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O amor pela vida
Chegou e partiu
N�o h� tempo para chorar
Temos de continuar
Tenho um pressentimento
Mas quem sabe quando?
Que me vir�s ver
Outra vez
Uma sauda��o especial para todos v�s.
Espero que os que est�o longe de casa
n�o se sintam demasiado infelizes.
Se eu puder fazer algo,
farei.
Eu esperarei
Noite e dia
Para sempre esperarei
O teu regresso
Eu esperarei
Que o p�ssaro voou
Venha em busca do esquecimento
No seu ninho
O tempo voa e corre
Batendo com tristeza No meu pesado cora��o
E mesmo assim esperarei
Pelo teu regresso
Serei tua
Serei tua
O tempo voa e corre
Batendo com tristeza No meu pesado cora��o
E mesmo assim esperarei Pelo teu regresso
- J� chega! - Est� tudo bem. Toma.
Mais um bocado.
Come mais um bocado de salsicha, se quiseres.
Sim, s� um bocadinho.
Nem acredito que estou sentada t�o perto de si.
A s�rio.
Todos os meus amigos adoram o seu estilo.
Sabes porque te prenderam?
Acho que foi por causa do meu namorado.
Ele � da Resist�ncia.
Eu adoro-o.
Chama-se Maurice.
Est� no segundo ano de medicina dent�ria.
O meu chama-se Robert.
� advogado.
Louro! � lindo!
Eu adoro louros.
Senhora Fenelon, a sua m�sica � a alma de Paris.
Sim.
Obrigada.
Ouvi dizer que nos prenderam porque somos judeus.
- A senhora �? - Eu sou meia.
Eu tamb�m.
Mas nunca teve significado para mim.
Nem para mim.
MUNIQUE
N�o devias comer tanto.
N�o consigo evitar. Mas n�o comia tanto, at� ser presa.
Estou sempre com fome.
Consegues ver a direc��o?
Vamos para norte.
Devemos ir para Munique.
Eles precisam l� de trabalhadores para as quintas.
Munique? J� vi fotografias.
N�o sei se consigo trabalhar no campo. Acha que consegue?
Nunca trabalhaste?
N�o. Nunca.
Estive toda a vida na escola ou em casa.
N�o apague, senhor.
Mudou?
Mudou para este.
Este?
A b�ssola pode n�o funcionar bem com tanto metal por aqui, n�o �?
Importa-se que fiquemos juntas?
N�o.
Quantos anos tens?
Vinte.
A s�rio?
Parece t�o novinha.
Tenho de procurar o balde.
E se tivesses mais cuidado?
Por favor, n�o empurre.
Em bicos de p�s.
Tenho de chegar ao balde.
- Com licen�a. - Os meus p�s.
Isto � uma vergonha!
Obrigada.
Obrigada.
Est� tudo bem.
Ningu�m est� a olhar.
Quem entornou o balde?
Isto � nojento!
Que grande fedor!
Digam ao guarda que precisamos de ar!
O que � isto?
A culpa n�o foi tua.
Abram esta porta, por favor!
Animais!
Precisamos de ar!
Minha senhora, o seu marido.
Abram a porta!
Est� aqui um homem morto!
Abram a porta!
V� l�.
Por favor!
Mam�!
Mam�!
� aqui que nos devolvem as nossas coisas?
O que disse?
- � aqui que nos devolvem as coisas? - Dispa o seu casaco.
Dispam as vossas roupas.
Dispam-se!
N�o lhe cortaram o cabelo?
S� cortam aos judeus!
Que tal estou, merda judia?
N�o sou merda judia. Sou francesa.
Quem lhe deu autoriza��o para falar?
E as pessoas com quem viemos?
As dos cami�es da Cruz Vermelha?
Os vossos amigos?
Olhem, est�o a ver?
A cozer.
Marianne.
Escuta.
Para com isso.
Porque nos fazem isto?
O que ganham com isto?
Que coisa mais est�pida!
O meu namorado n�o me deixou ir para a Resist�ncia
porque era muito perigoso.
Foi por isso que n�o foste?
H� muito tempo que estou na Resist�ncia.
Est� aqui uma mulher morta.
Temos de ter um objectivo na vida. E eu...
E eu acho que o objectivo � lembrarmo-nos de tudo.
Vou contar-te uma hist�ria.
Era uma vez um pr�ncipe chamado Jean,
que era muito belo.
Ele casou com uma princesa chamada Jeannette,
que era muito bela.
Ent�o, um dia, o pr�ncipe disse-lhe...
O qu�?
"Minha querida, temos de ter filhos."
E depois...
E depois...
Eles tiveram seis filhos e cinco filhas
e cada filho tinha um cavalo
e cada filha tinha uma vaca.
E...
...quando cresceram...
...claro...
...viveram felizes para sempre.
Algu�m sabe cantar a Madame Butterfly?
Algu�m sabe cantar a Madame Butterfly?
Ela sabe!
Tragam-na.
Sou a Etalina. Vi-a uma vez em Paris, no Melody.
Os meus pais levaram-me l� quando fiz 17 anos.
Este ano tenho tocado profissionalmente.
Foi ela que a reconheceu. � a Michou.
Ontem reconheci-a, quando saiu do seu bloco.
Pedi � Kapo para lhe fazer uma audi��o.
Que audi��o?
Para a orquestra, para n�s.
Laura.
Laura, vem conhecer a Fania Fenelon!
� uma das nossas melhores executantes.
Ela sabe tocar solos de Brahms.
� uma honra conhec�-la.
H� um maestro?
Sim, senhora. A Alma Rose.
� sobrinha do Gustav Mahler, o grande compositor.
Ela tem um talento fant�stico.
Mas n�o tem bom cora��o. Tenha cuidado.
� a Senhora Fenelon?
Sim, senhora.
Toca piano?
Sim, senhora.
Toque algo da Madame Butterfly.
Chorar?
Mas porqu�?
� f� o que te falta
Escuta-me
Um belo dia vamos ver
Um fio de fumo a sair
Do mar
No long�nquo horizonte
E depois o navio aparecer�
Depois o barco branco
A deslizar para o porto
Trov�es sair�o do seu canh�o
Vejo-te
Ele est� a chegar
Eu n�o vou ter com ele
N�o
Eu n�o
Fico no topo da colina
E espero aqui
Espero aqui muito tempo
Vai aceit�-la.
Sim, com certeza, Frau Lagerfuhrerin. Ela � muito boa.
� �ptima.
Conhece m�sica alem�?
Sim.
Eu sou a Lagerfuhrerin Maria Mandel,
comando todas as mulheres deste campo.
Eu
esqueci-me de dizer � senhora Rose que
n�o posso aceitar juntar-me � orquestra,
a n�o ser que a minha amiga,
64862,
tamb�m possa juntar-se. Ela tem uma bela voz.
Ela est� no Bloco B.
A n�o ser
que ela venha,
eu
tenho de recusar, lamento.
Certifiquem-se de que elas se lavam e mandem-nas ir ter comigo ao armaz�m.
Sim, Frau Lagerfuhrerin.
Anda.
Que tamanho?
- Tamanho 40, Frau Lagerfuhrerin. - O 40!
- Encontrem botas quentes. - Lamento, n�o temos.
Encontrem-nas!
T�m de estar quentes e confort�veis ou a voz ser� afectada.
Continue.
Sente-se.
Desde o in�cio.
Porque est� t�o alto?
Isto n�o � m�sica de banda!
N�o estamos a tocar contra o vento!
Porque n�o obedecem �s instru��es?
A m�sica � a actividade mais sagrada da humanidade.
T�m de se aplicar dia e noite!
T�m de se ouvir a v�s pr�prias.
Devem aspirar a melhorar!
N�o podem continuar a repetir os mesmos erros est�pidos...
� vontade, filarm�nica.
Acho que a perturbas.
Por seres t�o boa.
De repente apercebeu-se de como soamos.
Sim, estava um pouco alto.
Esta n�o aprende aquele n�mero.
Temos de tocar mais alto ou ela percebe.
E tu, Liesle, est�s a ficar pior.
S� estudei seis meses em toda a vida.
E tornaram-se nos melhores seis meses que gastaste.
Mas a culpa n�o � delas.
Foi a maestrina que nos colocou nesta situa��o.
Porqu�?
�ramos apenas uma fanfarra, quando come��mos.
Toc�vamos para os prisioneiros fazerem as tarefas,
e quando mais alto, melhor.
Mas a Alma tornou-se ambiciosa.
E, de repente, est�vamos a tocar Bach, Brahms,
a tocar concertos para as altas patentes.
Est� a ser v�tima do seu orgulho.
- E agora estamos em sarilhos. - N�s jantamos?
Vejam s�.
A aguadilha deve estar a chegar.
Em que tipo de sarilhos?
Quando as altas patentes come�arem a vir ouvir-nos,
ficar�o entediados com os mesmos tr�s n�meros de sempre.
Mas n�o temos outras orquestra��es.
O problema � que nenhum compositor escreveu
para um conjunto t�o idiota.
Por acaso n�o faz orquestra��es, pois n�o?
Toc�mos o mesmo concerto tantas vezes que o comandante...
Fania, tu sabes fazer orquestra��es.
E depois eu poderia tocar todo o tipo de coisas.
Na verdade, sei.
Fazer orquestra��es?
- Sim. - Bem...
Profissionalmente, n�o, mas...
Temos de dizer � senhora!
Vamos! Temos de dizer � senhora!
Sim.
Pens�mos que gostaria de saber
que a Fania sabe fazer orquestra��es.
Deixem-nos.
Diz-me a verdade, Fania.
Sim, sei. Bem, n�o vejo porque n�o.
Presumo que tenhas estudado?
Sim, no Conservat�rio de Paris.
Que sorte!
Que sorte ter-te aqui, Fania!
Tenho sido muito pressionada nas �ltima semanas
para fazer algo novo.
Elas disseram-me.
Podes come�ar com...
Tenho uma pauta para piano da Carmen.
Sim. Acho que consigo tocar a Carmen.
Ou algo alem�o.
Outro Von Supp�, talvez?
Eu sei.
Mas eles adoram Von Supp�.
E temos de tentar agradar-lhes, Fania.
Isso � elementar, parece-me.
Mas prefiro pensar que estou a salvar a vida,
em vez de tentar agradar �s SS.
E achas que consegues fazer uma coisa sem a outra?
Come�a imediatamente.
Preciso de pessoas para copiar as pe�as e algum papel de m�sica.
N�o temos papel de m�sica.
N�o o pode pedir?
H� uma guerra, minha querida.
Vou tentar arranjar papel
e tu e as meninas desenham as linhas.
O que � que ela disse?
Fania!
N�o consigo evitar procurar a perfei��o.
Foi assim que fui treinada e n�o consigo mudar.
N�o posso critic�-la, quando tamb�m tento agradar.
Exactamente.
Mas n�s somos artistas.
N�o conseguimos evitar.
N�o � vergonha nenhuma.
Por favor, despacha isso.
Eles mudam muito de opini�o em rela��o a n�s, sabes?
Vais ser r�pida, Fania?
Sim.
E agora, Meine Damen und Herren,
com a vossa licen�a,
um pouco de m�sica popular pelo nosso membro mais recente.
Eu esperarei
Noite e dia
Para sempre esperarei
Que tu voltes
Eu esperarei
Que o p�ssaro que voou
Venha em busca do esquecimento
No seu ninho
O tempo voa e corre
Batendo com tristeza No meu pesado cora��o
E mesmo assim esperarei
Pelo teu regresso
Porque te d�s ao trabalho de a roubar, se sabes que detesto margarina?
S� senti um pouco do gosto.
Disse-te para a comeres, querida!
Mas acho que devias de deixar de te armar em crian�a.
Quando � que te vais habituar � tua situa��o?
N�o podes esperar que aconte�a algo fant�stico.
Esta � a tua situa��o e � melhor do que a da maioria...
Por favor, n�o grites mais.
Tens de ter mais do que os outros t�m.
Se se sabe disso, estamos feitas.
A s�rio.
Podem servir-se de tudo o que eu tiver,
e espero que fa�am o mesmo, se eu estiver desesperada.
Fania, n�o podemos partilhar tudo.
Recuso-me a tornar-me num animal por um grama de margarina ou uma casca de batata.
Mas n�o queres partilhar com as polacas tamb�m, pois n�o?
Partilhem voc�s com aquelas vacas. Eu n�o!
Nem todas somos assim.
Tens uma judia de estima��o. Gostas da Fania.
Mas �s antissemita, Elzvieta.
N�o sou nada.
No teatro t�nhamos muitos amigos judeus.
Mazel tov!
N�o sou nada.
Na minha opini�o, Etalina,
eles devem pensar que voc�s v�o...
Podes diz�-lo, querida.
Diz-se gaseadas.
A quest�o � que elas querem sentir-se superiores,
porque viver�o para voltar a casa, quando a guerra acabar,
por serem gentias.
S�o mais est�pidas do que m�s.
Ent�o, dev�amos ensin�-las.
O qu�?
Porqu�?
Fania!
Fala-nos sobre Paris.
Como eram as saias?
Eram at� aqui, mas muito cheias.
As raparigas pareciam flores.
Os saltos s�o muito altos, as pernas parecem maravilhosas.
Pintam as pernas porque n�o conseguem comprar meias.
Mas a minha m�e n�o me deixava.
E o cabelo?
No outro dia, havia algumas mulheres no comboio,
acho que eram da Holanda,
com carac�is no topo da cabe�a.
Sim, carac�is no topo, todos amontoados.
Onde est�o elas?
A esta hora j� foram queimadas.
E can��es? Sabes alguma nova?
- A forma como dizes isso... - Porque n�o hei de dizer?
Estaremos melhor preparadas quando chegar a nossa hora.
Canta-nos can��es novas, pode ser, Fania?
Gravaste discos em Paris?
- Ouvi dizer que tocavam swing. - E se for "The Man I Love"?
Qual querem ouvir?
Surpreende-nos.
Foi h� tanto tempo, escolhe tu!
N�o sei porqu�
N�o h� sol no c�u
S� tempestade
Desde que eu e o meu homem N�o estamos juntos
Est� sempre a chover
Posso, Fania?
Eu adoro esta.
N�o sei porqu�
N�o h� sol no c�u
S� tempestade
Desde que eu e o meu homem N�o estamos juntos
Est� sempre a chover
Uma vida vazia
Melancolia e tristeza constantes
S� tempestade
O meu pobre ser n�o se recomp�e
Est� sempre a chover
Est� sempre a chover
V� l�, levantem-se!
Fania.
N�o tens de fazer isso. N�o �s da banda.
Gostava de ver, se n�o for proibido.
Tenho tanta fome, Fania.
Que queres que fa�a?
Tenta pensar noutra coisa.
Podes pedir algo � Alma?
N�o sejas tonta. Porque me daria algo?
O que hei de fazer?
Querida, estamos no mesmo barco.
Porque esperas que eu arranje comida? N�o sou m�gica.
S� fizeste isso?
A este ritmo, precisamos de mais uma Guerra dos Cem Anos
para acabares a partitura.
Podes parar de a chatear? A orquestra��o � dif�cil, mesmo para os especialistas.
Tenho de falar contigo.
Porque n�o paras?
Ent�o, mentiste.
- N�o sabes fazer orquestra��es. - Eu sou capaz, tenho a certeza.
Ent�o, o que se passa?
Uma das mulheres,
esta manh�,
cuspiu-me.
Sim?
N�o me tinha apercebido
do quanto nos devem odiar.
Sim, claro. O que esperavas?
Bem, eu...
N�o tinha pensado nisso.
Talvez sejas demasiado conscienciosa para a orquestra.
N�o quis dizer...
Estavas melhor no Bloco B?
Podemos tratar disso.
Minha senhora, por favor. N�o a estou a criticar.
S� n�o estou habituada a ser odiada.
Fania...
Este � um local de vida ou morte.
N�o h� espa�o para mais nada.
Quero ensaiar aquela pe�a amanh�.
Quero todas as pe�as de manh�.
Se fores capaz, claro.
�s?
Sim, sou.
Fica para ti.
Deves ter fome, trabalhaste toda a noite.
N�o queres?
Porque tens o direito de julgar as pessoas?
Est�s a tentar sobreviver como os outros, n�o est�s?
N�o est�s?
Sabes o que pensam de n�s.
N�o somos melhores do que prostitutas a entreter os assassinos.
- Eu sei. N�o te estou a julgar. - Mas est�s, eu sinto-o.
N�o tens esse direito.
Fica com isso.
Bem, n�o interessa.
N�o sairemos daqui com vida.
E se sairmos?
E se sobrevivermos?
O importante, querida, � que est�s a tentar morrer
e � dif�cil ver isso a acontecer e n�o dizer nada.
Estou a tentar sobreviver!
Desistindo de ti?
Tratas-te como se fosses um bocado de carne podre.
Cala-te!
Ajudem-me!
N�o fa�a isso.
O qu�?
Virar as costas.
Tem de olhar e ver tudo.
Para que Lhe possa contar tudo, quando acabar.
A quem?
Mas eu n�o acredito.
Porque me escolheu a mim?
Eu sei sempre quem escolher.
Viva!
N�o!
Posso?
S� queria falar contigo sobre a Michou.
O que sabes sobre ela?
�s vezes, vejo-vos a falarem.
Ela � uma militante comunista.
Ela est� noiva e vai casar.
� do tipo que tem a vida toda planeada. Porqu�?
N�o sei.
Ela parece t�o diferente das outras.
T�o cheia de coragem.
Ela diz o mesmo de ti.
Ela falou sobre mim?
Muitas vezes.
Ela admira especialmente a tua coragem.
E a tua beleza.
Ela � t�o bela.
N�o achas?
Eu adoro o sorriso dela.
Seria mais r�pido se me dissesses o que n�o gostas nela.
N�o compreendo o que me est� a acontecer, Fania.
Penso nela o dia inteiro.
Eu...
Eu adoro tudo o que ela diz e faz.
N�o. Tu ama-la.
Queres dizer...
Porque n�o?
�s t�o nova.
Quando se � t�o nova, o que h� para al�m do amor?
Eu sinto...
N�o sei o que �.
A ra�a humana!
Est�s a rir-te de mim?
N�o, para os puros tudo � puro.
N�o te desprezes.
Neste lugar, sentir pode ser uma b�n��o.
J� alguma vez
tiveste tais sentimentos, Fania?
N�o.
N�o tenho nada. J� n�o tenho nada.
Agora, vai. Tens de dormir.
Deves ter sido uma jovem t�o correta!
N�o Eu n�o
Fico no topo da colina
E espero aqui
Espero aqui muito tempo
Mas nunca me canso
Da longa espera
Da cidade apinhada
Est� a chegar
Um homem
Um pequeno ponto � dist�ncia
A subir a colina
Adivinham quem ele �?
E quando ele chega ao cimo
Adivinham o que ele dir�?
Ele vai chamar a borboleta
� dist�ncia
Eu sem responder
Continuo escondida por perto
Um pouco para o provocar E um pouco
Para n�o morrer
No nosso primeiro encontro
E depois um pouco perturbado
Ele chamar� Ele chamar�
Minha querida mulher
Querido bot�o de flor de laranjeira
Os nomes que me costumava chamar
Quando chegou
Tudo isto vai passar agora mesmo
Esque�am os vossos receios in�teis
Porque ele voltar�
Eu sei
J� tinha ouvido algo t�o comovente,
Herr Comandante?
�ptimo.
Mas o Dr. Mengele � que � especializado em opini�es musicais, claro.
Raramente me senti totalmente comovido.
Podes agradecer ao doutor, Fania.
Obrigada, doutor.
Tenho de ser sincero, Fenelon. Ao princ�pio opus-me...
Desculpe, Herr Comandante.
Tenho de lhe dizer que o meu nome n�o � Fenelon.
Fenelon era o nome da minha m�e.
O nome do meu pai era Goldstein.
Chamo-me Fania Goldstein.
Desculpe, n�o o queria interromper, Herr Comandante.
Tem de aprender a cantar can��es alem�s.
Ela come�ar� a aprender imediatamente,
Herr Comandante.
Como eu estava a dizer,
opus-me a esta ideia de uma orquestra.
Mas devo dizer que com um canto como o seu
� uma consola��o que alimenta o esp�rito.
Fortalece-nos para este nosso trabalho t�o dif�cil.
Muito bem.
Fr�ulein Goldstein...
H� algo de que precise em especial?
Bem...
Uma escova de dentes?
V� ao Canad� buscar encomendas.
Com os meus cumprimentos.
Ao Canad�?
Veio no �ltimo transporte.
Muito limpa.
Bem-vinda ao "Canad�"!
Tens aqui a tua tralha, est�pida.
Tens uma escova de dentes. Posso ver?
E parece quase nova.
Nada como ter amigos importantes, n�o �?
O que � isso?
O que tens contra mim?
Nada.
Acho que ningu�m tem o direito de agir como superior,
especialmente neste lugar.
Queres que te d� os parab�ns por algumas das coisas
que tens feito?
O que tenho feito?
- Vamos esquecer isso. - Est� bem.
Sinto-me mais segura agora que a Mandel gosta tanto de ti.
Sinceramente, estou-te muito grata.
Mas n�o invejo ningu�m que acorde ao lado daquela fu�a nazi.
N�o h� perigo disso.
Nunca se sabe.
A vida n�o d� muitas escolhas a uma mulher.
Nenhuma at�, tendo em conta as tuas companhias.
Ou�am bem a pele e osso!
Talvez seja, mas prefiro acordar ao lado da Mandel
do que de um toucinho como tu.
Isso � nojento, Etalina.
A Mandel n�o passa de uma assassina!
Mas � bonita, Giselle. Lamento.
Se tivesse algum orgulho em ser judia,
n�o chamaria "bonita" a tal monstro.
N�o fa�as com que pare�a feia!
Ela � bonita!
E � humana!
O que me enoja � que uma mulher
que � t�o bonita
possa fazer tais coisas.
Somos da mesma esp�cie.
� a� que reside o desespero de tudo isto.
N�o, ainda h� esperan�a!
Porque quando esta guerra acabar, a Europa ser� comunista
e quero viver por causa disso.
N�o. Para ver a Palestina!
Para parir crian�as judias na Palestina.
Tu n�o tens identidade, Fania,
e � por isso que consegues chamar bonita a uma mulher que � um monstro.
Invejo-vos a ambas.
N�o acham que t�m de resolver o problema?
Qual problema? N�o vejo problema nenhum!
Ela � humana!
Como tu. Como eu.
N�o achas que isso � um problema?
Estamos a tentar dormir, Marianne! Pelo menos deixa-nos dormir, vaca!
N�o � da vossa conta.
O teu cabelo est� a ficar branco.
Vem para a cama, Marianne.
Deixem-nos dormir!
- Elas que se lixem. - Vaca!
Para que saibam um deles era um m�dico de Viena.
Ela foi fazer exames!
E ele acha que n�o vamos voltar a ter menstrua��o.
Porqu�?
Por causa deste medo,
todos os dias e noite
e da comida
podemos ficar est�reis.
Escuta, � Israel: o Senhor � o nosso Deus.
O Senhor � s� Um.
Marianne?
Sabes, parece estranho,
mas acho que podes controlar a tua fome.
Se partilhares o que arranjas com outras mulheres, algu�m...
�s vezes uma pessoa
precisa da for�a que vem de dar algo aos outros.
Fania...
N�o
me abandones.
Est�o a perceber?
Ela � m�sica, violoncelista! N�o � para ser morta!
Para o hospital!
Precisamos dela! Tifo!
Compreendem-me ou n�o?
Esperem!
Desculpe, Herr Obersturmf�rer,
com a sua licen�a...
A Mala pode dizer a estes homens
que n�o podem fazer mal a esta mulher?
� a violoncelista, tem de ir para o hospital.
Com febre alta, talvez seja tifo.
N�o sei que l�ngua falam.
Falam italiano? Espanhol? Russo? Romeno?
Ela n�o � fant�stica?
Mas est� a usar a estrela.
Sim, � a Mala.
� a chefe dos int�rpretes deles.
Ela � judia, mas intimida-os.
- Como � poss�vel? - Russo?
A Mala est� aqui h� muito tempo, desde que o campo foi constru�do.
Ela devia ter sido gaseada,
mas fugiu com outras cinco mulheres.
Conseguiu sair?
Sim. Completamente nua, por uma conduta de ventila��o.
Elas passaram pela casa do comandante
e ele viu-as na estrada.
- Sabem o que a Mala fez? - O qu�?
Ela exigiu roupas.
Eles come�aram a falar
e ele descobriu que ela fala quase todas as l�nguas.
Ela era muito importante na Resist�ncia Belga.
At� tem aqui um amante.
Agora est�s a gozar.
N�o, � verdade.
Elas salvaram pessoas, algumas pelo menos,
e ajudaram outras.
Fania!
Anda c�, vamos trabalhar na tua can��o de Schubert.
Tens de treinar o som "ch" novamente.
O Dr. Mengele tem um ouvido sens�vel para as l�nguas.
A seu pedido, sabes.
N�o! N�o � "lachen"!
� "lacken".
Lacken!
Lach...
N�o � "lachen", � "lacken".
Muito melhor.
Espero que nunca sejas est�pida ao ponto de odiar uma l�ngua.
Muito bem, do princ�pio.
Desculpe, minha senhora, conhece a Mala?
Sim, muito bem.
Como � que ela conseguiu que a respeitassem tanto?
Ela � muito �til, claro.
Fala fluentemente nove ou dez l�nguas
e, com tantas nacionalidades no campo,
faz com que seja poss�vel comunicar.
� s� isso?
� que ela parece
falar de cima para eles. � incr�vel.
Mala � uma daquelas pessoas cuja superioridade � �bvia,
at� para os ignorantes.
A Mala �
um milagre.
A natureza constr�i um escudo � volta dessas pessoas,
como uma carapa�a de uma semente preciosa.
Ela � a esperan�a de todos.
At� estes nazis pressentem uma esp�cie de gl�ria nela.
Ela � um milagre.
Est�s a tentar destruir-nos?
Foi um f� sustenido.
Sabes o que � um f� sustenido ou n�o?
Sabes ou n�o o que � um f� sustenido?
Eu quero a minha mam�!
Mam�!
Quero a minha mam�!
Mam�!
A minha mam�!
Tem de haver uma disciplina r�gida.
Desta forma, o Dr. Mengele n�o suportar� ouvir-nos.
Se descermos a um certo n�vel, tudo pode acontecer.
� um homem inconstante e violento.
A verdade �
que, se n�o fosse o meu apelido, as teriam queimado h� muito.
O meu pai foi primeiro violino na Filarm�nica de Viena.
O seu quarteto de cordas tocou em todo mundo.
As minhas "Raparigas da Valsa de Viena" tocaram em quase toda a Europa.
Eu sei.
Que eu, uma Rose, seja maestrina aqui...
Eu percebo isso.
Porque n�o gostas de mim?
�s uma profissional.
Sabes que a disciplina r�gida � necess�ria.
Uma maestrina tem de ser respeitada.
Acho que tamb�m pode ser amada.
N�o se ama quem n�o se respeita!
� uma tradi��o na �ustria e na Alemanha,
quando um m�sico erra repetidamente...
- Bater? - Sim, claro.
Furtw�ngler fazia-o frequentemente. As suas orquestras idolatravam-no.
Preciso do teu apoio.
Vejo que te admiram.
Tens de me apoiar naquilo que lhes exijo.
Temos de elevar constantemente o n�vel do nosso desempenho
ou sinceramente
n�o sei quanto tempo nos ir�o tolerar.
Vais ajudar-me?
Ajudas?
Eu...
Eu tenho de ser sincera.
N�o sei quanto mais tempo aguento isto.
Estou a dar o meu melhor.
Vou continuar a tentar.
Mas �s vezes sinto que estou a cair aos bocados.
E, acredite,
que reconhe�o que � da sua for�a
que dependem as nossas vidas.
Ent�o, porque n�o gostas de mim?
N�o sei. Acho... Talvez seja porque
uma pessoa quer ter algo de reserva.
N�o podemos...
N�o podemos desejar sinceramente agradar-lhes.
Mas tens de desejar agradar-lhes,
com todo o teu cora��o.
�s artista. N�o podes fazer menos do que o teu melhor, de prop�sito.
Mas quando olhamos pela janela...
� por isso que vos digo para n�o olharem pela janela.
Est�s enganada, Fania!
Pareces pensar que n�o consigo ver!
Eu recuso-me a ver.
Antes de me trazerem para c�,
comecei a amar...
Um jovem rapaz.
De Viena, como eu.
Agora � soldado na Wehrmacht.
Foram os melhores tr�s meses da minha vida.
Os melhores tr�s meses da minha vida.
Ele aquecia-me como um casaco.
Depois prenderam-me por ser judia.
Ainda me espanta.
Por seres t�o alem�?
Sim, sou.
Neste local, Fania,
tens de ser uma artista
e apenas uma artista.
S� tens de te concentrar numa coisa:
em criar toda a beleza que �s capaz de criar.
Com licen�a.
Aten��o!
Em fila!
Frau...
Judias para a esquerda!
Arianas para a direita.
Ela e eu somos s� meias.
Meias qu�?
Meias judias!
As nossas m�es eram arianas.
As ra�as mistas n�o devem ser gaseadas, Frau Schmidt,
tenho a certeza.
Posso perguntar para que � esta selec��o?
Pertences aos judeus.
Preparem-se para a desparasita��o.
Desta vez s� queremos matar as vossas l�ndeas.
Mexam-se!
Meias judias, sigam-me.
Neste caso, podem cortar a metade superior da estrela.
Por uma vez, as polacas tinham raz�o!
� nojento cortar metade da Estrela de David!
Porque n�o? Se podemos evitar o g�s?
De repente, s�o todas nacionalistas judias.
Desde quando se tornaram mulheres com tantos princ�pios?
Armam-se connosco
porque n�o se atrevem a fazer frente a mais ningu�m!
O vosso desprezo n�o me impressiona,
porque aceitam todas as humilha��es sem piar.
Est�o a aproveitar-se de n�s.
A vossa trai��o ofende o sangue dos judeus inocentes.
Porque n�o ficaste calada?
Estou farta de judeus e de gentios,
dos de leste e dos do ocidente,
de alem�es e n�o alem�es, dos franceses e n�o franceses.
Estou farta disto!
Sou uma mulher, n�o uma tribo.
E estou a ser humilhada!
� tudo o que eu sei!
Voc�s t�m � ci�mes!
De qualquer forma, tamb�m estamos a trair os cat�licos!
Afinal, as nossas m�es eram cat�licas.
Para que est�s a fazer isso?
Fania?
N�o sei.
Estou a faz�-lo.
Por isso... Estou a faz�-lo.
Fania.
� sua frente, na porta.
Obrigada.
Fania...
Agora, eles gaseiam 12 mil por dia.
Doze mil anjos
a voar,
todos os dias.
Porque continua a dizer-me estas coisas?
O que quer de mim?
Veja com os seus olhos. O ar est� cheio de anjos!
Mais dois cigarros.
Desta vez demoraste mais.
N�o tenho mais. Dou-te mais dois para a pr�xima.
Pelo menos, partilha uma parte do que consegues com as outras,
para o teu bem,
para que n�o te transformes totalmente num animal.
Tens ci�mes?
Deixa-me em paz.
Est�o todas, Herr Capit�o.
Conhecem a Mala?
A Mala? N�o muito bem.
Tenho-a visto, claro, a acompanhar o comandante,
Herr Capit�o como int�rprete.
Ela n�o teve qualquer contacto com as suas executantes?
N�o, Herr Capit�o.
Ela j� visitou o nosso bloco, mas n�o recentemente.
Aten��o!
A Mala foi embora
e o Edek tamb�m!
Com o Edek? Como?
Arranjaram uniformes das SS e sa�ram!
Que rom�ntico!
Imaginem, os dois juntos...
Meu Deus!
Eu vi-o uma vez.
Ele � um bom lutador.
Louro, com dentes brancos lindos.
Ela � belga, como eu.
Qual belga?
Ela � judia, como todos n�s.
Edek � polaco e v�o dizer ao mundo o que se passa aqui.
Imaginem...
Se eles puserem uma bomba na chamin�.
Escutem.
Vamos tocar algo para eles.
Sim.
Aterraram em Fran�a
Agora sil�ncio!
Tenho correc��es.
Paulette, na p�gina 5, letra D,
vais tocar o d� sustenido em vez da Liesle.
Katrina, o que tens na 27?
F�.
Etalina...
N�o eram judeus, eram polacos.
O Hitler sempre disse que mataria os polacos
para arranjar l� espa�o para os alem�es.
Olhem para eles. Devem ser milhares. Nunca matariam tantos arianos.
O que v�o fazer com eles?
Acho que lhes v�o dar este bloco.
Ladislaus?
Ladislaus.
Ladislaus!
Ladislaus!
N�o!
O meu beb�!
N�o � lindo?
O que � que elas t�m?
N�o � nada, Frau Lagerfuhrerin.
H� um boato de que os polacos arianos v�o ficar com o nosso bloco.
N�o � nada disso, senhora.
Na verdade, posso dizer-lhe
que n�o haver� mais selec��es dentro do nosso campo.
Claro que n�o temos espa�o para os que chegarem,
por isso, para eles,
ser�o tomadas outras medidas.
Sim.
- Toma, consegues? - Sim.
Upa, upa, Ladislaus!
Suavemente como um ratinho!
Olha, um tambor! Olha!
Olha aqui!
Olha para aquilo.
Olha.
E agora,
vamos procurar um fato novo bonito, uns sapatos
e uma bela camisa.
Anda comigo.
Trabalhem muito.
Ent�o, sempre � um ser humano!
Ser�?
Onde est� a m�e?
Mesmo assim, Giselle, de certa forma...
Pelo menos ela adora a crian�a.
O que se est� a passar aqui?
Ela s� disse...
Por salvar uma crian�a j� a consideram humana?
O que se est� a passar aqui?
Do in�cio.
V� l�.
N�o!
N�o tirem os chap�us!
N�o tirem os chap�us!
Vamos...
Aten��o!
Os oficiais decidiram manter o piano no clube deles,
para uso dos membros.
Conseguem arranjar-se sem ele?
Sim, claro, Herr Comandante.
Era s� um pequeno som extra para preencher,
mas n�o � imperativo.
Qual � a Greta, a rapariga holandesa?
Vem!
Abre a tua boca.
Tens alguma doen�a?
N�o, Herr Comandante.
O Dr. Mengele disse-me que n�o � muito boa executante.
N�o � muito boa, n�o.
Mas n�o � demasiado m�.
- Mas ela esfor�a-se muito. - Consegue arranjar-se sem ela?
Bem...
Sim, claro, Herr Comandante.
A minha mulher precisa de algu�m para tomar conta das nossas filhas.
Vens comigo.
Tocar� no hospital para os doentes e para os doentes mentais.
Ter� o Beethoven pronto.
Sim, Herr Comandante.
Tenho de pedir-lhe alguma toler�ncia, se poss�vel.
A nossa violoncelista est� com tifo
e agora tamb�m sem o piano,
podemos ficar um pouco aqu�m nos graves.
Vou mandar-lhe um dos violoncelistas da orquestra masculina.
T�m v�rios da Filarm�nica de Berlim.
Pode ensinar uma das vossas violinistas at� domingo.
Bem...
Claro, Herr Comandante. De certeza
que ele conseguir� ensinar uma das mulheres at� domingo.
Vai ser muito interessante, senhora.
O Dr. Mengele quer observar os efeitos da m�sica nos loucos.
N�s daremos o nosso melhor.
E como � que tem passado?
Estou muito bem.
Claro, n�s...
Todas n�s passamos muita fome
e isso dificulta as coisas.
Eu ofereci-me para enviar uma ra��o extra,
mas a senhora Rose disse que deveria ser ganha,
como uma recompensa.
N�o concorda?
N�o tenho de concordar ou n�o com a nossa maestrina.
Fecha a porta.
Como te atreves a fazer tal coment�rio?
N�o compreendo. S� lhe disse que t�nhamos fome.
Quando elas conseguirem tocar uma �nica pe�a
sem fazer qualquer erro, recomendarei uma ra��o extra,
mas eu � que decido isso, percebeste?
N�o pode haver duas l�deres.
Concordas ou n�o?
Porque est� a fazer isso?
Temos fome.
Aproveitei para lhe dizer.
Devo destruir todos os sentimentos humanos?
Ela perguntou e eu disse-lhe.
Acho que nos entendemos.
� tudo por agora.
Sim. O que foi?
Nada.
Estou s� a tentar decidir se desejo viver.
V� l�. Ora, Fania, ningu�m morre se o puder evitar.
Tens de ser mais sincera contigo mesma.
Vai.
Ele chegou!
O violoncelista da orquestra masculina.
Paulette!
� t�o bom ver-te!
Ainda bem que n�o tenho de aprender aquele instrumento.
Paulette!
Achas que j� podias sair?
Paulette, o que foi?
V�o tocar no domingo.
No hospital, sim, n�s sabemos.
Parece-me que n�o devias estar...
Sil�ncio!
Eles planeiam
gasear
todos os pacientes,
depois do concerto.
Como � que sabes isso?
Uma das mulheres da SS disse-me.
J� a conhecia.
Ela era criada em nossa casa.
Foi por isso que sa�.
Paulette...
Bem-vinda.
Precis�vamos muito de ti.
Vamos tocar a Quinta de Beethoven no domingo.
Senhora, ela saiu do hospital.
Ela pode deitar-se um pouco?
N�o!
N�o.
Eu consigo.
Vamos come�ar.
Do in�cio.
Eu acho
que
vi a minha m�e ontem.
As minhas duas irm�s
e o meu pai.
O qu�? Onde? Como assim?
Ontem...
Aquele �ltimo comboio de Bucareste...
Quando est�vamos a tocar fora
do vag�o de carga.
Eu olhei,
mas n�o tive...
N�o tive a certeza.
O que podias ter feito?
Agora lavas-lhe a roupa?
Da condessa?
Obrigada.
Fania, estou perturbada...
Sobre se deveria ter avisado os outros pacientes
do que vai passar-se.
O que achas?
S� que de que lhes serviria saber?
J� n�o tenho respostas, Paulette.
Vivo minuto a minuto.
O meu cora��o bate, por isso, estou viva, mas estou a ficar cheia de p�.
Dorme.
Americanos?
Ingleses?
De qualquer forma � tarde para ti.
Talvez seja tarde para toda a ra�a humana, Varya.
Ent�o, sempre vai acabar.
Todos tentam contar-te os seus problemas, n�o �?
N�o sei porqu�. N�o posso ajudar ningu�m.
As pessoas confiam em ti, Fania.
Talvez seja porque n�o tens ideologias.
Est�s satisfeita por ser uma pessoa.
Sentimos tantos sentimentos em ti.
J� fui assim, sim...
Mas podia espetar uma unha na minha m�o
sem qualquer resultado.
� a verdade.
Estou a morrer aos bocados.
Eu sei isso muito bem. J� vi demais.
Demais mesmo.
� cada vez mais dif�cil comer algo.
Sou uma das actrizes de maior sucesso na Pol�nia.
O meu pai era conde.
Fui criada num castelo.
Tenho marido e
o Marok, o meu filho, tem nove anos.
N�o sei o que nos vai acontecer, Fania,
a ti e a mim, antes do fim...
S� quero que uma mulher judia compreenda...
Quando vim para c� tinha a certeza de que o Papa
e os l�deres crist�os n�o sabiam,
e que quando descobrissem mandariam avi�es para bombardear os fornos
e as linhas que os trazem todos os dias.
Mas os comboios continuaram a chegar e os fornos continuaram a arder.
Compreendes?
Compreendes?
Talvez haja algo mais importante para bombardear?
N�o passamos de um grupo de mulheres
que nem conseguem menstruar e uns quantos homens assustados.
Fania, tenta perdoar-me, por favor!
Tu...
Porqu�?
O que � que me fizeste?
Estiveste na Resist�ncia.
Tentaste lutar contra isto.
Porque te sentes culpada?
S�o os outros que est�o a destruir-nos
e eles sentem-se inocentes!
� tudo uma anedota.
N�o v�s?
N�o significa nada.
Receio que n�o possas fazer nada para mudar isso.
Quase sinto mais pena de algu�m como tu do que de n�s.
Sim, ir�s sobreviver
e todos � tua volta ser�o inocentes.
De uma ponta � outra da Europa.
Com quem ser�s capaz de falar novamente?
A minha mem�ria est� a desfazer-se.
Comemos a ra��o de ontem � noite?
Comemos?
Comemos?
Deitaste leite fora, Tchiakowska?
Era meu.
Mas mesmo assim...
A nossa quinta fica a dez quil�metros.
S�o as minhas irm�s que mo trazem.
Mas mesmo assim, deit�-lo fora, quando...
Est�s a dizer que o leite n�o � meu?
Esquece.
Esquece.
L�s demasiados livros, enlouquecem-te.
Fania...
Vou deixar-vos depois do concerto de domingo.
Vou numa digress�o para tocar para as tropas.
Queria que fosses a primeira a saber.
Vou ser libertada, Fania!
Consegues imaginar?
Vou tocar o que gosto e como gosto.
Disseram que uma executante do meu calibre n�o deve ser desperdi�ada aqui.
O que se passa?
Achei que ficarias feliz.
Sim, estou, claro.
Mas vai animar homens
que lutam para nos manter na escravid�o, n�o �?
A quest�o n�o � essa.
Tocarei para os soldados, Fania.
E n�s? Vamos continuar, n�o vamos?
Vou sugerir que me substituas.
Bem...
Espero que termine em breve para todos.
Porque tentas estragar a minha felicidade?
Vou tocar para homens honrados.
N�o � para os assassinos daqui!
Os soldados arriscam a vida!
Porque precisa da minha aprova��o? Se est� feliz, goze a felicidade!
Nem todos os alem�es s�o nazis.
Se pensares bem, n�o passas de uma racista.
Concordo.
� uma honra extraordin�ria.
A �nica judia a tocar violino para o Ex�rcito alem�o.
A minha cabe�a vai explodir.
A Frau Schmidt.
S�...
S� queria dar-lhe os meus parab�ns.
Acabei de saber a grande novidade.
Obrigada.
Obrigada, Frau Schmidt.
Fico muito comovida, vindo da sua parte.
Nunca fui conhecida por esconder os meus sentimentos.
Gostava de jantar comigo hoje?
� um jantar de despedida em sua honra.
Fico muito contente, Frau Schmidt. Claro.
Dentro...
Dentro de uns minutos...
Nos meus aposentos, pode ser?
L� estarei. Obrigada.
Obrigada, Frau Schmidt.
Est�s a ver?
Aquela mulher...
Aquela mulher
tentou de tudo para ser transferida daqui.
Sim.
Est� desesperada por sair daqui e mesmo assim tem a bondade
de me vir desejar tudo de bom na minha partida.
Eu � que n�o esperava isso dela.
Mas quem sabe o que se passa no cora��o humano?
Tu julgas as pessoas, Fania.
�s terrivelmente dura.
A Mandel salvou a crian�a.
Talvez se tenham apercebido de que est�o a perder a guerra...
Porque � que desconfias de tudo?
Porque n�o aceitas a pouca esperan�a que h� na vida?
Estou toda baralhada.
A Schmidt querer sair daqui � realmente inacredit�vel.
Alma, ela enriqueceu por gerir o mercado negro.
Roubou todas as mulheres que vieram aqui parar.
Todos os neg�cios t�m a m�o dela.
Vou embora, Fania.
Quero agradecer a tua ajuda, caso n�o tenha oportunidade de o fazer.
Toma.
Est� completamente errada em rela��o a quase tudo,
mas...
Tenho de concordar que nos deve ter salvado a todas, por isso...
Agrade�o do fundo do meu cora��o.
Podes agradecer-me por recusar desesperar, Fania.
Acho que a verdade � essa, n�o �?
� o Mengele!
O que aconteceu?
A Schmidt envenenou-a ao jantar.
Como � que sabes?
Fuzilaram-na esta manh�.
� Schmidt?
Ningu�m sairia daqui, se ela n�o sa�sse.
Especialmente uma judia.
Ela queria mesmo sair?
J� tinha o seu p�-de-meia. Porque n�o?
N�o. Parem!
Para o que � que est�o a ensaiar? N�o.
- N�o est�s a ajudar. - Deixa-me come�ar o ensaio.
V� l�.
Marianne!
- N�o v�o por a�! - N�o! Fui nomeada...
- Escutem-me! - E vou conduzir a orquestra!
N�o! Agora sou Kapo e ordeno-te que pares de interferir.
Volta para o teu lugar!
As SS decidiram que queriam uma ariana como maestrina!
- V�o gasear-nos a todas! - Eu vou conduzir!
O Mengele vai estar c�!
Ele n�o vai suportar este ru�do!
Parem!
Deixem-me ensaiar!
Fica a� e d� aos bra�os
e pelo menos isso ter�s ensaiado.
Agora sou Kapo.
Eu conhe�o um n�mero.
� muito famoso na Ucr�nia.
N�s vamos toc�-lo.
Primeiro, eu...
Fania!
Com o carrasco?
Ele matou a Mala e o Edek.
Sabias disso?
Se n�o fosse ele,
outra pessoa o teria feito, podem ter a certeza.
O que quero dizer, minhas queridas,
� de que lado acham que est�o?
Porque se algu�m n�o tiver a certeza, est�o do lado dos carrascos.
V�o l� fora...
Perguntem a qualquer prisioneiro deste campo,
eles ter�o todo o prazer em dizer-vos!
Podes meter os teus coment�rios sabes bem onde, Michou!
N�o a devias deixar escapar assim, Fania.
Eu responderia, mas ningu�m liga ao que eu digo.
Mas ela tem raz�o, Giselle.
Que resposta h�?
N�o estou do lado deles.
S� me estou a guardar para Jerusal�m.
�ptimo.
O que queres dizer com isso, Fania?
Estou a dizer que � �ptimo.
Se te consegues manter t�o distante de tudo isto, muito bem.
Mas n�o somos respons�veis por isto.
N�o, claro que n�o, n�o temos culpa de nada.
O que quero dizer
� que podemos ser inocentes,
mas mud�mos.
Sabemos algo mais sobre a ra�a humana,
que n�o sab�amos antes.
E n�o s�o boas not�cias.
Como ainda lhes podes chamar humanos?
Ent�o, o que s�o eles?
N�o gosto da forma como ligas tais monstros connosco!
Mengele!
O Herr Doutor gostaria de ouvir alguma m�sica em particular?
Kapo.
Doutor.
Essa � a bra�adeira
e a batuta
da vossa maestrina.
N�o devem ser perturbadas.
Em sua mem�ria...
Se o Herr Doutor me permite...
A orquestra est� decidida
a executar o seu melhor em mem�ria da nossa amada maestrina.
Posso assegurar-lhe, Herr Doutor,
que estamos preparadas para passar todos os momentos a aperfei�oar a nossa m�sica.
Acreditamos que a nossa falecida l�der gostaria que continu�ssemos...
...a...
...a...
...trabalhar como ela...
...como ela nos inspirou.
Sentiste, n�o sentiste, Fania? Ele vai mandar-nos para o g�s!
N�o, escutem!
Fania!
O que temos de fazer � de ensaiar!
At� hoje, a Liesle nunca tocou bem Beethoven!
Agora vamos! Ensaia os agudos!
Pedi-te que n�o voltasses a rogar pela tua vida.
- Estava s�... - Tu...
N�o devias rogar, Fania!
Mandel...
O dueto de Madame Butterfly!
Tu e a outra.
V�o buscar a Marianne, depressa!
V�o buscar a Marianne.
Estamos prontas para come�ar, Frau Lagerfuhrerin.
Estamos prontas para come�ar.
Passa-se alguma coisa com o menino?
Foi sempre assim,
a grandeza de um povo
depende dos sacrif�cios que este est� disposto a fazer.
Eu devolvi-o.
Vamos.
Toquem para mim.
Toquem para mim!
Um... e dois... e...
� de dia
Cho-Cho-San
Ele vir�
Ele vir�
Eu sei que ele vir�
Rezo por ti e pelo resto
Porque est�o esgotados
E vou chamar por ti
Quando ele chegar
Doce apesar de dormir
Aninhado no meu cora��o
Protegido por Deus
Enquanto eu choro afastada
Junto � tua cabe�a
Os raios de luar atingem-te
Dorme meu amado
Pobre Madame Butterfly
Doce apesar de a dormir
Aninhado no meu cora��o
Protegido por Deus
Enquanto eu choro afastada
Pobre Madame Butterfly
Executantes?
Vamos come�ar o ensaio.
Ordeno-vos que ensaiem.
� a artilharia russa.
Sou eu que mando aqui e n�o autorizei que suspendessem os ensaios.
Est�pida, acabou tudo, n�o percebes?
Est�o ali os russos!
E seremos gaseadas antes que eles c� cheguem!
Calma, n�o podemos ensaiar �s escuras.
Ela consegue ler as partituras de qualquer forma.
Onde arranjaste essa batata?
Roubei-a. Como querias que fosse?
Vens comigo � Mandel!
Vou fazer queixa de ti!
Parem.
Senta-te.
Devemos morrer todas hoje.
N�o vejo porqu�.
Somos a prova, parva! Vimos tudo!
Tenho pena dela.
Finalmente uma orquestra para conduzir
e a guerra a acabar.
Estou com febre ou assim.
Parece
que o perdi.
O chap�u pequeno.
Acho que o deixei cair.
N�o o viram?
N�o?
Um chap�u pequeno?
Pequeno...
Elzvieta!
Quero que fiques com isto.
� o meu di�rio.
- N�o, Fania! - Toma!
N�o posso aceitar.
Sinto que te estaria a condenar, Fania! Vais viver! Eu sei que vais!
N�o sei se desejo viver.
Estou doente. Algo de terr�vel est� a acontecer comigo.
N�o!
Judias � esquerda! Arianas � direita! Depressa!
Depressa!
Etalina!
Judias � esquerda! Arianas � direita!
V� l�! Depressa!
- Adeus, Elzvieta! - N�o! Fania!
Onde � que vamos?
Para onde nos levam?
Calma!
Fania, n�o consigo acompanhar!
Como vai isso, soldado?
Posso perguntar para onde nos levam?
Seja para onde for,
sei fazer com que um homem esque�a os seus problemas.
Para onde vamos?
Quem sabe?
� para afastar-vos dos russos,
para que n�o lhes digam o que se passou ali.
V�o acabar connosco?
N�o sei.
- N�o! - N�o!
Nomeio-te Kapo.
Faz com que formem e sigam pelo caminho
at� chegarem ao celeiro.
Os comandantes tratar�o delas l�.
V� l�!
Marchem!
- Traidora! - Deixem-na em paz!
Marchem!
N�o!
Marchem!
Fania!
Fania!
Prostituta nojenta!
Sua ratazana!
Rose!
Rose?
Rose?
Rose?
Rose!
Fania...
Tenta
manter os olhos
abertos,
se conseguires.
� melhor.
N�o!
Olha! O Shmuel!
Fania!
S�o finlandeses!
Estamos salvas!
Tens de viver, Fania.
Animais! Assassinos!
Malditos sejam!
Kapos...
Est�o a lev�-los!
� o comandante.
Meu Deus!
� a Marianne!
Sua ratazana!
Sua ratazana!
Seria poss�vel dizer alguma coisa � imprensa?
Acho que seria muito importante para eles.
A n�o ser...
A n�o ser que sinta...
Avante filhos da p�tria
Os dias de gl�ria chegaram
Enfrent�mos a tirania
E o nosso estandarte ensanguentado
Foi levantado
Entendeis meus camaradas?
Ouvis o rugir dos soldados?
Eles ca�ram nos nossos bra�os
Os nossos filhos chacinados a sangrar
Pegai nas armas camaradas
Formai vossos batalh�es
E marchai e marchai
N�o tenhais medo
A vossa bandeira para sempre levantada
Traduzido por: Dina Almeida Ripadas por: RicardoB/2017
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