All language subtitles for El Rey Pasmado 1991 Imanol Uribe - Joaquim de Almeida, Laura del Sol, Gabino Diego, Maria Barranco Juan Diego SpaPor

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Original subtitles

Legendas revistas por: RosaeCrucis

Tenho algo que ele deve ver o quanto antes.

Dizem que � era como uma serpente enorme,

como um drag�o de sete cabe�as,

e que estava decidido a atacar a base da alca�ova.

Tamb�m dizem que se abriu um buraco no ch�o na Rua do Peixe

que chega quase ao Inferno,

de onde saem labaredas e cheiros horr�veis.

Digo-vos, est�o a passar-se coisas estranhas.

Pondes-me fora de mim, Senhor.

E o Rei?

H� que despert�-lo.

Sim, porque no que diz respeito � minha senhora...

Vamos?

Senhor?

Senhor?

Senhor?!

O que se passa, Andrada?

Passa das oito, Senhor.

A minha carruagem j� deve estar l� fora.

Lucr�cia...

O meu chap�u e a espada.

Que beleza.

� a primeira vez que vejo uma mulher toda nua.

Em toda a tua vida j� viste algo t�o formoso, Conde?

O para�so tem de ser algo como isto.

N�o dir�o o mesmo os do Santo Oficio, Senhor.

Que sabem eles de mulheres nuas?

Segundo eles? Tudo.

Entra!

Tomai, Senhor.

Que procurais, Majestade?

Meio ducado que trazia para a Marfisa.

Meio ducado e nada mais?

� o que estipula o protocolo.

Senhor...

Marfisa � a puta mais cara da vila.

O correto a fazer por Vossa Majestade,

seria deixar-lhe dez ducados.

Dez ducados?

Mas eu nunca tive na m�o tanto dinheiro.

Um dia n�o s�o dias.

Tinha-os destinados � Lucr�cia.

N�o tem que me dar nada, Senhor Conde.

S� pela sua visita j� me considero paga.

A mim, a Marfisa n�o me disse isso.

A minha senhora faz disto profiss�o

e eu fa�o-o por prazer.

E o Senhor Conde deixou-me satisfeita.

Senhor, a carruagem espera-nos.

Podeis cobrir-vos, Conde.

Obrigado, Majestade.

Logo, fazemo-lo novamente no pal�cio, � frente do Valido,

a ver o que dizem.

Podeis beij�-la na minha presen�a, Conde.

Lindo.

- Vamos? - Majestade...

O que observais com tanta aten��o, Senhor?

O corpo nu da Marfisa.

Que outra coisa poderia ser?

Sucedeu alguma coisa?

Sua Majestade n�o dormiu esta noite no pal�cio.

A cama est� por desfazer

e ele n�o aparece em parte nenhuma.

Pois, deve ter passado.

Devo tamb�m dizer-vos que ontem quando me despedi dele,

pediu-me meio ducado.

E o que achais que se passa, Cosme?

Que o Rei foi para a m� vida, Excel�ncia.

Meio ducado � o que pagam os Reis �s suas putas.

Foi �s putas?

E saiu sozinho, o Rei?

Certo, certo, n�o sei.

Mas quando o deixei,

estava com o Conde de La Pe�a Andrada.

Com o Conde de La Pe�a Andrada?

E quem � esse?

N�o h� muito para dizer-vos, Senhor,

exceto que � um jovem cavaleiro.

E com muito bom aspeto.

A quem o Rei trata com confian�a.

Obrigado, Cosme. Agora retirai-vos.

Trazei-me as chaves do quarto pro�bido!

- E se me as negarem? - Dizei-lhes que � uma ordem do Rei.

Custou-vos muito encontr�-lo?

N�o sei como explic�-lo, Excel�ncia,

mas estava em cima da minha mesa.

Estava nesse preciso momento a v�-lo,

quando chegou o servidor com a sua mensagem.

Ele fez alguma peti��o ultimamente, esse Conde?

N�o, que me recorde.

As contas est�o todas em ordem, Senhor.

Pagou aos Reis de Espanha

um bom par de moedas e outros bens.

H� tamb�m um pleito com a Casa de Andrada

por causa de limites de propriedades.

O que est� em disputa � o Vale de Valdovi�o.

Valdovi�o?

- E onde fica isso? - Tem de ser na Galiza, Senhor.

Terra de bruxas, onde nunca nada est� claro.

As pessoas boas dali, ou v�m para Madrid, ou v�o para Salamanca.

Pap�is e mais pap�is. Guardai-os, Vossa merc�.

Mas n�o os perca de vista,

posso vir a necessitar deles.

Tive que roub�-las, Senhor.

Fizesteis muito bem.

J� est� a par, Padre?

Todo o pal�cio j� o sabe.

O Rei passou a noite nos bra�os do pecado.

Sim, parece que sim.

Vossa Excel�ncia sabe mais alguma coisa?

Quem o acompanhou foi um tal Conde La Pe�a Andrada que n�o conhe�o.

Eu pelo contr�rio j� ouvi esse nome.

� galego, n�o �?

Parece que sim.

Todos sabemos que 90% dos galegos,

cl�rigos inclu�dos, est�o condenados.

N�o estar� a exagerar, Padre?

E a Vossa Excel�ncia o que lhe parece?

Quanto �s mulheres, as que n�o s�o bruxas, s�o putas.

Os relat�rios do Santo Oficio assim o confirmam.

Alguma coisa deveria fazer-se.

Sim.

O mais rapidamente poss�vel.

Fazeis bem em temer pelo Rei.

Rezarei por ele.

Se tiver tempo, ainda o farei antes da missa do dia.

E o que se pode obter de Deus at� ent�o.

Pois recorde-se de mim tamb�m, Padre.

Anteontem � minha esposa veio-lhe de novo o per�odo.

Dura sujei��o a das mulheres.

Donde se conclui que s�o inferiores em rela��o aos homens.

Pois, mas eu necessito de um herdeiro, Padre.

E Vossa Rever�ncia sabe dos meus pedidos e sacrificios.

Ainda que o Senhor pare�a n�o nos escutar.

Nem � minha esposa nem a mim.

Ser� que os vossos pedidos n�o chegam ao c�u?

Por acaso temos que gritar?

Quem sabe?

Mas dai-me tempo, algo me inspirar� o Altissimo.

Pagaram-te, esses dois?

Sim.

Tome.

Dez ducados.

Sai a dois ducados e meio por cada ofensa a Nosso Senhor,

e a bolsa fica pela tentativa.

Disse tentativa?

Sim, a quinta j� n�o foi poss�vel.

Justamente quando come�ava a apetecer-me.

E tu? Que tal?

Eu passei a noite, num puro gozo

com o Senhor Conde deitado aqui, sem se mexer.

Nunca encontrei nada igual.

J� nem me lembrava como era perder-lhes a conta.

Exageras.

Juro-o, pela alma de minha m�e que tamb�m foi puta como voc�,

mas que se arrependeu a tempo.

Deixa em paz a mem�ria da tua m�e.

Esse corpo merecia outra sorte.

Quereis dizer um marido?

Oh n�o, meu Deus. Queria dizer melhores amantes.

Parece-te pouco o Rei?

Pelo que te ouvi dizer o Rei n�o a satisfez.

Faltou-lhe dar mais uma.

O Rei � muito inexperiente,

n�o sabe a missa a metade.

Nunca tinha visto uma mulher nua.

O que aprenderia na minha cama,

se c� passasse sete noites.

Ent�o de que vale ser Rei?

Mandei-o vir porque Vossa Rever�ncia � a �nica pessoa desta Corte

que dado o seu intimo conhecimento quanto �s mat�rias do maligno

poder� proporcionar-me uma orienta��o fi�vel.

Eu n�o diria um �ntimo conhecimento,

mas apenas uma rela��o intelectual assidua.

O que a mim me interessa

� que essa presen�a que vem mencionada no relat�rio do Padre Secundino.

Essa figura, que juntamente com os bruxos e bruxas

que pululavam esta �ltima noite pelos c�us da vila,

resplandecia mais formosa que as restantes.

E, ao que parece, deixava ao deslizar um rasto de prata.

N�o nos podemos esquecer, Senhoria,

que entre atributos de Luzbel

est� a formosura.

E a Vossa Paternidade ele alguma vez se havia apresentado

com t�o resplandecente beleza?

Quem sabe por ser apenas um humilde servidor de Deus,

Satan�s opte por assumir formas mais modestas.

E como sabe Vossa Rever�ncia que se trata do Diabo?

Temos... digamos, as nossas contra-senhas,

que apesar de n�o serem conhecidas, resultam evidentes.

Por�m, est�o sempre a mudar.

Creio que o faz por prud�ncia, para n�o me comprometer.

Mas a mim parece-me

que precisa de falar com algu�m acerca das suas preocupa��es.

E escolheu-me a mim?

Pela sua discri��o.

Podia ser...

O que posso assegurar-lhe, Senhoria,

� que n�o tive a menor noticia ou suspeita,

que ia dar-se ontem esse espet�culo nos c�us da vila,

e concentrar toda essa gente que o serve.

Gente de extraordin�ria beleza,

segundo diz o relat�rio.

E que se d� a todo o tipo de fornica��es.

Sim, est� bem. Que entre.

N�o se importar� de conviver, ainda que s� por uns minutos,

com um frade Capuchinho...

Trata-se do Capel�o-Mor do pal�cio.

Senhoria, a noite passada...

Posso falar sem reservas?

O que se diz nesta sala e o que nela se ouve

est� protegido pelo segredo da confiss�o.

Isso tranquiliza-me, Senhoria.

A noite passada sua Majestade foi �s putas.

O que me est� a dizer?

Santo Deus! Os sinos.

Perdoai-me mas com todos estes terr�veis acontecimentos

esqueci-me que vou celebrar a missa no pal�cio.

Eu acompanho-o.

Um pouco de exerc�cio matutino calha sempre bem.

E isso n�o � tudo...

Esta manh� o Rei entrou no quarto pro�bido!

� incrivel, tanto atrevimento.

Era de prev�r, Senhoria.

Tenho andado a dar voltas a este atrevimento do Rei

e n�o encontro outro respons�vel que o seu confessor.

Esse octagen�rio que tudo lhe perdoa com a brandura das suas penit�ncias.

Sobretudo as dos pecados da carne.

Est� a referir-se ao Padre Ferr�n de Valdivieso?

A esse mesmo.

Ao convertido.

Os judeus n�o s�o conhecidos pela sua toler�ncia.

Recorde-se do meu antecessor, o Torquemada.

Os judeus, Senhoria, buscam a destrui��o do Reino de Espanha.

J� ouvi falar do grande Sanhedr�n

mas penso que � uma lenda.

- E o turco, tamb�m o �? - Certamente.

- Mas o perigo n�o vem da�... - Com efeito...

O perigo vem de Inglaterra, de Fran�a, da Alemanha, dos Pa�ses Baixos

e da Turquia.

E quanto aos pecados do Rei,

o que dizem Vossas Rever�ncias?

Que o nosso jovem Rei apenas tem vinte anos.

E muita curiosidade.

Foi �s putas por isso? Por curiosidade?

Ao que parece, para Vossas Paternidades,

a coisa n�o passa de uma anedota.

E a transcend�ncia?

Por acaso podemos esquecer que a nossa frota das Indias

est� prestes a chegar

e que na Flandres se prepara uma grande batalha.

Vistas assim, as coisas mudam de figura.

Mudam, efetivamente.

E que prop�e Sua Paternidade para remediar o mal?

Em primeiro lugar Senhoria, proponho para esta mesma tarde

uma consulta de te�logos que assessorem a lei suprema

Tamb�m que se tire do pal�cio o confessor do Rei

que todos sabemos trata-se de um judeu...

E por �ltimo, que se meta na pris�o do Santo Tribunal a puta,

a essa Marfisa ou como ela se chama.

Que por sinal n�o � judia e sim uma crist�-velha

e suponho seja uma fiel cumpridora das leis da igreja.

Mas, como poder� ser? Ao Rei tem-no endemoniado.

Puseram-no pasmado. Anda como que pasmado.

E quem, sen�o ela, poder� ser a respons�vel?

Senhoria, e quanto ao confessor do Rei...

A quem Vossa Paternidade distingue com o seu afeto...

N�o o amo mais do que se possa amar ao pr�ximo.

- � perigoso. - Eu sei.

Mas eu n�o me posso esquecer que o Padre Valdivieso � Franciscano.

O h�bito,

ainda que Franciscano,

n�o faz o monge.

Irm�os...

Fica desde j� fica convocada a reuni�o para o Supremo Tribunal

para esta tarde, �s 5 horas.

�s cinco ent�o, Senhoria.

E que Deus nos ilumine.

Diego...

J� sabes onde vive a Marfisa.

Vai v�-la e diz-lhe apenas uma palavra:

Esconde-te.

- V� se vais a voar. - Sim, Excel�ncia.

Majestade.

Majestade!

Majestade, � hora de assistir � missa e toda a Corte o espera.

Sua Majestade dever� mudar de roupa.

Sim, tenho que ir � missa com a Corte.

A Rainha vai l� estar.

E h� coisas que ainda que sejam conhecidas

n�o devem deixar de ser lembradas.

E eu quero record�-los

que o Senhor sabe castigar.

Ele disse...

"Eu sou o que sou."

E para que n�o turvassemos a pureza da sua consci�ncia

deixou-nos o seu Dec�logo:

"N�o matar�s, n�o fornicar�s."

"N�o cometer�s ad�lt�rio."

Senhora, o Rei est� a observ�-la.

E tamb�m nos deixou

como exemplo de humildade

o mist�rio das responsabilidades.

Ele � dirigido a cada um de n�s.

Dizem que est� noite o Conde foi �s putas com o Rei.

Se peca o pai, paga a familia.

Se peca o Papa, paga toda a Cristandade.

Se peca o Rei, paga todo o seu povo.

Cobri-vos, Conde!

Obrigado, Senhor.

Levantai-vos!

Dizei a Vosssa Majestade que quero v�-la nua.

Se Vossa Majestade me permitir

irei inform�-lo da situa��o das nossas tropas.

Sua Majestade quer ver a Rainha nua.

O Rei disse que quer ver a Rainha nua.

...e agora quer v�-la nua.

- O que disseste? - Que o Rei vai ver a Rainha nua.

O que disseste?

Que o Rei vai ver a Rainha nua.

Santo Deus.

Santo Deus.

Majestade! Majestade!

Quero ver a Rainha nua!

Senhora... o Diego...

E parece que traz um recado urgente.

A um Domingo?

D�-me uma toalha e que ele entre.

O que te traz aqui?

Uma s� palavra:

Esconde-te.

Est� bem. Vai-te embora!

Agora vai at� � pra�a

e tem cuidado para que n�o te reconhe�am.

Torna p�blico o que se passou esta noite nesta casa.

De mim e do Conde tamb�m?

N�o, isso n�o lhes interessa para nada.

Isto parece-me coisa do Santo Oficio.

Poderiam submeter-te a torturas,

para que lhes dissesses onde me escondo.

Mas eu n�o saberia o que lhes dizer.

Por isso mesmo.

E n�o deixes de ir ao Mosteiro das Jer�nimas.

Adeus.

Juro!

O Rei deixou-o bem claro. Quer ver a Rainha nua.

E disse se a queria ver de dia ou de noite?

� melhor com sol que � luz dos candeeiros.

Que tipo de insensatos sois Vossas merc�s

que assim se regozijam perante algo que s� vos poder� trazer calamidades?

J� o dizem as leis de Deus e da Igreja.

Um Bar�o pode aceder � sua mulher com a finalidade de procriar.

E se os seus humores o exigem, para acalm�-los.

Mas nunca...

Nunca com inten��es t�o levianas como contemplar nua a pr�pria mulher.

Pois o Rei observava a Marfisa nua esta manh�.

N�o � a mesma coisa, minha ignorante,

observar uma prostituta que est� ali para isso,

ou a esposa com a qual recebeu o Sant�ssimo Sacramento,

por muito Francesa que ela seja.

O corpo da esposa � sacrossanto.

Pode-se toc�-lo, mas n�o olh�-lo.

Para isso nos deu Deus os olhos? Ou n�o?

...que o Rei passou a noite com ela.

Que o fez por 4 vezes e mais uma tentativa.

E por �ltimo, algu�m disse que, se o Rei conseguir ver a Rainha nua,

todos poderemos despir as nossas mulheres,

seja a esposa ou a amiga.

E acabar�o por despir-se todas as mulheres do mundo inteiro,

podendo inclusiv� chegar-se ao ponto de quererem sair � rua nuas.

Pois j� sabemos da vontade que t�m as mulheres

de fazerem p�blicos os seus segredos.

Mas Diego, sa�r nu para a rua � como tirar o sal � comida.

Os tempos mudam.

N�o sei o que vai ser de n�s.

No que a mim diz respeito, Excel�ncia,

resta-me pouco tempo de vida.

Mas desde que haja um pouco de vinho.

Podeis vir.

A Abadessa espera-a.

O que te traz por aqui?

Procuro ref�gio.

Dos verdugos do Santo Oficio.

- Meteram-se contigo? - V�o meter-se.

Posso mandar um recado ao meu primo, o Grande Inquisidor,

para que te deixe em paz.

A ele agrade�o a amabilidade de me ter mandado avisar.

E ent�o?

Uma monja a mais neste mosteiro

n�o chamaria a aten��o de ningu�m.

Vem comigo.

� uma pena que tenhas de p�r o h�bito pois �s muito bonita.

Mas posso assegurar-te que n�o te exigirei que cortes o cabelo.

Desde que o capel�o n�o te veja. N�o me fio nele.

E todos estes acontecimentos e devaneios reais,

assim como todo o tipo de estranhos sinais no firmamento,

quem sabe se diab�licos,

que ocorreram esta noite nesta vila.

No que respeita � suspeita Marfisa,

n�o foi encontrada.

Seguramente algu�m a preveniu e fugiu.

Agora, podem Vossas Rever�ncias come�ar com as vossas alega��es.

Senhoria...

Desde j�, gostaria de manifestar a Vossas Paternidades

que n�o nos reunimos aqui por causa dos pecados do nosso Rei.

N�o se trata de pecados.

Trata-se de um aut�ntico pecado mortal.

De um verdadeiro ad�lt�rio

e de uma terr�vel profana��o do Santo Sacramento do Matrim�nio.

Por outro lado,

eu manifesto as minhas d�vidas que se tenha cometido ad�lt�rio.

Senhoria, n�o conhe�o a Sua Paternidade.

O Padre Almeida � um te�logo Portugu�s

da Sociedade de Jesus que est� de passagem por Madrid.

Jesu�ta?

Sim, nem todos podemos ser Capuchinhos.

Essa � uma op��o � qual nos inspira o Alt�ssimo.

Pretende negar, Sua Paternidade, que o nosso Rei

passou esta noite nos bra�os de uma prostituta?

Deus me livre de semelhante atrevimento.

Ent�o, Padre Almeida...

Poderia explicar-nos as suas d�vidas acerca do ad�lt�rio do nosso Rei?

Sinceramente, d�vido que suas Majestades estejam casados.

Pelo menos ao olhos do Senhor.

O que est� a dizer, Padre Almeida?

Sua Paternidade, est� a atribu�r aos nossos Reis

nada menos que um concubinato.

Sim, ainda que eles o ignorem.

Insisto, Padre Almeida, para que seja mais explicito.

Com a sua permiss�o.

Reverendos Senhores...

N�o vou citar os santos Padres

nem aos Textos Sagrados.

S� vou record�-los da unanimidade entre todos os te�logos e moralistas

que requerem como condi��o b�sica para o matrim�nio

a liberdade dos conjuges.

Pois, ora bem...

Os nossos amados Reis

eram livres para se casarem?

Absolutamente. Ambos disseram que sim.

H� algu�m que o duvide?

E podiam dizer que n�o?

N�o entendo Sua Paternidade.

O Padre Almeida � muito subtil, nem parece Jesu�ta.

Subtil?

Pois a mim parece-me bem claro...

Eles n�o podiam dizer que n�o.

Ambos estavam condicionados pelo facto de serem pr�ncipes e adolescentes.

N�o foram afirma��es livres.

Ainda que se desse o caso do Padre Almeida tivesse raz�o,

a posterior consuma��o do matrim�nio, legaliza-o e santifica-o.

Ai sim?

Imagine esta cena...

Ao jovem Rei dizem-lhe:

Esta noite tens de entrar na cama da Rainha

e far�s isto e aquilo.

E � Rainha dizem-lhe:

Deixa-te ficar quieta.

Ambos foram obrigados. E quem � obrigado n�o � livre.

Fica pois claro que os sucessivos avan�os do Rei ao corpo da Rainha

foram fruto do dever

e n�o da liberdade.

Insinua o Padre Almeida

que a Rainha n�o est� disposta a cumprir com as suas obriga��es

e da� adv�m as faltas do Rei?

N�o, n�o, n�o. Com permiss�o de Sua Senhoria.

Esse n�o � o nosso cargo.

O Rei n�o foi �s putas porque a Rainha o abandonasse. N�o, n�o, n�o.

Os meus relat�rios dizem-me o contr�rio.

O Rei faz v�rias semanas que n�o vai aos aposentos da Rainha.

Portanto fica claro que nada justifica a sua infidelidade.

Rever�ncias, n�o lhes parece que este assunto foi j� suficientemente debatido?

Constou-nos que o Rei foi �s putas...

Mas o Padre Almeida levantou a d�vida que os Reis, Nossos Senhores,

estejam efetivamente casados.

Nomear-se-� uma comiss�o que o estude e determine.

Senhoria, com sua permiss�o...

Gostaria que me incluisse nessa comiss�o.

E agora como sei que Vossas Merc�s est�o acalorados,

proponho um descanso para nos refrescarmos.

Quatro vezes s�o quatro pecados mortais,

aqui ou em Roma.

Digamos antes oito,

j� que os pecados do Rei, por ser o Rei,

contam a dobrar.

E quanto � tentativa falhada? O que ser� moralmente justo?

Tamb�m se pode contar como um pecado mortal,

ou s� como meio?

N�o ser� de todo imposs�vel Padre Almeida

que um dia tenha que responder �s perguntas deste Santo Tribunal

a respeito da ortodoxia da sua doutrina particular.

Entretanto e como voc� � simp�tico proponho-lhe que almocemos a s�s.

Parece-lhe bem, amanh� ao meio dia?

E n�o ter� Vossa Excel�ncia de me mandar prender antes?

Procurarei evit�-lo.

Agrade�o-lhe esta demonstra��o de amizade, Excel�ncia.

A culpa de todo este alvoro�o � do Padre Villaescusa.

Por vezes, uma f� ardente torna-se inc�moda.

Que Deus me castigue se estou enganado,

mas esse Frade n�o cr� em Deus.

Que diz, Padre Almeida?

Alguma vez o ouviu referir-se ao evangelho?

Cr� que ele tenha a menor no��o do que seja a caridade?

� um desses homens que falam, gritam e amea�am,

tudo em nome da doutrina mais pura.

Mas que s� acreditam na Igreja � qual pertencem.

E dentro da qual esperam progredir e acima de tudo mandar.

Para quem viveu tanto tempo entre os selvagens,

voc� manifesta um bom conhecimento acerca dos homens civilizados.

� que os �ndios, Excel�ncia, n�o cr�em nos nosso Deus.

Mas acreditam verdadeiramente no deles.

N�o pareces estar a desfrutar muito da tua sesta.

� que com tudo o que se est� a passar,

e se o Rei n�o d� o exemplo, quem ir� suced�-lo?

E tu? Gostavas de me ver nua? Completamente nua?

O que dizes?

Ainda que assim seja, n�o pode ser.

Porque n�o? Quem o saberia?

B�rbara, B�rbara... Exageras com essas coisas.

Que por sinal te agradam.

E bem me culpo por isso.

E quem sabe tu tamb�m te deverias culpar.

O que queres dizer com isso?

J� pensaste que por causa disso, Deus

n�o aben�ou a nossa uni�o com um herdeiro.

Tu cr�s que a raz�o de n�o termos descend�ncia

se deve a um castigo dos c�us?

Quem sabe?

Talvez por n�o obedecermos � regra da castidade entre...

...entre esposos.

Nunca me havia ocorrido pensar nisso.

Nesse caso, o que podemos fazer?

Diz antes, n�o fazer.

Neste momento prepara-se uma grande batalha nos Pa�ses-Baixos.

E a frota das Indias est� prestes a chegar �s nossas costas.

N�o � l�gico e natural que Deus,

indignado pelos pecados do nosso Rei,

nos castigue fazendo-nos perder a batalha

deixando que a nossa frota

seja assaltada pelos cors�rios Ingleses?

N�o vejo l�gica em parte nenhuma.

N�o?

Ent�o, Padre Almeida,

n�o acredita Sua Paternidade que Deus castigue

os povos pelos pecados dos seus Reis?

Acredito mais que os castigue pela sua estupidez

e � dos seus governantes.

E ajuda-os quando estes n�o s�o est�pidos.

E quanto � interven��o do diabo?

O que me diz?

Esta reuni�o foi o diabo que a convocou.

Perd�o... Senhoria.

Quis dizer... que a provocou.

E o diabo, Padre Almeida,

� que a mant�m.

E o diabo suscitou muitas e graves palavras

que aqui hoje se est�o a pronunciar.

Padre Villaescusa...

A presen�a do diabo n�o constitui nenhuma novidade.

O Senhor est� em todo o lado,

mas o diabo anda-Lhe sempre atr�s.

Permito-me recordar a Suas Paternidades

que tinhamos ficado de saber se o Rei

tem, ou n�o, direito de ver a Rainha nua.

E se isso �, ou n�o, pecado.

Afirmo que tem direito e que n�o � nenhum pecado.

Desde que dentro do matrim�nio

para que se cumpra a gra�a do Senhor.

A gra�a do Senhor?

Acha que a gra�a do Senhor se manifesta no coito?

Ou na contempla��o daquelas coisas horr�veis

do corpo das f�meas que se chamam mamas?

Ou na miss�o contra-natura feita pelas costas, nas suas...

Nas suas n�degas.

Insisto para que este debate n�o se afaste do seu tema.

E eu insisto com toda a for�a da minha f�

que os pecados do Rei paga-os o povo inocente.

O povo s� paga quando os Reis os desgovernam.

Vejamos...

Vejamos o que Sua Paternidade entende por desgoverno.

Queimar judeus, bruxas e herejes

Queimar mouriscos.

Atentar contra a liberdade dos povos.

Fazer dos homens escravos.

Explor�-los com impostos excessivos.

Pensar que n�o somos todos iguais.

Querem Vossas Paternidades que prossiga?

Um momento, Senhores!

Temos uma presen�a inesperada.

Que entre esse cavalheiro!

Aproxime-se, Conde!

Estou � vossa disposi��o Senhores.

Porque veio, Sua Excel�ncia?

Em toda a cidade se fala do que aqui se trata

e ocorreu-me a cortesia de lhes oferecer o meu testemunho.

Se bem que antes,

gostaria de cumprimentar um velho amigo aqui presente.

Faz muito tempo que n�o nos vemos.

Sim, muito tempo.

O Padre Almeida socorreu, por uma vez, os navios da minha esquadra.

L�, nas costas do Brasil.

Quando exercia ali o seu minist�rio.

E Vossa Excel�ncia, o que fazia em lugares t�o distantes?

Servia ao Rei com os meus barcos, Excel�ncia.

Ent�o, voc� � um pirata?

N�o propriamente, Excel�ncia.

Sou cors�rio e navego sob a bandeira do Rei.

Se bem que agora a minha esquadra esteja a descansar na sua base.

Fundeada num porto do norte.

Abrigada da f�ria do mar.

Esperemos que a sua presen�a diante deste Santo Tribunal

n�o tenha como fim cantar-nos as maravilhas

do mar e da vida marinheira.

Com certeza que n�o.

Vim para ser interrogado.

Est� correta a voz do povo

quando diz que voc� acompanhou, na noite passada,

Sua Majestade numa certa escapada?

Sim, � verdade. Acompanhei-o a casa de Marfisa.

Todos voc�s sabem quem ela �.

Dizem que � a mulher mais bela da Corte ainda que seja cara.

Leva dez ducados por noite e n�o consta que fa�a saldos.

E enquanto o Rei fornicava,

voc� fazia o qu�, Conde?

Dormia, Padre. N�o tenha qualquer duvida.

Dormi, sem ser incomodado

at� que o Rei j� vestido me acordou e disse para sairmos dali.

� certo que...

Vinha com um semblante pasmado.

Via-se que f�ra a primeira vez que tinha visto uma mulher nua.

E Vossa Senhoria cr� que esta ocorr�ncia de querer ver a Rainha nua

tem algo a ver com o que acaba de contar-nos?

Sim, Excel�ncia.

Creio que � o efeito dessa causa.

E qual � o minimo que um homem poder� desejar

se n�o saber como � o corpo de sua esposa?

Sua Senhoria, sem d�vida alguma j� ter� visto muitas mulheres nuas

e t�-lo-� feito com prazer.

Reverendo Padre...

Mais de metade das mulheres que existem no mundo

andam sem roupa.

Pergunte ao Padre Almeida.

O Conde tem raz�o.

As mulheres das tribos que cristianizei andavam nuas

e suponho que assim continuem.

E porque n�o as obrigou a vestirem-se?

N�o � essa a primeira miss�o do seu minist�rio? Vesti-los?

Eu, Padre...

Ensinei-lhes que o filho de Deus morreu por todos os homens

e tamb�m por eles.

E que os esperava o para�so?

O para�so?

Um para�so para gente nua?

N�o sabemos como entra uma pessoa no para�so,

mas suspeito que n�o ter�o levado as roupas consigo.

...e dizem que o Grande Inquisidor est� a fraquejar.

E por causa dele, toda a Santa Inquisi��o.

Aconselha-me, Vossa Paternidade, que mande chamar o N�ncio?

E que pe�a a substitui��o do Grande Inquisidor?

N�o, n�o, n�o, n�o. De maneira nenhuma.

N�o cometa semelhante disparate, Sua Excel�ncia.

O N�ncio �... Italiano.

Eu,

despacharia um correio especial.

� fundamental um relato fidedigno dos acontecimentos.

Por�m, n�o encarregaria qualquer um dessa miss�o.

Encarregue-se voc� da reda��o.

E posso adiantar-lhe

que junto a esses pap�is ir� a proposta

para que seja voc� o nomeado para o cargo.

Excel�ncia...

N�o sei... n�o sei...

...se a minha humildade me permitir� aceitar

t�o alta responsabilidade.

Se vier da Santa S� n�o lhe restar� outro rem�dio.

E entretanto...

Eu saio do imbr�glio no qual voc� est� a querer meter-me.

Excel�ncia...

Nas suas m�os est�o os recursos do pal�cio.

Eu, da minha parte, farei a gest�o dos espirituais.

J� pensou em alguma coisa para o meu caso?

Sabe o Alt�ssimo que n�o penso noutra coisa, por�m...

Teria de fazer-lhe algumas perguntas.

Fa�a-as.

Quando Sua Excel�ncia coabita com a Sra. Dona B�rbara,

obt�m algum prazer?

O mesmo que os demais.

E ela?

A avaliar pelos sintomas, a maioria das vezes, ter� mais do que eu.

As mulheres nisso s�o mais exageradas.

Pelo menos gritam mais.

Santo Deus.

At� podemos consentir que os homens gozem o prazer carnal,

mas as mulheres devem ignor�-lo.

Pelo menos as decentes.

E � nessas condi��es que pretendem almejar chegar ao Senhor

e terem a gra�a da descend�ncia?

Sou um homem como os demais.

E algo se poder� fazer, digo eu.

Nesse caso...

S� nos resta refor�ar o apelo � Provid�ncia.

E f�-lo-ei, mas na condi��o que Vossa Excel�ncia

e sobretudo a Sra. Dona B�rbara

renunciem ao prazer

enquanto fornicam.

S� nesse caso

poderia fazer algo.

Algo?

Algo o qu�?

Se Vossa Excel�ncia mo permite amanh� dir-lho-ei.

Guarde castidade at� l�.

Colette, senta-te ao meu lado.

Agora, diz-me acerca do que falaste com toda essa gente.

N�o posso acrescentar nada que a Rainha n�o saiba j�.

O Rei anda triste.

Meu pobre marido.

Tu na minha situa��o o que farias?

Despia-me.

Sem hesitar.

J� alguma vez o fizeste?

Desde que fa�o uso da raz�o, Majestade,

nunca deixei de me despir quando houve ocasi�o.

A minha m�e ensinou-me que as coisas devem fazer-se bem feitas.

Colette, n�o ser�s uma desavergonhada?

Como quer que o seja a viver sempre dentro do pal�cio?

Pare�o-te bem?

Como nunca a vi antes.

Achas ent�o que deverei esperar o Rei tal como ele pretende?

Isso nunca! Ele que se d� ao trabalho de a despir.

Sem fazer muita cerim�nia?

S� a necess�ria e sem insistir demasiado.

Colette...

Enquanto eu estiver a jantar com essas bruxas que me acompanham,

vais � procura do Rei.

E dizes-lhe que o espero �s onze.

Parece-te uma boa hora?

Para o amor, Majestade, todas as horas s�o boas.

Pensei que havias morrido.

Pode acontecer a qualquer momento,

bastaria um espirro ou um ru�do um pouco mais forte.

O que se passa no pal�cio para receber a visita de Vossa Majestade

a um Domingo e a hora t�o tardia?

O mesmo de sempre. Quero confessar-me.

� que passei a noite com uma prostituta.

- Tendo uma mulher t�o bela? - � como se n�o tivesse.

S� me deixam v�-la de vez em quando.

N�o me deixam falar nem dormir com ela.

Existem entre n�s demasiadas portas e tr�mites.

O costume crist�o dos esposos dormirem juntos

evita muitos males.

� que al�m disso,

eu queria ver a Rainha nua.

E...?

As leis divinas e dos homens proibem-no.

Saiba Vossa Majestade

que a primeira vez que um homem e uma mulher se uniram

estavam nus.

Pois esta manh�,

quando quis entrar nos aposentos da Rainha,

puseram-me uma cruz � frente.

- E eu claro... - Fez-lhes a vontade.

Atente nas minhas palavras...

Contemple a Sua Majestade, a Rainha, como lhe der vontade.

Vestida ou despida.

� a Rainha, sim,

mas tamb�m � a mulher de um jovem rapaz.

E o que fa�o �s portas?

S� lhe recomendo que caso fracasse esta noite, espere por outra.

E que em caso algum lhe ocorra ir novamente �s putas.

Ajoelhe-se, Vossa Majestade, que vou absolv�-lo.

Sabeis porque vos pedi para vir?

Suponho-o.

Apetece-vos uma aguardente?

Sim.

Quero que eviteis que o Rei durma com a Rainha.

Pelo menos, at� que nos cheguem noticias da frota ou da guerra na Flandres.

O que tem o capricho do Rei a ver com tudo isso?

Que chegue a frota a C�diz,

ou que ganhemos ou percamos a guerra na Holanda,

depende dos pecados do Rei.

Alguem me explique como � que o pa�s est� cheio de imbecis

que acreditam nessas coisas.

- S�o opini�es dos te�logos. - E ainda que fossem do Mouro Muza.

N�o posso op�r-me �s leis da Igreja.

E v�s tendes de ajudar-me.

O que podeis fazer?

H� um corredor com v�rias portas

que vai de uma c�mara a outra.

Ser� a primeira vez que todas se fechar�o,

pelo menos que eu saiba.

Muito bem.

Eu encarregar-me-ei das outras entradas.

E p�-la-ei ao corrente.

E quando a Rainha me perguntar?

Saber� inventar-lhe alguma mentira.

N�o fa�o outra coisa, todos os dias.

A mim tamb�m?

Nunca foste uma exce��o, primo.

Desculpa se te deixei � espera.

Av� Maria cheia de gra�a...

N�o sejas imbecil.

Se fosse f� ficaria a tremer,

mas como � uma superti��o, n�o me incomoda.

Um costume � um costume.

O que te preocupa?

Pois...

O que nos preocupa a todos os te�logos,

� essa ocorr�ncia do Rei querer ver a Rainha nua.

Desse ponto de vista, a coisa carece de import�ncia.

Que interessa se ele a v� nua ou de camisa-de-noite?

E o pecado?

A meu ver, tantos se me d�, como se me deu.

E suponho que ao outro suceda o mesmo.

Nessas quest�es, costumamos estar de acordo.

Ent�o, nada disso influi na chegada da Armada a C�diz

ou na derrota dos nossos na Flandres?

A chegada dos barcos,

s� depende dos Ingleses chegarem a tempo de o impedir.

E a derrota na Flandres deve-se muito

� qualidade do armamento,

� disciplina das tropas

e � posi��o dos combatentes.

E a Provid�ncia?

Deixa que te diga,

que o Rei veja, ou n�o, o umbigo da Rainha,

� um ato intranscendente.

N�o fa�as caso. N�o penses mais...

Deixa tudo como est�

e outro dia continuaremos a conversa.

Agora tenho que ir para Roma.

Sentes-te meio perdido aqui?

Deixei o meu estabelecimento abandonado.

� preciso p�r m�os � obra.

Senhor...

Esta noite, �s onze em ponto.

N�o se atrase, Vossa Majestade.

Est�o a dan�ar a chacona no pal�cio?

N�o te demores.

N�o me esperes.

E melhor seria que rezasses.

N�o nos deixes cair em tenta��o,

e livrai-nos do mal.

Vade retro Satan�s.

Ponho este?

� o que todos os confessores aconselham.

Esse, Majestade, assusta qualquer um.

Tu qual me aconselharias?

Este.

Mas este n�o tapa nada.

Se bem entendi,

a ideia � que se veja tudo.

Sim, mas s� no fim.

Tamb�m n�o posso chegar e tirar logo a camisa-de-noite.

Tenho que oferecer alguma resist�ncia.

Contudo, se levar este vestido

n�o tenho necessidade de me despir.

Deixai-me passar!

Sou o Rei.

A chorar n�o se vai a lugar algum, Senhor.

O que fazes aqui?

Vou fazer uma visita... como v�s.

Todas as portas est�o fechadas.

A minha n�o est�, Majestade.

Essas s�o as escadas que v�o dar ao quarto da Dona Paca de T�vora.

� uma dama muito formosa, Majestade.

A Rainha tamb�m o �,

mas fecharam-me todas as portas que me levam at� ela.

Como o compreendo.

N�o estranho v�-lo chorar.

E que pensas?

Deve ser uma ratazana. H� muitas no pal�cio.

Se Vossa Majestade me permitir

eu trataria de arranjar um encontro amanh� entre Vossa Majestade

e a Rainha, Minha Senhora,

num local fora da alca�ova.

Cada vez me parece mais imposs�vel.

N�o desespereis, al�m do mais,

eu tenho uma ideia.

Que entretanto vais amadurecer nos bra�os da Dona Paca?

Quem sabe.

As solu��es costumam surgir das maneiras mais inesperadas.

Tenho que ir, Majestade.

Que tenhas sorte.

Excel�ncia...

Um Frei pergunta por v�s.

Um Frei?

Sim, um Capuchinho. O Padre Villaescusa.

Manda-o entrar.

Excel�ncia...

A que se deve a vossa visita a estas horas?

O nosso plano veio por �gua baixo.

Por acaso o Rei encontrou alguma porta aberta?

O Rei deambula por todo o pal�cio � procura de uma.

E saiba que esse Conde est� a preparar-lhe um encontro

com a Rainha fora da alca�ova, amanh�.

Precisamente amanh�.

E o que pensas que se deve fazer?

Neste preciso momento o Conde est� com uma das damas do pal�cio.

Ser� f�cil apanh�-lo se me deres uma ordem para a sua pris�o.

Sabe que o Rei mandou o Conde p�r o chap�u � minha frente.

Contaram-me. � o pagamento pelos seus encobrimentos.

Al�m do mais, Sua Majestade n�o ter� de saber.

Sei de lugares onde o Conde

poder� ficar discretamente preso.

Eu encarregar-me-ei disso.

Muito bem.

E quanto ao assunto da sua descend�ncia, amanh�...

Aqui a tem.

Parece-vos bem assim?

Dizia eu, que acerca do assunto da vossa descend�ncia

amanh� �s dez da manh� devereis estar

com a Sra. Dona B�rbara

na Igreja do Mosteiro das Jer�nimas.

Ali estarei para vos confessar.

O que h� a fazer depois

logo lhe diremos.

� indispens�vel tudo isto, Padre?

Indispens�vel?

Esta manh� disse a Vossa Excel�ncia

que era necess�rio for�ar a Deus.

E � o que vou fazer.

Ele inspirou-me a cura.

Se assim me o assegurais.

J� o sabeis...

�s dez em ponto. � luz do dia.

Ide na vossa carruagem.

Abram em nome do Rei!

Vieram por minha causa.

Como sabes?

Porque a justi�a do Rei nada quer contigo.

- Mas tende-lo como amigo. - Sim.

Mas abaixo do Rei ningu�m me vale.

Diz-lhes que esperem.

Estou a vestir-me, Senhores.

Tenham paci�ncia.

Trago uma ordem do Intendente contra o Conde de La Pe�a Andrada.

Ai sim? E porque vieram procur�-lo aqui?

Tenho a certeza que se esconde aqui.

N�o h� nenhum Conde, n�o � verdade, Padre?

Sou a dama camareira da Rainha e perten�o � Casa de Tavora.

Amanh� apresentarei um protesto e veremos o que se vai passar.

Fora!

Conde?

Conde?

Senhor.

Lucrecia?

Que fazes aqui?

Os da Santa Inquisi��o vasculharam toda a casa da minha Senhora.

E estive toda a tarde � procura, � procura de um sitio onde dormir

e n�o encontrei nenhum lugar seguro.

Dormir�s numa boa cama.

Sozinha ou acompanhada, como queiras.

Se a companhia for t�o boa como imagino... acompanhada.

Algu�m perguntou por mim?

- Vieram soldados? - N�o, Excel�ncia.

Acomoda a senhora, na minha cama.

Espero que durmas bem.

Mas, assim n�o consigo.

N�o me acompanha, o Senhor Conde?

Tenho de ir procurar um Jesu�ta com quem tenho que falar.

Voltarei quando puder.

Ent�o, os c�us o permitam, que seja o quanto antes.

- Que faz voc� aqui? - Pe�o-lhe que n�o se assuste.

Sou o Padre Almeida da Companhia de Jesus.

Temos de falar.

Se bem que, o que lhe venho dizer, conv�m que ningu�m saiba.

Nem eu mesma?

Voc� conhece o Rei, n�o � verdade?

Como sabe?

Isso n�o importa.

Venho dizer-lhe que na alca�ova

h� uma conspira��o para que o Rei n�o durma com a Rainha.

E que algumas pessoas, entre elas eu, tentam evit�-lo.

E quem o mandou vir at� aqui?

Um amigo seu, o Conde de La Pe�a Andrada.

Esse patife...

Trouxe o Rei para dormir comigo

e agora quer devolv�-lo ao leito conjugal.

Pens�mos que o encontro se poderia dar aqui.

Aqui?

No Mosteiro?

Aqui, quer dizer nesta cela.

Que raio de sitio...

Para eles � t�o belo quanto o para�so.

Olhe, Padre...

Nem no meio do jardim mais formoso

o Rei saberia o que fazer com a Rainha.

Ela tamb�m n�o tem experi�ncia nenhuma.

Mas seja como seja.

O Rei est� empenhado em ver a Rainha nua.

E tem de ser aqui?

Depois de muito discutir,

foi � conclus�o que cheg�mos, o Conde e eu.

Que bela parelha.

Muito bem.

J� me pode dizer o que pretende de mim?

Logo ver�.

Est� bem, est� bem, eu consinto.

Mas toda essa cena e logo no coro

continua a parecer-me uma blasf�mia.

Um sacril�gio.

Madre Abadessa, dir-lhe-ei com toda a humildade

que esta ideia iluminou-se-me na mente,

depois de muitas horas de ora��o e vigilia.

Diga o que disser, Sua Paternidade,

continua a parecer-me uma profana��o.

Por acaso p�e em d�vida os meus conhecimentos teol�gicos?

Al�m do mais, existem raz�es de Estado.

O Valido precisa de um herdeiro para a grandeza da sua casa,

e este, foi o modo que me foi indicado diretamente

pelo Alt�ssimo

para consegui-lo.

Vossa Maternidade n�o se arrepender�

de me ter dado t�o prudente consentimento.

Assim o espero e desejo.

Com a sua permiss�o.

Ainda tenho muitas coisas para fazer.

O que te traz aqui logo pela manh�?

Valha-nos Deus.

N�o sei o que ter� este Mosteiro...

Quem procura, Sua Paternidade?

Pergunta � tua Senhora se, hoje �s dez e meia,

est� disposta a encontrar-se com o Rei

num lugar discreto

Tratarei eu mesmo de vir busc�-la acompanhado de uma monja.

� preciso que ningu�m saiba ao que ela vai

e que nem desconfiem.

E o Rei, sabe?

Sabe de tudo e est� de acordo.

Seremos capazes?

Confiemos em Deus.

Ele guiar-nos-�.

Diante do santo tribunal da penit�ncia,

n�o existem hierarquias nem tratamentos diferenciados.

Agora n�o sois mais do que um pobre penitente humilhado.

Sim, Padre.

Confessa pois, todos os pecados que tenhas cometido em toda a tua vida.

Todos, Padre?

Todos.

Senhora...

Ir-me-ei embora j� de seguida.

Feche-se � chave.

E n�o abra at� que algu�m bata � porta com a m�o tr�s vezes.

Irm�, quereis desvelar-vos?

Sabias que �s muito bela?

Isso n�o � importante, Senhora.

Por�m, se me permitir,

eu dar-lhe-ia um conselho.

Um conselho?

Sobre qu�?

Sobre o modo de comportar-se quando vier o Rei.

Olha para mim.

Quem �s tu?

Sou apenas uma monja, Senhora.

Foste casada?

Tenho experi�ncia.

Diz o que tens a dizer-me.

O Rei � jovem, Senhora.

O jovens t�m pressa e confundem tudo.

Sossegue-o,

e atreva-se a dizer-lhe que n�o com ternura.

Diga-lhe n�o, e logo de seguida diga-lhe sim.

E esque�a-se do passar do tempo.

N�o � uma coisa digna de reis,

por�m, n�o existe outra coisa melhor.

Levantai-vos!

A Rainha est� a� dentro?

Sim.

Mas � conveniente, Senhor, dar tempo a uma dama.

As coisas devem ser feitas com calma.

A que coisas te referes?

A todas, Senhor.

Eu sei como s�o as mulheres.

Preferem esperar e ser desejadas.

Vossa Majestade, deve ser terno e cauteloso.

Mas acima de tudo,

n�o deve ter pressa.

Porque dizes isso?

Porque me ordenaram que o dissesse.

N�o se ouve nada.

N�s as mulheres, Senhor,

costumamos despir-nos em sil�ncio.

Ent�o... cr�s que j� se haver� despido?

Para qu�, sen�o para isso,

vieram Vossas merc�s a este lugar t�o incomodo?

Posso ver-te a cara?

As nossas regras proibem-no.

Mas eu sou o Rei.

Sim, Senhor.

Mas as regras s�o coisas de Deus.

Dizem que sim.

J� deve ter terminado, n�o?

Nesse caso, Senhor,

um �ltimo conselho...

N�o se esque�a de que quem vai estar consigo no leito

� um ser de carne e osso.

Mas acima de tudo... de carne.

Quem te disse essas coisas?

Um passarinho, Senhor.

V� em frente.

Bata tr�s vezes com a m�o

e que tenha sorte.

Excel�ncia...

O Padre Almeida da Companhia de Jesus.

Voc� � pontual.

Sua Excel�ncia disse-me �s doze.

E s�o mesmo doze.

E Sua Paternidade, quando pensa ir-se embora?

� melhor hoje que amanh�.

Sabe Padre, que v�rios frades,

encabe�ados pelo Padre Villaescusa,

pedem a sua deten��o?

Depois do dia de ontem, n�o me surpreende.

E pedem tamb�m que se celebre um grande Auto de F�

onde se queimem todos os judeus, mouriscos, herejes

e bruxos a que se consiga deitar a m�o.

Est� bom este vinho.

E qual � a sua opini�o?

Sou contra essas lumin�rias

mas as pessoas deste pa�s gostam do cheiro a queimado.

Se bem que, como voc� deve saber, n�s n�o queimamos,

quem o faz � o bra�o secular.

Sim, eu sei.

Os te�logos inventaram um subterf�gio inatac�vel.

Eles n�o queimam,

quem queima s�o os verdugos do Estado.

E pergunto eu...

Que diferen�a faz quem acende a fogueira?

Parece-lhe injusto?

Parece-me criminoso.

At� amanh� �s tr�s da tarde n�o assinarei a ordem de deten��o.

Tem tempo at� �s quatro.

Agrade�o-lhe a advert�ncia.

Mas quero que saiba que a esta hora

o Rei e a Rainha se encontram juntos e sem vigil�ncia

algures num lugar desta Corte.

Espero que despidos.

E como foi meter-se nesse assunto?

Cheguei a pensar, Excel�ncia,

que Deus aqui me trouxe apenas para isso.

E voc� acha que a Deus Lhe interessa se o Rei e a Rainha

fornicam nus ou em camisa-de-noite?

Excel�ncia, voc� cr� em Deus?

Diego, podes servir a sopa.

Eu vos absolvo dos vossos pecados,

em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo.

�men.

A Madre abadessa dir-vos-� onde podem preparar-se para a cerim�nia.

E n�o se esque�am,

por um s� momento,

que o Senhor estar� a observ�-los.

Irm�s...

Por Deus!

Assim n�o h� maneira.

Levantai-vos!

Beijou a Rainha.

Correio da Flandres, Senhor.

Ganh�mos aos protestantes, na Flandres.

Correio de Cadiz, Senhor.

E a frota chegou completa.

� natural, Excel�ncia, a ora��o pode tudo.

Preste aten��o �s datas, Padre.

A vit�ria deu-se h� mais de uma semana.

E a frota chegou a Cadiz anteontem.

Justamente no dia que o Rei foi �s putas.

Excel�ncia, � sabido

que o tempo n�o existe na mem�ria de Deus.

Deu-nos a vit�ria na Flandres

e favoreceu a chegada da nossa frota

pois sabia de antem�o das nossas ora��es.

E os sacrificios do nosso povo.

- Viva o Rei! - Viva!

Suas Majestades.

- Viva o Rei! - Viva!

Levantai-vos, Conde!

E cobri-vos!

Quero que sejais o primeiro a receber os beneficios da minha felicidade.

E a prop�sito, o que fazeis aqui?

Senhor, queria que Vossa Majestade

l�-se estes despachos primeiro que qualquer outro.

Muito bem.

Vejam! Finalmente poderei oferecer um vestido novo � Rainha.

Obrigado, Senhor, pela merc� que desteis ao meu esposo.

Levantai-vos!

E mais merc�s lhe darei

se as coisas continuarem como at� agora.

Senhor...

Seria

necess�rio, para dar

gra�as ao Altissimo,

a celebra��o de um grande Auto de F�.

Bastaria queimar oitenta ou noventa herejes.

A carne queimada cheira mal.

E n�o gosto de Autos de F�.

A minha carruagem est� ali,

para levar Vossas Majestades ao pal�cio.

Deixa-te estar tranquila, Marfisa,

as tuas coisas v�m todas c� atr�s.

As tuas roupas e umas poupan�as que tinhas escondidas.

Mais de duzentos ducados.

Duzentos e vinte sete, exatamente.

Menos mal...

Mas como conseguiste tirar isso tudo da minha casa?

Se est� selada?

A porta do curral, n�o estava.

Por a�, entrei e sa�.

E esses dois, aonde foram?

Ao inferno, seguramente.

N�o te parecia de mais que nos acompanhassem?

Deixaram-nos sozinhas com o cocheiro.

- N�o sei o que ser� de n�s. - Deus o dir�, Lucr�cia.

Mas a mim, a minha m�e sempre me disse

que com as pernas abertas

vamos at� ao fim do mundo.

E uma m�e merece um pouco de respeito.

Dizem que em Roma h� muitas putas.

Pois que diferen�a faz mais uma?

Ou duas.

� aqui que nos separamo-nos.

- Eu vou a Londres por Paris. - E eu a Roma por Barcelona.

E assim, com o Frade Villaescusa segue um pedido

que nunca dever� chegar � C�ria do Vaticano.

E quanto ao Padre,

n�o temos necessidade de o ver por aqui nos pr�ximos tempos.

E quando voltar

que venha convencido que muito melhor do que queimar judias,

� deitar-se com elas.

Partireis agora mesmo!

Tome!

� para o Sr. Embaixador.

E cuidai que sereis tratado convenientemente.

Boa viagem, Padre.

Instalou-o o aposentador ele mesmo.

Dizem que por ordem Vossa.

Fica muito bem.

Mas agora queria pedir-vos outra coisa, minha Rainha.

Sim?

Gostaria muito que pusesseis estas meias.

E quereis que as ponha j�?

Sim, se puder ser.

Claro que sim, meu Rei.

- Quereis que me deite? - Sim.

Legendas revistas por: RosaeCrucis

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