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Original subtitles

- Nance... - Afasta-te!

Aponta para mim.

- Aponta para mim. - Porra, Nance.

A próxima vai ao peito.

- Dez... nove... oito. - Nance, não.

- Não, eu não quero isto. - ...sete, seis, cinco, quatro...

- Nance... - Aponta para mim!

- ...três, dois... um. - Nance!

Nance!

BALÍSTICA

Pronto, depois disto...

...precisas de quatro parafusos A.

- Fogo. - E 24 parafusos D! Que divertido!

Desculpa estarmos a ocupar o teu quarto.

Não faz mal, estou bem no quarto do Jesse.

Talvez tenhas de me tirar daqui. Acho que fiquei preso.

Ai não. Agora já sabes como me sinto. Amo-te. Amo-te.

Está bem, até à próxima.

- Olá. - Olá, mãe. Tenho saudades tuas.

Também tenho saudades tuas.

Olha, o quarto do bebé está pronto. Ficou giro.

A Di muda-se para lá na próxima semana.

O bebé está a chegar. - Pois. - Vais ser um ótimo pai.

- Achas mesmo? - Tenho a certeza.

Não sei...

Estás bem?

É estranho, sabes? Em casa...

Toda a gente acha que sabe o que se passa no mundo,

mas, na verdade, não sabem nada.

Nós não sabemos nada.

Não falo de ti...

Não queres dizer que eu não sei nada?

Não, quero dizer eu, toda a gente, todos nós.

- Percebes? - Sim.

Mas os militares sabem o que estão a fazer, por isso...

- Estás seguro. - Sim, estávamos de patrulha.

Nem fazemos ideia porque saímos de Jalalabad.

O nosso alvo é um tipo talibã de baixa patente.

Alguém tem visual?

Nenhum de nós sabe porque estamos aqui à espera

por um miúdo das entregas, mas aqui estamos.

As únicas pessoas com telemóvel são os ricos e os talibãs.

Na cidade, os telemóveis ligam para pais e mulheres.

Aqui em cima, detonam bombas.

Se vês um tipo mal vestido com um Samsung, disparas logo.

Uma hora, 250 metros.

Homem em idade militar. Ele tem um telemóvel.

Tenho-o na mira.

- Cuidado! - Fogo inimigo.

Abatam-nos!

Mas não é aquele tiro-vai-tiro-vem habitual.

Nunca os vemos, e as balas deles nem chegam perto.

E o padrão é estranho. Eles esperam que disparemos

para dispararem ao mesmo tempo. Então testamos.

Tocamos "Jingle Bells" com os nossos tiros e eles fazem o mesmo.

É só o eco das montanhas.

Ainda não sabemos se chegaram a disparar

ou se sequer estavam lá.

Talvez não devesse ter dito nada quando vi o tipo, mas tinha de o fazer.

- É o meu trabalho. - Fizeste o que devias.

- Provavelmente salvaste-lhes a vida. - Achas mesmo?

Eu… eu acho que salvaste.

Os teus tiros devem ter assustado os gajos.

Mãe, não… não funciona assim.

Só estou a dizer que fizeste bem o teu trabalho.

Mereces uma medalha.

- Eu dava-te uma medalha. - Uma medalha?

- Sim! - Não mereço medalha nenhuma. Eu não…

- Como está o Mr. Fish? - O Mr. Fish está ótimo.

Sim? Toma conta dele.

Estamos aqui sentados, à tua espera.

Acho que amanhã voltamos lá para fora.

Estou a perder-te. O Wi‑Fi é uma merda.

- Não, eu vejo-te. - Mãe?

Sim.

Então?

Jesse? Consegues ouvir-me?

Merda.

- Olá, Nance. - Então?

- Espera um segundo. - O quê? Tenho de acabar isto.

A contabilidade disse-me que tinha de despedir alguém,

e decidi que fosses tu porque, bem, somos meio amigos,

e achei que ias perceber.

É um cartão‑oferta.

Os meus sogros deram‑mo para o campo de tiro nas montanhas.

Eu sei que não gostas muito,

mas está na altura de aprenderes a disparar estas coisas.

Eu não gosto muito disso, mas...

- Agradeço. - Devias experimentar.

Sempre que a minha mulher me devolve os tomates,

vou lá acima e disparo contra bonecos de papel,

e volto a ser o chefe, percebes?

Claro que ainda está a nevar lá em cima, sabes?

Isso é bom.

O que fizeste no fim de semana?

Pus o smoker nos 175 e marinei umas asas,

e boom, sabor máximo.

Aquelas asas eram viciantes.

O Jesse odeia asas.

Diz que é estranho engolir o voo de todos aqueles pássaros.

Espera, falaste com ele?

Sim, eu... falei com ele ontem à noite.

- Está a meio caminho de voltar para casa. - Que bom.

Bem, vais ao campo de tiro, e assim ele não chega a casa

e encontra a mãe ainda cheia de medo das armas.

- Até amanhã, Rick. - Até amanhã.

Até amanhã.

Falei com ele ontem à noite.

Falei... falei com ele.

- A família não vem? - Não.

Ainda podemos ir viver contigo?

Casaste com o Jesse, ficaste comigo também.

Querem ver o corpo?

- Sim. - Não.

- Posso tocar nele? - Claro.

Estas são as botas que ele usava quando...?

Sim.

Posso ficar com elas?

Tu é que deves ficar com elas.

Também temos um grupo de apoio na base

para familiares sobreviventes.

Pode ajudar, talvez, no processo de luto.

- Isto era tudo o que havia? - Sim.

Onde está a bala?

Bem, o pessoal em Dover que recebeu o Jesse,

achou que seria mais respeitoso deixar a bala dentro dele.

- Que tipo de bala era? - Que tipo?

Sim, que calibre? Fizeram raios-X, certo?

Sim, claro. Eles... eles devem ter feito.

Nunca é muito preciso, mas a bala que acham que era...

Possivelmente uma 5.56 NATO, mas é sempre difícil...

Isso é de uma M4 ou M16 ou possivelmente uma AR‑15.

Armas americanas, balas americanas.

Lamento, não temos essa informação, senhora.

Como é que a tiramos?

Isso teria de ter sido feito em Dover, receio.

Mas vocês conseguem, certo?

Tecnicamente, conseguimos se houver autorização da família.

É pouco ortodoxo fazer isto depois do corpo já estar preparado.

- Queres mesmo tirá-la? - Quero. Quero, sim.

- Porquê? - Porque precisamos de saber que tipo é.

Seria mais fácil remover a bala pela ferida existente.

Ela está ali, no peitoral.

Não, não vamos cortar nele.

É uma loucura cortar nele só porque estás curiosa.

- Diana. - Deixa-o em paz.

Tinhas razão. É...

É completamente louco querer tirá-la.

Não é a razão certa.

O Jesse não ia querer tê-la dentro dele.

- Ele tem de estar perfeito. - O Jesse já não está cá.

Ele não quer saber da...

Então qual é o mal de simplesmente tirá-la?

- Que diferença faz? - Eu quero-a fora!

Eu quero-a fora!

Sabes, talvez devesses...

Talvez devesses tentar aquela coisa do aconselhamento.

Eu... Desculpa.

Senhora.

Grupo de apoio? Identificação?

Merda.

Queremos justiça.

É um fogo dentro de nós.

Mas julgamento, isso ninguém gosta. Isso nós odiamos.

Mas como podemos ter justiça sem julgamento?

E quem é o juiz? Eu? Tu?

Se queremos justiça, temos de perguntar primeiro:

"Quem é o juiz?"

Está bem, Francesca, a tua vez.

Recebi uma carta do IRS ontem

a dizer que não paguei impostos suficientes no ano passado.

Ainda devo 723 dólares.

Escrevi-lhes uma carta e enviei uma cópia

da certidão de óbito do meu filho a dizer: "Eu já paguei."

O Anthony teria feito 58 anos na semana passada,

mas foi morto no Kuwait por um Scud em ’91.

Agora está com Jesus e os santos,

e eu rezo por aqueles que o mataram.

Rezo por eles.

- Para onde vai, senhora? - Não sabia que isto era

o grupo do "vamos rezar por quem matou os nossos filhos".

Preferia drenar-lhes o sangue, mas boa para si.

Fico feliz por si.

Foda-se!

Eu só queria saber para onde ia, é pela outra porta.

Estás bem?

Foi por causa dos... dos Oreos?

Estavam rançosos?

Tenho pensado em trazer donuts frescos,

mas trabalho aqui na base e não tenho tempo para ir e voltar.

É toda uma logística. Espera, espera. Vá lá.

- Fui à reunião errada. - Eu sei, faz bem falar.

Ou simplesmente gritar "foda-se".

Foda-se! Foda-se!

Na verdade, sabe bem.

Olha. A qualquer hora, 3 da manhã, liga-me.

Provavelmente estou acordado.

Eu só vim à reunião errada.

Grande fogo no estômago?

Grande, grande fogo no estômago.

Eles estão sempre a tramar algo.

Sra. Redfield?

Mudei o corpo do Jesse para a sala de visitas.

É mais confortável do que o frigorífico.

Eu só queria mais tempo com ele.

- Quer que abra o caixão? - Não.

Fique o tempo que precisar.

5.56 NATO.

Camisa de cobre, núcleo de chumbo.

- Olá. - Olá.

Quero que testes o metal destes quatro projéteis com este.

Vê se coincidem.

- Fazem isso, certo? - Quer dizer, em teoria.

- Ótimo. - Não, nós...

Nós não aceitamos pessoas sem marcação.

Precisa de uma ordem de trabalho aprovada. Tipo...

Posso dar-te 5 mil em dinheiro.

- Acho que custa só... - Seis mil.

- Tipo 80 a 100 dólares. - Vou buscar ao banco.

Olha, não posso simplesmente aceitar uma senhora da rua

com os bolsos cheios de balas.

Esta matou o meu filho.

E estas quatro fui eu que fiz.

Por favor.

Eu não sei bem o que fazem lá atrás.

Posso meter isto discretamente com a Carla...

Registo como teste avulso.

Ou “não listado”.

- Vai ficar só 80 dólares. - Obrigada.

- Mãe? - Sim.

Desculpe.

- Olá. - Olá.

Foi compatível?

Quanto à estrutura química dos metais,

tendo em conta as variáveis,

concluímos que a bala disparada tinha uma...

probabilidade de 73,9% de coincidir com uma das outras.

A que estava marcada "Price 5.56 NATO X‑412".

- 73,9? - Correto.

A bala que acham que era... possivelmente uma 5.56.

Desculpe. Não temos essa informação.

Rick?

Pensei que ias aproveitar o dia para...

Desculpa, queria passar pelo cemitério mas fiquei preso aqui.

Sabes, achei que era perfeito.

Que estávamos a enviar para o mesmo sítio...

para onde o Jesse foi enviado.

Sabias que algumas das nossas balas estavam a ir para o inimigo?

Olha, não temos culpa se os soldados afegãos

vendem a munição ou os talibãs a roubam,

ou seja lá o que for que façam lá, está bem?

Quando o produto sai daqui, já não é connosco.

Quando sai daqui, não vai para o caralho do espaço.

Vivemos num liquidificador.

Agora andas a ter aulas de poesia?

- Fode-te. - Olha, se querias saber,

só tinhas de pesquisar.

Parece que já descobriste como pesquisar na internet.

Tenho quase a certeza de que a Web existe desde os anos 90.

Só estamos a fazer o nosso trabalho.

Só estamos a fazer o nosso trabalho.

Só a ganhar dinheiro.

Alguns de nós a comprar carros horríveis como o caraças.

Eu trabalhei naquela máquina para poder criar o Jesse.

E o corpo dele voltou

com um bocadinho de chumbo dentro, por isso...

Preferias ter criado o Jesse com o rendimento mínimo

e os teus princípios?

Fechar esta fábrica para o Milos e os cinco filhos irem parar à rua?

Alguém fazer o que fazemos aqui para eu me sentir bem comigo?

Foda-se isso, está bem? Eu sinto-me bem comigo.

E tu também te sentias até há uma semana.

Que caralho estás a fazer?

Não acendas essa merda!

Vais explodir esta merda toda e tu junto, Nance.

Nance! Nós vendemos contratos.

Está bem? Ao governo dos Estados Unidos.

O que os militares fazem com aquelas balas é com eles.

Nós somos os merdas pequenos aqui. Nós fazemos metal.

Nós não somos o problema.

Sabes qual é o problema? O governo.

Não se pode confiar neles. É por isso que fazemos armas, certo?

- Certo? - Cinza acende pólvora?

Não faças essa...

Foda-se, Nancy.

- Acho que não. - Foda-se.

Que caralho se passa contigo?

Está tudo bem.

Está bem. Pega na tua arma.

Vais disparar contra bonecos de papel.

Sente-te o chefe outra vez.

Pessoal, têm de abrir os olhos e olhar à vossa volta.

Estão a viver num mundo partido.

Não é um mundo justo. Não é um mundo livre.

Todas as vossas escolhas vos custam,

e pagam o que eles querem, quando eles querem.

Eles decidem o que vão comer.

Eles decidem quando o vão comer.

Eles decidem quando dormem, dizem-vos como viver.

E sendo honestos,

provavelmente decidem quando e como vão morrer.

Chaves.

Sra. Redfield, ainda bem que veio.

- Tenho perguntas. - Claro.

Os últimos momentos do Jesse. O que é que ele estava a fazer?

Sim, claro.

Obviamente, a maioria destas missões é confidencial.

- Mas eu posso... - O que puder.

Então, o pelotão do Jesse estava nas montanhas a sul de Jalalabad.

É uma região que costuma ser um bastião dos talibãs,

e o pelotão estava a perseguir um alvo.

- A perseguir um miúdo das entregas. - Desculpe?

O Jesse disse-me que estavam à espera de um miúdo das entregas.

Não, não é isso que está aqui.

Mais uma vez, obviamente, não posso entrar em detalhes...

- Ele estava lá. Foi o que ele disse. - Sim, senhora.

A informação é confidencial,

por isso não tenho autorização para divulgar mais.

O meu filho foi morto por uma bala americana

emitida pelo Exército dos EUA. Consegue divulgar isso?

- A que é que se refere? - Há todo um sistema.

Burros a levar merda de um lado para o outro.

É impossível de rastrear.

Acho que não se pode culpar um burro.

Tem alguma pergunta, senhora?

- Quem é que fodeu isto? - Ninguém.

Quem é que fodeu isto?

- Sra. Redfield, ninguém. - Está a esconder alguma coisa?

Não estou a esconder nada, senhora.

E está a perguntar sobre informação confidencial...

Ele era da sua responsabilidade! Sua!

- Eu entreguei-o a si! - Senhora!

Parem! Parem! Parem! Baixem a arma!

- Pare de resistir. - Sra. Redfield. Pare.

Sra. Redfield, acalme-se. Está tudo bem, Nancy...

Algemem-na.

O que é que planeavas fazer com a faca?

Era um osso de bife.

Desculpem, não sei o que se passa comigo.

Não tenho dormido.

O que esperavas conseguir?

Eu só quero saber o que se passa.

O que se passa, Nance?

O que é que queres saber?

Não te podemos deter.

Mas vamos fazer uma revisão interna para ver

se este incidente deve ser entregue às autoridades locais.

E, entretanto...

... o teu acesso à base foi suspenso.

Quero saber quem matou o meu filho.

Isto faz parte da guerra, senhora.

O teu filho assumiu corajosamente esse risco

quando decidiu alistar-se.

Eu também disparava como tu.

Só paixão, sem alvo.

- Seguiste-me até aqui? - Sou membro Eagle.

Nunca te vi aqui antes. Se calhar foste tu que me seguiste.

Se calhar até vieste ao grupo certo, afinal.

À procura de uma arma mais nova do que tu?

- Quero uma AR‑15. - Como a minha.

Talvez fôssemos comer pizza.

Não gosto de pizza.

Quem é que não gosta de pizza? Gostas de burritos?

Detesto burritos.

Carne asada. Gosto de carne asada.

- Boa para ti. - Senhor?

Mostre à minha amiga a sua carabina 5.56.

- Com certeza. - Essa é a minha.

É a melhor semiautomática... A melhor semiautomática legal.

- És do exército? - Sou contratante do exército.

- De onde és? - Sou de Price, como tu.

Não era isso que querias dizer.

Vivo nos Sunrise Apartments.

Nada de ferrolho como a tua Marlin.

Não precisas de armar entre disparos.

Porque não escolhes algo como...

uma Remington de cano duplo para caça de aves.

Uma Glock 19 para segurança.

- O que procuras? - Não são aves nem segurança.

É muito poder se não estás habituada.

Quero esta.

- Porquê? - Quero disparar noutra coisa.

Ela vai comprar uma AR‑15.

Só preciso da carta de condução dela.

Dou-te aulas grátis, está bem?

- Porquê? - Preço especial de membro do grupo.

Bem, eu não estou no teu grupo e não preciso de aulas.

Eu já te vi a disparar. Precisas de aulas.

Levo uma caixa de Price X‑412.

Quatro caixas, John, para a nossa aula.

É assim que arranjas encontros?

Eu compro a munição para as aulas‑que‑não‑são‑encontros

que estou a forçar-te a ter. - Ótimo.

Dispara no fim de uma respiração longa,

quando já não houver ar.

Até não restar ar nenhum.

Boa. Sabias que a pólvora foi inventada por acidente?

Os chineses estavam a tentar fazer uma poção de imortalidade

e acabaram por inventar a pólvora.

Perfeito.

Eu também perdi o meu filho.

Está a acontecer debaixo dos nossos narizes.

Tudo o que vês à tua volta

é só uma distração do que está realmente a acontecer.

Há pessoas malignas. São malignas. E vêm atrás de ti.

Vêm atrás dos teus filhos. Eles querem os teus filhos.

E não querem só controlar o que pensas.

Querem o teu sangue. Querem o teu sangue!

Vais à caça, Nance?

Sim.

O que é que estás a caçar?

A caixa do correio estava cheia, por isso...

... devias pagar as contas ou ficamos às escuras em breve.

Estou a pensar mudar-me na próxima semana, se poder.

- Sim. - Então ainda nos vais ajudar?

- Sim. - Porque não olhas para mim?

- Olhei. - Não, não olhaste.

- Olhei quando entraste. - Então olha para mim agora.

Para o baby shower,

a minha mãe deu-me um pack de 15 Natty Light,

por isso não sei que grande ajuda é que isso vai ser.

E ainda durmo na casa de banho,

porque o meu padrasto não para de fumar.

É o único quarto com ventoinha.

- Então, é... - Um segundo.

- O que é isto? - É... tudo.

Quero que fiques com tudo.

A casa toda.

- Talvez queiras arranjar a porta. - Do que estás a falar?

Tu não vais a lado nenhum.

A casa é demasiado grande para mim, de qualquer forma.

Eu não quero o teu dinheiro e não vou viver aqui sem ti.

É o que está certo, e eu já não gosto desta casa.

Quero viver aqui contigo, como tínhamos planeado.

Além disso, o Exército deu-me 18 mil.

Deram-te dinheiro pelo Jesse? 18 mil?

Mil por cada ano da vida dele?

É dinheiro de culpa para me calarem.

É o que a vida dele valia.

Pensei em as formas de olhar para isto e, honestamente,

não quero saber porque ajuda-me a criar esta criança.

Dinheiro vivo. Dou‑te em dinheiro. É melhor assim.

Foste a pessoa que fez o que era certo,

quando o pai do Jesse morreu.

E tinhas, tipo, quase a minha idade, certo?

A trabalhar a tempo inteiro com um recém‑nascido.

Os teus pais já tinham morrido.

O Jesse contou‑me. Não, ele gabava‑se disso.

Porque eras quase uma super‑humana,

alimentaste‑o, limpaste‑lhe o rabo e amaste‑o como ninguém.

E criaste uma ótima pessoa, e fizeste isso sozinha.

Eu estou no mesmo sítio, Nance.

Estou sentada no mesmo lugar,

e não sei se consigo fazer isto.

Não sozinha.

Pensa no que o Jesse iria querer.

Por favor.

O mundo está a ser dividido entre lobos e ovelhas.

Qual deles és tu?

Está bem. Provavelmente um nove.

Agarra alto no beavertail. Gatilho firme até à parede.

Boa. Muito melhor. Outra vez.

Cotovelos juntos. Culatra apoiada no osso.

Certifica‑te...

... de que não há manchas escuras na mira.

Aqui, disparamos por diversão, como dardos ou cornhole.

Lá em casa, quando eu era tradutor,

íamos às aldeias e disparávamos por outras razões.

Onde é "lá em casa"?

- Desculpa? - Onde é "lá em casa"?

Distrito 8. Zona tranquila de Cabul.

- Cabul? - Bairro agradável.

Isto é uma piada?

- Não. - És afegã?

"Afghan" é o termo correto.

E as pessoas do grupo de apoio sabem de onde és?

Sabem a minha história, a maior parte.

Ajudou muita gente, eu ser de lá.

O teu filho era tradutor?

O meu filho tinha 7 anos. Disseste que era soldado.

Não disse. Deves ter assumido.

Pelo menos do lado americano.

Tecnicamente, porque eu estava do lado americano.

Os talibãs não gostavam que eu trabalhasse para o inimigo.

Fui avisado.

O que lhe aconteceu?

Muitos de nós não recebem visto.

Eu recebi.

O meu comandante arranjou-me este trabalho,

e agora tenho a vida americana perfeita.

E adoro o Home Depot

e as bolachas das Girl Scouts e Pilates. Mas...

Gostaria de estar em casa a comer Kabuli pulao com o meu filho.

Tu precisas de um "um‑por‑um" como eu.

Não, não.

Disseste que todos queremos justiça.

A minha justiça é ter uma boa vida aqui.

Trocaste o teu filho pela América.

Essa é a tua justiça.

Nance, é o Rick.

Eu percebo que estás, pronto, a passar por...

o que estás a passar, mas tu...

Lixaste o meu carro. Mesmo a sério.

Por isso estás despedida.

E a seguradora vai ter perguntas para ti.

E se voltares a pôr um pé na propriedade da empresa,

vou estar no meu direito legal de disparar.

E eu... lamento a tua perda.

Acho que estou no teu parque de estacionamento.

Segue-me montanha acima.

Pepperoni e ananás.

Estávamos naquele motelzinho e...

... o Jesse e eu. Ele tinha uns 4 ou 5 anos...

e ele dá um salto do meu colchão para o dele,

e falha completamente e...

e vai direto contra a parede,

e fica lá um buraquinho em forma de rabo no pladur.

Custou-me 300 dólares para sair de lá.

Um buraco em forma de rabo no pladur?

Antes de morrer, quero fazer um buraco em forma de rabo no pladur!

Como é que ele era?

O Jesse...

A melhor coisa que fiz.

Se soubesses como ia acabar, tu...

Ainda assim...?

Mil vezes que sim.

Eu também. Se eu pudesse ter um minuto com o Arash,

isto é melhor do que nada.

Arash significa...

Não é "luz do sol". É...

A primeira coisa da manhã...

Raios, nunca pensei em explicar isto em inglês.

Raio. Primeiro raio de sol.

É bonito.

Como é que aconteceu?

Estávamos a comer Froot Loops.

Uma comida estranha que os americanos me deram.

E eu estava a olhar para o meu filho.

E depois as janelas explodiram,

e tiros iluminaram a minha cozinha.

Uma das balas, elas...

Aqueles olhos sem vida.

Às vezes pergunto-me se devia ter escolhido um lado.

Achei que era o que estava certo,

mas trabalhar com os americanos custou-me o meu filho, por isso não sei.

Nunca contei isto a ninguém.

Como sabes que foram os talibãs?

Quer dizer, avisaram-me.

O quê, só isso? Isso... É tudo o que precisaste?

Como sabes que não foram os americanos?

Eles não teriam razão para isso.

Eles enganam-se o tempo todo.

- Fogo amigo. Informação errada. - Não foram os americanos.

Bem, por tudo o que sabemos,

foram os americanos que dispararam contra a tua casa.

E por tudo o que eu sei, odeias os americanos,

e os talibãs recrutaram-te e estás aqui numa missão qualquer.

Achamos que sabemos tudo e não sabemos um caralho.

Achas que eu sou talibã?

Só estou a dizer que faz sentido!

Talibã ou não. Terrorista ou não. Estas são as minhas opções?

Trabalhas com famílias militares.

Estás a tentar ser meu amigo.

Olha, eu estou neste país.

Porque é que os americanos matariam o meu filho e me dariam asilo?

- Isto faz sentido para ti? - E se acontecer outra vez?

Não pode acontecer. Não há talibãs aqui.

Eles estão aqui!

Eles estão mesmo aqui.

E porque é que estás na América?

Porque é que um tradutor sabe tanto sobre armas?

Muitos tradutores carregam armas.

Alguns de nós têm de usá‑las.

- Estás a gozar comigo. - Não.

Ganhas a minha confiança e depois o quê?

- O quê?! - Está bem. Nance...

Eu sou talibã. Allahu Akbar!

No fundo, tudo o que fazemos é odiar americanos,

e queremos que todos morram. É isso?

É isso que queres ouvir? Se isso... Não, não, ouve.

Se é assim que te sentes, pega nisso e dispara.

Força. É o teu "um‑por‑um"!

Pessoas como tu fazem um trabalho muito melhor a odiar americanos

do que pessoas como eu alguma vez fariam.

Eu achava que nós precisávamos de ti,

e agora começo a achar que tu é que precisas de nós.

A minha porta está fechada para ti, Diana.

O quê?

Não faças-te de parva, Di. Eu fiz isso durante anos.

Achas que não te vi na cidade,

a gastar o dinheiro de sangue do Jesse?

A comprar aquele carro novo e brilhante com o teu novo namorado.

Esse "novo namorado" é o meu primo!

Que é o único que me está a dar uma mão agora.

O único que se ofereceu

para me levar ao hospital quando a porra da bolsa rebentar.

O que, aliás, vai ser hoje à noite ou amanhã.

E como o meu primo não tem carro

e a minha merda de lata a deitar fumo preto

não funciona e não serve para um bebé,

comprei um Honda Fit usado para levar o Jesse Júnior para casa.

É um rapaz?

Vais chamar-lhe "Jesse"?

- Deixa-me ajudar-te... - Não, não! Olha bem para ti!

O Jesse ia ficar mesmo desiludido contigo.

O que aconteceu ao Jesse não foi culpa minha.

A culpa não é tua.

É isto que te está a moer? Achas que eu te culpo?

Vemo-nos depois.

Nance, alinhas ou não? Eu preciso de saber.

Nance!

Alinhas ou não?

É o meu dinheiro.

- Quero levantar tudo. - Quer levantar o saldo total?

Sim.

Não pode entrar aqui com isso. Há um aviso.

É o meu direito portar e é o teu direito recusar serviço.

Mas se eu entrar na mesma,

é uma contraordenação de classe C com multa de 200 dólares.

Por isso, deixa-me acabar, e eu deixo-te uma gorjeta ao sair.

Mantém isso ao ombro.

De certeza que não prefere fazer uma transferência bancária

por questões de segurança? - Não, eu tenho segurança.

Notas de cinquenta e de cem.

Diana?

Deixei-te uma coisa com o Jesse, debaixo da bandeira.

Ama esse miúdo como tudo.

Foda-se!

O que é que pediste?

- Burrito. O que pediste? - Frango.

Sabe a porco, por isso quem sabe?

Sim isto aqui é uma merda. Nunca sabes o que estás a comer.

Desculpa. Nós conhecemo-nos?

Lembras-te de recrutar o Jesse Redfield?

Claro.

Pois...

Lamento muito o que aconteceu ao seu filho.

Porquê?

- Desculpe? - Porque é que estás a pedir desculpa?

Porque o perdeu. Parecia um bom miúdo.

Pessoas culpadas dizem isso. Que têm "pena".

Olhe...

O Jesse não foi o primeiro miúdo que recrutei e que morreu em ação.

Não és o primeiro pai a vir falar comigo sobre isso.

Só é a primeira a fazê-lo no Gonga’s Grill.

- Estás a rir-te de mim? - Não, senhora.

Quando eu entrei no gabinete com o Jesse,

ele já tinha decidido alistar-se.

Tinha um bebé a caminho. Precisava de um emprego.

Podia ter trabalhado comigo, mas...

... não.

Ou trabalhas para a máquina de guerra, ou vais para a guerra.

Ou fazes burritos.

Tu devias ser o miúdo a fazer burritos.

O que é que lhe disseste?

Senhora, eu sou conselheiro de carreira, um funcionário.

- Eu só faço o meu trabalho. - Só fazes o teu trabalho.

Eu faço o meu. Ele fez o dele.

Vendeste o meu filho como um carro usado.

Tem razão, senhora.

Se o meu filho morresse, também vinha cá.

Essa M9 é bonita, já agora.

Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, senhora.

Como é que se sentiu no dia em que o Jesse se alistou?

Sim. Orgulhosa.

Eu lembro-me de pensar isso. "Olha esta mãe.

Tão orgulhosa do filho."

E tinha razão em estar orgulhosa, senhora.

Porque é que acha que faço este trabalho?

Porque 37 mil por ano é a minha ideia de boa vida?

Quando bebo, é Keystone em lata. Como no Gonga’s.

Acha que eu não preferia estar a vender, sei lá,

relógios ou churrascos ou outra coisa qualquer?

Eu conseguia vender churrascos.

Então porque é que faço isto? Porque amo o meu país?

Sim claro.

Mas ninguém vai para a guerra por amor, senhora.

Sabe, eu estive lá. Duas missões.

Agora mijo para um saco e procuro uma namorada

que goste de pila mole.

Nós, os pequenos, vamos para a guerra por três razões, senhora.

Um: é um trabalho melhor do que canalização. Dois...

acaba sempre por ser gente pequena como nós

a proteger os grandes.

E três...

Acha que foi o governo que me acertou na bacia

e matou três amigos meus?

Não.

Que foi algum recrutador? Não.

Algum senador? Não.

Não, foram os talibãs, senhora.

E celebraram depois. Sim nós ouvimo-los.

A gritar, a rir.

Malditos. Eu não matei o Jesse, senhora.

Os talibãs mataram o Jesse. E pode apostar, senhora,

que esses jihadistas fizeram uma festa.

Foda-se! Foda-se!

Então?

911, qual é a sua emergência?

Nance!

Sei que não me queres magoar, Nance.

Tinhas um tiro limpo que eu sei que consegues fazer.

Nance!

Onde está a tua arma?

- Na rede das armas. - Devias trazer a tua puta da arma.

Larga a arma, Nance.

Eu matei o meu filho.

Fui eu.

Estou tão cansada.

Um dia vamos os dois morrer.

E estar com os nossos rapazes outra vez, sabes?

Mas não agora.

Está bem? Ainda estamos aqui por alguma razão.

Se calhar estou aqui por ti. Por favor, dá-me a arma.

Por favor, dá...

- Nance... - Afasta-te.

- Nance... - Afasta-te!

Aponta-a para mim.

- Aponta-a para mim. - Foda-se, Nance.

A próxima vai-te ao peito. Dez...

- Nance. Não faças isso. - Nove.. oito...

Não, eu não quero isto.

- Não te vou ajudar a matar-te, Nance. - Seta, seis, cinco...

Quatro... Aponta para mim!

- Não, Nance! Nance! - Três, dois...

- Nance! - Um...

Olha para mim, olha para mim. Está tudo bem.

Está tudo bem.

Está tudo bem. Está tudo bem.

Está bem. Relaxa e respira fundo.

Prepara-te, querida.

Estás a ir muito bem.

Tu consegues, está bem?

Estima-se que pelo menos 30% das munições

que vêm nos corpos de soldados americanos

seja produzida nos EUA.

Adaptação e correção: Nisbgui

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