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Estou?
Consegue ouvir-me?
Estou?
Inacreditável.
O que queres?
Não, aqui não.
Boa!
Ajude! Pare!
Merda.
Sacana.
MECÂNICO 1 KM
Peço desculpa?
Está aqui alguém?
Estou aqui. Bom dia.
Olá. Tive um pequeno problema com o meu carro.
- Quão pequeno? - Fui contra uma rocha,
a dez minutos daqui.
Estranho. As estradas daqui não são perigosas.
Distraiu-se?
- Estava ao telemóvel? - Não.
Na verdade, salvei um pato.
Como pode dizer que as estradas daqui não são perigosas?
Há tolos a acelerar que nem malucos.
E não param para ajudar se houver alguém com problemas.
- Ele estava a cantar? - Sim.
Estava num carro como este?
É seu amigo, imagino.
Esqueça. Não se importa de me ver o carro?
- Hoje? - Agora.
Talvez deva ver o seu sapato primeiro.
Dê-mo.
Se também tem conhecimentos de sapataria...
Tome.
Não é preciso um engenheiro para aparafusar um salto.
- Está a brincar? - Claro que não.
Não!
- Àquilo que paguei por eles... - Tome. Como novos.
- Obrigada. - Ora essa.
Já o posso mandar para o lixo.
Bem, o reboque está ali fora. Prazer, chamo-me Marco.
Sim, vamos, por favor. Estou atrasada. Vamos.
Vamos lá!
- É este o reboque. - Sim.
- Maria Esse. - Desculpe, não entendi.
Chamo-me Maria Esse.
Então, coloque o cinto de segurança, Maria Esse.
- Onde está o cinto de segurança? - Não há.
- Pode ver aí debaixo... - Não é que não confie em si,
mas quase que atropelei um pato há pouco porque me distraí.
Eu tinha razão.
- Desculpe? - Estava ao telemóvel e distraiu-se.
Sou jornalista. Trabalho com o meu telemóvel.
- Dá conselhos de segurança rodoviária? - Não.
- Porque está aqui? - Tenho de escrever um artigo.
Viajo muito em trabalho e, por vezes, paro em sítios assim.
Eu moro num sítio assim.
Sinceramente, não quereria viver em mais lado nenhum.
A sério? Eu morreria se vivesse num sítio como este.
É aquele carro?
Está a ver mais algum?
Sim. Quero dizer...
Garanto-te!
Ela apareceu no jantar de beneficência sem o marido.
Sabemos o que isso quer dizer, certo?
Que a história de ele ir com a criada é verdadeira.
Tão verdadeira como o meu solitário.
Desculpa, Elena. Queria pedir-te uma coisa.
Sim. Desculpa, querida.
Sim. Já para não falar daquelas bases. O que era aquilo?
Pintadas à mão... Meu Deus!
Sim, eu também. Adeus, querida. Adeus.
- Giovanni, querias alguma coisa? - Sim, mas não é importante.
Vá lá. Não tenho a manhã toda. O que precisas?
- O que tens de fazer? - Giovanni, que dia é hoje?
- Quarta-feira. - Exato.
E aonde vai a tua mulher duas quartas por mês, ao fim da manhã?
Não sei. Não me lembro.
Giovanni, não posso estar sempre a dizer a mesma coisa.
Hoje, tenho ioga e depois almoço na cidade com a Gioia e a Francesca.
E ainda estou de robe. Raios!
Não é importante. Só queria uma opinião
sobre o que devo pôr na mala para a corrida.
Então, não é muito urgente. Vou tomar um banho.
Vemo-nos mais tarde, querido.
Adeus, Elena.
Está a olhar para onde? Não tenho culpa
que a tecnologia ainda não tenha chegado ao teu paraíso.
Na Alemanha isso quer dizer que já nos tratamos pelo primeiro nome?
Há anos que tento que ele se livre disso.
Se você conseguir, é porque é boa. Com licença.
Lembro-te que tens um compromisso ao almoço.
Sim. Dá-me meia hora e já vou. Estou a acabar.
- Está bem. Eu espero. - Até já.
Adeus.
"Declaramos que a maravilha do mundo
foi enriquecida por uma nova beleza: a beleza da velocidade.
Queremos homenagear o homem que segura o volante,
com raízes perfeitas que penetram a terra, lançadas...
... lançadas no circuito da sua órbita."
- Porque sabes isso de cor? - O meu avô lia isso.
Ele tem uma paixão por carros.
- Como eu. - Também estou aqui por causa dos carros.
Vou fazer a cobertura da Mille Miglia.
A mais bonita corrida do mundo. O sonho de qualquer mecânico.
O radiador está arranjado e sem fugas. Podes ir.
Obrigada. Quanto é?
Digamos que é de graça se deixares os patos em paz.
Obrigada.
Desculpa.
Bem...
Vou pôr o teu carro lá fora.
Escuta... quero pedir-te desculpa.
Fui um pouco desagradável, mas salvaste-me o dia.
Talvez nos vejamos por aqui.
- Sim, talvez. - Podes dar-me o teu cartão.
Estão no balcão.
Estamos muito à frente no que diz respeito a cartões.
Vou tirar o carro.
Já podemos ir? Imagino que já esteja terminado, certo?
Sim.
Obrigada.
Continue em frente por 500 metros, depois vire à esquerda...
Não me lembrava de seres tão bonita.
Mãe!
- Sou eu! - Já me estava a preocupar.
Tive um problema com o carro.
- Nada de grave, espero. - Não.
Vou sair. Vou a uma conferência de imprensa.
Já deve ter começado. Eu já venho para falarmos. Está bem?
Tenho mesmo de ir. Adeus, mãe.
Mãe!
Até logo. Adeus.
Maria Esse!
Que desastre!
O que é isto?
"Marco, mecânico."
Que bom para ela.
Uma corrida sem tempo.
Um evento único.
Um sonho que percorre as estradas do país.
A Mille Miglia chega todos os anos a 200 localidades.
Junta centenas de milhares de pessoas pelas estradas de Itália,
ao longo de 1600 km.
Hoje, a Mille Miglia está mais viva do que nunca.
Leva o seu prestígio e excelência pelas estradas,
unindo os veículos clássicos mais fascinantes
às paisagens mais fascinantes do mundo.
Hoje, a Mille Miglia é o passado que encontra o futuro.
Num ritual, numa festa que permanecerá para sempre imortal.
O sucesso da mais apaixonante das corridas automobilísticas
nas estradas de Itália não tem precedentes.
Foi uma corrida de velocidade de grande distância.
As equipas mais importantes competiam com os carros mais modernos e rápidos.
Cenários naturais artísticos de extraordinária beleza
serão atravessados por mais de 400 carros clássicos.
Um museu itinerário, único no mundo, como Enzo Ferrari o caracterizou.
Muitos daqueles carros maravilhosos...
- O que disseram até agora? - A partida é dia 15 de maio.
É a corrida mais bonita do mundo. A Mille Miglia.
Faça favor.
O percurso será o habitual?
O percurso de 1927 a 1957 será feito hoje em três etapas.
A primeira será na região de Véneto até Roma.
Depois, de volta para a Toscânia, Emília-Romanha,
e de volta para Bréscia.
Obrigada.
- Disseram algo mais? - Só um minuto. Estou a escrever.
- É uma corrida de velocidade? - Não.
A corrida de velocidade terminou em 1957. A competição atual...
Sabe qual é o critério...
Se escutar, estão a dizê-lo agora mesmo.
... os carros de 1927 a 1957 que participaram na corrida original.
Passo a palavra ao diretor-geral da Mille Miglia,
o Sr. Antonio Lampieri.
Gostaria de apresentar a novidade deste ano.
A aplicação que permitirá consultar o itinerário, a previsão meteorológica,
os resultados da corrida e muito mais.
Uma versão digital e atualizada em tempo real.
Então, bófia? Desculpa o atraso.
- Está tudo bem? - Sim.
Empregado! Dá-me outra.
- Com uma sombrinha também? - Sim. Não sejas sovina como é normal.
Então? O que tens para me dizer?
- Escuta, Davide. - Sim?
Vi um carro espetacular dos anos 30.
- Queres roubá-lo? - Idiota!
Quero conduzi-lo. Quero competir na Mille Miglia com ele.
- Tens dinheiro para isso? - Eu sei o que estou a dizer.
- Diz lá. - Aqui tens.
Encontrei alguém que mo pode emprestar e quero-te ao meu lado.
- Podes contar comigo. - Eu sabia!
- À Mille Miglia. - À Mille Miglia!
Clemente! Tu conheces toda a gente. Quem é aquela mulher?
- Então, conhece-la? - Infelizmente, não.
Sacanas, não se esqueçam de voltar para pagar.
- Sim. - Sim.
Estou aqui!
Mãe!
Onde estás?
Mãe?
Não me dê más notícias.
Estou a ligar-te há meia hora. Porque estás aqui sozinha?
- Não estou sozinha. - O que estás a fazer aqui?
Estou em casa do meu avô e ela é a minha mãe.
Eu disse-lhe que a minha filha me tinha dado o seu número.
Que coincidência. Bem, minha senhora, terminei.
- Parabéns pelo carro. É lindo. - Sim.
Gosto muito dele. Chama-se Charlotte.
Só venho nos verões, mas gosto sempre de a ver.
Este deve ser um modelo de 1957, certo?
Exatamente. Qual era o problema?
Nenhum. O tampão do distribuidor estava solto, mas já está resolvido.
Viste? Fantástico.
Vê quantos falharam no lugar dele.
Que merda...
Querida, o que é que te deu?
Fui eu que soltei o tampão do distribuidor do raio do carro.
Fi-lo para que não conduzisses.
E todos aqueles mecânicos que me recomendaste?
Paguei-lhes para que te dissessem que não havia nada a fazer com o carro.
Deixa-me ver se percebi.
Pagaste aos mecânicos para que mentissem à tua mãe?
E de Berlim. Ela não põe aqui os pés há já 15 anos.
De Berlim?
Não é nada contigo. Quanto é? Vamos acabar com isto.
Fico-lhe muito agradecida.
E gostaria que jantasse connosco.
Não, obrigado, minha senhora. É muito gentil da sua parte, mas é tarde.
Mãe, uma rapariga está à espera dele em casa.
Ela não me parece do tipo que o deixa sair sozinho à noite.
Além disso não ser verdade... Desculpe, minha senhora,
mas eu posso fazer o que quiser.
Então podes voltar para casa. Quanto é?
- Obrigado pelo convite. - Fico muito contente.
Ainda há uma banheira aqui?
Como sempre. Lá em cima. Terceira porta à esquerda.
Está bem. Vou dar lá um mergulho.
Então, vieste para Itália para fazeres a cobertura da Mille Miglia.
A corrida mais bonita do mundo.
Minha senhora, com certeza concordará, tendo em conta
a Charlotte, lá fora.
Sim. É uma paixão de família.
O meu pai, Aurelio, adorava os carros clássicos dele.
Era um copiloto mecânico
e participou em várias edições dos anos 30.
E depois?
Peço desculpa. Posso ter dito algo de errado. Desculpem.
E depois decidiu não competir mais.
- Porquê? - Se soubesses as vezes que lhe perguntei.
Ele mudava de assunto.
De um dia para o outro, ele encheu o anexo com peças de carros antigos
e nunca mais pôs lá os pés. - O teu pai também competiu?
O pai dela fugiu tão rapidamente
que nem teve tempo de a conhecer.
À sua maneira, também competiu.
Mas correu tudo bem na mesma, não foi?
Agora é a sua vez.
Viu alguma edição da Mille Miglia?
Vi-as todas, desde miúdo.
Podes ser o meu perito em Mille Miglia.
Não. Acho que a tua mãe é mais perita.
O teu avô deve ter-lhe contado imensas histórias.
Passei as minhas tardes a ouvir as histórias dele
debaixo do cedro lá de fora.
Ele gostava de falar enquanto afagava o seu relógio precioso.
Era muito importante para ele.
Como copiloto, o tempo...
... mostra a diferença entre a vitória e a derrota.
Nunca me falaste do relógio.
- Ainda existe? - Sim...
Deve andar por aí.
Aceito mais um pouco de sobremesa. Obrigado.
Faz favor.
Realmente é estranho.
Antes desta noite, a minha mãe nunca me falou destas peças.
É normal na casa de um mecânico haver peças sobresselentes, certo?
Repara. Há outras aqui.
Acho que são peças do mesmo carro.
Quando é que o teu avô competiu pela primeira vez na Mille Miglia?
Terás de perguntar à minha mãe.
Lembras-te, ao menos, do modelo que ele conduzia?
Da última vez que cá vim, ainda acreditava no Pai Natal.
Porque deixaste de vir cá?
Não sei.
Vinha enquanto os meus avós cá estavam. Depois...
Escola, amigos, trabalho...
Em crianças, não nos importamos com as nossas raízes.
Importamo-nos com o nosso estatuto e até onde podemos chegar.
Em que estás a pensar?
- Em quão bom seria montar isto. - Sim.
- E talvez competir na Mille Miglia. - Eu e tu? Estás maluca.
És um génio!
O meu chefe de redação disse: "Segue a competição de perto."
Não posso estar mais perto do que isso. Tens de montar o carro.
Maria Esse, mantém os pés no chão.
Aonde pensas que podemos ir com faróis e pistões?
Eu ajudo-te.
- Mãe, o que estás a fazer? - Tinha frio.
Vamos. Não deixemos o Marco sozinho. Anda.
- Pensámos numa coisa, sabes? - Em quê?
Sabes onde estão as peças do carro que está no anexo?
Queremos montá-lo e participar na Mille Miglia.
- Ainda temos tempo. - Estás maluca!
Sim, Giulia?
Desculpa. O trabalho atrasou-me.
Não foi isso que acordámos.
Está bem. Espera um minuto.
Lamento desapontar-te.
Não creio que encontres outras peças.
Então, encontraremos outro carro. Vamos inscrever-nos na corrida.
Será uma bela reportagem e será uma homenagem ao avô.
Não estás contente?
Não estás. Quando te disse que vinha para cobrir a Mille Miglia,
achei que ias saltar de alegria, mas...
Afasta-te da Mille Miglia.
"Espero por ti com os faróis ligados. Stefano."
"Queremos homenagear o homem que segura o volante. EC."
Aurelio...
EC, Ernesto Chiari. É ele o parceiro de corridas.
Maria Esse?
- Podes ajudar-me no jardim? - Já vou.
Espero por ti lá fora.
O que é? Estava a organizar o meu quarto.
Estás muito calada.
É por causa da Mille Miglia?
Quando o meu chefe soube duma jornalista num carro clássico,
quase que se passou.
Vão pagar a nossa inscrição.
Claro que estamos atrasados,
mas passaremos por jornalistas a cobrir a prova.
Claro que será fora da competição. Não é fantástico?
- E o carro? - O Marco está à procura de um.
Não nos atrevemos a pedir o teu.
O meu não pode competir. Nunca participou na Mille Miglia.
Obviamente.
- Como assim? - Nada.
Estou a ver que ouviste boatos.
Na cidade, as pessoas falam sem pensar.
Sabe-se lá o que inventaram.
Algo como a carta de condução do avô ter sido cassada?
Sabias e contaste-me mentira atrás de mentira.
- Andaste a vasculhar as minhas gavetas? - Não. Encontrei-a no móvel.
Não interessa. Porque não me contaste?
O JOGO SUJO DE AURELIO MORASCHI: O MECÂNICO VICIOU A CORRIDA
Quando se soube, o avô não saiu de casa durante semanas.
Foi um escândalo para a nossa família.
Ele perdeu o emprego. Foi terrível vê-lo assim.
O que é que ele fez mesmo?
Eram os anos da autarquia.
Ele e o parceiro de corridas...
... inscreveram o OM deles
na categoria que usava combustível alternativo
porque a gasolina era muito cara.
- O parceiro dele era o Ernesto Chiari? - Sim.
Eram grandes amigos.
O Chiari conduzia e o avô era o copiloto.
E parece que o teu avô alterou o carro
de forma a melhorar o seu desempenho.
Debaixo do carro,
ele colocou um depósito ilegal de gasolina.
Acusaram-no disso?
O carro despistou-se e atropelou algumas pessoas.
Foi um incidente muito grave.
É incrível que uma pessoa como ele
tenha feito algo assim.
Mas foi o que ele confessou.
E o Chiari?
O Chiari não disse nem fez nada.
Só sei que ele nunca mais competiu na Mille Miglia.
Foi para longe...
E deixaram de se ver.
Mãe...
Porque é que nunca me contaste?
Porque o avô...
Ele era uma boa pessoa.
Mesmo que, de repente, ninguém acreditasse mais nele.
Então? O que achas?
Bem... É fantástico!
Seremos os únicos a aparecer com um carro como este.
De certeza.
- Só falta a luz no capô e... - Acerca disso.
- Vão lembrar-se de nós, vais ver. - Não duvido.
Sabes que desta vez me surpreendeste mesmo?
- É mesmo bonito. - Eu disse-te.
Vá lá. Vejamos o que consegue fazer.
Elena, vou dar uma volta de carro.
Queres vir?
- Elena! Estás a ouvir? - Sim, Giovanni.
É todos os anos a mesma coisa.
Escolhe. Vais ser tu a conduzir e não eu.
- O que estás a fazer? - Ouviste como está ansioso?
Parece estar saudável, não achas?
Anda. Vamos dar uma volta.
Tenho de ver alguns parâmetros antes da corrida.
- Anda! - Não posso.
Tenho de ficar aqui e orientar as novas empregadas,
sobretudo dizer-lhes que estão aqui para trabalhar e não para falar.
Vai tu. Vai lá.
Bem, é como pensava.
Estas são precisamente metade das peças.
- E sei de que carro se trata. - Um OM 665 Superba.
- Como é que sabes? - Eu sei sempre tudo.
Sobretudo, se ler no jornal.
"O jogo sujo..."
- É uma história impressionante. - Diria mais uma história estranha.
Já chega de histórias estranhas. Quer um chá?
Minha senhora, este carro devia ser bonito.
Muito bem... Toma.
- Olá, Giovanni. - Olá, Clemente. Boa tarde.
- Viste a casa da Adelaide aberta? - Sim. Ela voltou há uns dias.
Está bem. Se é assim, não há problemas.
Parei porque julgava que tinha ladrões lá dentro.
- Vemo-nos no domingo ao almoço. - Queres escapar de casa?
Eu vou, desde que não me dês água para beber.
- Adeus. - Adeus.
- Não! Olha ali. Olha! - O quê?
Aquele carro. É o carro do Giannino Marzotto.
Um carro maravilhoso, tal como o condutor.
Adelaide.
Adelaide.
A que horas?
Estou a caminho.
Não te preocupes. Tenho muito tempo.
Mexe-te, galinha! Vamos!
Vai.
Vamos lá! Mexam-se!
Olá, Riccardo. Tens de me dizer como te manténs em forma.
É tudo graças à minha senhora, claramente.
Que carro maravilhoso!
Se não mo quiseres emprestar, não faz mal. Não te preocupes.
Claro que ela prefere que seja eu a guiá-la,
mas conferenciámos e decidimos confiar em ti.
Tratá-la-ei como uma filha.
Mas, repara... Ela é como uma senhora.
Não deixes que ela perceba que é ela quem manda.
- Senão, acabou! - Acredito!
- Como vais para casa? - Vou a pé. Não te preocupes.
Enganas-te. Dou-te a minha bomba. Tu gostas dela.
Que cavalheiro. Adoraria. Por ti,
farei um esforço e conduzirei devagar.
Até te dou as minhas luvas.
Não, repara. Não te preocupes.
- Há uma imagem a defender. Uso as minhas. - Fica bem.
Despede-te da namorada antes da competição.
Claro. Diverte-te.
- Boa sorte. - Adeus.
- Vai devagar, como de costume. - Claro.
Olá.
O que estás a fazer aqui?
Nunca me deixas conduzir o Mini.
O que é que isso tem que ver? Ele é um piloto de automóveis!
- De que corrida estavam a falar? - A Mille Miglia.
Vais participar na Mille Miglia? Quando é que me ias dizer?
Acabei de ter confirmação do carro. Giulia, nós resolvemos as coisas.
- Com quem vais competir? - Com uma jornalista.
Ela está a fazer uma cobertura e pediu-me para ser o piloto.
Vais competir com ela.
É uma grande oportunidade para mim.
Claro. Para a levares para a cama.
Giulia... Giulia!
Este, minha senhora, é todo em ouro branco com diamantes.
- Gostas? - É lindo.
Olá. Tenho uma questão pessoal.
Este relógio... faz lembrá-lo de alguma coisa?
É uma bela peça. Um relógio dos anos 30. Bem preservado.
Com certeza que foi comprado aqui. Sabe-se lá há quantos anos.
Considera-me muito velho.
Não. Pensei... Talvez o seu pai se lembre.
Ele ainda está por cá?
Chamo-me Maria Esse, a neta do Aurelio Moraschi.
Ele competiu na Mille Miglia. Talvez lhe possa perguntar.
O meu pai não sabia nada de motores, mas sabia de relógios.
Se continuasse por cá, seria fácil descobrir a história deste objeto.
Lamento. Não sei como ajudá-la. Passou muito tempo.
Se quiser deixá-lo exposto na vitrina...
Gostaria de ter uma peça rara. Devolvo-o no final da corrida.
Não. É um objeto pessoal.
Obrigada. Desculpe qualquer coisa. Adeus.
Adeus.
Eu conheço este carro.
Pertence ao tipo que não ajuda raparigas com carros avariados.
É distraído, mas bom rapaz.
Praticamente, emprestou-me a namorada dele. Gostas?
É linda.
Será nossa por uns dias. Espera.
Tens noção de que estamos inscritos?
Não posso acreditar.
Verifica se conheces algum participante.
Simone Veneziani e Luigi Nadotti.
Raffaella Cominotti e Giacomo Vizzini. Elena Chiari e Giovanni Nobile.
Chiari, como em Ernesto Chiari?
Sim, é a filha dele. É uma celebridade por aqui.
Nobile, o piloto, é o marido dela.
Talvez ela saiba algo sobre o meu avô e as peças do carro.
Também foi o carro com que o pai dela correu.
É provável.
Mãe, conheces a Elena Chiari?
Já ouvi falar. Julgo que ela vive perto daqui.
- Mas nunca a conheci. - Vamos brindar.
Disse-te para não me passares chamadas. Ylena?
Sim, desculpe. A culpa é minha. Eu insisti muito.
- Chama-se Elena Chiari? - Sim. Quem fala?
Sou a Maria Esse, neta do Aurelio Moraschi.
Ele era o parceiro de corrida do seu pai na Mille Miglia.
O que quer de mim?
Sabe alguma coisa do carro clássico que usaram durante a última corrida?
No meu anexo, vi metade das peças que constituem o carro,
mas não entendo...
Que pergunta absurda. Que deveria eu saber?
Escute. Nesta casa, o nome do seu avô só traz à baila
memórias de mentiras e enganos.
O seu avô era um impostor, como ficou provado há muitos anos.
Estou a avisá-la. Não me contacte mais ou irá arrepender-se.
O que me acontecerá? Estou?
Não acredito. Ela desligou.
Tu és bom! Está a correr bem. Quem diria?
O Riccardo tem razão. Ela é uma bela menina.
- Quem? - Ela.
Ela. Porque é que é uma menina?
Parece-me tão masculino.
Se sentires o motor, é sensual, fascinante.
Segura aqui um pouco.
Que nojo! Olha para isto!
A jornalista sujou as mãos!
Anda.
Vem aqui.
- Toma. - Com calma...
Mas... Toma lá!
Que sacana!
Giulia...
- Vamos ver o que farás sem um carro. - Não, Giulia!
Por favor. Estás... Para! Giulia!
- Deixa-me em paz! Larga-me! - Já chega, Giulia. Chega!
Chega.
Dá-me isso.
- Bem... - Não te preocupes.
- Está tudo bem. - Deixa-me!
És um sacana!
Não devias ter feito isso.
Depois de tudo o que fiz por ti!
Queres ir dar uma volta?
- Não é uma boa altura. - Ela foi para casa. Eu acalmei-a.
Coitada. Sente-se mal. Quem sabe o que ela pensou?
- Não trates assim a tua namorada. - Ela não é minha namorada.
Eu explico o problema noutra altura.
Queres ir dar uma volta?
Queres ir ou não?
- Que carro fantástico. - Lindo.
Só um tolo como o Riccardo o podia ter emprestado.
Ele é maluco!
Sejamos honestos. Ela canta muito mal.
Lembras-te de quando me falaste da Elena Chiari?
- Ela mora aqui. - Para.
Senta! Que cão horrível.
Desculpe.
Desculpe. Precisa de alguma coisa?
Precisas de ajuda?
Ajuda divina. É disso que preciso.
Olá. Chamo-me Davide.
Chamo-me Giulia e não sou divinal. Lamento.
Mas de certeza que farei um melhor trabalho do que tu.
Não costumo vestir-me assim.
Hoje à noite é uma ocasião especial.
O jantar de gala da Mille Miglia.
Como é que sabes?
Também vais?
Pronto. Ficou bem, não achas?
Eu acho que sim. Vais causar boa impressão.
Está perfeito. Obrigado.
- Se não tivesses aparecido, não sei... - Estás a falar com quem?
Olá, Stefano. Com...
- Com ninguém. - Que lindo nó! Podes também fazer o meu?
Não é propriamente o mesmo, mas...
Vamos. Está tarde.
- Aonde vais? - E se o arranham?
Para, por favor. É a gala da Mille Miglia.
Devem ter alguém que saiba estacionar.
Não podes estar preocupado toda a noite. Pega no meu braço.
Não. Não sei porque não me deixaram estacioná-lo.
Porque é suposto que, nesta ocasião, fiques comigo.
- Se tiver mesmo de ser. - És tão rude.
Estás linda.
Acho que vão estar todos a olhar para ti, hoje à noite.
Vou buscar uma bebida. Queres alguma coisa?
Sim, obrigada. Vou dar uma volta.
Estudarei os adversários. Nunca se sabe.
Está bem.
- Olá. - Olá.
- Está tudo bem? - Sim, obrigado.
Cá estão eles.
Ela não podia perder a oportunidade de se exibir.
- Há tanta gente. - Sim, é verdade.
- Que elegância. - Com licença.
Não há gente da nossa idade,
por isso pensámos em falar convosco ou sentávamo-nos a jogar Candy Crush.
Esquece o Candy Crush! É um prazer. Marco.
- Davide. - Stefano.
Esta é a minha copiloto, Maria Esse, com "S" final.
- Maria. - Eu sou o Stefano e ele é o Davide.
- É um prazer. - Olá.
- Este sítio é muito elegante. - Sim.
Eu disse-te. Devia ter vestido o quimono do século XVIII da minha tia.
Sim, e sem roupa interior. Seria, certamente, o aspeto ideal.
- Pensa nisso para o próximo ano! - Claro.
- Também é a vossa primeira vez? - Sim.
Desculpem, mas também levaram o vosso carro e estacionaram-no sabe-se lá onde?
- Serviço de valet. É assim que se chama. - Entendido.
- Não estacionaram o nosso. - Estás a ver? Roubaram-no.
- Roubaram o nosso! - Espera.
Talvez não tenham percebido que o nosso carro é de competição.
Como é que é possível?
Depois verás! Surpresa.
Fazemos um brinde?
Elena, querida. Estás tão radiosa esta noite.
- Boa noite. - Boa noite.
Estas ocasiões mundanas. São tão stressantes.
Ao menos dão-nos a oportunidade de nos vermos.
É mesmo.
Viste quem está entre os participantes este ano?
Uma certa Maria Esse Moraschi.
Dizem que é a neta do Moraschi, o mecânico do teu pai.
- Preferia não ouvir novamente esse nome. - Desculpa. Eu percebo.
Em vez disso... Soubeste que o conde não vem este ano?
Dizem que até chegou a apostar a coleção de carros.
- Tudo. - Outra vez.
É, de facto, um mau hábito.
Hoje, 15 de maio de 2014, na Piazza della Vittoria, em Bréscia,
a cidade da Mille Miglia.
Com o número 84, o Aston Martin...
Le Mans, que desde 1933...
Desde 1927 que é feito o ritual da verificação técnica
que já foi conhecido como "punção"
devido à punção principal com que o motor era selado
para impedir modificações após a inspeção técnica da comissão.
Atualmente, a comissão FIVA verificará
os aspetos históricos e originais dos carros participantes.
Neste bonito e solarengo dia,
nada comum para a chuva tradicional da Mille Miglia,
os 435 carros que participam na competição concluirão
as verificações técnicas e desportivas que começaram anteontem.
Hoje, Bréscia torna-se uma cidade cosmopolita
com pessoas de vários continentes,
apaixonados, curiosos, fotógrafos, estações de televisão de todo o mundo.
Ao contrário do passado, agora também temos iPads, telemóveis,
tecnologia de gravação e de fotografia.
Os pilotos estão prontos para falar, à sua maneira, da corrida
que, após quatro dias e mil milhas, consagrará a história...
- Desculpe. Podemos tirar uma foto? - Sim. Espera um pouco. Pronto.
- Tira! - Na verdade, só queríamos do carro.
Eu até estava a dizer para sairmos.
Não. Tens de ir até à rotunda e virar à esquerda.
- Onde é que está escrito? - É o que está escrito.
Não podes ficar ali. Tens de fazer outra coisa.
Tens de dar boas indicações, precisas e claras.
Davide! Davide, olha.
- Giulia. - Desculpa. Quando é que se conheceram?
Prazer em conhecê-la. Giulia, quer conhecer o meu carro?
Vamos pilotar este carro de polícia dos anos 30, que já tem muito tempo.
- Olá, malta. - Lá está ela.
- Quem é ela? - Não me apanharás.
- Como assim? - Nuvolari também disse o mesmo ao Varzi.
Estás a entrar no espírito da competição, é isso?
Respira fundo, relaxa e aproveita o espetáculo.
Então? Vai correr tudo bem. Não te preocupes.
Conheces aquela rapariga que está a olhar para nós?
Não. Não sei quem é.
Mas parece que não para de olhar para ti.
Querido, se olhares em redor,
repararás que todas as mulheres estão a olhar para mim.
Chama-se inveja, querido. Inveja e admiração.
... com o número 198.
Os nossos pilotos preparam-se para a verificação
ao Mercedes-Benz 300 SM,
empurrado à mão para baixo da tenda da comissão.
Colocarão o selo relativo ao controlo de conformidade
que permitirá ao carro deles competir na Mille Miglia.
Os pilotos desfrutam dos últimos momentos de calma relativa antes do início.
Encontraste o envelope?
Aqui estão as chaves de casa.
- Obrigado. - O que está certo não pode ser negado.
Vejo que o telefonema não chegou para a desencorajar.
Vamos dar-lhe uma lição. Uma lição desportiva, claro.
Isto é, se essa palavra tem algum significado
para a neta de um impostor.
Preciso de um café. Vamos.
Estás maluca? Não podemos deixar o carro sozinho.
- Como está o meu amor? - Cá está ele! Não te preocupes.
Riccardo, toma conta dela.
- Adeus. - Adeus.
- Bom dia. Café? - Sim. Obrigado, Gianni.
- Bom conjunto de carros, não é, Marco? - Maravilhoso.
- Podes olhar, mas não tocar. - Estás enganado.
- Este ano, vou competir. - Vais?
Um "Asa de Gaivota" de 1955. Sou o piloto e ela é a copiloto.
- O teu avô ficaria orgulhoso de ti. - Também acho.
- Como é que sabes quem eu sou? - Os nossos avôs eram amigos.
E não te fizeram tirar isto? Estranho.
Aqui, faz-se o que eu digo e não o que os outros dizem.
O meu avô estava convencido da inocência do Aurelio.
Mesmo após a admissão pública?
Não percebo porque só o culparam a ele.
Quando um homem poderoso como o Chiari...
Mas nunca mais correu na Mille Miglia.
Só gostava de saber o que aconteceu ao OM 665 Superba.
Aquele? Escuta...
Temos de ir, mas voltarei e falaremos disso com mais tempo.
Eu ofereço. Tenham uma boa corrida.
- Adeus. Obrigado. - Obrigado. Adeus.
O número 1 partiu e a Mille Miglia chegou finalmente.
O primeiro a sair da Viale Venezia foi o OM 665 Superba.
E o número 3.
O casal Johann Georg e Corinna Barbara Fendt,
seguidos do número 4, o OM 665 Sport de 1928,
com Nadia Bazhenina e Boris Bazhenin,
como homenagem à vitória obtida pelo OM Superba
durante a primeira Mille Miglia, de 1927.
À frente deles, começa sempre um destes carros.
Com o número 50, um Mercedes-Benz de 1929,
conduzido pelos alemães Bernard Christ e Karsten Schreyer.
Cumprimentando o público, com o número 20, Kyoto Takemoto e Junko Takemoto.
Subindo a rampa com o número 58,
com o Mercedes-Benz 710 SSK de 1929.
Oitenta e sete anos após a primeira edição,
aquela que ficou conhecida mundialmente
como a mais bonita corrida do mundo,
damos as boas-vindas a todos os que vieram até Viale Venezia
para assistir ao início da 32.ª edição histórica.
Os carros aceleram sob a bandeira italiana,
símbolo da partida,
onde tem lugar o início oficial da corrida.
Paul Smeets, da Holanda, e Georg Hueniken, da Alemanha,
estão no seu Fiat 508 Balilla Sport de um vermelho brilhante.
Depois de passarem pelo centro da cidade,
os carros terminarão a primeira etapa em Pádua, durante a noite.
A grande novidade deste ano é que a Mille Miglia durará mais um dia.
Haverá uma etapa intermédia após o circuito em Roma.
As operações iniciais demorarão cerca de duas horas e meia,
o tempo que demora a ter os 435 carros na corrida.
Olá!
Há sempre uma multidão a receber a Frecciarossa em Verona.
A passagem em frente à Arena representa
um dos momentos mais entusiasmantes do percurso.
Apesar das horas tardias,
a cidade de Pádua faz uma grande festa de boas-vindas
à caravana de carros clássicos
numa das maiores praças de toda a Europa.
Os participantes farão o controlo de tempo no final da etapa
onde será servido um jantar aos pilotos antes de um merecido descanso.
É a primeira vez que Pádua recebe uma etapa da Mille Miglia.
É uma ocasião que a nossa cidade não podia perder
para exibir a prova
aos olhos de miúdos e graúdos.
Sim, está bem.
Certo.
Mais tarde, envio-lhe a reportagem da partida e do primeiro dia.
Está bem.
Está bem. Adeus.
Não batas com a porta! O carro não é nosso!
Não sei porque vieste. Estás sempre ao telemóvel.
Por favor, sabes muito bem. Para mim, é trabalho.
Eu sei! Arriscas-te a estragar a corrida!
O quê? O que estragaria? A corrida?
Relembro-te que, se não fosse por mim, tu não terias participado.
- Sim, pagaste a taxa de inscrição. - Não é isso.
- Então, estás a falar do quê? - Do carro.
Já podias ter pedido ao teu amigo, mas não o fizeste.
- Viste a multidão? - Julgava que era diferente.
Nesse momento, estavas assim...
Explica. Não estou a perceber.
O casal está com problemas.
Nunca terias tomado esta decisão sozinho
porque não tens coragem.
Pronto. Já disse.
Sente-se maltratado.
Ela não admite que gosta dele...
Sabes o que pensei da primeira vez que te vi?
Que eras uma estúpida! E não me enganei.
E tu, um mecânico do interior e irritante.
Por favor.
- Acalmem-se. O que aconteceu? - Nada.
Estamos um pouco stressados.
A minha copiloto está sempre ao telemóvel.
- O vosso carro é lindo, não é? - É mesmo.
Infelizmente, está a dar-nos problemas. Julgo que são os travões.
Eu posso dar uma olhada. Assim, distraio-me.
Isso seria fantástico!
Considerem-se convidados para jantar. Eu pago.
Bravo! Conheço-o há 11 anos
e é a primeira vez que o ouço a dizer isso.
- Não podem recusar. - Quem está a recusar?
- Eu vou. E tu? - Também vou.
Assim, não estarás ao telemóvel.
Nem a jantar contigo. Vamos.
Não te preocupes. Eu cubro o carro.
Não me lembro do último ano em que o teu pai participou na corrida.
Devias saber, tendo em conta
que a Moraschi te informava sempre do que o meu pai fazia.
Por favor, não comeces a falar mal da Adelaide.
Acho que não fizeste muito para a impedir
quando ela decidiu fugir para a Alemanha.
Sim, estavas muito interessado no dinheiro do meu pai, não era?
Nunca escondi que estava disposto a tudo para ser um piloto.
Não te preocupes. Paguei muito caro para fazer isso.
Agora, responde à minha pergunta.
Qual é a verdadeira responsabilidade do teu pai nesse assunto?
Mas de que raio estás a falar?
- Vamos para a cama. É tarde. - Não. Desta vez, não escapas.
És um cobarde. Devolve-me a carta.
Sei que a rapariga que estava a olhar para ti era a filha da Adelaide.
Tens de lhe contar a verdade.
Como é que raio sabes da filha da Adelaide?
Eu sei. Talvez não seja tão estúpido como julgas.
- Quem é? - Serviço de quarto.
O que queres?
Quero pedir-te desculpa por há pouco. Não acho que sejas irritante.
Pelo menos, nem sempre.
Desculpas aceites. Também não acho que sejas simplório.
Só isso não.
- Toma. - Onde arranjaste isso?
Numa jarra, na receção. Mas não digas a ninguém.
Desculpa.
Estou?
Nunca te disse que ia ligar! Vá lá. Espera...
Espera. Não grites, por favor. Não grites!
Por favor, não grites.
Sim, está bem. Não grites!
Que estás a fazer? Paraste.
- Não viste que têm um problema? - E então?
Não sei porque é que és assim.
- Isto é uma corrida. - Sim.
- Problemas? Um pneu furado? - Um prego, pelos vistos.
- Vou buscar o macaco e já o ajudo. - Obrigado. Muito gentil.
Não tem de quê.
- Então? - Têm um pneu furado.
Que chatice.
Quinhentos participantes e quem é que tinha de parar?
Ela.
É o momento para lhe contares a verdade.
Não me obrigues a mostrar-lhe a carta.
Cá estamos.
Depois da reparação, aqui, na praça. Tenho de falar contigo.
Quem é que ela julga que é? Agora também me dá ordens!
Depois da reparação. Na praça. Tenho de falar contigo.
Pronto. Cá está.
Bem-vindos a San Marino, a mais pequena república do mundo.
Nas curvas que levam até à mais velha e elevada parte da república,
por onde os carros da Mille Miglia passam desde as edições dos anos 80.
E aqui, na Piazza della Libertà, vemos um BMW 328
e um Jaguar C-Type, conduzido por Brian Johnson e Mark Dixon.
Vou sozinha.
Então? Decidiu finalmente contar-me o que sabe?
Sem conversa fiada.
Quando o meu pai morreu, deixou-me uma carta.
Nessa carta, ele disse-me que,
quando as coisas não estavam a correr bem com a minha mãe, começou a beber.
Esperava que, ao ganhar a corrida,
ela voltasse a ficar interessada por ele.
Enfim, no final dos anos 30, o OM deles já não era competitivo.
Então, tinha de se fazer algo para melhorar o desempenho, alterá-lo.
Foi então que o meu pai decidiu montar um depósito de gasolina
sem que o Aurelio soubesse.
Mas, mesmo nesse dia, durante a corrida, ele estava bêbedo ao volante.
De repente, numa curva, ele despistou-se,
arriscando-se a atropelar uma família inteira que estava a assistir.
Miraculosamente, não matou ninguém, mas feriu alguns.
Acabou aí para eles.
Então, o meu avô era...
Sim. Inocente.
Ele não sabia de nada.
Ele assumiu a culpa para salvar a carreira do meu pai, enquanto piloto,
que corria bem. Ainda podia alcançar feitos importantes.
Além disso, o facto de ambos usarem bonés de couro,
óculos iguais, permitiu dizer que era o condutor.
- Ele também era mecânico. - Salvou-lhe a reputação arruinando a sua.
Nunca mais competiu na Mille Miglia.
A esse respeito, o meu pai fez o mesmo.
Pilotou noutras corridas, no estrangeiro.
E o meu avô, que ficou aqui, enquanto outras pessoas o olhavam com desdém.
O seu pai não se importou com isso?
Não, querida. Eles tinham um pacto.
O meu pai prometeu nunca mais competir na Mille Miglia
a troco do silêncio do teu avô.
E para selar o pacto,
ele deixou um carro extraordinário nas mãos de um mecânico falhado.
O OM 665.
Certo. Uma boa soma pelo silêncio dele. Não achas?
O meu avô nunca quis saber.
Ele desmantelou-o e só se encontram algumas peças.
O que fez com o carro é algo que só ele sabe.
Estás contente?
Não te esqueceste de nada?
Lembras-me a tua mãe quando era mais nova.
Roma Caput Mundi.
Para os participantes de fora, o cortejo pelo centro de Roma
vale por toda a participação na Mille Miglia.
Amanhã de manhã, aguarda-os a longa subida até Bolonha.
Não deve ter sido fácil viver sem um pai.
Desde criança que o meu avô era a minha referência.
Sentimos falta de quem temos, não de quem nunca tivemos.
Ainda bem que estás a fazer justiça pelo teu avô.
Vais falar disso no teu artigo?
Estou a pensar nisso.
Giovanni, lembra-te que o engenheiro Rossi e a mulher dele propuseram
um jantar connosco esta noite, portanto...
Peço-te, vamos fingir que não aconteceu nada.
Sem problema. Não arruinarei o negócio.
Sabes o que farei? Não jantarei convosco.
Vou dar um passeio.
Não, Giovanni. Não vais a lado nenhum.
Parecerei uma viúva. Giovanni!
Obrigado por teres vindo.
Tê-lo-ia evitado, mas também tenho algo a dizer-te.
O quê?
Não quero que a minha filha saiba.
Porque é que nunca me disseste?
Que fui para a Alemanha por tua causa? Como se não soubesses.
Não. Eu imaginava.
O que eu não sabia é que estavas grávida de uma menina.
Eu voltei várias vezes com a minha filha. E tu nunca reparaste.
Estava sempre fora devido às corridas. Sobretudo no verão.
Vi-te uma vez com ela, mas...
Estavas com outro homem.
Julguei que ele era o pai.
Quando é que percebeste?
Ontem, depois de a ver.
Ela tem a mesma expressão que eu.
Ao pensar no que o meu pai fez por ti.
Ele criou-te como um filho. Ensinou-te tudo o que ele sabia.
Foi a paixão do meu pai que te fez tornar um piloto de competição.
Não foi o dinheiro do Ernesto. Sabes isso, não sabes?
Sim, Adelaide.
Eu sei. Claro que sei.
Mas o que fazemos agora?
Nada.
O passado deve continuar no passado.
Ainda penso nisso.
Sabes o que a minha mãe disse acerca do relógio?
O tempo mostra a diferença entre derrota e sucesso.
Lembro-te que estávamos a jantar nessa noite.
Estamos dentro do planeado, de acordo com o programa.
Está tudo bem.
Devemos estar a chegar à curva.
Já reparaste que estamos num "Asa de Gaivota" a fazer a Mille Miglia?
Sim. E estamos dentro do planeado. Repara. Eu sabia.
Deve haver outra aqui.
E vira à direita.
Está tudo bem.
Piazza del Campo e os carros de competição
oferecem um espetáculo dentro do espetáculo.
Tem lugar numa praça italiana conhecida em todo o mundo.
Quando é que te vais embora?
- Dentro de horas. - Estás a brincar!
Depois de amanhã, farei a cobertura de uma feira em Colónia.
Mas ainda temos de terminar a corrida, certo?
Escuta...
Sei que, às vezes, sou irritante.
Na verdade, estava ansioso por me ver livre de ti.
E pensar que vim de comboio à Mille Miglia por tua causa.
Merda!
Giulia...
Nunca mais te quero ver!
Desculpa.
Não tens nada que ver com isto.
Na verdade, não te comportas muito bem com a tua namorada.
- Ela não é minha namorada. - Não teria tanta certeza.
Escuta. Eu e a Giulia namorávamos.
Depois, há cerca de um ano, acabámos.
E ela não superou isso.
Ela aparece na oficina às 7 horas. Encontro-a em frente à minha casa,
toma o pequeno-almoço onde eu tomo.
Ela disse que não te queria ver mais. Talvez pare.
Esperemos que sim.
Tive uma ideia.
Se ela voltar, dás-me outro beijo para piorar a situação?
Para ajudar um amigo em apuros... Sim.
Vamos.
Com certeza que somos o piloto e copiloto mais invejados da corrida.
Bem-vindos a Bolonha.
E agora, outro pedaço de história.
Apresento-vos o Mercedes 300 SL,
conhecido em todo o mundo por um apelido
e não pelo nome oficial do carro.
Este carro chama-se "Asa de Gaivota".
Senhoras e senhores, o 300 SL.
Obrigado. Um aplauso.
COM RAÍZES PERFEITAS QUE PENETRAM A TERRA
Giordano Mozzi e Stefania Biacca.
Os vencedores da corrida Mille Miglia de 2014
vencem um marco histórico do automobilismo italiano.
Os fotógrafos apressam-se
a tentar imortalizar o momento de alegria dos nossos fantásticos pilotos,
banhados com um bom vinho italiano, conhecido mundialmente.
Todos os participantes celebram a chegada,
enquanto esperam para levar os carros para a rampa e receber um merecido aplauso
das autoridades e dos organizadores da corrida.
- Olá, Riccardo. - Marco.
Marco!
Não vale a pena fugir.
Porque este problema não passará, certo?
- Não vim por tua causa. A tua copiloto? - Vieste pela minha copiloto?
Acho que te devo agradecer.
Eu...
... quero pedir-te desculpa pelo comportamento da minha mulher.
Não se preocupe.
Não sabe quão importante é aquela carta para a minha mãe e para mim.
Eu sei.
Conhece muito bem a minha mãe, não é?
Lamento que tenhas feito uma viagem longa.
- Não imaginava que virias até aqui. - Eu ganhei a minha corrida.
Sei que te atormentei e lamento.
Tinha medo da solidão e receava tudo o que não conhecia.
São o Marco e a Giulia.
Mas, agora, tudo é diferente.
Quero dar-te este casaco como recordação desta Mille Miglia.
Por favor, aceita.
Já o vi.
- Numa foto na casa do meu avô. - Ele deu-mo há muitos anos,
quando era uma jovem promessa do automobilismo.
Acho que fica melhor em tua posse.
Está tudo bem?
Sim. Não é mau...
Não é mau saber quem é o meu pai.
- E deixa-lo ir assim? - Sim.
Por agora, isto serve. Vamos.
Gosto desse casaco.
Encontraste-as!
Sim. O carro do teu avô! Está tudo aqui.
Sempre soubeste que estavam aqui?
Não! Quero dizer, sim. Mas não tinha reparado.
Mãe, não entendo. Por favor, fala de forma clara.
O teu avô tentou dizer-me.
Estava tudo ali debaixo.
Em criança, ele dizia-me: "Um amor está aqui enterrado,
e eu sou o guardião."
A solução estava nas palavras de Marinetti no relógio.
As mesmas que estavam gravadas no tronco em frente ao cedro.
Mas só me apercebi quando me disseste
que o Ernesto lhe tinha dado o carro todo.
- Queres dizer que... - As peças estavam todas ali debaixo.
Mas não entendo.
Porquê enterrar metade do carro?
Se ele tivesse ficado com o carro todo,
daria a entender que seria o preço pelo seu silêncio.
O Ernesto e o Aurelio partilharam sempre tudo.
Mágoas, alegrias, segredos.
Ele também queria partilhar a memória.
Mas a amizade deles esmoreceu na mesma.
Sim. O Ernesto era demasiado orgulhoso para pedir perdão ao meu pai.
O teu avô tinha razão em chamar-te assim.
Ele sabia que um dia ias estar ao volante.
"O mistério do OM 665 Superba é revelado.
Os amigos da Mille Miglia acorrem a ajudar a família Moraschi."
Aurelio.
- Olá. - Olá.
O que estás aqui a fazer? E a feira de Colónia.
Queria despedir-me.
Vermelho! Que lindo!
Pintaste-as? As peças estavam todas estragadas.
Estas são as cores originais com as quais o teu avô competiu.
Bem...
Adeus, Maria Esse.
- Sabes a que se deve o "Esse"? - Não.
A Superba. Como este carro.
OM 665 Superba.
Quando dizem que o destino de uma pessoa está escrito no nome...
Engraçado. Escuta.
Achas que ficará pronto para a próxima Mille Miglia?
Está praticamente pronto.
Legendas: Paulo Martins
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