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Original subtitles

BASEADA EM FACTOS REAIS.

Calma.

Estamos quase lá.

Vamos.

Sai.

Enfermeira.

Senhora.

Doutora, por favor.

- Que se passa? - Pode ver a minha filha?

- Sim, deixe-me só... - Está com muitas dores na virilha.

Há quanto tempo está com estas dores?

Não sei exatamente.

- Minutos? Horas? Dias? - Horas.

- Cheguei do trabalho e... - Acalme-se.

Minha senhora, fique aqui, preencha o formulário,

os dados clínicos e eu levo-a até ao médico.

Vá. Respira. Não é assim tão mau. Vá.

Fica quieta.

Doutor.

Tenho uma menina com dores fortes no baixo ventre.

- Ferida? - Não.

- Observaste-a? - Não.

Deita-te. Barriga para cima.

- Ajuda-a. Veio sozinha? - Com a mãe.

Levanta a camisa. Abre as calças.

Há quanto tempo estás assim?

Desde esta tarde.

Estás grávida?

Não.

Comeste algo, jantaste?

Comi uma salada de fruta.

E antes?

Panado de vaca com puré.

Mais nada.

Tiveste apendicite?

Um antiemético e um analgésico, intravenoso.

Deem-lhe muita água.

Mal esteja melhor, levem-na à mãe.

Certo. Passa-me uma válvula de três vias.

Aqui está.

Aonde vais?

Tenho de ir à casa de banho.

Espera, eu ajudo-te.

- Não, posso ir sozinha. - De certeza?

Sim, eu consigo.

A casa de banho é por aquela porta, à esquerda.

Que fazes aqui?

Que estás a fazer?

Vem cá.

Doutor, é outra coisa. Ela está a perder muito sangue.

Está grávida?

Não disse. Que fazemos?

Leve-a para a ginecologia, fazem-lhe uma curetagem de urgência.

Uma quê?

Doutor!

Que foi? Estamos num procedimento.

Um procedimento para um aborto ilegal.

- Parece que tentou abortar. - Quem disse?

- Dizem que encontraram um feto. - Quem disse?

- Não sei. - Não.

Desculpe, agente, que se passa?

Ficará sob custódia até ser transferida.

- Nem pensar. Está fraca... - Doutor, por favor.

- Nem pensar. - Doutor, por favor.

Que está a fazer? Isto é ultrajante.

- Julieta Gómez? - Que está a fazer?

Está detida e vai ser transferida para uma penitenciária.

Não fiz nada. Chamem a minha mãe.

Fez algo muito grave.

Não fiz nada. Doutor, chame a minha mãe.

- Tragam-mo. - Ela explica o que se passou.

Estás a ver isto?

- Que é isso? - Era o teu filho.

Que filho? Não tenho filhos.

Não tenho filhos.

Que se passa?

Saiam!

Chamem a minha mãe.

Chamem-na!

Chamem a minha mãe.

Chamem a minha mãe!

Chamem a minha mãe!

DOIS ANOS DEPOIS.

Descer a montanha, por exemplo, não é para todas as crianças.

Não, o Martin não é muito bom com a bicicleta.

Sabe andar, mas não pode descer a colina assim,

numa excursão. - Claro.

Há dois anos que não descem a colina.

- Cancelaram essa excursão. - Porque não o disse,

se sabia? - Desculpem pelo atraso.

Acabámos de pagar.

Aproxima-se o último trimestre do ano

e, como pais de finalistas, têm de os incentivar e de os fazer focarem-se.

Não é tarefa fácil.

Já sabem quem vai fazer o vídeo?

Podemos organizar uma comissão.

- Claro. - Tenho de ir. Estou atrasada.

Todos temos coisas para fazer.

- O meu marido faz o vídeo. - Perfeito.

- O marido da senhora. - Perfeito. Vídeo resolvido.

Anda lá.

Estás autorizada. Entra, que estou atrasada.

Acha mesmo que a minha filha, grávida de oito meses,

entrava nestas calças tão pequenas?

Pode olhar para ela? Está a mostrar uma coisa.

Já lhe disse várias vezes, minha senhora, tem de ir à Rua Sarmiento.

Aqui é o fórum civil.

Olá. Estou atrasada para a audiência. A minha colega já entrou.

- Wisner-Marot, pensão de alimentos. - Deixe-me ver.

... falámos com a advogada.

Não fará nada e o julgamento é em três dias.

- Pode entrar. Ficaram à espera. - Obrigada.

Uma resposta, um telefone, algo para ela comunicar.

- Olá. - Como está?

- Olá. - Bom dia.

- Está pronto? - Desculpem pelo atraso.

Foram cinco minutos. Avisa o juiz, sim?

- Eu aviso. - Viste as senhoras?

- Meritíssimo? - Que senhoras?

- Não as viste? - Não.

Desculpe pelo atraso.

Senhor, estamos prontos para começar.

Só tenho dúvidas na terceira resolução. Queres ler?

Só um instante. Tenho uma infeção urinária.

- É um segundo. - Aonde vai?

- Só um minuto. - Tem uma infeção urinária.

Deza!

Minha senhora? Desculpe.

Quando entrei, não pude deixar de ouvir. Que se passou com a sua filha?

É minha irmã. Está presa há dois anos.

Não fez nada. Querem prisão perpétua.

- De que está acusada? - De matar uma criança.

Teve um aborto espontâneo.

Eu estava lá e nunca aceitaram o meu testemunho.

Não sabemos com quem falar. A advogada não gosta de nós.

- Quem é a advogada? - Beatriz.

- Chama-se Beatriz Camaño. - Deza... Com licença.

- Estão à espera. - Desculpa. Tens razão.

Estou com a minha colega. Esperam por mim para falarmos?

- Sim. - Eu volto.

- Desculpa, a culpa é minha. Tens razão. - Quem é ela?

- Não sei, mãe. - Que fazemos?

Vamos esperar. Senta-te, mãe.

Não entendo como não percebemos antes.

Sim, é muito estranho.

Garanto-te que ela não vem.

Não nos precipitemos.

Olá. Que vai ser?

Juan Carlos, quero uma Mirinda de maçã e três tortilhas finas.

- Perfeito. - Uma tosta de carne com queijo.

- Com certeza. - Faço pequeno-almoço e almoço juntos.

Com certeza.

Ela pegar neste caso não me cheira bem.

Se alguém cheira sempre bem, é a Beatriz Camaño.

Não me faças falar.

Éramos tão novas. Não conta. Para ela, foi apenas descoberta.

Depois, assustou-se e arranjou um pénis.

Vem aí. Olha.

- Beatriz. - Como estás?

Olá, meninas.

- Há quanto tempo... - Sim, é verdade.

Inacreditável.

Vocês estão iguais.

Sempre juntas, inseparáveis, como na faculdade.

- Pois. - É, não é?

Divertimo-nos muito na altura.

Sim, é verdade.

Sabes? Às vezes...

Pensei muitas vezes em ti.

O caso com aquela rapariga...

Afastou-te de mim, não foi?

- A mim? De forma nenhuma. Não. - Não.

Tens a certeza?

- Absoluta. - Às vezes,

como advogada oficiosa, tenho tantas limitações.

- Claro. - Imagino.

Fiquei aliviada ao saber que assumiram o caso.

Bem, não fiquemos presas ao passado.

Obrigada por teres vindo.

Sabemos que estás ocupada e vamos diretas ao assunto.

Eis o que temos vindo a pensar,

o que trabalhámos no escritório, talvez possamos ajudar.

Sabem bem que não posso discutir o caso aqui.

- Não queremos comprometer-te. - Claro que não.

Despachem-se, então.

- Sim. - Falámos com a mãe

e ela deu-nos muitos pormenores de como foi a admissão

quando a miúda foi hospitalizada.

Foi-me difícil falar com a mãe. Ela é agressiva.

Está preocupadíssima. Acha que pode apanhar perpétua.

- Esperemos que não. - Com licença.

Aqui têm.

- Pode trazer-me uma tosta também? - Sim.

Como essa. Obrigada.

E então?

Acho que podes pelo menos considerar

sugerir violação de sigilo profissional.

A polícia irrompeu pelo consultório

e o médico decidiu entregar os registos clínicos da paciente.

Sim, tinha acontecido uma coisa grave.

A ponto de merecer a reabertura do caso.

Esse caso existe. Chama-se homicídio e cá estamos nós.

Acho que procuraram uma culpada no hospital muito antes de o caso existir.

- Por isso... - Desculpem.

Encontraram-se comigo para me explicar o caso?

- Não... - Para!

Uma rapariga entra no hospital com gravidez avançada

e aparece um feto na casa de banho.

A mãe disse que ela não tinha barriga. O hospital não suspeitou de gravidez.

- Acharam que era uma peritonite. - Milhares de contradições.

Garanto que estou a fazer tudo para a ajudar,

mas o caso dela é complicado e não faço milagres.

Vou trabalhar.

Manda a tosta para o escritório, por favor?

Sim, com certeza.

"Questiona a beleza da Terra.

Questiona a beleza do mar.

Questiona a beleza do céu.

Questiona todas estas realidades.

Todas te respondem:

'Repara, somos belas.'

A beleza delas é a sua proclamação."

Que é uma "proclamação"?

Algo que queres comunicar.

Como se Deus comunicasse connosco dessa forma?

Algo do género.

E que quer Ele dizer?

- "Ajuda o teu irmão com os TPC." - Quero iogurte.

Não, vamos jantar. Não ouviste? Senta-te e termina os TPC.

- Sim, vamos comer. - Como ajudo?

Leva isto.

Juro que não entendo como acreditas em Deus.

Julgas que está numa nuvem?

Não, não julgo que esteja numa nuvem, Flora.

Então, está onde?

Para, Sara!

Nesta conversa, por exemplo.

Deus fala por meio de mim? Ou da Sara, quando ela ladra?

Desde quando és tão literal?

- Dá-me um exemplo. - Um exemplo?

Na bondade, na compaixão pelas pessoas.

É Deus a manifestar-se.

E não se manifesta no mal?

Põem Deus onde vos convém.

Talvez tenhas razão.

Para mim, Deus manifesta-se ao dar um propósito à tua vida, por exemplo.

Ou uma vocação, ou um chamamento para algo.

- Isso é Deus. - Não me convencem.

- Não queremos fazê-lo. - De forma alguma.

Se Deus existisse, não terias ninguém para defender.

És advogada porque Ele não existe. Certo, pai?

- Diz alguma coisa. - Para, vamos comer.

Onde está Deus quando morre uma criança?

Que se passa, Flora? Porque estás a ser mórbida?

- És tão mórbida. - Cala-te!

Bem...

- A Camaño? - Não sei.

Não acredito.

Peço desculpa. Podem começar.

Prossigamos

com a audiência de julgamento da causa contra Julieta Estefanía Gómez,

com o documento de identidade número 34211318,

pelo crime de homicídio agravado pela relação de parentesco,

processo número 12941/2014.

Não é a primeira nem a última vez que sucede algo assim.

Responda à pergunta, por favor.

Sim, ela foi à casa de banho.

Perguntei se precisava de ajuda e disse que não.

Mas tinha tantas dores, que achei estranho.

Quanto tempo ficou lá a arguida?

Talvez uns 15 minutos, pelo menos.

Pode descrever o estado da paciente quando foi admitida?

A paciente manifestou dor intensa na parte inferior do abdómen.

Minutos após ter sido examinada, apresentou hemorragia vaginal

e foi imediatamente levada para a ginecologia.

Qual a sua especialidade médica?

Sou médico-geral.

Quando a polícia irrompeu pelo seu bloco operatório, já tinha concluído.

Estava a terminar, sim.

Sabia o que se passava.

Não, foi a polícia que me informou

que a paciente tinha realizado um procedimento ilegal.

Apresentava todos os sinais de ter provocado um aborto.

- Viu o corpo? - Afirmativo.

Era do sexo masculino? Viu?

Afirmativo. Segurei-o nas minhas mãos.

- Foi a senhora quem o encontrou? - Não.

Responda com calma.

Era...

... assim. Não, era mais pequeno. Assim.

Esta mãe cometeu vários crimes.

Primeiro, ocultou a gravidez.

Foi ao hospital e mentiu à equipa médica.

Não aceitou ajuda,

trancou-se na casa de banho, tencionando livrar-se do bebé

e voltar para a maca como se nada se tivesse passado.

Desde esse episódio dramático,

nada mais fez do que negar qualquer envolvimento.

Confirmado por peritos em psiquiatria,

sabemos que Julieta Gómez estava em estado de choque

e, como advogada oficiosa, não me foi permitido constituir uma junta médica.

Uma sentença como a pedida pelo Ministério Público

não tem em consideração o estado puerperal da minha cliente

e as emoções naturais que acompanham um parto.

O tribunal suspende a sessão até terça-feira às 10 horas.

Após o depoimento da arguida,

que exercerá o seu direito, nos termos do Código de Processo Penal,

daremos um veredicto.

Vamos.

Olá, Julieta.

- Soledad Deza. - Sim, a minha mãe disse-me.

Tive de dizer que era tua advogada para me deixarem entrar.

- Queres um? - Não.

Bem, sim, dê-me um cigarro.

Trouxe-te este livro que escrevi.

Um livro?

Sim, é sobre um caso em que trabalhámos,

de uma rapariga que passou pelo mesmo que tu.

Instauraram um processo, porque ela teve um aborto, mas não foi presa.

Posso apanhar prisão perpétua, sabe?

Isso não sucederá. Não penses nisso agora.

Darão um veredicto na terça-feira.

Tens de preparar o que vais dizer.

Sim.

Posso voltar na segunda-feira e ajudar-te.

Que é isto?

É uma pulseira. Uso-a para proteção e sorte. Podes deitá-la fora.

Sabes o que tens de fazer.

- Exatamente. - Exatamente o quê?

Exatamente, ela sabe o que tem de fazer.

Trabalhei naquele hospital.

Alguns médicos acham-se deuses e a polícia tem ainda mais poder.

Mais alguma sugestão? Algo mais que dizer?

Lixa-os, querida. Deita-lhes fogo.

Escuta, metade das pessoas não quer saber

e a outra metade acha-a uma assassina.

E, por isso, juntamo-nos aos executores?

Temos de pensar na rapariga e em toda a gente

que não tem opção que não ser hospitalizada ali.

NÃO ESTEJAIS TRISTES POIS A ALEGRIA DO SENHOR É A NOSSA FORTALEZA

Venho ver a Julieta Gómez.

Não. Não é advogada dela, não está autorizada.

Amanhã é o veredicto. Combinei reunir-me, ela está à espera.

É impossível, doutora. Sabe que só a advogada está autorizada.

- Posso falar com a sua superior? - Não.

- Porquê? - Não é possível.

- Peço-lhe, por favor. - Já lhe disse que não é possível.

Está bem.

Olá, Barba. Podes ligar à secretária agora?

Achas que a avisaram de que fui lá?

Não pari nenhum bebé.

Cheguei ao hospital com este casaco.

Como podia uma grávida de oito meses usar este casaco?

Não matei ninguém em nenhuma casa de banho.

Fui ao hospital para pedir ajuda e acabei na cadeia,

quando soube que tinha tido um aborto.

Nem me permitiram fazer o luto.

Não sei porque isto me aconteceu.

Não...

Pareces muito comprometida, Deza.

Não posso dizer o mesmo de ti.

Estás obcecada por ficar com os meus casos.

Talvez tenhas algo contra mim.

Pelo contrário, Beatriz,

adoraria não ter tido de cuidar das mulheres que abandonaste.

Claro.

É impossível ser comparada contigo e com os teus princípios.

Diz-me, Deza.

Já tens título para o teu próximo livro?

No teu lugar, entrava.

Um atraso à leitura da sentença era o cúmulo.

Tivemos de ponderar o valor da vida do desconhecido,

que, da sua breve existência, clama por justiça.

Este tribunal, de forma unânime,

considera Julieta Estefanía Gómez,

cujos dados pessoais constam do processo,

culpada da autoria do homicídio agravado pela relação de parentesco,

condenando-a a oito anos de prisão efetiva.

- Não... - Junte-se aos autos.

Não!

- Não... - Porquê? Ela está inocente.

Não te preocupes, vamos recorrer.

Mas ela não fez nada. Ela está inocente!

Tem calma.

Camaño, renuncia!

Ela está inocente, não fez nada!

Não grites.

Ela não fez nada.

Não grites, só piora tudo. Por favor, não o faças. Aqui, não.

Ela não fez nada.

Passa-me tudo, Camaño. Estás novamente livre.

- Ela devia estar contente. - Dá-me o processo.

- Dá-mo. - Quere-lo? Toma.

Defendeste-a com isto?

- Ninguém engole esse papel de salvadora. - Sai!

Deixa-a.

Julieta... Você é uma merda.

Mabel.

Calma, vamos recorrer.

Anda, ali.

Há tomate.

É bom, não?

Tens a certeza de que puseste a encarnada?

Usei um bocado de outro tubo.

Vai ficar uma merda.

Que foi, rainha?

Que pergunta tão estúpida.

Quero saber se é outra coisa.

Que se passa? Tem de ver a tua cara todos os dias.

Como estás?

Vamos requerer a anulação do julgamento e que aguardes em liberdade.

Que se passa?

Não sei se consigo.

Que se passa?

Passar pelas mesmas perguntas, contar coisas de que não me lembro.

Estou exausta.

Não tens de dizer nada. Fizeram tudo mal.

Violaram o segredo profissional, acusaram-te sem provas,

mudaram a folha de rosto, sem investigação, sequer.

És apenas uma vítima. Talvez seja a primeira vez que ouves isso.

- Sim. - Então, começa a acreditar.

O problema com estes lugares

é que rapidamente te fazem acreditar que és culpada.

Se vai começar a vir cá,

para mim, é importante que não se saiba lá fora.

A minha mãe pode perder o emprego e o meu pai também.

Aqui, ninguém sabe do que estou acusada.

Preciso de que isto fique entre nós.

Fica entre nós, sim.

Prometa.

Prometo.

Olá.

Vim levantar uma peça processual.

Julieta Gómez, processo 12941/2014.

- Do Ministério Público? - Não, sou a advogada, Soledad Deza.

Deixe-me ver.

- Gómez, certo? - Sim. Julieta.

Deixe-me ver...

- Julieta Estefanía. - Sim, esse.

Mas o processo ainda não está pronto.

Que está em falta?

Não sei dizer, doutora.

Quando posso levantá-lo?

Tente na próxima semana.

Pronto...

Queres comer alguma coisa?

- Vem, é aqui. - Entrem.

Olá. Entrem. Sejam bem-vindas.

- Olá. - Como estão?

Esperamos pela tua mãe e podemos começar.

Ela não vem. Está com problemas no trabalho.

Olá, bebé.

Olha, a senhora do cabelo azul é hippie, não te assustes.

Na Argentina, a lei permite a prisão preventiva até dois anos.

Ultrapassado esse prazo, têm de proferir uma decisão,

num julgamento, que foi o que aconteceu.

A prisão preventiva é aplicada quando há risco de fuga

ou obstrução à investigação. - A tua irmã não cumpre os requisitos.

Por isso, acreditamos que apressaram a sentença para encobrir a confusão.

Esta é Bárbara Guindal, jornalista, advogada,

encarregada de divulgar o caso. - Temos de contactar a imprensa local.

O caso tem dois temas sensíveis para o povo de Tucumán.

Vai da presunção de um aborto à alegação de um infanticídio.

"Infanticídio" é quando alguém mata os filhos.

A Paulina é advogada.

Trabalhou comigo no caso da María Magdalena,

um caso em que havia um processo contra ela

por suspeitas de ter cometido um aborto.

Vemos uma ligação entre os dois casos,

pois a María Magdalena e a Julieta foram encaminhadas para a mesma advogada.

- A Beatriz Camaño. - Exatamente.

Nem me falem no nome dela.

Estamos também a investigar se há ligação entre os médicos que as trataram,

mas ainda não encontrei nada.

Esta é a Perla, ativista contra a violência obstétrica.

Vi muitos casos, em Alberdi, de meninas vítimas de abuso sexual.

em que as faziam ouvir os batimentos cardíacos durante as ecografias.

- Não percebo. Porquê? - Para as convencer a não abortar.

Esta é a Coca, prestes a obter o terceiro diploma.

Conhece o tribunal como a palma da mão.

Pressionámos tudo e todos para obter o processo.

A Camaño entregou-nos um processo bastante deficitário.

O dossiê que a advogada de defesa possui com as provas que escolheu

para defender a arguida.

No caso, o que ela escolheu é como não ter nada.

Sem registos médicos ou informação sobre entrada e saída do hospital. Uma confusão.

Que significa isso?

Que não conseguimos defendê-la com o que a Camaño submeteu.

Precisamos do processo.

URGÊNCIAS

Entram cá muitas raparigas.

- Agora, já se lembra? - Sim.

A miúda que deitou o bebé na sanita.

Então, lembra-se do caso.

Sim, mas a Alejandra lembra-se melhor.

Podem esperar um minuto?

Sim.

Já me chamaram para testemunhar, disse tudo o que tinha que dizer.

Uma coisa. Lembra-se se se notava a barriga da paciente?

Só a vi ir à casa de banho e vir com as pernas cobertas de sangue.

Não se lembra de mais nada?

Voltou como se nada fosse.

Como assim?

Como se não tivesse feito o horror que fez. Mais alguma coisa?

Não podemos continuar a interrogar pessoas sem autorização.

Desculpe. A que horas muda o turno?

Às 20 horas.

Para quê voltar?

Para seguir o percurso que a Julieta fez.

- O quê? - Deixa-me pensar.

Desculpa, Sherlock.

- Porque continuas assim vestido? - Estou pronto.

- Não, vai trocar de roupa. - Manuel, não vives só.

Podes parar de gritar um instante?

Podes vestir outra coisa, estar mais bem-vestido?

- Mas é a minha roupa preferida. - Vá.

Preciso de pedir um favor.

- Minha senhora? - O meu pai foi internado.

Olá. Desculpe, a casa de banho?

Vá até ao fundo do corredor, o sinal verde...

Desculpe, posso entrar?

Lamento, a casa de banho está alagada. Não pode entrar.

- Sabe onde é a outra? - Não.

- Veio por aqui? - Sim.

Tem de voltar para trás e virar à direita até à entrada,

fazer o corredor da outra ala,

passa a pediatria e vai sempre em frente.

- A outra ala? - Sim.

- Obrigada. - De nada.

"12 de março de 2014. Que Deus te tenha na Sua glória", Barba.

Percebeste? Há duas casas de banho.

Uma, onde encontraram o feto, outra aonde a Julieta foi.

As testemunhas dizem que ela demorou 15 minutos.

Não imaginas o tempo que demorei a chegar à outra ala. Ela não pode lá ter ido,

fazer nascer o bebé, matá-lo, tudo nesse espaço de tempo.

O que estou a dizer

é que encontraram um feto na outra ala do hospital

e disseram que era da Julieta. Só isso.

Ligo mais tarde, Barba.

Desculpa. Estou atrasada.

CONCERTO DE ANTIGOS ALUNOS AUDIÇÃO DE BOAS-VINDAS

Olá.

A mãe.

Ora, já expliquei, Flora.

Já pedi desculpa. É importante para o caso.

- Um dia, gostava de ser um caso. - Que estás a dizer?

Flora, nem brinques com isso!

Nem me dás um beijo?

- Adeus. - Adeus, amor.

- Tem um bom dia. Tens tudo? - Tenho.

- Dás-me as rifas? - Sim, desculpa.

Adeus. Tem um bom dia. Até logo.

Espera pelo teu irmão.

Madrugadora.

Já leste?

O quê?

O El Tiempo. Acabei de o comprar. Bem, presumo que não leste.

Não, que aconteceu?

Posso ler-te?

Sim, claro.

"A assassina de Alberdi..." Começa assim, imagina. Escuta.

- Não... - Escuta... Espera, escuta. Estás aí?

"Segundo o juiz Fariña, casos como o de Julieta Gómez,

a mulher recentemente condenada

por afogar numa sanita o bebé recém-nascido,

e atualmente defendida pela Dra. Soledad Deza,

são tragédias evitáveis."

"São tragédias evitáveis." Onde estás? Estás a ouvir?

Então?

Lixaram-nos.

Sim, o Fariña lixou-nos. Publicaram o nome dela.

E que mais?

A ASSASSINA DE ALBERDI

Com que então, és famosa, Gómez?

Vê como descobri.

Estiveste tão calada estes dois anos.

És má mãe. És uma dessas.

Adoro que gostem de ti aqui.

Por isso, vamos continuar assim, sim?

Olha para mim!

Façamos de conta que nada aconteceu.

Façamos de conta que nada aconteceu.

Adoro guardar segredos.

Isto fica entre nós. E sabes do que também gosto?

Dos teus molhos.

Um dia destes, peço-te um e levo-o para casa.

Estamos entendidas?

Apresentámos um pedido para eliminarem a publicação

e não voltarem a referir-te.

- O que fizeram é ilegal. - É?

Querem ganhar tempo, tendo a opinião pública do lado deles.

Eu disse que, se se soubesse quem eu sou,

os meus pais podiam perder os empregos.

E querem que eu pague isto.

Temos de pagar isto todos os meses, ou contam o resto do meu caso.

Quem fez isso?

Eu resolvo isso, mas não podem fazê-lo.

Pare. Há dois anos que fazem o que querem comigo.

- Que foi? - Prometeu duas coisas.

Que aguardaria julgamento lá fora e não saberiam quem sou.

Não cumpriu nenhuma.

Não me diga o que pode e não pode ser feito.

Tens razão, mas, para te tirar daqui, precisamos de que se saiba.

- Temos de denunciar. - Para me enforcarem?

Para sermos muitas a defender-te.

Não quero que apareça o meu nome.

Viveste assim até agora e ninguém sabe que estás aqui.

Se ninguém sabe que estás aqui, não existes.

- Para. - Tenho razão.

Não é apenas o meu nome.

- É o dos meus pais... - Já não me interessa.

- Serás despedida. - Que me despeçam!

Inventamos outro nome.

Outra identidade, para divulgar o caso.

- Escuta. - Mas precisamos da tua autorização.

Não sei.

Não sei.

Olá.

- Parabéns. - Fazes anos?

Olá, amor.

- Olá, amor. - Olá, mãe.

Olá, querida.

Doutora, estão mais pessoas do que o permitido.

- São os anos dela. - Não faço as regras.

- Mabel, eu trato de tudo. - Hoje, não, doutora.

O papá manda-te beijinhos.

- Ele não vem? - Esquece, Mecha.

Inacreditável.

Preciso de que me deixes avançar. Posso?

Queres ver?

Sim.

Feliz aniversário.

Olá. Romina?

Sim.

Não há problema. Eu espero.

Pauli, relê a declaração. Acabei, vê se está bem.

- Isto é a amnistia? - Sim.

"Belén..." Belén?

Sim.

- "Belén tem 27 anos, foi privada..." - Espera.

Chamaste-lhe Belén?

- Sim. - Belén?

Sim, porquê?

Porque não Maria da Conceição? Ou Luján? Ou Santíssima Trindade?

- Meninas, Santa Brígida. Que acham? - Belén está ótimo. É curto.

E significa onde Jesus nasceu, algo que valorizas.

Que santinha hipócrita. Não aguento.

Estás a ser tão difícil. Vê se está bem e envia.

Romina? Sim.

Sim.

É também por isso que está na hora de abordar o tema nestes programas.

Essa é a proposta.

Bem...

Está bem. Obrigada por tentares.

Até breve. Boa tarde.

Tarde Piaste é um não.

- Deve-nos tantos favores... - Fizemos-lhe a sucessão à borla.

- Deixa-a vir pedir alguma coisa. - Que idiota.

Falei com o Martin Salvador e ele disse o mesmo.

- Não se atrevem. - No programa da tarde?

Disseram que não têm espaço durante um mês. É mentira, óbvio.

- É mentira. - Receio, Soledad,

que tenhamos de recorrer a quem tu sabes.

- A quem? - Ao único que nos dirá que sim.

Ora...

Pronto, eu digo. A Soledad Deza perdeu a virgindade com o Beto Bolaño.

- O quê? Não. - No beliche do Beto.

- Estás a brincar. - Olhem para a Sole.

Há claramente algo ali.

Olhem para ela.

Clinton intensifica o discurso para convencer os eleitores.

É verdade. E quem aqueceu as coisas durante a campanha

foi nem mais nem menos do que Madonna.

Escuta, Beto, ela prometeu sexo oral como recompensa...

Espere aqui. Já lhe colocam o microfone.

TARDE QUENTE

Vá. Para, Beto. Anda lá. Com licença.

- Sole. - Beto.

- Como estás? Há quanto tempo... - Bem.

- Obrigado por vires. - Obrigada, eu.

Não, obrigado, eu.

- Falamos no estúdio, sim? - Claro.

Vou resolver uma coisa.

Venha.

- Sente-se ali. - Ali?

Falo a sério...

- Tens de me fazer rir... - Veremos...

- Não bebi café de manha. - Beto...

Não me fazes rir. Não acredito.

Dizem que não bebi café de manhã, daí estar tão sério.

- Sério? - Adoro-vos, malta,

mas têm de escrever com letras grandes. Parece Braille.

Sim, e mais água, meninas. Por favor, é grátis.

Sim, por agora.

E vamos agora passar a outro tópico,

um tema delicado.

Temos uma convidada especial, Soledad Deza.

Conheço-a há muitos anos.

- Obrigado por vires. Como estás? - Bem, obrigada.

Deixem-me dizer-vos que a Soledad é a advogada de defesa de Belén,

uma jovem acusada e condenada por ter assassinado o filho recém-nascido

no Hospital Alberdi.

Soledad, por favor, conta-nos a tua versão do incidente.

Conheço-te muito bem, sei que és boa pessoa,

por isso, tenho a certeza de que, se aceitaste um caso tão horrível,

é porque tens algo para revelar.

- Primeiro, obrigada pela oportunidade. - Nós é que agradecemos.

Gosto de fazer um exercício.

Imaginem que um dia se sentem mal, vão às urgências do hospital

e acabam na cadeia.

Ou que isso acontece à vossa filha, à vossa irmã.

Foi o que aconteceu à Belén.

Está presa há mais de dois anos por ter ido ao hospital

com uma dor de barriga que acabou por ser um aborto.

- Contado assim, é marcante. - É terrível.

"Marcante" não é o termo, Beto, mas...

Diria que o que aconteceu à Belén é uma enorme injustiça.

Devo dizer que a Soledad sempre gostou de discutir comigo.

Como todas as mulheres, não é a única.

Não, a ideia não é discutir, de forma alguma.

A ideia é que o público saiba o que realmente se passou

e pedir ao juiz Fariña que disponibilize o processo,

pois sem ele não podemos recorrer.

Sem o processo, a Belén permanece sem defesa.

Sem o processo, mantém-se vítima de uma injustiça.

Esperemos que assim seja.

Podes contar connosco para o que for necessário.

Estamos sempre do lado da justiça.

- Disseste juiz Fariña? - Sim.

- Tiveste filhos? - Sim.

- Parabéns. - Que bom para ti.

E mais uma coisa.

Gostaria de pedir a todos que se juntem a nós, terça-feira.

Será a primeira manifestação pela libertação da Belén.

Apareçam. Obrigada.

Ficas mais um pouco?

Vamos debater em seguida este tema tão interessante.

- E temos um convidado. - É verdade.

- Um convidado especial. - De luxo.

Entra, Daniel, por favor. Como estás?

- Obrigada. - Obrigado, Cris.

- Senta-te. - Olá, Dani.

Convidámos o Dr. Daniel Huterini,

advogado da associação Vidas Enlazadas

e um amigo nosso.

- Obrigado, Cris. - Obrigada.

Como sabem, gosto sempre de começar

por dizer que, da sexta à 14.a semana de gestação,

o coraçãozinho do bebé bate

13 milhões de vezes. - Treze milhões.

Não acredito. Cada vez que dizem 13 milhões de vezes,

nem consigo imaginar. Algo tão pequenino.

Treze milhões de vezes.

Depois, gostaria de salientar

que a legalização do aborto

é uma moda que se espalhou no mundo inteiro.

Huterini, certo?

- Sim, com H. - Desculpe, senhor,

mas não pode chamar a uma luta que se trava há décadas,

há séculos, pelo direito a decidir sobre os nossos corpos, "moda".

Deixe-me terminar.

A cada ano, no mundo inteiro,

fazem-se 50 milhões de abortos.

É um holocausto silencioso e cruel.

Primeiro, é moda, agora é um holocausto?

- Não entendo o alvoroço. - É que não pode dizer isso.

Desde 1943, não houve uma mulher presa por isso.

A Belén está presa há mais de dois anos por um aborto espontâneo.

Não, doutora, seja franca. Ela está presa por homicídio,

não por um aborto.

Para falar do caso, devia conhecê-lo.

- Se quiser, conto-lho agora. - Perdão.

O meu singelo contributo para o tópico...

Não, vejamos o que diz esta atrasada.

Estou certa de que muitos de vocês têm animais de estimação.

- Sim, a Coquita. - É tão linda.

O mesmo se passa com os espetadores.

Estava a pensar: que fazemos quando uma cadelinha está prenha?

Não a levamos ao veterinário para abortar, pois não?

Lamentamos o que se passou

e procuramos desesperadamente alguém a quem doar os cachorrinhos.

- Levamo-los ao parque... - Por exemplo.

Há sempre gente boa.

- Isto é uma piada? - Desculpe, é uma piada?

- Não acredito. - Não acredito.

- Não é uma piada. - Estou a tentar dizer

que não há nenhuma mulher presa, condenada por fazer um aborto.

Mais de 200 mulheres foram acusadas

nos últimos anos em Tucumán. - Boa.

Perde um filho e fica com cadastro. É uma loucura.

- Dá-lhe. - Nenhuma mulher presa.

Exatamente. Serem acusadas não é estarem presas...

Repito, neste momento, nesta cidade,

há uma mulher de 27 anos presa por ir ao hospital com dor de barriga,

que era afinal um aborto espontâneo.

A senhora teve o seu tempo com o Beto, portanto...

Posso expor a minha posição?

Tive três minutos. Três míseros minutos.

Tive de levar com os seus disparates e a cadela da senhora.

Tudo farinha do mesmo saco.

Não. Inútil é discutir consigo o que é estar grávida.

Mas, como adora assumir o controlo de tudo...

E tu, Beto, que atrasado mental.

E tu, Cristina, idem. E mais velha.

Não tanto como você. Tanto ódio, doutora.

Estão a dizer que temos muitas mensagens.

"Batalha campal no programa de Beto."

"Posso dar a essa advogada o que lhe falta."

- O processo? - Talvez.

Deve ser.

- "Serei amigo do peito da advogada." - Não.

"Engravidava essa abortista."

"A cara do Beto Bolaño... Estava tão chateado."

"A mulher impôs-se. Fez muito bem."

"Pobre rapariga. Com uma defesa dessas, não sai nem daqui a 100 anos."

Desculpem.

LIBERTEM A BELÉN REVERTER A DECISÃO

Olá. Desculpe. Informação sobre o caso da Belén.

Mais cedo ou mais tarde, o aborto será legalizado na Argentina.

Mas o que nunca será legal...

Olá. Desculpe. Posso dar-lhe informações sobre a Belén?

Teve um aborto espontâneo. A informação está toda aí.

Entrou com um aborto e acabou presa.

Isso só acontece por um motivo.

Continuam a decidir sobre os nossos corpos.

Estaremos todas as terças-feiras na Plaza Independiente

para pedir a libertação dela.

Liberdade para a Belén, já, e reversão da decisão.

A Belén foi a um hospital público...

Ainda tens alguns?

Sim, passei pelo mesmo no Alberdi.

Mas não sei se posso dizer o meu nome.

Sim, eu também. Trabalho na Câmara.

Olá, amor.

Então?

Eu levo-o e volto.

Ajudas-me a distribui-los?

- Sim, claro. - Tens a certeza?

- Sim, a elas. - Vai.

Acontece-me o mesmo. Trabalho na Câmara.

Não posso dizer o nome.

- Manuel! - Que aconteceu às amigas da Belén?

Receiam que nos empregos fiquem a saber.

Várias mulheres querem falar, mas não querem ser identificadas.

E se as filmarmos de costas para a câmara?

Reduz o impacto da mensagem.

Além disso, precisamos de que venham. Queres que fale com elas?

- Não, eu falo. - Tens os folhetos?

- Eu falo. - E a lista de distribuição?

Para, Manuel, não corras. Ainda te magoas!

- Não sou o Manuel. Sou o Lauti. - Desculpa, Lauti.

Que se passa?

Três juízes condenaram-na a oito anos de prisão

por homicídio agravado por parentesco,

sem nenhuma prova.

Está presa porque é mulher e porque é pobre.

Por isso, somos todas Belén.

TUCUMÁN: MARCHA PARA LIBERTAR A BELÉN

Para que mulher alguma receie o hospital.

Liberdade para a Belén, já.

É nisto que consiste o amor.

Não que tenhamos amado a Deus, mas porque Ele nos amou.

E enviou o Seu filho para redimir os nossos pecados.

"O espírito do Senhor está sobre mim,

porque me ungiu para pregar boas-novas aos pobres.

Enviou-me para curar os quebrantados de coração.

Enviou-me para proclamar a liberdade aos cativos,

para recuperar a vista aos cegos,

e dar a liberdade aos oprimidos."

Tomás?

Se ajudamos alguém de livre vontade

e essa pessoa mente e nos engana, que nos acontece?

Isso será o calvário dessa pessoa.

Nunca devemos arrepender-nos de ajudar alguém.

Mas estou a fazer coisas boas, a ajudá-los, e eles agem mal.

Não devia redimir-me?

Para Deus, há sempre redenção, Tomás.

Esse é o nosso trabalho enquanto Cristãos.

Mas dá-me um exemplo, para eu entender o que queres dizer.

Por exemplo, se alguém defende uma assassina.

A minha mãe não defende uma assassina, idiota.

Que disseste, Flora?

Ele diz isto pela minha mãe.

Que foi, chanfrada?

Não falem assim.

Falas da minha mãe sem saber.

- É um idiota. - Defende a assassina.

Vocês os dois, lá para fora.

- Porquê? - Lá para fora.

A viagem de finalistas, a comissão...

- Olá, querida. - Mãe.

- Vamos? - Posso ir lanchar à casa do Benja?

Não creio que a mãe do Benja queira que vás. Não faz mal.

Um segundo. Soledad!

Tenta responder no chat, por favor.

Estamos a tratar da data para o vídeo. Só faltas tu.

- Obrigada. - De nada. Adeus.

- Querem ir lanchar fora? - Sim.

Esta rapariga... Céus. Não quer saber.

Não responde às mensagens.

- O processo. - Não está aqui.

Como é aparecer na televisão?

Nome?

Caso de Julieta Gómez.

Bom dia. Vimos buscar o processo.

O processo.

- Nome? - Gómez, Julieta.

- Assunto? - Sabe bem qual é!

Gómez, Julieta. Processo 12941 de 2014.

Assunto, por favor.

Homicídio agravado por parentesco. Está contente?

O processo não está aqui. Falta uma assinatura.

Volto amanhã.

Não! O Ciro falhou!

- Inacreditável. - Inacreditável.

- Em frente à baliza. - E sozinho.

Ele é tão mau. O teu cão joga melhor.

- Temos de lhe ensinar. - Temos mesmo.

- Só isso. - Boa.

- Até logo. - Adeus.

Até logo.

És filho da Soledad Deza?

Sim.

Toma.

- Entrega à tua mãe. - Está bem.

- Olá, amor. - Olá, mãe.

- Como estás? - Bem.

O pai?

Está lá em cima.

Certo.

Há quanto tempo estás a jogar?

Comecei agora.

Tens aqui uma carta.

Uma carta para mim?

- Sim, para ti. - Está bem, lê-ma.

Está bem.

"Olho por olho, filho por filho."

Quem te deu isto?

- Um homem. - Que homem?

Um homem na rua.

Estavas sozinho na rua?

- Não, estava com o Lauti. - Não podes andar sozinho.

- Não, mas... - Olha para mim.

Não andas sozinho.

Não é boa altura para andares sozinho.

- Mas não vim sozinho. Vim com o Lauti. - Adoro-te.

Nem com o Lauti.

Isto...

"Olho por olho, filho por filho."

Não repitas isso!

Desculpa.

- Jogo? - Força.

- Truco. - Eu quero.

De certeza?

Isso. Bem jogado. Vês? Ganhaste.

Tinhas envido, mas não disseste.

Vamos jogar outra vez. Baralha.

- Manuel! - Que foi?

Estás aqui! Flora, fica com o teu irmão.

Cuidado com os vidros. Fiquem aqui.

Sim.

Dr. Deza.

Então, Fariña?

Há um tempo que não te via no clube.

Sim, parei de jogar ténis.

O piso do campo e os meus joelhos não se dão bem.

Tens de jogar com cuidado.

A tua filha é que devia ter cuidado.

Falou de mim na televisão.

Não sei que se passa com ela.

Quer Tucumán toda contra ela?

Não me parece.

Acho que não estão a dar-lhe acesso ao processo de que precisa

para fazer o seu trabalho, não é?

O processo precisa de assinaturas, foram anexados documentos...

Sabes como é.

Não, não sei.

Nem todos os advogados fazem o mesmo.

Não, disso tenho a certeza.

Tu és um dos que podem salvar a vida de alguém.

Tu também podes salvar a vida de alguém, Fariña.

Um beijo meu à tua filha.

Olha por ela.

Vocês deviam ir para a casa da montanha durante uns dias.

O quê?

- Seria o melhor. - Não.

- Sim. - Não.

Não tens medo do que aconteceu?

- Bem, sim. - Então?

Mas tenho mais medo de te deixar aqui sozinha.

Não, digo à Bárbara que fique comigo.

Não. Escuta. Se os tipos ficaram assim,

é porque estás a fazer o que está certo.

Não ouviste o teu pai?

É por isso.

Não vou.

Fico aqui. Faço-te companhia.

Fico contigo. Não te deixo sozinha.

Não te deixo sozinha.

Não te preocupes. Não vamos a lado nenhum.

... doce companhia, não me abandones...

... de dia ou de noite, até despertar nos braços de Jesus, Maria e José.

Anjo da Guarda, doce companhia,

não me abandones, de dia ou de noite.

Anjo da Guarda, doce companhia, não me abandones de dia ou de noite.

Olá, amor. Como estás? Espero que estejas bem.

Escuta, pensei que, para o vídeo do "Gangnam Style",

os pais podiam todos usar perucas.

Está a correr bem. Temos de recrutar mais gente.

É do que mais precisamos, porque estamos muito ocupadas.

Mal nos deem o processo,

podemos pedir uma audiência. Mas não te preocupes.

Disseste que as miúdas de Buenos Aires vinham.

Sim, as "Ni una menos". Veremos quanto tempo ficarão.

Mas isso vai ajudar-nos, sim.

A Paola leu-me um artigo no jornal de Salta.

Sim, um excelente artigo.

Admiram-me tantas assinaturas.

- Até de África. - É um bom artigo.

Em África, em Espanha, em França,

na Rússia e no Paquistão. - É bom, não é?

- É bom. - Muito bom.

Que se passa?

Nada.

- Obrigada, padre. - De nada.

Até breve.

- Hoje é dia de confissão. - Certo.

Vi-te na televisão.

Estiveste bem.

Obrigada, mas acho que não.

Não podemos descontrolar-nos. É o que eles querem.

- As raparigas daqui riram-se. - De mim.

- Não. - Não faz mal.

Não! Tu é que vais rir-te de mim.

Quando te vi na televisão, tive a certeza de que me tirarias daqui.

Querida, estás bem?

Calma, está tudo bem.

Vem cá, amor.

- Estás sozinha? - Sim, entra.

Não.

Amanhã, é o batizado da filha do Bartolini. Vais?

O Diego foi convidado. Mas porque iria eu? Para ser linchada?

Devias ir.

- Queres que seja linchada. - Não.

Não. o Fariña vai lá estar. É o padrinho. Vai.

- Adeus. - Adeus.

Por favor, espera até terminar a cerimónia, sim?

Sim, disse que o faria.

O teu pai é doido. Está sempre a atiçar-te.

Não o metas nisto.

Bem, tudo bem. O que decidires, estarei ao teu lado.

Vá, vamos.

- Vá, vamos. - Vamos.

E Jesus, depois de ser batizado,

emergiu da água

e os Céus abriram-se.

Ele viu o espírito de Deus...

Obrigado, padre.

- Bonita celebração. - Obrigado. Até breve.

Raúl, temos de ver isso. Temos de discutir...

Olá, Sr. Fariña. Como está?

Esperem por mim lá fora. Vamos almoçar.

Em nome do Pai, do Filho...

Tem algo de que preciso.

Ámen.

Amanhã, tenho de ir ao tribunal.

Posso ir buscar o processo que o senhor vai autorizar,

ou posso apresentar queixa por divulgação indevida

do nome da ré. Que prefere?

Vá buscá-lo.

Só tem de esperar

que eu regresse de férias. E, depois, são as férias judiciais.

Já esperou tanto, que mais dois meses não mudarão muito.

O quê?

- Mais dois meses? - Espera...

Não mudará muito?

- Não grites aqui. - Ele está a dizer disparates.

Acalma-te.

Vamos lá! Os finalistas de San Bartolomé!

Os de trás olham para os da frente como orientação.

Não sei o que fazemos aqui. Isto é de loucos.

Ultimamente, tudo o que sugiro te parece de loucos.

- Ou estúpido. - Isto também parece estúpido.

Fá-lo a toda a hora. Desacreditas-me diante da equipa.

Há dias, fizeste-o com a Coca.

- Com a Coca? Quando? - Não sou a única a pensar assim.

- Que queres dizer? - Nunca reparas em nada.

De que estás a falar?

Vês o que eu digo? Nunca me levas a sério.

És sempre tu, tu e mais tu. Para. Estou cansada.

Devo estar cansada.

Espera. Espera até ele sair.

Vamos!

- Olá. - Olá.

Olá!

Está cá alguém?

- Olá. Como estão? - Que tal? Tudo bem?

- Como está? - Ótima.

Disseram-te que eu vinha, certo?

Não. Talvez tenham dito ao meu colega. O Raúl foi almoçar.

Sim. Acabámos de ver o Raúl e ele disse que te pedíssemos o processo.

Não deixaram nada.

Mas, se esperarem, posso ligar-lhe a perguntar.

Não, não é preciso ligares, ele está a almoçar.

Eu ligo.

Vamos.

- Ele deixou o telefone aqui. - Que pena.

- Terão de esperar por ele. - Não.

O Raúl disse que me darias o processo,

por isso, se não fizeres o teu trabalho, chamo o responsável do arquivo,

algo que não queria fazer. As pessoas não fazem o trabalho.

O responsável do arquivo...

Eu, no teu lugar, evitava isso.

Ela, quando está cansada, fica maldisposta.

O ficheiro está na prateleira do meio.

Se quiseres, traz a pilha,

que ajudo a encontrar. No meio, à direita.

Lá em cima. É Gómez.

Tudo bem. Se dizem que falaram com ele, não há problema.

Há vários. Temos de procurar.

Alonzo,

- Guerrero... - És de onde?

- De Córdoba, minha senhora. - E mudaste-te para cá?

Sim, o meu tio é juiz

e arranjou-me uma transferência. A minha ideia é terminar a faculdade.

Boa. Que mudança de vida.

Sim. É lindo. Barletta.

- Gómez... - É esse!

- Aqui tem. - Perfeito. Olha.

- É esse? - Sim, é este mesmo.

- Como se chama o teu tio? - Jorge Fariña.

- Manda-lhe um beijo meu. - Mando, sim. De quem?

- Da Beatriz Camaño. - Obrigada.

De nada. Peço desculpa.

Autópsia de feto desconhecido. Sexo masculino.

E no exame externo escreveram:

"Feto do sexo feminino, com cerca de 32 meses de gestação."

O quê? Meses?

E neste certificado diz:

"Feto com 20 semanas."

Vês? Neste, diz: "Feto com 26 semanas."

Neste: "Feto com 40 semanas."

- Vai ser engenheiro. - Exatamente.

- Claro. - Olhem.

O registo médico está todo rasurado. Passa diretamente para homicídio.

O certificado do procedimento indica que o corpo se extraviou.

Claro. Daí não ter ADN. Não havia corpo de onde o recolher.

Sim, e era também por isso que não nos davam o processo.

Agora, pedimos uma audiência.

Passámos por um suplício com o processo, agora vamos pedir uma audiência.

- Mas temos o processo. - Pois temos.

Entrem.

18 de agosto...

Obrigada por teres vindo.

Meninas, esta é a Flor. É nova.

- Olá! Bem-vinda. - Ela escreve resumos.

Mecha, como estão as bandeiras?

Ótimo. Vai ajudar-nos.

Olá. Que bom. Obrigada!

Dá-lhe um folheto.

- Olá! - Como estás?

Sim, comunicação, imprensa.

Entra.

Aqui, estão a fazer os autocolantes.

Senta-te aqui. Podes ficar aqui.

Sole.

Explica-lhe. Como estás?

Sole, queres ajuda em alguma coisa?

Não.

Distribuo as pizas. Sim?

Sim, tudo bem.

Alguém quer piza?

Obrigada.

- Que bom aspeto. Sim! - Obrigada.

Faz isso, Paulina.

Força.

Amor, estamos a filmar.

Obrigada.

Dois segundos e começas, Perla.

Que nenhuma mulher tenha medo de ir ao hospital.

Liberdade para a Belén, já!

Toma, usa o lenço.

- És a seguir? - Sim.

Certo.

Estás pronta? Vamos.

Na próxima terça-feira, marchamos às 16 horas

em todas as praças do país.

Olá. Estamos aqui.

Hoje, somos mais do dobro.

Obrigada.

LIBERDADEPARABELÉN PRESA POR SER MULHER E POBRE

Fez uma birra e eu calcei-lhe os sapatos.

Durante duas horas. Detesta-os. São novos.

Ela gosta de andar descalça.

Está diferente. Parece outra criança.

Está a crescer.

Sim.

Olha!

Leste as cartas que te mandaram?

Com força.

Fogo!

Fogo!

- Fogo! - Fogo!

- Socorro! - Fogo!

Fogo!

- Paola! - Está a arder!

Paola, vá la!

Paola, ajuda-me!

Vá!

Vamos!

Socorro!

Que aconteceu?

Chamem uma ambulância!

- Julieta! - Não podes ajudar? A Julieta está ali!

- Informação sobre a reclusa, por favor. - Pavilhão 24, unidade quatro.

Inalou fumo e desmaiou.

Quanto tempo esteve inconsciente?

Mais ou menos 15 minutos.

- Ela está calma? - Estou aqui.

Aqui, sou paciente, não reclusa.

- Largue-me! - Eu trato.

Pronto.

Ainda estás tonta?

- Sim. - Sabes quem foi?

Ali está a Juli.

Querida!

Juli!

Olá!

Julieta, vem comigo.

- Que foi? - Vem comigo.

O caixote preto, Julieta.

É toda tua. Eu vou para a frente.

Já está.

Que estás a fazer?

Levei o lixo e deixei a porta aberta.

E se, da próxima, eu não estiver para apagar o fogo?

Não vou fugir.

Vou sair pela outra porta. Pela da frente.

Ali.

Tinha uma irmã com quem partilhava tudo.

O mesmo grupo de amigas,

roupa, música,

saíamos juntas...

Temos de tirar a Belén o quanto antes.

A situação é crítica. Pegaram fogo à cela dela.

Pode ter sido uma fanática religiosa ou pressão interna.

Nestes quatro meses, desde que pegámos no caso,

recebemos todo o tipo de ameaça, queriam impedir-nos...

Sempre foi sossegada, mas, se a fazia rir, o seu riso era contagioso.

LIBERDADE PARA A BELEN

Precisamos de apoio das organizações.

A próxima manifestação tem de ser contundente e federal.

Estamos de acordo.

Era alegre, animada e sempre disposta a ajudar.

E era a melhor pessoa que algum dia conheci.

... para acabar com estas intimidações é com uma praça repleta de mulheres.

Em 12 de março de 2014, ela sentiu-se doente,

foi às urgências e prenderam-na.

E, como esta luta tem de ser travada nas ruas,

temos de convocar uma marcha enorme.

Em todas as praças de todas as províncias.

Agora, a minha irmã é a Belén.

Desde que está presa, as minhas amigas dizem

que temos de ir a lugares aonde íamos com ela,

para que não esqueçamos que ela não está.

Nesta reunião pela libertação de Belén, delinearemos

um plano de luta e ação.

Mas falta uma.

E, se falta uma, é como se faltássemos todas.

Pela Belén e por todas.

Liberdade para a Belén, já!

Liberdade para a Belén, já!

Vemo-nos nas ruas.

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

Agora, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

Agora, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

Agora, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

Agora, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

Agora, é essencial!

A MATERNIDADE OU SERÁ DESEJADA, OU NÃO ACONTECERÁ

Agora, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

CASO BELÉN TUMULTOS EM TUCUMÁN

Não há dúvida de que a manifestação foi multitudinária.

Isto gerou...

Olha a confusão que estás a armar.

... até indignação, podemos dizer.

Houve um momento em que pediram para retirar os cartazes

que não foram retirados pelo tribunal

e verificámos...

... injustiça.

Mas, além disso, com esta rapariga... Foi inesperado

e um aborto espontâneo. Injustiça total.

Por isso, estamos aqui. Queremos que o juiz veja...

- Desligue isso. - ... que ela tem de ser libertada.

Já, é essencial!

Libertem a Belén, as autoridades são responsáveis.

- Estou? - Soledad Deza?

Sim.

Fala Vilma Blanco, da Defensoria Pública Nacional.

- Está em San Miguel, neste momento? - Sim.

- Está longe do tribunal? - Não.

Vá lá e fale com Gustavo Brunetti, ele dar-lhe-á uma data para a audiência.

Mas não perca tempo. Ele está à sua espera.

Olá. Sou advogada e tenho de entrar.

Deixe-me ver.

- Pode passar. - Obrigada.

Obrigada.

Justiça para a Belén!

Olá.

Quinta-feira, às 10 horas.

O quê?

- A audiência. - Esta quinta-feira?

É demasiado cedo, não é?

Senão, só para o ano que vem. Em 25 de março.

A minha ré não pode esperar até ao ano que vem.

Peguei no caso há quatro meses. Recusaram o processo...

Esta quinta-feira ou para o ano. A decisão é sua.

A história de Belén é a história de um acontecimento obstétrico adverso

que se transformou num caso...

... de ter matado o seu bebé com base no depoimento de testemunhas...

... que encontraram um feto de cerca de 22 semanas...

... estarão aqui, no tribunal,

para decidir o futuro da jovem de Tucumán.

... na prisão. Agora, a advogada está a tentar...

- ... no Hospital Alberdi, nesta cidade. - ... a advogada, Soledad Deza...

... após sofrer um aborto espontâneo no Hospital Alberdi, nesta cidade.

Desde cedo, organizações feministas

estão a convocar uma manifestação na praça do tribunal.

Dez organizações de direitos humanos pedem a libertação dela...

O mundo inteiro estará a assistir, mãe.

... de ter matado o seu bebé, quando nasceu, no Hospital Alberdi,

em San Miguel de Tucumán.

Não podemos ir naquele carro.

"Chupa-me a p..."

PUTA CHUPA-ME A PILA

Vai, Soledad!

Vai, Soledad!

Estás aqui!

Estás pronta?

Eu? Pronta?

Certo, vamos.

Mulheres, ouçam, juntem-se à luta!

Mulheres, escutem, juntem-se à luta!

Na noite de 12 de março de 2014,

Mabel Gómez levou a filha ao hospital com uma forte dor de barriga.

No Hospital Alberdi, foi tratada pelo que aparentavam ser

as sequelas de uma peritonite recente.

Ninguém, nem as enfermeiras ou o primeiro médico que a examinou,

nem a própria mãe da Belén,

suspeitaram de que estava a sofrer um aborto.

E foi quando a polícia entrou de rompante no bloco operatório,

pegou nos registos médicos, riscou "aborto espontâneo"

e escreveu, sem nenhuma prova, "homicídio agravado por parentesco".

A Belén nunca teve a presunção de inocência.

Foi sempre culpada.

Pelos que a trataram e pelos que deviam defendê-la.

Uma má defesa oficiosa

torna impossível o acesso à justiça.

Todos sabemos isso.

O tribunal devia ter dispensado a advogada oficiosa

e dado à Belén, pelo menos, um julgamento justo.

A Belén tinha 24 anos quando isto aconteceu.

Tem, agora, 27.

Esteve na prisão desde então.

Teve de esperar dois anos para ter uma sentença.

Mais dois anos na prisão sem provas,

sem representar risco de fuga, sem nenhuma explicação.

Dois anos é muito tempo.

Mas parece não ser o suficiente para ler um processo.

Porque, se alguém que trabalhou no caso dela

tivesse tido tempo de pelo menos ler as provas,

teria compreendido que é impossível culpar alguém

de homicídio agravado por parentesco

quando não é possível provar o parentesco.

O feto, juízes, desapareceu misteriosamente.

O ADN não foi testado, não há ADN.

Aliás, o feto muda em cada certificado.

Num, 18 semanas, sexo feminino.

Noutro, 34 semanas, sexo masculino.

Como prova contundente, chegou a aparecer do outro lado do hospital,

tornando impossível a Belén cometer o crime

no espaço de tempo declarado.

A viver em democracia, num hospital público,

a Belén foi assediada,

torturada e condenada, tudo na mesma noite.

Os médicos assumiram o papel da polícia.

A polícia assumiu o papel dos médicos.

E os juízes prenderam uma pessoa inocente sem provas.

Parece-me importante pensarmos porque estamos aqui hoje.

Quem é que a justiça defende se não gente como a Belén?

A justiça está na mão de pessoas como os senhores, neste caso,

com as vossas convicções e coisas que não podem,

em circunstância alguma, sobrepor-se à tarefa que têm em mãos.

Estão aqui, com ar condicionado,

a ouvir uma declaração de defesa.

Não ouviram a verdade da Belén

ou as reivindicações das mulheres nas ruas.

Não ouvem os gritos de uma menina de 11 anos obrigada a dar à luz.

Ou o pedido de milhares de mulheres que querem proteção

e continuam a ser mortas pelos seus agressores.

É inútil se não ouvem o processo social

que estamos a viver neste país.

Neste momento, por exemplo.

Conseguem ouvir?

Ouvem as mulheres na praça?

Ouçam, porque os gritos não vão parar.

E, se ainda assim não escutarem,

a nossa lei não será suficiente,

quando aqueles que são responsáveis por fazê-la cumprir

são os mesmos que a corrompem.

Não haverá justiça suficiente.

Não haverá piedade para os fracos em Tucumán

se nos mantivermos em silêncio perante a cumplicidade.

Não contem mais com o nosso silêncio.

Esse foi o silêncio que manteve a Belén presa até hoje.

Liberdade para a Belén, já!

Olha lá para fora.

Todas estas pessoas estão aqui por ti.

Justiça!

E agora que estamos juntas!

E agora que estamos juntas!

Agora que podem ver-nos!

Agora que podem ver-nos!

Dá-me outra Mirinda de maçã?

Olá.

Sim!

Sim!

Sim!

Obrigada!

Vou-me embora!

Vou-me embora!

Parabéns!

Vai, Julieta, vai!

- Vamos? - Sim.

- Estás pronta? - Sim.

- Vamos? - Vamos.

Quem é a Belén? Eu sou a Belén!

Vamos!

Quem é a Belén? Eu sou a Belén!

O caso da Belén mudou

a luta pela legalização do aborto na Argentina.

Quatro anos depois, movimentos de mulheres e dissidência

celebraram nas praças e ruas

a aprovação da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez.

NEM MAIS UMA MULHER POR ABORTO CLANDESTINO

Atualmente, Soledad Deza dirige a Fundação Mujeres x Mujeres

na província de Tucumán.

Trabalha sem parar

nos direitos de mulheres e dissidências.

... qualquer pessoa presa, privada da sua liberdade durante o julgamento...

A filha, Flora, trabalha com ela na fundação.

... sem provas, gostaria de manter o anonimato.

SOLEDAD DEZA ADVOGADA DE DEFESA

A liberdade e a identidade

são os direitos humanos mais básicos, julgo eu.

Privacidade. Até o liberalismo mais tradicional protege privacidade.

LIBERDADE PARA A BELÉN

Belén deixou Tucumán e permanece anónima.

Seis meses após conquistar a liberdade, foi absolvida das acusações.

Decidiu tornar pública a sua história, para que não volte a acontecer.

Este filme é dedicado a ela.

NÃO À CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES

Legendas: Maria Santos

Supervisão Criativa Hernâni Azenha

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