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Tiveste um acidente. Já te limpámos.
O cancro é uma doença ímpia, mãe. Não tens culpa.
Damos-lhe espaço? Isto foi muito intenso.
Morgan, eu sei que a tua geração
tem pavor de tudo o que não vos faz sentir bem,
mas este é um daqueles momentos da vida
em que tens de estar presente.
Ela mudou-me as fraldas. É a minha vez de mudar as delas.
São atos de amor.
Parecia que ela não nos queria a olhar para ela enquanto acontecia…
- Foi um ato de amor. - Está bem.
Algum de vocês faz ideia do quanto custa
tentar dar uma festa de aniversário para a minha mãe moribunda
e lançar uma candidatura autárquica?
Como vão contribuir? Já compraram um presente?
Ela acabou de piorar.
Isso não impediu a Natalie. Já agora, preciso que um de vocês vá à loja.
- A Leanne guardou-me as decorações. - Eu vou, mãe.
Parece que conseguem adiar o debate eleitoral uma semana.
Ótimo. Conta aos teus irmãos o que compraste à avó.
Tigelas para massa da viagem a Amalfi que eu e o Kevin fizemos.
Ela é alimentada por sonda. Para que quer tigelas?
O que disseste?
- Mãe? - O que foi?
- Não disse… - Mãe.
O que queres receber no teu aniversário?
Não quero um aniversário!
O que queres receber do Nicholas e da Morgan?
- Quem são eles? - Meu Deus.
Boa pergunta, avó.
O teu pai deu-me um colar…
Em Acapulco, que perdeste na lua de mel.
Nós sabemos. Deem um colar à avó.
Era um colar de diamantes!
Avó, sou professora numa escola pública.
Morgan, ela não sabe quem somos.
- Não quer saber se são diamantes a sério. - Eu sei…
Só algo barato e nostálgico que possa apreciar nos seus últimos dias.
É pedir muito? Nicky, ajuda a tua irmã com isto, para variar.
- Para variar? - Faz uma boa ação por mim.
Vou sair.
Está bem. Obrigada.
- Vais-te embora? - Sim.
Ninguém espera que sejam como a Natalie.
Ela é uma anomalia nesta família.
Confiante, ambiciosa. Não tem de trabalhar para ter aquele corpo.
Mas podiam, só desta vez, pôr as vossas diferenças de lado
e facilitar-me a morte da minha mãe?
- Para de gritar! - Está bem.
Ela precisa de dormir!
CRIMINOSOS, MAS POUCO
Porque, embora possam chegar à ilha e ver finalmente as gardénias,
terá valido a pena, no final,
se o seu doce aroma for corrompido pelo fumo
da ponte que queimaram para lá chegar?
Com esta nota positiva,
gostaria de vos lembrar que esta é uma zona livre de fogo.
Temos muito soalho de madeira.
Se quiserem ajudar na recolha de alimentos,
a Rose pode apontar o vosso nome.
ENTRADA SUL DO SANTUÁRIO
Olá, Helen.
Organizas as gavetas como um assassino em série.
Sim, é essa a intenção. Olá.
- Merda! - Reverendo Nicholas!
Sim. Rose?
Agora entramos sem bater à porta, é?
Talvez tenhamos de falar sobre limites.
- A porta não estava trancada. - Pois.
- Ouvi alguma coisa? - Não, estava ao telefone.
A equipa de patrocínios pode na sexta.
Ótimo.
Podia ter sido um e-mail, mas obrigado por me avisares.
Vemo-nos amanhã, está bem?
- Está bem. - Está bem.
Adeus.
Imagina que te convidam para uma noite de jogos e escondem as tuas muletas.
Atiram coisas, lutam.
É incrível.
Pronto.
Podes destrancar a porta?
Pronto.
Afastas-te sempre do meu toque.
- Afasto-me do teu toque? - Sim, tu…
Estou no trabalho.
Eu sei, mas a intimidade física é a minha linguagem do amor.
- Exprimo os meus pensamentos íntimos. - Eu sei.
- Andas a ver demasiado o terapeuta. - Ele disse que dirias isso.
Desculpa lá não querer ter sexo contigo no estacionamento de uma escola primária.
Fazes isto. Estragas estes momentos.
Fazes com que seja… Esquece.
Estragas as coisas. Esquece. É estúpido.
- Podes destrancar a porta? - Sim.
Obrigada.
O que é isso? O que é isto?
O que te parece?
Sim, Morgan, queria fazer uma coisa bonita
pela mulher que amo mais do que o meu coração palpitante.
Pedes-me em casamento atirando-me um anel?
- O que devo fazer com isto? - Não sei, tu é que sabes.
Tu é que sabes.
Está bem.
É muito bonito.
Eu sei.
Não preciso de uma porra de um flash mob, sabes?
Mas acho que mereço algo que se assemelhe a um pedido de casamento.
- Sabes? - Claro. Sim. Entendido.
- Vemo-nos logo? - Sim.
- Está bem. - Amo-te.
Também te amo.
Está bem.
Muito bem.
Adeus, diverte-te no trabalho.
- Obrigada, adeus. - Adeus.
Não sejas tão reativo.
Já te disse que vou ser homenageado pela Out and Loud pelo trabalho que faço?
Angariar dinheiro para pessoas queer, para que possam sair do armário?
Já mencionaste isso algumas vezes.
Mas não posso surpreender o namorado
no trabalho porque, segundo a igreja dele, pode ser gay, mas não pode ter namorado.
Esperam que eu não seja praticante, sim.
Eu quero praticar com o meu namorado não praticante,
não estar nos 30 a manter a nossa relação em segredo
dos amigos e da família.
Tinhas um trabalho no verão passado: arranjar o meu telhado.
Está bem.
E foste guloso, está bem? E agora olha para nós.
Não consegui evitar. Tenho uma queda pelo Livro de Mórmon.
- Tens? - Sim.
- Não sou mórmon. - Eu sei, mas vestes-te como um.
Já te disse, quando acabar a campanha da minha mãe,
vou procurar uma nova congregação.
E podemos praticar abertamente e em voz alta.
- Acredito em ti. - Durante o tempo que quisermos.
Vou reservar o cruzeiro, contigo ou sem ti.
- E estou desejoso de ir nesse cruzeiro. - Pois.
- E de apanharmos norovírus juntos. - É a melhor parte!
Não precisavas de vir comigo.
A mãe achou que precisavas de uma ama aos 30 anos…
Também achou que precisava quando era pequena.
Onde estavas tu, reverendo?
Talvez a pedir a proteção de Deus contra o teu mau feitio
e todos aqueles cigarros.
Adoro cigarros.
Não, força.
- Com licença. - Desculpa.
- Vou comprar um cartão. - Ela não vai ler um cartão.
É um gesto. É um presente.
- Vou dar-lhe um cartão. - Dá-lhe um cartão. Força.
- Desculpe, eu… - Isso é só para exposição.
Sim, só queria experimentar.
Não está à venda.
Eu sei, deixou isso bastante claro.
- Pode ir buscar um lá atrás? - Não, porque esse é o último.
Ótimo, então quero comprar este.
Esqueces a merda do colar?
Não é para ti, está bem?
A sério? É um colar rasca numa loja rasca.
- É? - Para quem é, se não é para mim?
- Põe-te no caralho. - Certo.
Então, Morgan?
Podes aceitar que isto não é uma butique chique de Nova Iorque?
"Butique chique de Nova Iorque"? És viciado em humilhar-te?
Quem lhe dera a ele que isto fosse uma butique chique.
Controla a tua mulher.
Não é minha mulher. Sou pastor da Igreja de Glenview.
Mesmo que fosse, não precisa de ser hostil.
- "Mesmo que fosse"? - Morgan, por favor.
- És uma mulher muito mal-educada. - Tu é que és.
Morgan, espera lá fora.
Obrigado, vou levar este cartão e duas daquelas figuras de anjos.
MÃE
- Estas? - As azuis.
E se tiver um saco e papel…
- Tem alguma fita ou algo para… - Vou só pôr aqui dentro.
Vão andar aos trambolhões no saco.
Leve-o com cuidado, senhora.
- Está bem? - Muito bem, vão partir-se.
Só estou a dizer, tu não és de confiança.
Não sou de confiança porque vou a um jantar?
- Não me parece. - Ela morreu.
O corpo está frio. Perderam as últimas palavras dela.
Nicky, nem estiveste aqui para fazer uma oração.
Teve de ser uma miúda do hospital a fazê-lo.
Leu algo diretamente do telemóvel.
Estava sempre a ser interrompida por mensagens.
Quais foram?
O quê?
As últimas palavras.
Não sei. Não ouvi. Ela estava a murmurar.
Estava sempre a dizer-lhe para enunciar. Algo sobre as luvas serem novas.
Coitada, no fim já não estava em si.
- Estava a dizer "amo-vos". - Não me parece que fosse isso.
Ainda assim,
a vossa irmã está cá desde as dez da manhã a documentar o dia.
Achou que era conteúdo importante para as plataformas sociais.
Parece aproveitamento.
Ainda assim, morreu antes da festa de aniversário.
Então, o que é suposto fazermos com isto?
Que porra fizeste?
- Tratei do assunto. - Morgan!
Não está embrulhado.
Meu Deus.
É uma coisinha minha e do Nicky.
Dos dois.
Natalie, olha para isto.
É lind… É deslumbrante.
Nicholas, acho que faz todo o sentido
seres tu a pôr-lho.
- Pôr-lho? - E talvez dizer umas palavras.
Ela quer que ponhas o colar na avó e digas umas palavras.
- Põe o colar e diz alguma coisa. - Não sei porquê.
Morgan? Muito bem.
Põe o colar.
Natalie, pega nisto.
- E sai da frente. - Põe o colar.
- Desculpem, estou… - Não faz mal.
Morgan, ajuda o teu irmão. Também é tua.
Sim, Morgan, anda lá.
Está bem.
Ajuda-me.
Sim.
Morgan, a cabeça.
- Levanta-lhe a cabeça. - O que mais havia de levantar?
- Levanta-a. - Já está.
- Morgan. - Já está.
- Estás a levantar? - Querido.
Esperem.
Está tudo bem.
Pronto. Certo.
- Certo. - Meu Deus. Sinto que…
- Levanta mais. - Está a escorregar.
- Meu Deus. - É muito pesada.
- Consegues? - Mais?
Mais para a frente, não consigo fechar.
Porque está a demorar tanto?
Dá-lhe o descanso eterno.
- Não ouço o que estás a dizer. - A luz perpétua brilhe sobre ela.
Que descanse em paz, ámen.
Certo.
Natalie, querias uma foto para as redes sociais?
Morgan!
- Foda-se. Estás louca? - Respeita os mortos.
Nicky, foste muito rápido.
Já vou.
- Olá. - Olá. Posso ajudar?
Vim fazer uma recolha.
Acho que se enganou na morada.
Não.
Disseste que eras da Igreja de Glenview.
Sim.
Vieste com a tua irmã,
compraste-me um cartão e duas bonecas da Elsa?
Comprei duas figuras de anjos. Não eram parecidas com a Elsa.
E um colar de ténis?
Eu…
Não, eu não… Acho que não comprei um colar de ténis.
Eu sei que não compraste o colar.
Vim reavê-lo.
Eu não… Não o tenho.
Bela casa.
Deves ter uma congregação muito solidária.
Não queres perder a confiança deles, pois não, padre?
Não sou católico. Sou pastor.
Estou-me a cagar para o nome que usas, seu burro de merda.
Não sabes o que levaste, está bem?
- Está bem. - Não sabes com quem te estás a meter.
Devolve-o ou garanto que o teu Deus vai ficar chateado contigo, está bem?
Está bem.
- Sim. - Sim?
- Sim. - Ótimo.
Entra no…
Entra na merda do carro!
Não, o dele é Gosling com G. Não é parente dos Gosselin.
- Foda-se! - Merda.
Querida, o que se passa? Diz-me, o que se passa?
Estou bem, só acertei no dedo. Devíamos ter mandado vir comida.
Deus me livre de honrar a minha mãe
fazendo os panados dela no dia em que morreu.
São os melhores panados que já comi.
Onde está o teu irmão? Disse-lhe às oito.
- Não sei. - Sra. M.
Sei que hoje foi muito difícil,
mas se estiver tudo bem, gostava de falar consigo em privado
a certa altura.
Tenho uma coisa que gostava muito de lhe perguntar.
Vamos ver como corre, Max.
- Está bem? - Está bem.
Vamos ver como corre.
Já vou!
Anda lá.
Anda lá.
Desde quando trancamos a porta?
Desde que assaltaram a garagem da Susan Gopnik há umas semanas
e levaram as bicicletas dos filhos dela.
- O teu guarda-chuva? - Não tenho.
Não posso perder o meu filho e a minha mãe no mesmo dia.
Desculpa.
Desculpa, hoje não estou no meu melhor.
Posso admiti-lo.
- Como estás a lidar com tudo? - Não estou bem.
Não, só quero um minuto sozinha com o meu primogénito.
Tecnicamente, seria a Morgan.
Não falamos de adoção nesta casa.
Pari-te emocionalmente, o que é igualmente doloroso.
Estás gelado.
- Porque estamos aqui fora? - Diz-me tu.
Vamos fazer os panados da avó.
- Viviam em Long Island. - Morgan, posso falar contigo?
Não há segredos nesta casa.
O que tiveres para dizer, diz à minha frente e do Max.
E metade das mulheres desta cidade. Mãe…
É um grupo de Facebook de bairro inclusivo!
Morgan! Cinco minutos.
Não tenho culpa de quem adere ou do que enviam.
Está fora do meu controlo!
Só cinco minutos.
- Como o faria? - É só isso que preciso. Morgan…
A sério.
Antes de mais, qual é a merda do teu problema?
Como?
Preciso que devolvas o colar já.
Que colar?
O colar que roubaste depois de te ter dito para o esqueceres.
O colar no pescoço da nossa avó morta numa morgue?
- Morgan. - Vá lá.
Não parecias passado quando recebias o crédito por ele no hospital.
Olha pela janela.
- Vês a carrinha? - Sim.
- Sim! - Assim não. Esconde-te.
Aquele homem lá fora seguiu-me desde a minha casa até aqui.
- O quê? - O tipo que irritaste na loja.
Bateu-me à porta e ameaçou a minha reputação
se eu não recuperasse o colar.
Não sei o que fazer.
E achaste boa ideia trazê-lo para a casa da mãe
onde a tua família está a jantar?
- Não estava a pensar… - No resto da tua família?
- Morgan. - Comeste faláfel?
És uma cabra.
Lamento que a tua vida sexy de atriz em Manhattan
não tenha corrido como querias, mas não vou deixar
que a minha vida se estrague porque tu desististe da tua.
- Resolve isto, Morgan. - Era um colar de 79 dólares.
Parecia muito pesado para um colar de 79 dólares.
Peguei nele e parecia caro.
Não tenho tempo para isto.
O tipo da Quick Post não te está a perseguir.
- Então vai lá fora falar com ele. - A sério?
Sim!
Está bem.
- Vou falar com ele. - Vai!
E sabes que mais? Se ele quer 79 dólares, mando-lhe 79 dólares por Venmo.
- Boa. - Se é disso que ele precisa.
Olá?
Em que posso ajudar?
Mas que merda?
Estás a assustar a minha família.
Não sei o que fazes aqui, mas isto é um mal-entendido.
És surdo?
Tens de ir. Sei que me ouves. Olá.
Olá. Ótimo.
E?
E sim. Só temos
de devolver o colar.
- Eu sei. - Mas temos mesmo.
- Temos mesmo. - Sim, eu sei.
É só isso? Ele só disse isso?
Não, ele não…
- Desembucha. - Ele não disse grande coisa.
Mas podias ter-me avisado sobre a arma.
- Que arma? - A arma!
A merda da arma que me apontaram à cara.
- Tu… - Qual arma, Morgan?
Não te apontaram uma arma?
Não.
Mas um homem veio a minha casa a meio da noite e ameaçou-me verbalmente.
- A sério? - O que também foi muito assustador.
Assustou-te? Veio a tua casa e não te apontou uma arma?
- Não é a mesma coisa. - Acalma-te.
Aquilo foi marado!
- Tens de te acalmar. - Eu tenho de me acalmar?
Tens de te acalmar.
Como vamos recuperar aquele colar?
Vou ver a avó amanhã e tiro-lho do pescoço.
- Vou ter de tirá-lo… - Certo.
… do pescoço de uma morta.
- Está bem? - Sim.
- Há outro plano? - Não.
- Então… - Está bem.
Queres dizer algo?
- O quê? - "Obrigada, Nick"?
- "Obrigada pela oferta"? - E focas-te nisso?
- Sim. - Estás louco?
- Tu estás? Estás… - Isso é outro nível.
Estou a interromper?
Eu não… Sim, quer dizer…
- Não. O que se passa? - Certo.
Estava a pensar se havia algo que me quisesses dizer.
- Eu não… - Acho que… Não.
- Morgan, o que foi? - Não há nada que me queiras dizer?
- Amor, não sei o que… - E agora?
Está bem. Pois.
- Algo que me queiras dizer? - Cum caralho.
Algo que queiras dizer?
- Morgan… - Sim.
- Foda-se. - … Janice Dardano…
… fazes-me feliz e dizes que sim?
Mãe, e a avó?
- A altura não é… - Certo.
Não, querida, ela ficaria aliviada.
- Nicky, traz o prosecco da garagem. - O quê?
Da garagem, certo.
É um sim?
Sim. Meu Deus.
Pronto.
Meu Deus, está a acontecer.
Vamos casar!
Porque estás molhada?
Perdoa-me.
- Sim? - Desculpe interromper.
Posso usar a impressora para os programas?
- Claro. - A da cave não tem tinta.
Com certeza.
Obrigada. E quer esses programas a preto e branco ou a cores?
Não sei. Os programas são a preto e branco ou a cores?
- A cores. - Então imprimimos a cores.
Obrigado, Rose.
Prof.ª Morgan?
Parece uma bruxa má.
Obrigada, Mackenzie.
CHEGUEI À IGREJA. AVISO QUANDO O TIVER.
NOVIDADES?
Nicholas.
- Querido. Acalma-te. - O que foi?
Soube que a Dina, a melhor amiga da avó, escorregou num Five Guys ontem à noite.
Partiu o pescoço. Vai ficar internada o resto da vida.
Vais ter de ler o poema dela.
E o teu pai está cá, por falar em alguém que devia ter escorregado.
- Mãe. - O que foi?
Se não nos rirmos nestes momentos, o que nos resta?
Deixou a Denise em casa, o que foi decente.
Certo.
- Pronta, Sra. M? - Sim.
- Vamos. - Podemos parar?
Podemos só…
Podemos parar um segundo? Podemos parar?
Podemos parar? Parem!
Não fiz uma oração. Tenho de rezar pela mulher.
Está bem?
Preciso de estar sozinho com…
- Querido. - Com ela um momento, por favor.
Ela está atrasada para o próprio funeral. Podes abençoá-la mais tarde.
Está bem? Anda.
Mas que raio?
Foda-se!
Foda-se!
Boa tarde a todos e bem-vindos.
Gostaria que estivéssemos aqui reunidos em circunstâncias mais felizes.
Mas…
Mas é muitas vezes nestes momentos
que o Senhor
nos mostra a verdadeira capacidade que nós, como seres humanos,
temos de processar e superar a dor.
Tanto emocional como…
… como física.
Às vezes, é fácil esquecer que a morte
pode estar ao virar da esquina
para todos nós.
Vejam a Dina Caputo, que ontem à noite escorregou num Five Guys
e está agora em coma,
incapaz de ler o seu poema aqui hoje.
Pensamentos e orações para a Dina e a sua família
neste momento.
Sabem, a minha avó era uma mulher especial.
Digo "especial" porque sei que ela irritou muitos de vocês.
Mas nunca mentiu
nem forçou nenhum familiar a mentir por ela.
Como é que não lhe tiraste…
Nem te atrevas, caralho.
Vou a casa deixar sair os cães. A Denise está em Tampa.
Vejo-vos lá em casa.
- A vossa avó era uma grande mulher. - Sim.
- Pois era. - Tinha orgulho na vossa mãe.
Estamos bem, Michael. Obrigada. Vai para casa.
Deixa sair os caniches. Não queres que caguem na carpete.
Vejo-vos daqui a uma hora. Parabéns outra vez pelo noivado, querida.
Obrigada, pai.
Deste os parabéns à tua irmã?
Pelo Max a ter pedido em casamento no dia em que a avó morreu?
Não, ainda não.
Parabéns, Morgan. Nem tenho palavras.
- Estou radiante. - O Max está a ajudar-me.
Foi buscar Baileys para a vossa tia Joanie.
Mas devíamos mesmo voltar. As pessoas vão chegar.
Não confio no que os fornecedores consideram comida quente.
Os meus pêsames.
Muito obrigada. Já nos conhecemos?
As minhas condolências.
É um amigo da Morgan.
É meu amigo.
Faz sentido.
Querida, devíamos mesmo ir. Filhos, vemo-nos em casa.
Está bem.
Até já.
Vamos dar uma volta.
Tenho uns papéis para assinar.
- Anda. - Está bem.
Está bem.
- Não é preciso empurrar. - Sei andar.
Vamos.
Deem-me o colar.
Onde está?
Não o temos.
- Como assim, não o têm? - Não o temos.
Como assim, caralho? Onde está?
Não sei de que outra forma dizer. Não o temos.
Como assim, não o têm?
- Onde está, caralho? - Eu…
Está bem.
Podes acalmar-te? Falar assim connosco não ajuda.
Agora és gestora de crises?
- De que lado estás? - Não do teu.
O que vou fazer agora?
Foda-se.
Não têm ideia da merda que fizeram, pois não?
Entrem na carrinha.
Tem de haver…
E se eu dissesse que não me sinto confortável?
- Entra na carrinha. - Não.
- Ele tem uma arma. Entra. - Tem pinta de rapto seguido de homicídio.
"Pinta"? São as tuas últimas palavras? É o caso?
- Entra na carrinha! - Meu Deus!
Legendas: Nuno Oliveira
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