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Original subtitles

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Sim?

- O que voc� quer? - Uma encomenda para o senhor...

- O que �? - Eu n�o sei, senhor.

Belkis!

- Sim, Monsieur? - Quem trouxe esta caixa?

- Um cavaleiro, senhor. - Quando?

Hoje � noite, ainda agora.

Era homem ou mulher?

Eu n�o sei, senhor. Estava escuro.

Essa pessoa de sexo indeterminado disse alguma coisa quando entregou o pacote?

Sim, senhor. Isso iria ajudar com o seu trabalho.

O livro que estou escrevendo sobre Delacroix?

Provavelmente, senhor. Eu n�o sei.

Voc� conhece ou reconhece essa pessoa? - N�o, senhor.

Mas � algu�m que me conhece?

N�o sei, senhor.

- Belkis? - Sim, senhor.

Tem um rem�dio para dor de dente?

H� dentistas em Marrakech, perto de Medina,

que podem tirar sua dor com um alicate.

O pacote que lhe entregaram na noite passada...

...tinha uma caixa de slides. - Sim, senhor.

- Ah! Voc� sabia disso? - N�o, senhor.

Eles eram exatamente dos mesmos que eu uso em meu projetor.

Como poderia algu�m saber das especifica��es de um projetor...

...que � antiquado? - N�o sei, senhor.

Pessoas entram aqui quando estou fora?

Eu n�o sei, senhor.

Dizia-se que h� muito tempo, o Pasha de Tazert, de manh�,...

os seus olhos, ainda sonolentos, poderiam empalar partes femininas

das pequenas concubinas,

que em seus servi�os noturnos n�o o satisfizessem inteiramente.

Parece que a dor que estou sofrendo lhe agrada.

Voc� n�o tem cora��o?

- Responda! - Eu n�o sei, senhor.

Calma! Est� tudo bem.

Vamos dar uma olhada mais de perto na loja.

Suavemente, suavemente.

Eis aqui! E agora estou aqui.

Estou escrevendo.

Estou escrevendo...

que n�o estou aqui.

Que estou vagando pelo labirinto de Medina,

procurando por...

procurando por um pequeno objeto,

perdido...

Ao menos que, mais uma vez, diga respeito a minha dupla...

Posso ajudar a achar o que voc� quer?

Sim. Olhe,

para lhe ser franco, eu tinha um encontro, agora com uma jovem loura.

Estou surpreso que ela n�o esteja aqui.

Se uma mulher jovem e loura tivesse vindo aqui, senhor, eu certamente teria notado.

Qual � o nome da pessoa, se n�o for indiscreto?

Com toda a honestidade, eu realmente n�o sei.

Ah, estou vendo.

De qualquer modo, posso lhe mostrar alguns presentes para jovens senhoras.

Prata berbere, colares, braceletes, j�ias indiscretas...

Neste momento eu procuro por uma senhora, n�o por presentes.

Posso ajud�-lo nisso tamb�m, conhe�o excelentes casas de prazer.

N�o, n�o. Eu quero encontrar uma pessoa espec�fica.

Espec�fica e an�nima.

Ou�a, enquanto voc� espera, posso mostrar itens de har�ns aut�nticos.

do mais suave ao mais cruel. Machados de carrascos de mais de um s�culo,

como tamb�m instrumentos para a mais profunda tortura, se entende o que digo.

Um s�culo. N�o � t�o antigo.

Tudo � muito interessante.

O fato � que t�o perto de n�s faz as coisas mais excitantes.

Eu posso lhe oferecer em apresenta��es privadas

como se fosse... natureza especial.

N�o, eu j� estou atrasado para meu encontro. Obrigado.

- Aqui, meu amigo. Pela gra�a de Deus. - Obrigado.

Diga-me, algu�m entrou nessa loja antes de mim?

N�o, senhor, pelo menos na �ltima meia hora.

Voc� viu uma jovem mulher loura antes de eu chegar?

Ai de mim, senhor, meus olhos morreram s�culos atr�s.

Mas homem ou mulher loura ou morena, eu ouviria.

- Ningu�m entrou, pode confiar em mim. - Tudo bem. Cometi um engano, ent�o.

Naturalmente que s�o falsas.

- Voc� � um especialista? - Um pouco, um pouco.

E eu conhe�o um antiqu�rio onde teria

desenhos aut�nticos de Delacroix bem baratos, se estiver interessado.

Como voc� sabe o que me interessa?

Os cegos s�o dotados de uma segunda vis�o.

Venha comigo. Pode confiar em mim.

Eu n�o sei o endere�o exato, mas encontrarei. Vamos pegar um t�xi.

- Isso n�o � um t�xi! - � um t�xi, confie em mim.

O sinal de t�xi � el�trico.

Eu o reconheci logo pelo sou do seu motor.

- O motor est� desligado! - Agora.

Mas eu o escuto quando est� desligado ou estacionado.

Ponha meus �culos escuros.

O dono do antiqu�rio � um homem importante e discreto,

que n�o gosta que ningu�m saiba exatamente onde seus tesouros est�o escondidos.

Essas lentes s�o completamente opacas!

Oh, n�o poderia saber. Sou totalmente cego, voc� sabe.

Quanto � bela senhora loura que voc� viu entrar na loja,

dizem que em Medina...

existe um fantasma de uma linda pessoa loura,

decapitada no in�cio do s�culo passado...

por ter sido seduzida por um franc�s que passou por aqui.

Talvez voc� tenha notado que...

seus passos graciosos n�o tocavam no ch�o?

Isso � perfeitamente poss�vel, talvez.

Bem, pode ter sido ela quem voc� viu.

Em qualquer caso, voc� encontrar� facilmente em loja de suvenir o machado

com que o carrasco a executou.

Ent�o existem modelos diferentes de diferentes formas,

para satisfazer os gostos mais variados do interessado.

Outras hist�rias contam que de fato n�o foi um machado,

mas um sabre ou mesmo uma simples adaga.

Todos eles est�o dispon�veis no estoque,

com certificado de autenticidade.

Chegamos.

D�-me meus �culos.

D� uns passos para frente.

A porta est� entreaberta. Empurre. Vire � direita.

Uma jovem recepcionista, muito discreta vir� encontr�-lo.

Eu esperarei no t�xi que precisar� para voltar.

Voc� pagar� mais tarde.

Eu poderia...

Ou�a, Justine, voc� ainda � muito jovem, obviamente.

Voc� n�o precisa ser t�o melodram�tica. Voc� vai ver. Eu lhe mostrarei.

�s vezes � mesmo muito...

Chega! Ela vai obedecer! N�s pagamos por ela.

Eu esperei por voc�. Foi-me dito, � claro.

Por favor, compartilhe do nosso modesto alimento, voc� n�o almo�ou. Est� quase no fim...

Oh, certo, eu esqueci. Um pequeno problema dent�rio.

Iremos olhar isso tamb�m.

Eu sou um dentista ocasional. Um tem que fazer tudo nesse metier.

Claudine. Venha c�.

Vamos dar uma olhada nas aquarelas que voc� est� interessado.

Voc� vai nos mostrar as j�ias do nosso estoque secreto.

Madame Elvira tomar� conta da jovem.

Persuas�o � sua menor e ineg�vel especialidade.

Ser� que voc� prefere um m�todo mais delicado?

Por mim, pessoalmente, sim, claro.

V� em frente, mostre o caminho, e n�o se meta com isso.

Cela de treinamento n�mero sete.

O m�todo severo. Sem marcas permanentes nas �reas mais interessantes.

N�o se preocupe. N�o queremos prejudicar essa pequena e fr�gil virgem.

Iremos lhe devolver intacta,

rindo, aceitando tudo obedientemente.

Voc� � charmosa e bonita, mas n�o pense que sua juventude

vai lhe proteger do seu destino.

Doutor Anatoli � um sentimentalista, mas eu sou a chefe da escola aqui.

Temos aqui, dentre outras coisas, uma escola de dan�a, teatro,

e escola de etiqueta para jovens destinadas...

� carreira de cinema, moda,

com�rcio de luxo ou servi�o de companhia,

bem com modelos para fot�grafos e pintores.

Essas jovens devem estar pesquisando uma improvisa��o.

Aprender a gritar, ao que parece, � uma das coisas mais dif�ceis.

Todos esses esbo�os mostram como Delacroix

era ligado sensualmente �s suas lindas modelos,

como era arrebatador entre as poses.

Algo me preocupa quanto sua autenticidade.

N�o h� outro exemplo dessa esp�cie de detalhe er�tico

em seus outros livros de esbo�os marroquinos.

A natureza quase escandalosa desses livros de esbo�os

era protegida dos olhares indiscretos.

Ou pelo pr�prio artista ou pelo pax� que cobi�ava a beleza,

acreditando que tinha direitos sobre ela, e n�o querendo v�-la nos bra�os de outro.

Ainda por cima um franc�s.

Ningu�m nunca mencionou e caso marroquino

que Delacroix supostamente teve.

Voc� ser� o primeiro a a fazer, caro John.

A redescoberta de dois livros perdidos

vai sacudir todo o mundo da arte.

Mais forte!

Mais forte. Mais forte!

Como sabe meu nome?

Todo experto sabe seu nome e conhece seus livros, Sr. Locke.

- Mas eu nunca os publiquei! - Voc� estava esperando o momento.

E como voc� est� no caminho,

n�o me diga que � por acaso

que voc� constituiu seu laborat�rio de pesquisa

no ponto exato onde o drama final teve lugar!

E que lugar � esse?

Tazert, antiga Casbah, meio em ru�nas atualmente.

O que algu�m poderia fazer l�

sen�o pesquisar sobre Gradiva de nosso Eugene?

- Voc� a chama de Gradiva? - Seu nome era Leila.

Mas observe o cuidado com que o artista

pintou seu p� na posi��o peculiar.

O jovem Delacroix pode bem ser visto no baixo relevo,

alegadamente de Pomp�ia, no museu do Vaticano

e fazer liga��o com a sua pessoa amada,

o pezinho de seu modelo gracioso.

- Mais forte!

- Mais forte!

E o que voc� quer dizer com "o drama final"?

N�o se fa�a de bobo, Sr. John Locke.

Voc� seguramente sabe disso melhor que n�s sobre essa hist�ria angustiante.

Est� claro que n�o � a erup��o do Ves�vio,

mas a execu��o da sedutora Leila,

punida por ter amado um estrangeiro que passou aqui.

Isso � outra coisa.

V�rios estudos de Fernand Cormon para a "A Favorita Destronada".

Eu pensei que voc� ia dizer

que era um desenho feito no local durante a execu��o de sua amada.

N�o brinque, senhor. Essas coisas horr�veis existiram.

E provavelmente ainda existem.

Eu lhe darei um analg�sico para aliviar

sua dor de dente logo e prolongar o al�vio.

� uma bebida muito doce para evitar uma vertigem por hipoglicemia.

Lembre-se que voc� n�o comeu nada desde de manh�.

Ent�o voc� vai descansar num discreto hotel que faz parte de nosso estabelecimento.

N�o, n�o se preocupe. Vai passar.

- Mais forte!

A doce Claudine vai lhe levar para o hotel.

� um pouco incomum, mas muito confort�vel.

Aqui est� a chave do seu quarto. � o n�mero 13.

Espero que n�o seja supersticioso.

V� John, � para melhor.

Voc� n�o est� armado?

N�o, claro que n�o!

- Ent�o � sua primeira vez aqui? - Sim, a primeira vez,

mas...

Ent�o tome isso, como um sinal de identifica��o.

N�o v� a nenhum lugar sem isso.

Dez...

Onze...

Doze...

N�o, solte-me!

Eu n�o fiz nada de errado!

Onde eu estava?

O que est� fazendo?

Como v�, estou escrevendo.

E para quem, se n�o for indiscreta?

Oh, n�o sei. Para mim mesma, de certo modo.

Estou escrevendo minhas mem�rias. Estou contando a hist�ria de minha vida.

Isso n�o faz sentido. Voc� ainda � muito jovem.

Como poderia ter experi�ncia?

N�o, um velho soldado escreve suas mem�rias

sobre um encontro com de Gaulle ou Winston Churchill.

N�o � isso. Isso foi em outro tempo.

Escreveu sobre uma vida passada. N�o foi de todo criativo.

Ou ent�o estava mentindo,

a fim de angariar coisas para uma vantagem.

"N�s partimos com 500, mas com os refor�os

chegamos ao porte de 3.000".

Quando na realidade,

os pobres rapazes vendo que iam mal, desaparecem pelas ruas laterais,

e o que ele chama de tropas chegando ao porto,

eram dois carecas e tr�s cabe�as de repolho!

Agora, isso est� acabado.

Voc� come�a a escrever suas mem�rias o mais cedo poss�vel,

e projeta sua pessoa no futuro com um �pico de 700 p�ginas,

publicado por Macmillan, fazendo voc� uma instant�nea celebridade.

� somente depois disso que voc� pode facilmente

tornar-se uma cantora rom�ntica, almirante da frota,

psicanalista subversiva numa revista de moda de grande circula��o

ou no mundo submarino campe� de pesca de arp�o.

E n�s, nos seus planos futuros,

voc� nos p�s l�, tamb�m?

Anatoli, eu, Madame Elvira?

Mas claro, porque � uma hist�ria verdadeira.

Eu n�o posso fazer voc� desaparecer com m�gica!

Um exemplo:

Se eu escrever que o homem louro que est� me seguindo e espiando

est� agora mesmo dirigindo devagar numa motocicleta grande e brilhante,

bem... isso imediatamente torna-se realidade.

- Voc� est� meio maluca? - N�o de todo!

O que seria uma loucura?

Seria permitir que os eventos externos aconte�am

sem intervir.

- Belkis! - Sim, senhor?

- Quem colocou essa foto na minha mesa? - N�o sei, senhor.

Algu�m entrou aqui enquanto eu estava na cidade?

Eu n�o sei, senhor. � uma casa muito grande.

Al�m de mim, algu�m mais tem a chave?

Sim, senhor, claro. Seu senhorio.

- Voc� o conhece? - N�o, senhor, ele vive longe daqui.

- Onde, exatamente? - Eu n�o sei, senhor.

Ahhh! "Eu n�o sei, senhor. Eu n�o sei, senhor".

O que � que voc� sabe?

De que serve voc� para mim?

Para que voc� serve? Hem?

- Para qu�? - Eu n�o sei, senhor.

Deixe-me s�, por enquanto.

Por favor.

Sim, senhor.

A noite n�o est� fria num vestido leve como esse?

Faz muito tempo, infelizmente,

desde que meu corpo sentiu frio ou calor.

Da� em diante esse traje � meu para a eternidade.

Foi da minha execu��o.

Por�m as manchas de sangue desapareceram.

Minha inoc�ncia

lavou o sangue de minhas feridas.

Quem � voc�?

Eu era uma escrava branca,

de Andaluzia, onde passei minha inf�ncia,

e provavelmente, antes disso, ou mais para tr�s ainda.

Por que "eu era"?

Porque "eu sou" n�o sou mais.

Voc� n�o � mais uma escrava. Ent�o eles lhe libertaram?

Em certo sentido, sim, eles me libertaram pela l�mina.

Mas ainda sou uma escrava.

Somente existe o meu passado.

Que quer dizer?

Que os esp�ritos s�o condenados por todo o tempo a repetir

seus destinos tr�gicos. Sabia disso, John Locke?

- Voc� sabe meu nome. - Como voc� sabe o meu.

Voc� poderia ser aquela que a lenda fala,

que foi possu�da por um pintor franc�s h� mais de um s�culo?

H� um s�culo, dois s�culos

ou dez s�culos e todos os s�culos dos s�culos,

at� o tempo parar de passar.

Voc� conhece Eugene Delacroix?

Sim.

Para minha tristeza, eu o conheci.

Ele me chamava de Gradiva,

n�o sei por qual raz�o.

Agora eu tenho que ir.

Voc� vai voltar a cantar nas ru�nas amanh� de noite?

N�o, n�o amanh� de noite.

Todas as noites s�o a mesma noite.

Aquela, quando o punhal atravessou minha carne.

Voc� n�o deveria me perguntar sobre mais nada.

Falar em morte traz azar.

Sabia disso, John Locke?

O que est� fazendo aqui? Ainda dormindo essa hora!

Levante.

Sim, senhor. Desculpe-me. Eu tive um sonho terr�vel.

N�o durma muito. Est� fora de moda.

Sim, senhor. N�o repetirei.

Uma jovem senhora amiga sua est� no terra�o do "Caf� dos Gatos Perdidos".

Obrigado.

- Eu n�o quero lhe incomodar. - Oh, n�o, sente-se.

Mas voc� est� com uma amiga.

Qu�? Pode ver que eu estou sozinha!

Na verdade, n�o consigo me lembrar quem voc� �!

Mas eu me lembro muito bem ter lhe conhecido numa festa de amigos,

e lhe achei charmoso. Mas onde foi exatamente?

Como? Foi na noite passada, na casa de Anatoli,

o antiqu�rio que tem desenhos atribu�dos a Delacroix.

De fato, lembro alguma coisa. Voc� � amigo de Georgios Anatoli,

interessado na vida amorosa de pintores orientalistas. Excitante!

Mas Georgios n�o � antiqu�rio.

Onde voc� ouviu isso? Ele � um amante da arte,

e um colecionador de muitas coisas.

Assim como um diretor. Ei, precisa vir a minha apresenta��o � noite!

- Voc� � uma atriz? - Sim, uma esp�cie de atriz.

Eu n�o atuo todos os dias, gra�as a Deus.

Amanh� eu poso para fotos de moda na praia.

Essaouira, conhece?

Antiga cidade francesa chamada Mogador.

Seu querido Delacroix esteve l� com uma linda marroquina, Leila.

Que teve um tr�gico fim.

Venha comigo l�. Mostrarei o t�mulo dela.

Delacroix nunca foi a Mogador.

Oh! Verdade! Livros achados recentemente,

mostram partes bem conhecidas da velha cidade.

Voc� disse que ia se apresentar. Qual o teatro? - O Tri�ngulo de Ouro.

N�o � um teatro t�pico. � secreto.

Mas qualquer taxista na cidade levar� voc� l�.

Venha �s dez. Procure Madame Elvira, a patroa.

Diga que � amigo de Georgio e que Claudine lhe mandou.

E agora tenho que correr. Estou emocionada de ter visto voc� de novo.

Estou certa de que voc� vai gostar do espet�culo.

E podemos tomar uma bebida depois.

At� a noite!

Desculpe, eu esqueci.

Doutor Anatoli me deu isso para voc�.

� excelente para dor de dentes. Voc� ver�.

O que est� fazendo aqui?

Nada, senhor.

Esperando o �nibus para ir para casa.

O velho gar�om � meu tio. Ele me deu �gua.

- Voc� tinha neg�cios na cidade? - Sim, senhor.

- Esqueceu de me dizer? - N�o, senhor.

Depois que voc� saiu, eu pensei em coisas que precisava.

Estou voltando tamb�m.

Gostaria de uma carona?

Eu n�o sei, senhor.

Ent�o venha!

- � uma ordem! - Sim, senhor.

Voc� prefere acariciar a pele branca?

- Que hist�ria � essa? - Ela vai se encontrar com voc� hoje � noite.

Ela beijou sua boca quando saiu.

Minha boca n�o! Meu nariz!

Ent�o voc� est� me espionando agora?

E foi apenas um pequeno beijo.

Seco e amig�vel.

- Senhor? - Sim?

Voc� a amarra na cama para fazer aquelas coisas?

Seria provavelmente muito bom. O que voc� acha?

Eu n�o sei, senhor.

Nada mais a dizer?

Seja cauteloso com aquela mulher. Ela dorme com seu senhorio.

Como sabe disso?

- Voc� a conhece? - N�o, senhor.

Ent�o! Fale!

Nesta manh�, logo que voc� saiu, veio um policial,

um tal Comiss�rio Mahmet ou qualquer coisa assim.

Ele mostrou a foto daquela francesa.

Ele perguntou se ela veio ver voc�.

Ele tamb�m me disse que que ela era amante do dono da casa.

Mas por qu�? Qual a rela��o?

- O que esse policial queria? - Eu n�o sei, senhor.

- Voc� gosta que eu lhe beije? - Eu n�o sei, senhor.

Sinto-me um pouco sonolento

e minha vis�o est� turva.

Essa dor de dente est� me exaurindo Preciso pensar.

Eu vou dar um passeio para melhorar minha cabe�a.

- Prepare o jantar para �s sete. - Sim, senhor.

Ela lhe deu um rem�dio e voc� bebeu. Isso era veneno.

J� que voc� reclama, essa linda senhora me ama,

por que ela iria querer me envenenar?

Ela est� obedecendo a algu�m mais e alguns venenos matam s� a alma.

- Voc� est� falando bobagens. - Sim, senhor. N�o, senhor.

Sinto-me muito melhor. Eu estou bem para andar.

- O jantar est� pronto? - Sim, senhor. Est� esperando.

�timo! Vamos.

- Vire essa lanterna para mim. - Sim, senhor.

- Que corrente � essa? - Eu n�o sei, senhor.

Que horas s�o? Nove horas, senhor.

Chame um t�xi. Tenho que ir � cidade.

N�o, senhor.

Sim, senhor.

- N�o v�, senhor. Eu imploro. - Tenho que ir.

N�o sei por qu�.

- Voc� � o t�xi que eu telefonei? - Evidentemente.

- N�o estou vendo o tax�metro. - Est� no conserto.

E voc� n�o me perguntou aonde eu quero ir.

Voc� deve estar no Tri�ngulo de Ouro �s dez.

Como voc� sabe?

Todos os taxistas trabalham para a pol�cia.

N�o sabia disso, John Locke?

Eu n�o vejo a rela��o!

Espet�culos orientalistas s�o proibidos, em princ�pio.

Mas eles s�o tolerados se os teatros colaboram.

Como prost�bulos de alta classe,

atrizes jovens e nuas fornecem preciosas informa��es

sobre atividades ilegais.

Tr�fico de carne fresca...

a tend�ncia criminosa mais comum.

- � a pol�cia que paga os t�xis? - Por que diz isso?

A �ltima vez que voc� dirigiu n�o me pediu para pagar.

�ltima vez? Esta � a primeira vez que dirijo para voc�, Senhor Locke.

- Voc� est� armado? - N�o, claro que n�o.

�timo, pode entrar.

Gostaria de falar com Madame Elvira.

Bem-vindo, Sr. Locke.

Os orientalistas s�o sempre apreciadores de nossos espet�culos.

E sua presen�a aqui � uma grande honra.

Voc� me lisonjeia, Madame.

Joujou ir� lev�-lo ao seu lugar.

Minha pequena aluna pode lhe acompanhar?

Ela foi chicoteada? Por qual raz�o?

Por favor! Isso � maquiagem.

Nossas atrizes s�o gar�onetes durante os intervalos.

vestindo as roupas que foram admiradas no palco.

Isso � estranho. Elas parecem com marcar recentes de a�oitamento.

Nossa jovem da maquiagem � uma artista.

� uma pena que n�o estivesse aqui no primeiro ato da noite.

Havia dois magn�ficos cavalos negros no palco.

Leve o Sr. Locke � mesa do Comiss�rio Mahdi,

e os apresente com o devido respeito.

Lembre-se do que acontece com quem comete o menor erro!

Sim, senhora, eu lembro.

Voc� pode tocar para ver se elas s�o reais ou n�o.

Esses s�o maquiagem, obviamente. Os reais est�o do outro lado.

Mais perto do p�bis.

Quando minha senhora est� muito excitada ela chicoteia minhas partes �ntimas

para me fazer gritar.

Sua pele � muito macia.

- � muito doloroso? - Sim, um pouco.

L�, onde a correia bateu muito forte.

O que voc� fez de errado?

Eu quebrei acidentalmente um copo servindo uma bebida com as m�os acorrentadas.

Isso n�o pode ser muito pr�tico.

N�o, mas � divertido. E os orientalistas amam isso.

Professor John Locke, Comiss�rio Mahdi ben Mochrane.

Parab�ns, minha jovem! Aprendeu bem sua li��o!

N�o muito forte no lado esquerdo, Comiss�rio. Est� um pouco dolorido.

Por favor.

Muito gentil de sua parte, prezado Sr.Locke,

ter aceitado meu pedido por essa entrevista.

- Qu�? Mas eu nunca... - Mas claro que eu fiz!

Admitindo que de forma tortuosa,

para n�o ignorar a cortesia e a hospitalidade devida aos visitantes estrangeiros.

Eu n�o entendo.

- O que voc� quer? - Nada em particular, n�o se preocupe.

Provavelmente uma s�rie de tristes coincid�ncias.

Segundo ato: "A Favorita Destronada" por Fernand Cormon...

Vamos conversar diretamente ent�o.

Tudo bem, algumas jovens bonitas desapareceram em volta de uma montanha da cidade.

muito perto de sua resid�ncia.

Pelo menos uma parece ter sido estuprada e ent�o

morta de um modo cruel.

Al�m do mais,

encontramos suas digitais no cabo de um punhal,

em que a l�mina estava suja de sangue humano.

Da mulher, para ser mais preciso.

Obrigado.

Terceiro ato: "A Morte de Gradiva" por Edouard Manneret.

Beba!

Eu quero de sua opini�o sobre minhas novas descobertas.

desde que voc� est� especialmente interessado nos cavalos de Delacroix.

Tenho que lhe mostrar esses esbo�os,

que s�o muito pessoais, se sabe o que quero dizer.

Eu poderia at� mesmo ter me inspirado neles para minha apresenta��o seguinte.

Veja, s�o claramente estudos preliminares para "O Massacre de Scio",

que deve ter abrangido uma s�rie de pinturas.

Voc� j� viu este.

N�o se sente bem, Sr. Locke?

Leila.

- Gradiva. - N�o.

Nossa estrela n�o se chama Leila, mas Hermione.

Sua semelhan�a � clara com a jovem escrava branca que posou para Delacroix

e inspirou nosso escritor para us�-la em v�rios atos

de execu��es ou torturas preliminares

mais ou menos interligados ao fim tr�gico que existe, como sabe,

em v�rias vers�es.

Est� tarde. Preciso lhe deixar.

Tenho que ir ao cemit�rio...

...como fa�o todas as noites,

para rezar ao lado do t�mulo daquele outro eu,

minha infortunada irm� g�mea.

Desculpe-me, senhor, mas �s vezes voc� se assemelha de modo horr�vel...

... ao seu assassino.

O que significa essa hist�ria sobre o cemit�rio?

E a g�mea assassinada?

Nada. Ela est� delirando.

- Conte-me mais! - N�o ligue para ela.

Hermione est� �s vezes estranha nesses dias.

Ela nunca teve uma irm�, muito menos uma g�mea.

Tr�s noites atr�s ela foi atacada nos bastidores,

algo sem import�ncia, que pode acontecer de vez em quando,

com admiradores inst�veis.

Mas ela imagina que conheceu naquela noite

o criminoso s�dico procurado pela pol�cia,

que n�o esfaqueou sua barriga varias vezes,

mas a da sua dubl�.

Sua dubl� imagin�ria, entendeu?

Doutor Anatoli, que era seu amante titular antes de eu chegar,

est� de olho em sua neurose.

Ele acha que ela pode estar representando.

Esse criminoso que voc� falou,

� verdade que eu pare�o com ele?

Quem sabe? Ningu�m nunca o viu.

Voc� deve ir para a cama.

Nosso carro o levar� para casa.

Um t�xi azul.

Por que diz isso? N�o h� s� t�xis azuis em Marrakech!

Quanto a Mogador, o fot�grafo nos pegar� no Caf� dos Gatos Perdidos

�s 10 em ponto.

- Esperou por mim? - Sim, senhor.

Eu pensei que nunca iria voltar.

Senhor?

Sim.

Caso venha a lhe dar prazer...

Bem, vamos l�.

O que eu quis dizer...

Voc� pode me chicotear, que quiser.

Todos os homens fazem isso com suas pequenas escravas de cama.

Punir voc� por qu�?

Eu n�o sei, senhor. Eles sempre acham um pretexto.

As jovens s�o m�s, elas dever apanhar ocasionalmente,

assim elas n�o se esquecem a quem pertencem.

- Voc� gostaria disso? - Eu n�o sei, senhor.

Senhor?

- Sim? - � noite, senhor...

Qu�? "� noite"?

A can��o que entra � noite pela janela...

- Voc� sabe de onde ela vem? - N�o, senhor. Mas n�o � daqui.

Que quer dizer?

Nem � �rabe nem berbere.

E ent�o?

� a Morte, senhor, que est� lhe chamando.

- Belkis... - Sim, senhor?

Voc� me ama?

Oh, sim, senhor.

Bom dia. Claudine est� aqui?

Ela esqueceu algo importante em casa.

Mas ela estar� logo aqui.

Voc� posa para moda tamb�m?

Sim, �s vezes eu poso para moda e outras coisas.

Mas n�o � minha profiss�o. Eu sou atriz.

Sim, eu sei. Eu vi voc� no palco ontem � noite.

Est� certo! Que horror!

N�o, mas o teatro n�o � minha profiss�o.

Ent�o, � no cinema?

Nem filme nem teatro. Eu sou uma... atriz de sonhos.

Que interessante! O que isso significa?

Como o nome sugere, e atuo nos sonhos das pessoas.

- Como isso � poss�vel? - Do modo mais natural.

O mundo dos sonhos � t�o real como o mundo consciente.

N�o sabia disso, John Locke?

Voc� quer dizer que � t�o material quanto palp�vel?

Na verdade, sim, talvez at� mais.

Suas perguntas s�o t�o estranhas.

De fato, o mundo dos sonhos parece muito com o outro.

� exatamente o dobro, seu g�meo.

H� personagens,

objetos, palavras,

medos, prazeres, dramas.

Mas tudo � infinitamente mais violento.

- Sonhos er�ticos? - Todos os sonhos s�o er�ticos.

Isso � que � empolgante para os atores.

Deve ser uma arte muito dif�cil.

Ela pode ser aprendida.

H� escolas, exames, diplomas.

E os n�o profissionais s�o rapidamente eliminados.

- O que � ensinado nessas escolas? - Todas as esp�cies de coisas.

Express�o corporal, treinamento de voz,

narra��o, psican�lise,

direito penal, pintura orientalista,

princ�pio da casualidade,

contradi��o como o motor da hist�ria.

Por que direito penal?

N�s devemos saber exatamente o que � legal e o que n�o �,

e a as penas decorrentes.

Os sonhos s�o estritamente monitorados pela pol�cia.

Voc� sabe, por exemplo, qualquer coisa envolvendo menores,

rapazes jovens ou pr�-adolescentes � estritamente proibido.

E � uma pena. Eu conheci uma garota linda e jovem

que queria representar num grande or�amento de sonho sado-l�sbico.

O escritor concordou, seus ais e advogados concordaram,

mas o produtor foi intransigente.

Envolvendo sua responsabilidade moral, leis do trabalho infantil,

riscos para a sa�de e n�o sei o que mais.

Moral! Ele n�o a m�nima!

Na realidade ele s� estava preocupado com o seu dinheiro.

Eu acho isso chocante, n�o acha?

Sim, sim, claro.

Mas... assassinato...

...� permitido? - Felizmente sim!

Incluindo homic�dio qualificado com sequestro e tortura.

Isso � tudo que � proibido.

Entenda, eles tentaram h� poucos anos.

Um governo esclarecido, durante per�odo eleitoral.

Que causou um tumulto na profiss�o.

Mas, com a amea�a de uma greve geral,

e ocupa��o do inconsciente coletivo,

os poderosos do governo voltaram atr�s. Imagine!

Ningu�m seria capaz de sonhar nada mais.

Os m�dicos disseram que o povo iria morrer em massa.

Isso � ignorando

que os ricos poderiam relocar seus sonhos para os para�sos on�ricos

que florescem no Oriente M�dio ou nas Bahamas.

Para salvar a cara, o governo decidiu

que os sonhos mais caros perderiam a cobertura completa do Plano de Sa�de.

Duplicidade de crit�rios como de costume!

Eu acho completamente inaceit�vel. N�o acha?

Certo. Claro. Mas...

diga-me, esses sonhos voc� inventa para as pessoas?

Ah, n�o, n�o em tudo! O p�blico nunca iria querer isso.

H� escritores especializados nisso.

Eles s�o chamados de onir�grafos.

E ganham a vida muito bem.

- Quem recolhe os direitos autorais? - A Associa��o dos Escritores, como de costume.

Ela se qualifica como representante mental dos direitos.

Mas os atores t�m suas ag�ncias governamentais

que distribuem royalties tamb�m.

Claro! Que estupidez a minha!

Confidencialmente,

Senhorita Hermione,

voc� j� trabalhou em meus sonhos?

Claro! Frequentemente mesmo!

Particularmente desde que est� vivendo em Marrocos.

De fato, foi por isso que me reconheceu

t�o rapidamente na �ltima noite,

e me chamou de Leila.

Lembra-se, John Locke?

A sola do meu p� em riste

verticalmente...

Lembra-se, John Locke?

Sr. Locke. Desculpe-me. Estou um pouco atrasada.

Pegaremos o fot�grafo no caminho.

- Est� cansado? - Sim, um pouco. N�o � nada.

Apenas dormi mal na noite passada.

- Voc� tem pesadelos? - Isso � uma palavra forte.

Eu tenho sonhos, como qualquer um.

Tenha cuidado. A pol�cia est� lhe observando.

Eu sei. Nada de s�rio.

Eu n�o concordo com voc�.

� o Comiss�rio Mahdi que cedeu seu carro e motorista.

Venha querido amigo. O mar est� lha chamando.

Aquele cego, mendigando ali, n�o � ele nosso motorista?

Sim, como voc� pode ver.

Aqui est� o t�mulo da pobre Gradiva.

Oito. Nove.

Quarto doze.

Dez...

Onze...

Treze.

Catorze.

Entre, John. Estava lhe esperando.

N�o, desculpe-me. � um engano, eu n�o estou achando meu quarto.

Mas eu n�o estava tentando for�ar a fechadura do quarto vizinho.

Al�m disso, eu n�o sabia que esse era seu quarto.

N�o, n�o se preocupe. Est� tudo como planejado.

Entre, j� que n�o pode fazer outra coisa. Entre!

N�o est� trabalhando de noite?

Ah, n�o. A sess�o de fotos acabou. Gra�as a Deus.

N�o, n�o quis dizer isso,

mas sua na estranha profiss�o como atriz de sonhos.

Que deve ter mais trabalho � noite, eu imaginaria.

N�o totalmente. Mas � noite, acontece. Estou trabalhando.

O que quer dizer, estou atuando neste momento.

Que quer dizer?

Voc� est� dormindo, John. No quarto doze.

Estou desempenhando um personagem no sonho...

que voc� t�o inocentemente entrou.

Na verdade, sou a indisput�vel hero�na.

Isso � um absurdo!

Estou procurando por meu quarto.

Definitivamente, n�o estou sonhando... ou ent�o prove isso para mim.

Basta olhar sua roupa.

Voc� sonha que � Eugene Delacroix

depois daquelas aventuras amorosas que gostava tanto.

E essa aventura sou eu.

Mas isso vai errado.

Cuidado!

Certo. Se isso for uma piada...

eu estou dormindo e tenho que voltar.

Oh, n�o, John, n�o � uma piada.

De qualquer modo, n�o h� quarto 12 nesse hotel,

que � um universo paralelo dos nossos sonhos.

No hotel "real", no mundo consciente,

que ficamos na ultima noite,

obviamente o quarto 13 � que falta,

como em todos os estabelecimentos

frequentados por turistas americanos supersticiosos.

Voc� mesmo disse isso quando chegamos

que o hotel em que voc� estaria dormindo

n�o avistava o mar, ao contr�rio desse.

Seu quarto provavelmente � do outro lado.

� isso que eu estou dizendo!

Estamos aqui do outro lado do mundo real.

Eugenio! Eugenio!

Voc� n�o est� armado, eu imagino.

Tome isto como uma esp�cie de talism�.

Este � um lugar perigoso � noite, Sr. Locke.

Eu n�o confio em motoristas cegos e estou desconfiado de seus presentes.

N�o � um presente, Sr.Locke.

Esse punhal lhe pertence.

Voc� deixou esse objeto comprometedor no t�xi azul

poucos dias atr�s.

Lembre-se!

Fot�grafos.

Limpe.

Belkis.

Belkis.

#� a Morte, senhor, quem est� lhe chamando. #

Por qu�?

Pequena Belkis...

por que fez isso?

Eu n�o sei, senhor...

TRADU��O P/ PORTUGU�S: PARENTE - BRASIL

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