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Quando eu era crian�a,
a primeira lembran�a que tenho
� de um sonho
em que eu estava caindo.
Sempre me perguntei, conforme fui crescendo,
se era algum tipo de premoni��o da queda que provocaria minha morte.
Mas eu sinto com muita intensidade
a necessidade de ir em dire��o a esse desconhecido e a esse medo.
DEAN POTTER: O BRUXO SOMBRIO
A CONSEQU�NCIA MORTAL
E...
pronto.
Pode falar.
Meu nome � Dean
- e... - "Meu nome � Dean Potter."
Eu nunca digo que meu nome � Dean Potter.
A menos que esteja falando de neg�cios, e isso � para que as pessoas tenham
uma boa impress�o de mim.
Est� bem.
Ent�o meu nome � Dean.
Existe toda uma mitologia em torno do Dean Potter.
Por muito tempo,
eu conheci o Dean
melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.
BRAD LYNCH AMIGO DO DEAN
E ele continua sendo um enigma.
�.
Vamos iniciar pelo come�o.
Conheci o Dean no deserto do oeste do Texas, no Hueco Tanks.
Era um ponto de escalada bem popular na �poca.
As pessoas passavam o inverno inteiro escalando aquelas pedras enormes.
Logo na sa�da do parque, tinha um Quonset Hut de a�o corrugado.
Eu entrei
e a primeira coisa que notei foi o cheiro dos escaladores.
Tinha sacos de dormir no ch�o
e uns caras roncando.
E tinha um cara
com um pau de barraca grande e comprido
com uma bola de t�nis colada com fita na ponta.
Quando as pessoas come�avam a roncar,
ele batia nelas do outro lado da sala.
Batia e batia.
Eu pensei: "Nossa,
que atitude mais...
dominante, eu acho."
Comecei a escalar aos 17 anos em New Hampshire.
Naquele ano, faltei � aula o m�ximo de dias poss�vel
e fazia qualquer coisa para escalar.
Pegava o carro dos meus pais sem permiss�o,
destru�a o carro dos meus pais sem permiss�o.
Ele tinha um pequeno grupo.
Tinha o Timmy.
Eu era um cara metido a espertinho da Filad�lfia,
totalmente apaixonado pelo momento.
�ramos escaladores, era t�o f�cil.
E tinha o Jim.
Todos est�vamos vindo de uma vida que n�o nos satisfazia.
Na �poca, escalar era uma forma de construir uma nova realidade
de como a vida seria.
Para mim, era uma quest�o de contracultura.
Eu tinha abandonado a escola muito cedo e estava tocando em bandas.
Quando descobri esse cen�rio da escalada,
pensei: "Esse � o meu pessoal."
Lembro que, quando conheci o Dean,
ele era enorme.
Muito alto, 1,98m de altura,
intenso, meio provocador,
mas ele sabia escalar.
A maioria de n�s s� estava se divertindo nas pedras.
Mas o Dean estava explorando algo muito diferente.
Vamos l�.
Legal.
Desde o in�cio,
o que realmente o diferenciava era a rela��o dele
com o medo.
Ele estava em busca de escaladas
que fossem altas
e assustadoras.
Por algum motivo,
o Dean adorava aquela sensa��o de estar l� em cima,
bem alto,
sem corda.
Na escalada free solo,
se voc� cair, pode morrer.
Mas quando ele se via numa situa��o perigosa,
algo no c�rebro dele entrava em a��o
e ele conseguia pegar o medo que ele tinha
e transformar numa for�a sobre-humana.
Naqueles primeiros tempos,
ele era aut�ntico, n�o era famoso.
Ele estava s� descobrindo o poder que ele tinha.
E ali atr�s.
No slackline,
assim como no surfe,
voc� tem que surfar uma onda enorme.
Vamos l�.
O pr�ximo passo foi levar isso a centenas de metros do ch�o.
No highline, ficamos pensando se o sistema vai nos segurar.
Era tudo novo, n�o havia equipamentos espec�ficos para highline.
Um, dois, tr�s.
Um, dois, tr�s.
Ningu�m mais est� desenvolvendo a parte t�cnica do highline.
S� eu e meus amigos pr�ximos.
E eles n�o s�o g�nios.
Ser� que aguenta?
Falha no sistema.
Tentar andar no highline...
mexe muito com a sua cabe�a.
Voc� est� preso � corda...
mas � aterrorizante.
Voc� vai conseguir, Timmy!
Minhas m�os est�o suando agora s� de pensar nisso.
Mas o Dean se aprofundou muito nisso.
� tudo uma quest�o de controle.
De se tornar o mestre da sua mente.
De control�-la.
De certa forma,
a vida inteira do Dean foi sobre essa luta.
�!
ADAPTA��O | REVIS�O | SINCRONIA: E-MAIL | loschulosteam@gmail.com
Ele costumava escrever muito em di�rios.
QUANDO EU ESCREVO, � O QUE VEM DA ALMA
Ele escrevia sobre tudo.
Os maiores sonhos dele.
SIM, EU POSSO
Mas tamb�m umas coisas bizarras.
POR QUE EU QUERO TANTO DO QUE EU N�O TENHO?
Se ele soubesse que lemos esses di�rios,
ficaria morrendo de vergonha.
"Dean? Porra, quem � ele?
Eu nem sei. Ningu�m sabe.
Tomara que eu n�o enlouque�a.
Ainda n�o enlouqueci,
mas sempre h� essa possibilidade."
H� tanta ang�stia.
QUEM EU ESTOU TENTANDO IMPRESSIONAR?
Ele estava claramente sofrendo.
LOUCO FODIDO
Algumas pessoas s�o aben�oadas.
Outras s�o amaldi�oadas.
E o Dean era ambos.
Ele era amaldi�oado com um lado sombrio
que �s vezes o dominava.
Era sempre uma luta com a mente dele.
TUDO � MENTAL
Quando eu o conheci, ele j� ficava pensativo,
muito deprimido.
�s vezes sent�vamos juntos,
ele tomava umas boas cervejas e tal e fic�vamos l� sentados, chorando.
Chorando para caramba.
N�s dois pens�vamos:
"O que est� mexendo nessa merda toda na minha cabe�a?"
Convers�vamos sobre tudo.
Por exemplo, coisas profundas e sombrias da inf�ncia.
ELES EST�O MORTOS PARA MIM
O Dean tinha problemas com a fam�lia.
Problemas de relacionamento.
Ele era perturbado.
PRECISO ACALMAR MINHA MENTE ACHAR LUCIDEZ
E parecia que escalar era a �nica coisa
que mantinha os dem�nios afastados.
PRECISO IR PARA AS MONTANHAS
"Eu escalo para sentir a pureza da mente e do corpo focados,
sem ser atrapalhado por pensamentos externos."
O Dean passou muitos anos morando numa van caindo aos peda�os
e se virando com pouqu�ssimo.
A melhor parte de escalar, para mim,
foi desenvolver amizades profundas,
estar com pessoas que sentem o mesmo que eu.
A alma delas est� em escalar
e em viver um estilo de vida alternativo,
sem muito dinheiro.
Tudo o que queremos fazer � escalar e apreciar o lindo c�u,
as rochas e o mundo ao nosso redor.
Para alguns, isso n�o faz sentido,
mas para n�s � tudo o que existe. � a nossa religi�o.
EU FUI PARA O OESTE
PARA O YOSEMITE
Lembro da primeira vez que fui ao Yosemite com o Dean.
O rosto colado no vidro,
olhando aqueles pared�es.
O El Capitan.
O Half Dome.
Aquilo � descomunal.
� dif�cil de imaginar.
Yosemite:
o para�so dos escaladores.
Por gera��es, os escaladores iam para aquele vale,
testando os limites daqueles pared�es imensos.
Eu estava escrevendo um livro sobre a hist�ria da escalada no Yosemite,
entrevistando os veteranos e tentando construir essa hist�ria da linhagem.
Nem sei se j� tinha ouvido falar do Dean na �poca,
mas isso estava prestes a mudar.
A escalada do Half Dome, em 1999,
foi o grande divisor de �guas para o Dean.
HALF DOME 762 METROS
Ele estava desbravando um jeito totalmente novo
de escalar pared�es grandes.
Escalada free solo,
mas com um pequeno peda�o de corda amarrado �s costas.
� um pared�o de 762 metros.
Ele escalava sem corda na maior parte do percurso.
Quando ele chegava numa parte muito arriscada para escalar sem corda,
ele usava o equipamento.
Colocava uma pe�a
e se impulsionava com ela.
Ele botava os equipamentos
e depois se soltava para voltar a escalar free solo.
De repente, ele disparava para cima.
O tempo de escalada anterior do Half Dome girava em torno de 20 horas.
E o Dean escalou em quatro?
POTTER ESCALA O HALF DOME COMO UMA BALA
Foi naquele momento que percebi que o Dean era um talento
que quebrava paradigmas,
com uma forma totalmente diferente de pensar sobre o que era poss�vel.
Est� por aqui em algum lugar.
Esse � o Masters Of Stone.
Na nossa �poca,
o auge do entretenimento de escalada era o Masters Of Stone.
Aqueles v�deos cl�ssicos,
com todos aqueles escaladores famosos,
ao som de Hair Metal.
Algumas partes eram meio bregas, mas...
GUERREIROS DAS ROCHAS
Era mais ou menos o porn� da escalada.
Mas o cara que fez os filmes, o Eric Perlman,
enxergava tudo de uma forma �pica.
Eu perten�o � gera��o da Guerra do Vietn�
e reconheci
que existe algo intrinsecamente belo
quando a vida est� em risco.
O mais extremo dos esportes de aventura eleva o esp�rito humano
a um n�vel completamente novo.
� isso que a evolu��o exige de n�s.
Eu tinha ouvido falar desse cara, o Dean Potter.
Achei que devia entrar em contato com ele.
Nessa �poca, a reputa��o do Dean j� tinha crescido,
mas ele ainda era meio que do underground.
O Dean tirava sarro sem parar dos escaladores patrocinados
que se autopromoviam descaradamente
e levavam a realidade capitalista para dentro da nossa escalada sagrada.
"Eu sinto que os escaladores s�o influenciados demais
pela busca por n�meros,
a competi��o, a fama e o status
e deixaram a alma de lado.
Nunca sacrificar a minha alma."
Mas, ao mesmo tempo, ele se preocupava com o futuro
e, obviamente, n�o ia conseguir um emprego fixo.
Eu falei: "Cara, voc� pode ser escalador profissional.
Grave algo com o Eric Perlman
e consiga alguns patroc�nios
para se sustentar."
No fim das contas,
acho que o Dean percebeu que contar uma hist�ria
era uma forma de poder fazer o que ama na vida e ser pago por isso.
A��o!
E ele abra�ou o processo de fazer o filme.
Ele uniu o desenvolvimento da t�cnica dele,
a criatividade dele
e a ousadia...
e apresentou tudo isso
no palco mais impactante quando se fala em escalada:
o El Capitan.
EL CAPITAN 914 METROS
O Timmy fez o papel de um escalador comum no El Capitan.
N�s bolamos um neg�cio.
O Dean ia me ultrapassar.
O Dean passou correndo.
E a�, cara? N�o encoste em mim.
"N�o encoste em mim, cara!"
E eu fiquei com aquela cara de panaca.
Havia um certo teatralismo nisso.
Puta merda.
Mas eu tinha a sensa��o de que,
quando as pessoas vissem o que ele estava fazendo,
elas pensariam:
"Esse cara era um super-humano.
Como atleta,
o Dean era o artista mais natural.
Mas falando,
articulando as ideias...
Quando eu chego ao topo...
Quando eu chego ao topo... �, espere um pouco.
- Precisou de um pouco de incentivo. - Fale.
Quando eu enfim chego ao topo, uma parte de mim fica bem animada,
mas o resto de mim fica...
�, porra.
- A maior parte de mim. - A maior parte de mim. Porra!
Acho que, no come�o,
ele s� estava tentando continuar aut�ntico.
Isso n�o tem nada a ver comigo.
� t�o diferente de como costumamos falar.
Meu trabalho era s� orient�-lo.
Aqui estou, no topo,
com os p�s firmes no ch�o,
apreciando a vista e a vida � boa.
Voc� faz o di�logo e eu s� mexo a boca.
Aqui estou,
no topo, com os p�s firmes no ch�o
e a vida � boa.
O Masters Of Stone mudou a vida do Dean.
De repente, ele deixou de ser o Dean e se tornou o Dean Potter.
Ele saiu em revistas
e conseguiu patroc�nios.
At� ent�o,
ele era totalmente ligado � contracultura.
Depois, ele come�ou a promover marcas e tal.
No come�o, ele n�o queria comprar totalmente a ideia.
Para mim, o equipamento mais importante que tenho
� algo que fa�a meu corpo funcionar de forma limpa e forte.
Odwalla, ele cumpre o que promete.
Peg�vamos um pouco no p� do Dean por causa disso.
Ele escalava s�...
s� pelos patrocinadores, entendeu?
O Dean come�ou a ter um misticismo em torno dele.
Ele era o centro de todo aquele grupo de personagens no Yosemite.
Eu tinha acabado de fazer 18 anos quando fui ao Yosemite.
�ramos como o Peter Pan e os Meninos Perdidos.
E o Dean foi uma grande influ�ncia para todos n�s.
O Dean representava o que eu queria ser,
um cara dur�o que arriscava tudo, ousado,
que ultrapassava os limites.
Eu tive sorte de estar na mesma tribo que ele.
Droga.
Nos cham�vamos de Macacos das Rochas e t�nhamos nosso grito de guerra.
Faz�amos assim...
Faz�amos imita��es no El Capitan em clima de festa.
- Vodca! - Um bar completo,
gramas de maconha.
Acordar e fumar.
N�o contem aos seus pais.
T�nhamos um saco enorme de cogumelos.
- Eu tamb�m estou tremendo. - Estou morrendo de medo.
Vamos montar uma corda para pular aqui.
E a� pul�vamos.
Meu Deus!
�!
S�o malucos para caramba.
El Capitan!
Era tipo uma exist�ncia selvagem.
Mas era um parque nacional.
Sempre tinha aquela batalha com os guardas florestais.
Eles nos davam multas e coisas do tipo.
N�o quero que venham aqui e cortem.
Todos t�nhamos medo dos guardas florestais.
Eles tinham armas e chap�us.
Mas o Dean n�o tinha medo.
Como vai?
Oi. Como voc� est�?
Desligue a c�mera.
N�o, obrigado.
�, uma �poca eu fui meio agressivo com os guardas florestais.
Meu princ�pio fundamental � ser livre.
E eu acho que, desde que n�o esteja prejudicando ningu�m,
eu n�o devo ser limitado.
Por que me parou? Eu s� estava buzinando porque...
� preciso dar a prefer�ncia ali atr�s.
N�o, senhor. Isso � mentira.
- Certo. - Voc� est� me assediando.
Mas, infelizmente, estamos t�o presos a regras
que n�o me permitem ser o cara selvagem e natural
que eu acho que todos deviam poder ser.
Ele era um iconoclasta completo.
Ele fazia o que bem entendia.
Ei!
Seu maluco!
E isso se tornou parte do mito do Dean Potter.
Conforme a coisa crescia
e ele ganhava mais reconhecimento,
parecia que ele estava se levando muito mais a s�rio.
Ele come�ou a acreditar que podia ser o melhor escalador.
O melhor de todos os tempos no Yosemite.
O Dean me ligou e disse: "Timmy,
preciso da sua ajuda.
Chegou a hora de quebrar o recorde de velocidade
no The Nose do El Capitan.
Escalar 914 metros
o mais r�pido que for humanamente poss�vel.
Isso � algo intenso.
Iniciamos o cron�metro
e sa�mos escalando.
Normalmente, levaria v�rios dias,
mas est�vamos tentando fazer em poucas horas.
O Dean tinha um sistema especial.
Est�vamos escalando ao mesmo tempo,
o que tornava tudo ainda mais perigoso.
Uma vez, eu ca� de uma altura de 30 metros.
Eu me choquei contra um pared�o.
E eu pensei: "Ainda estou vivo, como pode ser?"
A� o Dean gritou:
"O sistema funciona!
V�, v�, v�!"
Eu adoro a adrenalina da escalada de velocidade.
Simplesmente ir subindo pela rocha,
sem regras, custe o que custar.
S� dando um jeito e indo em frente.
Superamos o cansa�o, entramos naquele ritmo
e de repente estamos no topo.
E pronto.
Quebramos o recorde.
RECORDE DE VELOCIDADE THE NOSE
A Climbing Magazine o colocou na capa.
Eu apareci l� perto do c�digo de barras.
E, logo depois,
o recorde foi quebrado pelo Hans Florine.
O Hans Florine foi uma figura lend�ria na escalada de velocidade no Yosemite.
Entendeu? O Sr. El Capitan.
Muito bem, Hollywood Hans Florine.
Sou conhecido por escalar o El Capitan muito r�pido.
Eu tenho um hist�rico de atleta de competi��o.
O competidor mais empolgante, Hans Florine...
Eu n�o era como o Dean e os amigos dele,
de cal�a jeans cortada,
com o pensamento:
"Eu estou no Yosemite
porque odeio meus pais
ou porque n�o quero fazer o que a sociedade diz."
Eu estava l� porque queria ser o melhor.
O Hans deteve o recorde no The Nose por 10 anos.
Quando soube que o Dean e o Timmy tinham quebrado o recorde,
fiquei empolgado para caramba.
Teve uma "corrida".
Duas semanas depois, fui recuperar o recorde.
Acho que esse recorde vai durar muito tempo.
Depois disso, acho que o Dean se deixou levar pela competi��o.
E foi a� que come�amos a ver esse lado mais agressivo do Dean,
que ele n�o conseguia controlar.
Ent�o fomos tentar de novo.
E o Dean sabia ser um maldito maluco.
Est�vamos escalando o The Nose,
eu esqueci o equipamento, cometi esse erro, e ele disse:
"Voc� fodeu conosco!
Vamos perder o recorde, cara!"
Minha segunda ou terceira escalada de velocidade foi com o Dean.
Acho que meu aparelho ficou preso e ele come�ou a gritar comigo:
"Que porra voc� est� fazendo?
Estamos perdendo tempo!"
Ele era muito intenso e determinado
e �s vezes isso acabava transbordando e ele se tornava meio babaca.
Ent�o o Dean e eu quebramos o recorde de novo,
com uns 40 minutos a menos.
Eu falei: "Parab�ns, voc�s bateram o recorde. Que demais!
Como voc�s conseguiram?"
Eu n�o ouvi uma palavra do Dean.
Ele n�o queria me encarar e falar comigo.
O Dean e o Hans continuaram duelando no The Nose.
Competir com o Hans me deu nojo.
Ele era como um cachorrinho encoxando a minha perna.
Odeio o fato de ele querer estragar o que eu estava fazendo.
E eu detesto o fato disso ter despertado o cachorrinho em mim...
Porra!
...para fazer o mesmo.
Eu o forcei a mostrar como ele era competitivo
e expus um lado sombrio demais dele.
Acha que o Hans ficar� animado para voltar?
N�o dou a m�nima para o Hans.
Quer que eu quebre sua c�mera?
Guarde-a.
Eu pensei: "Cara, n�o acredito no que eu me transformei durante a competi��o.
Eu fui um verdadeiro idiota."
Ent�o eu me controlei
e percebi que n�o � esse tipo de pessoa que eu quero ser.
Beleza, temos duas c�meras gravando.
Winky!
Bullwinkle.
AMIGO DO DEAN, FOT�GRAFO
Dean Fidelman.
Eu respondo pela maioria desses nomes.
Ando por esse vale h� muito tempo.
Aberto.
Eu fazia parte dos Stone Masters, um grupo de jovens escaladores
que dominava o Yosemite nos anos 1970.
Eu cresci com v�rios escaladores extraordin�rios e os documentei.
Compartilh�vamos aquele lugar.
E ent�o...
eles me deixaram, se tornaram magnatas da ind�stria,
morreram, casaram ou formaram fam�lias.
E eu n�o fiz nada disso.
Eu fiquei.
Nunca abandonei esse lugar.
Quando eu conheci o Dean, em 1996 ou 1997,
ele veio at� mim um dia e perguntou:
"Por que voc� est� aqui no Yosemite?"
Eu respondi: "Sou artista, fa�o arte."
Eu fa�o as coisas errado
e sou perdedor em alguns aspectos.
Mas eu preferia ficar aqui, dormir no campo
e fazer as minhas fotos.
Era o que eu queria fazer.
Ele acreditou em mim
quando poucas pessoas acreditavam.
O Bullwinkle � um dos caras que eu admiro.
Os Stone Masters faziam o que queriam,
do jeito que achavam mais legal, radical e que os fazia se sentir bem,
de certa forma, imunes � opini�o da sociedade.
O Dean definitivamente era movido pelo ego,
mas ele n�o queria ser aquele cara esportista supercompetitivo.
Ele buscava uma conex�o mais profunda.
Quer�amos fazer parte da natureza.
Ele se identificava com os animais,
especialmente com os corvos.
O corvo era definitivamente um grande s�mbolo para ele.
Passamos muito tempo juntos
tirando fotos
e conversando sobre arte.
Logo de cara, eu percebi que ele era um atleta
e um artista.
Ele precisava descobrir como essas duas coisas se encaixavam.
Eu olho para o pared�o ou vejo o espa�o entre as forma��es
e meio que vejo um lampejo ou uma imagem.
E eu quero entrar naquilo.
Eu me vejo me tornando um com a beleza e a natureza.
E ent�o eu vivo isso.
Ele definitivamente buscava um caminho espiritual.
Mas tamb�m lutava...
com quem ele era
e quem ele queria ser.
"Eu sonho com a Stephanie.
Sinto falta dela
e me pergunto o que ela sente por mim.
Meu amor, meu amor, eu anseio por..." Que horr�vel.
Cara, que meloso.
MEU AMOR, MEU AMOR EU ANSEIO POR ELA
E a��o.
Meu nome � Steph Davis. Tenho 26 anos.
Pratico escalada h� quase oito anos.
A Steph Davis � uma escaladora muito forte,
muito determinada.
Ela estava tentando decidir se seria advogada
ou escaladora profissional.
A Steph fez aquela coisa cl�ssica
daqueles patifes que abandonam a faculdade de direito
e v�o morar numa van
e se tornou uma aventureira incr�vel
que fez escaladas enormes.
A RAINHA DO DESERTO
Escrevi uma mat�ria sobre como ela estava construindo a vida do jeito dela.
A minha profiss�o � bem vaga,
mas envolve principalmente escalar bastante.
Ela n�o s� escalava no n�vel mais alto,
como tamb�m tinha conseguido um �timo patroc�nio da Patagonia.
Veja s�, eu tenho muita roupa listrada.
N�o havia ningu�m como ela
naquela �poca.
O Dean e a Steph come�aram a namorar nos primeiros anos.
Ele amava a Steph mais do que eu jamais vi algu�m amar o outro.
De muitas formas, eles pareciam feitos um para o outro.
Eram duas pessoas lindas,
dois dos melhores escaladores.
Mas havia um certo atrito entre a Steph, que era uma profissional focada,
e o Dean, que ainda era um maldito crian��o.
Eles sempre foram um casal turbulento.
Conseguiu?
Dean, voc� n�o levou a m�o esquerda ao agarre.
Ambos tinham opini�es muito fortes.
Isso nem importa. Foi f�cil.
Eram teimosos
Eu sei, mas isso facilita muito.
Com essas duas pessoas extremamente determinadas,
a adrenalina corria solta.
Com o Dean,
as emo��es eram � flor da pele.
As coisas com a Steph e o amor,
isso � mais poderoso do que qualquer coisa.
Ele sempre teve um medo muito grande
de ser controlado.
E isso tornava os relacionamentos muito dif�ceis para ele.
Havia v�rios ciclos de amor apaixonado
e t�rminos.
Ele ficava desesperado,
quase obsessivo.
NOSSA, COMO ISSO � TRISTE
Certa vez, ele terminou com a Steph
e ela foi para a Patag�nia
com outro cara.
Eles fizeram aquelas rotas dif�ceis � be�a.
O Dean ficou furioso e com ci�mes.
Ent�o ele foi para l�
e virou um animal como nunca antes.
Certo, vamos l�.
Ele estava fazendo uma escalada alpina absurda e pioneira atr�s da outra,
totalmente sozinho.
� isso a�! Beleza!
A� ele tentou fazer a primeira subida do Fitz Roy,
que � uma mistura de rocha e gelo.
S�o 2.134 metros at� o topo.
Ele levou uma garrafa de �gua vazia para diminuir o peso,
para poder urinar nela e depois beber a urina.
- � t�o errado! - Vou beber meu xixi!
N�o precisa fazer isso.
Ele chegou ao topo,
mas, quando estava descendo, foi atingido por uma pedra.
Eu machuquei a cabe�a.
Rastejou at� o acampamento de base.
Ele definitivamente passou dos limites.
E acho que tudo isso foi para tentar impressionar a Steph.
No fim,
esse casal turbulento se entendeu.
E, Contra todas as probabilidades,
eles decidiram se casar.
Eu fui um dos padrinhos.
O Jim oficializou a cerim�nia.
Lembro de ter escrito algo como:
"Eles meio que se merecem."
Houve um momento em que tudo se encaixou para o Dean.
A ABERRA��O DA MONTANHA
O Dean e a Steph tinham uma casinha charmosa
em Moab, Utah.
Tinham outra casa no Yosemite
e agora ambos eram totalmente patrocinados pela Patagonia,
a marca mais sofisticada daquele esporte na �poca.
Para a Patagonia, �ramos escaladores,
mas tamb�m desajustados
e contraculturais.
O Dean era um escalador genial e renegado
e ele meio que adorava quebrar as regras.
E isso combinava muito bem com a Patagonia.
Passei dez anos chefiando o departamento de rela��es p�blicas da Patagonia.
Lembro quando eu conheci o Dean.
Foi numa sess�o de fotos
e liguei para minha m�e, dizendo:
"M�e, agora eu sei o que � poder do estrelato."
Ele era, de longe, o embaixador mais descolado.
As pessoas eram atra�das por ele.
O Dean e a Steph come�aram a ficar famosos
e a ganhar dinheiro de verdade.
Pare com isso!
A escalada estava em alta como esporte
e o Dean surfou nessa onda.
Havia algo realmente �nico no esporte do Dean.
Era como se ele estivesse reinventando
o que significava ser um grande atleta ao ar livre.
Ele estava se vendo sob uma nova perspectiva.
Estava encarando o trabalho dele como uma performance art�stica.
Ele queria compartilhar com o mundo a vis�o art�stica dele.
Foi ent�o que passamos a filmar tudo o que o Dean fazia.
Porra!
Ele estava arrasando.
E os patrocinadores dele estavam muito empolgados,
principalmente a Patagonia.
Por uns quatro anos,
o Dean e a Steph foram os garotos-propaganda
de tudo o que represent�vamos e de tudo o que faz�amos.
N�o havia ningu�m que duvidasse que eles ficariam com a Patagonia para sempre.
O que � para eu ver?
O que est� escrito.
Arco Delicado.
Maio...
de 2006.
Porra.
Porra, cara.
Voc� est� de sacanagem?
Espere, voc� quer falar comigo sobre o Arco Delicado.
N�o vou entrar nesse buraco sem fundo cheio de merda.
N�o tenho nada a comentar sobre isso.
Posso at� comentar, mas n�o tenho nada a ver com isso.
Eu realmente n�o quero entrar nesse assunto.
O Arco Delicado...
foi t�xico.
Merda, voc� me fez falar sobre isso, que horror.
O Arco Delicado � uma das forma��es rochosas mais ic�nicas do mundo.
Est� nas placas de carro de Utah
e � visitado por milhares de turistas todos os anos.
O Arco Delicado parece quase fr�gil demais para ficar em p�.
Sab�amos que, para os escaladores,
existe uma regra n�o escrita
de que h� certas forma��es em que n�o se deve brincar.
Ent�o est�vamos cutucando a on�a com vara curta.
E o Dean, que j� estava com a Steph h� muito tempo,
n�o conseguia engan�-la com facilidade.
Foi uma opera��o secreta
em que sa�mos sorrateiramente no meio da noite.
Fiquem quietos.
Trouxemos a flecha?
Essa � a flecha.
A ideia era amarrar um barbante na flecha
e atir�-la por cima do arco.
Porra.
A�, partir do barbante, levar a corda para cima
e montar uma ancoragem de seguran�a.
Agora sim.
- �. - Vamos l�.
Para que o Dean pudesse ensaiar aquilo antes de escalar sozinho.
Subimos l�.
Tem uma plataforma plana no topo.
N�s deitamos l�
e olhamos para as estrelas.
Eu liguei para o Timmy:
"Estou no topo do Arco Delicado.
O Dean vai escal�-lo."
E o Timmy disse...
Isso parece uma m� ideia. N�o � aquilo que est� na placa dos carros?
N�o se chama "delicado"?
O Dean queria filmar aquilo bem ao amanhecer.
O Eric Perlman chegou.
Espere a�.
- N�o me diga o que fazer, Eric. - Claro, desculpe.
Estou gravando.
Ele disse: "� a coisa mais linda que j� tentei fazer.
Voc� precisa fazer parte disso."
Esteticamente, era uma obra de arte cl�ssica
em uma tela tridimensional.
Uma vis�o da humanidade
se movendo e fluindo
em harmonia com a natureza.
Enquanto o Dean escalava,
apareceram uns p�ssaros.
E eles ficaram dando voltas ao redor.
Foi mais m�gico
do que qualquer um de n�s podia ter imaginado.
Para o Dean,
a experi�ncia foi muito profunda.
Ele achou que seria uma das imagens mais ic�nicas de escalada
de todos os tempos.
Lembro que cheguei ao trabalho
e nossa gerente de atletas na �poca estava muito empolgada
porque o Dean Potter tinha acabado de escalar o Arco Delicado.
Ela disse: "Eu liguei para a imprensa
e o Dean mostrou a filmagem para eles."
Inicialmente,
ningu�m fez nenhuma cr�tica.
Era mais um feito incr�vel do Dean.
Voc� est� vendo a Fox 13.
E foi noticiado naquela noite.
Um escalador que chegou ao topo do Arco Delicado...
Dean Potter � um escalador profissional da Patagonia.
� uma escalada muito dif�cil.
Eu n�o recomendaria...
Mas n�o havia s� essa mat�ria superficial.
Eles estavam investigando poss�veis viola��es de regulamentos.
Potter diz que n�o havia problema em escalar o arco,
mas os oficiais do parque discordam.
A dire��o do Parque Nacional dos Arcos ficou furiosa.
Imediatamente, eles mudaram a lei.
Potter pode ser a �ltima pessoa a escalar o Arco Delicado,
porque o Servi�o Nacional de Parques implementou novas regras.
E ent�o come�ou toda a pol�mica.
PARQUE TENTA BANIR ESCALADA
Virou manchete nacional.
Na comunidade de escaladores,
as pessoas estavam furiosas.
O Dean tinha provocado novas restri��es � escalada
com a publicidade,
com a arrog�ncia dele
e com a presun��o de que podia fazer o que quisesse.
N�s n�o previmos isso.
TIM NEVILLE JORNALISTA
Sou o Tim Neville, correspondente da revista Outside.
Uma das grandes quest�es era
se ele havia danificado essa forma��o rochosa sagrada.
Eu decidi mandar um fot�grafo para verificar.
E ele encontrou danos.
Sulcos claramente deixados por uma corda
exatamente onde eles tinham escalado e filmado.
O Dean insistiu que o dano n�o tinha sido causado por ele.
Eu respeitei a rocha
e a deixei exatamente como a encontrei.
Cara, n�s n�o fomos os primeiros a subir l�.
J� havia esses sulcos de corda
bem onde �amos escalar.
Houve uma investiga��o minuciosa,
nos m�nimos detalhes, e eu pensei:
"Meu Deus,
isso parece um pouco exagerado."
Lembro que, depois que a hist�ria foi divulgada,
eu recebi um e-mail
do Dean s� com uma linha e duas palavras:
"Voc� � uma esc�ria."
"Voc� � uma" estava escrito errado.
Eu pensei:
"Est� bem."
Depois da reportagem,
aquilo virou uma bola de neve.
As pessoas come�aram a atacar os patrocinadores do Dean.
De repente, tudo passou a ser sobre a Patagonia,
como apoiadora
de atos que prejudicam nossos espa�os naturais.
As pessoas escreviam e-mails
e cart�es-postais: "Nunca mais comprarei nada da Patagonia."
E isso colocou a Patagonia numa posi��o muito complicada.
Houve um esfor�o para que o Dean se desculpasse.
Bastava ele pedir desculpas e poder�amos varrer essa merda para debaixo do tapete.
E o Dean respondeu do jeito dele.
OFICIAIS DO PARQUE SE PREOCUPAM COM ESCALADA DO ARCO DELICADO
A maior hist�ria no mundo da escalada hoje em dia
envolve o famoso escalador Dean Potter.
Eu estava sentado na sala quando ele estava
dando a entrevista para a NPR.
Eu perguntei por que ele decidiu escalar o Arco Delicado.
Ele perguntou: "Winky, o que eu fa�o?
Ser� que eu pe�o desculpas? O que eu preciso fazer?"
E eu respondi: "N�o, vamos mandar tudo para o inferno.
Vamos citar Edward Abbey
e falar um monte de outras merdas. Que se foda essa gente."
E essa foi a coisa mais errada a se fazer.
Voc� tem uma patrocinadora, a Patagonia,
que quer que voc� pe�a desculpas.
- Voc� pode fazer isso ou... - N�o.
Com certeza, eu tenho alguns arrependimentos.
E eu lamento a repercuss�o negativa
que minha escalada do Arco Delicado teve na imprensa.
Ent�o parece que o que mais lhe causa arrependimento
� a forma como isso foi retratado na m�dia.
Isso mesmo.
Acho que se nos atermos aos fatos,
um homem escalou uma rocha
sem causar danos ambientais,
ent�o n�o h� nada pelo que se desculpar
al�m da energia negativa que se seguiu.
Basicamente: "Sinto muito que o p�blico em geral
esteja totalmente alheio ao assunto
e n�o entenda do que se trata."
Definitivamente, n�o me ligue se voc� tiver algum problema com a m�dia.
S� vou piorar as coisas.
CONTROV�RSIA SOBRE DANO EM ESCALADA DE ARCO
O sustento dele estava em jogo
e mesmo assim ele n�o quis pedir desculpas.
Ele se sentiu incompreendido pela m�dia
e tra�do por muitas pessoas da comunidade de escalada
que se manifestaram contra ele.
A quest�o era: "Vamos continuar associados a esse cara?"
O Dean afirmou publicamente que a escalada do Arco Delicado
foi uma performance art�stica,
que representava a conex�o espiritual dele com a natureza
e eu n�o acreditei nisso.
Aquilo estava ligado � autopromo��o do Dean
e isso tornou tudo uma grande mentira.
DEAN POTTER E PATAGONIA ROMPEM
A decis�o foi de encerrar o v�nculo com o Dean.
O pior � que eles tamb�m romperam o v�nculo com a Steph.
A Steph n�o planejou nada disso.
Mas eles descartaram os dois.
J� fazia algum tempo que ela sabia que o jeito provocador dele
era problem�tico
e agora ele tinha destru�do esse relacionamento
que era muito importante para ela.
O relacionamento entre a Steph e o Dean come�ou a se deteriorar.
O Dean n�o aguentou a situa��o
e foi embora.
Ele deixou a Steph em Moab
e dirigiu at� o Yosemite.
Ele precisava ficar sozinho.
Era o Dean entrando no modo sombrio.
Cobrindo o rosto com um cobertor,
dormindo por dias.
Muitas pessoas associaram isso a problemas de sa�de mental.
ESTOU PREOCUPADO COM A TRISTEZA
Voc� pode chamar de doen�a mental,
pode chamar de lado sombrio,
mas quando chegou,
foi dif�cil lidar com aquilo, dif�cil de explicar.
Olhando para tr�s,
n�o fal�vamos muito sobre sa�de mental,
muito menos sendo homens praticantes de um esporte radical.
N�s absorv�amos tudo isso e reprim�amos.
O Dean e eu nos entend�amos.
Eu estava passando por algumas das mesmas dificuldades que ele.
Muitas oscila��es de humor,
altos e baixos, altos e baixos.
E come�amos a conversar
sobre se aquilo era...
uma doen�a.
Quando o Dean e a Steph estavam bem,
ela o incentivou a procurar ajuda para a sa�de mental.
Ele recebeu uma receita
e come�ou a tomar rem�dios.
Mas ele estava apavorado com a possibilidade de que descobrissem
que ele estava tomando esse rem�dio.
Ele me amea�ou, dizendo:
"Eu vou te matar se voc� contar para algu�m."
Depois do Arco Delicado,
ele parou.
De vez.
Os momentos altos ficaram ainda mais intensos
e os momentos baixos, muito mais profundos.
ESPERO QUE EU SAIA DESSA TRISTEZA
Mas, para o Dean,
a loucura podia ser uma esp�cie de fonte de poder criativo.
Depois da tristeza e do isolamento,
as ideias come�aram a surgir.
Talvez um esbo�o no di�rio dele.
N�O
A paix�o se transformou num inc�ndio.
Toda aquela ang�stia e toda aquela raiva,
era da� que ele tirava a energia dele.
"Vou mostrar para aqueles desgra�ados.
Vou soltar a fera."
Foi a� que a coisa, para mim,
come�ou a ficar assustadora.
O Dean embarcou numa onda de escaladas solo.
Tentou escalar free solo trajetos com dificuldade 5.12.
Ningu�m nunca tinha feito isso no Yosemite.
Era tudo ou nada.
Escalar um lugar solo,
no mesmo dia, dirigir at� outro lugar
e escalar outra via solo.
Ele tinha uma energia maluca
e impulsividade.
Senti que Dean estava escalando free solo
no limite f�sico dele.
Arriscando tudo e tentando sobreviver.
Estou tentando me libertar das limita��es desse corpo,
tentando ir al�m do f�sico
e n�o ser impedido por esta carca�a.
A mente pode te levar al�m do corpo.
Mas existe uma linha muito t�nue
entre te tirar do corpo
e alcan�ar o pr�ximo n�vel
ou te tirar do corpo
e voc� morrer.
Logo antes das escaladas solo,
eu sinto um enjoo terr�vel.
Mas n�o tenho controle. Sou compelido a fazer isso.
N�o quero viver se eu n�o puder fazer isso.
E a� teve o Heaven.
O Heaven estava no limite das habilidades dele.
Sab�amos que ele podia cair.
Se voc� cair daquilo, vai despencar milhares de metros.
Ele me disse claramente: "Se eu morrer, porra, grave.
Me acompanhe at� o ch�o e grave tudo."
O cara morrendo e eu l�, gravando? N�o.
O corpo come�a a ficar cansado.
Lidamos com a consci�ncia de que um erro
pode custar a nossa vida.
Mas o que eu tenho visto � que, nessas situa��es,
temos um poder incr�vel dentro de n�s.
Mais poder do que podemos imaginar.
�!
�!
�!
Todos suspiraram de al�vio.
Dissemos: "�, cara, voc� conseguiu."
Dean.
Impressionante mesmo, Dean.
Eu estava quase desmaiando antes de come�ar.
Pois �, voc� parecia...
Tipo assim...
Essa foi a reden��o da hist�ria do arco.
Sem d�vida, foi isso que significou para ele.
Chupa-rolas.
Foi assim:
que se fodam os c�ticos, que se fodam os patrocinadores,
que se foda o servi�o do parque.
Nada ia impedi-lo.
Fa�a ele bem-dotado.
�.
Naquele momento,
ele achou que tinha encontrado a f�rmula m�gica.
Uma parte de mim acha que estou louco,
mas toda vez que voc� supera uma limita��o
voc� pensa: "Porra, eu consigo fazer isso.
Consigo fazer qualquer coisa."
Ele tamb�m estava fumando muita maconha.
S� para deixar claro.
Tem muita gente barulhenta.
Caramba, voc� est� comendo batata frita de novo.
A certa altura,
a Steph me ligou e disse: "Ei, estou preocupada com o Dean.
N�o tenho not�cias dele.
Diga para ele me ligar, por favor. Preciso falar com ele."
Ele a estava ignorando.
Ele pediu: "N�o retorne as liga��es dela."
Que bom que voc� acalmou a Steph hoje, cara.
� �timo ter amigos que possam fazer isso.
Ela dirigiu at� o Yosemite para encontr�-lo.
N�o sei o que foi dito,
mas a Katie Arnold, a jornalista, estava l�.
Eu estava fazendo uma mat�ria sobre o Dean para a ESPN.
Eu cheguei ao Yosemite
e encontrei o Dean e a Steph
no meio de uma discuss�o muito traum�tica
e pensei: "Puta merda,
estou testemunhando o fim do casamento deles."
Pelo que entendi,
ele usava a alian�a no pesco�o,
tirou ela
e jogou para a Steph, como quem diz:
"Eu quero liberdade.
Eu quero ser livre."
A Steph,
ela � o amor da minha vida
e eu sempre achei que o mais importante para mim era o amor.
MEU DESTINO � ESTAR SOZINHO, LIVRE DAS AMARRAS DO CORA��O
Mas estou sendo, incontrolavelmente,
atra�do para longe daquilo que eu achava que mais amava.
N�o importa o quanto a Steph tentasse fazer do relacionamento deles
um lugar de seguran�a e paz...
EU QUERO MEU PODER DE VOLTA!
...o Dean n�o queria seguran�a.
Ele estava disposto a ir a lugares
que antes eram assustadores demais.
Esse � o momento em que ele se livra das amarras.
Literalmente se livra delas.
Ele estava ultrapassando os limites
a tal ponto...
que se desvencilhou da corda.
Porra!
Porra!
O Dean estava indo pelo caminho errado.
Eu comecei a perceber...
que a �nica terapia dele
era a consequ�ncia mortal.
Quando n�o estou amarrado,
na corda...
ou na rocha,
numa escalada free solo...
eu preciso de concentra��o total,
sen�o eu morro.
De alguma forma,
quando a minha vida est� em risco,
isso eleva meus sentidos
a um estado agu�ado...
de calma e clareza.
� a sensa��o mais poderosa que j� experimentei.
Legendas: Winicius Sturm
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