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O orgulho. Esse foi meu pecado, mas n�o o assassinato.
Eu n�o sou uma assassina.
S� o que eu sempre quis fazer na vida � ajudar.
Nosso pai sempre nos dizia:
"Nunca julgue um c�o pela apar�ncia."
A Elena n�o devia ter tido o beb�. N�o sei de qual das duas tenho mais pena.
J� contei tudo que sei pra voc�s.
Sempre vi todos os beb�s como um presente de Deus.
Eu s� estou aqui por causa da Ane.
O que ser� da Ane?
A Ane n�o fez nada de errado! N�o fez nada de errado!
Mas ser� que esse beb� era um presente?
ASSASSINADO
O que ser� da Ane?
Onde ela vai morar? Quem vai cuidar dela?
Esse beb� merece a chance de crescer sem essa energia negativa.
Merece quebrar o ciclo familiar.
NAQUELA NOITE
Paula.
Paula, calma.
Devagar.
Voc� veio.
Eu vim me despedir.
Por favor.
J� decidi. Nada que me diga vai me fazer mudar de ideia.
S� n�o queria simplesmente sumir.
N�o quero fazer isso.
Entendo que voc� esteja brava, Lu.
N�o.
N�o estou.
Agora, com essa plateia toda, n�o posso ser mais espec�fica, mas�
sinto muito.
Por tudo.
Eu sei. Assim como sei que faria tudo de novo.
S� acho que�
n�o conseguiria fazer de nenhum outro jeito.
Nada justifica eu n�o ter te ligado.
O papai estava convicto de que tinham grampeado os telefones.
Mas eu devia ter escrito pra voc�.
Tanto faz. Mesmo que tivesse, est� claro que sempre vai prioriz�-los.
� que n�o tenho outra escolha, Lu.
Devo isso a eles.
Naquela noite, quando �ramos pequenas�
eu podia ter agarrado minha m�e quando ela passou do meu lado.
Mam�e!
Eu podia ter salvado todos, mas n�o salvei.
Paula, sabe o que �?
Eu n�o ligaria se voc� priorizasse suas irm�s a mim, mas�
n�o posso estar com algu�m que priorize outra pessoa ao nosso beb�.
Bom, isso n�o ser� mais problema.
�. Os m�dicos me disseram.
Ela se foi.
Sabia que eu achava que era menino?
Bom�
Lu, quando me recuperar, vou com voc� pro canto do mundo que voc� quiser.
E fico gr�vida de novo. E rompo de vez com a minha fam�lia.
Mas n�o posso te perder.
Oi, Cris.
Lu�sa! N�o sabia que estava aqui. Eu te liguei v�rias vezes.
�.
Estava com a Paula? Sabe se ela j� acordou?
Sim, ela t� acordada.
O papai tamb�m t� aqui.
A Elena, eles levaram� de volta pra cadeia.
O que v�o fazer com ela?
O Mariano est� tentando dar um jeito de ela ficar com a Elena.
Pequena�
Seu futuro t� nas suas m�os, viu?
Vou estar pensando em voc�.
T� indo embora?
Sim.
E se extraditarem n�s todas?
Mas voc� n�o fez nada de prop�sito.
�, mas o Mariano disse que o lance do ato involunt�rio
nem sempre cola como desculpa, ent�o quem decide � o j�ri.
E o que acontece com a Ane se levarem todas voc�s pra l�?
At� uns segundos atr�s, eu achava que talvez ela pudesse ficar com voc�.
Afinal, sempre quis ser m�e e�
N�o digo pra te pressionar, mas pra mim era a melhor op��o.
Fora que�
voc� � a dona do maior cora��o desta fam�lia, Lu�sa.
Acontece que n�o sou mais da fam�lia, Cris.
Ent�o vai ter que ficar com meu pai, suponho.
Bom�
Adeus.
Adeus.
Cris,
aconte�a o que acontecer,
n�o deixe seu passado estragar seu presente, t�?
Meu amor, eu te prometo, t�?
Cristina.
Oi.
Como est�? Um beijo.
Bem.
Ent�o, tenho uma boa not�cia.
O Mariano me disse que n�o acha que v�o denunci�-lo
pela tentativa de fuga e que, se denunciarem,
d� pra alegar que estava tentando ajudar suas filhas.
Nunca ajudei voc�s na vida.
Nunca.
Sua m�e se suicidou, Cristina.
�.
A mam�e n�o estava bem, pai.
E eu culpei a Paula e voc� por 22 anos.
- A Paula sempre sofreu mais. - Eu sei.
Vou pedir desculpas pra ela assim que a vir.
Que bom.
E tamb�m vou pedir desculpas ao filho dela.
Quando eu o vir no C�u.
As novas imagens que vieram � tona fazem a balan�a pender
a favor da extradi��o pedida pela Justi�a dominicana.
As imagens contradizem as declara��es da defesa dos Arbizu,
que afirma que o policial dominicano teria tido um ataque de raiva
ao perceber que uma delas havia posto son�feros em sua bebida.
No entanto, v�-se no v�deo
que, embora Elena Arbizu tenha tentado drogar o policial,
n�o chegou a despejar a subst�ncia na bebida dele.
Esses desdobramentos complicam as coisas para Elena Arbizu e sua irm�, Paula�
A Elena n�o sabia que um legista teria percebido?
�tentando evitar a extradi��o.
No m�s passado, foi arquivada a den�ncia por conspira��o contra a irm� Cristina,
ap�s ela colaborar com as autoridades para ajudar a�
Por que a Elena mentiu?
�o crime na Rep�blica Dominicana.
Lembramos que o corpo de Wilfredo G�mez
foi encontrado enterrado nos arredores de Punta Cana.
ADAPTA��O | REVIS�O | SINCRONIA: E-MAIL | loschulosteam@gmail.com
Como est�?
Vim te trazer uma boa not�cia.
O Mariano obteve autoriza��o pra Ane vir mamar duas vezes por dia.
No resto do tempo, vai ter que usar a bombinha,
mas talvez daqui a um tempo consigamos aumentar a frequ�ncia�
N�o.
"N�o" o qu�?
Que quero ela aqui.
Mas � o acordo que foi feito.
Mas n�o quero ela neste lugar, Cristina.
T�, mas, Elena�
Txiki.
Olha como eu t�.
Beleza.
Beleza, eu entendo, claro.
Obviamente, n�o � o ideal.
Mas � o acordo que foi feito, Elena.
Al�m disso, talvez daqui a um tempo te transfiram pra Alicante�
Chega, Cristina! Chega.
Beleza? Tomei uma decis�o e n�o vou mudar de ideia.
N�o devia descontar na Ane a raiva que tem de mim.
N�o tem nada a ver com voc�.
- Acho que tem um pouco. - N�o.
Elena, fui � pol�cia porque acredito que a verdade ajuda.
- A verdade? - Sim.
A verdade depende de quem conta a hist�ria.
E n�o quero que essa seja a hist�ria da Ane.
Elena, por favor.
� melhor pra ela.
Muito obrigada por vir, mas j� pode ir, Cristina.
Me escuta.
E se ficar mais tempo aqui?
Muito mais?
E a Ane? Ela quer estar com voc�.
Ela ama a m�e, Elena. Por favor.
Tudo que fiz na Rep�blica Dominicana foi por ela.
Tudo.
Voc� sempre diz isso.
Talvez n�o me entenda.
- N�o. - Sabe por qu�?
- Por qu�? - Porque n�o � m�e.
Sempre agiu como se fosse a minha, mas n�o � m�e.
Falando nisso, �timo trabalho!
- Olha onde t�! - Ei, nada de gritos.
Pensei que ia dizer que nunca vou entender porque eu n�o sou uma assassina.
O papai me disse que, na cabana, tentou contar o que aconteceu�
Podem lev�-la, por favor? Tire-a daqui!
- Que� Leve-a, por favor! - Elena�
Leva!
Elena, eu t� te pedindo! Confessa pela Ane, por favor!
Vai embora!
Leve-a daqui! Vai embora! Vai!
- Ane. - Vai embora!
Ei, Ane.
Merda, desculpa. A gente tinha combinado na recep��o, n�?
Ah, n�o tem problema. Disseram que voc� estava aqui.
Que lindo aqui.
Desculpa.
Ane, o que est� fazendo? Est� escrevendo uma mat�ria?
N�o � uma mat�ria.
Estava vendo se n�o deixamos passar nada nas grava��es e nas transcri��es.
Mas nada.
Ao menos te ajudou a decidir o que fazer?
A Elena nunca confessou.
Em p�blico, n�o.
O que ela disse quando surgiram os v�deos que confirmam que a hist�ria dela � falsa?
Eu acho que, naquele momento,
a Elena estava convencida de que os fins justificavam os meios.
N�o � fim de nada.
� um homic�dio.
Talvez a Paula saiba de algo mais.
Diz que ela n�o confessou nem quando a aut�psia revelou
que o Wil n�o morreu pelo impacto.
� que a Elena estava morrendo de medo. Ela estava em choque.
Mas n�o fique obcecada com isso. Por favor, vamos�
N�o estou. S� quero ir at� o fim pra saber o que aconteceu.
�, Mas pode ser que n�o saiba nunca.
Sinto muito que tenha vindo � toa.
Voc� respondeu � Paula?
N�o.
Queria esperar pra ter certeza de que quero testemunhar a favor da Elena.
Porque voc� n�o sabe.
Claro.
Bom, � normal. � complicado.
N�o � que ele n�o morreu com o impacto. Ele n�o morreu naquela hora.
Ent�o eu n�o entendo.
N�o entendo por que a Elena foi tomar uma decis�o t�o radical.
Vida ou morte?
E, de repente�
tudo muda.
Wil, para.
- Para. - Para voc� com esses pern�es.
Se continuar desse jeito, vou acabar saindo da estrada.
Ei, n�o � por aqui.
- Qu�? - Isto n�o � uma estrada.
- Ah, n�o? - N�o. Vai, d� a volta.
Ei, d� a volta. Anda.
- Perd�o! Tudo bem? - T� louca?
- Tudo bem? - Quer me matar, caramba?
- N�o, n�o fui eu. - Ah, ent�o quem foi?
O carro que atolou ou sei l�. Olha, n�o anda.
Viu?
Espera. Acho que vou vomitar.
No carro n�o, hein?
D� uma olhada no motor?
Acho que deu pane.
N�o entendo nada de carros.
- Muito menos eu. - Que �timo.
- Vou abrir o cap�. - Beleza, eu olho.
T� indo.
T� indo.
T� indo.
Porra.
Vamos ver.
Vamos ver.
Isso vai aqui�
Aqui t� tudo certo. Perfeito. N�o tem fuma�a nem nada.
Espera, j� sei.
Eu dirijo, j� que voc� n�o sabe.
O que voc� faria?
Sobre o qu�?
Se a Elena te pedisse pra testemunhar a favor da liberdade condicional dela.
N�o sei, n�o posso te responder a isso. Ela n�o me pediu.
T�.
Mas olha aqui. Seja l� o que fizer, t� tudo bem.
Se quiser ir, tudo bem. Se n�o, tamb�m. Se quiser, te acompanho. Se n�o, ficamos.
- Viu? - Beleza, valeu.
Quando foi a �ltima vez que foi a Pamplona?
No funeral do vov�, n�?
N�o, voltei mais uma vez pra desocupar o apartamento.
Podemos ir l�?
Pra Pamplona?
Sen�o n�o vou entender a Elena. Preciso ver onde tudo aconteceu.
Sen�o n�o vou me decidir.
Por favor.
Na verdade, acho que � por aqui. N�o sei quem�
Um monumento, sabe?
� que s� dava pra ver meia lua.
- Ficava aqui? - Sim, aqui.
"CRENTE"
"NOSSA M�E QUERIDA"
Voc� se lembra de algo?
Na verdade, n�o.
Eu tinha 4 anos quando fomos embora, n�?
Sim, mais ou� Sim.
Parece menor do que eu me lembrava. Ou do que n�o me lembrava.
� esse?
Sim, aquele das luzinhas. Aquele ali.
E voc�, onde estava naquela noite com seus amigos?
Um, dois, tr�s�
A gente estava ali.
Bem ali.
Ou seja, n�o estava t�o longe.
N�o.
N�o sabe como a Paula gritou.
Cris!
Cris! Me ajuda!
Dois, tr�s, quatro,
cinco, seis, sete�
- N�o! - �oito, nove, dez.
E, de repente,
tudo para.
Por culpa da mulher em quem voc� mais confia�
acaba tudo.
A sorte foi que a Elena s�
teve umas escoria��es e mais nada.
O Roberto e a mam�e n�o tiveram a mesma sorte.
Acho que a alma da Elena se partiu em mil peda�os.
Mas n�o � desculpa pro que ela fez.
Pra todo o mal que ela nos causou, sobretudo pra voc�.
- �. - E n�o quero que isso�
venha a influenciar sua decis�o.
�, mas n�o sei. N�o fa�o ideia do que quero fazer.
Ei, Ane. Vem aqui.
Olha, seja l� o que decidir, est� tudo bem.
Porque a decis�o � sua.
Voc� pode ir
e testemunhar,
ou podemos voltar pra Barcelona e fingir que nada disso aconteceu.
Nas grava��es, voc� diz que fez o que fez em Punta Cana
porque sentia que n�o tinha outra op��o.
Sim, eu disse isso. Eu disse, mas me equivoquei.
Porque tanto na ilha quanto aqui,
tivemos um monte de oportunidades de fazer a coisa certa.
Um monte.
Acho�
Acho que vou dizer pra Paula que vou.
Porque preciso eu mesma ver esses lugares.
N�o estou concordando com nada, t�?
Claro. Como achar melhor.
Voc� iria mais uma vez pra Rep�blica Dominicana?
Comigo?
Por favor.
Senhores passageiros, permane�am sentados e com o cinto de seguran�a afivelado
at� o avi�o parar completamente.
� ela?
Aqui!
Tudo bem?
- Tudo, e voc�? - Tudo. Como foi a viagem?
- Bom, longa. - Tranquila.
Longa.
Nossa, Cris. Quinze anos.
- Tudo isso? - Desde o funeral do papai.
- Como est� linda, Cris. - Ah, por favor. At� parece�
E voc�, Ane� Da �ltima vez que esteve aqui,
era do tamanho de um p�o.
Quem sabe seja por isso que gosto tanto de p�o.
Como a sua m�e.
- Elena� - Sim.
Bom, a Elena � minha m�e biol�gica.
Sim.
Sim, claro.
- Vem, eu carrego isso. - Obrigada.
- Como vamos? - Ali. Eu tenho carro.
- Que calor. - N�o sabia que tinha carro.
- Eu dirijo e tudo. - Olha!
Olha que cheiro gostoso.
Uau. "Sanchoco".
- Sancocho. - Sancocho, isso.
Leva carne, mandioca, inhame, banana-da-terra, car�, milho�
E depois ponho auyama, um tipo de ab�bora.
- Por �ltimo, coentro pra dar um sabor. - E que carne coloca? Porco?
Tecnicamente, se usa uma mistura de carnes.
Paleta de porco, carne de boi, presunto, coxas de frango�
Mas a� j� � demais pro meu bolso.
Entendi.
Que cheiro bom.
Ai, Cris, lembra o carinha com quem voc� sa�a?
- N�o. - Como ele se chamava?
Nunca me disse que teve um peguete aqui.
Sim. Ainda tem aquela tatuagem?
- Cala a boca. - Qu�?
- Nem sei do que est� falando. - O que era mesmo? Um lagarto.
Um lagarto?
Aqui no antebra�o. Agora eu j� n�o sei.
N�o � mais nada. Nada, porque removi.
Quem dera pudesse dizer o mesmo das lembran�as.
Vai, Cris. Como ele se chamava?
Zahi, acho.
- Zahi! - Sr. Zahi?
- Como voc� � boba. - Zahi.
Trombei com ele h� alguns anos numa encruzilhada.
Estava vendendo �gua ou flores, n�o me lembro. Mas era ele.
N�o creio! S� por isso j� valeu a viagem.
E voc�? Ainda trabalhando no hospital?
- Sim, seis dias por semana. - Uau�
Seis dias, Paula?
E com seis dias n�o d� pra ter, sei l�, algo melhor?
Comprar um chinelo novo em vez de remendar com fita?
Eu me viro bem, Cristina.
Mas, claro, tendo que cuidar tanto da Txiki quanto de mim�
Manda dinheiro pra ela?
Sim, o pouco que tenho.
E levo comida pra semana toda aos domingos.
Porque a merda que oferecem l�
S�rio, Paula�
Os tr�s anos que perdeu presa por culpa da Elena�
n�o serviram de nada.
Vai continuar se sacrificando pelo resto da vida.
N�o perdi tr�s anos por culpa da Elena, Cris.
Ajudei a esconder um corpo e menti sobre isso. E ainda fugi.
Isso � cometer um crime.
E at� quando vai se torturar?
Ela � minha irm�zinha, Cris. Isso nunca vai mudar.
Paula, n�o v� por a�.
- Que tal se comermos� - N�o v� por a�. Sabe por qu�?
Porque sempre acabamos igual. Sentindo remorso por aquela noite.
- Paula, estou te pedindo. - Grande ou pequeno?
Paula, voc� perdeu sua mulher e perdeu seu beb�.
- Vamos ver� - Estou te pedindo, Paula.
- As colheres est�o ali, querida. - T�.
Inacredit�vel. Vou dar uma volta.
Primeiro veio a Elena, que deixou o carro no meio da rua.
Mais tarde eu cheguei com o meu.
Isso.
Muito bem! Toma.
Quando cheguei com o meu carro, encostei aqui
e dei de cara com ela de p� segurando uma arma enorme.
N�o sabia o que fazer. Toda assustada.
Eu cheguei, meu carro aqui�
DESCANSE EM PAZ
SUA FAM�LIA TE AMA
Ela falou que viria aqui. Sabe por que ela sugeriu este lugar?
N�o sei. S� se for porque o julgamento foi aqui.
- Se � que d� pra chamar de julgamento� - Por qu�?
Porque foi uma mera formalidade, Ane.
Tr�s turistas tontas matam um policialzinho corrupto�
Um momento. Era s� ela denunciar. N�o justifica t�-lo assassinado.
O cara chantageou sua m�e, Ane.
Paula�
Essa. Essa � a minha m�e.
M�e.
E a�?
Que calor.
Desde quando ela te chama de m�e?
N�o me incomoda, t�? Eu s� n�o sabia.
- Precis�vamos ter pedido permiss�o? - Por que marcou aqui?
Porque suponho que, ap�s o tour com a Paula,
voc� comece a pensar que tem que esquecer e perdoar tudo, n�?
- Cristina, por favor� - Olha ali.
"Veritas vos liberabit."
A verdade vos libertar�.
- Li isso todos os dias por dois meses. - Por que isso agora, Cris?
Pois a verdade p�s a Elena no lugar dela, e acho lament�vel que explorem a Ane
pra tir�-la antes da hora.
Ningu�m est� explorando ningu�m.
N�o? N�o est� fazendo isso por se sentir culpada?
- N�o, n�o � verdade. - A verdade � que voc� virou o papai.
S�rio, Cris?
Sim. Quer transmitir racionalidade pra convenc�-la a testemunhar.
- M�e, foi ideia minha vir aqui. - Ane, n�o se meta.
Talvez quem n�o devesse se meter seja voc�.
Que tipo de tia�
N�o. Que tipo de m�e manda a filha que abandonou
atravessar meio mundo pra vir manipular a verdade?
- A Elena n�o sabe que a Ane est� aqui. - Como n�o sa�
- Como? - Qu�?
Ela nunca teria te pedido isso, Ane.
Espera a�, ent�o isso � tudo coisa sua?
Ela n�o sabe que estou aqui?
Bom, a esta altura, talvez. Mandei um bilhete na cesta de segunda.
Um momento. Falou pra Ane que a Elena queria que ela viesse.
Sim, mas n�o era verdade.
Porra, sempre � tudo igual. Vou te chamar de dona Javiera!
N�o, nada � igual, Cristina. N�o tem nada a ver.
Sua irm� est� desistindo, t�?
E o que falei no e-mail � verdade. Acho que ela est� com tuberculose.
Fa�a-me o favor!
Eles fazem exames e dizem que n�o, mas algo ela tem, porque�
respira mal, anda mal�
Acabou! Eu fico e te conto como foi o julgamento,
mas volte pra casa, bem longe dessa loucura!
Ane, a Elena prejudicou muitos, principalmente voc�.
Por isso � importante estar aqui. A sua defesa � a que mais vai valer.
Voc� pisa em todo mundo pra defender a Elena, n�?
Ela ainda tem 7 anos de pena, sete.
Mas minha menina n�o vai aguentar outro ver�o com essa umidade.
Chega. Est� tentando nos manipular, e n�o vou permitir, Paula.
Por isso a Lu�sa te largou.
Cristina, eu te amo muito. Muito mesmo, de verdade.
Eu tamb�m sinto muito a sua falta.
Mas n�o tem nada a ver nem com voc�, nem comigo.
Tem a ver com sua irm� Elena, a Txiki, que precisa ser salva, Ane.
A Txiki.
Ser� que pode salv�-la?
N�o v�o traz�-la?
Estamos reunidos hoje
para considerar a liberdade condicional por compaix�o
da detenta n� 934-234,
Mar�a Elena Arbizu Otano.
- O que aconteceu? - A Sra. Arbizu�
Nada. Pouca gente, n�? N�o sei, eu esperava mais.
No dia em que condenaram a Elena e voc�, papai e eu fomos escoltados ao aeroporto,
de tanta gente que tinha.
- Isso foi h� muitos anos, Cris. - �.
- Esse caso j� saiu de moda. - N�s que j� sa�mos de moda.
Foi oferecida � detenta Arbizu a oportunidade de falar aqui hoje.
Ela recusou.
Ela nos escreveu dizendo que prefere que todos os depoimentos de hoje
sejam tomados sem a press�o de ter que faz�-los na frente dela.
Obrigado, presidente e membros do tribunal.
Francamente, minha cliente n�o me disse que n�o viria.
Esse homem nem sabe o que dizer.
Tamb�m contamos com depoimentos de outros presos,
assim como de v�rios guardas.
Primeiro, no entanto, gostaria de apresentar ao tribunal
a Srta. Ane Arbizu,
a querid�ssima filha da Elena.
Voc� t� bem?
- Tem certeza? - Sim.
Vai, for�a.
Ai, meu Deus�
Meu nome � Ane Arbizu, moro em Barcelona, Espanha,
e a detenta � minha m�e biol�gica.
Bom, �
quanto ao "querid�ssima filha",
tenho minhas d�vidas.
� voc� que est� dizendo.
- Come�amos bem. - Eu n�o vejo minha m�e�
- Calma. - �desde que eu tinha cinco meses.
Nos �ltimos 23 anos, ela n�o se comunicou comigo nenhuma vez.
Nem liga��es, nem cartas,
nem cart�es de anivers�rio.
Nada.
- O que ela t� fazendo? - Nas �ltimas semanas, revisei�
Est� fazendo o que precisa fazer, Paula.
�sobre o caso que pude encontrar.
Revisei cada p�gina dos autos,
todos os depoimentos, cada interrogat�rio,
cada entrevista que encontrei,
buscando uma resposta � minha pergunta:
ser� que meu depoimento de hoje deveria ser de apoio
ou n�o?
Nos arquivos, n�o encontrei a resposta.
Mas encontrei uma entrevista em que meu av�, que Deus o tenha,
contava � jornalista que minha m�e estava disposta, entre aspas,
"a fazer qualquer coisa para n�o ser separada da filha".
Claramente, n�o era verdade.
E isso me machucou.
Assim como est� doendo hoje e sempre vai doer.
Mas eu creio
que, se minha m�e se separou de mim no dia em que foi presa,
� pela mesma raz�o
pela qual n�o manteve rela��o comigo ao longo desses 23 anos:
porque ela achava que seria injusto
comigo.
E suponho que n�o tenha vindo hoje por essa mesma raz�o.
Sei que muitas pessoas poderiam contar uma vers�o bem diferente
da desgra�a que nos trouxe at� aqui.
Minha tia Paula diria que isso � porque a verdade � relativa.
Mas isso de verdade relativa � algo que combato minha vida toda.
N�o acredito nisso. Acredito nos fatos.
As coisas s�o de um extremo ou de outro, certas ou erradas,
e acho que por isso me tornei jornalista.
Veritas vos liberabit.
A verdade vos libertar�.
H� uma vers�o desta hist�ria na qual Elena Arbizu � um monstro
que fez coisas horr�veis para se salvar.
Em outra vers�o, Elena Arbizu � uma m�e jovem, assustada,
que cometeu um erro para proteger a pr�pria filha.
E essa � a vers�o que eu escolho.
Por isso, hoje pe�o a voc�s
que deem a essa mulher, que um dia cometeu um erro,
a oportunidade de ser a boa pessoa
que sua fam�lia ainda acredita que ela pode ser�
vinte e tr�s anos depois.
Obrigada.
Obrigada.
Voc� foi muito bem. Muito bem.
Muito bem.
- Ai, olha! - Elena!
Elena.
SEGURAN�A
Cad� a Ane?
Ʌ A Ane quer que voc� saiba que ela ficou muito feliz em poder ajudar.
Sim, ela ficou muito contente.
Sim.
Mas talvez ela ainda n�o saiba muito bem, Txiki,
se quer ou n�o um relacionamento com voc�.
Claro.
- Vamos devagar, n�? - Sim.
- T� bom. - S�o muitos anos.
S�o muitos anos, querida. N�? Mas voc� est� livre.
Me d�, meu amor.
Ela j� foi embora?
Eu sempre vou ser muito grata a ela. Sempre.
- N�o diga isso. - Vou, sim.
- N�o diga isso. - Sempre. E�
Eu s� n�o queria machuc�-la mais. Juro que n�o queria.
Fiz bem em n�o comparecer ao julgamento, e sei que ela entende por que fiz isso.
- Ela sabe, n�? - Sabe. Ela mesma disse.
Eu fiz bem! Pela primeira vez, fiz a coisa certa.
Fiz a coisa certa pela primeira vez.
Vem c�, querida.
Fez muito bem, meu amor. Muito bem.
Voc� fez bem.
Eu fiz muito bem.
NAQUELA NOITE
Legendas: Othelo Sabbag
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