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É sexta-feira.
São quase 19 horas.
Os irmãos do meu marido virão a nossa casa
porque têm um assunto de família para discutir.
"Discutir" é, sem dúvida, o verbo mais apropriado
quando se trata do Julián e dos irmãos.
Dê-me do outro. O mesmo da semana passada.
E um pouco de queijo.
O Julián não queria que comprasse nada, mas como quase nunca se juntam…
São três.
O Víctor é o mais velho.
Depois, a Natalia.
E, por fim, o Julián, o meu companheiro.
A Natalia insistiu que tinham de se encontrar
para falar do pai deles.
O meu sogro tem 89 anos.
É viúvo.
Ela tem razão ao dizer que ele já não pode viver sozinho.
Cada vez se perde com mais frequência.
E, ultimamente, desenvolveu o mau hábito de mostrar o pénis às vizinhas.
É tudo. Quanto devo?
O problema é que, segundo a Natalia, é urgente tomar uma decisão
antes que piore e aconteça algo grave.
O Víctor já disse que chegará atrasado.
Parece que tem sempre muito trabalho.
O Víctor é casado com a Marisa.
Têm quatro filhos e dois cães.
Conheceram-se muito novos, na universidade.
Depois de muita insistência, começaram a namorar
e o Víctor conseguiu engravidá-la.
O sogro dele é um advogado de renome.
O Víctor passou a trabalhar no escritório familiar.
Embora, até hoje, ninguém saiba ao certo o que ele faz.
É um aspirante, um fanfarrão,
como diz sempre o Julián.
Um homem que faz tudo o que a mulher manda
para manter um estatuto que nunca imaginou que teria.
A Natalia.
A Natalia é o oposto dos dois irmãos.
Ela é uma mulher séria e introvertida,
obsessivamente metódica e muito perfecionista.
É uma catedrática muito prestigiada e, como se não bastasse,
no pouco tempo livre,
escreve artigos e traduz de sei lá quantos idiomas.
A Natalia casou com o Jerónimo.
Têm uma filha.
Mas ela nunca foi feliz.
O Jerónimo sempre a traiu.
Todos o sabemos.
Felizmente, a Natalia tem uma amiga com quem tem uma grande amizade.
Vão juntas para todo o lado e dão-se lindamente.
A amiga dela é solteira.
Não quero dizer nada com isso.
mas, às vezes, desejo que a Natalia não fosse tão séria,
tão reprimida, e se deixasse levar um pouco.
Adeus.
Eles quase nunca se juntam.
E adoro vê-los quando se encontram,
discutem e brigam.
Sou filha única.
Os meus pais já faleceram.
Agora eles são a minha família.
E a família é o mais importante porque o teu companheiro…
Ele pode deixar-te a qualquer altura.
Os amigos vão e vêm.
Mas a família, os irmãos, estão sempre lá.
Eles não sabem a sorte que têm.
A porta de casa.
Olá!
É o Julián. Acabou de chegar.
Certamente vai fingir que não se lembrava.
O quê?
Nada. Estava a falar sozinha.
- De onde vens tão tarde? - De um casting.
- Não me disseste. - Não.
Um casting para uma série?
Não, para um anúncio.
- Os anúncios também passam na televisão. - É o que dizem.
De que era o anúncio?
De gaspacho.
Sou o tomate.
Certo…
Vou tomar um duche.
Muito bem.
Mas não demores. Eles estão a chegar.
Quem está a chegar?
Os teus irmãos, não te lembravas?
Hoje?
Tens a certeza?
Disseste sexta-feira, certo?
É sexta-feira.
Talvez quisesse esquecer.
Deve ser isso.
Petiscos?
Petiscos, sim.
- Sabia que ias esquecer-te. - O que estás a insinuar?
Não estou a insinuar nada. Tranquilo.
Está bem.
Só estou a dizer
que, quanto mais comida lhes dermos, mais tempo ficarão.
Sim, mas não vêm cá muitas vezes.
Sou enfermeira e trabalho num hospital.
O Julián é ator.
Mas não teve muita sorte com o trabalho, coitado.
Quando era novo, fez algumas séries e peças,
mas as coisas nunca descolaram.
Conhecemo-nos há cinco anos e apaixonámo-nos a seguir.
Ele, sobretudo.
Não temos filhos e este apartamento é alugado.
Tenho três chamadas perdidas da minha irmã.
Sim, ligou ao meio-dia para falar consigo.
Disse-lhe para ligar para o telemóvel.
O que queria?
- Saber se tinhas falado com o Víctor. - De quê?
De uma lâmpada.
Que lâmpada?
Não sei.
Mas ela disse que ligava porque era muito importante.
Uma lâmpada não pode ser muito importante.
É impossível.
Carolina.
Sim?
O que estás a fazer?
Comprei umas flores.
Como não temos outra jarra, trouxe esta.
- Estava guardada no armário. - Escondida.
Estava escondida no armário. É muito diferente.
Foi-nos dada pelo teu irmão. Como ele vem hoje…
Como ele vem hoje, o quê?
Não ias tomar um duche?
Já discutimos isto. Talvez não te lembres.
Eu queria atirá-la da varanda e não me deixaste.
Sim, é verdade.
- Onde ponho as flores? - Diz-me que não foi de propósito.
Temos de pôr comida ao gato.
Carolina.
Estou a ouvir.
Compraste as flores para tirares isso do armário?
Comprei as flores porque são bonitas
e é um gesto simpático para as visitas.
São meus irmãos, não são visitas.
Não temos de causar boa impressão.
Pelo contrário.
Se não entendes como funcionam as dinâmicas familiares,
é melhor não te meteres.
- O quê? - Dinâmicas familiares.
- Esta jarra é um insulto. - Não é assim tão feia.
É um insulto e sabes perfeitamente.
É feia, pirosa e pretensiosa.
Como o meu irmão.
E talvez te tenhas esquecido,
mas o Víctor ofereceu-a no Natal.
E depois descobrimos que a loja lha tinha oferecido.
Podes abrir uma lata?
E ele pensou:
"Já que tenho de dar uma prenda ao idiota do meu irmão,
dou-lhe esta jarra merdosa e fico bem-visto."
Que lata?
A lata de anchovas.
E perdoa-me por dizer isto,
mas pensares que era boa ideia
pôr a jarra no meio da sala de jantar
para o Víctor pensar que gostámos muito
enfurece-me ainda mais.
Tranquilo. Já a ponho noutro sítio.
Outra vez. Estou tranquilo.
Não pareço?
Não sei o que te dizer.
Tiveste um bom dia?
Até há pouco, sim.
Só estou a dizer para termos cuidado com os gestos.
Porque podes ter boas intenções, mas ele verá isso de outra forma.
E não temos de ter nenhuma consideração especial.
É meu irmão, não é o primeiro-ministro. Percebes?
Perfeitamente.
E além de eles virem cá, temos de lhes dar de comer.
Porque, claro, ele certificou-se de que o faríamos aqui.
Não somos dignos de sermos convidados para a moradia dele. Não!
Podemos sujar um dos tapetes persas.
Agora estou a ficar um pouco nervoso.
Um pouco, sim.
Vai tomar um duche.
- O que faço com as anchovas? - Põe nas tostas.
- A que horas lhes disseste para virem? - Disse ao Víctor para vir às 20 horas.
- Mas já são 20 horas. - Eu sei.
Vai chegar meia hora atrasado, como sempre.
Os VIP, como ele e a mulher,
são sempre os últimos, como se nos fizessem um favor.
A tua irmã é o oposto.
Por isso, disse-lhe que viesse às 21 horas.
- Queres saber porquê? - Estou morta por saber.
Porque, como sei que ela chegará meia hora antes,
é a forma de estarem os dois à porta exatamente às 20h30,
sobem juntos e não me chateiam.
Ter irmãos é cansativo, querida.
Tu não entendes.
A tua irmã vem mais cedo porque quer ajudar.
Não, quem chega antes só incomoda.
Mas, claro,
como ela tem necessidade de colaborar,
sempre ansiosa que tudo corra bem…
Como esta reunião.
O meu pai distraiu-se, enganou-se no autocarro
e tivemos de ir buscá-lo a Colmenar de Oreja.
E então?
Isso é motivo para o enfiar num lar?
E sabes… que mais?
Diz, querido.
Se o meu pai quer mostrar a pila à vizinha, que mostre.
Por mim, tudo bem.
- Certo. - Está a despedir-se da vida.
Os homens são assim e a culpa não é nossa.
Claro.
Não sei se percebi bem, mas falamos disso noutro dia, sim?
Quando não tivermos visitas.
Natalia.
Sim.
Não, não precisas de trazer nada.
Não vai demorar, certo?
Onde estás?
O quê?
Não planeámos encontrar-nos hoje?
Amanhã, sábado.
Não…
Não há problema.
Não, devo ter percebido mal.
Sim… Não te preocupes.
Pomos as anchovas na lata e pronto.
Estou a brincar.
Vemo-nos amanhã às 20h30.
Não, às 21 horas.
Vem às 21 horas.
Adeus.
Adeus.
Sinceramente, lamento pela jarra.
Agora que a tirámos do armário.
Vamos aos cinco.
Um, dois, três, quatro, cinco…
É sábado e são quase 19 horas, outra vez.
Esta manhã, o Julián acordou de muito mau-humor
e queria cancelar a reunião de hoje.
Está convencido de que o mal-entendido de ontem
não foi culpa dele, mas dos irmãos.
Parece que costumam decidir
e mudar de ideias sem lhe dizer.
Segundo o Julián, acontece desde que eram miúdos
e tem que ver com o desprezo com que tratam os irmãos mais novos.
Felizmente, depois de comer, o humor melhorou
e resignou-se com a reunião desta tarde.
Natalia.
- Sempre tão pontual. - Vim cedo para ajudar.
Claro.
- Como estás? - Muito bem.
Entra.
Julián.
Natalia.
Toquei, mas não abriste a porta.
Estava a fazer os meus exercícios de relaxamento.
Faço-os sempre que tenho visitas.
- O Víctor já chegou? - Não. Estranho, não é?
Achei que chegariam juntos.
Devo ter calculado mal.
- O quê? - Nada. Não lhe dês ouvidos.
- Volto já. - Aonde vais?
Vou à loja comprar comida de gato.
- Eu vou contigo. - Sim, vai.
Tens a certeza?
Não queremos começar a discutir cedo de mais.
Vou tomar um duche. Não consegui no ginásio.
Força.
- Liguei-te três vezes ontem. - Sim.
A Carol disse-me que estavas muito preocupada com uma lâmpada.
Exatamente.
Sabes que a tua irmã é muito histérica.
- Estás zangada? - Um pouco.
- Vá lá, tu nunca te zangas. - As coisas estão a começar a mudar.
Devias ter-me avisado.
Só queria saber se já a tinhas trocado.
- A lâmpada? - Sim, Julián, a lâmpada.
Claro… De que lâmpada estamos a falar?
A da casa de banho do pai.
Não falaste com o Víctor?
Quem é o Víctor?
A luz da casa de banho pisca.
Pisca?
Sim, o pai diz que faz faisquinhas.
Faz o quê?
Faisquinhas. É o que o pai diz. Acende e apaga.
Pede-me que a troque há muito tempo, coitado.
Podes trocá-la esta semana, Julián?
Sim, eu troco-a.
Não te preocupes. Tranquila.
Estou muito tranquila.
Não pareço?
Não sei o que dizer.
"Faisquinhas", a sério? Que palavra parva.
Falei disso ao Víctor há dias.
Achei que já tinham falado disso.
Ele disse que te ligava e que a trocavas.
- Como? - O quê?
Podes repetir o que acabaste de dizer?
O que eu disse. Ele disse que te ligava.
A segunda parte da frase?
E que a trocavas.
E porquê eu?
Não sei, Julián. Porque alguém tem de a trocar.
Sim, mas porquê eu? Porque não a troca ele?
Ou a senhora da limpeza.
É mais velha do que o pai, Julián.
Fica tonta se subir ao escadote. E o Víctor…
E o Víctor?
Ele é muito ocupado e…
Sim, é verdade.
Coitadinho.
- Boa tarde. - Boa tarde.
E como é que ele te disse?
Como assim?
O tom que ele usou quando falaram das "faisquinhas".
O que disse ele?
"O Julián trocará a lâmpada.
Ele não tem nada que fazer."
É só uma lâmpada, Julián.
Claro que não se rebaixará a trocar a lâmpada do pai.
Os aristocratas não fazem essas coisas.
Não. Como ainda lhe devo dinheiro…
- Ainda lhe deves dinheiro? - Adeus.
Sim. E então?
Ouve, trata-se só de mudar a lâmpada ao pai.
O Víctor achou que tinhas mais tempo, só isso.
Claro. E porque pensou isso?
Porque, para ele, sou o mordomo da família,
o tarefeiro, o moço de recados.
Eu não vou trocá-la.
O que estás a fazer?
Procuro as chaves.
Bem…
Então, o que fazemos?
Não sei.
Põe isso na ordem do dia.
Primeiro, falamos da pila do pai e depois sobre quem troca a lâmpada.
Tirando isso, está tudo bem?
Ótimo. Se não entrarmos em pormenores, está tudo ótimo.
- E tu? - Preciso de um copo de água.
Tenho de tomar um comprimido.
Tu e as tuas enxaquecas.
Sim.
Que flores tão bonitas!
Sim, muito bonitas.
É uma pena. Teremos de as deitar fora,
se ninguém as quiser.
Vão com a jarra.
Obrigada.
O que posso fazer?
Põe as anchovas de novo nas tostas.
Muito bem.
Ainda não falámos disso.
- De quê? - Se gostaste do livro.
Que livro?
O romance.
Que romance?
O que foi escrito pelo… Víctor.
O meu irmão escreveu um romance?
Temos de comprar uma máquina de lavar ao pai…
- Natalia. - Sim?
Não mudes de assunto.
- Reparaste? - Um bocadinho.
Não sabia que não sabias.
Não faz mal.
Sim, eu sei que não faz mal. Porque faria?
O Víctor deve ter-te dito, mas esqueceste-te porque és muito…
Muito quê?
Esqueces-te das coisas.
Ele dá-te o romance. Tranquilo.
Estou tranquilo.
Não pareço?
Estou muito tranquilo. Para caraças.
Ora, ora, ora…
O meu irmão escreveu um romance.
Impressionante, certo?
Não é nada de especial, certo?
É uma grande notícia.
Desde quando é que ele escreve romances?
Porque não falamos do pai? Estamos aqui por isso.
É só conversa enquanto esperamos pelo artista.
- Há muito tempo? - Não sei.
Sim, sabes. Vá lá.
Não sei. Há uns tempos. Um ano, talvez?
- Há um ano? - Mais ou menos.
É algo de que falam muitas vezes?
Não, só de vez em quando.
Quando eu não estou.
Sim, sobretudo quando não estás.
Ele falou-me disso porque me pediu conselhos.
Pediu-te conselhos?
É só um passatempo de domingo.
Um passatempo de domingo? Como assim?
Escreveu o romance ao domingo.
Ao domingo?
Sim, Julián.
É o que diz na primeira página.
Levou 53 domingos a escrever o romance.
Já vou!
53 domingos?
Caramba!
- Agora percebo tudo. - O quê?
Porque nunca atende o telefone.
Deve ser difícil escrever um romance.
- Não o defendas. - Não o defendi.
Ias defendê-lo. Sempre a arranjar desculpas para ele.
Só disse que não deve ser fácil escrever um romance.
Exato.
E o que essa frase implica
é que escrever um romance deve ser tão complicado
que o Víctor nunca tem tempo para atender o telefone,
sobretudo se for o palerma do irmão a ligar-lhe,
que por acaso sou eu.
Vá lá, Julián. Sabes como é o Víctor.
Ele só atende quando é conveniente, quando quer e lhe apetece.
E porquê?
Porquê o quê?
Porque escreveu um romance? O que pretende?
Não sei. Talvez sinta necessidade de contar coisas…
- Contar coisas! - Tu percebeste, Julián.
Eu percebi-te, Natalia.
Espero que sim.
Coitado.
Falei com a vizinha ontem sobre o pai,
sobre ele lhe mostrar os genitais.
Sabes o que ela disse?
Gostaste muito do romancezinho?
- Não é preciso gozar com ele. - Não gozei.
Sim, disseste "romancezinho".
- Com sarcasmo. - A sério?
É verdade. Admito. Não consigo evitar.
É porque tenho inveja.
No fundo, admiro muito o meu irmão.
Admiras?
Muito.
- Posso ir à casa de banho? - Claro. É toda tua.
Obrigada.
O Víctor ainda não chegou?
Deve estar a chegar.
- De que falavam? - Depois conto-te.
E é sobre o quê?
É erótico?
É… um pouco longo.
- Já lhe disseste? - Não.
Mas ele liga-me todos os dias para me perguntar se o li.
É muito insistente a tentar que lhe diga o que penso.
Bolas! Que chatice.
Quer que seja sincera e objetiva.
Nunca deves dizer a verdade.
No geral?
No geral e sempre.
Dizer a verdade é de mau gosto.
O meu irmão escreveu um romance.
Um romance? É ótimo, não é?
Seja como for, deves estar muito orgulhosa.
- O que fiz agora? - Não, nada. É isso.
Ele ouve-te. Valoriza-te.
Para ele, a tua opinião implica reconhecimento.
A minha opinião não vale mais do que a dos outros. Não vamos começar.
Para o Víctor, a minha opinião é igual à dos catos dele.
Chega, Julián. Não é nada de especial!
Ele dá-te o romance. Se não, ainda melhor.
Não terás de o ler nem a obrigação de lhe dizeres o que pensas!
Ela agora fica zangada.
Muito bem.
Sim.
Além disso, o Víctor valoriza-te de outras formas.
- O quê? - Ele valoriza-te de outras formas.
Ouviste, Carol?
- O meu irmão ama-me. - Vês? Que bom!
Quando to deu?
Não sei. Há uns meses.
Estou a ver. Há uns meses, a sério?
Sim, no dia em que fomos a casa do pai para o aniversário dele.
Tu não estavas. Talvez por isso não to tenha dado.
Não. Eu estava lá.
- Não, Julián. - Sim. Atrasei-me, mas estava lá.
- A sério? - Sim.
E o Dostoiévski não me deu nenhum romance.
As coisas não são tão complicadas como pensas.
Ele podia não ter mais exemplares
e foi por isso que não to deu.
- Uma edição limitada? - Provavelmente.
E?
E já chega.
Se ele não chegar em cinco minutos, vou-me embora.
Está bem encadernado?
Acho que sim.
Vá lá, é importante.
Não sei. Está encadernado.
Capa dura? Resistente?
- Não, nem por isso. - Para poupar.
Todos os ricos são forretas.
- Como se chama o gato? - Fanny.
- Fanny… - Deste-lhe de comer?
Sim, querida. E gostaste?
Que cara é essa?
Que cara?
A que fizeste quando fiz a pergunta.
Posso fumar aqui?
Não. O gato é asmático.
Não faz mal não teres gostado do romance, Nati.
Ouve. Gostei muito.
A sério? Muito?
Bastante.
Muito ou bastante? Não é o mesmo.
Não é mau. Podia ser melhor, mas…
O quê?
Puseste um "mas" no final da frase.
Porque há coisas que não funcionam.
Por exemplo?
Tem demasiadas personagens. E tem demasiados níveis narrativos.
Cuidado! Cuidado com os níveis narrativos!
Os níveis narrativos…
E o final não faz sentido.
Um final apressado.
É uma boa leitura. Não é muito divertido, mas…
- Então, é uma… - É o primeiro romance dele.
Sim, é o primeiro romance dele, mas é uma…
- É uma… - É uma quê?
- É uma… - O que é, Nati?
É uma merda!
Eu vou lá!
Estou muito orgulhoso de ti.
Não estou feliz por não ter gostado do romance do meu irmão.
Mas tu estás.
É feio. Tenho de admitir.
Mas é assim. Além disso, a arrogância não deve ser recompensada.
Então, foi arrogância que o levou a escrever o romance.
Claro.
Não lhe digas o que te disse.
- Por favor. Sentir-me-ia mal. - Claro que não. Não sou cruel.
Todos os domingos a trabalhar. Coitado.
- Coitada de ti. - De mim? Porquê?
Porque agora tens de lhe dizer o que achas.
Que o romancezinho é uma merda. Não é, Natalia?
- Quem era? - O Víctor.
O que quer? Que lhe vamos estacionar o BMW?
Não, afinal não vêm.
Vão ficar em Marbella porque querem velejar amanhã e…
Podem encontrar-se para a semana.
Ou qualquer outro dia.
Não acreditas em mim, Natalia,
mas admiro muito o meu irmão.
Sabes porquê?
Porque adoraria ser como ele.
Agora quem vai trocar a lâmpada?
- Eu faço isto. - Eu ajudo.
Obrigada.
Após a segunda tentativa falhada no sábado passado,
decidiram encontrar-se durante a semana.
A Natalia implorou ao Julián para não entrar em conflito com o Víctor,
depois da "lamentável falta de respeito no outro dia".
Estou a citar o Julián palavra por palavra.
- Esperaste muito tempo? - Não. Não muito.
Que chuva inoportuna. Céus!
Aconteceu alguma coisa?
Não. Porquê?
Por nada. Foste tão pontual.
Não queres tirar os sapatos?
- Estão encharcados. - Sim, talvez os tire.
- Sim. Põe-te à vontade. - Sim.
Com licença.
Estive quase a trazer um guarda-chuva, mas depois…
Que flores tão bonitas!
- Certo? - Sim.
Estão a ficar murchas, mas esta jarra faz com que pareçam lindas.
Não achas?
- A jarra, sim. - Sim.
Trouxe vinho.
Vá lá, não era preciso.
Sim. Ou depois criticam-me.
É um Gran Reserva, um Bordéus.
Nunca provaram algo assim.
De certeza que não.
Bebemos sempre vinho barato.
Certo?
- Como estão as meninas? - Muito bem.
Espero que arranjem namorado em breve e saiam de casa, porque…
E a tua mulher?
A Marisa está fantástica, como sempre. Linda.
Ela queria vir,
mas como a Natalia insistiu que era uma reunião sem cunhados…
A Natalia tem razão. Ou demoraria demasiado.
De certeza que não queres tirar as peúgas?
Empresta-lhe os teus chinelos.
Os meus chinelos?
Não. Nem pensar.
Não é preciso, Carol.
Além disso, a reunião não vai demorar.
É esse o espírito, Víctor.
Julián, se concordas comigo
que não é necessário pôr o pai num lar de idosos…
Obrigado. Somos os dois contra a Natalia.
Contratamos alguém que o ajude em casa e assunto encerrado.
Concordas comigo, certo?
O meu advogado proibiu-me de fazer declarações até estarmos os três.
- Ouve, Carol… - Sim?
Senti-me mal por não vir no sábado, mas tínhamos mesmo de ir a Marbella.
Não te preocupes. A Natalia disse-nos.
Víctor, ser rico deve ser muito cansativo, não?
Nem imaginas, Julián. É… esgotante.
Esgotante.
Tinha prometido levar o meu sogro a velejar
com alguns amigos dele que tinham vindo de Santander.
Pessoas importantes. Com muito dinheiro, Julián.
Pessoas importantes com muito dinheiro. Sabemos como é.
Calma. Não foi nenhum incómodo.
Só tínhamos preparado uns petiscos.
Sim, e as anchovas adoram entrar e sair da lata.
Anchovas, que bom! São do mar Cantábrico?
Não, são do supermercado.
Vou buscar uns chinelos. Não podes ficar assim.
Como estás? Como está tudo?
Está tudo muito bem.
E tu?
Novidades? Algo que eu não saiba?
Não. Porquê?
Por nada. Só queria pôr a conversa em dia.
Bem, falámos no WhatsApp na semana passada.
Não houve tempo para acontecer algo digno de nota.
Se não aconteceu nada digno de nota, fico mais descansado.
- Muito trabalho ultimamente, sim. - Caramba.
A questão é que me tornei… demasiado imprescindível.
Cuidado, ainda te tornam diretor-geral e acaba a diversão.
Tens toda a razão.
Claro.
Somos tão diferentes, não somos?
Tu e eu.
- Achas que sim? - Sim.
Eu quero sempre mais e tu contentas-te com menos.
Olho-te assim porque não sei o que dizer.
Espero que não te tenha ofendido, Julián.
Ainda não sei.
Tu e o teu sentido de humor.
Invejo isso em ti.
Não levas nada a sério, não importa como as coisas corram.
Chama-se instinto de sobrevivência.
Com licença.
Os chinelos.
Vou só à farmácia. Volto já, está bem?
Não discutam sem mim.
Não, por favor.
Nos últimos dias, tenho pensado:
"Quando vires o Julián, tens de lhe contar algo."
- Mas agora não… - A sério?
O que era?
O que pode ser?
Não sei. Hei de lembrar-me.
Tenho-te ligado, mas nunca te apanho.
Quando?
- Ao domingo. - Ao domingo?
À tarde.
À tarde? Que estranho.
A sério? Porquê?
Porque estou sempre em casa.
Estás sempre em casa ao domingo à tarde?
Estou sempre em casa.
E se sairmos no fim de semana, voltamos depois do almoço.
- É um hábito. - A sério?
Nunca atendo se não souber quem é, Julián.
- Não? - Não.
Porque não quero
que me desconcentrem.
Claro, porque deves estar
concentrado nas tuas coisas.
Exatamente.
É bom ter esses momentos,
estar sozinho,
pensar, refletir
e descobrir como moldar
tudo o que queres expressar,
mas não sabes como.
Julián, descreveste-o na perfeição.
Sim, eu sei.
Vou estender a roupa. Parece que parou de chover.
Um momento. Fica à vontade.
Se a Natalia tocar, abre a porta.
Vou contigo?
Se tiver de ser…
Vou contigo.
E o que querias?
Pedir-te conselhos.
Como não atendeste, liguei à Natalia.
Que pena.
Ela aproveitou para me chatear sobre o pai.
O que ela tem é uma doença, Julián.
- O sentimento trágico em relação à vida. - Eu não o teria dito melhor.
Como esta reunião urgente que temos de ter.
O pai distraiu-se, enganou-se no autocarro
e tivemos de o ir buscar a Torrelodones.
E então?
No outro dia, ela ligou-me três vezes. Três vezes!
O que queria?
A lâmpada do pai. Pelos vistos, faz faisquinhas.
Sim, faisquinhas.
Disse-lhe para ficar tranquila, que tu a trocavas.
Ela mencionou isso, sim.
Faz isso antes que se passe. Ela está a dar comigo em doido, Julián.
Sabes qual é o problema, Víctor? Tenho andado muito ocupado e…
A sério? Arranjaste um projeto novo?
Estou a tratar disso. Tive um casting.
Para uma série?
Não, para um anúncio.
Um anúncio. Ótimo. De quê?
De gaspacho.
Queriam alguém com experiência para fazer de tomate.
- De tomate? - Sim.
Julián…
O teu trabalho… Preocupo-me contigo.
- A sério? - Sim.
Não é estranho a Natalia demorar tanto?
Sim, por acaso, é.
Que belo sítio, Julián.
- Achas? - Sim.
Nada como a minha casa. A minha casa é…
Sim.
- E tu estás bem. - Estou bem.
Sobretudo se não entrarmos em pormenores.
Agora tens tempo.
Tempo?
Sim, para ir a casa do pai e trocar a lâmpada, a que faz…
Sim, as faisquinhas.
- Sabes qual é o problema, Víctor? - Diz-me.
Entre fazer de tomate e levar o gato a passear,
não tenho muito tempo livre.
Não podias ir lá no domingo?
Domingo? Impossível.
Não.
- Sabes que mais? - O quê?
Que a troque a Natalia.
- A Natalia? - Porque não?
Tens razão.
Temos de ser nós a trocá-la por sermos homens?
- Não são modernas? - E feministas?
Podem trocar as lâmpadas.
- Já chega. - Tantas faisquinhas.
- A Natalia é tão esperta. - Certo?
Tem muitos mestrados, Víctor. Sabes o que significa.
Dá-te a volta com aquela cara de inocente.
Safa-se sempre.
E nunca te dirá o que realmente pensa. Nunca.
Mesmo que lhe peça para ser objetiva?
Então, é possível. Sim.
Vai ser difícil. Não será fácil para ela, mas sim.
Fica tranquilo.
Estou tranquilo. Não pareço?
Era só uma forma de dizer.
Vou lavar as mãos. Onde é a casa de banho?
Onde sempre foi. Ao fundo, à direita.
Julián!
Lembrei-me do que tinha de te dizer.
Nada de importante. É uma tolice.
Escrevi um romance.
Um romance?
Tu?
Eu. O teu irmão mais velho, sim.
Sei que és o meu irmão mais velho.
Parece que não sabes o que dizer.
Estou impressionado. Nunca teria imaginado.
Sabes, Julián, eu gosto de desafios.
Nós sabemos. Toda a tua vida é uma aventura.
Julián…
Não…
Deixar-me-ia muito feliz…
A sério?
… se tu também…
Para mim? Bolas! Que honra!
Se também o lesses.
Estas coisas podem emocionar-me.
Dá-mo. Escrevo-te uma dedicatória.
É necessário?
É apropriado e não me custa nada.
Nesse caso…
- Se não souberes o que escrever… - Não.
- Fica para outro dia. - Não, estou a pensar.
"Para o meu irmão pequeno,
que pode não parecer ser…
… mas, no fundo, é."
Não sei… o que dizer.
Estou sem palavras.
Sem palavras.
- Julián. - Sim?
- Queria pedir-te uma coisa. - Não digas nada.
- Não é preciso. - Sim, é.
Não é preciso.
Queres que te diga o que achei quando o ler.
Que seja objetivo e, sobretudo, sincero, certo?
Bolas, Julián!
Era exatamente isso.
Já estava à espera.
Estava à espera disso e…
Mesmo que quisesse,
não poderia não ser sincero contigo.
Não sabia se havia de to dar. Não tinha a certeza.
Não? Porquê?
Pensei que te sentirias obrigado a lê-lo
e podia ser chato.
De todo. Estou ansioso por o ler.
Mas como não costumas ler, custar-te-á mais.
Mais do que às outras pessoas?
Muito mais porque não estás habituado, Julián.
Achas que me custará mais entendê-lo
do que, por exemplo, a nossa irmã.
Muito mais.
A sério?
Claro. A Natalia tem duas licenciaturas.
Ela fala e lê em quatro idiomas
e está habituada ao pensamento abstrato.
E tu…
Eu sou um tomate.
São profissões diferentes, Julián.
Não discuto isso.
É um romance… complexo.
Aposto que tem muitos níveis narrativos.
- Como sabes? - Imagino.
Tem tantos níveis narrativos que…
Não se percebe nada.
O quê?
Não te preocupes. Gosto de coisas complicadas.
Não é o meu primeiro livro. Já li alguns romancezinhos.
"Romancezinhos"?
Romances.
Com licença.
Carol?
Sim.
Sim?
Sim.
O que estás a fazer?
Nada.
É um jogo que temos jogado ultimamente.
Levamos as anchovas a passear e voltamos a pô-las na lata.
O que disse a Carol?
A Natalia ligou-lhe.
Lamenta, mas está na cama com uma enxaqueca atómica
e não consegue vir.
A sério?
Caramba, que contratempo!
Está na moda.
Organizas um jantar e ninguém aparece. Não sabias?
O que devo fazer? Devo ficar para jantar ou o quê?
- Não é preciso, não achas? - Tens razão.
Fica para quando estivermos os três.
Concordo. Não queremos discutir e estragar tudo.
Ligas tu à Natalia?
Sim. Eu ligo-lhe.
E porque tenho de ligar à Natalia?
Para lhe dizeres que troque a lâmpada.
Sim, é verdade.
- Que a troque ela. - A revolução tem um preço.
A revolução tem um preço!
- Falamos depois. - Está bem.
- Dá um beijo à Carol por mim. - Sim.
Julián,
aquela jarra…
Aquela jarra é muito feia.
Deviam usar a que vos ofereci.
São 18h45 e é outra vez sexta-feira.
Acabei o meu turno no hospital e o Julián deve estar quase a chegar.
Hoje ia filmar o anúncio e levantou-se muito cedo, coitado.
O Víctor e a Natalia já chegaram.
O Julián ficará feliz. Finalmente chegaram juntos.
Mas parece que o Víctor deixou o telemóvel no carro.
O Julián deitou fora as flores ontem. Estavam murchas.
E voltou a pôr a jarra no armário.
Mas, pelos vistos,
hoje a Natalia trouxe outro ramo.
Vi-as quando passei na florista e pensei…
São lindas, a sério. Mas não era preciso.
Claro que era. Sobretudo depois de não vir no outro dia.
Como gostam tanto de flores…
Adoramos. Sobretudo o Julián.
Ele não atende. Não me atende desde ontem à noite.
- Quem? - O meu pai.
Não pode usar o aparelho auditivo, não ouve e nunca atende.
Podíamos almoçar um dia com o teu pai e os miúdos.
Gosto muito quando vêm cá.
Ela gosta demasiado e isto vai acabar mal.
- Julián. - Pensávamos que não estavas.
Acabámos mais cedo.
Natalia, como estão as tuas enxaquecas?
Estou melhor.
Lamentei não ter vindo no outro dia.
Nós lamentámos mais.
Tivemos de te criticar.
- Vê que coisa linda a Natalia trouxe. - Sei que gostam muito.
Adoramos.
E o Víctor?
Foi ao carro buscar o telemóvel.
Os artistas são tão distraídos.
Não vais acreditar. Encontrámo-nos à porta.
- Que coincidência! - É mesmo.
Há muito trabalho por trás, Natalia.
Como foi a filmagem?
Tiveste uma filmagem?
Uma série?
- Vou tomar um duche. - Um anúncio.
De que era o anúncio?
- Porque não lhe dizes? - Não é preciso.
De gaspacho.
Ele fez de tomate.
Também pode ser interessante, certo?
Não deve ser fácil fazer de tomate.
Ora, ora.
O Víctor disse-me que finalmente te deu o romance.
Deves estar contente, não?
Não tenho a certeza.
Querias tanto lê-lo.
Já o leu duas vezes.
A sério?
Foi rápido, não foi?
Passou a tarde toda no sofá. Parecia que nem respirava.
Estamos a falar do romancezinho do Víctor?
Não é nenhum romancezinho.
Gostaste?
Adorou.
- É uma das tuas piadas, certo? - Não sabes a raiva que sinto.
- Estou a passar mal. - É impossível.
Como podes ter gostado?
Não sei.
Por isso me preocupo.
Tem de haver uma razão, Julián.
Espero que sim.
Talvez não o tenhas percebido.
Foi o que pensei no início.
Depois voltei a lê-lo. Gostei muito mais do que da primeira vez.
Adorei as metáforas.
- Adorou-as. - Que metáforas?
- Não queria que acabasse, certo? - Sim.
Eu vou lá.
Também te pediu para seres sincero?
Sincero e objetivo.
- Desculpa. - Qual é a piada?
Nada. Só quero ouvir-te dizer-lhe o quanto gostaste do romancezinho dele.
Não lhe vou dizer.
Se eu tenho de dizer a verdade, tu também tens.
Além disso, ele deve pensar que só acabo de o ler no verão,
já que me custará muito mais do que a qualquer ser humano.
Agora, se me dás licença, vou snifar champô.
Talvez me anime.
- Víctor. - Carol!
- Como estás? Bem-vindo. - Outra vez.
Entra.
Tenho a sensação de que já vim cá mais vezes
nos últimos dias do que em todos os anos que vivem aqui.
Vivem aqui há muito tempo?
Sim, Víctor. Desde que estão juntos.
- Sim? - Sim.
A sério?
Carol, o Julián ainda não chegou?
Sim, está no duche.
Esteve a filmar o anúncio.
Sim, o anúncio. Ele disse-me que fazia de…
- O que era? - Tomate.
Carol, está na hora de ele desistir, não achas?
Se não realizaste o teu sonho, tens de seguir em frente.
Posso dar-lhe trabalho no escritório.
Como motorista. Fazem sempre falta.
Diz-lhe tu.
Claro. Eu digo-lhe. Mas é melhor noutro dia.
Sim, é melhor noutro dia.
Ora, ora. Finalmente, estamos todos.
Deves estar contente, certo, maninha?
O que estás a insinuar?
Nada. Não estou a insinuar nada.
Não, disseste "feliz".
Não sou idiota, Víctor.
Estás zangada? Nunca te zangas, Natalia.
A partir de agora, zango. Habitua-te.
- Devias ter avisado. - Têm de estar todos para discutir.
Não estamos a discutir, Carol. Ainda não.
Estamos só a pôr a conversa em dia, certo?
Disseste "contente". Prolongaste a palavra.
- Não foi de propósito. - Mas fizeste-o.
E o que me incomoda é o teu tom, o que estás a insinuar.
Carol, pareceu-te que estava a insinuar algo?
O Julián fez-me prometer que não daria a minha opinião.
Como os cunhados não podem…
Como se me fizesses um favor ao vir cá.
Como se o bem-estar do pai não fosse da vossa conta.
Não era a minha intenção. Tranquila.
Eu estou tranquila.
Não pareço? Porque estou tranquilíssima.
Mas estou cansada, Víctor, da forma como me tratam.
Da vossa atitude de superioridade.
Sobretudo tendo em conta que sou a única a preocupar-se com as coisas.
Talvez não te devesses preocupar tanto.
O que queres dizer?
Quando levas as coisas demasiado a sério, deixam de ter graça.
É uma teoria muito interessante. Onde a foste buscar?
Do manual para escritores principiantes que te recomendei?
Com licença.
Não deviam esperar pelo Julián para discutirem?
- Sim. - Tens razão.
Tens razão, Carol. Desculpa.
Carol, trouxe uma coisinha.
Algumas anchovas, mas boas.
Que bom! Muito obrigada. Não era preciso.
Dás-me água para tomar o comprimido para as enxaquecas?
- Claro. Vou buscar. - Obrigada.
A minha mãe dizia que as enxaquecas eram gavetas mal fechadas.
"Gavetas mal fechadas"?
O que significa isso?
É uma metáfora, Víctor.
Agora que és escritor, devias saber.
Agora que falas nisso…
Em quê?
Já leste o meu romance?
Carol!
Sim?
- Precisas de ajuda? - Não é preciso.
Tens a certeza?
- Natalia? - Sim?
- O que aconteceu? - Quando?
Agora.
Estás a tentar mudar de assunto?
Reparaste?
Um bocadinho. Claro.
Se não gostaste, tudo bem. Podes dizer-me.
Eu sei. Porque não estaria tudo bem?
Só quero que digas a verdade, que sejas sincera e…
Eu sei.
Mas não seria melhor falar disto noutro dia?
- Certo. - A água.
Obrigada.
Quero dizer…
Com todas as coisas importantes e delicadas que temos de abordar hoje…
- Certo, Carol? - Claro.
Vá lá. Só um comentário.
A tua primeira impressão depois de o leres.
As primeiras impressões são sempre delicadas.
"Delicadas"?
Sim…
E nem sempre refletem o que realmente pensas.
Mas só quatro palavras. Como uma manchete.
Uma manchete de quê?
A impressão dela do meu romance.
Ela já o leu.
- A sério? - Sim.
Já leste o romance, Nati?
Mas não me disseste.
- O que achaste? - Eu…
Que bom estarem aqui os três.
- Estamos muito felizes por estarem cá. - Não é verdade. Não lhe liguem.
Quando quiserem, sentem-se à mesa.
Vou ver uma série no meu quarto e deixo-vos a… discutir em paz.
- Obrigado. - Obrigada, Carol.
Obrigada.
Natalia.
Estamos a ouvir.
Quanto tempo demoraste a lê-lo? Mais de uma semana?
- Porquê? É importante? - É muito importante.
Quanto mais seguido e em menos tempo, melhor.
- Não sabias? - Não.
Não sei. Umas semanas, acho eu.
O quê?
- Lia sempre que podia, à noite… - E?
A verdade é que me surpreendeu muito.
Surpreendeu-a muito.
- Sim, não esperava. - Ela não esperava.
- Isso é bom ou mau? - Depende.
Depende de quê?
De muitas coisas.
A verdade é que nunca imaginei que podias escrever algo assim.
Não é um romance fácil.
Não sei se te percebi, Natalia.
- As críticas são assim, Víctor. - Só quero saber se ela gostou.
Ele só quer saber se gostaste.
A verdade, Víctor, é que eu não…
Quero que saibas que não é fácil dizer-te isto.
É o problema de dizer a verdade.
A verdade é que eu…
Adorei!
O que disse ela?
Que adorou.
Adoraste, Natalia?
Sim, gostei muito.
Tens a certeza?
Para um primeiro romance, é muito bom.
"Para um primeiro romance, é muito bom" pode ser interpretado de muitas formas.
Sinto-me… aliviado.
Sinceramente, estava nervoso para saber o que pensavas, maninha.
Gostaste muito ou adoraste? Sê mais específica.
Porque não nos sentamos e começamos a reunião?
Não o achaste aborrecido?
De todo.
Pelo contrário. Dou-te os parabéns.
- Dás-lhe os parabéns? - Dá-me os parabéns.
Muito obrigado, Natalia.
- A opinião dela é muito importante. - Claro. A dela.
Sim, porque ela é o público-alvo.
- Com licença. - Claro.
A Marisa.
Querida. Sim?
Ora, ora, ora…
Adoraste o romance?
Não te preocupes…
Estamos aqui para falar do pai e chegar a um acordo.
Estou a ver. Faz tudo parte de uma estratégia.
Claro.
O que ganho ao dizer-lhe que o romance é uma merda?
Que se ofenda e fique furioso antes de falarmos?
- Não gostaste do romance? - Nada.
Não, além de…
Agora é a tua vez de dizeres que também gostaste.
Ficará tão feliz que, para a semana, o pai viverá em casa dele.
Com a adega e a piscina. A mostrar o pénis às criadas.
Ele deu-me o romancezinho porque queria autografá-lo.
- A minha opinião não importa. - Ele dá-te mais valor do que pensas.
Natalia,
posso ser um tomate, mas não sou idiota.
- O que procuras, querida? - O meu tablet. Não sei onde o deixei.
O vosso gato está a comer uma planta.
Eu vou lá.
Desculpem a interrupção.
Do que estávamos a falar?
- Do teu romance. - Sim.
O Julián estava a dizer-me que ele também o leu.
- Já? Tão depressa? - Então? Gostaste?
Acima de tudo, diz o que pensas.
Ele seria incapaz de não ser sincero.
Incapaz.
Mas falamos disso noutro dia, está bem?
Julián, a tua opinião também me interessa.
- Vês? Eu disse-te. - A sério?
Interessa-te tanto como a da Natalia?
Não, são diferentes. Não se pode comparar.
De que forma são diferentes?
Ouve, Julián, isso não é importante agora.
O que o Víctor quer saber é se gostaste,
se sentiste empatia pelas personagens, o que achaste das metáforas.
Que metáforas?
- O título. Gostaste? - Gostaste?
53 Domingos.
Surpreendeu-me.
E isso é bom ou mau?
Depende.
Sabes que mais, Julián?
Sim?
Prefiro que ainda não me digas nada.
Devias relê-lo antes de me dizeres o que pensas.
Dizes isso porque achas que não o percebi bem?
Uma segunda leitura é sempre boa ideia.
Sobretudo para quem se dedica ao gaspacho, certo?
É justo que leves algum tempo.
Não estás habituado e não é um romance fácil.
Não tenhas pressa. Lê de novo.
Outra vez?
Outra vez o quê?
Já o leu duas vezes.
Leste-o duas vezes, Julián?
Seguidas.
Seguidas?
Julián, estou sem palavras.
Não estava à espera disso. Estou a emocionar-me.
Se ele já o leu duas vezes,
pode dizer-te o que pensa.
Claro. Nesse caso, claro que sim.
E?
Como uma manchete.
Como uma manchete?
Para que conste, também é muito difícil dizer-te isto.
Pareceu-me…
… longo, aborrecido, com demasiadas personagens e tramas
e um final apressado sem sentido.
Digo-te isto porque prometi ser sincero e objetivo.
Ou ter-te-ia mentido, que é o que toda a gente faz.
Mas já que insististe tanto…
Muito bom.
Era como uma manchete.
Víctor?
Estás bem?
Sim, é só a primeira crítica má que recebi e estou um pouco…
Pedir que te digam a verdade é uma merda, Víctor.
Já devias saber.
Pensei que não o levasses tão a sério.
Não te zangues por ter sido tão sincero.
- Tão quê? - Não nos zanguemos por um passatempo.
Não é um passatempo, Julián.
Foi o que disse à Natalia.
Que não usasse essa palavra.
Terei de me habituar a todo o tipo de críticas,
mesmo que não sejam objetivas.
O que queres dizer com isso?
Não quer dizer nada.
Porque não nos sentamos à mesa e começamos a reunião?
És o meu irmão mais novo. Não consegues ser objetivo. É normal.
O que tem que ver ter gostado ou não do teu romancezinho
com o facto de sermos irmãos?
"Romancezinho"?
É uma forma de dizer.
É um termo depreciativo.
Usaste-o no outro dia, mas fingi que não tinha ouvido.
Primeiro, temos de chegar a acordo sobre o que fazer em relação à lâmpada.
O Víctor pode trocá-la.
Agora que acabou de escrever, terá muito tempo livre.
Estão a ouvir-me?
É normal que não sejas objetivo. Ainda deves ter inveja de mim.
Desde quando tenho inveja de ti?
Toda a vida tiveste.
É uma patologia muito comum em irmãos mais novos.
Mas inveja de quê exatamente?
De mim.
De que as coisas me tenham corrido bem e a ti nem por isso.
Que coisas?
És o motorista do teu sogro e o mordomo da sua mulher.
Agora o que acabaste de dizer zangou-me um bocadinho.
É melhor ir-me embora.
- Até outro dia. - Não…
Víctor…
Víctor, peço-te…
Peço aos dois… Por favor, vamos fazer um esforço.
Não foi fácil reunirmo-nos esta noite.
Temos de tomar algumas decisões. Por favor.
Primeiro, ele terá de pedir desculpa.
Pedir desculpa? Pelo quê?
Entre outras coisas, pela tua insinuação maliciosa
e passo a citar:
"Posso trocar a lâmpada,
agora que acabei de escrever o meu romancezinho."
Sim. Talvez tenha prolongado isso.
É um hábito de família, Víctor. Tu sabes.
A crítica má foi suficiente.
Não era preciso gozar comigo.
É humor de sobreviventes, Víctor.
Costumavas adorar.
Costumava, sim.
Já agora, devias saber
que ambos achamos que tu é que deves trocar a lâmpada.
Tu e quem mais?
Eu e a Natalia.
Víctor!
Ora, ora, ora…
Não me dizes nada, maninha,
e temo-nos visto tantas vezes.
Então, já falaram disso.
Talvez uma vez.
Não foi uma vez, Natalia. Muitas vezes.
Muitas vezes?
E porque haveria de ser eu
a trocar a lâmpada do pai, se posso saber?
Porque nós pagamos e tu não.
Já me perdi.
- Pagam o quê? - Coisas.
Eu digo-lhe, Natalia. Vai perceber perfeitamente.
Vais ver que não.
Vou tentar perceber, mas não prometo nada.
Ambos pensámos que devias trocar a lâmpada
já que somos nós que tratamos das despesas do pai.
Que despesas?
Não é preciso entrar em pormenores.
Sim, é preciso, Natalia. Os pormenores são muito importantes.
Que despesas?
As despesas médicas.
Os aparelhos auditivos, a dieta especial, a dentadura nova, o fisioterapeuta,
a mulher da limpeza, a máquina de lavar… Coisas, Julián.
- Coisas do dia a dia. - Do dia a dia nos últimos anos.
Ele disse "anos"?
Está a exagerar.
Natalia?
Quantos anos?
Não sei…
Quatro, cinco.
Quatro ou cinco?
A Natalia não queria dizer-te nada
para não te sentires um pobre desgraçado.
Era por isso.
Faz sentido não me terem dito nada.
Ambos sabemos que têm pouco dinheiro
e pensámos que…
Espera. Deixa-me ver se percebi.
Como sou um pobre desgraçado
e não posso contribuir para as despesas do nosso querido pai,
ambos pensaram que, para compensar,
eu podia ser o faz-tudo da família.
É isso?
- Sim. - Víctor!
- Foi o que disseste, Natalia. - Dito assim, soa muito mal.
Soa muito mal, Natalia.
Estava aqui.
- Ainda não se sentaram? - Vamos já, querida.
Julián…
No outro dia, quando me disseste que a Natalia tinha ligado
para falar de um assunto muito importante relacionado com uma lâmpada,
o que te disse?
Que uma lâmpada não podia ser muito importante.
Afinal, era.
Vês? Nunca se sabe.
Nunca se sabe, querida.
- Julián. - Sim?
Discutimos por discutir.
- Sem dúvida. - Não. Vamos lá ver.
No outro dia, não concordámos que a Natalia devia trocar a lâmpada?
- Eu? - Sim. É verdade. Tu.
E porquê eu?
No outro dia, enquanto falávamos da lâmpada,
percebemos que não era justo
que o teu nome não estivesse na lista de candidatos.
Somos uma família moderna de esquerda e feminista.
Percebemos que, talvez inconscientemente, te tínhamos tirado da equação.
- Que equação? - Das faisquinhas.
Quando se trata de bricolagem e assim, parece que não é convosco.
"Os homens tratam disso." Não.
Eu não vou trocá-la.
O que disse ela?
Porque não vais trocá-la, Natalia?
O meu psicólogo zangava-se comigo e com razão.
O teu psicólogo não quer que troques a lâmpada?
Falámos disso e ele disse para não o fazer.
Falas das faisquinhas com o psicólogo?
Faz parte de uma terapia e não posso trocá-la.
Porque não a troca o teu psicólogo? A lâmpada.
Ou trocas de psicólogo?
Saibam que vou levar isto até ao fim.
Pela primeira vez na vida,
encontrei alguém que me entende perfeitamente
e que me está a ajudar.
A ajudar-te a quê?
A deixar de ser a mulher que pensava que era
e a descobrir a mulher que realmente sou.
Estou a falar a sério.
Podem levar-me a sério uma vez na vida?
Além de ser vossa irmã, também sou uma pessoa.
- Não te zangues. Agora zanga-se. - Estou a ver.
A primeira coisa que tenho de fazer é enfrentar-vos
e dizer-vos o que penso, custe o que custar.
Mas dizes sempre o que pensas. Certo?
Se fosse a ti, não teria tanta certeza.
Depois, vou enfrentar o meu marido e expulsá-lo de casa
pela vida miserável que me deu.
E finalmente, serei lésbica.
Mas que culpa temos nós, Natalia?
Muita.
Fui a criada desta casa desde que a mãe morreu.
Pedi-vos para falarmos do pai
porque acho que já não pode viver sozinho
e agem como se eu fosse uma histérica.
Quem acham que lhe organiza as cuecas e as peúgas?
Quem lhe compra comida e medicamentos?
Quem lhe corta as unhas dos pés?
Quem muda a pilha do aparelho auditivo,
do despertador e dos três telefones sem fios?
E quem tem de pedir desculpa à vizinha quando o pai lhe mostra os genitais?
E depois disso tudo,
também tenho de ser eu a ir a casa dele
tratar das faisquinhas
porque nenhum dos dois tem uma hora miserável
para ir lá vê-lo, ver se ainda respira,
e trocar a merda da lâmpada?
Vou à casa de banho.
Eu vou lá.
- Este psicólogo deve ser caro. - Muito.
Ela disse que lhe corta as unhas dos pés?
O que fazemos com a revolução?
Não vai dar em nada.
Acho que as lâmpadas continuarão a ser connosco.
E se atirarmos uma moeda ao ar?
Ou chamamos um eletricista.
Afinal, vocês pagam.
Pagamos porque nos preocupamos com o pai.
Eu podia levar isso a mal.
Leva como quiseres.
É o gato de sempre?
Já fizeste esse comentário uma vez.
Como nunca nos convidam, esqueço-me.
Nunca vos convidamos porque da única vez que vieram,
a tua mulher não quis sentar-se no sofá em segunda mão.
Não se sentia bem e não quero que ela sofra.
Pobre Marisa.
Já estou melhor. Podemos começar a reunião?
A Marisa é muito sensível e tem muitas alergias.
Deve ser alérgica a pobres.
Agora vais criticar a minha mulher?
Ficarei mesmo zangado e terei de me ir embora.
Se te fores embora,
leva a tua jarra merdosa contigo.
Estava escondida no armário, mas como a minha mulher é boa pessoa,
tirou-a de lá a pensar que ficarias feliz por a veres.
Dez minutos. Se nos concentrarmos nisso, conseguimos.
Falamos dos assuntos do pai durante dez minutos
e nunca mais teremos de voltar a ver-nos.
Nem no Natal?
Vamos fazer um safari no Natal.
Ou até ao funeral do pai.
Dez minutos.
Víctor?
Se não há outra hipótese…
Está bem. Não te preocupes. Eu digo-lhe.
Adeus.
Desculpem.
Sim, querida?
A vizinha ligou.
Que vizinha?
A do vosso pai.
Que estranho. Ela liga-me sempre.
Ela disse que te tem ligado, mas não atendeste…
O meu telemóvel deve ter ficado sem bateria. O que queria?
Parece que ouviu o dia todo o telefone do vosso pai tocar.
De certeza que era eu. Passei o dia a ligar-lhe.
Não sabe trocar a pilha do aparelho e não ouve.
Certo.
Ela foi bater-lhe à porta porque ouviu música.
Mas como ele não abriu a porta, decidiu entrar para ver…
E onde estava o pai?
Deitado no chão.
O que fazia ele deitado no chão?
Estava inconsciente.
E tinha sangue na cabeça.
- Veem? - O quê?
Não pode continuar a viver sozinho. Eu tinha razão.
Estás a sugerir que a culpa é nossa?
Em que hospital está?
- Em nenhum. - Como assim?
Se bateu com a cabeça, tem de ir ao hospital.
Não foi preciso.
Quando a ambulância chegou para cuidarem dele,
perceberam que, já há muitas horas,
estava morto.
Quem?
O pai está morto?
O pai está morto?
De uma pancada na cabeça.
Que pancada na cabeça, Carol?
A que deu quando caiu.
Quando caiu?
O meu sogro adorava música.
Sobretudo música clássica.
Estava sempre a ouvi-la e a casa enchia-se de melodias.
Olá.
Passaram muitos anos, mas agora, ao recordar isso,
não conseguirão evitar lembrar-se de memórias da infância.
Memórias de momentos esquecidos, de quando viviam todos juntos
e o pai deles costumava acordá-los aos fins de semana com a música alta.
Lembrar-se-ão das manhãs de domingo com pequenos-almoços intermináveis,
as brigas e as brincadeiras.
E vão emocionar-se.
A música fá-los-á sentir
que lhes corre o mesmo sangue nas veias,
que estão irremediavelmente unidos.
E que, apesar das discussões, partilham uma ligação muito profunda,
um instinto relacionado com o mistério da vida
e que nos ajuda a não nos sentirmos tão sós.
Parabéns a você…
E esta noite, depois de muito tempo sem o fazerem,
e talvez pela última vez na vida,
vão abraçar-se.
E assim, juntos,
nem que seja por uns segundos,
partilharão este momento tão inesquecível e irrepetível.
- Estão bem? - Sim.
Carol, o pai caiu de onde?
Chega Natalia. Já chega.
Todos entendemos, Natalia.
Caiu do escadote.
O que fazia no escadote?
Queria trocar a lâmpada da casa de banho.
Parece que fazia…
Legendas: Lígia Teixeira
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