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Mãe...
Lá longe, em uma ilha de outro oceano,
para que um vaso quebre, está com pouco ouro.
Acreditam que um vaso quebrado
pode torná-lo mais bonito.
Mãe,
dentro de nós, pedaços quebrados
são colados com ouro.
Oh, Zito...
Oh, Zito...
Oh, Zito...
Aquela dor...
Eu também senti.
Mãe...
Qual era o seu sonho?
Nana, neném...
Sombra má, fuja daqui.
Nana, neném...
Deixe a minha filha dormir.
Idalina.
Estou doente.
Talvez já tenha saído doente da ilha.
Aqui chove muito
e todo dia acordo com os olhos secos.
Não tenho para onde voltar.
Sem o seu filho Zito,
a casa no vento é só paredes.
Quero te pedir um favor,
que proteja a Nana,
para que não sinta falta de nada.
Djarfogo cuidará dela.
HANAMI
Nana, está ouvindo?
Bom dia, Lulu.
Boneca.
Boneca, hoje a minha galinha pôs três ovos.
- E a minha, pôs? - Não.
Se calhar está constipada.
Kaníssia, deixa eu ouvir a sua música!
Kaníssia, deixa eu ouvir a sua música.
Kaníssia, deixa eu ouvir a sua música!
E onde estão as minhas pilhas?
Vai trocá-las por ovos!
Por que essa cara desolada?
Não chegou nada…
Manuel, cadê a barra de sabão que você foi comprar?
Não fui ao mercado, fui direto ao cais.
Esperei duas horas pelo barco, mas não chegou nada!
O tio vai fazer um doce.
O tio vai fazer um doce.
O tio vai fazer um doce!
O tio vai fazer um doce!
Tiramisu fácil e delicioso.
500 gramas de queijo mascarpone…
Não tem!
40 biscoitos champanhe...
Não tem!
Duas colheres de Marsala, que é um vinho doce italiano...
Não tem!
Cinco ovos…
Eu tenho três ovos!
Nana, preciso de mais dois ovos,
são cinco ovos.
Manuel, deixa de enrolação e vá fazer um doce de coco.
Docinho de coco.
O meu irmão Nelson,
lá longe, ele tem de tudo.
Ele vai às lojas
comprar ingredientes
para fazer todos os tipos de doces.
Mas... Doces maravilhosos!
Nós sempre fomos diferentes.
Ele tinha cabeça para a escola, mas eu não!
O padre Joaquim me ensinou latim.
Mas o latim não serve para nada!
"A vida é regida pela sorte, não pela sabedoria."
1, 2, 3, 4, 5...
Sai daqui! Sai, sai!
6, 7, 8, 9, 10!
14, 15...
16, 17, 19, 20!
Menina, como gosta de correr!
Boneca?
Esses são ninhos de tartaruga-comum.
É uma tartaruga marinha ameaçada de extinção.
As fêmeas são grandes migradoras,
mas sempre voltam à praia onde nasceram
para pôr os ovos.
As tartarugas-marinhas são grandes e únicos animais do mar.
Podem ser comidas por tubarões e orcas.
Sabem qual é a maior ameaça para as tartarugas?
Não!
O ser humano!
As redes abandonadas no mar
prendem e cortam as tartarugas.
E tem pessoas más que as apanham e retiram a carne e a carapaça
para fazerem óculos, pulseiras e outras coisas.
Imaginem, se cada criança aqui
fosse uma tartaruga nascida desses ovinhos,
elas teriam que diferenciar
as medusas dos sacos de plástico abandonados no oceano.
E elas teriam de enfrentar diversos perigos sozinhas.
As fêmeas que conseguem ultrapassar todos os obstáculos,
voltam à praia onde nasceram para pôr os ovos.
E seus filhotes, quando nascerem,
passarão pelos mesmos perigos que suas mães passaram.
Nana?
Nana?
Nana, cadê você? Vem cá!
Cabelo embaraçado.
Quero o cabelo como o da Boneca.
Seu cabelo não é como o nosso.
Seu cabelo é como a raiz de Poilão.
Você tem cabelos crespos como a Nia.
A Nia está feliz onde está.
Onde ela está, chove muito. Está rodeada de água.
Nia é o nome da sua mãe.
Não se esqueça disso.
Ela está feliz lá.
Nana, escolhe uma mão.
O papai é um comilão.
Tem apetite de tubarão.
Eu como muito mesmo.
Você come pouco. Tem a boca acanhada.
Não tenho a boca acanhada.
Não tenho tempo de comer, mas estou sempre na cozinha,
fazendo biscoitos, o almoço, sou eu que sempre…
E hoje, você vendeu tudo?
Vendi tudo, não sobrou nada.
Nem um docinho de coco, nem uma marmelada de papaia!
Também só tinha uma…
Foi o Dr. Vicente que comprou!
Já estou vendo o meu negócio,
com um grande letreiro dizendo:
“Padaria Stribilim”.
E quanto você tem para investir?
Mil e...
- Mil e poucos escudos... - Dá para comprar pilhas.
Sabia que as sereias também não dormem.
Os peixes também não dormem.
Ninguém dorme no mar.
As ondas do mar não deixam ninguém dormir.
Há muitos, muitos anos,
uma sereia do mar apaixonou-se
por um pescador de Djarfogo
que vivia numa casinha sem portas e sem janelas.
Era um pescador pobre,
mas com a alma cheia de coisas boas.
Um dia, a sereia pediu ao pescador
que fosse viver com ela no fundo do mar.
O pescador fez uma cara muito triste.
Disse que gostava muito dela,
mas não queria viver no meio de peixes nem de algas do mar.
Como a sereia não queria ver o seu pescador triste,
decidiu viver com ele em terra.
A sereia passava os dias olhando para o mar,
esperando que o pescador voltasse da pesca.
Quando o pescador chegou em casa,
encontrou a sua sereia dormindo
em cima de seu colchão de palha.
A sereia dormiu e dormiu por muitos anos.
Quando o pescador morreu de velhice,
ela ainda continuava dormindo.
Quando acordou,
já não se lembrava que era uma sereia do mar.
Passaram a chamá-la de sereia da terra.
Com o passar dos anos...
as cores da sereia foram desaparecendo.
Uma onda bateu nela quando dormia na areia.
Assim que a onda tocou nela,
as cores do mar voltaram ao seu corpo.
Uma onda embalou-a até ao fundo do mar,
como se fosse um bebê.
Nunca mais ninguém a viu.
O céu estava brilhante!
A areia estava fria e depois ficou quente!
Um manto quentinho de areia protegeu os ovos!
Agora já nadam no oceano!
Já nasceram! Já nasceram! Já nasceram!
Agarrem pelas mãos, vamos para lá.
Venham cá!
Ela está com febre.
Por que você não sorri?
Vamos andar de avião para ir viver num lugar bonito.
Vamos comprar sapatos novos e roupa quente para brincar na neve.
Luz...
As raízes esticaram-se à procura de água,
mas nada encontraram.
Perdemos a colheita, a família foi para uma terra distante.
Agora só resta eu, o tio Manuel e a Kaníssia.
A Nana tem febre.
Peço que a trate com os remédios da terra de lava.
Já sabe:
banho com folhas de sabão-de-feiticeira
e chá de aipo-de-rocha.
Vem!
Menina da cidade, o que procura?
A tia Luz mandou apanhar sabão-de-feiticeira.
O quê?
A tia Luz mandou apanhar sabão-de-feiticeira
para curar minhas febres.
Como é que ela mandou?
A tia Luz, perdeu a voz de tanto gritar na plantação de uva.
Ela não fala desde cento mil e um!
Tico, não invente números...
Só tem sabão-de-feiticeira ao pé do vulcão.
Abra os olhos, menina.
Abra.
Não é bom viver de olhos fechados.
Toma.
Cheira tão bem.
É sabão-de-feiticeira.
Gon-gons do vulcão!
Aqui vos fala o avô Orlando Coração de Lava!
Às vezes, raras vezes,
acontece no mundo,
que um peixe do nosso mar
se encontra
com um peixe
de outro oceano distante.
Mas o que é mesmo raro,
é o encontro de homens que vivem em ilhas diferentes.
E quando o seu coração cruza com o de outra pessoa,
nasce uma amizade.
Gon-gons...
Chegou a hora da partida.
Vou visitar o meu amigo Pluma.
É um amigo para a vida,
que me vai mostrar coisas de lá,
mas que são nossas,
de nós dois.
Vô Orlando?
Zimbro?
Só tem um amigo no mundo
que gosta de zimbro
mais do que eu.
O Pluma!
Quem é Pluma?
O Pluma é um amigo antigo!
Passamos juntos
uma erupção do vulcão
há muitos anos.
Mas que parece que foi ontem.
Que traje tão brilhante!
É bom para festas!
A lava do vosso vulcão é máfica.
Muito rica em ferro e magnésio mas pobre em sílica.
Uma lava intermediária,
pouco viscosa.
Quando expelida corre rápido pelos campos.
A terra tremeu, não tremeu?
Tremeu sim.
A minha ilha está sempre tremendo.
Anuncia grandes acontecimentos.
O vulcão está acordando.
Qual é o seu nome?
Me chamo Kenjiro Mizoguchi.
Muito prazer.
Não saia da sombra!
Não está habituada a tanto sol!
A vulcanologia leva o seu tempo.
Quando comecei a pesquisa, a minha tartaruga era pequena,
agora já está bem maior.
Às vezes, até perco a noção do tempo,
porque não tenho relógio nem tartaruga.
Quando penso que é hora de semear,
o feijão congo e a abóbora já nasceram.
Chovem coisas bonitas...
Pluma,
aqui quase nunca chove.
Chove muito na sua ilha?
Chove.
Mas…
a chuva mais bonita dura só um dia.
Chuva de coisas bonitas?
Chuva de pétalas de flores de cerejeira.
Hanami.
O que é hanami?
Não se explica.
Só vendo.
Agradeço muito
a amabilidade com que me receberam.
Muito obrigado.
Esses fogos são para vocês.
Adeus, meus amigos do Atlântico!
Adeus.
Querido amigo,
pode ir vestindo um traje de festa bonito.
Estou atrasado, mas a caminho.
Vou o mais rápido possível.
Levo comigo um saco de zimbro,
para que se lembre do tempo que passou aqui.
Espero que todos os vulcões do mundo
estejam dormindo um sono muito profundo,
para que possa estar em casa,
na sua ilha,
à minha espera.
Pluma, te deixo um pequeno poema.
"Hanami no céu,
suave, o meu amor
é cor-de-rosa."
Não é para você.
Silêncio.
Já terminaram de copiar o exercício?
Já.
Jailson, pode ler o poema, por favor?
“Se o mundo estivesse ao inverso
Eu andaria com os pés para o alto
De dia, ficaria em meu quarto
Iria à praia em dezembro
Dois e um já não fariam três
Que chatice esse mundo certo!”
Deixa eu te ajudar.
Não me ajude, Nana, vá estudar. Seu trabalho é o estudo.
Deixa eu te ajudar, por favor.
Já te disse que não preciso da sua ajuda. Vá estudar.
Não vai à escola?
O que está olhando? A Brava?
A Brava hoje está encoberta, não dá para ver.
Neuza?
Traga a roupa, menina!
Deixa eu te ajudar, para não rasgar o vestido.
Nana, esse vestido não te serve mais.
Está crescendo, se tornando uma mulher.
Não vê que está apertado?
Vem dançar comigo.
Não sei dançar.
Quando crescer, gostaria
de ser juiz.
Essa é minha primeira opção.
Se não puder ser juiz, vou estudar jornalismo.
Se não for jornalista, vou ser
chef de cozinha.
Nesse vale tinha um rio,
mas ele secou.
Nana, olha a coruja.
Não pode ser uma coruja, elas só voam à noite.
Olha o ninho do pardal.
O que está fazendo?
O som do pardal.
- Não é assim. - Se não é assim, então faz você.
Tem certeza que é por aqui?
Acho que sim.
- Você consegue? - Consigo.
Olha, um dente-de-leão.
Estão por toda a minha roupa, trazem sorte.
Olha, botas como as do meu avô.
Encontrou algo?
Essa casa aqui era de um pescador.
Não apita como deveria.
O que está ouvindo?
O som de outro mar.
Vovó...
Aquela casa no topo da colina, é de quem?
Era dos meus pais.
Foram para São Tomé, morreram lá e nunca mais voltaram.
Depois virou ninho de amor e agora pertence ao vento.
- Bom dia. - Ah, bom dia.
Como vai, tudo bem?
O que deseja?
Dois pães doces e duas rosquinhas.
Obrigado, tenha um bom dia.
Alô? Bom dia, Sr. Vicente!
Como vai? Sim, já está, já está…
Está quentinho, prestes a sair.
- Está bem. - Bom dia.
Bom dia.
Queria uma trança, por favor.
- Só uma? - Só uma.
- Obrigada. - Tchau.
STRIBILIM PÃES E DOCES
Nana!
Como você tá?
- Você mora ali? - Moro.
Quer dizer, não. Logo vou para Lisboa.
Vou me tornar imigrante.
E você volta?
Nunca se sabe.
Só o tempo vai dizer quando poderei voltar.
- Então, boa viagem. - Obrigado.
Posso te dar um abraço?
Não vou me esquecer de você.
Tchau.
Estão secos.
Continue dobrando, eles chegaram.
Eu tiro o resto.
Oi!
Sou eu.
Nana, é a Boneca.
Você cresceu.
Está tão diferente.
Tinha muita saudade de você.
Eu também.
Nossa, que bonito.
Nana, agora tenho um irmãozinho, quer conhecer ele?
Vem…
Oi, sobrinha, lembra do seu tio Nelson?
Tudo bem?
- Ele é mesmo esperto… - Você é esperto…
Esperto…
É, ele fala crioulo como nós, eu ensinei a ele.
Esse é o Manu.
Olha o tio, diga: “Olá, tio”.
Nana...
É a sua mãe.
É a Nia.
Você está tão grande.
A comida está ótima, Neuza.
Foi a Nana que me ajudou a fazer.
A minha sobrinha cozinha bem?
As crianças cabo-verdianas fazem de tudo.
A Nana sempre foi muito boa.
Quando era pequena, ficava sempre ao pé da mãe na cozinha.
É, ela adora, desde criança.
Na América, crianças não sabem cozinhar,
nem eu que cresci lá...
Ela gosta muito de cozinhar, às vezes, vem comigo para a padaria…
Ela gosta. Dá para sentir sua motivação.
É, notei quando cheguei e vi ela lavando a roupa.
E pensei: “Olha essa menina. Dessa idade fazendo de tudo”
Isso é bom, é importante.
Nelson, deixa eu pegar mais cuscuz.
O queijo não sei se posso comer,
as coisas daqui podem me fazer mal.
Mas ele é bom, são coisas naturais.
É que na América não tem essas coisas.
- Esse é o problema. - Ao menos, prove.
Não, acho que vai me fazer mal.
- Nelson? - Então não confia?
- Nelson, falem crioulo, não entendemos. - Desculpe, desculpe...
Não foi de propósito.
Para nós é natural…
- É mais fácil. - Está habituado, é normal.
Falem crioulo, as crianças não entendem.
- Aliás, nenhum de nós entende. - Foi o Nelson, não fui eu.
Você começou.
É mais fácil.
Tio, ainda está comendo?
Ele nem consegue falar.
Tio, ainda tem aquele apetite de tubarão?
Quando a comida é tão deliciosa…
- Nem fala com a família. - Não!
Lídia, quanto tempo pensa em ficar?
- Vim só descansar a cabeça. - Ainda não tem ideia?
- Não. - Não tem o voo de volta?
- Só comprei a passagem de vinda. - É bom assim.
Esses são feitos com as sobras de massa.
Deixa eu provar o doce de coco.
É você quem faz?
Me dê quatro, por favor.
Gosta de morar aqui?
Gosto.
Não precisa pagar.
Obrigada.
Nana?
Olha o que eu pesquei!
Um peixe.
Nana, venha! Venha conosco.
Vem.
Nana!
Nana, neném...
Sombra má, fuja daqui.
Nana, neném...
Deixe a minha filha dormir.
Nunca me esqueci de você.
Trabalhei muito.
Muito mesmo.
Estive doente por muito tempo.
Não estava bem para cuidar de você.
Agora estou melhor.
O que você teve?
Uma dor que não consigo explicar.
Você é feliz aqui?
Gostaria de te levar comigo.
Agora já posso.
Já consigo.
Gostaria de vir comigo?
Quero ficar aqui.
Não quero ir embora.
Nana, como você está?
Está melhor?
Me dê um pouco d'água.
Se doer, me diga.
Me dê água.
Vire a cabeça um pouquinho.
Estou feliz de ter conhecido a sua esposa.
Obrigado.
Nas próximas férias...
Tomara.
Venham passá-las conosco.
Foi um prazer ter vocês aqui.
As férias foram ótimas, nos trataram tão bem...
Eu estava estressado, precisava mesmo ver a família,
passar tempo com vocês, conviver, festejar...
A festa está boa?
Está.
- Quando você vai embora? - Amanhã de manhã.
Vai estar acordada?
Tradução: Chrys Rochat Legendas: SIN FRONTERAS FILMES
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