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Sou Claude Alphand. Por quem você estava esperando?
Um homem de voz fria...
...quarenta e poucos anos, com olhos tristes e um sorriso ríspido.
Os tempos mudaram.
— Você fuma? — Não antes do meio-dia.
Quer que eu te mostre a casa?
Acho uma boa ideia.
A casa é sua?
Por aqui é conhecida como "o château".
É uma propriedade ancestral.
Como pode ver, não mexi em muita coisa.
E por que mexeria?
Por aqui.
Eu tinha decidido vender. Não planejava morar aqui.
Mas depois de um tempo, acabei gostando.
Também mobiliaria alguns quartos.
— Gostaria de morar num lugar assim? — Eu nunca tive um château.
Eu trouxe alguns pedreiros.
Mas há três semanas eu os dispensei. Fiquei exausto disso tudo.
Fica para o próximo verão, veremos.
Mês passado, uma imobiliária estava de olho aqui.
Eu disse que não tinha intenção de vender.
Estes são os meus aposentos.
A imobiliária insistiu, fizeram uma proposta interessante...
...queriam até agendar uma reunião aqui.
Eu não respondi, mas depois de tanta insistência, fiquei curioso.
A oferta deles era um valor bem acima dos preços atuais.
Claro que não estou desesperado por dinheiro.
Então qual era o problema?
Certas pessoas começaram a aparecer.
Mais de uma vez, por sinal.
Senti que não me livraria deles facilmente.
Te assustaram? Entendo, é por isso que...
Sim.
E agora, minha presença traz alento ou não?
O problema não era só a imobiliária.
Invadiram a casa em duas noites!
Uma noite em junho e outra recentemente.
Nas duas vezes eu não estava em casa.
E quanto ao guarda?
Ele existe, mas é meio capenga. A mulher dele veio para fazer a limpeza.
Levaram alguma coisa para...
...parecer um roubo?
Todos sabem que não há nada de valor a ser encontrado aqui.
Talvez tenham entrado na casa errada.
Mas duas vezes seguidas?
Minha propriedade vai até o rio.
Tem até uma piscina.
Então não tem tanto do que se queixar, hein?
Às vezes fico entediado.
Esta parte está totalmente esquecida!
Embora eu goste, está toda coberta por heras.
Por onde entraram?
Há muitos caminhos.
Acho que arrombaram a fechadura.
E na segunda vez, a janela estava quebrada.
Cuidado onde pisa.
Aqui é o pombal.
Tem um ar quase ritualístico.
Os grupos de turistas sempre terminavam o passeio visitando o pombal.
Século XVI. Prédio histórico. Gosto muito deste lugar.
Costumo passar o tempo por aqui.
Converso com outros entusiastas de rádio amador...
...na Escócia, na Noruega...
Que interessante!
6.600 nichos, mas nem sequer um pombo.
Imagine 6.600 pombos te observando!
Incrível. Era só isso?
Não, tem isto também.
Outro dia assustei alguém lá embaixo, no rio.
Ficou parado lá, observando.
Assim que me viu, desapareceu.
Um homem baixinho, careca, mas não o vi direito.
Não paro de pensar que existe uma conexão entre todas essas coisas.
É como se fosse uma espécie de quarentena.
Eu gostaria que desse uma olhada.
Não há novidades, exceto por aquela imobiliária.
Nada disso parece lá muito emocionante.
Mas, para falar a verdade, estou preocupado.
— No que está pensando? — Nada, por enquanto.
Um drink?
Não antes do meio-dia.
A única coisa que preciso te mostrar são as cartas da imobiliária.
Eles invadiram o pombal?
Não. A fechadura estava intocada.
Ou talvez eu esteja imaginando coisas.
Você dedicaria um tempo a isso?
Por exemplo, uma semana?
Eu cobro 700 francos por dia de trabalho, além das despesas.
Perfeito.
Pode ser um cheque de 5.000?
Está ótimo.
E se eu não conseguir resolver o enigma?
Simplesmente esquecemos.
Pelo menos teremos nos conhecido.
Quem são eles?
Parentes relativamente próximos.
E quem é este?
O orgulho da família.
Tio do tataravô do meu bisavô.
Ah, sim, sim... Cyrano.
— Então aquela história do nariz... — Pura lenda, claro.
Um bravo soldado e filósofo.
Um teórico brilhante.
Mestre nas ciências ocultas, e além de tudo, um poeta consagrado!
Ah, sim, "Viagem à Lua".
Exato.
História popular, Monsieur De Malle. Vendia até no metrô.
— Quem me recomendou? — Flora Thibaud.
Uma amiga que trabalha no rádio.
— Ficou louca? Você vai cair. — Mas você disse ao Jean...
Agora eu me lembro.
Sei que você vai me esquecer.
Não vai mais escrever para mim.
Agora me lembro.
Não vai mais escrever para mim.
Ao longo do leito sinuoso do rio.
Pelos trilhos irregulares do trem, de um vilarejo a outro.
De um mestre de aldeia a outro.
Melhorou assim, Chloe.
Mas busco um tom mais natural, que soe mais passional.
Podemos tentar mais uma vez?
Está bem.
Ao longo do leito sinuoso do rio.
Pelos trilhos irregulares do trem, de um vilarejo a outro.
De um mestre de aldeia a outro.
Não foi nada mal dessa vez. Amanhã recomeçamos.
Guarde esses três rolos e ligue para o Robout.
Obrigado, Pierre. A gente se vê.
O que você tem hoje?
Não sei. Sinto tonturas.
Eu te levo. Já volto.
Arnaud, como vão as coisas? No pombal... está tudo bem.
Não, é sobre a Chloe.
Melhor você vê-la esta noite, ela tem algo.
Sei lá.
Certo.
Gostou do meu detetive?
Não saia. Vá dormir.
Vejo você.
Sim, sim. Estava dentro do carro. Entendi.
Sério? Chegou lá? Como?
Ah, sim. Que bom.
Não vai?
Não pertencia a eles!
Tudo vai recomeçar.
Mas não. Estou tentando entender.
Quer dizer que o passarinho voou?
Então para que eu sirvo?
Tem alguma pista agora ou não?
Istambul?
A polícia não vai te perseguir, a menos que...
Perseguindo quem? O gorducho?
O acharam no golfo?
O que importa se for falsificado?
Quanto vale um original, milhões?
O quê?
Em Istambul?
Nós não trabalhamos nas zonas oeste.
Nosso trabalho é focado na parte leste da cidade.
Aliança Leste-Oeste, é?
Um reformista. Me dá vontade de rir.
Vou pensar e volto com uma resposta.
O que foi, Chloe?
O que aconteceu?
Seus "visitantes" voltaram, Monsieur De Malle.
Você me assustou. Entre.
Só pode ser brincadeira. Me dê uma mãozinha aqui.
Eu voltei.
Uma semana passa num piscar de olhos.
— Como entrou aqui? — Há muitos caminhos.
Já faz um tempo que estou por aqui.
Estava na dúvida se você voltaria hoje.
Estive fazendo barulho lá no jardim.
— Que lugar calmo e acolhedor você tem aqui. — E o mistério, o que deu?
Nada.
Não houve novidades perto do château, nem na imobiliária.
Para ser sincero, achei a sua história...
...nem tão interessante assim.
Madame Alphand, eu pesquisei e agora sei quem você é.
Por que se deu ao trabalho por algo tão insignificante?
Quando ligou para o escritório, pensou que a secretária tivesse atendido.
Gostei do timbre da sua voz.
Não é razão suficiente?
Não.
Depois conversamos sobre isso.
Janta comigo? Tenho algo para te contar.
Para as pessoas daqui, você é minha nova "conquista".
Prometi te contar uma história.
Tenho uma amiga chamada Chloe.
É uma jovem atriz.
Às vezes faz pontas em peças de rádio.
— Posso fumar? — Por favor.
Ela nunca foi abençoada com uma saúde muito forte.
É pálida e franzina.
Mas faz um tempo que notei outra coisa.
Parece que a cabeça dela está longe daqui.
Ela não escuta mais o que dizem.
Antes ela não era assim, de jeito nenhum.
Estranho. Às vezes chega a me assustar.
O outro dia, encontrei isto na casa dela.
Nunca tinha visto esse objeto lá.
É uma poesia?
Algumas traduções de textos raros chineses.
Acho interessante.
— Você tinha razão. — Então vai ficar com o cheque?
— Eu te devo outro. — Deixamos para depois.
E se você fosse a minha conquista?
Não precisa me levar até a saída.
— É policial. — Eu sabia.
Mas quem é aquela garota que aparece à noite?
É a mesma garota.
Ela morreu. Deve ser um espectro...
Ou um fantasma.
Um policial apaixonado por um fantasma.
Que história doentia.
— Ao longo do leito sinuoso do rio... — Madame Thibaud?
Pelos trilhos irregulares do trem, de um vilarejo a outro.
De um vilarejo a outro.
Alô, Arnaud?
Eu ia te ligar agora. Ela não está aí?
Estou ligando para ela desde manhã. Ontem também não a encontrei.
Tive que colocar outra pessoa no lugar dela.
Certo, eu vou para lá.
Sim, eu sei que você tem a chave.
— Não teve nenhuma ideia? — Nenhuma.
— Há quantos dias ela desapareceu? — No mínimo três dias.
Sério que não sabe onde ela está?
"O herói está submerso em fúria.
Os sacerdotes estão ocultos no frio.
E os macacos lamentam ao pôr do sol."
É chinês. Já te disse. Dinastia Tang. Por que a pergunta?
Existe uma seita que usa isso para atrair almas espirituais...
Psicóticos e órfãos... eles usam esse tipo de coisa.
Uma seita?
A Igreja da Ressurreição Final.
Eles estão espalhados por toda a Europa.
Vendem felicidade, batem tambor, dançam e se entorpecem.
— Mas a Chloe... — Ela foi acolhida de braços abertos.
Tenho certeza que ela se refugiou lá.
Não deve ser difícil descobrir, tenho o endereço.
Vou lá buscá-la.
Você acha que vão te deixar entrar fácil assim?
Ela não é criança, é dona de si.
Pode ser, mas mesmo assim...
Só um palpite.
Pelo menos a gente tira a prova.
Flora Thibaud pode dar um jeito, ela conhece gente.
Tenho mais um cheque para você.
Diga à Flora que eu te enviei.
Você me enviou?
— Maya Danino. — Presente.
— Jules Fabot. — Presente.
Eu queria te ver de novo.
Vadia!
Você é o único detetive que eu conheço.
Como vai a Josiane?
Terminamos tudo.
— Vejo que você se superou. — No ramo dos melodramas, sim.
Ser diretor de cinema deve te cair bem.
Agora, será que a Chloe está segura?
Está com uma dessas seitas das quais vivemos ouvindo falar!
Do que você está falando?
Têm um cantinho sossegado nos arredores da cidade.
São muito virtuosos.
Meditação, oração.
Não tenho dúvidas que ela se sente no céu.
Pare com isso, por favor.
Monsieur De Malle também está ansioso para vê-la.
Ele disse que talvez você pudesse fazer algo.
Boa ideia.
Dissimulada!
Monte um roteiro de documentário.
Nós vamos em um grupo de três ou quatro.
A gente grava e puxa a Chloe para o nosso lado. Trazemos ela de volta.
Acha que é fácil assim?
Você tem seus contatos. Ligue para eles.
O assunto é urgente.
Primeiro sinal.
Segundo sinal.
— Você vai gravar isso hoje? — Isso agora é com o Buda.
Ele veio...
Ele veio ao nosso meio e nós o entregamos à morte.
Que vergonha imensa, irmãos.
Como seu coração tornou-se sangrento!
Quão vasta foi sua tentação, o milagreiro...
...para mergulhar o homem ingrato no silêncio enquanto ele clama.
Mas ele retornará.
Em breve ele estará entre nós, na hora do renascimento.
O espírito maligno será expulso.
E devemos ter firmeza, servindo-o.
Agora prestemos louvor.
"Que o novo Jesus se manifeste, Senhor poderoso e vigilante."
O novo Jesus.
Nosso Pai.
O novo Jesus.
Nossa verdadeira Mãe.
— Por que se juntou a nós? — Por um amigo e para participar de algo.
E você?
Eu estava sozinho. Meus pais não me davam atenção.
Uma noite, um colega da escola me convidou para vir aqui.
Você é a Chloe?
Vai se juntar a nós?
Sou amiga do Arnaud.
Você deve se juntar a nós.
Você deve.
— Você também é do pessoal da rádio? — Eu sou o produtor.
— É uma profissão fascinante. — Cheia de surpresas.
Você conhece nosso querido filho?
É um velho amigo.
Deve mostrar o seu quarto para ele, Chloe.
Estou muito feliz aqui. Quero ficar aqui mesmo.
Agora, deixem-me sozinha.
Todos aqui me tratam muito bem.
Liguem para a polícia. Por que ainda não ligaram?
Eu não acredito nisso.
Você deve ter visto algo.
Se alguém devesse ver alguma coisa, esse alguém seria eu.
— Não você. — Entendi.
Agora, deixem-me sozinha.
Todos aqui me tratam muito bem.
Pelo menos me diga qual é o seu plano. Desligue isso também.
Você é quem a conhece melhor.
Parecia estar vivendo no mundo da lua!
O que essas pessoas excêntricas estão tramando?
— Estão dando algum tipo de droga para ela. — Alguma ideia?
Eu vou trazê-la de volta.
É para isso que você me paga, afinal.
Trabalhar em rádio também tem os seus perigos.
Claro, seus seguidores são inofensivos.
E a festa deles é algo bem vulgar.
A vulgaridade também tem as suas vantagens... Mas isto é apenas um preâmbulo.
Não acredite em tudo o que você vê.
Consegue imaginar a quebra da corrente de reações espontâneas?
O renascer da consciência primitiva.
É assim que tudo muda.
Colaborar com o Monsieur De Malle também tem os seus perigos.
Sabemos de cada passo que você dá e estamos muito interessados na fortuna dele.
Podemos colocar um meio ao alcance dele...
...sem o qual suas experiências não levarão a lugar algum.
Pretendemos entrar em contato com ele em breve.
Sua intervenção acelerou tudo.
Acha que os experimentos dele são menos avançados do que vocês imaginam?
Sabemos exatamente até onde ele chegou com sua nova descoberta.
Mas sozinho, ele não passará disto.
E que serventia vocês acham que essa "descoberta" terá para vocês?
O tempo dirá.
Afinal, nem é algo tão extraordinário.
Não é extraordinário?
Sério?
E se eu testar em você?
Dentro da sua casa, à distância. Bem inesperado.
Ou eu testar em vocês, aqui mesmo, no seu refúgio...
No refú...
O homem deve ser capaz de tudo.
Até fazer palhaçadas, feito um robô.
Mas eu também sei quando parar.
Eu me rendo ao seu poder sobrenatural.
Mas ouça bem.
Sua ajuda nos ganha tempo.
E o que eu ganho?
O tempo dirá.
Não ficará decepcionado.
Se quiserem, podem ir morar no château dele.
Eu sou meu próprio patrão.
Sozinho, não chegará a lugar nenhum.
Pense bem.
Boa noite.
Eu te machuquei?
Era ketchup, idiota.
Ah, vamos.
Hubert, chegue mais perto do microfone.
Ei, Coralie, um pouco para trás.
Corrija o texto, Nicole.
— Está bem? — Sim, estou ótima.
Vamos fazer uma pequena pausa.
Como vai?
Vamos para o café.
Vá com eles. Eu te busco depois.
Provavelmente deram LSD ou algo do tipo a ela. Ela dormiu o tempo todo.
Acho que você já tinha dito.
O que é esse som?
— Pregos no telhado. — Não, é uma tempestade de areia.
E este?
Um escorpião no porta-luvas?
Não, uma lixa de metal.
E este aqui?
— Moinho de vento. — Sim.
No fim, não ficou tão ruim.
Descobri algumas coisas sobre seu amigo.
Sobre a descoberta dele? A Chloe te contou?
Sim, mas não entendi nada.
Não tem nada para entender. É uma piada nossa.
Pela rádio de ondas curtas, ele se apaixonou por uma garota irlandesa.
Qual é a história desse seu amigo?
Vem de família tradicional. Parece que a mãe dele era tipo uma bruxa.
Uma veterana na alquimia.
E o Monsieur está tentando seguir os passos dela.
Aos trinta anos, ele era o melhor astrofísico da sua geração.
Do nada, largou tudo, sem explicação nenhuma.
Que bizarro.
Prometi devolver a Chloe antes do meio-dia. Ela já deve estar sem paciência.
— Parece que está melhor hoje. — Não me lembro de muita coisa.
Eu quis te matar?
Queriam que você acreditasse que tinha feito isso.
— Para continuarem te dominando. — Quer dizer que querem te matar?
— Por enquanto não. — Por que está indo por aqui?
Esta é a estrada turística.
— Não é o caminho mais longo? — Pelo menos não estão nos seguindo.
Essas pessoas estão falando...
O Arnaud grava todas as minhas performances.
Mas por que gravar aquela outra que a Flora enviou no meu lugar?
Histórias foram contadas dos dois lados da montanha.
Através das estações, além dos vales.
Nas trilhas de cavalos, entre pedras e areia.
Ele é bom no que faz.
Queriam me matar, mas ele acabou com todos.
Vou dar uma volta pelo jardim.
Claude!
Claude!
Aceita um chá? Eu te procurei por todo lugar.
Então este era o segredo.
Eles gostam do château, e do pombal também.
Afinal, o que é esse jogo de gato e rato?
Não sei, pergunte a eles.
Então vou descolar uma boa grana, hein?
Com certeza, se estão tão interessados assim, pagarão bem.
Eles têm muito dinheiro.
Pensei que você não ligava para dinheiro.
Vou pegar algumas frutas.
Te devo o pagamento de mais uma semana.
Ouça bem.
Você estava preocupada com o château.
E eu trouxe a Chloe de volta para você.
Resolvi o seu dilema.
Então encerramos por aqui.
Agora já estou fora do horário de serviço.
Por que se juntou a nós?
Por um amigo e para participar de algo.
Tenho um papel novo para você.
Ele realmente se superou.
Liquidou todo mundo.
E mesmo se a Flora morresse...
— Não abriria o bico. — Mas o que ela fez?
Depois disso ela foi à igreja.
À Igreja de Saint-Charles, com o Grisson no encalço dela.
Estava ocupada trabalhando.
O homem, pelo mesmo caminho que veio...
...estava voltando ao centro.
E?
O verdadeiro culpado também estava indo para o centro.
Você é meu detetive, entenda isto.
Não sou mais o seu detetive.
Mexa-se, Chloe.
Cuidado que esse brinquedo dela ainda vai nos dar problemas.
Essa história de Ressurreição Final é séria, chefe?
É séria, rapaz. A coisa está ficando feia.
Imagine só: um château em ruínas e um homem bizarro no pombal.
Um cientista, supostamente...
...e que, na aparência, apenas mexe em seu rádio de ondas curtas.
Mas, na verdade, ele está empenhado em uma experiência.
Algo que alguns supersticiosos acham muito interessante.
Por outro lado, tem essa senhora amiga dele, que trabalha em rádio.
Ou que ao menos finge.
O que ela anda fazendo agora?
Alguma atividade clandestina.
Talvez para a seita?
O que quer que seja, ela carrega um pesado fardo de culpa.
Embora as ações dela provavelmente não tenham relação com as atividades do cientista... não diretamente.
Mas ambos são tão dissimulados que suspeitam um do outro.
Engraçado, não?
Camille é viciado.
E estão forçando-o a chantagear o General.
Não, primeiro o cara que morreu aquela noite.
Bom, Camille o matou, oras!
Deixa eu terminar de falar! Enquanto ele estava se despindo na cama dela...
...o policial o pegou em flagrante.
Já estamos indo. Adeus.
Adeus.
Isso acontece com frequência?
O quê?
Justamente isto: silêncio, gestos e sinais.
O quê? Silêncio?
Esquece. Devo ter tido um sonho.
— Quanto deu? — 2,50.
Dois caras estavam esperando por você. Eles não me deixaram te ligar.
Acalme-se, rapaz.
Vá dar uma caminhada.
Fique exatamente onde está.
Quem você pensa que é?
Fica aí sentado igual a um tira.
Falando besteira sem parar. Dê o fora daqui!
Deixe-me sozinho com a Madame Alphand.
Melhor ficarem de olho no relógio.
Eu tinha certeza que valorizaria nossa ferramentazinha.
— Gás comprimido... — Sim, eu percebi.
Aliás, fiquei surpreso por não ter sinal seu.
Antes de tomar decisões importantes, um momento para refletir é sempre bom.
E essa demora me trouxe algum benefício?
O suficiente.
A realidade é que naquele dia você conseguiu me enganar direitinho.
Naquela época você não sabia de muita coisa, né?
Agora eu sei de tudo.
Sim, nós sabemos.
Porém...
Mais cedo ou mais tarde cada um deve mostrar de que lado está.
Ninguém consegue ser imparcial.
Ou ficar de fora do jogo.
Nem mesmo você.
Eu entendo. Em que posso ser útil?
Bom, embora a natureza da sua relação com o Monsieur De Malle seja obscura para nós...
O que isso tem a ver?
Sentimos que o Monsieur De Malle dá um valor especial às suas habilidades.
Que sutileza!
Claro, se ainda não aconteceu, com certeza entraremos em contato com ele.
Fiquem à vontade para tentar.
Mas nós gostaríamos que você mostrasse o caminho a ele.
Diga logo.
Talvez pudesse dizer a ele que colaborar com o nosso pessoal...
...seria muito benéfico para o avanço das pesquisas dele.
— Com a bênção de Jesus? — Assim todos saem ganhando.
Ele, nossa causa e você.
Agora você falou minha língua.
Sabe o que é poder, Madame Alphand?
Tenho uma vaga ideia.
Você tem noção de se uma invenção assim, feita para trabalhar em larga escala...
...em lugares como Vietnã, Buenos Aires...
...ou nos subúrbios de Lyon fosse utilizada...
...o que aconteceria?
Agora estamos chegando ao que interessa.
Claro...
Refiro-me ao bem das pessoas, obviamente.
Seja sincera comigo.
Eu fui sincero, Madame Alphand.
E devo acrescentar que...
...qualquer falha da sua parte afetará a moral de nossos seguidores.
E então, inevitavelmente, teríamos de...
O que você diz está começando a me tirar do sério.
Não tenho o menor medo de suas ameaças.
Não sou nenhuma santa, mas este negócio de vocês cheira muito mal.
Rede de espionagem, drogas, perversão, e provavelmente tráfico de armas.
Tudo isso com o mau cheiro de dinheiro sujo.
Digo de novo: não quero nada com você nem com sua corja de ativistas deploráveis.
Vocês me dão nojo!
Espero o dia de te ver cair, amém!
Se quiser ficar, fique, nós já vamos.
Vamos começar?
Meu avô sempre dizia:
Vá sempre à estação na hora certa, só para perder o trem anterior.
Indicações de alerta. Programas de Flora Thibaud.
Data de transmissão. Sinal. Música. Tipo de indicação.
Olá.
Não consegui falar com você por telefone.
Fiquei preocupada e disse a mim mesma que já que estava passando, ia dar um pulo aqui.
Sem problema.
Entre, Flora.
Eu deveria saber.
Olá.
Sente-se.
Ficamos um tempo no vilarejo.
Não estou corada?
— Não acha? — Parece ter recuperado as forças.
Sim, temos de agradecer.
Especialmente com aquele mal que aqueles miseráveis me fizeram.
Você também foi boba... Ora, novo Jesus? Enlouqueceu?
— Estão trabalhando na peça nova? — Sim, eu acho.
Claude estava me ajudando a ensaiar.
— De verdade, ela daria uma ótima atriz. — É só isso o que eu quero.
O que você acha, Flora?
— Sobre o quê? — Essas coisas aí.
— Ah, deixa para lá, eu estava dizendo... — O que você estava dizendo?
Esqueça isso, Flora.
Eu vou indo.
Não, fique.
O Arnaud deve estar para chegar. Espere um pouco.
Eu vou indo.
Ele chegou!
Que situação!
As três mulheres que eu amo!
— Eu tenho que ir. — Espere. Sente-se aqui.
Fale para a Flora do seu novo passatempo.
Meu novo passatempo?
Imagine como ela passa os dias ultimamente!
Viciada em um livro de poesia japonesa sobre monges e dragões.
Agora você virou meu orientador?
Em vez disso, leia para nós dois!
Chloe, não tem vergonha?
Não são japoneses...
...e nem poesias, são contos.
Como você sabe?
Eu sei mais sobre isso do que você.
Eu vou indo.
O herói percorre a sala de visitas correndo.
Com chicote na mão, como um louco, ele parte em direção à noite.
Eis que ele volta da Primeira Guerra Mundial e procura por Jacqueline.
O que lhe traz maior orgulho...
...é a agressividade, o cinismo e a total falta de escrúpulos.
E o motivo de seu deleite é sua arte de enganar e seu senso de crueldade.
... e feito uma labareda, consome tudo o que toca.
Heroicamente ele coloca sua vida em risco.
Abre as portas e estrupece tudo o que encontra.
... pisoteia os sentimentos alheios e às vezes tortura a si mesmo.
E quão triste e melancólico ele fica nesse momento.
Mas ele sempre encontra uma saída.
E segue caminho, sozinho e solitário, em busca de uma nova aventura.
Ele sabe como ser rígido e coração de pedra.
Pode ser até cruel.
E feliz, apaga as amizades e o passado.
Sim, sou eu. Você me conhece bem.
Contudo, você me fez de palhaço.
Estava mentindo para todos nós.
Você sabia que a Chloe estava com ele.
Achou mesmo que eu fui enganado?
Eu sei que você tem um motivo para estar aqui.
Contudo, você me fez de palhaço.
Estava mentindo para todos nós.
Você sabia que a Chloe estava com ele.
Achou mesmo que eu fui enganado?
Eu sei que você tem um motivo para estar aqui.
— Eles não se encontram, Madame. — Não está?
Eles saíram ontem, disseram que ficariam fora por uns dias.
Poderia me dar as chaves? Preciso pegar uma coisa.
Obrigado.
Não vai mais se meter onde não é chamada!
Alô, sim?
Claro, inspetor.
Dentro do carro?
Agora mesmo.
Sim, a estrada pavimentada.
Não se aproximem, houve um acidente.
Claude Alphand. O Inspetor Daloup me chamou aqui.
Me desculpe, não o reconheci.
Olha só, essa vagabunda apareceu!
— Fica na sua. — O que você quer aqui?
Esqueça isso.
Vamos lá, cai fora!
Tudo bem, fui eu quem ligou para ela.
Não dê atenção a ele, Alphand.
Eu sinto muito.
— Como aconteceu isso? — Ainda não sabemos.
O carro caiu na água.
Que estranho!
— Tinha visto ela recentemente? — Sim, ontem à noite mesmo.
— Como soube do acidente? — Chamaram do serviço de emergência.
Não há testemunhas.
Alguém em um barco ouviu um som.
Pareceu que um caminhão bateu nela.
— E fugiu depois? — Justamente.
Uma pessoa lá do alto viu. Pelo visto era um veículo pesado.
Estranho. Bateu por trás.
... pelo lado direito, e muito feio.
Colidiu com o pilar e ricocheteou na direção da mureta.
Deve ter capotado algumas vezes.
Bateu na grade e caiu na água.
Não é possível.
Qual é a sua hipótese?
Nenhuma por enquanto.
— Não havia nada no carro? — Nada.
Papéis, livros, maletas, bolsa, capa de chuva.
Eu vou ficar com a bolsa.
Para quê, Alphand?
Sei lá... de recordação. Vou guardar comigo.
Precisa de um recibo?
Eu já vou indo.
Estou sem energias. Vou dormir um pouco.
Com este aparelhinho, posso deixar umas pistas para você.
Depois eu continuo.
O motor está ligado.
Tenho alguns minutos de intervalo. Espere aí.
Eu não ousei falar com você no estúdio.
Estou sob vigilância vinte e quatro horas por dia.
A gente faz coisas quando está apaixonado.
Sim, eu sou louco pela Chloe.
Eu tinha muito medo dela.
Não tenho mais forças. Vou dormir agora.
Com este aparelhinho, posso deixar umas pistas para você.
Se sobrar tempo, eu continuo depois.
Você entenderá.
Que as coisas foram acertadas em algum lugar, diga-me onde.
Para onde você vai?
A Flora Thibaud pediu que eu a procurasse.
Ela saiu faz uma ou duas horas.
Passou a noite inteira trabalhando.
— Ela estava sozinha? — Sim.
Obrigado, senhor.
Onde você esteve?
Onde você esteve?
— E a Chloe? — Não sei.
Ontem...
Eu te procurei por todo lugar.
— Não queria ver ninguém. — Eu não sou qualquer um.
Não precisa ficar remoendo isso.
A Flora não estava brava com você, você bem sabe.
Essas coisas acontecem.
Não quero conversar.
Conversar faz bem.
Dá um tempo.
— O que é isso? — O que é isso aqui, Chloe?
— Eu não sei. — Você sabe muito bem.
— É do programa da Flora? — E o que seria então? Você bem sabe!
— Eu não sei. — Claro que sabe.
Não!
— É da seita? — Sim, e daí?
— As mensagens, as ordens... — Que ordens?
Não, as indicações... sim, indicações.
— Que indicações? Fale agora, Chloe! — Eu não sei!
Fale, Chloe!
Dá um tempo!
Vocês estão aqui para quê?
— O que aconteceu? — Nada, pode ir embora.
— Quem te deu esta fita? — É minha, saiam os dois daqui.
"Submirja os seguidores sob a estrutura, e pouco a pouco, a rebelião."
— Onde está a Chloe? — Está lá em cima, dormindo.
Preciso falar com ela.
Deixe-a dormir. O que foi?
— Onde você esteve nestes três dias? — Viajando... acontece.
Preciso chegar ao fundo disso.
A única coisa que importa nisso tudo é o seu aparelho, não o resto.
O meu aparelho?
Eu vi do que ele é capaz, Arnaud. Eu vi.
O que importa nisso tudo sou eu, não o aparelho.
Diga isso à Chloe, ela com certeza vai adorar.
— Deixe-a em paz. — Por quê? De que você tem medo?
É que eu não sei o que ela tem.
Ela me acusou de muita coisa.
— Eu vou falar com ela. — Deixe-a em paz!
Não piore as coisas: ela diz a cada minuto que vai embora.
Eu vou descobrir a verdade, e a Chloe também entenderá.
— Às suas ordens, senhora. — Venha comigo.
Mexa-se.
O que houve?
Ao telefone, você falava feito uma sabotadora.
Pela primeira vez, quero te colocar a par de tudo.
Você vai rir, mas precisa me ajudar a entender algumas vozes.
Acho que você tem razão, é um código.
Bem, vamos ouvir tudo isto.
Em nossa nova série "Os Novos Místicos"...
O Laboratório Radiofônico Creative apresenta...
Esta noite visitamos a Igreja da Ressurreição Final.
Um enorme prédio de dois andares localizado no subúrbio leste da cidade.
Você está ouvindo o programa de Flora Thibaud.
— 43. — Não, não está certo.
— O quê? — Várias coisas me chamaram a atenção.
Cânticos, sermões, gritos, o trem.
Temos de ouvir de novo.
Está vendo?
Esta parte do cântico foi duplicada.
Deve ser um sinal.
Em breve ele estará entre nós,
na hora do renascimento, e o espírito maligno será expulso.
Pronta? Vamos lá.
Deixem-me em paz. Aqui todos me tratam muito bem.
Por um amigo, e pela participação em um ato.
"Submirja os seguidores sob a estrutura..." O que é isto?
E isto aqui? "Entre dependentes anônimos, procure por Arnaud."
Você enlouqueceu, Arnaud.
— Eu vou embora e contar tudo para a Chloe. — Você não tem o direito de fazer isso.
Não destrua a paz da Chloe!
— Flora! Flora! — Não destrua a paz da Chloe!
Vou encontrar o resto.
E enquanto planejávamos o uso do aparelho deste senhor...
Que aparelho?
Você não acreditaria! Ninguém acreditaria.
Mas eu vi como ele funciona.
Continue.
Não tenho mais forças.
Com tanto trabalho acumulado...
"Que o novo Jesus se manifeste."
"Senhor poderoso e vigilante."
Incrível como assim que um se afasta, o outro decide servir.
E enquanto planejávamos o uso do aparelho deste senhor...
Vários coronéis esperam por nós para um golpe sem derramamento de sangue em Saigon.
E depois temos Buenos Aires.
E claro, no ano que vem, uma experiência grandiosa em Lyon.
Entretanto, devo deixá-los.
Madame Thibaud, Monsieur De Malle.
Resolvam-se entre vocês.
Há quanto tempo você o usa?
Foi difícil aperfeiçoá-lo.
Você não pode entregá-lo nas mãos dessa gente.
Dessa gente? Você trabalhava para eles! Eu suspeitava, mas eles mesmos confirmaram.
Porque eles ameaçaram a Chloe.
Eu tive medo, mas pensei que fosse tudo balela.
Pois é, você estava errado.
— Talvez este aparelho fosse útil um dia. — Útil para quem?
É por isso que estou indo embora.
Eu é que vou me divertir trabalhando com eles.
Você enlouqueceu, Arnaud.
Vou embora agora mesmo contar tudo para a Chloe.
Você não tem o direito de fazer isso! Não destrua a paz da Chloe, Flora!
Flora, não destrua a paz da Chloe!
— Quem são eles? — Estão nos seguindo, não tenha medo.
Madame Alphand? Confesso que estou um pouco confuso.
Você não acha?
Pode me fazer mais um favor e entregar esta fita a uma amiga?
O nome dela é Chloe, na Rua Francs-Bourgeois, nº 2, quarto andar à esquerda.
Vai se lembrar?
Diga que vem de mim e para ela ouvir na hora.
É só isso.
— Entendido? — Sim, senhora.
Vê a entrada do metrô ali?
Assim que eu parar, você vai.
Isto aqui é da parte de Claude Alphand.
Pediu para que ouça imediatamente.
Aqui está. Adeus.
Incrível como, assim que um se afasta...
— Você enlouqueceu, Arnaud. — O espírito maligno será expulso.
Agora, deixem-me sozinha. Aqui todos me tratam muito bem.
O que é isto?
Pode desligar isso? Estou mandando desligar!
Eu quero ouvir. Deixe-me em paz.
Dá um tempo! Você ficou louca!
Há quanto tempo você o usa?
Foi difícil aperfeiçoá-lo.
Você não pode entregá-lo nas mãos dessa gente.
Dessa gente? Você trabalhava para eles! Eu suspeitava, mas eles confirmaram.
Porque eles ameaçaram a Chloe.
Eu tive medo, mas pensei que fosse tudo balela.
Pois é, você estava errado.
— Talvez este aparelho fosse útil um dia. — Útil para quem?
É por isso que estou indo embora.
Eu é que vou me divertir trabalhando com eles.
Você enlouqueceu, Arnaud.
Vou embora contar tudo para a Chloe.
Você não tem o direito de fazer isso! Não destrua a paz da Chloe, Flora!
Não destrua a paz da Chloe, Flora!
Pare com isso, Arnaud!
Não faça isso!
Ligue para a polícia.
Cuide da garota.
Tudo bem, agora reconstrua seu aparelho.
Amanhã faça um melhor ainda. Quem vai te impedir?
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