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Original subtitles

Nos Estados Unidos, não é comum estudarmos no estrangeiro.

Mas a minha mãe disse: "Podes ir para Espanha."

Eu tinha 18 anos.

Era uma aventura.

Não sei quando é que as coisas

ficaram uma merda.

Quando fui para Espanha, era a mais nova do meu programa.

Era um grupo de universitários americanos que estava a estudar em Espanha.

Eu estudei em Sevilha.

- Sevilha. - Sevilha.

Quando cheguei a Espanha, decidimos viajar.

Olá!

Recomendaram-nos a Discover Excursions.

Éramos adultos pela primeira vez.

Quando vejo as fotos dessa altura, éramos todas muito vulneráveis.

Aconteceu algo muito mau e não sei como o descrever.

Ela ligou-me, histérica, a chorar.

O que aconteceu?

Nunca teria imaginado o que se passou.

Aconteceu durante anos.

Acho que, no fim, eram 50 pessoas.

Eu pensei: "Isto é de loucos."

Parecia que estávamos com o diabo.

O PREDADOR DE SEVILHA

EPISÓDIO 1: A VIAGEM

Chamo-me Gabrielle Vega. Tenho 30 anos.

Sou a mais velha de três raparigas.

Cresci num subúrbio normal nos Estados Unidos.

Tínhamos bicicletas e brincávamos na rua.

Foi uma infância boa.

Sou um cavalo, mãe.

O meu pai é um americano de primeira geração.

A minha mãe é de Nova Jérsia.

A minha família não tem raízes espanholas.

Mas o lado do meu marido tem raízes profundas em Espanha.

Os avós dele eram das Astúrias.

Os meus pais adoravam a ideia de eu voltar para Espanha

e reconectar-me com as origens da família.

É isso.

Lembro-me da noite anterior, eu estava a fazer as malas, sozinha,

e fiquei muito emotiva.

Comecei a escrever cartas.

Acho que foi a única carta que ela me escreveu.

Foi muito importante.

Sabíamos que ela estava entusiasmada e que não tinha medo, por isso…

Foi um acontecimento feliz.

Não quero dizer que o meu pai se arrepende,

mas gostava de nos ter ensinado espanhol quando éramos pequenas.

Ele procurou um sítio onde o espanhol fosse mesmo puro.

Então, ele disse: "É em Salamanca."

E foi por isso que decidi ir para lá.

Não sei. Senti que o mundo se abriu

e eu ia fazer tudo ao meu alcance.

Não sabia nada sobre Salamanca.

É uma cidade linda e aprendemos as pequenas coisas sobre…

O ponto de encontro é ao pé do relógio, quando vamos ter com os amigos à plaza.

Marcamos a hora e vamos lá ter.

Não sabia beber. Não sabia como me comportar.

Estava sozinha pela primeira vez. Não falava espanhol.

Era tudo novo.

Mas lembro-me de viver lá e de sentir que via tudo a cores pela primeira vez.

Eu adorei.

E tentei aproveitar ao máximo.

UNIVERSIDADE DE SALAMANCA

Eu estava com miúdos que deviam ter 21, 22, 23 anos.

Falávamos muito em viagens pela Europa.

Então, eu disse: "Posso ir a França, a Marrocos ou a África."

E depois: "África, não sei."

Mas podia ir e seria incrível.

Sempre soube que era uma das viagens que queria fazer

por ser algo muito diferente.

O nosso grupo conhecia a Discover Excursions.

ESCRITÓRIO EM SEVILHA

Sabia que tinham ido a Marrocos. E parecia que imensos miúdos tinham ido.

Procuras diversão e uma forma fácil de ir a Marrocos?

Vem com a Discovery Excursions numa viagem segura e reveladora.

Anda de camelo.

Prova comida deliciosa.

E desfruta de dias solarengos num deserto interminável.

Confia em nós. Ficarás surpreendido com o que vais viver em África.

Faz mais do que viajar. Descobre.

Nós éramos o público-alvo para aquela empresa.

"Queres ir a Marrocos? Esta é a empresa ideal."

Eles tinham o marketing todo. E fotos de todos nós.

Miúdos americanos.

A Discover Excursions era um negócio a sério.

Bem-vindos!

Estamos abertos de segunda a sexta, das 10h às 20h. Não fazemos siestas.

Sim, era muito profissional e bastante acessível.

E tinha um ambiente

divertido e jovem também.

Os guias turísticos eram jovens.

Eu e o pessoal do meu programa decidimos ir juntos.

Eles organizaram a viagem.

Os dias foram planeados. Tínhamos um itinerário e…

Acho que era um grupo de 200. Era um grupo enorme de miúdos.

Acho que foram dois autocarros. Éramos muitos.

Lembro-me de ela nos dizer que ia a Marrocos.

E nós dissemos: "Que bom!"

Ela estava entusiasmada.

Basicamente, fomos a Marrocos.

E explorámos a zona norte do país.

Meu Deus!

Lembro-me de ficar impressionada com a beleza.

Havia montanhas incríveis.

A arquitetura era muito diferente.

Acho que o guia turístico principal era o Manuel.

Lembro-me do Manuel a falar com todos no autocarro.

Em pé, à frente do autocarro, a falar sobre como nos íamos divertir e assim.

Ele parecia amigável e caloroso, uma pessoa animada.

Provavelmente, tinha 20 e muitos, 30 e poucos.

Parecia um tipo simpático que nos ia mostrar o local.

Estava entusiasmado por estarmos ali.

Fomos à Cidade Azul.

Fui aos mercados, que eram incríveis.

Lembro-me de ser quase dominada pela agressividade dos vendedores.

Estava com os meus amigos, e estávamos entusiasmados.

Porque estávamos num mundo diferente.

Eles falavam todas as línguas.

Falavam francês, inglês, espanhol. Era avassalador.

Os cheiros eram avassaladores. No bom sentido.

Era um sítio novo mesmo.

Acho que era sábado. E essa foi a última noite da viagem.

Olá, gatinho.

Que lindo!

Eles queriam que nos sentíssemos à vontade lá.

E falavam na segurança.

"Marrocos não é muito seguro. Fiquem no alojamento.

Há um bar no hotel."

Acho que era no último andar do hotel.

"Se quiserem beber algo, podemos ir lá, mas é melhor não irem para a rua.

À noite, é uma cidade duvidosa e nós somos muitas pessoas."

Naquela noite, fomos encorajados a ficar no hotel.

E fomos ao bar. Eu, a Ashley e a Nicole.

Nós as três estávamos no mesmo quarto.

Conheci-as no meu programa.

Lembro-me de fumar um cigarro com elas.

E o Manuel apareceu.

Ele disse: "Vão beber outra bebida?"

E nós: "Sim."

Ele fez uma sugestão, ele disse:

"Posso arranjar champanhe, podemos ir para o quarto e assim.

Eu trato disso. Não se preocupem."

E nós dissemos: "Está bem."

Nem pensei no assunto. Eu disse: "Parece-me bem."

E fomos para o nosso quarto de hotel, nós os quatro.

Ele pediu o champanhe para o quarto.

E foi ele que abriu a porta, quando o champanhe chegou.

Estávamos sentadas nas camas, a falar.

Nós as três.

E…

Ele aproximou-se.

Tenho a certeza de que havia um móvel.

Sabem aquele móvel que põem à frente das camas?

Ele pôs o champanhe lá. E nós estávamos atrás dele, nas camas.

E ele começou a servir de costas para nós.

Foi muito casual.

Era um ambiente muito amigável.

E eu lembro-me

de que o ambiente começou a mudar.

Ele queria fazer jogos e assim.

Ele começou a perguntar-nos:

"Com quantas pessoas dormiram?"

E tipo…

E disse: "Porque não trocamos de camisola ou jogamos ao Verdade ou Consequência?"

E perguntou: "Importam-se que eu me ponha mais à vontade?"

E tirou as calças.

Ficou de cuecas, pegou numa almofada e pôs em cima dele.

Eu não… Eu pensei: "Que merda é esta?"

Mas, depois, pensamos racionalmente e…

Talvez seja uma diferença cultural.

Talvez ele seja só diferente.

Não sei.

Lembro-me de me sentir cansada. Muito cansada e…

Havia uma cama junto ao armário.

Eu levantei-me daquela cama e fui para a outra.

Deitei-me e aterrei.

Não sei quanto tempo dormir. Não faço ideia.

Lembro-me de acordar, a certa altura.

Não estava ninguém no quarto.

E eu sentia-me uma merda.

Nunca me tinha sentido assim.

E nunca mais voltei a sentir-me assim.

Parecia que a minha mente e o meu corpo não estava conectados.

O meu cérebro estava muito lento.

Era exaustão. Não sei o que foi aquilo.

Quando me levantei, lembro-me de me encostar à parede

e de arrastar os pés para ir à casa de banho.

Abri a porta da casa de banho e vi…

… a Nicole, a Ashley e o Manuel no duche.

Estavam de t-shirt e cuecas. Ele estava de cuecas.

Eu fechei a porta.

E pensei: "O que raio foi isto?"

E depois…

Eles saíram todos a correr.

Parecia que estavam envergonhados.

Então, eu entrei e sentei-me na sanita.

Estava virada para a porta.

E…

Eu só me lembro…

E isto assombra-me há anos.

A porta abriu-se,

vi o sexo dele a vir na minha direção e ele meteu-o na minha boca.

Depois, bateu-me na cabeça.

E eu apaguei.

Acordei na manhã seguinte na cama.

Estava vestida.

As minhas colegas de quarto, a Nicole e a Ashley, estavam a dormir.

Ele não estava no quarto.

Ele tinha-se ido embora. E eu estava com muitas dores.

Estava muito dorida.

Lembro-me de levantar o cobertor,

olhar para as minhas pernas e…

Estava de calças e olhei para os meus joelhos,

que tinham nódoas negras.

Parecia que algo estava muito errado. Eu tinha dores.

E sentia-me sem controlo e muito lenta.

Lembro-me de me levantar.

Meti-me no duche e lavei-me.

Elas acordaram

e tivemos de fazer as malas,

porque íamos voltar para Espanha naquela manhã.

E lembro-me de me sentir muito exausta.

Fiz as malas.

Desci com as minhas coisas.

E sentei-me no sofá, quando nos preparávamos para partir.

Lembro-me de me encostar.

E de fechar os olhos.

E tive aquele flashback…

… de a porta se abrir e de ele meter o sexo na minha boca.

E fiquei com náuseas.

Foi vívido, visual e horrível.

Foi aí que percebi o que tinha acontecido.

O pior de tudo

é que não me podia passar.

Não me podia descontrolar.

Estava noutro país.

Tive de passar por aquilo.

Tive de pensar: "Entra no autocarro. Tu vais ficar bem."

O Manuel estava à porta do autocarro quando entrámos para ir para Salamanca.

Eu entrei no autocarro e ele nem olhou para mim.

Eu não…

Era como se eu fosse invisível, e eu preferia assim.

Mas eu não chorei. Eu não…

Não fiz nada. Não reagi.

Desliguei-me de tudo à minha volta.

Não estava emocionalmente presente.

7 MESES DEPOIS

Acho que voltei para os Estados Unidos talvez em maio de 2014.

Lembro-me de chorar no avião.

Porque eu ainda não tinha admitido a mim mesma o que tinha acontecido.

Quando ela voltou,

ela estava diferente.

Ela estava muito distante e diferente.

E nós perguntávamos: "O que se passa?"

E ela dizia: "Não quero estar aqui.

Não quero estar aqui.

Já não estou habituada aos Estados Unidos."

Lembro-me de pesquisar se era algo comum com os miúdos que estudavam fora.

Chama-se depressão de regresso.

Diziam que era normal quando voltavam diferentes.

E ela insistia que era isso que se passava.

O meu maior medo era contar aos meus pais o que se tinha passado, porque…

Havia muitas coisas

que não queria que eles soubessem.

Sou a primeira filha. Sou filha deles.

Não conheço ninguém a quem isto aconteceu.

Não queria que eles sentissem que tinham falhado como pais,

por aquilo ter acontecido.

Ela só ficou em casa durante um mês.

Depois, a universidade começou.

Ficava a sete horas de carro de nossa casa.

A Gabrielle não mostrou entusiasmo nenhum. Ela não estava empolgada.

Eu estava muito deprimida.

Nunca tinha lidado com depressão.

E…

Tudo na minha vida ficou difícil.

Tudo na minha vida ficou muito difícil.

Comecei a ter uma ideação suicida

e pensamentos intrusivos sobre suicidar-me.

Pensei: "Tenho de contar aos meus pais.

Tenho de contar o que se passa aos meus pais."

Estava no jardim. Era sábado.

Estava um dia lindo. E ela ligou.

Ela disse: "Vou para casa."

E eu perguntei: "Porquê? O que se passa?"

E eu disse: "Eu fui violada.

Fui violada em Espanha e tenho de voltar para casa."

E…

Depois disso, não me lembro bem das coisas.

Eu não perguntei o que se passou. Disse-lhe para vir.

Eu não contei à minha família durante dois anos e meio.

Pensavam que estava deprimida.

Eu não fazia ideia.

Pensei: "Como é possível, como mãe, não fazer ideia?"

E até a minha sogra, a abuela, disse:

"Achas que lhe aconteceu algo? Acho que lhe aconteceu algo em Espanha."

E eu disse: "Não lhe aconteceu nada. Isto é normal."

Eu olho para trás e penso: "Não posso…" Ela sabia.

Ela viu que a Gabrielle não era a mesma.

Os meus pais abriram a porta e eles…

Deram-me um abraço e tentámos avançar a partir daí.

Eu estava desesperada.

Era o que eu precisava. Só precisava da minha família.

E tive de enfrentar o facto de que estava

a suprimir tudo.

Tive de enfrentar tudo, dizer-lhes

e deixar de carregar aquele peso.

Sim.

Perguntei: "Sabes quem foi?"

E ela disse: "Sim, foi o guia turístico. Foi o dono da empresa de viagens."

Acho que foi isto que ela sentiu.

Ela não queria dizer as palavras em voz alta

ou falar dos pormenores.

Ela só queria estar na segurança da casa dela e estar connosco.

Perguntaram-me se eu queria ir à polícia e eu disse que não.

"Não, não quero ir à polícia. Não quero ter nada que ver com isso."

Foi uma altura para recuperar e curar.

Sim, foi difícil.

Foi uma altura difícil.

2 ANOS DEPOIS

25 DE JANEIRO DE 2018

Sou artista e designer gráfica.

Em 2018, eu estava no último ano da faculdade

na Univ. Estatal da Florida, em Tallahassee, Florida.

O pior momento da minha vida aconteceu na Univ. da Florida.

O MOMENTO MAIS TRISTE DA MINHA VIDA

Lembro-me de ir para a rua e chorar.

Era um projeto em que eu estava a trabalhar.

Foi uma instalação das experiências das pessoas.

As suas melhores e piores experiências.

Era suposto ser sobre a ideia

de que somos moldados pelas melhores e piores experiências.

Senti que o meu mundo parou.

Estava completamente perdida.

Utilizei o Facebook, o Instagram e as redes sociais no geral,

para encontrar pessoas para as entrevistas e para se filmarem.

ESTOU A FAZER ENTREVISTAS PARA EXPLORAR MEMÓRIAS.

ENVIEM-ME EXPERIÊNCIAS.

A Gabrielle acabou por ser uma das pessoas que respondeu

e enviou um áudio do seu melhor e do seu pior dia.

AQUI ESTÁ!

Quando ouvi o pior dia dela…

Havia algo muito familiar.

Chamo-me Gabrielle. Vou começar a responder às tuas perguntas.

O momento mais triste da minha vida? Provavelmente, quando fui violada.

Estava sozinha em Marrocos.

Sozinha, não. Com duas amigas.

E…

… fomos numa viagem.

Um guia turístico levou-me e fez umas merdas maradas.

Isso foi muito difícil, porque eu tinha 19 anos.

E, depois desse dia,

tudo

mudou.

Deixei de ser uma miúda.

Ela não disse o nome da empresa. Ela não disse o nome do Manu.

Eu é que tive um pressentimento.

E foi isso que me levou a contactá-la.

MUITO OBRIGADA POR PARTICIPARES.

AGRADEÇO-TE IMENSO.

LAMENTO PELO QUE TE ACONTECEU.

Ela enviou-me uma mensagem a agradecer o áudio.

"Fico-te muito agradecida. Lamento que isso te tenha acontecido."

Eu perguntei-lhe se a empresa com quem tinha ido

era a Discover Excursions.

Ela disse que sim.

Ela perguntou-me se estava a falar do Manu.

E eu disse: "Sim."

Eu comecei a entrar em pânico e passei-me mesmo.

Eu sabia que algo muito semelhante tinha acontecido a outra pessoa.

Eu fui estudar para Espanha em 2017.

A minha irmã mais velha recomendou-nos a Discover Excursions.

Nós queríamos ir a Marrocos.

RESERVAR!

Nós queremos acreditar que eles têm os nossos interesses em consideração,

quando viajamos com eles.

Meu Deus!

O quê?

Lembro-me

de que uma noite dessas viagens

era uma grande festa organizada por eles.

E isso acabou por ser a noite em que ele…

Ele abusou de uma rapariga na nossa viagem.

Eu vi-o a agir de forma estranha com ela.

Ele estava

a fazer-se à Catherine.

Senti que ele a seguia.

Estava sempre à volta dela, sempre a falar com ela.

Eu perguntei à Liz: "Podes pôr-me em contacto com ela?"

SIM.

MENSAGEM - ADICIONAR CONTACTO

Eu contactei a rapariga.

Ela disse: "Sim. O Manuel empurrou-me para a cama

e tentou fazer sexo comigo, eu passei-me mesmo.

Mas ouvi dizer que algo pior

aconteceu a outras duas raparigas noutra viagem da Discover Excursions."

E eu disse: "Está bem. Podes pôr-me em contacto com elas?

Preciso de localizá-las e falar com elas."

E…

Falei com a Hayley e a Carly pela primeira vez.

28 DE MAIO DE 2017

E basicamente disseram-me

que ele as encurralou num quarto, ambas,

em Portugal, numa das viagens da Discover Excursions.

VOZ DA CARLY

Ele queria que continuássemos a beber.

Ele queria jogar ao Verdade ou Consequência.

Queria que o beijássemos e que dançássemos para ele.

Ele agarrou no pulso de uma delas e não o largava.

Tentou forçá-las a tocarem-lhe.

Ele disse: "Uma de vocês toca-me e a outra beija-me."

Ele disse-nos que não podíamos sair,

porque não o podíamos deixar com os tomates cheios.

Elas ficaram cheias de medo.

A Hayley conseguiu afastar-se dele.

E, quando a Hayley lhe disse para me largar,

ele disse-lhe que não me podia largar,

porque alguém tinha de terminar o trabalho.

Ela teve de correr para o corredor, abrir a porta e dizer:

"Se não saíres daqui, vamos contar isto a todos."

Ele largou-me.

E, no dia seguinte, desapareceu.

Todos os outros guias turísticos

disseram que ele tinha tido uma emergência familiar.

Quando encontrei aquelas três mulheres,

algo mudou na minha cabeça.

Ela ligou-me, histérica, a chorar.

"Ele faz isto a outras raparigas!"

E eu perguntei: "De que estás a falar?"

Estava no carro, a caminho de casa, ao telefone com a minha mãe

e foquei-me no que ia fazer.

Então, eu cheguei a casa e comecei a publicar no Facebook.

OLÁ! ESPERO QUE ESTEJAM BEM.

"O meu violador continua a violar pessoas. Se conhecerem alguém que vá a Espanha,

digam que o Manuel Blanco Vela da Discover Excursions abusa de mulheres.

Partilhem isto, por favor.

#metoo."

Comecei a escrever sem parar.

E levei as coisas a outro nível.

Escrevi a mesma mensagem.

PARTILHAR

"Não tenho notícias tuas há algum tempo.

"O meu violador continua a violar pessoas. Podes partilhar o meu estado?" De loucos.

Enviei-a a cerca de 200 pessoas.

Enviei mensagens diretas no Facebook.

O meu pai tinha contactos em Miami,

conhecia o cônsul-geral da Embaixada de Espanha em Miami.

Eu fui lá, contei-lhes o que se passava e falei-lhes das mulheres que conheci.

O cônsul-geral foi muito amável.

Ele ia ajudar-me, mas estava hesitante.

Ele disse que não devia levar o assunto às notícias.

E que não devia contar a ninguém.

Porque será que ele não queria que chegasse à imprensa?

Porque seria má publicidade para o país.

Quando ele me disse isso, pensei: "É isso que eu vou fazer."

NOVA IORQUE 11 DE ABRIL DE 2018

Estávamos no camarim e eu estava muito nervosa.

Estava a passar-me.

- Um minuto! - Sim. Um minuto, malta.

Vamos ter um bom espetáculo.

Lembro-me de estar nos bastidores.

E comecei a soluçar.

- Câmara três. - Quatro, três, dois, um.

Estamos em direto.

Comecei a ir-me abaixo. Ela veio ter comigo e disse:

"Estás a fazer algo muito bom. Isto vai ajudar-te e vais apanhá-lo."

E eu disse:

"Se a Megyn Kelly o diz, aqui vou eu.

Tenho de fazer isto."

Ela subiu ao palco e eu fui atrás.

E lembro-me de olhar para ela.

Ela fez-me uma pergunta

e eu não me lembro de nada.

Mas, pelos vistos, correu muito bem.

Eu e o meu marido ficámos no camarim enquanto filmavam

e estávamos muito orgulhosos dela.

E acho que, na altura, sabíamos que isto ia ser algo em grande.

Eu sabia…

… que ia entrar em território desconhecido.

Não fazia ideia do que..

Eu…

Não fazia ideia de que isto ia acabar assim.

Quando o programa passou, muita gente começou a contactar-me.

O meu telemóvel não parava de tocar.

Durante a entrevista,

mostraram a imagem do homem que conheci como Manu White.

E comecei a gritar: "É ele!"

Eu pensei: "Isto é de loucos."

Acho que ele não foi mencionado. Mas eu pensei: "É o Manu."

Tudo se desmoronou ao ouvir a história da Gabrielle.

Eu nunca teria imaginado que era o Manu.

Tive uma grande sensação de clareza.

Mas também muita raiva.

Quando soube pela Gabrielle, senti logo

que ele era um predador em série

e que ele cometeu aqueles crimes e abusos.

Foi aí que soube que o que me aconteceu

aconteceu a outras mulheres durante muitos anos depois.

E, provavelmente, anos antes.

Eu dizia aos meus pais: "Encontrei uma rapariga de Rhode Island.

Encontrei uma rapariga da Virgínia.

Encontrei duas raparigas da Florida. Três raparigas.

Uma em Nova Iorque."

E os meus pais disseram: "Meu Deus, miúda!"

SEVILHA, ESPANHA

Isto faz parte da história

que eu enviei à Gabrielle.

Aquele dia…

Acho que foi no início de abril.

Sentei-me no escritório e o Manu não estava lá.

O meu trabalho era analisar…

Havia grupos no Facebook de universitários a estudar no estrangeiro.

E eu devia passar por cada pessoa

e enviar-lhe uma mensagem da conta da Discover Excursions

a dizer: "Vem a Marrocos. Aqui tens um código de desconto."

E vi-o a andar de um lado para o outro, ao telemóvel.

Depois, ele veio ter comigo e agarrou-me, como sempre.

"Aubrey, é hora de ir almoçar.

Tenho de te dizer o que se passa."

E eu disse: "Está bem."

Fomos almoçar.

Ele sentou-se e pediu a comida, como sempre.

Ele pedia sempre tudo para nós.

Ele foi para a rua e atendeu uma chamada, andando de um lado para o outro.

Parecia agitado.

Finalmente, voltou e sentou-se. Não conseguiu comer nada.

E tentou explicar-me:

"Há raparigas

que estão a tentar arruinar a minha reputação e a magoar-me

para ficarem com o meu dinheiro.

Não sei porque estão a fazer isto.

Isto é horrível. Coitada da minha família.

Isto está a arruinar a minha reputação. A minha mãe vai sofrer com isto."

E eu disse: "Isso é de loucos."

Ele tentou distorcer a realidade.

Ele queria ter a minha empatia.

E…

Eu voltei para o escritório e ele saiu.

Eu sabia que estava no Today Show e vi o programa.

E vi o quão mau era.

E fui-me embora.

No dia seguinte, acho que foi isso, o escritório foi encerrado.

Estamos a seguir este caso, que se tornou viral nas últimas semanas.

A polícia está a investigar se um empresário turístico de Sevilha

violou dezenas de clientes, sobretudo, dos Estados Unidos.

Uma estudante da Florida apresentou uma queixa

e isso despoletou uma onda de denúncias semelhantes.

Estamos na sede desta agência de viagens,

que, como podem ver, está fechada.

Também tentámos falar com o diretor da agência,

que até agora não respondeu às mensagens dos média.

Liguei para a Discover Excursions. Ninguém atendeu.

Fui lá pessoalmente, porque ficava perto da redação.

Estava fechada. Não estava ninguém lá. Consegui o número do Manuel Blanco.

Liguei-lhe.

Ele atendeu.

Disse-lhe que era do Diario de Sevilla, que queria falar com ele, e ele desligou.

Decidi enviar-lhe uma mensagem pelo WhatsApp.

Ele deu-me uma resposta muito breve.

"Em nome da nossa empresa, queremos dizer que tudo isto é mentira.

Não há processos nem provas."

Isto tornou-se viral sem fundamento.

Os advogados da empresa estão a par, tanto nos EUA como em Espanha."

Apenas disse isto,

e eu incluí tudo no meu artigo.

Lembro-me de me começarem a enviar coisas.

E tenho a certeza de que alguém me enviou

uma captura do ecrã da localização no Google

a dizer "permanentemente fechado".

Foi espetacular.

Foi espetacular. Foi incrível.

Eu pensei: "Eu fechei-lhe as portas.

Vai-te foder! Que se fodam os teus amigos! Que se fodam os que te apoiaram!

Vai-te foder!"

TAMBÉM ME ACONTECEU.

TAMBÉM FUI VIOLADA PELO MANUEL.

Diria que a maioria das mensagens foram enviadas nessa semana.

Começaram a chegar aos poucos.

Havia raparigas que diziam:

"A minha amiga foi violada por ele, mas tem medo de te contactar."

NÃO ESTÁS SOZINHA.

"Eu fui violada por ele,

mas não quero contar à minha família."

Muitas pessoas vieram ter comigo. Elas vinham ter comigo e contavam-me tudo.

Foi um daqueles momentos

em que não fazia ideia no que estava envolvida.

E recebia uma mensagem privada no Facebook.

Ela disse: "O Manuel Blanco Vela matou a minha filha."

O MANUEL BLANCO VELA MATOU A MINHA FILHA.

Legendas: Ruben Oliveira

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