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AJUSTANDO UM AMOR
Está a fim?
Não, estou de boa. Só estou bebendo.
Eu não estava falando de mim.
- O quê? Não. - Está encarando o cara.
É como se tivesse esperado por ele a vida toda. Vai lá.
Oferece uma bebida.
Não, eu não.
Não, obrigada.
Quer saber? Eu vou. Tá bom.
Está a fim?
De uma bebida, nada a ver com sexo. Credo, não é isso.
Vou pedir uma bebida alcoólica. Quer tomar uma comigo?
Claro. Por que não?
- Jura? - Sim.
Tá bom, ótimo.
Phil?
O que vai ser?
Old fashioned.
Que gracinha!
Estou sentindo uma vibe fofa.
Tá, dois old fashioned, e fecha o bico, Phil.
Oi, sou a Sheila.
- Oi. - Oi.
Sou o Gary.
Gary. Então nós dois temos nome de velho.
É, e acho que...
pais muito sádicos.
Pra falar disso, preciso de um divã.
Mas "Gary" é um nome legal e forte.
É, se você for um vendedor de carros usados e tal.
Espera, você não é...
- Vendedor de carros usados? - Nem mecânico?
Não, não sou. Desculpa.
Preciso consertar o carro.
Então já vou.
- Brincadeira! - Ah, tá!
Boa.
Te peguei!
Pois é.
Valeu, Phil.
Saúde, chefia.
Isso foi estranho.
Nem foi.
Qual é a chance disso?
É bem alta.
Vou falar a verdade.
Eu vim do futuro, então já sabia o que você ia dizer.
Tá, saquei.
- Tá bom. - É.
- Como é o futuro? - É o esperado.
Robôs perseguindo robôs inferiores,
enquanto os humanos só ficam vendo.
É tipo Blade Runner.
Isso é ficção. Estou falando da realidade.
Tá, você tem razão.
Olha, parece que as coisas são complicadas
pros robôs no futuro.
É muita injustiça.
Mas não se preocupe.
Estão lutando por direitos civis.
Está progredindo.
Não posso falar, pra não mudar sua linha do tempo.
- Obrigado. Gosto de como está. - De nada.
- Claro. - Então...
Viajar no tempo me deixa com uma baita fome.
Isso é baita interessante.
Vou comer em algum lugar. Quer ir comer comigo?
Quero. Vamos, pra você comer.
- Mesmo? Ótimo. - Sim. Vamos.
Tchau, Phil.
Você não estava vendo o jogo.
O que tem contra esportes?
Uma bola de futebol matou seu avô?
Pior que matou.
Te amo, vovô.
Não.
Não cresci muito envolvido com esportes.
Meu pai não parava em casa, era professor itinerante.
Nunca brincamos de bola nem nada.
Eu ficava vendo filmes.
E ele acabou morrendo cedo.
Sinto muito.
Fazer o quê, né?
Meu pai também morreu.
Não sei por que...
Ele era um alcoólatra itinerante.
Passava de bar em bar.
Isso acabou matando ele.
Sinto muito.
De boa.
Isso não deixou a gente surtado.
Não, somos muito normais.
É, muito normais.
Não tem nada de errado.
Não, mas eu vou estragar sua vida.
Eu imaginei mesmo.
Mulheres bebem de graça!
Tá, chegamos.
Qual devemos escolher?
É uma decisão bem tipo escolha de Sofia, né?
Amo quando diz isso.
- Quê? - Quê?
O melhor vindalho!
Oito estrelas no Yelp.
Oito estrelas? É esse.
O Sr. Jef Holm do The Bachelorette comeu aqui.
- Está se escondendo? - Não, só olhando o cardápio.
Tá. Eu queria poder ver seu rosto, se der.
- Quer? - Quero.
Mostre o rosto.
Vamos pedir e acabar com isso,
pra poder relaxar. Nosso TOC agradece.
- Entende? Já volto. - Claro.
- Espera. - Tá bom.
Aonde a Sheila foi?
Ela sumiu.
- Korma de frango. - Achou.
Pronto! O que perguntou?
- A viagem no tempo... - Ah, é!
De que ano você é?
É o seguinte, Gary. Vou abrir o jogo.
Você não é do futuro, né?
Eu suspeitei.
Não, eu sou. Sou muito mesmo.
Não menti.
Mas não é tão futuro assim.
- Vim de 24 horas à frente. - De 24...
- Tem como? - Tem.
Que incrível! Tem tecnologia pra isso?
- Tem. - Já existe?
Nem me fala!
Onde fica?
Numa manicure.
Licença. Traz o korma de frango?
Obrigada. É muito bom.
E dois cabernets.
Tudo bem? Vai pedir?
Vindalho de frango.
Vai gostar.
Nove estrelas no Yelp.
Leio as avaliações.
- Sei. - É.
Valeu, cara.
No que você trabalha?
Sou designer gráfico freelancer de organizações sem fins lucrativos.
Trabalho em casa.
O menino solitário virou o homem solitário.
Dizendo assim, pareço meio patético.
Você não é patético.
É perfeito.
Eu...
Quem sou eu pra falar?
Sou assistente de produção executiva.
Não me pergunte o que é. Não sei.
Me sinto mais solitária num piso de plano aberto
do que no fundo de um poço.
- O fundo do poço é bem... - Obrigada.
Obrigado. Quanto à máquina do tempo
na manicure...
- Saúde. - Sim.
Gosta disso.
Gosto... O quê?
Vai gostar disso.
- O que me perguntou? - Eu gostei.
- Viajou no tempo. - Foi mal.
- Como é? - Sim.
Eu nem faço as unhas.
A manutenção é um saco, e ficam lascando.
Entende?
Mas meu dia estava ótimo.
Estava andando na rua e vi esse salão.
Chamava Grarras Afiadas, e senti que ele merecia meu dinheiro.
Fui recebida com o cumprimento internacional dos salões.
Qual cor?
Algo que diga que tive um dia incrível.
"Dia Elegante". Perfeito!
Então fiz as unhas, aí precisei ir ao banheiro.
Tem banheiro aqui?
É rapidinho.
Nos fundos, tinha uma cama grande de neon,
tipo de bronzeamento.
Como meu dia estava ótimo,
quis me bronzear.
Viver tipo as Housewives of Orange County.
Então chamei a June...
June?
Quanto custa pra bronzear?
Isto é uma máquina do tempo.
O dono comprou e não gostou. Só volta 24 horas.
Propaganda enganosa. Anda rolando demais.
Nem me fala.
O dono voltou 24 horas antes da compra
pra evitar de comprar.
Se fez isso, por que a máquina ainda está aqui?
Enfim, quer usar?
Eu? Não.
Melhor não.
E passo mal nessas coisas.
Experimente. É legal.
Tá, que se foda!
Eu topo. Que dia maravilhoso!
É isso aí.
- Caramba! Isso é incrível. - Pois é!
- Sério. - Eu sei.
O que fez com seu eu do passado?
Eita, nem pensei nisso.
É melhor pensar.
Ela está por aí.
Vai ficar puta quando souber
que você está se dando bem, jantando com um gato.
- É o que estou fazendo? - É.
O que foi? Acha que sou louca?
Acho.
- Mas é fofo. - Tá.
Quase perdeu uma estrela aí.
Cuidado.
Valeu, Amit. Até amanhã.
Preciso confessar uma coisa.
Saí agora de uma relação longa.
Um ano. Ela se chamava Amber.
Nada de bom vem de uma Amber.
Não é justo.
Talvez um pouco.
Ela era boazinha, meio passiva.
Ela achava que eu tinha que saber
exatamente o que ela pensava.
Passivo-agressiva.
É, algo assim.
É que ficou cansativo.
Eu desisti e terminei.
Não faço isso há muito tempo.
O que quero dizer é que está divertido.
Então...
- É... - Eu entendo.
Não peço que adivinhe.
Por sorte, minha boca fala antes que eu pense.
Eu sei. Gosto disso.
Gosta agora, mas não vai gostar depois.
Eu duvido muito.
Estamos quase lá.
- Onde? - Sobremesa.
Sobremesa?
Está com a cara boa.
Foi mal.
- Oi. - Linda noite.
É mesmo.
O que recomenda?
Temos o sabor Infância.
É sorvete feito de leite que ficou duas semanas
numa tigela com cereal, na casquinha,
feita de sanduíche de amendoim e geleia desconstruído.
Tem de creme?
Não.
Tem mesmo sabor da minha infância.
Né? A minha também. Incrível.
O quê?
Você parece um neném.
- Sujou a cara toda. - Para!
Eu cresci naquele prédio ali.
- Ali mesmo. - Ali?
- Fala sério! - É.
Número 600, apt. 1K.
Que loucura! Como era?
A cidade era diferente.
Era bom, mas...
Só que era meio solitário.
Estou com uma sensação estranha, tipo uma lembrança,
bem agora.
Um cara da TV a cabo foi lá em casa.
Eu era pequena, mas... É tudo meio confuso,
mas lembro que ele foi muito legal comigo.
Isso é bizarro?
- É muito bizarro. - Jura?
Eu tinha amigos.
Não matava animais e tal.
O fato de ter esclarecido isso mostra que é uma maluca.
Quer continuar a aventura?
Ir pra outro lugar?
- Eu topo. - Gosta de polca?
- Não. - O quê?
- Você gosta? - Sim.
Não sei se prefiro o chope lupulado ou o de trigo.
Continue bebendo pra descobrir.
- É, pela ciência. - Pela ciência.
Isso aqui é um experimento.
Com certeza.
Sabe, Gary, eu...
Preciso te contar uma coisa.
Já sei. Você veio do futuro.
Já entendi.
É, eu vim.
Mas é outra coisa.
Lembra que no restaurante
perguntou o que fiz com minha outra versão
quando vim pro tempo dela?
E falei que nem pensei nisso.
Lembra? Foi mentira.
Tá.
Eu matei a outra.
Me pegou de surpresa.
- Matou a outra? - Matei.
Meu carro fez... na cara dela.
Isso mata.
E deixei o corpo no porta-malas.
Meus parabéns.
- Obrigada. - É uma assassina.
- Um brinde à Sheila defunto. - Sim.
Que esteja num lugar melhor.
Com certeza.
- É. - Estou até com inveja dela.
Tipo, o mundo ficou...
Me desculpa.
- Que merda! - De boa.
- Foi mal. - O que vai fazer?
- Merda. - Sério?
Olha aqui...
Nem tudo precisa ser certinho.
Tá bom?
É mesmo?
Sim.
Ainda quer continuar?
Ele ficou tão... Nem pensei direito...
É verdade!
Credo!
Gostei do que você disse.
O lance de não ser certinho.
Eu também.
Alguém me disse isso,
e ficou marcado, me libertou da minha prisão mental.
- Sabe? - É assim que eu me sinto.
Pois é.
Que noite!
Valeu a pena viajar no tempo?
Sem dúvida. Nove estrelas no Yelp.
Eu faria isso pra sempre, mas está ficando tarde.
Eu adoraria repetir a noite.
Eu também. Te vejo amanhã.
- O quê? - Quando eu voltar 24 horas de novo.
Por que "de novo"?
Vou ser sincera, Gary.
Não é nossa primeira vez.
Do que está falando?
Passei a semana toda com você.
Esta noite, sete vezes.
Você não estava brincando?
Nem um pouco.
Foi sério.
Por um segundo, vamos fingir
que acredito nisso de viagem no tempo.
Pra mim, é loucura,
mas vamos fingir.
Por que voltaria pro mesmo momento sem parar?
Pra fazer tudo certo?
Tentar me conquistar?
- Não! - O que quer?
Isso seria medonho e obsessivo.
Eu não preciso ser perfeita.
A magia que sente,
eu senti desde a primeira noite, sem parar.
Eu agi de forma estranha, engraçada, boba, triste,
e você arrasou toda vez.
A noite sempre acaba bem.
Nem preciso tentar, a gente combina.
Já teve uma noite assim na vida?
Não teve. Viu? Você também sente a magia.
Você sente aqui, sente aqui, e sente aqui.
Opa! Tá bom. É, eu sinto lá.
Então...
Por isso fico voltando.
A noite perfeita.
Mas por que quer fazer a mesma coisa?
Não quer tentar algo novo? Sei lá...
Talvez sairmos de novo,
ou ver se temos futuro, do jeito clássico.
Gary, eu já fiz isso.
Tá? E não acaba nada bem.
Amanhã, a Amber vai dizer que está grávida,
ou você vai ter uma morte bizarra no metrô.
Foi horrível. Seu corpo ficou...
Espalhou, foi nojento.
Ou vão nos bombardear.
Não foi a Coreia da Norte, é trabalho interno.
O quê? Do que está...
Nada, Gary. Isso não importa.
Só a gente importa.
Confie em mim.
Este é o melhor jeito.
Eu... Eu estou cansado.
Estou com dor de cabeça. É melhor eu ir embora.
- Eu sei. - Foi um prazer, Sheila.
Tchau, Gary! Até amanhã.
Eu tenho ouvido as notícias esportivas
pra não ter que saber da realidade.
- Está a fim? - É.
Quero dar pra ele.
- Satisfeito? - Vai fundo, garota!
Fala com ele.
Vou pagar uma bebida.
É uma boa noite.
- Pro quê? - Exatamente.
Vou pedir bebida alcoólica. Quer uma?
- Tá, claro. - Ótimo.
Então criei mecanismos de defesa.
Nada tipo matar gente.
Também tive mecanismos de defesa, não de matar.
Até matei, mas foi a mim mesma.
Tenho impulsos incontroláveis em que...
É difícil viver assim.
É, deve atrapalhar muito.
Não controlo.
Qual devemos escolher?
É uma verdadeira escolha de Sofia.
Melhor korma de frango!
Vamos nesse.
"É uma sinfonia pros sentidos."
Em 1995, antes de mudarmos de lugar.
No Titanic, o Jack ensina a Rose a cuspir, né?
Eu lembro.
Eu queria te ensinar a arrotar.
Muita gente me diz que pareço o Leonardo DiCaprio.
Em Gilbert Grape.
- Dizem que sou a cara dele. - A cara dele.
Se você é do futuro, sabe...
O que vou dizer?
Sei.
Vamos pedir logo pra...
Pra acabar com isso e poder relaxar.
- Quê? É... - O que deseja?
De tudo. Queremos de tudo.
Vamos provar tudo e estourar o cartão.
Curry, kebab de frango, saag de cogumelo, frango na manteiga,
tikka makhani, masala, biryani de camarão e cordeiro,
rezala, brócolis, grão-de-bico, bhindi bhaji,
pakora, poori de coco e duas taças enormes de vinho.
Obrigado. É só isso.
Estou morta de fome.
Então...
Conhece John Connor?
O Exterminador do Futuro.
Você é do futuro.
Eu sou só de 24 horas à frente.
Tá bom.
Gary, já estamos saindo juntos
há três meses, então posso ser sincera.
Entende?
Tá.
Geralmente eu digo que entrei num salão
e vi uma máquina do tempo num dia que estava perfeito pra mim,
mas não é nada disso.
Naquele fatídico dia há três meses,
eu ia me matar.
Boa tarde, gente!
Eu vou me matar e queria partir
com as unhas bonitas, para os fãs.
O quê?
Qual cor?
Algo que diga que vivi uma vida chique.
"Morte Elegante".
Gostei.
Efeito gloss.
Maravilha.
Tem banheiro aqui?
Quero morrer de bexiga vazia.
É, tem um banheiro.
Antes de se matar, podia experimentar.
O quê? Viajar no tempo?
Por que faria isso?
Por que voltaria pra ontem?
Ontem também foi uma merda.
Não quero fazer isso.
Não quero voltar.
Isso seria um erro enorme.
Sabe? Sou um puta fracasso.
Sou um puta lixo.
Por que está sendo tão legal comigo?
Dá boa gorjeta.
Eu dou mesmo.
Vou... Não quero estragar as unhas.
- Me ajuda aqui. - Tá bom.
Olha pra cima.
Viajar pra ontem ou amanhã,
tanto faz.
De todo jeito, minha vida é uma merda.
Isto é uma segunda chance,
coisa rara.
Podia aproveitar.
Talvez seja diferente do outro lado, e, se não for,
pode se matar depois.
Tá bom, que se foda.
Posso ficar menos na merda lá.
É isso aí.
E aqui estou, 24 horas no passado.
Como se sente agora?
Muito melhor.
Está menos na merda aqui?
Estou.
Eu já estive muito na merda.
Tranquilo.
Não precisa ter vergonha.
Na verdade, esta é...
a primeira vez que me sinto feliz assim há muito tempo.
Isso me deixa muito feliz.
É muito bom saber disso.
Eu já volto.
Tá bom.
Boa noite, Amit.
Acha que estou no trem da loucura?
Não acho.
Acha que sou a maquinista.
Falei demais.
Exagerei. Perdi a cabeça.
- Eu não devia ter dito aquilo. - Calma.
Não te acho louca, juro.
Mesmo se achasse, e daí?
A vida está um saco.
Posso embarcar nesse trem.
Então pode subir.
Só não nos jogue pelo penhasco.
Nunca.
BRECHÓ
- Vamos comprar? - Roupas sujas?
Não são sujas. Olha...
Chiclete grudado.
Meu Deus!
- Gary! - O quê?
Camisa com seu nome de velho.
- É sua. - Não.
- Vou te dar. - Nem vem!
- É sua. - Não.
- É, sim. - Tá.
Só se você usar isto.
Tá, eu uso.
Tá bom.
Obrigada.
Cai bem em você.
Valeu.
Quero muito usar a camisa de outro.
- Noite linda, né? - Sim.
A camisa ficou ótima.
Obrigado.
- Aliás, ali... - Foi onde cresceu?
- Algo assim? - O quê?
Foi mal. Achei que você
tinha comentado...
Não, então... Sim.
Número 600, apt. 1K.
Tá bom.
Minha infância toda.
Que loucura! Como era?
A cidade era muito diferente, só que era meio solitário.
Minha mãe desistiu de tudo bem cedo.
O quê?
Tinha um cara da TV a cabo
que foi lá em casa um dia. Eu era pequena,
não lembro bem, mas ele foi legal comigo.
Não sei por que contei.
- É estranho. - Um pouco.
- É. - De boa.
Pois é.
Vem cá.
- Quer tirar foto? - Claro.
Uma selfie.
Eu tiro, braço comprido.
Não.
- Merda! - Está tudo bem.
Ai, não. Desculpa!
Não tem problema. É só um celular.
Eu conserto.
- Gary. - Merda...
- Gary. - Oi...
Nem tudo precisa ser certinho.
Que noite!
Valeu a pena viajar no tempo?
Valeu.
Zagat diz ser uma sinfonia pros sentidos.
- Zagat? - É.
Zagat? Achei que fosse Zagá.
Eu falo Zagá.
Acho que não.
Ou pode ser.
Eu ia me matar bem aqui.
Acredita?
Espera.
- Sério? - Pois é.
Pensa só: a queda, o mergulho, a água gelada.
Ou seja... é um bom jeito de se partir.
Sem sangue.
E sem gente da perícia analisando.
A causa é óbvia.
Um jeito altruísta de se matar.
Iam me chamar de Madre Teresa dos suicídios.
Ou não. Tudo bem se chamarem.
Então... No fim das contas, por trás de tudo,
é brincadeira, né?
Não, nem tudo.
Mas estou bem.
Lamento, eu...
Te esperei a vida toda.
Entendi. Não acha meio cedo pra isso?
Já foram cinco meses.
A gente se conheceu hoje, literalmente.
Ninguém me fez feliz como você.
Você é o homem que eu procurava.
Sempre foi você.
Fiquei te esperando,
e agora chegou.
Acho melhor a gente pensar direito.
E vou embora.
Tudo bem se eu for?
Vou ficar bem.
Não vai fazer besteira?
Está bem mesmo?
Até amanhã, Gary.
Que noite!
Eu ia me matar bem aqui.
Acredita?
Lamento, eu...
Gary, te esperei a vida toda.
Vou embora.
Tchau, Gary. Até amanhã.
Você é a pessoa que eu procurava.
Eu esperei, e você chegou.
Pensa só: a queda, o mergulho, a água gelada.
Ótimo lugar, sem sangue.
Foi você que eu esperei
a vida toda.
Posso ir...
embora? Vamos falar disso depois?
Não é cedo pra falar assim?
Nem vai lembrar.
Fico triste com isso, sabia?
O amanhã não é ruim.
É, sim.
Fico voltando à noite perfeita.
Vai embora toda vez. Tudo bem.
- Como... - Toda vez.
A gente acabou de se conhecer,
mas tudo bem.
Sou a Sheila. Quer beber?
Eu?
Oi.
Claro, tá bom.
Sou o Gary.
- Oi, Gary. - Oi.
Phil!
O que querem?
Ele, old fashioned. Eu, uísque. Valeu.
Gostei do seu vestido.
Me lembra um piquenique.
Não sou esportista.
Não precisa falar disso de novo.
- De novo? - Não, eu...
O que disse?
Cresci neurótico,
num ambiente pouco acolhedor.
Meu pai era ausente.
Pra que falar de pais mortos?
É sempre isso?
Podemos fazer escolhas novas.
É uma escolha de Sofia.
Melhor korma de frango!
O próprio Zagat dizia: "É uma sinfonia..."
Então?
Conhece John Connor?
Porque você é do futuro.
"Me dê suas roupas, botas e a moto."
"Sou o governador."
Não tinha isso no filme.
Ele virou governador, o que é loucura.
Sabia que tem dois governadores em O Predador?
Ventura e Schwarzenegger.
Parece pergunta do Show do Milhão.
Gary, vou dizer a verdade.
Estamos fazendo isto
há quase um ano.
E as coisas estão ficando meio unilaterais. Entende?
Um ano? A gente...
Eu sei. É só uma noite pra você.
Mas minha vida toda
gira em torno desta noite.
É uma noite ótima? Sim. É minha culpa?
Sim. Minha escolha?
Eu criei isso? Sim. Mas, cacete, Gary!
Até um bife de primeira fica ruim
quando se come isso todo dia.
Entende?
Olha, estou meio confuso.
Eu achei que a gente fosse perfeito
um pro outro, mas agora
eu não sei.
Sei lá. Ando me sentindo estagnada.
E é culpa minha.
Fiz a gente girar nesse inferno
sem parar, numa volta interminável.
Mas, falando sério,
também é culpa sua. Um pouco.
Você é tão passivo.
Tudo tem que ser perfeito.
Não quer bagunçar nada, nem brigar.
É tão...
Com você, é só ladeira abaixo.
Eu vou embora.
Que novidade!
- É. - Tá. Tchau, Gary.
É, obrigado pela noite.
Não me leve a mal, mas...
- Precisa se tratar. - Quer saber, Gary?
- Nós dois. - Não.
- É. - Você.
- Nós. - Não tem "nós".
É só você.
Ela tem problema, não eu,
gente do restaurante.
- Comeu bem? - Obrigado.
- É 25 mais 96? - É sério isso?
Sai bravo e para pra pagar?
- É, eu paro. - Você é patético!
Não quero ser preso!
Ai, meu... Preso?
- Depressa. - Seu burro!
Gorjeta de 25%.
- Tchau, Gary! - Tchau.
- E a sua amiga? - Tchau!
Tchau!
Noite dura, Amit.
Me dá um cigarro?
Cigarreira linda!
Tão elegante.
Obrigada.
Amor, né?
Que titica de galinha, fedida e pegajosa!
Não acha?
Sou bem-casado.
Bom pra você.
Que vida perfeita!
A sorte pode mudar pra você.
Não, até parece.
Pra mim, nada muda.
Nunca. Minha vida é uma bosta consistente.
Porra nenhuma nunca muda.
Espera.
Mudar!
É, Amit!
Seu homem genial, lindo e casado.
É isso! Mudar. Eu consigo consertá-lo.
Consigo mudá-lo.
Dá pra fazer isso.
- Não dá. - Dá, sim.
- Dá. - Não tem como.
As pessoas não mudam, e você não pode mudá-las.
Meu povo tem um ditado:
"Não dá pra encaixar um quadrado num círculo."
Acho que não é do seu povo.
- É mundial. - Não se muda os outros.
Não funciona assim.
Mas o que significa mesmo?
São só palavras, Amit.
E o que são palavras?
Palavras são só pensamentos
que saem pela boca.
Nós falamos muito, a civilização.
Não eu e você. É uma pena a gente
não conversar tanto.
Você é um bom homem e me ajudou. Obrigada.
Brincou?
Merda!
Fala sério!
Merda.
O juiz marcou o pênalti.
Péssima decisão!
Phil, viu o novo Gary?
Olha só.
Vai bater o pênalti.
E aí?
Ele está diferente ou...
Tem alguma coisa diferente.
Estou gostando de ver.
De verdade.
- Olá. - Oi.
Os mocinhos estão vencendo?
Mocinhos?
Não.
Os mocinhos não.
Estão levando uma surra.
Que pena, tão triste!
Sou o Gary. Quer uma bebida?
Posso pagar uma?
Pode.
Ótimo.
Sou a Sheila.
Tá, Sheila.
Ô cara!
- O que quer? - Uma IPA.
Old fashioned.
O que faz aqui sozinha?
É muito bonita pra estar sozinha num bar.
Estou à caça de caras.
É mesmo? De quem?
Você.
- Jura? - Só você.
Tá bom.
Então, Sheila, acho que os mocinhos
não vão se recuperar.
Então que tal a gente sair daqui
pra você comer?
Tá.
- Agora? - É, vamos.
Tá bom.
Me devolve os 20.
- Não. - Aqui estão.
Devolve os 20.
- Eu já fiz as bebidas. - Eu não...
Meu pai era um alcoólatra itinerante.
Passava de bar em bar, e acabou morrendo.
Aonde vai? Tem restaurantes indianos.
Quero ir num lugar que abriu.
Anda, vem.
Legal, né?
O que você faz, Srta. Sheila?
Assistente de produção executiva.
Parece intenso.
Tipo câncer.
O que você faz?
Tenho uma pequena start-up.
Com 25 funcionários, por ora.
Que demais!
Pois é.
Gary, você é feliz?
Feliz de verdade na vida.
A vida é meio estranha às vezes.
Vivo pelos momentos felizes.
Gostei disso.
É...
Obrigado.
É um peixinho?
É pra comer isso?
É, um jantar é assim.
Achei que fosse de vidro.
Não, é peixe mesmo.
É um ótimo restaurante.
Como se diverte?
Eu gosto de escalada.
Não existe nada igual a subir nas rochas.
Adoro colocar as botas,
ir pra montanha.
- Sou bom... - Eu vim do futuro.
Tá bom.
Estou falando muito sério.
Vou entrar nessa. Por que veio pro passado?
- Por você. - Tá.
Isso.
Foi sem querer,
mas aí me apaixonei por você.
Comecei a passar muito tempo com você.
Ao todo, 365 dias.
Eu amava tudo em você.
Tudo... Até não amar mais.
Não, amo. Amava.
Mas queria
ajustar umas coisinhas.
Só umas coisinhas pra você ser perfeito.
Ficar mais perfeito pra mim.
Não tem como amar
alguém 100% do tempo.
Acho que sim. É frase do The Bachelor?
Lembra que sempre digo que a máquina do tempo
é uma bosta e só volta 24 horas?
Não sei que porra é essa.
Eu menti. Você precisa saber.
Pode ir aonde quiser no passado, mas só por 24 horas.
- Depois volta. - Tá.
June, é uma história incrível,
mas quero mesmo me matar, tá?
Certeza? É uma segunda chance.
Pode se matar depois.
Tá, vamos nessa.
Vamos ferrar a história.
É isso aí.
E aqui estou, 24 horas no passado.
Pode ir a qualquer momento e escolheu o dia de ontem?
Nada mais significativo?
Tipo matar o Hitler.
Eu matei o Smithson.
Quem?
Exatamente. Por que o dia de ontem?
Sei lá. Tecnicamente, foi culpa da June.
Ela escolheu. Quando me vi
24 horas antes, fiquei puta.
Já é ruim
sem reviver a merda de ontem.
Eu preferia a nostalgia da infância,
que pode...
Fazer o quê? Então quis beber
e vi o bar.
Conheci você, e tudo mudou.
Entendi. E isso foi há um ano?
Tecnicamente, ontem.
Estamos fazendo isto há um ano, ou 365 dias, exatamente.
Na verdade, é...
nosso aniversário.
Oi.
Pode trazer a conta?
Parabéns.
Obrigada pelo jantar. Uma delícia.
Vamos procurar uma sobremesa?
Melhor não.
- Veio pegar o Gary? - Vim.
Eu tenho que acordar cedo amanhã
e preciso descansar.
Mas isso foi...
- Ótimo. - Não era assim com o outro Gary.
Eu devo ter te impactado.
Causei mudanças.
É mesmo?
- Escuta! - Achei que fosse...
Não que esse papo tenha colado, garota do futuro,
mas só por curiosidade, quero saber.
O que mudou em mim que era tão horrível?
Passamos muito tempo juntos,
e você se abriu muito.
Sei da sua infância, das decepções, dos altos e baixos
e dos traumas, e vi tudo isso como os momentos
que te surtaram.
São os momentos "quando tudo deu errado pro Gary".
- Chama assim? - Ei!
Sem sarcasmo.
É nosso aniversário!
Voltei no tempo e consertei.
- Me dá um exemplo. - Tá.
Pois não?
É o Gary, né?
Mãe?
Sou Charlie, me mudei
- pra casa da frente. - Tá.
Está interessado em brincar de pegar a bola?
Não falo com estranhos.
Direi um segredo.
Perdi meu filho há anos
num acidente de barco.
Eu fico muito triste
e sinto saudade dele.
Me faria muito bem se pudesse animar este velho
e brincar de pegar a bola no jardim.
O que me diz?
Tá bom.
Assista mais lutas, aquelas falsas.
Não são falsas.
São demais.
Dirão que você está errado.
Que se fodam!
Tá.
Para, Gary, não!
Sou bom de mímica.
Para com isso.
Ninguém gosta.
Não faça mais.
Espera!
- Espera aí. - O quê?
Era o tio Charlie?
Eu era.
Você é doida de pedra!
Isso é loucura.
Nós só brincamos de bola.
Brinquei de bola com o tio Charlie todo domingo.
- Por três anos! - Eu sei.
Sou metódica. Voltei muito pra te marcar.
De nada!
- Não vê que é errado? - O quê?
Eu amava aquele cara.
Eu amava o tio Charlie.
Era como um pai.
Eu sei, é o objetivo.
Não é, não.
Não tem esse direito.
Não pode
inserir uma influência positiva
e deixar rolar.
Não pode.
Não é assim.
O que mais mudou?
Só umas coisinhas.
Apaguei pessoas.
O garoto que te enchia, Patrick.
Sua professora de matemática e a Amber.
Não acredito!
Foi só isso.
Só isso?
Não, tem outra coisa.
Oi, garoto.
Você pediu uma pizza.
Não pedi...
A Tatiana? Perdi a virgindade com ela.
- De nada. - Que piada!
Você é uma piada!
É uma louca!
Isso não vale.
Falava da sua dor
sem parar, noite após noite,
e isso me comoveu.
Eu consigo tirar sua dor.
Não é sua pra tirar, Sheila!
Quis ser legal, Gary!
Tipo chá revelação.
Não preciso disso agora.
Vou voltar e mudar umas coisas,
pra isto não acontecer.
Fique à vontade. Quer saber?
Nunca vou te querer.
Vou te reiniciar, nem vai lembrar.
- Fácil. - Vou lembrar.
- Não vai. - Vou, sim.
- Um marca-texto, Gary? Que burro! - Isso.
"A Xeila é uó!"
Escreveu errado!
Não vai estar amanhã.
- Entende? - De boa!
Posso não lembrar desta conversa
nem desta noite,
nem das senhoras, mas vou lembrar da sensação.
Já fiz isso mil vezes, e você nunca lembra.
Toda vez foi essa bosta?
Não, você adorava!
Eu adorava? O que deu errado?
Não sei.
Sabia que não pode apagar tudo?
Um relacionamento requer esforço.
Só precisamos nos esforçar.
Talvez você tente melhorar,
mas acaba piorando, e algumas merdas ficam.
Não é assim.
Vou provar que não.
- Vou provar que está errado! - Boa sorte!
Acho que ele deveria ficar comovido por alguém se importar tanto
a ponto de tirar a dor da vida dele.
É um gesto muito romântico.
Calma.
Está tudo bem.
Tudo bem.
Gary, olha a sua pizza sexy.
Coma.
- Vamos lá. - Droga!
Espera!
O instrutor de caratê
nem revidou.
Eu estranhei.
Aí vim te pegar,
a Tatiana fofinha.
Não merecia.
Não consegui. Então é isso.
Oi?
Talvez ano que vem, Gary.
Fecha a porta.
Vai!
Bonitinho.
Ele vai ser.
June.
Eu consegui.
Fiz certinho.
Ou melhor, desfiz.
Agora o Gary e eu podemos voltar ao que era.
Então tá.
O que foi?
Nas vezes que fez isso, as coisas
voltaram ao que eram?
Está falando como o Gary malvado. Xô!
Deve estar todo escrito,
chorando: "Tenho sentimentos residuais.
"Quando eles vão sumir?"
Merdas não ficam.
Algumas merdas ficam.
Qual é? Não! Isso não é justo.
Não era assim.
Cadê o manual dessa coisa?
Nas mais de 300 vezes que veio aqui,
pensou em perguntar da minha vida?
Não, pensei só em mim, e não me orgulho.
Meus pais queriam um menino.
Queriam tanto que, quando nasci,
me chamaram de erro
e me trataram assim.
Nossa! Isso é horrível, June. Sinto muito.
Pois é.
Quando cresci,
matei os dois.
O quê? Verdade?
Não, Sheila.
Mas fui morar com minha esposa.
Foi como se os matasse.
Parece que você lidou muito bem com isso.
Mas, olha só,
volto no tempo
e falo com seus pais,
pra te darem valor.
Vão te amar, e bum!
Trauma apagado.
Não mexa com meu trauma!
Se eu não tivesse
momentos em que me sinto inútil,
eu não teria meu senso de humor.
Tá, entendi.
Bom pra você, mas eu
percebi que posso desfazer de tudo.
Não pode.
- Posso. - Não pode.
Algumas pessoas te machucam
e deixam uma marca, como um corte na sua alma.
Não tem como desfazer isso.
Se apagar a dor, apaga a pessoa.
Entendeu, Sheila?
Não.
Entendi, mas não vou usar isso no meu caso.
Por quê?
Sei lá, June.
As pessoas se baseiam
na história alheia sem pensar.
Quando vê, Smithson virou presidente.
Tanto faz. Escuta.
Vou ver meu cara favorito: o Gary de antes.
Tá? Desta vez, vou fazer dar certo.
Tchau.
Oi.
Oi.
Sou a Sheila.
Sou o Gary.
Legal o que fez com os porta-copos.
Que vergonha!
Não bato bem das ideias.
Eu também.
Não sou o único.
Nem sei como dizer isto, mas estou sentindo
um déjà-vu estranho,
e é muito triste.
Então acho que é melhor
eu dizer logo que sou viajante do tempo.
Vim do futuro.
Eu já sabia o que você diria.
Tá.
Então já sabe que eu vou dizer...
Que quer jantar? Quer jantar com uma viajante do tempo?
- Com certeza. - Mesmo?
- Vamos vazar. - Vamos jantar.
Tá, ótimo.
Enfim, meu pai era um alcoólatra itinerante.
Passava de bar em bar, até acabar morrendo.
Imagina isso?
Um bar diferente a cada noite,
sem parar, até morrer.
Isso é tão triste.
Quantas opções!
Uma escolha de Sofia.
Chad F. disse no Tripadvisor: "Cinco estrelas.
"Se não comeu aqui, não viveu."
- Gostou? - Sim. Que tal...
Vamos.
Escuta, está...
Está ficando tarde.
É uma das suas três frases de que menos gosto.
Até amanhã.
Sheila, olha,
gosto de você,
mas já pode parar com o papo
de viajar no tempo.
Foi engraçado no começo, mas já deu.
Gary, eu disse a verdade.
Tá bom.
Eu realmente
não quero acreditar.
Mas, quando acredito,
sinto uma coisa estranha na barriga.
É a magia entre nós.
Não, é...
É só...
Sinto que estou preso.
- É errado. - Errado.
Não parece real.
Pode parar, Sheila.
Para. Sério, para!
O amanhã não é ruim.
É, sim.
E se a máquina do tempo quebrar
ou parar de funcionar, ou sumir?
E você não me ver mais,
eu não ver...
- A máquina? - É!
A máquina do tempo!
Não pode parar o tempo.
Posso, e fiz isso!
Escuta só, esta noite tem sido
a mais estranha da minha vida.
Tem horas que te acho a melhor pessoa que já conheci,
mas tem horas
que quero te jogar na frente de um trem.
Eu não entendia o motivo, até agora.
É porque isto é doentio.
Tá? Você tem que me deixar ir.
- Não. - Sim.
- Não. - Sim.
- Não. - Por favor.
Não posso.
Lamento, não posso.
Não posso, não posso. Desculpa.
Tá bom.
Então eu vou voltar no tempo
- e te impedir... - Quê?
De ficar obcecada por esta noite.
Não pode fazer isso.
Sim, talvez eu faça.
- Posso fazer. - Não.
Volto... Sei onde é.
Manicure, né?
Vou ver a...
- É June? - Não.
- Vou lá. - Não vai.
Não pode fazer isso.
Não sei o que está rolando,
mas sei que não dá,
não aguento isso.
Não é certo.
Sinto muito, Sheila.
Sinto muito mesmo.
Você não entende!
Você me salvou.
Esta noite me salvou.
Morro de medo.
Esta pode ser a única coisa que me faz feliz.
Entendeu?
Então tá.
O quê?
Tá, vamos...
fazer do seu jeito.
Como assim?
Vamos...
tentar amanhã.
Tem certeza?
Sim. Quem sabe? Talvez...
Talvez acertemos amanhã.
Então... Eu te vejo amanhã.
Te vejo amanhã.
Boa noite. Deve ser o Gary.
Credo! Todos sabem meu nome?
O que quer?
- Quer fazer as unhas? - Não.
Não sei como dizer isto. Você é a June?
Vim falar da Sheila.
Quem?
Sheila, a viajante do tempo.
Sheila...
Ela vem aqui e volta no tempo.
Merda! Foi zoação?
Foi zoação, né?
Como caí nessa?
É só me dar moral que...
- Calma, Gary. - O quê?
Conheço a Sheila.
Quer ver a máquina do tempo?
É, eu quero ver.
Tá bom.
Quero impedir esta noite.
É isto? É a fonte dos meus problemas?
É, sim.
Mas parece que você teve uma noite boa ontem.
Sim, uma vez atrás da outra,
como se eu estivesse num Purgatório infinito.
- Tipo o amor. - Nem um pouco.
Ela me faz repetir as coisas.
O pior é que eu gosto dela.
Tipo um relacionamento.
Não tem nada a ver.
Eu me envolvo emocionalmente e saio magoado.
Nem sei quantas vezes foram.
Tipo o amor.
Não, porque o amor... O amor é real.
Isto aqui não é. Isto é falso.
É orquestrado.
É inorgânico.
Já comeu banana orgânica?
Tem mesmo gosto da normal.
O quê? Não sei o que significa, mas podemos fazer logo?
- Sabe aonde vai? - Sei.
Voltar ao momento em que tudo começou.
Espera! Foi quando?
Quando seria?
- Em 1999? - Beleza.
Não sei se é isso. Espera, June!
Sou claustrofóbico. June!
Ai, não! June, preciso mijar!
Posso mijar quando voltar?
Número 600, apt. 1K.
Lá vamos nós.
Pois não?
- Oi. - Pode entrar.
Atrasou.
- Quê? - Gary?
Isso.
Ela é novinha. Voltei demais.
Foi mal.
Preciso ir.
Tá, maluco.
A TV está ali.
Ah, é, a TV.
Ótimo. Sheila, não incomode o rapaz enquanto ele trabalha.
Vou me embonecar.
Eu ia voltar pros seus 16 ou 17 anos,
pra te pegar na época
em que sua loucura surgiu e poder te ajudar.
Você está nova.
Agora vou gritar com uma criança e traumatizá-la.
Cacete.
Cuidado com minha filha, ela é dramática!
Puxou ao pai, é claro.
O mesmo tipinho.
Assim não vai dar certo.
Não adianta...
O que está havendo aí?
Querida!
Por favor...
Quero silêncio!
- É criança. - Sheila!
Cadê o delineador da mamãe?
Ei!
Não chore.
Sheila, pelo amor de Deus!
Sheila, para com o barulho!
Sheila!
Oi.
Não chore. Está tudo bem.
Está tudo bem.
Pode repetir?
Está tudo bem...
- Está tudo bem... - Nem tudo precisa ser certinho.
Nem tudo precisa ser certinho.
Tá? Está tudo bem.
Está tudo bem.
Está tudo bem.
Tudo sempre vai ficar bem.
Não sei como, mas você encaixou aí.
Estou atrasada!
Já consertou?
Estou tentando.
Qual é a da sua mãe?
Chata demais!
Isso te fez sentir melhor?
Fez?
June, oi.
Eu vim te agradecer
pelos últimos meses
ou anos.
Sei lá quanto tempo faz, mas...
Andei pensando em...
Em abrir mão do controle.
E percebi que não sou assim.
Não consigo.
Então vim agradecer e me despedir.
Essa cor é bonita, minha favorita.
É bonita.
Só mais uma coisinha.
June, você teria sido um homem incrível,
mas é uma mulher mais porreta ainda.
Eu só quero dizer que foi uma honra conhecer você
e toda sua esquisitice perfeita.
Você é perfeita. Não é um erro.
Tchau.
June, acho que consertei tudo.
Eu a consertei.
Ela tinha uma mãe péssima dos anos 80.
Acho que não a consertou.
Ela acabou de sair e não estava nada bem,
então é melhor ir atrás dela.
Sua máquina do tempo é confusa.
Oi.
Toma.
Cartão da academia.
Loteria. Tomara que ganhe.
Pega isso também.
Tudo de bom.
Espera! Sheila.
Oi! Merda. Espera aí!
- Espera! - Saco.
Sheila, espera! Por favor.
Gary, por que veio?
- Espera. - Some.
- O que foi? Para. - Escuta...
- Gary. - Ei...
- Gary. - Olha aqui!
Nem tudo precisa ser certinho.
Tá? Lembra?
Muito lindo, mas não funciona mais.
Toda minha vida perdeu o sentido.
Quero muito acabar com tudo.
- Hoje. - Calma aí! Para!
- Vamos esperar o amanhã. - Larga.
Já é quase amanhã.
- Foda-se o amanhã. - Não fala assim.
- Nossa! - Sheila...
Não existe um futuro que eu queira.
Tenta entender.
O mundo é uma zona.
Tive mil chances de fazer o hoje dar certo,
e estraguei cada uma delas.
Não quero isso amanhã.
Pra que esperar o amanhã?
Por favor, vai pra casa.
Vai pra casa e vive sua vida.
Me deixa acabar com a minha do jeito que quero.
- Nem pensar. - Droga!
Nem pensar.
- Não. - Vai!
Não vou embora!
- Vai! - Não vou embora!
Vou passar a noite aqui.
Não estou nem aí.
Tá...
Não pode ficar aqui o resto da vida.
Uma hora vai ter que ir fazer xixi ou comer,
e eu vou pular da ponte,
então some da minha frente.
E se eu te disser que vi o futuro?
Não é mais um joguinho. Não tem graça.
- É sério. - Para.
- Vi o futuro. - Não viu.
Vi, sim.
A June me mandou pro futuro.
Ela virou o botão pro "F".
O que importa é que eu vi, e ele é maravilhoso.
Agora sei que é mentira.
Talvez não tão maravilhoso.
Talvez seja meio confuso, mas quem liga?
É uma confusão que vale a pena.
Se tivesse visto o futuro, saberia que não estou nele.
Nada disso.
- Você está. - Não estou.
Quer saber? Você não vai pular da ponte.
Gary, juro que vou pular desta ponte.
- Não vai! - Vou!
Você vai pro outro lado.
Já se perguntou o que tem lá?
Está bem ali.
O que tem lá?
Não viu o futuro.
Quer uma prova?
Não tem.
Eu tenho prova.
Tchau, Gary.
Não.
Te vejo do outro lado.
- Onde mora mesmo? - Logo ali.
- Eu sabia por causa do futuro. - Futuro.
É, então...
- Uma pergunta. - Diga.
Já que tem viajado sem parar,
em alguma das vezes, nós dois... Você sabe.
Gary, fala sério. Foi só uma noite.
Já ou não?
Você está me sufocando.
Me conta!
Saúde, chefia.
É uma escolha de Sofia.
Traz o korma de frango?
É muito bom.
E dois cabernets.
- Vai pedir, Gary? - O quê?
Vai pedir?
Caramelo, canela e remorso salpicados sobre sorvete de leite materno
e grama fresca.
A casquinha é falsa.
Não comam.
Desculpa!
Tudo bem. Tchau, Gary.
Te vejo amanhã.
- Está a fim? - Sim.
Quero dar pra ele até entortar.
- Satisfeito? - O que querem?
Old fashioned.
Que gracinha!
- Sou a Sheila. - Oi. Sou o Gary.
Nomes de velho.
São mesmo.
Balas azedinhas de origem local,
raspadas rusticamente sobre uma cama de um excêntrico gelato sabor alface.
- Legal. - Dois.
Passa uma paz, né?
- É. - É.
Ótimo trabalho.
- Viva pra você. - Viva!
E dinheiro no chapéu.
Puta que pariu!
O que te fez querer voltar no tempo?
Férias.
Entrou de férias só pra passar tempo comigo?
Eu entrei neste bar,
e você era o único não vendo esportes na TV.
- Não é fã de esportes? - Não.
Uma peça rara.
Donuts emulsificados e pedaços esquecidos de bolo
polvilhados sobre um buraco negro e sorvete de creme.
Sabia que já fui casada?
Ah, para! Uma vez? Tá.
Uma vez, mas foram cinco anos bem longos.
Sinto muito.
Por que quis terminar?
Seu fofo. Ele que quis terminar.
Ele me largou.
Por quê? Quem te largaria?
Estou no mesmo barco.
Saí agora de uma relação longa, de um ano.
Ela se chamava Amber.
Porra, Gary! Nada de bom vem de uma Amber.
Old fashioned.
Que gracinha!
Dois old fashioned, e vai cagar, Phil.
- O quê? - Nada.
Pedaços de red velvet orgânico esmagados sobre sentimentos,
esperanças e sonhos perdidos, regados com lágrimas.
Estou a fim, mas não dos seus pitacos.
Já estou até o talo com isso.
Uma pergunta.
Conhece John Connor? O Exterminador do Futuro.
Você é do futuro.
Michael Biehn fez esse filme.
E depois sumiu.
É tudo uma piada pra você, né?
Não leva isso a sério.
Beleza.
Neurótico. Então criei mecanismos de defesa.
- Nada tipo matar gente. - Ainda bem!
- Tem muitas opções. - Tem. Vamos neste!
Oi, Amit!
Então, vai me contar do futuro?
Pra quê? Não acredita mesmo.
É interessante.
Tenho um gato.
Old fashioned.
Sou alérgico,
então é um daqueles pelados.
Saúde, chefia.
É um Sphynx. Mas é estranho,
se puser ele ao lado do meu avô, nem dá pra distinguir os dois.
Você nem vai lembrar.
Isso me deixa tão borocoxô, Gary, sabia?
O futuro é fodido.
Que lugar desanimado!
Oi, Susan!
Está bravo comigo?
Sinto muito.
Sinto muito.
Vejo anos juntos.
Amit, não me atrapalha!
O que você vê?
Não quer ver nada? Gary!
Eu vejo, sim.
Dois filhos.
Tá. Dois filhos, um cachorro e...
É da boca pra fora.
Calma.
Gary!
É que...
não faço isso há muito tempo
e estou me divertindo.
Eu entendo.
Minha boca fala antes que eu pense.
Não precisa adivinhar.
Eu sei. Gosto disso.
Gosta agora, mas uma hora vai se cansar.
Eu duvido muito.
EM MEMÓRIA AO AMADO AMIR PNUELI
Legendas: Karina Curi
Supervisão Criativa: Rosana Cocink
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