Fui eu que escrevi tudo.

- Sim? - Sim, sim...

Muito bem!

Eu também aprendi a escrever, profe.

Eu também! Escrevi uma frase inteira.

Eu queria escrever um poema, sinto-me pronto...

- Sente-se pronto... - Eu mostro-te.

Mas não tenho lápis.

Os lápis acabaram, profe!

Amanhã trago-vos outros.

- Profe, eu já sei o que escrever. - O quê?

Mas é um segredo.

E agora que fazemos?

Agora... podemos começar a escrever o que temos cá dentro.

Aqui não há nada.

O que temos dentro significa...

Os nossos pensamentos, os nossos sonhos...

Nós escrevemos, escrevemos...

Mas depois quem nos lê?

É verdade, profe..

Boa, Ricotta!

Sabem o que vamos fazer?

Juntamos tudo aquilo que escrevemos

e fazemos um jornalzinho, O nosso jornalzinho.

somos um grupo, não?

Sim, ao trabalho, força!

- Que há, Tommaso? - Nada, profe.

Mas podemos escrever o que quisermos?

Claro.

Até coisas feias?

Até as coisas feias.

Coragem...

"A minha lamparina ilumina-me o caminho, por entre a erva.

"A bela erva de Tolfa...

"Quando a erva se torna feno, a erva torna-se fogo.

O fogo transformar-se-á em luz e a luz transforma-se em nós."

"Tenho sempre o mesmo pesadelo.

"Que o homem da minha mãe volta para casa, bêbedo,

"e começa a bater-nos.

"Então, eu pego num ferro e dou-lhe com ele.

"Depois acordo, todo suado.

"Se o tivesse feito mesmo, ter-me-iam dado dez anos, não dois.

Mas estaria mais contente por estar aqui."

"Estou aqui dentro há tanto tempo...

"Aqui só se vê uma parte do céu.

"Eu tenho vontade de o ver todo.

Chamo-me Ricotta."

"O meu pai anda ao cartão, vai buscá-lo de noite."

Amor, vens deitar-te?

"Às vezes, também vou com ele, vamos com o furgão. "

"A coisa mais preciosa que tenho é uma tablete de chocolate.

"Os meus companheiros dizem que sou doido e que devo comê-lo,

mas eu prefiro olhar para ele."

"Eu tenho fome, tenho sempre fome. Antes das refeições, mas até depois.

tenho fome, tenho fome..."

"Quando sair, a primeira coisa que vou fazer,

"será olhar para cima

"e recuperar num instante todo o céu que não tive nestes anos.

"E depois... depois não sei.

Com o céu não se pode comer."

São os últimos...

Eu ajudo-te.

Bom dia.

Bom dia.

Obrigado.

Bom dia, profe.

Felice...

Espera, eu tapo-os com o saco!

Mauro!

Que treta...

Boa, Manzi, pensava que gozava connosco?

Já não é um miúdo e eu tinha-o avisado.

Você aqui dentro acabou.

Mas porquê? Por ser professor?

Mas o que é que lhes ensinou? A afiar os lápis?

A não respeitar as regras?

A ridicularizar a autoridade de quem trabalha aqui dentro?!

Eu posso até ir-me embora mas, se continuarem assim,

estes rapazes passarão a vida a entrar e sair da prisão.

É gente marcada, já lho disse. Vá-se embora.

Isto foi escrito pelos seus rapazes.

O que é?

A vida deles aqui dentro.

Aprenda pelo menos a conhecê-los.

Saia...

Também vão meter-te na choldra?

Não... não vão prender-me, rapazes, mas...

mandaram-me embora.

O professor não se pode ir embora!

Rapazes, o regulamento é válido para todos.

Nós não queremos outro professor...

E diz ao diretor que se nos mandam outro professor, damos cabo dele.

- E o nosso jornal? - É só um trapo...

Sim, é um trapo, mas é o nosso trapo.

E diz ao diretor que mesmo que tenha de ser em papel higiénico,

vamos escrever à mesma!

Portanto...

"Caro Sr. superintendente,

"por contínuas e reiteradas insubordinações à autoridade,

"peço-lhe que revogue, com efeito imediato,

"a colocação do professor Alberto Manzi

"e determine, com a possível brevidade,

a colocação do seu substituto no nosso instituto."

Cordiais saudações, etc, etc.

- Vou já mandar enviar. - Não, deixe. Assino-a amanhã.

Atenção!

Acabei de ler os vossos trabalhos.

Da próxima vez, quero-os mais bem escritos.

Trouxe canetas.

Depois da aula, têm de devolvê-las, entendido?

Obrigado, diretor.

Escute, já que estamos todos aqui,

tínhamos pensado fazer um jornal.

Um jornal? Porque é que nunca se satisfaz?

Façam composições, como todos fazem.

Teria de pedir autorização ao ministério.

E pedimos.

Porque é que entretanto não deixamos que o escrevam? Que lhe custa?

Custa-me o lugar, Manzi, o lugar...

Depois mandamo-lo para o ministério para que percebam do que se trata.

Sr. diretor... não os desiluda.

Você torna tudo fácil, Manzi.

Disse que sim!

Não disse que sim...

Sr. diretor...

Que mais quer?

As canetas.

É lindo, Alberto, lindo.

Obrigado.

Acabaste por conseguir conquistar o diretor.

Ninguém te para...

Nós também temos uma coisa para te contar.

Sim? O que é?

Espero um irmãozinho.

A sério...?

O vosso grupo, Tommaso?

Nós escrevemos uma coisa sobre o refeitório.

Que mete nojo!

Muito bem, rapazes, ótimo.

Mais?

Nós foi sobre os piolhos, já que temos aqui o especialista...

É que quando deitam o DDT, fico com comichão.

E eles cada vez ficam maiores, tipo... olha.

- Profe. - Professor, Ricotta, professor...

- Profe. - Obrigado, mozarela.

Profe, eu escrevi tudo sozinho.

Fizeste um grupo sozinho... E que escreveste?

Escrevi o que quero fazer quando sair.

Ser bufo...

Não, professor,

Sim, quero ensinar como tu.

Não acredito.

Eu acredito. Muito bem, Felice!

Mas olha, se queres ensinar, falta aqui o "i"...

Todos sabiam...

Mas já viu bem, Manzi?

O refeitório mete nojo, as paredes estão húmidas

e há mais percevejos e piolhos do que rapazes.

Ninguém os trata com respeito. E quer que mande isto ao ministério?

Mas é a verdade, Sr. diretor.

Nunca ninguém ouviu aqueles rapazes.

Dar a conhecer o que escreveram é a melhor forma de os respeitar.

O Manzi sabe que estou a fazer o impossível para melhorar as coisas.

E já é um milagre conseguir que durmam, que comam

e agora é tudo culpa minha!

Eu não mando isto ao ministério!

Sr. diretor... Os rapazes não escreveram que a culpa é sua.

Só contam a vida deles.

O senhor come nos pratos deles? Dorme nas camas deles?

Usa aquelas casas de banho?

Que está a insinuar?

Que talvez as coisas estejam piores do que o senhor vê do seu gabinete.

Mas o Manzi é professor de toda a gente...

Conta a vida, as nuvens, os sonhos, diz o que se deve ou não fazer...

Agora, descanse um pouco, por favor. Vá, vá...

- Sr. diretor, eu deixei... - Fora!

Já o encontrou...

- Fora! Como devo dizer-lho?! - Já o encontrou...

Pegou nele sozinho... Obrigado.

Pegou nele sozinho... Obrigado.

Atenção!

Sentados.

Pode dar-me um prato de sopa?

Desta sopa?

Se os rapazes a comem, também posso comê-la eu.

Levanta-te.

Sim, senhor.

Que nojo!

Chamem imediatamente o cozinheiro e mandem-no já ao meu gabinete!

"E quando for crescido serei professor...

Mais?

"E ensinar diverte-me muito

porque estou sempre com meninos simpáticos."

Professor, mas a este ritmo passamos aqui a noite...

- Sr. professor, dá-me licença? - Claro.

"Ensinar...

A nossa voz

Liberdade.

O MEU PAI

AS HISTÓRIAS DO MEU AVÔ

AS ANDORINHAS

O COMBOIO DA TROPA

Chegou.

Então?

E então... agradou. Agradou ao ministério.

Não só isso, como vão adotá-lo noutros institutos.

- Boa. - Parabéns.

Fez um bom trabalho.

Não, Sr. diretor, nós fizemos um bom trabalho.

Sim, esta bem, mas agora acabou...

Não, de facto, gostaria de pedir-lhe mais uma coisa mínima,

mas aconselho-o a voltar a sentar-se.

Não, não, prefiro estar de pé. Diga.

- Abre, depressa! - Que se passa?

Uma emergência, abre!

Como correu?

Que aconteceu?

Sim!

E amanhã, para comemorar, vou levá-los todos lá fora.

Fora? Mesmo fora?

Fora. Vamos lá fora, vamos sair!

- Da prisão? - Com os guardas?

Não, vamos sozinhos.

Cá para mim, vai levar-nos ao Coliseu.

Desde que se coma, Feli...

Nunca mais amanhece...

Aonde nos levará amanhã?

A mim não me interessa.

E porquê?

Porque vou fugir.

Não volto mais para cá.

Também não consegues dormir?

Se fogem, o que é que te acontece?

Perco o lugar e tenho um processo. Depois...

Não sei.

Mas não podes levar um guarda?

Não. Brincas...? Não querem.

Então, vou eu.

Sim, porque só um professor com todos aqueles rapazes,

parece-me uma loucura, Alberto.

- Aonde vais com esse barrigão? - Vou, assim...

Sossega...

Eu conheço aqueles rapazes.

Conheço-os como ninguém.

Sossega, vá. Dorme.

Aqui são as escavações de Ostia.

Mulheres!

Profe... mulheres!

Duas mulheres!

Rapazes, hoje eu não quis que os guardas viessem,

porque tenho confiança.

- Mas temos de fazer um pacto. - Que pacto, profe?

Que não fogem.

Primeiro, porque se fugirem eu estou tramado.

Segundo, e algo que é ainda mais importante,

aqueles que não fugirem, os vossos amigos,

nunca mais poderão sair do reformatório

e terem dias como este.

E também aqueles que virão depois de vocês.

Nunca mais poderão sair.

- Então? - Sim, sim, tranquilo.

Estamos combinados?

Sim, sim, tranquilo, Não te preocupes, confia em nos.

Vamos parar aqui.

Rapazes, fiquem sentados, descemos, paramos aqui

e depois vamos à praia, de acordo?

Sentados, rapazes, sentados! Descemos com calma...

Rapazes!

Rapazes!

Voltem, então!

Eu tenho de voltar para Roma, que fazemos?

Só um instante.

Felice! Onde estão os outros?

Tiveste medo...

Onde estão os outros?

Olha, estão a chegar.

Rapazes, onde se meteram?!

São malucos?

Onde estiveram?

Pregaram-me um susto... Estamos todos?

- Todos menos um. - Quem falta?

- O Ricotta. - Falta o Ricotta...

- E onde está? - Eu vi-o ir para o pinhal.

Ele não volta, profe, ele disse-me.

Vamos...

Vamos, rapazes.

Professor, ias deixar-me aqui?

Devíamos ter arrancado já há vinte minutos, Ricotta.

Para a próxima, ofereces-me um relógio.

Vamos...

Silêncio, porta-te bem...

...e pela qualidade e originalidade da sua tese de licenciatura,

finalmente alguém que não se limita

a repetir aquilo que estudou,

mas pensa, elabora, cria,

Alberto Manzi, declaro-o doutor em Pedagogia,

com uma votação de 110 em 110.

A comissão decidiu também por unanimidade

atribuir-lhe a distinção.

Tenho uma surpresa para si.

Arranjei-lhe um lugar como meu assistente.

Agradeço-lhe muito, Sr. professor...

... mas eu não sei se posso deixar os meus rapazes.

Mas como?

O senhor é, de facto, um professor maravilhoso,

mas deve ser pedagogo, deve difundir as suas intuições

e não nos prive do seu contributo.

Pense nisso.

Sim, está bem. Obrigado.

Alberto, acabaste?

Alberto...

A proposta que o teu professore te fez é algo importante, muito bonito.

Sim...

Porque formando outros professores, escrevendo,

poderias ajudar muitos mais rapazes.

Eu não sei se posso deixar os meus rapazes.

Mas acabarias por deixá-los.

Nem eles vão ficar ali para toda a vida.

Não sei se consigo.

Eu cá acho que estão prontos para ficarem sem ti.

Sim, mas...

Ida!

Alberto, acho que é agora...

Leva-me para ali, Vamos para o quarto.

Agora chama a parteira. Devagar...

Esquecemo-nos do garfo!

Sabes o que disse o diretor? Que vamos para a colónia de férias.

- Sim? - Para o mar.

Estás a ver-nos todos de férias?

É claro que vê, Ricotta. Ele também vai.

Rapazes, tenho de dizer-vos uma coisa.

O trabalho maravilhoso que fizemos juntos

nestes nove meses não deve ficar só nosso.

Pediram-me para ir ensinar outras pessoas

que depois também serão professores.

E tu que respondeste?

Pensei muito, mas acabei por aceitar.

Que queres dizer?

Que para o ano já cá não estarei.

Quem pode pedir ao Sr. professor.

que fique mais um ano com estes desgraçados?

Tu também te irás embora, Tommaso.

Foi a vez do Marcello,

e depois chegará, para cada um de vocês,

o momento de sair daqui.

Mas nós seremos sempre amigos, rapazes.

Eu continuarei a acompanhar-vos.

Rapazes...

Teria sido melhor fugir.

Vamos, Feli.

Como correu?

Foi duro.

Alberto, fizeste o mais certo.

Eu sei.

E não voltarei a ter uma turma assim.

Os meus rapazes são demais.

Abraçaram-se?

Não.

Reagiram mal, não entenderam.

Anda cá.

Para o pé de nós. É o papá...

Mandei preparar-lhe uma cópia

de todos os números do jornalzinho que fizeram.

Ei-la... tome.

Obrigado.

E depois... há isto.

Agora que têm canetas já não interessam.

- Tome. - Obrigado. A sério.

Manzi...

Sr. diretor...

Até à vista.

- Até à vista. - Foi um prazer...

Tradução e Legendagem LUÍS SILVA REIS RTP - Produção

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