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MUSEU DO LOUVRE, 1975
Que lindo!
Está a olhar para mim.
É Judas, mãe.
E o cão também.
É apenas um cão.
Vamos.
E isto?
Não sei.
Devem tê-lo posto na sala errada.
Gostam?
Isto não é nada para mim.
- Para mim também não. - Não!
Não é inferior aos outros! Não é indigno das outras obras! Vejam!
Quem decide o que pode ser exposto e o que é indigno?
E assim condena-o ao esquecimento?
Quem manda? Quem detém o poder?!
Quem detém o poder?! Quem?!
Porque é o poder que decide o que é bonito ou feio.
E a prova do que digo é que ninguém para à frente do meu quadro.
À frente de Giuseppe Margutti, que se revolta!
E que se recusa a suicidar-se para afirmar o próprio génio!
Não! Não acabarei como Van Gogh! Não! Não me mato com um revólver!
Viva a liberdade! Liberdade! Liberdade!
Liberdade! Liberdade!
Vocês, os franceses, e a vossa arrogância...
Apelo ao mestre!
Apelo ao grande patriota Vincenzo Peruggia,
que devolveu a Mona Lisa à pátria!
Viva a liberdade!
TERCEIRO EPISÓDIO
4 DE AGOSTO DE 1983
A enciclopédia da Camorra.
São os disparates dos jornalistas.
O epitáfio de Raffaele Cutolo.
Viste "La Repubblica"?
- Não, estive no escritório. Porquê? - Vai ler.
Começam a construir o mártir.
Fontana?
Trata bem a criatura.
Sim.
Deixe aí, obrigado.
E SE TORTORA FOSSE INOCENTE?
- Bom dia. - Bom dia.
Sentem-se aqui.
- O que lhe dizemos? - Como assim, o que dizemos?
- Que pergunta absurda! - Para não dizer uma estupidez.
Chega.
Sou eu.
Olá.
Porque te cortaram o cabelo?
Piolhos. Como na escola primária.
Estão zangadas?
- Furiosas? - Muito.
Tanto!
Temos de estar, é necessário.
- E a minha ventoinha? Foi útil? - Sim, muito.
Agora ofereci-a a um prisioneiro que está pior do que eu.
O que me trouxeram?
Desculpem, de repente, deu-me vontade de chorar.
Mas tenho de resistir porque não é...
Não posso permiti-lo.
Acontece.
Que hei de fazer?
Devolveram-me o relógio. Não sei porquê.
No primeiro dia, tinham-mo tirado, diziam que não se podia.
É preciso requisições para tudo.
Tudo exige requisições por escrito.
Uma lâmina para a barba, requisição. Um sabonete, requisição.
Requisições para tudo. Um mundo à parte.
Olá.
Querem?
Leva todos, leva todos.
- O que se diz, meninos? - Obrigado!
Também querem isto?
- Obrigado. - Obrigada.
Vais sair em breve com todas as honras.
Uma pessoa importante defende-te.
Finalmente.
O teatro do absurdo começou.
Já me faltam as palavras.
Fazia piadas de improviso.
Porque me olhas assim?
Não é nada, não é nada.
Não é nada.
Desculpa, foi uma pergunta idiota.
Têm todos os motivos para me olharem assim.
Não venham mais cá.
Desculpa, tens papéis para assinar.
Tens de dar...
... autorização a mim ou à Silvia para mexer nas tuas contas correntes.
Voltemos à realidade.
A pensão para a tua mulher, as miúdas, as contas, o crédito...
Tinha de assinar as 198 páginas do contrato quando me prenderam.
Enzo, és inocente!
Vamos assinar, se quiseres.
Enquanto os ricos forem mais ricos e os pobres mais pobres,
a nossa vitória é certa.
O capitalismo vai inevitavelmente autodestruir-se.
Mas é preciso paciência. O revolucionário tem de ser paciente.
Seria facial dizer que isso são tretas em que também já acreditei.
Erro total.
A verdade é que não sei o que te responder ou dizer.
O que é ainda pior.
Errei e fico por aqui.
Há finalmente alguém a defender-me.
PROBLEMAS NA AORTA
Tens tanto cabelo!
Volta a crescer.
Quanto tempo me vão manter aqui?
Enzo, li o relatório da enfermaria. Não estás bem.
O teu coração não está bem. A tensão alta, a aorta... Já sabes.
Sim, sim.
Com isto, podemos pedir prisão domiciliária.
- Aqui não te podem tratar. - Nem pensar.
Não é uma rendição, é um direito. Livre em tua casa.
Para veres as tuas filhas, a tua irmã e amigos.
Podemos montar melhor a tua defesa.
- E se me dão mesmo a domiciliária? - Oxalá.
Os jornais vão dizer que a consegui porque me chamo Enzo Tortora.
E se não ma dão,
é a prova de que sou da Camorra e que tentei pedir um benefício.
Os juízes ficarão ainda mais felizes.
Vou sair por ser inocente.
Lamento, não quero esmola de ninguém.
Está bem, nada de prisão domiciliária.
Mas estou preocupado, Enzo.
Em breve, serás interrogado pelo juiz de instrução,
que vai decidir o julgamento.
Quanto mais te defendem, mais eles se enfurecem.
- E então? - E eu sozinho não consigo.
A defesa precisa de reforços, não só alguém bom.
Está bem.
- Já tens alguém em mente? - O melhor de todos.
Mas pedimos transferência para perto da tua casa,
onde podem pelo menos fazer-te um eletrocardiograma.
Está bem.
Queria que ficasses com isto.
Deita-os fora, se quiseres.
Obrigado.
Todos estes postais lindos que me enviaram...
- Obrigado, obrigado. - Queria que ficasses com eles.
Posso perguntar-te algo que nunca perguntei?
Claro.
Porque estás aqui?
Ajudei a minha mãe.
- Obrigado. - Obrigado.
Muito bem. Obrigado por tudo.
Podemos escrever, se quiserem.
- Adeus. - Adeus, Enzo.
- Adeus. - Adeus, adeus.
- Adeus, Enzo. - Adeus, adeus.
- Adeus. - Adeus, Enzo.
- Adeus. - Adeus, Enzo.
Adeus, Enzo!
- Caso-me no próximo mês. - E quem paga as despesas?
- Ora quem? O esposo! - Claro.
Desculpe, posso abrir a janela?
- És casado há quê? - Há quatro anos.
- Quatro anos? - Sim.
Posso abrir um pouco a janela?
Tenho de pedir autorização.
O prisioneiro quer abrir a janela. O que faço?
Está bem.
- Abra, abra. - Obrigado.
- Tem de ir à casa de banho? - Não, obrigado.
- Sr. Tortora, uma foto! - Por favor!
Por favor!
- Quem é? - O Tortora.
O Tortora? É o Tortora!
- É o Tortora! - O Tortora!
Tortora? Força e coragem!
Mas para onde o levam?
Enzo, calma! Também estive preso. Uma pessoa habitua-se a tudo.
- Trafica cocaína. - Ora, deve ter fumado uns charros.
Quem nunca o fez?
Eu também já fumei charros, Enzo!
Portobello!
Enzo, liguei-te muitas vezes! A minha mãe adora-te, reza por ti!
Não tenhas vergonha, mostra-te.
Com licença.
Com licença, obrigado.
Dr. Tortora, quer água?
Não.
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA CENTRO DE DETENÇÕES
- Chegámos? - Sim, estamos em Bergamo.
A primeira casa à esquerda.
- O que deseja? - Viva. O Enzo Tortora está aqui?
Vai ver.
- Boa noite. - Boa noite.
Rinaldi.
O meu colega Corso. Somos fotógrafos do "Alba di Bergamo".
- Viva. - É o papagaio do "Portobello?"
É mesmo ele.
São animais muito sensíveis.
Percebeu que o dono está aqui e quer voltar a vê-lo.
Não podemos permitir animais na cadeia.
E se o pusesse ao seu ombro?
Fotograva-o e, amanhã, o Tortora via o seu papagaio na capa.
E ele vai ser libertado em breve.
Vai lembrar o seu gesto bonito e vai convidá-lo para o programa.
Papagaio? Papagaio?
Ótimo! E mais uma.
Olhe para o papagaio. Isso.
- Vê-se? - Sim. Perfeito!
- Muito obrigado, adeus. - Obrigado.
- Adeus. - Obrigado.
Com licença.
Café?
Sim, obrigado.
- Bom dia. - Igualmente.
- Bom dia. - Bom dia.
Junta-se a nós na missa?
Obrigado, padre, mas não sou crente.
Não importa se não acredita.
Eu acredito por si.
Está bem.
- Bom dia. - Obrigado e igualmente.
Bom dia, Sr. Tortora.
- Bom dia. - Trouxe-lhe o jornal.
- Obrigado. - Falam de si.
Obrigado.
Foi o Marechal que me mandou.
Seria bonito se você,
que é uma pessoa célebre e culta,
pudesse recitar uma ode ou um poema para a festa onomástica do diretor.
Que poema ou ode teria de recitar?
Teria de escrevê-la.
Poucos versos.
Desejar felicidades. Hoje é dia de São Roque.
Em rima. Ou até em versos livres.
Mas porque havia de fazer isso? Não o conheço, nunca o vi na vida.
- É o diretor. - Entendo, mas...
O senhor é um grande apresentador.
Nunca o ouvi errar.
Mas também li que não adora definir-se como apresentador.
Antes como um condutor.
Um autor. Um escritor.
É por isso que, em nome de todos os companheiros de azar,
lhe estou a pedir para escrever.
Meu amigo, seria uma aldrabice.
Diga ao Marechal que não...
Aliás, não lhe diga nada. Agradeça-lhe da minha parte.
Diga que é uma grande honra, mas não consigo.
Venha à festa ao menos. Para nós, seria muito importante.
Palavra.
- Está bem, vou pensar nisso. - Obrigado.
PAPAGAIO NA PRISÃO DETIDO COM ENZO TORTORA
FELICIDADES, DIRETOR
Desculpe, que prática é essa a que o senhor se dedica?
É a disciplina zen.
Do esvaziamento.
- Quer tentar também? - Não.
Ia fazer-lhe bem.
Bem, eu devia esvaziar toda a raiva que tenho cá dentro.
Mas não quero esvaziá-la,
porque esta raiva ajuda-me a não enlouquecer.
Entendo.
Senhoras e senhores, boa noite.
No Dia de São Roque, protetor dos apestados,
dos contagiados, dos marginalizados,
dos caminhantes e dos peregrinos,
dos calceteiros,
dos inválidos e dos cães,
no dia onomástico do nosso diretor,
o nosso companheiro escreveu uns humildes versos.
"Nas prisões italianas, temos visto coisas insanas.
"Apertadas, longas, feias, tortas.
"Deseja-se a morte.
"Pelos pontapés e pelos murros.
"Pelos percevejos e as baratas.
"Pelo pouco ar e demasiado odor.
"Pelo silêncio e o barulho.
"Mas aqui é diferente, caros amigos.
"Estamos presos, mas somos felizes.
"Aqui não estamos em San Vittore.
Viva! Viva o diretor!"
Posso perguntar-lhe porque está aqui?
Matei a minha mulher.
Há muitos anos.
Não voltaria a fazê-lo.
A medicina chinesa reconciliou-me com o mundo.
Deu-me serenidade. Até aqui dentro.
A vida é estranha.
Desculpe.
Posso ter a honra de dançar a valsa com um homem tão famoso?
- Eu sou um pouco antiquado. - Uma fotografia?
Sim, claro.
- Adeus, obrigado. - Obrigado eu.
MAURO GRESTI PROCURADOR-GERAL DE MILÃO
TORTORA, O TRAFICANTE DE DROGA
Diga-me, Sr. Margutti, porque não se dirigiu às autoridades
e foi contar tudo a um jornal?
- Os crimes primeiro denunciam-se. - Nem pensei nisso.
Nem pensou nisso?
E recebeu uma recompensa por isto?
Um pequeno prémio.
- Quanto? Diga-me, temos de saber. - Dez milhões.
Bem, isso é dinheiro.
Agora conte-nos tudo o que já contou ao jornal.
Anote.
Foi em novembro de 1979.
O Enzo estava a trabalhar numa festa da UNICEF na Tele Lombardia.
Eu fui a uma festa de beneficência,
porque levei o quadro que exibiram no Louvre 10 anos antes.
Era para ser um presente.
Uma doação para quem não tem a nossa sorte.
A dada altura, a minha mulher olha para mim e diz:
"Estão a cair-me as cuecas."
E então eu seguro-lhe na mão.
A Rosalba, de forma excelente com a mão,
segurava tanto na saia como nas cuecas
e, pouco a pouco,
saímos do estúdio
e demos connosco no corredor dos bastidores.
Eu sempre de mão dada à minha mulher.
E a minha mulher a segurar na saia e nas cuecas,
caminhámos assim, devagar,
ao longo do corredor,
até chegarmos a uma porta.
Entrámos no vestiário.
Vamos para trás da divisória.
E eu, de joelhos, assim,
começo a tratar do elástico das cuecas da minha mulher.
Nesse momento, alguém entra na sala.
O Enzo Tortora.
Juntamente com Tortora, entram outras três pessoas.
De fato. Um deles tinha uma mala.
E nesse momento o Enzo...
Desculpe, chamo-lhe Enzo por familiaridade.
- Mas sente-se, por favor. - Espere, deixe-me terminar.
O Enzo enfia a mão no interior do casaco.
E do bolso interno do casaco, extrai um saquinho de plástico
e passa-o a um desses três homens com gestos rápidos e nervosos.
Portava-se como um tipo duro.
E então essa pessoa abre esse saquinho de plástico,
enfia um dedo no saquinho de plástico,
extrai o dedo do saquinho de plástico...
Pó branco!
Eu e a minha mulher, ainda atrás da divisória,
imóveis, petrificados.
- Sim, mas... - Essa pessoa mete o dedo na boca.
E prova.
E depois acena como quem diz que é boa.
A outra pessoa dá a mala ao Enzo, que a abre.
E eu, atrás da divisória, vi uma série de notas ordenadas.
Todas bem embaladas.
O Enzo olha para o dinheiro, olha para os três,
e acena como quem diz: "Sim, está cá tudo",
fecha a mala e sai.
Já chega, Margutti.
Sente-se, por favor.
Não é possível para o nosso escrivão acompanhá-lo nesse seu teatro.
Nós precisamos de escrever.
Perdoe-me. É que eu vivo de imagens.
Sou um pintor em cada instante da vida.
- Sou artista até enquanto durmo. - Tudo bem, sente-se.
- Pronto. - E tem a certeza
de que se tratava do Enzo Tortora?
Claro, como já disse, tenho a honra...
Aliás, tinha a honra de ser seu amigo, mas agora...
- Não é uma honra. - Tenho de avisá-lo, Sr. Margutti.
Está a assumir uma responsabilidade formal
de uma acusação muito grave que está a fazer.
Não é preciso, eu sei. Eu sei, eu sei.
Mas dê-me um segundo, eu...
- Trouxe-lhe um pequeno tributo. - Um tributo?
Sim, um tributo.
Fui eu mesmo que fiz esta litografia.
Só fiz cem exemplares. E, bem, pode ser um tributo.
Não, por favor. Vamos seguir em frente.
Recomece o seu relato. Lentamente, por favor.
Com certeza. Lentamente.
Quem é você?
Giuseppe Squeri, estagiário.
Posso saber o que está a fazer?
- É ladrão? - Não, não sou ladrão.
Mas tenho de escrever e não tenho máquina.
- Nós, os jovens, lutamos por elas. - Portanto, está a roubar.
Não, não estou a roubar. Depois ponho-a no sítio.
Há quem as prenda às secretárias com cadeados.
Sim?
Vá, vá.
NEGRI FOGE PARA FRANÇA?
Enzo?
Olá.
- Apresento-te o Professor Dall'Ora. - Professor, obrigado.
Estou muito feliz por ter aceitado.
Vejo-o como um dever.
Eles não têm nada. Nem provas nem indícios.
- Oxalá. O que se diz desse Fontana? - Vamos ver.
É dele que depende o arquivamento ou o julgamento.
Professor.
O escrivão anotará tudo.
Bem, comecemos.
Giuseppe Puca. Conhece?
Não, só li o nome nos jornais, mas nunca o vi na vida.
Pertence à Camorra. Atualmente, está detido.
Encontrámos na agenda dele o seu nome e número de telefone.
Ouça, o meu número é público.
E está nas listas telefónicas da cidade de Milão.
Aliás, estou muito admirado,
a ser verdade que o meu nome está na agenda de um assassino,
por não ter sido avisado do perigo que corria.
E não faz ideia de por que razão o seu número está na agenda dele?
Não, naturalmente. Para mim, não tem explicação.
Poderá ser um erro de transcrição? Homonímia?
Ouça, posso ver a agenda desse Giuseppe Puca?
Não, por agora não é possível.
Seja como for,
não é do Puca, mas da sua companheira.
Assunta Catone.
Conhece a Assunta Catone?
Não, não sei quem é.
Posso pelo menos saber quando será possível ver essa agenda?
Acho que é nosso direito saber quando.
Quando? Não tenha ilusões sobre a nossa eficiência.
Sr. Juiz, há um homem na cadeia.
Acredite, fazemos milagres.
A agenda existe, podem acreditar. A seu tempo, vão vê-la.
Bem, você e os seus advogados
refutam as acusações todas e dizem que são calúnias.
E não faz ideia do porquê de tantas acusações?
Desde 17 de junho que me pergunto isso.
Não sei. Será loucura?
E neste caso, por exemplo, refiro-me ao Pandico.
Foi-lhe diagnosticada por mais do que um psiquiatra
uma forma grave de paranoia.
Ele quer dizer que as testemunhas não são credíveis.
- Nem o Pasquale Barra. - E não são os únicos.
Sim, Giuseppe Margutti, o pintor,
foi a testemunha-chave da fase instrutória.
O Margutti é difamador de carreira
e recebe dinheiro de jornais para ter visibilidade.
Já o fez antes.
E já é a terceira ou quarta vez que vende a sua versão.
Por quanto? Cinco ou dez milhões? E não será a última.
O Margutti deu o seu depoimento à procuradoria de Milão,
que o transmitiu a nós.
Então, pedimos que seja acusado de falso testemunho e calúnia.
Podem pedir o que quiserem, estão no vosso direito,
mas não devem dizê-lo a mim.
Quem decide a credibilidade das testemunhas é a procuradoria.
Mas vocês já decidiram.
- Desculpe? - Nada, nada.
Não escreva.
Escreva só quando eu disser.
O vosso ponto de vista sai todos os dias nos jornais,
preto no branco.
O ponto de partida correto devia ser a presunção de inocência.
Mas vocês partem de um preconceito.
O preconceito de que ele é culpado. E fazem-no antes do julgamento.
E usam os jornais para transformá-lo numa verdade pública.
Não nos podemos defender da opinião pública.
Aguentamo-la e esperamos que passe com o tempo,
sobretudo se nós, os advogados, formos sempre os últimos
a saber quem acusa e porquê.
- Parece-lhe possível? - É a lei. E funciona assim.
Nós fazemos a instrução.
Não temos de comunicá-la aos investigados.
O código atual é esse.
Já o que fazem e dizem os jornais não é connosco.
Com todo o respeito, quem passa a informação aos jornais?
Não somos de certeza nós.
Quero falar com o Pandico e o Barra.
Queria olhá-los na cara.
Ouça,
poupe-me as exigências, o senhor está a ser investigado.
E permita-me dar-lhe um conselho.
- Faça favor, sou todo ouvidos. - Tente colaborar mais.
Admita por exemplo que consome cocaína.
Não escreva. Para já não escreva.
O que está a dizer?
Ouça, não é crime.
Pode não ser crime, mas é uma insinuação gravíssima.
Seria visto pelo tribunal como um respeitoso reconhecimento.
Além disso, Tortora, a psicologia é importante.
E como sabe, a sua posição não seria penalmente agravada.
Certo?
- Não escreva. - Não, escreva! Escreva!
Nunca consumi drogas na vida!
Acalme-se, Tortora.
Acalme-se.
Os jornais dizem... Desculpe.
Dizem porque são a nossa única fonte.
Dizem que o Pandico afirma que houve uma afiliação do Tortora à Camorra.
E o Pasquale Barra confirmou-a.
E que terá começado com um corte.
Mas a perícia dermatológica não encontrou vestígios.
Aqui tem.
Decida você se o mete em ata.
Ótimo.
Já dissemos tudo.
Já que não há elementos novos.
Dr. Fontana, sejamos claros.
Não têm nada.
Zero mais zero mais zero é igual a zero.
Entendido?
Ouçam, trata-se de um processo com 800 pessoas investigadas.
Perdoem-nos quaisquer imprecisões.
Se aqui estamos, é exatamente para esclarecê-las.
Mas nem você nem o seu cliente querem ajudar-nos.
Seja como for,
garanto-vos que o meu escritório procederá com o máximo escrúpulo.
Adeus.
Admitir que consumo cocaína?!
Uma coisa destas dita por um juiz não é para ser denunciada?!
Procura algo a que se agarrar. Está visto que não tem nada.
E ainda mo pede?!
Mas se eu fosse drogado, iria dizê-lo a ele?!
O que diz, Professor?
Sejamos realistas, como sempre. Atacam de todas as formas possíveis.
Por princípio, não querem admitir o erro.
- Um juiz nunca pode errar. - Nenhum?
- Enforcou-se! - Depressa!
Deixem-me sair!
Declara-se totalmente inocente.
A profissão dele é representar.
Com aquele ar de pessoa de bem, enganou 28 milhões de italianos.
Os advogados contestam o depoimento do pintor, o Giuseppe Margutti.
Já foi condenado por calúnia.
Já vendeu a confissão quatro vezes, juntando disparates.
Mas antes do Margutti, vieram o Barra e o Pandico.
E muitos outros!
Que afirmam que o Tortora faz parte da NCO.
Ele pertence à Camorra.
O número 60 da hierarquia.
Fontana, sejamos claros.
A nossa acusação é forte.
Com a ajuda destes arrependidos,
estamos a montar um caso que ficará para a história.
E é isso que querem os napolitanos, os italianos!
E devemos-lhes isso. "Onde está o Estado? Onde está?"
Não aguento mais! É um pesadelo. "Onde está o Estado?"
- Concordo. - O Estado está aqui.
Amanhã de manhã, ouço a primeira testemunha.
Mas antes disso vamos tratar do processo.
Vamos recordar Marx. Karl Marx.
E é um democrata cristão que o diz.
"É a quantidade que faz a qualidade."
Tantos arrependidos sem recompensa? Porque o fazem?
Porque todos somos recuperáveis. Até a Constituição o diz.
E então?
- Sem preconceito. - Está bem. Eu mantenho-o a par.
Fique bem.
NÁPOLES ESQUADRA DE PASTRENGO
Barra, vem comigo.
- Quando me chamam a mim? - Diz a verdade.
- Aonde vais? - O que achas?
- O juiz chegou. - Chegou?
Senti a presença dele e olhei lá para fora.
Tem calma. Tem calma.
Declarou conhecer os pormenores
da afiliação do Enzo Tortora.
O Cutolo queria expandir a droga para a Lombardia.
E o Tortora trabalhava para o Turatello.
Passava a droga.
Mas o Turatello e o Cutolo já não se entendiam.
Então, o Tortora tinha decidido que queria entrar na Camorra,
porque acreditava que o Cutolo era a melhor aposta.
O Tortora queria sempre dinheiro. Pedia-o a todos.
Tinha muitas despesas, três mulheres, três filhas...
E foi expulso da televisão.
Marcámos um encontro em Milão,
na casa da Nadia Marzano, uma pessoa da minha confiança.
Escrevia-me para a prisão.
E o Cutolo deu-lhe o "maccaturo" e fez-lhe o juramento.
Espere, espere.
O que é esse "maccaturo"?
Doutor, o "maccaturo" é o lenço honrado da sociedade.
Vermelho. A cor dos chefes.
- Prossiga. - E é isso.
O Cutolo fez o juramento. Se quiser, repito-o.
"Traidores, sacanas, aldrabões e jovens da Camorra,
levantem o olhar e vejam uma estrela voar."
O Tortora jurou e assim se fez o batismo.
E como se faz o batismo?
Ah, com um corte no braço.
Mas pela perícia dermatológica,
o braço do Tortora não tem qualquer cicatriz.
Porque o Tortora não podia levantar suspeitas.
Fizeram-lhe só um arranhão na base do dedo.
- Tem a certeza do que diz? - Doutor...
Eu sou santista.
- Sabe o que isso significa? - Afiliado.
O primeiro nível da sociedade maior.
O mais importante de todos.
O Pasquale Barra era o número um na Camorra.
Para mim, primeiro vem a minha mãe, depois a NCO
e depois nada, doutor.
Tente explicar-se melhor.
Eu, Pasquale Barra,
cometi muitos homicídios para o Sr. Raffaele Cutolo
porque acreditava cegamente nele e na sua missão de proteger fracos.
Mas atenção.
Um dia, o Cutolo pediu-me...
Aliás, ele diz-me... É importante, ele que escreva.
Estávamos em prisões diferentes.
Manda dizer-me, ou seja, pede-me para matar o Francis Turatello.
E para mim isso era uma ordem. Eu faço-o, obedeço.
A surpresa amarga para mim
foi saber que o Professor, o Santo, negou ter-me dado essa ordem.
Disse que o fiz da minha cabeça. Mas como é possível, doutor?
Que motivo tinha eu?
A verdade é outra. Ele abandonou-me.
Como fez com o Sr. Pandico. Já não precisava de nós.
E como todos os homens,
assassino, sim, mas normal,
ativo o meu instinto de sobrevivência.
Porque havia de morrer por um traidor?
E então fui à procura.
E encontrei proteção na magistratura.
Não me sinto um traidor.
Sinto-me um dissociado, tal como disse o Sr. Pandico.
Eu dissocio-me do Cutolo,
que me traiu a mim e a muitos outros santistas,
mas traiu acima de tudo a lei sacra da Camorra.
Portanto, doutor, a questão é a seguinte...
Quanto ao Sr. Tortora, não deve haver exceções.
Em 1980, Tortora, além da RAI, trabalha na Antenna 3
e lança um apelo a favor das vítimas do terramoto.
A maratona junta cerca de três mil milhões de liras,
mas agora uma investigação do "Corriere Della Sera"
revela que parte desse dinheiro pode ter ficado para Tortora.
São acusações gravíssimas,
que à luz dos recentes acontecimentos judiciais...
Sacanas!
Sacanas!
A situação para Tortora, agora na cadeia de Bergamo,
está cada vez mais comprometida.
Lembremos...
Tortora foi preso na noite de 17 de junho
pelo núcleo operativo da esquadra de Via Selci.
Chega!
NOVA INVESTIGAÇÃO À COLETA PARA O TERRAMOTO
Este é o maior insulto de todos. Este supera todos.
Dei a alma por Irpinia.
A alma!
Porque me escolheram a mim como bode expiatório?
A razão... Qual é a razão?!
- Temos de processá-los já. - Já o fizemos.
Mas agora não é essa a questão.
Quero que perceba que o caminho corre o risco de ser muito longo.
E aqui vem explícito que você não está bem.
Sei que não quer que pareça que tem privilégios,
mas isto não se trata de uma estratégia de defesa.
Trata-se da sua sobrevivência.
Pense nas pessoas que gostam de si.
Enzo, peço-te.
Vamos pedir prisão domiciliária.
Ter razão morto é uma satisfação sem sentido.
Pediram prisão domiciliária. O Tortora é doente cardíaco.
- E é doente cardíaco? - Sim. Sim, sim.
Uma doença que se podia tratar bem na prisão de Bergamo.
A enfermaria é muito eficiente.
Querem criar um mártir.
E querem fazer de nós carrascos.
Se não está em coma, não cedam.
Há quanto tempo não faz exames?
Não sei.
Teria de perguntar à minha mulher.
Isto estava na casa de Giuseppe Puca. Diz que é sua. Confirma?
Sim, é minha.
Bem, Sra. Catone, conhece o Enzo Tortora?
Vou repetir. Conhece o Enzo Tortora?
Não tenho nada com amigos do Cutolo. Essa gente não vale nada.
Sou uma pessoa de bem.
O Puca era da Camorra e você não sabia?
- Não sei nada. - Mas é companheira dele.
Companheira?
Digamos que tivemos uma relação.
O senhor conta tudo à sua mulher?
- Escrevo? - Não, não escreva.
Sra. Catone,
corre o risco de ser presa.
Por associação a um criminoso. Isso agrada-lhe?
Desculpe.
Repito a pergunta.
Agora pense bem. É a última vez que pergunto.
Nunca conheceu...
... o Enzo Tortora?
Não.
Desculpe.
Acha que isto diz "Enzo Tortora"?
Aqui está escrito "Tortona". Sabe ler?
É um amigo meu. Tem um negócio de bebidas.
Até está o número aqui.
Ligue.
Muito bem, Pandico.
Neste número de telefone, não atende o Enzo Tortora, mas...
... um grossista de bebidas de Salerno.
Muito obrigado, mas, com todo o respeito,
isso não é um número de telefone.
E o que é então?
Trata-se de um código.
Apenas conhecido pelos traficantes associados à honrada sociedade.
Serve para identificar a quantidade da mercadoria
a enviar em cada expedição.
Preste atenção.
Vamos decompor.
Sete quer dizer que são necessários sete homens
para entregar um envio que vale...
... 99 milhões.
E o 201?
20 de janeiro, o dia da entrega.
É um código elementar. Basta um pouco de intuição.
É isto?
É isto.
Pondo de parte o número de telefone, confirma a versão do Barra?
O Enzo Tortora,
o homem do "Portobello", traficava droga para o Cutolo?
O Sr. Tortora foi afastado da RAI durante cerca de oito anos.
E porquê?
O presidente e o diretor geral levantam-se uma manhã
e o primeiro nome em que pensam é Tortora?
Porque não o Corrado? O Mike Bongiorno? O Pippo Baudo?
Como é evidente, a moralidade do Tortora
não era adequada à televisão pública.
O que quer dizer com moralidade?
Também mantém que o Tortora queria sempre mais dinheiro?
Exatamente.
Enquanto foi fiel aos princípios da organização, ajudámo-lo sempre.
Custa-me vê-lo assim, mas foi ele que o provocou.
Enganou todos.
Enganou a Camorra,
a RAI, a magistratura... Ele abusou.
Est modus in rebus.
É preciso moderação até quando se engana.
Surpreende-se.
Quem?
O mentiroso admira-se.
Olha-nos como se fôssemos loucos.
Sr. Juiz, o que ganho eu a acusá-lo?
Eu e todos os outros espalhados pelas prisões italianas?
"A patologia do Tortora é de gravidade dúbia,
"mas é suscetível a tratamento farmacológico.
"Não existe pois incompatibilidade com o regime de prisioneiro.
"Mantém-se no entanto o perigo de destruição de provas
"e a perigosidade do investigado.
Libertá-lo compromete as exigências de tutela da coletividade."
Disseram que não.
Sou um perigo público.
Vamos recorrer ao tribunal da liberdade.
Cara Francesca, não sei quando vou sair.
Mas é contigo que me preocupo.
Meu amor, pensa nisso.
És jovem, és o ser que mais amei.
Mas temos de ser lúcidos.
O Enzo é um homem que envelhece, que definha.
Sairá desfeito. De certeza doente.
Um gorila cansado.
Disse-te uma vez: "Vive."
E vou repeti-lo.
Tens plenamente esse direito.
Olá, Enzo! Gostamos de ti!
Libertem o Enzo! Libertem o Enzo!
Enzo!
Gostamos de ti!
Libertem o Enzo! Libertem o Enzo!
Obrigado!
Obrigado!
FIM DO TERCEIRO EPISÓDIO
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