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Original subtitles

IR�NE

No Natal, distribu�ram isto

�s idosas e aos idosos

do asilo onde estava minha m�e.

Ela o tinha ao seu lado e lhe perguntei se podia traz�-lo para Paris,

para ficar com ele aqui.

Ap�s a morte de minha m�e, sinto...

que me tornei... ins�pido.

Este � o primeiro, um pequeno, de 1970.

O segundo...

1971

O terceiro, 1972.

Dia ap�s dia...

releio meu di�rio

de 1970,

nada sen�o dificuldades e prova��es...

nada sen�o...

ideias ainda sem contorno sobre o cinema...

sobre a vida, o amar...

Que desordem.

Como sa� disto, meu Deus! Como consegui?

Comecei a ler...

o meu di�rio...

de h� 35 anos...

e tenho...

uma crise de gota.

P�s inchados.

Edema.

�dipo.

18 de Agosto de 1971.

Queixo-me que Germine...

minha m�e, a quem trato pelo nome,

ouve minhas conversas telef�nicas

para depois me aconselhar sobre como lidar com meu trabalho.

Est� diante do tocador, compondo seu rosto acinzentado.

Chora.

Sei que falo demais, solu�a ela.

Aquilo parte-me o cora��o. Fico tamb�m com vontade de chorar.

Ela enverga seu vestido bordado a fio de prata.

Eu pedira ao meu pai um casaco, uma camisa branca

e uma gravata amarela.

Tomamos o trem para ir ouvir os "Pescadores de P�rolas",

no Casino.

Germaine e Tony, meu pai, v�o nos buscar na esta��o.

Vamos at� Busset em um nevoeiro que nossos far�is perfuram.

Ir�ne pousa na cozinha o sal marinho e o azeite.

Sugere a Germaine que os utilize

e recebe a pouco simp�tiva resposta:

"Como bem sabe, n�o sou obsessiva".

O sal, o fermento

e, ao mesmo tempo, o perigo

destes di�rios...

� Ir�ne.

Chego a 1971

e ao m�s de Junho...

Minha garganta est�...

Restam 7 meses...

de vida...

a Ir�ne.

Quando vivia com Ir�ne

e escrevia diariamente neste caderno,

deixava-o sobre esta mesa.

Ela podia l�-lo, se assim o entendesse,

mas nunca soube se o fazia ou n�o.

Ao longo dos meses e durante dois anos,

pois escrevi durante dois anos.

Claro que nunca lhe perguntei.

Escrevia � luz deste candeeiro que ela me deu.

Ela o adorava por causa do p�ssaro.

Ela sabia coisas.

Em dois filmes

em que lhe pedi que escrevesse

duas sequ�ncias,

duas, ou mesmo tr�s...

Lembro-me de um pequeno di�logo. Tenho de encontr�-lo.

"Hoje quase liguei para voc� no escrit�rio"

"para rapt�-lo"

"s� por uma hora".

"Lembrei-me de um hotelzinho, o Hotel Crystal."

"Minha m�e ficava l� sempre quando vinha me ver em Paris."

"Quase reservei um quarto."

"Mas n�o o fiz."

Demora muito?

Sete minutos.

Hoje quase liguei para voc� no escrit�rio.

Para rapt�-lo.

Foi assim mesmo.

S� por uma hora.

Entre mim e Ir�ne.

Palavra por palavra.

Lembrei-me de um hotelzinho, o Hotel Crystal.

Minha m�e ficava l� sempre quando vinha me ver em Paris.

O que tem sua m�e com isto?

� mesmo ao lado de seu escrit�rio. Minha m�e costumava ficar l�.

Quase reservei um quarto...

Mas n�o o fiz.

Por que n�o?

Seu trabalho � importante, n�o quis perturb�-lo.

Que bonito.

Preferia que tivesse perturbado a mim.

� de voc� que falo!

Eu disse "perturb�-lo".

Estou lhe dizendo algo muito espec�fico.

Sonhei que Sophie Marceau me telefonava

e marcava um encontro em um caf� que conhe�o, o Lamartine.

Que me dizia que estaria � tarde, ao fundo do caf�.

Dizia-me que era filha de Ir�ne

e que tinha os cadernos

na m�o...

para o provar:

Depois dizia...

"Se quiser fazer um filme

"sobre ela

"eu serei a �nica a poder represent�-la."

Escondo-a aqui.

Mantemos uma conversa de longa data, h� mesmo muit�ssimo tempo,

embora nunca tenhamos nos encontrado.

Sempre desejei muito film�-la.

Onde estou eu agora com voc�?

Procuro uma forma,

uma maneira de film�-la

que transmita...

a maravilha que voc� �.

Ainda n�o a encontrei.

Est� dif�cil...

Vou ter de deixar a c�mara.

O carregador da c�mara...

Fitas-cassete, para o caso de podermos...

filmar alguma coisa.

O filme em progresso.

Um caderninho...

com a hist�ria do meu filme...

Conseguirei eu faz�-lo?

Ou acabar� por implodir?

Tr�s dias aqui...

sem sair.

Sem escapat�ria poss�vel.

Sem receios.

Um lago.

Um laguinho nas montanhas Vosges.

Lago de Retournemer.

Decidimos atravess�-lo a nado.

No meio da travessia,

tive uma c�ibra na perna direita.

Sozinho, teria morrido.

Ela me rebocou.

Era vigorosa.

At� a margem.

Minha vida futura, nos anos que se seguiram,

ficou resolvida.

� Ir�ne quem deambula, � ela.

Ronda a casa, ao ser�o.

Est� por aqui.

Vem me pedir algo.

Um filme...

um filme inteiro...

sobre uma pessoa desaparecida...

E depois ponho-me a pensar...

S�o apenas os cadernos que me levam a faz�-lo.

Mas sinto que h� mais alguma coisa

que me atrai...

na sua dire��o. Para me aproximar dela.

Procurando o banheiro,

encontro Fellini.

A sa�da.

O banheiro n�o est� assinalado.

Estou no cinema do casino de Trouville.

"Empurre". Empurro.

Deparo-me...

com "A Paix�o de Cristo".

A rua...

Os banheiros.

Percebo que meu projeto � demasiado rico,

disperso.

Decido que...

n�o seria m� ideia se ele se passasse inteiramente

em quartos de hotel.

Recordo uma mo�a que me disse h� tempo:

"Todos os pequenos Cavalier que foram por aqui abaixo."

Quando penso que ao morrer ficarei r�gido,

como algumas pessoas com quem fiz meu caminho.

Ao meio-dia, pe�o � recep��o um quarto at� �s 19h.

Por que estas grades? A fechadura?

Diverte-me imaginar Ir�ne,

que avan�ava por todo lado em passo firme,

por achar que tinha o rabo meio fl�cido.

Como filmar tal coisa?

Andarei eu em busca de uma imagem escondida?

Interdita?

Que considerarei essencial se a encontrar?

O meu esp�rito e o meu corpo

agradecem a Ir�ne a sua morte.

Ambos aprenderam algo

atrav�s do meu desespero

e tornaram-se melhores.

Tudo isto � muito bonito,

mas aguardo pela pessoa que filmarei

e que ser� o corpo do meu filme.

Irei eu ter contigo?

Regressar aos meus primeiros amores?

�s belas mulheres

que s�o inteligentes e vivazes

que tranquilizam o planeta

quanto � qualidade

da ra�a humana?

Domingo, 14 de novembro de 1971.

Ir�ne, na penumbra do quarto,

come qualquer coisa �s 5h da manh�.

Ou�o-a mastigar o p�o.

O vinho escorre pelo copo.

Ela dizia "rapazes",

ela dizia "mo�os"...

Quando dizia "homens"...

queria referir-se a cr�pulas.

Ela preferia fazer amor de manh�.

� noite, perturbava os rituais que lhe permitiam adormecer.

Muitas vezes,

ap�s um forte orgasmo,

come�ava a solu�ar.

A princ�pio, perguntava-lhe o que tinha.

Ela n�o sabia.

Repetia "eu te amo, eu te amo".

E chorava, chorava.

Deixei de lhe perguntar.

Secava-lhe as l�grimas e acariciava-lhe os cabelos.

Ela abra�ava-me com for�a.

N�o sei por que risquei isto

na �poca em que o escrevi.

Esta � a lanterna de Caroline,

a propriet�ria deste espa�o que me empresta.

E depois...

umas pedrinhas...

que encontrei tamb�m na casa dela.

As bolas.

Estavam por todo o lado.

O que ela mais desejava

era ter um filho.

Isto estava ligado

�quele...

de sua adolesc�ncia

que ela fora obrigada...

a descartar.

Depois teve o acidente.

Levaram-na para o hospital.

Retiraram-na do carro e levaram-na ao hospital de Versailles.

E a rasparam.

Tamb�m a rasparam l�.

E depois...

longe de vir a ter uma grande barriga,

meteram-na em uma mesa de opera��es

e...

Foi l� que ela...

deu seu �ltimo suspiro.

E ela me deixou.

Ela me deixou.

Com a pequena chama me deixou...

e salvou-me ao mesmo tempo.

Este edredom...

faz-me pensar bastante nela.

Esta esp�cie de imobilidade

que lembra um animal em guarda...

E de repente, ela se arranjava...

e...

mostrava-se em p�blico.

Mas quando estava s�...

pronto.

Quando ela estava em casa,

tinha...

uma eleg�ncia.

Era isso o que me agradava.

Ficava olhando para ela...

Ela tinha olhos castanhos,

com um olhar muito determinado.

Reparei, passados dois ou tr�s anos,

que se tinham...

tornado um pouco...

n�o diria opacos, mas toldados.

Como se estivessem ligeiramente velados.

Aquilo me perturbou.

E quando ela sa�a,

e a garra

n�o lhe vinha, lhe falhava,

ela ficava furiosa,

e queria logo voltar para casa.

� o barqueiro.

Conduza-a at�...

at� o rio.

Ele a far� atravessar, ele � muito grande

e a leva para o Reino das Sombras.

H� tr�s coisas que me ultrapassam

e quatro que n�o sei:

A senda da �guia nos c�us,

o trilho de uma serpente em uma rocha,

a rota de um navio no alto mar,

e os caminhos de um homem

por uma jovem.

Comprei isto para minha anfitri�,

flores para receb�-la.

E depois...

o problema...

� admitir...

que quando ela estava t�o mal...

quando ela queria desaparecer,

eu estava de tal forma...

envolvido, aterrado...

que queria salv�-la.

Salv�-la e ao mesmo tempo...

sentia que iria ser tragado de uma s� vez...

que desapareceria com ela

e por vezes desejei-lhe a morte.

Um dia, fomos passear,

ela caminhava � minha frente,

e havia pedras pelo ch�o.

Eu me dividi em dois, abandonei meu corpo...

apanhei uma pedra

e esmaguei-a contra a nuca dela.

Depois regressei ao meu corpo.

Deixei-me dormir, sonhei com uma imagem poderosa:

Tinha metido...

o meu di�rio de 1971

em cima do fogareiro.

Realmente � estranho.

A quest�o � que queria...

quem me dera ter conseguido...

trespass�-lo.

Destru�-lo. As imagens s�o fort�ssimas.

� demasiado doloroso.

E ao mesmo tempo,

h� um deleite...

Ir�ne querid�ssima...

Esta janela,

frente � minha secret�ria,

recorda-me que um dia...

ela entrou, foi direto � janela...

Trazia um cesto para salada, daqueles antigos,

para secar a salada.

Abriu a janela e sacudiu a salada.

Est�vamos no 4� andar, por cima do jardim.

Depois ela voltou-se para mim,

e sacudiu a salada

frente � minha secret�ria, ali no ch�o,

de olhos postos em mim.

Tomei algumas notas,

diretamente na secret�ria,

para n�o esquecer nada...

mas na verdade, esqueci tudo.

N�o me recordo...

desta balan�a.

Talvez estivesse l�.

Mas lembro-me muito bem

da saboneteira

e do espelho.

Estranhamente, � disto que gosto...

deste ranger.

Isto.

Ela dormia ao lado da porta.

Eu ficava ao fundo.

N�o.

Ela ficava ao fundo,

porque tinha dificuldade em adormecer.

Eu dormia ao lado da porta.

� espera, no m�s de janeiro.

At� a meia-noite.

At� o telefonema.

T�nhamos dormido...

neste quarto...

em casa de amigos.

Ao longo dos anos, dormimos l� muitas vezes, com regularidade.

T�nhamos...

almo�ado

e depois do almo�o

ela decidira dar um passeio

na floresta.

Eu disse-lhe, est� bem,

mas espere um pouco,

ainda n�o estou pronto.

Depois a ouvi, eu estava no quarto,

e ela mostrava-se impaciente, dizendo, sempre vem?

Ao que respondi, espere.

Espere um pouco.

De repente, ela disse, vou andando.

Meteu-se no carro.

Daqui j� n�o se v� a estrada.

O carro...

estava estacionado ali, do lado de fora do port�o.

�s seis, ela ainda n�o tinha regressado.

�s oito, tamb�m n�o.

Fizemos uns telefonemas,

para aqui e para ali, sem grande inquieta��o.

�s onze da noite...

nada.

Eu estava ali sentado...

no canto do sof�.

De repente,

tocou o telefone.

Acho que era...

o mesmo telefone.

E do s�tio em que estava...

vejo as pernas...

do dono da casa...

ceder...

debaixo dele.

Mais tarde soube

que lhe haviam contado sobre a morte da sua mulher...

porque o carro era dela.

N�o havia qualquer documento.

A pol�cia, tratava-se de um domingo, tivera de investigar.

Passados uns instantes, soube que n�o era sua mulher que havia morrido,

mas a minha.

Anunciou-o.

Lembro-me de ter soltado

um grito lancinante

e so�obrei.

Mais tarde...

rostos, visitas...

E fiquei...

s�...

neste quarto, neste quarto enorme...

nesta cama.

Acabei por adormecer.

Sim, debrucei-me. Ela estava ali...

N�o, n�o v� agora, espere um pouco. N�o temos pressa.

Ela disse, mas vou andando, ent�o v�, pronto.

Foi at� um pouco mais agressivo.

Vi o carro arrancar, vi-o claramente.

E o lugar deixado vazio, lembro-me claramente.

Agora s�o sete da tarde,

ela partiu �s tr�s horas,

pod�amos ainda pensar

que ela se tinha perdido, que se dirigia para o carro.

Mas eu me esquecia

de que est�vamos em janeiro

e que escurece �s cinco.

Na verdade, est�vamos horrivelmente inquietos.

Mas como fazer? Ela fora para a floresta de Rambouillet.

Como ir procur�-la? Onde procur�-la?

Acho que avisamos a pol�cia, acho que...

N�o me lembro, tenho de perguntar.

Mas n�o ouso perguntar, nem sequer quero faz�-lo.

Pronto...

� tudo.

Regresso ao presente.

Consigo respirar melhor.

Consegui arranjar o n�mero

do seu celular.

N�o consigo lhe telefonar.

N�o consigo...

dar esse passo.

Convid�-la a participar deste filme,

quando tiver um bocadinho, no seu tempo livre...

Poder�amos nos encontrar por alguns momentos

e depois voc� retomaria sua vida normal.

Conheci uma mo�a magn�fica, a Vanessa.

Veio at� aqui.

Ela tem a capacidade de passar de um momento a outro

da alegria � tristeza, � inexpressividade.

Ela me comoveu. Contou-me que o pai a visitara,

que se tinham metido no carro,

e ido ao cume de uma montanha

e tinham ficado a olhar a vasta paisagem juntos,

e que ela desejara que o momento durasse para sempre.

� duro.

H� tanto a dizer,

que estou a resumi-lo.

-Mas por qu�? -N�o sou suficientemente concisa,

mas espere...

Por que haveria de ser concisa?

Vai dar umas 25 p�ginas!

-Mas n�o � grave. -Pois n�o.

Leem-se bem.

E 25 p�ginas de ternura leem-se em um segundo.

� verdade.

Mas a verdade � que...

Ir�ne est� t�o viva e � t�o singular em minha mente,

que se torna imposs�vel reconstitu�-la usando-a...

ou a outra qualquer.

� isso, tenho de correr com elas todas, desembara�ar-me delas.

Elas nunca ser�o ela.

Nunca ser�o ela...

O meu telefone me chama.

� um sinal.

Ir�ne...

Quando �amos juntos para um quarto de hotel,

� indiferente para mim...

que me julguem obcecado. Eu o era.

Ela adormeceu.

Um homem s� n�o � nada, n�o tem subst�ncia...

Passa...

Mam�e, os barquinhos sobre a �gua

t�m pernas?

Vou visitar uma amiga,

minha e de Ir�ne,

e n�o lhe farei quaisquer perguntas.

Prefiro descer para as sombras...

a s�s.

Queda nas escadas rolantes.

Com a c�mara na m�o.

Fiquei com a cara ferida.

Pode-se dizer que...

olho a minha cara.

N�o tenho os �culos e...

por uma vez, vejo-me muito bem.

O meu novo e �ltimo rosto...

Chegou, n�o �, meu amigo?

Olhe com aten��o.

Olhe bem.

A queda na escada rolante,

enquanto filmava a esta��o da Rue de la Pompe.

Esque�a.

N�o fa�a este filme.

N�o fa�a este filme. N�o fa�a este filme.

Esque�a isso, esque�a isso. A queda foi um sinal. Pare.

Era a express�o dela quando eu queria film�-la.

Um pouco assustada, alguma inquieta��o que manifestava...

duas semanas antes das filmagens,

e ao mesmo tempo, gostava...

que eu a filmasse,

que me interessasse profundamente por voc�.

Tinha arranjado algum financiamento,

um apartamento onde ficarmos 4 ou 5 semanas,

tratava-se, na verdade, de n�s, os dois.

Uma investiga��o a dois. Um momento de avalia��o.

Sentimental, decerto, mas ao mesmo tempo...

talvez um pouco bruto, mas voc� gostava.

Uns dias antes das filmagens, o seu acidente.

O rel�mpago.

Um tra�o perdido para sempre.

Que horror!

Que horror!

Recapitulemos...

Filmo enquanto subo pelas escadas rolantes.

Calo.

Vou para casa.

Tr�s semanas depois, um forte ataque de zona.

Recordo-me que morava, que morava...

a 50 metros da esta��o da Rue de la Pompe...

quando conheci Ir�ne.

Tinha uma casa min�scula com uma s� assoalhada

quando a conheci.

Vivia a 50 metros da esta��o

onde quase...

desapareci, todo partido aos peda�os.

O cafezinho ainda est� l�!

O cafezinho antigo, dos anos 50.

Eu tinha um estudiozinho l� em cima,

ela estacionava o carro...

atr�s da escola...

e discretamente ia me visitar.

Sim, sim, sim...

Estou a 50 metros...

do local...

de meu nascimento.

A minha m�e deu � luz ao amanhecer

e o meu pai...

quis ir trabalhar, em Paris.

Tomou o trem,

� mesma hora,

deixando-a...

Nasci atr�s destas grades,

no n� 3 da Rue Charles Chotard,

em Vend�me.

Um peda�o de melancia,

no mercado da Avenue de Versailles atrai a minha aten��o.

Escavei-a quando cheguei a casa

e pus-lhe um ovo l� dentro.

Sou eu,

enquanto espero sair da barriga de minha m�e...

Houve um ligeiro problema, eu estava virado.

Estava atravessado, n�o saiu primeiro a cabe�a,

por isso tiveram de enfiar

no sexo de minha m�e...

uns ferros a que chamam f�rceps,

para me virar l� dentro.

Pronto...

Foi bastante horr�vel.

E conseguiram me tirar...

pela cabe�a.

O problema � que...

estraguei tudo.

Depois desta carnificina,

minha m�e n�o pode ter mais filhos.

Foi o que aconteceu a Ir�ne,

no in�cio de sua vida de mulher.

Em outras palavras,

para tirar a crian�a,

enfiaram-lhe uma sonda...

no �tero...

para alargar a passagem

e esvaziar o �tero daquela crian�a embrion�ria

e aquilo ficou meio sa�do

e bateu-lhe...

nas roupas �ntimas.

O pai era...

um estudante de medicina muito jovem.

Ir�ne costumava dizer que tinha apontado diretamente � burguesia.

Felizmente, o pai dela nunca soube,

sen�o teria batido nela.

"Teria me desfeito", dizia ela.

Por outro lado,

quando ela era pequena, ele a pegava no colo.

Ele era um homem forte.

Ele a pegava com tanta facilidade e meiguice,

que ela quase desmaiava.

Depois, todos aqueles homens

que queriam dormir com ela...

Ela acabava por...

Eles eram t�o insistentes, que ela concordava.

Mas s� de manh�.

Ir�ne levantou-se cedo.

N�o ouvira o despertador que pusera para ir � cl�nica

na Rue de Marignan.

Insuflaram-lhe as trompas.

Regressou triste � casa

pois n�o houvera contato entre o m�dico e ela.

Sangrei.

Ela ainda tinha esperan�a.

Ainda tinha esperan�a.

Ela conduz,

eu estou � sua direita.

Olho disfar�adamente

para o p� no acelerador.

Ent�o ela para,

estamos numa casa...

no fim-de-semana em que a conheci.

Ela tinha um lugar no carro e me deu carona para Paris.

Paramos e demos um passeio

em um bosquezinho...

Fomos tagarelando...

E depois, muito suavemente,

enquanto caminh�vamos, ela me deu o bra�o.

Depois voltamos ao carro.

E chegando a Paris...

Qual � o...

Passo em minha casa,

levo-o primeiro para casa... O que havemos de fazer?

Acabou por se revelar mais r�pido,

deixar primeiro a mim...

Na verdade...

ela subiu para beber um copo...

Ficou l� e foi-se embora de manh�zinha.

Quando saiu, disse que depois me ligaria.

Dormi, esperei.

Olhei para o telefone.

N�o me atrevi a sair,

n�o fosse ela telefonar.

Depois, acabei percebendo

que ela prosseguira com a vida dela e que aquela boa oportunidade...

levaria tanto tempo a regressar como uma estrela nova.

Mesmo assim...

esperei, e um dia ela me ligou e disse, vou para as Vosges.

E fui com ela.

At� o laguinho

de Retournemer.

Aquela esterilidade que tanto a atormentava...

mas que a mim, enquanto homem,

me convinha.

Regularmente,

ela censurava-me duas coisas:

A primeira era t�-la feito beber vinho.

Eu dizia-lhe, ou�a...

o vinho � o sangue de Cristo.

Nos Evangelhos, voc� sabe t�o bem como eu,

ele serve o vinho...

e diz aos disc�pulos

"Bebam, � o meu sangue".

A segunda queixa dela

foi a de t�-la feito perder a f�.

Ao que eu lhe respondia, ou�a...

o que eu quero � que acredite em voc� mesma,

pois est� sempre dizendo que faz tudo mal.

Nesse ponto, ela come�ava...

a refletir e dizia, voc� me confunde.

Voc� me confunde.

E me dizia uma frase magn�fica:

"Quem me dera conhecer o meu segredo".

Quem me dera conhecer...

o meu segredo.

Tamb�m gostava muito...

Podia morrer de boca aberta, sim, senhor.

Adorava-os.

Ela sabia que l� dentro havia qualquer coisa...

algo dif�cil que ela n�o conseguia...

Um dia, est�vamos jantando na cozinha

e Ir�ne me disse:

Aconteceu-me uma coisa, vou lhe contar uma hist�ria.

Fui jantar fora.

Voc� nunca est�. Est� sempre em filmagens ou numa "rep�rage"...

Fui a um jantar

e a conversa era toda sobre...

o amor e os h�bitos das pessoas.

E um homem disse

"O que eu gosto � de pagar a mulheres,"

"mas n�o a profissionais."

E nesse momento, o olhar dele cai sobre mim

e ele repara que baixo os olhos.

Telefona-me,

convida-me a ir ter com ele,

e eu vou.

E n�o correu muito mal.

N�o gostei muito dele, quando o vi,

mas n�o foi desagrad�vel.

Ela me pergunta, n�o lhe incomoda que lhe conte isto?

Sabe por que lhe conto?

Porque quero que me bata.

Mas tenho de o merecer e agora o mere�o:

Eu fico...

Fico im�vel.

E de repente, ela fica...

enraivecida...

Atira o prato ao ch�o...

Depois, abre o arm�rio e quebra a lou�a toda.

Deslizo para fora e caminho pelas ruas.

N�o quero perder nenhuma parte do meu amor.

Onde arranjei a energia alguns dias ap�s sua morte

para registar a sua ladainha er�tica?

Hoje n�o conseguiria reconstitu�-la.

N�o omiti uma �nica exclama��o,

um �nico grito.

Escrevi tudo.

Mas as palavras esfriam de esta��o para esta��o.

Neste momento, mal suscitam uma emo��o.

S�o a morte, e deixaram de ser aquela ilus�o de alguma vida ainda,

que eu tentei manter enquanto tal me foi poss�vel.

"A Dama das Cam�lias".

Ela v� a Greta Garbo, morrendo na televis�o,

nos bra�os de Armand.

Est� sentada contra a parede,

sobre a cama.

Faz muito calor e estamos despidos.

E eu tenho a cabe�a em seu colo

e estou atravessado na cama.

Vejo-a de baixo para cima,

o seu rosto, cheio de l�grimas.

E sinto contra a orelha o estremecer dos solu�os no seu ventre.

As l�grimas escorrem-lhe pelo peito e caem-me na cara.

E depois, acaba a trag�dia.

Ela diz, que estupidez. H� tanta gente que n�o se ama,

que quando o amor acontece,

� uma estupidez n�o funcionar.

Encontrei esta fotografia,

tirada por mim uma noite...

Ir�ne consola o c�o, que est� doente.

Viria a morrer dois dias depois.

Nunca vi um rosto t�o dilacerado pelo sofrimento como o de Ir�ne.

E quando vimos "A Dama das Cam�lias",

a minha cabe�a estava precisamente no mesmo lugar que a do c�o.

Tenho poucas fotografias dela,

porque preferia guard�-la viva em minha cabe�a

a mant�-la imobilizada em uma fotografia.

Ele diz-lhe que vai deix�-la em breve.

Eu o percebia, mas ela...

n�o o via.

Lembro-me que era o sof�

da sala.

Ir�ne, com 15 anos, com a m�e � sua direita,

e o pai dela entre a m�e e o pai da esposa.

O pai dela adorava os sogros

porque os seus pais tinham morrido, asfixiados por um fog�o.

Tinham ido de f�rias a Sainte-Maxime

e, encorajada pelos amigos,

Ir�ne chega a Miss Sainte-Maxime, Miss Cote d'Azur e Miss Fran�a.

Ela tinha 15 anos, de acordo com a inscri��o atr�s, com a letra da m�e.

O pai dela era fabricante de caldeiras.

Mas comprara uma camionete usada,

e come�ara a transportar m�veis,

acabando por abrir uma loja de m�veis de cozinha e mobili�rio r�stico.

A m�e trabalhava numa charcutaria.

Na Bretanha, mais tarde.

N�o muito antes de sua morte.

Ela olhava para mim...

�s vezes...

assim.

Ela esperava.

A casa onde soube da morte de Ir�ne

foi vendida pela nossa hospedeira sempre atenciosa.

J� n�o consigo...

ver e ouvir Ir�ne...

se deslocando.

Eu estava nesta janela.

Quando ela disse, venha!

Eu disse, espere um pouco, mas ela foi-se embora.

Meteu-se no carro aqui,

e partiu.

Nunca mais regressou.

Saiu...

Saiu por este port�o.

Dois minutos ap�s sua partida,

no cruzamento seguinte,

bateram contra ela.

Ela mant�m-se l�cida

e diz aos socorristas como retir�-la da carroceria.

Passavam poucos minutos das tr�s.

Ela n�o lhes deu o telefone do lugar onde eu estava,

o telefone da dona do carro,

pensou que ia se safar...

Mais uma vez pensou:

"Sou um fracasso, fiz mais uma asneira".

"O drama: Ap�s a colis�o, Ir�ne � retirada moribunda"

Edouard Manet, Museu das Belas Artes de Lyon,

doa��o de Jacqueline Delubac.

� precisamente o olhar de Ir�ne.

Nunca o encontrei em outro lugar.

O pai dela costumava dizer:

"Este dinheiro, ganhei-o, transpirei-o".

Os comunistas trabalham.

S�o oper�rios como eu.

Mas eles v�o aos caf�s.

Tinha um rev�lver para se defender em caso de assalto,

e dizia:

"Disparo contra o teto depois,"

"prefiro ser o carniceiro do que o vitelo".

E dormia...

com...

O rev�lver...

debaixo da almofada.

Quando ela era crian�a e adolescente vivia aqui.

Os pais tinham o apartamento do primeiro andar,

na esquina da Anunciada com a Mont�e des Carmelites.

Era filha �nica, muito vigiada,

e para se defender aprendeu a levar uma vida dupla.

Um dia estava em uma festa com jovens de um bairro chique.

Desapareceram umas joias, e os pais perceberam.

As suspeitas reca�ram logo

sobre a jovem da classe oper�ria, sobre Ir�ne.

O namorado defendeu-a debilmente.

Revistaram-lhe a mala

e penso que...

Houve uns tipos...

que depois o pagaram muito caro.

Acho que...

Ir�ne se sentia encarcerada

em sua cidade natal, Lyons.

Queria partir.

Bebi Beaujolais, acabei, tenho de falar baixinho.

Na cidade dela h� tr�s dias. Sinto-me entusiasmado, mas oprimido.

Vejo-a constantemente.

Quando crian�a, jovem

e mesmo com a idade que teria hoje.

E ao mesmo tempo,

sinto que posso, nesta cidade, quase tocar o sentimento,

ainda que de forma obscura do seu sofrimento profundo.

Um sofrimento profundo.

Que ela nunca ultrapassou.

Ela era profundamente aberta e quase m�stica

e quando crian�a

pediram-lhe uma reda��o sobre um sonho.

E ela contou uma hist�ria

de uma crian�a que, de repente...

um rapazinho que se transformara em avi�o.

Era o rapazinho que ela amava.

E deram-lhe um zero.

Abandono Lyons, a cidade de Ir�ne.

De volta ao meu patiozinho, encontro um p�ssaro morto na mesa,

a minha crian�a de Chernobyl,

Saddam Hussein enforcado,

fotografado por um celular,

e ela, em medita��o,

que procura alguma luz...

e contudo encantadora...

Livros.

Medita��o.

Joelhos.

E ombros.

Tantos anos depois, sinto-me quase seguro

de que Ir�ne queria morrer por uma raz�o que s� ela conhecia

da qual sabia nunca vir a falar a ningu�m.

Da qual n�o poderia falar.

Os meus cadernos.

O de 1917 que eu restaurei,

depois de o ter queimado.

Felizmente

n�o o queimei completamente.

Abro-os.

Procuro por ela.

Dia 6 de Outubro de 1971.

O pai de Ir�ne diz que ele teve sucesso

e que ela � uma incompetente.

N�o � o melhor momento para visitar Lyons.

Ir�ne partira de l� para se tornar algu�m.

N�o regressar� de m�os abanando.

Ir�ne em um antigo Peugeot,

o convers�vel de Marianne.

Traz o seu azeite, o seu sal e o seu vinho.

Passou o dia com uma neura terr�vel.

Minha m�e mandou um cheque de 600 francos

que ir�o diretamente para o fisco, diz ela.

Amea�a uma crise.

No jantar, ataco o vinho do Alain.

Sinto a cabe�a entorpecer...

Ir�ne gostava muito que eu deixasse crescer o bigode.

Ir�ne ouviu no r�dio

o Lederman gabar-se dos seus saltos altos

que tornam altos homens baixinhos.

Conta-me sem se desmanchar a rir,

para que possa ela tamb�m andar de saltos altos.

"Jean-Louis tamb�m os usa".

Esta manh�, ouvi Ir�ne levantar-se.

Pelo seu andar, senti que n�o estava bem.

Aproximou-se de mim, com a cara descomposta,

e disse-me:

"Tenho vontade de me suicidar, � terr�vel".

Eu disse: "Eu a amarro".

Respondeu-me sem ilus�es:

"Voc� ficar� livre de mim".

Acabo de chegar a um castelo

pertencente a um colega de escola.

Creio que algo me espera aqui.

Hesitei entre uma cela em um convento e este lugar.

Praticamente, atirei uma moeda ao ar.

A cama do meu anfitri�o,

do meu colega de inf�ncia.

Ele torceu um tornozelo em Paris portanto n�o est� para me receber.

O que hei de fazer...

de t�o vasto espa�o, eu que estou acostumado...

a pequenos apartamentos urbanos?

A senhora da casa, desaparecida.

Querida, desaparecida.

O meu amigo conhecia muito bem Ir�ne

quando viv�amos juntos.

Disse-me amavelmente que fosse � cave escolher um vinho,

mas eu n�o fui.

Ap�s a morte de sua filha Ir�ne, Joseph costumava dizer:

"O que fiz eu a Deus para merecer isto?"

"O que lhe fiz eu?"

Eu pergunto-lhe a mesma coisa.

Preciso acender umas luzes antes que escure�a,

sen�o ainda caio escada abaixo.

Acendo-as, preparando-me para a noite.

Estas escadas s�o assustadoras.

Os �ltimos dois degraus n�o se veem no escuro.

Como ela tinha um sono muito leve,

cada um de n�s tinha o seu quarto.

E quando fic�vamos em hotel, ped�amos um quarto com duas camas.

Para termos um quarto para cada um,

tivemos de alugar uma casa mais cara.

A certa altura, para conseguir pag�-la, tive de fazer an�ncios.

O que nos separou foi que...

ela esperava tudo de mim

e eu tinha a impress�o

de que n�o lhe exigia nada.

Somente que existisse, que l� estivesse.

Lembro-me quase com ternura

de sua express�o teimosa,

tola,

quando negava o �bvio,

jurando que n�o era verdade,

pela sa�de de algu�m que eu estimasse.

Costumava dizer-me:

"Sabe, talvez eu me sentisse melhor"

"se voc� fosse um realizador famoso."

"Tenho a coragem de lhe dizer, sei que � lastim�vel."

"Por uma vez sou franca, eu o admito."

"Isso me faria sentir bem, � idiota,"

"mas � assim mesmo".

Aquilo me dilacerava,

estar na origem do seu bem-estar, do seu mal-estar...

de ser sempre culpado, mas respons�vel.

Francamente, chateava-me.

Queria acabar com aquilo.

E aguardava a separa��o.

Que ela viesse de fora,

sendo eu incapaz de provoc�-la eu pr�prio.

Encontrei este desenho e pensei comigo...

que era um sinal.

Que eu tinha de ir.

L�.

"Onde est� a maior falta?"

"Incis�es no leite Trufas coalhadas"

"Encontrar perd�o."

Estou acordado desde as quatro.

Encontrei,

aqui...

"Monplaisir" de Paul Morand.

Estou sozinho neste castelo h� 15 horas

e posso deambular...

o meu esp�rito...

Apanho a embarca��o do barqueiro, atravesso o rio...

e alcan�o o Reino das Sombras.

Encontrei o barqueiro.

Ele leva-me no seu barco.

Atravessamos o rio.

Entramos no Reino das Sombras. Eu a procurei

e encontrei.

Voc� estava � minha frente,

muda,

atenta, um pouco ausente, falei depressa com voc�

antes que voc� desaparecesse.

Lembrei-lhe de quando fez aquele jantar,

fez-me beber champanhe.

Uma garrafa e depois outra.

E estava...

irresist�vel.

A dada altura, olhou para mim, lembra-se? Lembra-se, sim.

Olhou para mim

e depois...

pediu-me...

que a sujeitasse a uma certa humilha��o.

Voc� disse:

"� voc� quem tem de fazer isso,"

"n�o outro,"

"porque � a voc� que eu amo".

Meu cora��o batia desenfreado, n�o sabia o que responder...

Esfor�ava-me por deix�-la,

voc� fez uma tentativa de suic�dio,

o g�s escorrera pelas escadas abaixo,

o quarteir�o por pouco n�o foi pelos ares...

E depois aceitei...

entrar em sua c�mara secreta.

Levou-me pela m�o...

E depois o seu rosto...

O seu rosto estava...

t�o entregue, t�o apraz�vel

Irradiava uma luz pr�pria,

que sa�a, desta feita, unicamente de voc�.

Isso foi, para mim,

um momento de felicidade absolutamente �nico.

Eu tinha esperado...

Voc� tinha esperado...

Esperou, esperou por mim.

E depois sua morte permanece.

Sua morte a seguir.

T�o r�pida.

Uma felicidade t�o curta.

Hoje, pe�o-lhe perd�o.

Vim pedir o seu perd�o.

Vim pedir-lhe perd�o.

N�o v� embora j�.

Queridas feridas de Ir�ne

que me mant�m ainda em alerta,

S�o suas e s�o nossas.

Com Ir�ne escreve-se Reine (rainha)

Ou Renie (renegar).

Ela renega.

N�o mais iremos ao bosque

J� cortaram os loureiros

Uma beldade vem ante n�s

Para todos ceifar

Entre na dan�a Veja como dan�amos

Cantar, dan�ar Beijar quem lhe aprouver

Foi ontem.

Dia 14 de Janeiro de 1972.

Dois dias antes de sua morte.

� dia de Santa Nina.

Sentamo-nos no balc�o

para a estrela do seu filme, "Faustine".

� sa�da, cruzo com Ferry

que me conta que produzir� meu filme sobre Ir�ne.

No interior de minha pele, desmaio de prazer.

Ir�ne mant�m-se um pouco � parte,

discreta e adequada.

Os dados est�o lan�ados, � maravilhoso.

No hospital de Versailles onde Ir�ne foi operada

e onde morreu,

estavam prontos para parafusar a tampa do caix�o.

Eu tinha de estar presente para confirmar que ela estava l� dentro.

Vieram buscar-me de carro no p�tio do hospital.

E fiquei im�vel, n�o conseguia sair.

Meu irm�o, que estava comigo, saiu por mim.

E identificou-a por mim.

Confirmou que era ela e eles parafusaram a tampa.

Se eu tivesse visto seu rosto morto, talvez n�o tivesse feito este filme.

Espero por um trem para Paris.

E sou o �nico.

Dia 13 de Maio de 1972.

Cinco meses ap�s o acidente.

Tento pensar agressivamente em todo o mal que ela me fez.

Que rem�dio est�pido.

Olhadas hoje, as maldades parecem-me maravilhosas.

Eram a vida.

Tal como aquilo a que eu a sujeitei.

A bofetada que lhe dei no dia do nosso casamento, na manh� da boda,

transforma-se num gesto do tempo da luz.

Trai��o, injusti�a, covardia

s�o t�o preciosos como o amor, a ternura, a for�a.

Ela achava a vida dura.

Saboreava cada pequeno deleite.

Tinha uma ingenuidade face � felicidade que me transportava.

Festej�vamos isso em um bom restaurante,

o Lou Land�s, por exemplo.

Ela dizia: "Quando eu for feliz, voc� ver�".

Se eu fosse feliz...

S� me interessa viajar quando for feliz.

Eu tinha a certeza que ela o seria um dia.

Estava obcecado.

Perdia-me nessa obsess�o.

Domingo.

Ou�o os sinos.

Ap�s a morte de Ir�ne,

minha m�e conservou sempre uma foto dela

na sua mesa de cabeceira.

Sempre achei...

que era para me dar prazer.

Mas hoje penso...

de outra maneira.

Agrade�o a ela...

duplamente.

Tradu��o: SARA DAVID LOPES

Adaptado para o portugu�s do Brasil

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