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Olá?
Olá?
Conseguem ver-me, aí em baixo?
Olá!
Até à vista, lesmas.
Lembram-se de a Tia dizer que éramos lentos a caminhar
e, depois, corria para a frente e dizia-nos adeus como uma louca?
Não me lembro porque, na altura, não me convidavam para caminhar
porque vocês me achavam irritante e difícil.
E agora não achamos.
Sou quem sou.
Mas vejam a nossa miúda de volta às calças malucas.
São as minhas preferidas.
Sim, estou a melhorar.
Voltei a ver a animação do Hobbit,
pintei as unhas e tentei desenhar espadinhas.
Ficou fálico. Parecem pilinhas de Hobbit.
E convenci o meu homem a caminhar.
Tenho dúvidas sobre caminhada. Só caminham quando faz calor?
Às vezes, as coxas ficam assadas.
- Podemos voltar à Gaby? - Obrigada.
Então, isso quer dizer que voltas ao trabalho amanhã?
Ainda estou a processar.
Ela está a processar, Jimmy.
Credo! Tem lá calma, meu.
Porque se juntam todos contra mim?
- É divertido. - Já gosto de caminhadas.
- Sim. - Jimmy, acho que preciso
de outra semana, pelo menos. Já estás farto de dar boleia ao Paul?
É só porque, todas as manhãs, ele quer ir comprar "akaya".
É açaí.
E quem lhe mostrou músicas dos Smash Mouth?
Eu.
Devo fazer alguma coisa ao cabelo, antes da faculdade?
Pintá-lo de azul ou rosa?
Podias ser radical e rapá-lo todo.
Apoio isso.
Vão todos pensar que és louca ou tens uma doença terminal.
Seja como for, vão todos deixar que faças o que quiseres. Ganhas sempre.
- Olá, meu. - Olá.
Acabaste de almoçar há uma hora.
O que fazes ainda aqui?
Talvez esteja só a conviver.
- Quem lhe vai dizer? - Eu digo.
Brian, nós adoramos-te, mas tu és cota.
Estou tão prestes a dar-te uma chapada.
E, seja como for, não sou cota.
Termina esta frase.
- Trigo limpo… - Farinha Amparo.
Raios.
Pronto. Precisava de me afastar do Charlie.
Temos estado a treinar o sono da Sutton e só discutimos.
Ontem à noite, ele estava a ser mau, e eu disse-lhe que ele não era o pai,
o que é verdade, sem dúvida,
mas, depois, ele respondeu aos gritos: "Tu também não és!"
E isso foi
tão ofensivo.
Merda. É o Dre Thibodeaux.
- É um nome divertido. - É, não é?
É tipo um conjunto. Temos de dizer os dois.
Olá, Dre… Thibodeaux.
Eu disse.
Certo. Parece-me bem.
Lamento ouvi-lo.
Sim, obrigado por ligar.
Merda. Não conseguiste o trabalho?
Não, a tia dele morreu.
Mas consegui. Consegui, porra.
Sou subchefe, querida!
Querido! Sim!
Meu Deus!
- O quê? - Merda.
O Jorge ainda não sabe disto, portanto, ajudem-me.
O que estão a celebrar?
A minha bebé disse as primeiras palavras.
- Que loucura. - Sim.
E quais foram?
Ela disse:
"O papá é tão novo."
- Meu, estavas lá quando eu nasci. - Tens telefone fixo.
Ainda dizes Checoslováquia.
Porquê? O que aconteceu?
Certo.
Ainda bem que estavas aqui por perto.
Bem, talvez não estivesse aqui por perto.
Talvez só te quisesse ver.
Esperava que dissesses isso.
Não, estava aqui por perto.
Raios.
Faço Pilates do outro lado da rua.
Adorava dizer que me verás três vezes por semana,
mas será mais uma vez a cada 15 dias, depois de comer dónutes e me sentir mal.
- Mais chantilly, por favor. - Claro.
Então, tenho de esperar até te odiares bastante
para te voltar a ver?
Sim, mas essa situação acontece a qualquer altura.
- Boa. Comigo é igual. - Certo.
E esta noite?
Merda.
Raramente tenho alguma coisa combinada, quase nunca,
mas, infelizmente, o meu pai vai chegar esta noite.
Certo. E talvez seja demasiado cedo para conhecer os pais.
Mas já conheceste o meu ex-marido e o meu filho,
e apalpaste o meu sutiã de andar por casa, portanto, talvez esteja na hora.
Não tenho medo de avançarmos demasiado depressa.
Nós quebramos regras.
Bom dia, Jimmy.
Bom dia, mulher aleatória.
Paul, esta é a Sofi.
Sofi, este é o Paul,
o meu chulo.
Olá. Sofri uma pequena queda, este fim de semana.
A Julie obrigou-me a usar isto.
Mas, força, divirtam-se.
Deixou o casaco de peles no carro?
Não sei porque disse aquilo. Nem o conheço.
Ela é perfeita para ti.
Isso não é um elogio, pois não?
Não.
Bem, eu tenho de ir andando.
- Eu… Depois falamos. - Certo.
- Prazer em conhecê-lo, Paul. - Igualmente.
Cala-te.
- O que foi? - Lembro-me de alguém, no meu casamento,
te ter encorajado a voltares ao mercado.
Podias agradecer a quem fez isso pela sua sabedoria.
Obrigado, Paul.
Estou orgulhoso de ti.
Continua a ser corajoso.
A Gaby já veio?
Ela disse que precisava de outra semana.
Raios. Isso não é bom.
Se quiseres, posso voltar a falar com ela.
Não. Eu parti. Eu arranjo.
Se for preciso, arrasto eu mesmo aquela mulher para o trabalho.
Isso parece algo que um chulo diria.
Relaxa, mano.
Há pedidos? Se me derem uma moeda, toco qualquer coisa.
Basta dizerem.
- Olá. - Olá.
Casa cheia.
Sim. Eu estava em casa, aborrecido.
Vi o teu pai chegar
e, como dizes sempre, su casa es mi casa.
Nunca disse isso.
- Mas devias dizer. - Certo.
Sabes, o Jimmy toca piano.
Sim, infelizmente, todos sabemos.
Sou parte da razão para isso. Eu…
Uma vez, tinha bilhetes para ver o Billy Joel.
O meu amigo desistiu em cima da hora, e pensei: "Bem, levo o Jimmy."
Foi durante a semana. A mãe não gostou muito,
mas eu quis que ele vivenciasse
- a alegria da música ao vivo, portanto… - Sim.
Ele ficou fascinado. Andou deslumbrado durante uma semana.
Não andei deslumbrado.
Fiquei traumatizado.
A mulher de 60 anos que estava ao meu lado
arrancou as cuecas e atirou-as para o palco.
Vi coisas que nenhum miúdo de sete anos devia ver.
Depois, inscrevi-o em aulas de piano e o resto é história.
Ela chamava-se Valerie Schoenberger.
Isso sim, é uma história.
Quem me dera que fosses meu pai.
Essa história faz-me lembrar
que, uma vez, tentei ir aos bastidores de um concerto do Ed Sheeran
dizendo que era a filha secreta dele.
Mas parece que há tantos ruivos a fazerem isso
que ele viaja com um tipo que faz testes de paternidade.
Quem quer café?
TERAPIA SEM FILTROS
O que vão fazer amanhã?
Eu vou buscar um carro novo que precisa de carinho.
Pensei que podíamos passar o dia a tratar do carro e a ouvir música.
Por mais divertido que trabalhar à borla soe,
vamos comprar coisas para o quarto da Alice na residência.
Podemos fazer isso noutra altura. Quero fazer coisas de carros com o avô.
Desculpa. Esqueci-me da tua paixão por "coisas de carros".
Sim, vocês deviam ir fazer isso.
Tenho muitas coisas do trabalho para pôr em dia…
Boa. Bem, acho que me vou deitar cedo.
O Derek acabou comigo quando me deu dez dólares para tocar Steely Dan.
- Ele é divertido. - Ele também parece gostar de ti, pai.
Muito bem. Bom descanso.
- Adeus, avó. - Até depois.
Sabes o que é estranho?
Noto que ficas incomodado quando alguém gosta dele.
O quê? Não. Por favor.
Sim, um pouco.
Ouve, miúda.
O teu avô tem charme.
Ou seja, as pessoas só veem um lado dele.
Pai, é a semana em que termino a secundária
e só vos tenho aos dois, portanto, quero que estejamos juntos.
Faz as coisas de carro connosco e, por mim, sê cordial com ele.
Por ti, faço tudo.
- Obrigada. - Sim.
Vamos comprar as coisas para o meu quarto à mesma, certo?
Quem precisa de luzinhas a piscar e de um pufe,
quando se tem o amor do avô?
Raios.
Ouve, agradeço que tenhas cá vindo, mas já sei o que vieste cá fazer.
Ótimo. Então, vemo-nos amanhã.
Boa tentativa.
Ouve, e se te contar já
- em que ponto estou? - Força.
Sabes, pus-me mesmo a sonhar com aquele centro de apoio.
E a ideia de estar a fazer sempre a mesma coisa
faz-me pensar que estou a andar para trás e isso deprime-me muito,
apesar de o fazer muito bem.
- Fazes aquilo muito bem. - Obrigada.
Sinto-me presa num ilha,
como o Tom Hanks no filme em que faz sexo com a bola.
Não sei se isso aconteceu.
O quê? Ele esteve lá dois anos. Que mais faria com a bola?
Não digo que ele não fez sexo com algo, mas acho que ele e o Wilson eram mais…
… amigos.
Ouve, não é andar para trás se fizeres uma coisa em que és excelente.
Esta é a minha última semana de trabalho.
Para sempre.
E se não vais voltar por ti mesma…
… então, volta por mim.
E se tu… se não aguentares e se quiseres desistir daqui a um mês,
procura-me no meu barco, no Connecticut, e esfrega-lo na minha cara.
- Está bem. - Está bem.
Mas nunca irei ao Connecticut.
É só privilégios brancos e sapatos de vela.
Não gozes com a minha cultura.
Amigo.
Já soube do trabalho.
Parabéns.
Sim. Obrigado, D.
Podes ficar entusiasmado comigo. O meu coração aguenta.
Só não me posso excitar de outras maneiras.
Sexualmente.
Eu percebi. Eu e o bairro inteiro.
Estou só a matutar.
Certo, vamos falar disso.
Queres vir aqui ou preferes que eu desça?
Estás a brincar?
Meu, esta vista é uma loucura.
- Queres experimentar mijar da varanda? - Claro que sim.
Nem pensar.
Tens de parar de convidar as pessoas para virem aqui mijar.
Certo. Fica para a próxima.
Não. Não fica para a próxima.
Para a próxima.
Então, sobre o que estavas a matutar?
Acho que não posso aceitar o trabalho.
Posso meter-me?
Depende. Vai fazer com que eu volte a ficar zangado contigo?
É um dos resultados possíveis.
Então, dispenso.
Não é o teu trabalho de sonho?
Lembras-te de eu dizer que o universo te mostraria quando estivesses pronto?
Bem, estás mesmo pronto.
O universo está a besuntar-te de manteiga e a temperar-te com pimenta.
Não imaginas as merdas que passei com o Jorge.
- Merdas que não se contam a ninguém. - Sim.
Se a minha carrinha fechar,
ele fica sem nada.
És um bom amigo, Sean,
mas, uma vez na vida,
tens de te pôr em primeiro lugar.
- Isso… isso é difícil para mim, meu. - Eu entendo.
Também não sou bom a ser egoísta.
Temos de pedir conselhos a um especialista.
A que devo o prazer?
Eu bem te disse.
A suspensão está um bocado frouxa.
Alice, passa-me o roquete da GearWrench.
Não faço ideia do que isso é.
É aquele que parece uma lanterna corcunda.
Ela é bonita e percebe de ferramentas. Bingo.
Também sei coisas, pai.
Sabes coisas?
- Sim. - Muito bem.
Qual é a história da miúda da dança hula?
Chama-se Luna. Nasceu no Havai.
Ela tinha um sonho, dançar hula,
mas fracassou.
Era demasiado pequenina.
Céus, porque estou a ficar triste?
Sim, é só para mulheres grandes.
Se os ignorares, eles param sozinhos.
É um carro com classe, avô. De que ano é?
E já lhe deste um nome?
Sim, é a Sally, e é de 1989.
E que belo ano foi esse.
Abri o meu primeiro concessionário. O maldito Muro de Berlim foi à vida.
Também foi o ano em que o Jimmy fez um home run
que deu a vitória na Liga Infantil à equipa dele,
- os Badgers. - Sim.
Pronto, pai.
Fui ter com ele à base. Festejámos tanto
que ele nem percebeu que lhe tinha saltado um dente de leite,
diretamente da boca dele para o bolso da minha camisa.
Não.
A mãe dele ia morrendo quando foi lavar a roupa, naquela noite.
Se eu encontrasse um dente ensanguentado no bolso do meu marido,
pensaria que ele era um assassino em série.
E ela tem piada. Acho que ela é para manter.
Digo o mesmo.
Quero dizer, não para mim. Para outra pessoa.
Às vezes, basta agradecer.
Obrigada.
Bem, vou buscar umas águas.
Fixe.
Vamos lá, miúda.
Vamos apertar umas porcas.
Vieste mesmo buscar água.
Pensei que era código para "vamos deixá-los fazer o trabalho todo".
Gosto dele.
Sim, toda a gente gosta.
Desculpa. É só…
Ele gosta de contar histórias idílicas sobre a minha infância que são…
… quase verdadeiras.
Então, não marcaste um home run para ganhar o campeonato?
Não, marquei. Foi fenomenal.
Não, mas o facto de ele lá estar foi completamente aleatório.
Ouve, quando o meu pai estava presente, era bom.
Mas parecia sempre que ele tinha outra coisa qualquer para fazer.
Depois, quando a Tia morreu, ele veio ao funeral
e fez um discurso
sobre como iria dar prioridade a mim e à Alice
e estar lá para nos apoiar.
Depois, não sei. Deve ter acontecido alguma cena mesmo fixe
porque ficámos dois anos sem o ver.
Não é?
És um terapeuta de 42 anos com problemas com o pai.
Merda.
Ouve, eu entendo.
O teu pai não te tratou bem.
Se ajudar, a minha mãe disse-me numa SMS, de manhã,
que o meu penteado é para mulheres mais novas.
Raios.
Mas tu és um adulto, Jimmy, e és bastante incrível.
Portanto, o teu pai fez alguma coisa certa.
A Alice vai acabar a secundária e sei que queres apreciar o momento,
portanto, tenta esquecer o passado.
Quem sabe?
Talvez ele te possa surpreender.
Ele já me surpreendeu ao vir à festa de final da secundária da Alice.
Pois, aí está.
Quase me esquecia.
- O teu penteado é perfeito. - Graças a Deus.
Estávamos quase a acabar.
Entendo, Lisa. Quem nunca se arrependeu de uma SMS irada?
Já escrevi a um tipo que me deixou pendurada:
"Vai-te lixar, magricelas careca. Pareces o Slender Man"?
Sim, já.
Eu estava no restaurante errado?
Sim, também.
A chave é encontrar um ponto
em que consiga lidar com o seu desconforto,
em vez de explodir no calor do momento.
Entretanto, tem o meu número.
Quando sentir a necessidade, envie para mim as SMS iradas.
Comece com "Não Sobre a Gaby", para eu não lhe responder,
- está bem? - Sim, claro. Obrigada.
É muito bom tê-la de volta.
É bom estar de volta.
Demasiado tarde. Eu vi isso.
Está bem, pronto. Sim.
Sou o máximo. Se houvesse um Monte Rushmore dos terapeutas,
estariam lá o Freud, o Jung, a Lucy do Charlie Brown, e eu.
Como referi, só tens de dizer.
E isto pode ser teu.
Como é que isso funcionaria?
Ficava com a tua secretária? O teu gabinete?
A Julie?
Se sim, vou passar muito tempo a olear aquelas coxas
e a usá-las como escorrega, sabes?
- De nada. - Senta-te.
Está bem.
Foi mais gráfico do que pensei.
Passei a vida a fazer este trabalho.
A aprender, a refinar.
Porque vi o quanto ajuda as pessoas,
e tenho pensado no que disseste
sobre eu me ter tornado um mentor, para ti, nos últimos anos.
Sim?
Seria muito importante para mim partilhar o meu conhecimento contigo,
para lhe dares continuidade.
E o que ganho com isso?
O que ganhas com eu te oferecer… partilhar contigo a minha sabedoria?
Mostraste a tua mão.
Queres muito isto.
Está bem. Quais são as tuas condições?
Adaptas-te ao meu horário.
- Às vezes, admites… - Sim.
… que tenho boas ideias,
e tens de me pagar um almoço caro de sushi.
Nada do atum picante aborrecido.
Falo de peixe-balão que nos pode matar.
Concordo com duas condições.
Tens de me deixar beber um saqué sem contares a ninguém.
E, segundo,
tens de me pôr no teu Monte Rushmore,
trocas-me pelo Freud.
Combinado.
É divertido. Apostei com muitos amigos meus
que me safava num TED Talk e arrasava, na boa,
algo que posso dizer porque não sou velho.
Certo, vamos a isto.
Egoísmo.
Eu, Brian Lorenzo, sou uma pessoa egoísta.
As pessoas egoístas
são vencedoras.
Quantas vezes não pensámos já para nós mesmos:
"Se ao menos pudesse ir atrás das coisas que quero.
Mas, ao contrário deste lindo gay à minha frente,
sinto o fardo dos pensamentos de ser uma pessoa boa
e de pôr os outros em primeiro,
de não pegar no café de alguém chamado Angela
se o pedido for semelhante e eu estiver pronto para sair."
Última hora.
Já somos todos pessoas egoístas.
- Sim. - Até a Madre Teresa era egoísta.
Ela só ajudava os outros pois era isso o que mais lhe dava alegria.
Ou seja, eu e a Madre Teresa somos iguais.
Faço tudo o que me fizer mais feliz,
como aquela freira maluca.
Se quiser comer algo, como. Se quiser comprar algo, compro.
Se quiser fazer sexo com um desconhecido atraente…
Bem, já não faço isso,
e imagino que a Madre Teresa também não o fazia.
- Bem… - E sabem que mais?
Toda essa energia que obtenho de me tratar a mim mesmo como um príncipe
alimenta-me para ser melhor com o Charlie e a Sutton.
Como posso prestar para qualquer pessoa na minha vida
se não me sentir feliz?
Bingo! Finalmente, ele disse algo importante.
- Eu apanhei. - Boa.
Merda, devia ter gravado.
- Certo. Vamos. Do início. - Obrigado pelo scone.
Eu, Brian Lorenzo, sou…
Já percebi. Já têm o que queriam e agora vão-se embora?
Ensinei-lhes aquilo.
Muito bem. O que acham?
Ela está prontíssima.
Sim, está bem bonita.
Sim, é isso mesmo.
Este hot rod
vai descolar à séria,
vai voar por estas… por estas avenidas.
Avô, a conduzir este carro, vais atrair as mulheres todas.
Bem, a minha beleza terá de chegar,
porque este carro não é meu.
- É teu. - O quê?
A sério? Eu…
É tão gentil da tua parte,
mas o pai já me deu um carro.
Nos anos dela.
É um Mini Cooper amarelo, como a Tia tinha em miúda.
Foi como conheci a Sofi. Ela vendeu-mo.
Sim, otário.
Bem, agora, sinto-me um idiota.
Ouve, eu não tentei causar problemas.
Era apenas
a minha forma de pedir desculpa por não ter estado mais presente,
nos últimos anos.
Mas, pronto, talvez possas ter
um carro da Costa Leste e um da Costa Oeste.
Ou então, sei lá, vende este.
Vou ficar com ele.
Muito obrigada, avô.
Adoro-o. Obrigada.
Não tens de agradecer.
E obrigada, pai.
Claro, estás a gozar? Bem fixe.
Este carro será um bom início de conversa com os rapazes.
Estou ansiosa por conhecer os tipos que me vierem explicar o carro.
Como se chamava a última ferramenta que referiste?
Ira espacial?
Raiva cósmica.
É quando te sentes atacada ou criticada.
Paul, estes nomes são de loucos.
Vórtex, Sol Negro, Dissolução da Projeção.
Sinceramente, quanta erva andavas a fumar na altura?
Talvez um pouco.
- Deixa-me renomear um deles. - Está bem,
mas não pode conter a palavra "rameira".
Amanhã, falamos disso. Temos a semana toda.
O quê? Não consigo despachar isto tudo numa semana.
Terás de manter o contacto comigo, mesmo quando me for embora.
Estava a pensar logo de manhã, um par de horas por Zoom.
Devias ter visto como estava feliz.
A vantagem é que o obriguei a levar-me a um omakase mesmo caro.
- Também podes vir. - Konnichiwa!
Não. Má Liz.
Porquê? Aprendi japonês na faculdade.
- Não aprendeste nada. - Pois não.
É estranho. Esperava que me criticasse
por ser cobarde e desistir das cenas de traumas,
mas ele não o fez.
É como se também soubesse que não é a minha cena.
- O que foi? - Nada.
Que merda estás a fazer?
Porque tenho sempre de vir aqui gritar contigo por causa da Gaby?
Porque és uma sociopata que não conhece limites.
Sai já do meu gabinete.
Fazes parte do Pacto da Pedra.
Queres manter a pedra?
Então, senta o rabo e ouve-me.
- Olá. - Olá.
Foi fixe o que fizeste pela Alice.
Bem, é a minha única neta.
Não falo só do carro.
O que disseste e por vires à festa do final do ano.
É importante para ela.
E para mim também, pai.
Bem, fico feliz.
Sobre a festa da escola…
Não vou conseguir estar presente na cerimónia.
Um amigo convidou-me para pescar em alto-mar
ao largo de Catalina.
É uma oportunidade única.
Tal como a festa da escola.
Vá lá, é a secundária.
Além disso, ela está tão feliz com o carro que vai compreender.
Já contaste à Alice?
Vou esperar até estar de saída.
Digo que surgiu um imprevisto.
Ela é uma miúda fixe. Nem vai pensar duas vezes nisto.
Pai…
Vamos a casa da Summer. Quero mostrar-lhe o meu carro novo.
Adoro fazer parte da tua vida, Alice, mas é ela ou eu.
Certo, vamos comer um gelado.
Vamos, a Sofi está no carro.
Sabes,
sei que eu e a Tia não nos dávamos bem, mas a Sofi tem uma boa energia.
Gosto muito desta.
Sinceramente, até pode ser melhor para ti.
Entendo a cena do legado.
Matava para ter uma filha que continuasse a minha tradição
de ser ao mesmo tempo difícil e bem amada.
Mas achei que tu eras mais do tipo
de não ligar às tretas de legados.
Não confundas a tua tristeza de teres três rapazes encantadores, mas burros,
com a minha vontade de transmitir o trabalho da minha vida.
Só dois deles são burros.
Ouve, a Gaby só queria que tu a chamasses à atenção
por ela virar as costas ao seu sonho,
e tu não o fizeste porque és egoísta.
Obrigada pelos teus dois tostões.
Não posso lidar contigo agora. Tenho um paciente a chegar.
Já me posso ir embora porque já estou na tua cabeça,
e quando perceberes que tenho razão, vais ficar muito zangado.
Vai deixar-te boquiaberto.
Microfone ao chão.
Espera. Desculpa. Vou apanhá-lo.
Microfone na cabeça.
Tu podias ter-me magoado.
Antes fazer-te um traumatismo craniano do que matar o sonho de alguém.
Duplo microfone ao chão.
Não podes fazer múltiplos microfones ao chão.
O quê? O que…
Sabes o que tenho no bolso?
Triplo.
Sei que é em cima da hora, mas começo na próxima semana,
e tenho dinheiro para te pagar por…
Estás a gozar comigo?
Achas que, se me pagares, eu me vou sentir melhor em relação a isto?
O que aconteceu a estarmos lá um para o outro?
Eu apoiei-te.
No estrangeiro, quando a Marisol te partiu o coração,
fiz um turno duplo para te safar, mano.
Porque fazes isto a toda a gente na tua vida?
A todos de quem gostas, fazes a mesma merda.
E ele continuou a gritar.
Normalmente, é nessa altura que fica tudo branco
- e começo a perder-me… - Vai-te foder.
… mas não o fiz.
Foi horrível.
Ele atirou-me camarão
e chamou-me "mano".
Mano? É como quando o tipo da charcutaria me chama "chefe".
Exatamente. É o pior.
Mas mantive-me zen.
Boa.
É tudo graças a ti, Paul.
Toda esta terapia à borla.
Quanto achas que teria custado, se me tivesses cobrado?
Uns 120 mil.
Não que eu esteja a contar.
Nem acredito que é a nossa última sessão.
- Alguma última ferramenta? - Sim.
Esta chama-se
abraço.
Vem cá.
És mesmo lamechas?
Não, mas sei que tu és.
Foi um privilégio ver o quanto mudaste
e o quanto cresceste.
Não fui só eu, Paul.
Tu mudaste. E muito.
Vá lá, meu. Mal te reconheço.
Maldita Liz.
Caramba.
Aí estás tu.
Está tudo bem?
O meu pai não vai à festa.
Como assim? Ele está cá.
Sim. Mas surgiu uma pescaria.
Pelo menos, é uma pescaria de emergência?
Demasiado cedo.
Lamento muito, Jimmy.
Não vale a pena. É o que ele faz.
Eu devia saber.
Eu devia ter ficado de bico calado e não me devia ter intrometido.
O que é isto?
- O quê? - Esta coisa de te fechares.
Não me estou a fechar.
Se estás zangado comigo, podemos falar.
Não quero falar. Estou bem, sim?
Quero dizer…
Foste casado muito tempo. Era assim que resolviam os conflitos?
Eu e a Tia concordávamos na maioria das coisas,
especialmente sobre o meu pai.
É do que mais sinto falta.
Ela não gostar do teu pai é o que mais sentes falta dela.
Uma das coisas.
- Das primeiras cinco. - Sim.
Está bem.
Bem, estás a aceder a um dos meus medos,
portanto, eu vou só dizê-lo…
Sinto que atirares a tua mulher à minha cara não é justo.
É algo com o qual terei de lidar?
Não estou pronto para isto.
Para nós.
Pensei que estava. Desculpa.
Mas não estou.
Avançámos mesmo depressa, não foi?
Está bem.
Desde o meu primeiro dia em Bellevue,
senti-me desconfortável.
Nervoso.
Estou a trabalhar. Vais contar uma história
sem te explicares? Que raio?
Quando perdi o meu primeiro paciente,
fiquei tão abalado que me fui embora.
Arrependi-me disso
durante muito tempo.
- Quanto tempo? - Umas semanas.
Não achei que me perguntasses.
Mas, enfim, embarquei no meu modelo de terapia.
A ajudar pessoas com as merdas do dia a dia.
Mas o trabalho de trauma verdadeiro,
as merdas de vida ou morte…
Eu não aguentava.
- Como eu. - Não é como tu.
És mais forte do que eu.
Sei disso
porque tu ajudaste-me
e muito.
Paul…
Eu carregava muitas cenas sombrias por ter crescido com o meu pai.
O cabrão.
Violento.
Foi isso que me tornou uma pessoa fechada.
Lamento. É uma treta.
Mas, hoje, recordaram-me o quanto eu cresci.
E muitos dos louros são teus.
Abriste-me a coisas novas.
Estou hidratado como a merda.
Parabéns por usares a expressão corretamente.
Deixei pessoas entrarem na minha vida.
Casei com a Julie.
Canto nos carros.
Sei quem são as En Vogue.
Liberta a mente.
Mudaste a minha vida.
Esquece as outras cenas todas.
Gaby,
tu és o meu legado.
Raios, Paul.
Se quiseres a minha clínica, é tua.
Podes ficar com o edifício todo, quero lá saber.
Mas se o usares para o mesmo de sempre,
vou cobrar-te um milhão de milhões de dólares.
Ou podes ficar com ela por um dólar por mês,
mas será uma clínica de terapia de trauma.
Para de ser cobarde.
Está bem.
Vem cá.
Mas tens de lhe chamar Clínica Rhodes para o Trauma.
Nem pensar.
Está bem.
Como as tábuas do soalho Deixam a tua camisa amarrotada
Quando te for ver jogar, na faculdade, se puderes,
adorava que apontasses para mim, quando marcasses, mas sem seres óbvia.
Sem problemas. Farei algo subtil.
- Assim. - Adoro.
E eu aponto de volta. Tranquilo. Sem problemas.
A Sofi? Foi-se embora?
Devia convidá-la para a festa.
Não, vamos ficar pela família.
Algures nas paredes Do teu apartamento do segundo andar
Escondi uma carta de amor Que não consigo recuperar
Com uma foto do teu pai E uma palavra numa chave
Espero que te lembres de mim
Como as fendas na terra E os teus olhos quando sofres
Como as tábuas do soalho Deixam a tua camisa amarrotada
É assim que me lembro de ti, agora
Como a névoa na rua Como me fez sentir
Como trabalhaste até bateres Com as mãos no volante
É assim que me lembro de ti, agora
Sei que não devia puxar o fio Da camisola que tenho vestida
Mas não consigo evitar desenrolar
O meu coração Leva sempre a dele avante
Disseste que nunca te apaixonarias No meio do inverno
Legendas: Cláudia Nobre
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