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Original subtitles

Tradução e sincronia por suzy.it

revisão por Le e Genda

para LEGENDASTV

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

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.:TTF - A LENDA CONTINUA:.

Ela corria veloz atrás do trem, e sua figura, até ontem enorme,

ia ficando pequena aos seus olhos, mas cada vez maior em seu coração.

O 21 de junho de 1974

foi o último dia em que Ricardo Morales

tomou café da manhã com Liliana Colotto.

E durante o resto da sua vida,

ele iria lembrar cada detalhe daquela manhã.

Planejaram suas primeiras férias.

Beberam chá com limão, devido à sua tosse persistente,

que ele tomou com pouco açúcar, como de costume.

Lembraria para sempre daquela geleia de groselhas,

com fruta de verdade, como nunca mais provaria...

das flores estampadas na sua camisola,

mas sobretudo, de seu sorriso...

O sorriso de quem acabou de acordar,

que se fundia com um raio de sol que caía sobre sua face esquerda,

e que...

Não, não!

Por favor!

TEMO

Abriram as portas do céu, e escapou um anjo...

- Espósito! - Tchau, garota!

- Como disse que vai? - Como vai, doutor?

Olá, Comissário. A doutora está aí?

- Sim, pode ir. - Obrigado, Reverendo.

Você fica muito bem sentado aí atrás!

Que grande filho da mãe...

Tem menos pernas que uma foto de documento!

Abriram-se as portas...

Sua Alteza!

Que surpresa!

- Com licença. - O que faz por aqui?

Nada, estava passando...

vim conversar um pouco... está ocupada?

Não, estava revisando uma audiência,

mas já sei de cor. Um café?

Talvez agora, que está aposentado, tenha decidido cuidar da saúde!

Mariano!

Sim, doutora.

Vá até o bar Uruguay e traga dois cafés dos bons.

Mas tenho que terminar o trabalho.

Que trabalho? Apresento-lhe o Sr. Benjamín Espósito,

aposentado recentemente, "Honoris Causa" do Palácio, e um velho amigo.

Mariano, o novo "office-boy" da temporada primavera/verão...

e nada mal! Não?

Pegue, traga alguns biscoitos e algo para você também.

Mais leite do que café para mim, por favor.

Claro, você anda com uns probleminhas!

O que é mesmo? Velhice?

Mais leite do que café, porque ele tem problemas de idade!

Sim, doutora.

Espere... Você quer me dizer algo importante?

Não... não!

Deixe aberta, garoto. Venha, sente-se.

E o que você sabe sobre escrever romances!?

Como? Eu passei minha vida escrevendo!

Se quiser, vamos até o Arquivo e lhe mostro.

Ah, os processos!

E quantas páginas terá o seu romance? Já tem título?

Um pouco mais de incentivo, não seria mau.

Quer que me comporte como um aposentado...

que passe para lhe dar uma mão, ou para servir o café?

Eu quero escrever, o que tem de mau?

Quero escrever sobre o caso Morales.

Não sei porquê... tenho pensado nisso.

Nunca mais falamos nisso. Por que nunca mais falamos nisso?

Com sua letra, o "Grande Romance" vai virar o "Grande Garrancho".

Ah, espere... veja...

Suspeito que não corremos perigo porque iniciei cinquenta vezes

e não consigo passar da quinta linha!

Nesse ritmo, acho que vou gastar toda a aposentadoria

em cadernos de espiral.

Venha cá, me dê uma mão.

Pode deixar!

Não consigo...

Pesadíssima, não?

Não acredito, a velha Olivetti!

Estava no depósito, com o caso do anão orelhudo!

Já consertaram a letra "a"?

Com a letra "a", qualquer um pode escrever!

Pegue-a, dois dinossauros conseguem se entender.

Agora não tenho mais desculpas...

tenho que escrever.

- Mas por onde começo? - Pelo que se lembra mais...

Faz mais de 20 anos... O que você mais tem pensado

até agora?

Não sei... comece dessas imagens

pode ser um modo, um ponto de partida...

Apresento-lhes sua nova chefe, que acabou de chegar

do seu doutorado em Harvard, a Srta. Irene Menéndez Hastings.

Hastings.

Se pronuncia Hastings, porque é escocês.

Ah, desculpe... Hastings, a nova Secretária do Juizado.

Seu primeiro oficial, Benjamín Espósito.

Na verdade estive em Cornell, não em Harvard.

Muito prazer! Pablo Sandoval, oficial... mas antes, um servidor.

Ei... Ei!

Você se distraiu?

Sim... não. É que...

me lembro de muitas coisas. Mas não tenho certeza do que...

tenham exatamente a ver com esta história.

Então comece do início, e pare de resmungar!

Banco de Sangue, bom dia!

Sr. Espósito...

Chamaram da 25, para ver um homicídio.

Secretaria 18, isso é com eles.

- Disseram que é estupro com morte. - Secretaria 18!

Bom dia!

- Olá, rapazes! - Bom dia, doutora.

Srta. Secretária, morreu algum santo no dia de hoje?

- Por quê? - Vejo um anjo vestido de luto!

Ah...não, isto é um método

que nós anjos usamos para diminuir uns 3 quilos.

Traga o material do caso Chávez. Vamos ver isto?

Claro que sim.

- Que garotinho terno! - Por quê?

Por quê? Ela chega, e você já tem uma gracinha pronta,

para que ela se derreta! Como faz?

Acontece, Benjamín, que você me vê aqui, vestido de sapo,

mas na verdade sou um príncipe encantado!

- Sr. Espósito! - O quê?

Chamaram da 18 e o Dr. Romano lhes disse que esse caso é nosso.

O Dr. Romano?

Diga-lhe que o "Marechal" Espósito está indo enchê-lo de porrada!

- Tá bom! - Onde vai, idiota?

Fico 3 horas pensando no que dizer a ela, e quando a vejo chegar,

me bloqueio...

Para mim é mais fácil, Benja, eu não estou apaixonado.

Nem eu, palhaço!

Pode ir.

Peço à você que pegue os arquivos

e os coloque deste lado, todos juntos. Não é tão complicado.

Romano, falou com o pessoal da 25?

- O caso é de vocês! - Ficamos de repartir, um a um,

e agora chegou este caso. Qual é o problema?

Um roubo numa quitanda e agora essa, cara de pau?

- É para dividir os casos parecidos. - O que fazer?

Consulte o Dr. Fortuna Lacalle.

Eu pedi uma solução, não dois problemas.

Desculpe, meu caro, por que seria um problema me consultar?

Não, doutor, é que acho uma bobagem

incomodar o senhor com isso.

Podemos resolver nós mesmos, com boa vontade.

Rigorosamente, esse caso é seu, e se não se apressar...

em vez da cena do crime, você vai encontrar um velório.

- Como vai, Báez? - Vou indo, e você?

- Cansado de ser feliz! - Nota-se que está contente!

Como pinto no lixo! O que me deixa feliz da vida,

é que o idiota do doutor me mandou ver uma morta.

Há milhares de idiotas por aí.

Tem o idiota tranquilo, pacífico, que sabe que é um idiota,

que não incomoda para não ser incomodado, e não enche o saco.

- Como vai, Inspetor? - Por acaso, falando de você.

E tem o idiota que se acha um gênio.

Está sempre aprontando alguma, e alguém tem que limpar sua merda.

E deste tipo conheço dois:

o Juiz, e um colega da 18, que não sei se é um idiota,

um filho da mãe, ou uma combinação das duas coisas.

Este caso é dele, por isso peço a você, se puder,

que fale com o juiz, e explique

que eu não tenho nada a ver com...

Liliana Colotto, 23 anos, professora,

casada desde o início do ano com Ricardo Morales,

funcionário do Banco Nacional.

A velha senhora disse

que há dois operários trabalhando no terraço do apartamento 3,

mas que não vêm há dois dias, por causa da ameaça de chuva.

- Ela tem certeza que não os viu? - Ela disse que não.

Estou indo ver o marido no trabalho.

- Nos vemos, Espósito. - Não, eu vou com você.

- Boa tarde. - Olá, boa tarde.

- Ricardo Morales? - Está lá.

- Ricardo Morales? - Sim, sou eu.

Inspetor Báez, Polícia Federal.

Alguém mais tinha a chave da sua casa?

Não viu algum rosto estranho nos últimos dias?

A vizinha disse que você vinha em casa sempre ao meio-dia.

Um pouco longe, não? Vinha por alguma razão especial?

Desculpe, não entendi.

Nós tínhamos esse costume, um hábito...

gostávamos de ver o programa dos "Três Patetas" na TV, juntos.

Ela se divertia... achava graça.

Vai ter que me acompanhar ao necrotério,

Trataremos de fazer do melhor modo possível.

Sei que é uma coisa desagradável...

O que tem a letra "a" desta máquina?

Por favor, leve-a embora daqui! Não a aguento mais.

- E a quem dou? - Não sei, mas não a aguento mais.

Benja, me diga se gosta assim:

"Pela presente eu,

Juiz da Vara Criminal, Dr. Raimundo Fortuna Lacalle,

declaro minha total insanidade e incapacidade de ação."

Não, não... assim está ruim. Deixe-me ver.

Não, é assim:

"pelo disposto nos artigos 141, 142 e 143 do Código Civil,

declaro - com letras maiúsculas - que Raimundo Fortuna Lacalle,

é um doente mental, demente, em sentido jurídico,

com uma forma de transtorno crônico delirante,

e, portanto, absolutamente incapacitado à vida civil."

Como vai, doutora? Muitos papéis para assinar?

Ah, como vai, doutor? Temos o caso Nicolosi.

Não é muito, doutor.

Algumas citações a testemunhas, nada mais do que isso...

Muito bem.

- Um último documento, doutor. - Ok, obrigado.

- Bom dia, doutor. - Como vai?

- Benjamín, Pablo... Doutora. - Bom dia.

Benjamín, para você ver a boa vontade da Secretaria 18...

lembra que no outro dia você ficou chateado,

porque deram o caso a vocês?

Aqui está, o caso foi resolvido.

Foram os dois operários que trabalhavam no apartamento 3.

Eles já estão presos na 25. Quando o Juiz resolver,

traga-os para interrogar.

- Espere, mas que operários? - Já lhe digo.

Jacinto Cáceres, boliviano, 35 anos.

Juan Robles, 34. Ao menos esse é argentino.

Estou impressionado, Romano.

Se continuar assim, darei todos os casos difíceis à 18.

- Não lhe convém! - Por favor, doutor!

Eu sempre digo que é melhor ajudar do que combater.

- Espósito, como vai? - Romano lhe disse que eu viria?

Sim, eu já estava mandando o relatório ao Tribunal.

Os presos eu lhe mando amanhã.

Foram eles, já assinaram uma confissão espontânea.

- Mando-os no máximo segunda. - Deixe-me passar.

O oficial Sicora tem que autorizar.

Sicora está para receber uma intimação daquelas!

Você quer uma também? Avise-me!

Para mim é melhor, duas pelo preço de uma.

O que fazemos?

Você é o Cáceres?

Não, eu sou Robles. Ele é o Cáceres.

Cáceres,

calma...

Seu filho de uma puta!

Qual é o seu problema, doente de merda?

Você pegou dois bobos. Dois bobos!

Não viu a descrição do assassino,idiota?

Soltem eles e basta! Para mim, o que importa?

Foram espancados por sua ordem, filho da puta!

Eu agora vou na Câmara, fazer uma denúncia!

Vamos ver como vai se livrar dessa acusação!

- Sabe onde meto sua denúncia? - Eu é que vou metê-la no seu rabo!

Faça a denúncia. Tanta confusão por dois pretinhos de merda!

Pretos vão ficar seus olhos, imbecil!

Já chega, pessoal, vamos. Acabou!

Procure trabalho! Você nunca mais vai voltar a pisar neste tribunal.

Você não sabe com quem está se metendo! Não tem a mínima ideia!

Benjamín... Benjamín...

Tranquila, tranquila,

Vou na Câmara fazer a denúncia, e volto logo.

- Acho que está certo. - Volto logo, não se preocupe.

- Você viu o Sandoval? - Já foi embora.

- Para onde? - Acho que foi para a Rua Talcahuano.

Este país está de cabeça para baixo...

É você que está de cabeça para baixo, irmão.

O que queria, com esse demagogo como nosso presidente?

Cuidado com o que diz, vai ter problemas.

Atenção um momento, por favor! Acabou de chegar

o Ministro da Corte, Sr. Benjamín Espósito. Saúde!

Saúde, ministro.

Quanto ele deve?

Eu não devo nada. O que eu bebo, eu pago... você sabe disso.

Além disso ainda é cedo, que diabo!

Agora eu vou pagar, estou pegando o dinheiro...

Não, pago eu...

Então o Sr. Espósito está pagando uma rodada para todos!

- Não... não! - Obrigado!

Não me agarre!

Não me agarre, aqui você não é o meu chefe.

Não me envergonhe na frente dos meus amigos.

Eu não o encubro mais!

Me diga porque está fazendo esse papelão?

Está bem! Vamos indo, devagar...

- Está tudo bem. - Nós estamos indo.

- Venha. - Estou indo...

Até mais...

- O casaco. - Está aqui, vamos.

- Boa tarde, Emilio. - Até logo!

Você é a mulher dele, esta é a sua casa!

Você o traz a esta hora, não sei de onde! Eu não aguento mais.

- Agradeça, por tê-lo trazido! - Eu não sei porque ele volta assim.

- É culpa sua. - Minha?

- Sim, ele volta com você assim! - Está dizendo que a culpa é minha?

- Quem é? - Benjamín Espósito.

- Quem? - Do Tribunal, lembra?

- Era linda, não? - Muito.

Sinto muito pelos dois caras.

Eles já devem estar livres.

Tinham que ser examinados pelos médicos legistas,

por causa da denúncia que fiz.

Não... continue olhando, assim a conhece um pouco mais.

Tem mais estas.

Eu passo o tempo olhando as fotos.

Já sei que é uma negação,

mas me ajuda a continuar vivendo, até conseguirmos pegar esse cara.

Estas são de quando pediu demissão na escola.

Depois ela veio embora de Chivilcoy, para morar aqui, com uma tia.

Trabalhava em uma escola de Almagro, e então nos conhecemos,

quando foi pagar uns impostos no Banco Nacional.

Eu ainda não sei como consegui chegar perto

de uma mulher tão linda.

Diga-me uma coisa. Quando pegarem esse cara,

qual será a sua condenação?

Para homicídio qualificado por estupro, prisão perpétua.

O que fazer? Aqui não temos pena de morte.

Eu não concordo com a pena de morte.

Eu também não, é que achei...

que seria uma forma de compensação para você.

Compensação? Vão estuprá-lo e matar a golpes, como fez com ela?

Não... lhe dariam uma injeção e ele dormiria tranquilamente.

Muito injusto!

Sabe o que eu daria por uma injeção assim?

Estas são de quando tinha 17 ou 18 anos,

num dia de primavera em Chivilcoy. No balneário.

- Você conhece Chivilcoy? - Não.

Eu estive lá com ela, visitando seus pais.

Não, que ele viva muitos anos...

para se dar conta de que todos esses anos serão cheios de "nada"...

O que foi?

Não... nada.

Ela não tinha irmãos, não é?

Não, por quê?

Você sabe quem é este?

Porque está em várias, sempre olhando para ela...

Eu ensinei este sistema à Liliana. Senão, com os anos,

não se sabe mais quem está na foto.

É verdade.

Laporta, Rodríguez, Cardozo, Simone...

Está aqui... Gómez, Isidoro Gómez.

Então?

Sempre achei um delírio essa história das fotos.

Sim... mas acho que foi

pelo modo como ele a olhava. Acho que foi por isso.

Você vê esse garoto olhando essa mulher, com adoração...

Os olhos... falam!

Os olhos falam demais, melhor que se calem!

Às vezes é melhor não olhar!

- O que está olhando? - Nunca mais falamos deste caso.

- Quando você voltou de Jujuy? - Em 1985.

E por que agora?

Seria melhor plantar begônias?

Por quê?

Porque são mais de 20 anos que andei distraído...

tribunais, causas, amigos, transas, um casamento,

vários namoros... andei distraído!

Agora que me aposentei, não tenho nada que me distraia.

Outro dia fui jantar fora,

e vi a mim mesmo, jantando sozinho...

e não gostei do que vi.

Sei que isso não lhe acontece, e não espero que me entenda.

E tentando...

achar os porquês, os momentos...

tudos, absolutamente tudo, me leva a Morales!

É como se minha vida fosse...

- Atenda. - É o Alfonso, ligo depois.

- Atenda!. - Não, chamo depois.

Não tem problema, atenda.

Alô! Sim, estou terminando, vou logo para lá.

Vá tomando algo, eu já vou!

- Alô! - Alô, boa noite!

É da casa de Isidoro Gómez?

- Sim. - Ele está aí?

- Não, não... ele não vive mais aqui. - Não?

Não, ele se mudou para Buenos Aires.

- Ah... para Buenos Aires. - Quem está falando?

Estou ligando da parte do Vereador Méndez, por causa de um trabalho...

Faz muito tempo que se mudou para Buenos Aires?

Deve fazer um mês, um mês e meio.

Não sabe onde encontrá-lo? Um endereço, onde possa procurar?

É que existe esse trabalho bastante urgente.

Acho que ele está trabalhando numa construção,

Ah, numa obra?

Sim, ele me disse...

algo como Rua Montevidéu, em Lanús...

Na verdade não me lembro direito. Mas...

de que tipo de trabalho está falando?

É um trabalho que com certeza vai interessá-lo muito,

é para o Vereador Méndez e...

Diga-me uma coisa...

Sim...

Ele era amigo de Liliana Colotto?

Ah... Liliana Colotto?

Eles foram namoradinhos, do bairro... por quê?

Porque Liliana trabalha para o Vereador...

e foi ela que o recomendou para este trabalho.

Ah, foi ela! Ele vai ficar contente quando eu lhe contar.

Ah, sim? A senhora acha que ele vai lembrar dela?

Ah, sim! Ele gostava muito dessa garota.

Mas depois que ela foi embora para Buenos Aires,

acho que eles nunca mais se viram.

Alô... Alô!

Se ele estiver aqui, é um milagre. Idiota!

Coitado, queria ver você se tivesse perdido o amor da sua vida!

O idiota é você! Se tivesse ficado quieto e me avisado...

Bom dia, estamos procurando por Isidoro Gómez.

O que quer? Quem são vocês?

Mike Hammer, idiota... ele veio trabalhar?

Ele não veio trabalhar, e não temos nada que ver com ele.

- Pode me dar o endereço de Isidoro? - Um momento.

Fernández! Fernández!

Sabemos que recebeu um telefonema, ontem à noite,

depois veio para seu quarto, e saiu logo depois com a mala.

A encarregada disse que ele tinha uma semana já paga,

mas que foi embora sem problemas.

Se quiser indago mais, doutor.

Eu vi as mesmas fotos que você viu,

sou eu quem deveria ter descoberto isto.

De jeito nenhum, Espósito. Este caso é só fumaça.

Se você acha que vou fazer papel de bobo

incomodando o colega de Chivilcoy, para entrar na casa de uma velha,

e procurar cartas que o filho possa lhe ter escrito...

e bla...bla...bla... por favor, Espósito, você está louco!

Sabe o que é, doutor? É que sem isso não temos nada...

Já me causou muitos problemas, sua briga com o Romano,

que acabou sendo transferido para a Cochinchina!

Ou talvez ele esteja em Chivilcoy!

Por que você não verifica, para ver se lhe ajuda?

O general disse o que tinha que dizer...

É verdade...

A verdade é que não sei o que fazer.

Morales está pior a cada dia,

e o assassino sabe que o estamos procurando.

Meu juiz é um cretino. A Irene, tenho vontade de matar!

E o único cara em que confio neste mundo é um bêbado,

um bundão de merda.

Tenho algo a meu favor. É pouco, mas já é alguma coisa.

Hoje é dia 28, certo?

O bêbado bundão ainda não recebeu seu salário.

O do mês passado, ele já bebeu todo.

Quando o barman apresentar a conta, ele terá que enfrentar um dilema:

se disser que não tem dinheiro, ele vai ficar brabo,

terá que brigar, e sua mulher vai expulsá-lo de casa...

Ou ele se volta para o idiota do seu chefe, que sou eu,

e lhe pede para pagar.

É verdade. Como chefe, é um idiota,

mas para mim, não é tão idiota, porque vai pagar mais uma vez.

Mas se ele lhe pedir um favor,

o bêbado bundão não vai poder lhe dizer não. Não é verdade?

Estou me urinando.

Aguente! A senhora deve sair a qualquer momento.

Muito filme com Napoleon Solo, Perry Mason...

este é o seu problema.

Eu realmente tenho que urinar.

Ah, puta que pariu! Merda! Merda!

Que susto me deu, imbecil!

Eu em você? Que merda veio fazer aqui?

Vim ajudar, Benjamín!

Você deve ficar vigiando lá fora, no caso dela voltar.

- Ela não vai voltar. - Como você sabe?

Ela entrou no armazém e deve demorar.

Fique calmo, pelo amor de Deus!

Você encontrou alguma coisa?

As cartas...

Mas estão sem o endereço, não tem os envelopes.

Não tem remetente.

- Esta é recente. - E daí?

Como, e daí? É recente.

O lixo! Talvez os envelopes ainda estejam no lixo.

Não tem nada aqui.

- Nada de nada? - Nada.

Procurou bem?

- Quer tentar? - Pare, idiota!

Calma!

O que é?

O que você tem?

Já lhe solto.

Quer que eu dirija?

Garanto que aquele cachorro tem raiva, e você vai acabar morrendo!

Por que não ficou vigiando?

A velha vai ver que estivemos lá dentro.

Benjamín, do momento em que viemos buscar as cartas,

cedo ou tarde ela vai saber.

É por isso que decidimos não trazer as cartas conosco.

Você não foi tão estúpido de trazê-las, não é?

- E se as trouxe, o que tem? - Como, o que tem!?

Se a velha se der conta, ela dirá ao Gómez,

ele desaparece, e nós nunca mais o encontraremos.

- Entendeu? - Eu não vejo assim.

Você não vê nada.

Você vai ver, quando eu começar...

a ver de onde vêm, porque vêm, conforme as datas...

Você vai ver, quando eu me dedicar a isso.

Merda de telefone!

Comando Tático Revolucionário. Às ordens, companheiro?

É engano, senhor. Não tem de quê.

- E aí? Nada de nada? - Não. Ou sou eu que não encontro,

ou é como se ele soubesse que iríamos ler as cartas.

Alguns nomes, coisas sem sentido, nada de concreto.

Ouça:

Fique tranquila, minha velha,

nisso sou como Manfredini, e não como Babastro.

- Gente de Chivilcoy? - Passe-as para mim.

Banco de Esperma, Seção de Empréstimo!

- Emprestamos. Quer dar ou receber? - Espósito, Sandoval.

- Não, é engano. - Sandoval.

o Dr. Fortuna quer ver vocês, por favor.

Quando eu lhe falo, você me ouve, Espósito?

Sim, doutor.

Então eu devo supor que quando eu lhe digo algo,

e você faz exatamente o contrário,

não é porque não ouviu, mas porque está cagando para o que eu disse...

Não é verdade, Espósito?

Não, não é assim, doutor.

E se meus colegas de Chivilcoy me ligam, muito irritados,

para me contar que dois funcionários do meu Juizado

assaltaram a casa de uma pobre velha,

isso significa que o que digo não vale porra nenhuma!

Não sei como seus colegas puderam dizer estas coisas.

Foi o mesmo que eu disse a eles, Espósito!

Mas ouça, porque meu colega me contou

que outro dia, na cidade de Chivilcoy,

na esquina das ruas

Francisco Saverio com Schiaffino, na cidade de Chivilcoy,

estacionou um Peugeot de cor preta,

com placa da capital, número 133.809,

e meu colega pede à Polícia Federal que identifique o carro.

E adivinhe em nome de quem está?

Diga para mim, de quem?

De um tal Es...

Espó...

Espósi...

... to.

E a Polícia federal também deu seus dados profissionais.

O Juiz me chamou pedindo esclarecimentos,

mas a verdade, Espósito, é que eu não podia...

porque parece que eu não sou um Juiz, mas sim um grande idiota,

porque eu digo "a", e aqui fazem "z",

como esta máquina de merda que me deram.

Desculpe, doutor, mas...

acho que está acontecendo alguma coisa estranha.

Exatamente, mas espere um pouco,

porque agora vem a melhor parte...

e depois pode me chamar de idiota, o quanto quiser,

mas agora, me escute,

porque o que chamou a atenção das pessoas

não foram dois caras com pinta de "portenhos". Não!

Nem que um deles, aparentemente,

amarrava os cadarços de um par de mocassins... não!

O que chamou a atenção foi que um deles entrou no armazém do lugar,

cumprimentou a todos amavelmente, comprou uma garrafa de uísque,

e saiu bebendo na garrafa, caminhando pela rua.

Devo dar a descrição do sujeito?

Temos que negar, Benjamín. Não fui eu, não estava lá, não sei...

Não fale mais, nunca mais.

- Mas temos que negar isto. - Nunca mais!

- Doutora... - Desapareça da minha vista.

Você também vai ficar contra mim?

Irene, estou falando com você... Irene!

Não sei o que é pior, se a estupidez que fizeram

- ou se a fizeram nas minhas costas. - Achei que você...

- Você acha que não valho nada aqui! - Nunca disse isto.

Nem precisa dizer, se nota! Vamos esclarecer uma coisa:

Aqui eu sou o chefe, e você, meu subordinado.

12 cartas, 31 folhas em papel fino,

menciona 5 empregos... dois como operário,

um numa quitanda de verduras, e dois sem detalhes.

Três localidades fora de Buenos Aires:

Monte Grande, San Justo e Avellaneda.

Seis nomes próprios: Anido, Mesías, Oleniak, Manfredini,

Babastro e Sánchez.

Somente um nome de mulher, uma tal Rosa, que tudo indica ser uma tia,

e nada mais... de resto não tem nada.

- Benjamín, por favor! - E isto também não é nada?

Por favor.

Deixe aberta, não é nada particular.

Eu falei com Fortuna, expliquei a ele que você é um imbecil,

sorri para ele com meu sorriso irresistível,

e consegui convencê-lo a ligar para Chivilcoy e arquivar este assunto.

Não sabe como lhe sou grato.

Espero que de agora em diante não tome mais iniciativas como essa.

- Você pode ir. - Só uma coisa, se me permite...

Qual é o seu sorriso irresistível? Porque parece que não o conheço!

É claro, eu o uso com meu noivo, como deve ser!

Claro.

Bom... não vou roubar mais o seu tempo.

Passe-me a causa de Liliana Colotto, para encerrarmos e arquivá-la.

Este assunto acabou.

Noivado! Hoje em dia, a garotada acha graça disso.

Quem é que fica noivo agora?

Este garoto, como se chamava? Ficou menos de um ano.

- Godoy. - Godoy.

- Foi Larreta que o trouxe. - É verdade!

Fui boba por não ter posto as datas...

Quando foi isso? Dois ou três meses depois de Chivilcoy?

Uma semana depois, me lembro muito bem.

Uma semana depois que nós brigamos,

você apareceu com o Alfonso de tal, para comunicar o seu noivado.

Olhe aqui o Sandoval tentando esconder a bebedeira.

Sandoval... coitado!

Eu me vejo mas não me reconheço, pareço outra pessoa.

- Quem você era? Como era? - Não sei...

- Correta, conservadora... - Solene!

Estruturada.

Inflexível!

Jovem... jovem, Benjamín! Eu era jovem.

Você também era jovem, olhe aqui...

e aqui, olhando para o lado, com cara de coitado.

Eu era outra pessoa.

Pode ser que esse romance seja bom, mas não o é para mim...

Talvez você se sinta no final de sua vida, e queira olhar para trás,

mas eu não posso...

eu tenho que ir trabalhar todos os dias,

e conviver com isto...

que não sei se é "a" justiça, mas é "uma" justiça,

e no fim do dia tenho que voltar para casa, viver com meu marido,

e com meus filhos, que adoro!

Minha vida inteira, foi olhar para a frente...

para trás, não é a minha jurisdição!

Me declaro incompetente!

Que causa... meu Deus! Não acaba nunca!

Morales! Morales!

- Olá! - Como vai?

- Como está? - Espósito.

- Claro... como vai? - Eu vou bem, e você?

Eu estou aqui!

Quer se sentar?

Sim.

Como vai indo?

Este mês tenho vindo aqui terças e quintas.

- Como? - Na Estação, às terças e quintas.

Segundas e sextas vou na Once e nas quartas na Constitución.

Mas eu troco os dias cada mês. Um dia ele vai ter que passar...

Tenho certeza que o cara mora no interior,

porque ele sabe que na capital vai ser pego.

Eu espero que, mesmo tendo passado um ano,

não tenham abandonado a investigação...

Não... não!

- Você deve achar que sou maluco! - Não!

- Não fique preocupado. - Não, não é nada disso!

O pior é que estou começando a esquecer,

tenho que fazer um esforço, para lembrar dela, dia e noite...

No dia em que ele a matou,

ela tinha feito chá com limão, para mim.

Ela tinha me ouvido tossir toda a noite, e disse que me faria bem.

Lembro de coisas bobas, se dá conta?

E começo a ter dúvidas,

não sei mais se era chá com limão ou com mel.

e não sei mais se é uma lembrança,

ou se é a lembrança de outra lembrança, de anos atrás...

Desculpe, preciso falar com você.

- Sente-se. - Obrigado.

Ontem aconteceu uma coisa...

fiquei pensando toda a noite e não consegui dormir.

Pensei em você... Sabe quando...

quando alguém vê as coisas de um ângulo diferente,

quando vê a outra pessoa,

e isto faz você olhar para a sua própria vida.

- Continue. - Sim.

E disse a mim mesmo: tenho que falar disto com Irene.

Talvez ela vá me mandar à merda... desculpe,

talvez ela vá querer me matar, mas tenho que tentar.

Espere um minuto, vou fechar a porta.

- Desculpe. - Sandoval, agora estou ocupada...

- Quando estiver livre, eu aviso. - Mas Benjamín me chamou.

Eu pedi que viesse, assim podemos conversar os três.

Com licença, doutora.

Ontem encontrei Morales na Estação. Sabe o que anda fazendo?

Minha bola de cristal quebrou!

Ele vai todos os dias nas Estações, tentando encontrar o assassino.

Todo o santo dia, ele sai do Banco e vai vigiar.

Você não sabe o que é o amor desse rapaz. Comove!

É como se a morte da mulher o tivesse detido aí

para sempre, eternamente, entende?

Você deveria ver seus olhos, Pablo!

Estão sempre em um estado de "puro amor".

Consegue imaginar um amor assim?

Sem o desgaste do cotidiano, das obrigações!

Deve falar por você mesmo, porque para mim não acontece.

Achamos que o rapaz merece uma oportunidade, doutora.

O que eu tenho a ver?

O caso está encerrado, teríamos que reabri-lo.

Estão propondo adulterar um documento oficial,

que tem a minha assinatura e a do Juiz?

Falsificar decisões, com datas também falsas,

para fazer parecer que a causa está em andamento?

- Boa ideia, não tinha pensado... - Não seja idiota.

Tudo certo, doutor?

Escute, você não viu umas cartas que estavam em cima da minha mesa?

Não.

- Sandoval? - Acho que foi na Rua Talcahuano.

Não sai mai só para beber, agora também some com as provas!

- Está tudo sob controle, Benjamín. - E se a Irene quiser ler?

Tire as mãos, está louco?

- Vamos, por favor. - Sente um minuto!

Sente-se e relaxe.

Sabe por que não conseguimos encontrá-lo, Benjamín?

Porque somos dois idiotas!

Olhe: 12 cartas, 31 folhas, 5 empregos...

- Não, já li isto para você. - Vamos.

Não parei de pensar nem um segundo. A cabeça está explodindo, Benjamín.

Me perguntei: como é possível não termos encontrado esse cara?

Ele desapareceu, mas onde está?

Então comecei a pensar nas pessoas, mas em todas as pessoas.

- Não só nessa em especial. - Sim, em todos as pessoas.

Sim.

E no ser humano.

Uma pessoa pode mudar qualquer coisa, para ser diferente,

mas há uma coisa que não se pode mudar, nem você, nem eu... ninguém.

Olhe para mim...

Sou um cara jovem, tenho um bom trabalho,

uma mulher que gosta de mim... e como diz você,

continuo estragando minha vida vindo em lugares como este.

Mais de uma vez você me perguntou: o que está fazendo aqui, Pablo?

Você sabe por que, Benjamín? Porque é uma paixão minha.

Eu gosto de vir aqui, de ficar bêbado,

brigar com alguém que me sacaneie... eu gosto disso!

Com você é a mesma coisa, Benjamín.

Há uma vida que você não consegue tirar a Irene de sua cabeça.

Mas ela realmente tem vontade de se casar...

acho que tem mais de 37 revistas de vestidos de noiva, na sua mesa.

Ela ficou noiva, com festa e tudo mais.

Mas você ainda está esperando um milagre, Benjamín.

Por quê?... Venha!

- Como vai, tabelião? - Como está?

Este é meu amigo Espósito, do qual lhe falei.

Tabelião Andretta, meu assessor técnico.

Quer meu cartão de visita?

Vamos ver a primeira carta de nosso amigo Gómez,

"Juro que com tanta chuva, acabei pior do que Oleniak, naquela vez"

- Tabelião, por favor... - Juan Carlos Oleniak

começou a jogar no Racing em 1960.

Em 62 passou para o Argentinos Juniors, em 63 voltou ao Racing.

Num clássico com o San Lorenzo, lhe deram um empurrão,

e caiu de cabeça no fosso. Saiu todo molhado!

Uma coisa séria: aqui o chamamos Platão, porque vive na Academia.

"Eu quero lhe trazer, mamãe, e vamos fazer uma bela dupla."

"Anido não é o mesmo, quanto é Anido com Mesías." Doutor...

Anido e Mesías, defensores do Racing, campeão de 61. Negri era o goleiro.

Anido e Mesías. Blanco, Peano e Sacchi.

Corbatta, Pizzutti, Mansilla, Sosa e Belén.

"Fique tranquila, mamãe. Nisto eu sou como Manfredini,"

e não como Babastro." Tabelião...

Pedro Waldemar Manfredini. Foi comprado do Mendoza por 2 pesos,

e acabou sendo um jogador extraordinário para a sua época.

Incrível!

Julio Babastro, ponta direita, jogou somente duas partidas

entre 62 e 63, sem fazer nenhum gol.

"Não quero terminar como Sanchez". A quem se refere, doutor?

Com certeza se refere ao goleiro Ataulfo Sanchez,

eterno reserva do grande Negri. Jogou somente 17 partidas,

entre 57 e 61.

Tabelião, o que é o Racing Club para você?

É uma paixão.

Mesmo que não vença há 9 anos?

Uma paixão é uma paixão.

Entendeu, Benjamín?

As pessoas podem mudar tudo: de cara, de casa, de família...

namorada, religião, de Deus...

Mas há uma coisa que não se pode mudar, Benjamín.

Não se pode trocar de paixão.

Linda noite para jogar futebol

Huracán recebe o Racing Club no Estádio Tomás A. Ducó de Avellaneda

nesta noite esplêndida para a prática deste esporte.

O Racing, que não começou bem o campeonato,

quer sua revanche contra o time aqui do Parque de los Patricios,

um dos candidatos à conquista do título.

Academia! Academia!

Isto é uma loucura, um delírio!

Porque você não entende nada de futebol...

- Tem que ter paciência. - O que tem a ver?

O que quero dizer é que tem muita gente, é impossível.

- Ali está ele! - Onde?

- Ali! - Diga-me onde!

Com licença...

Venha, Benja...

Isidoro Gómez!

Vamos, vamos...

O que você tem, Benjamín?

Estou de saco cheio! Há um mês que viemos aqui...

- Já vimos quatro partidas. - Tenha um pouco de paciência!

Gómez?

Gol, gol, gol...

do Racing!

Puta que pariu! Gómez!

Venha aqui, seu merda!

Corra, Benjamín!

Eu o tinha agarrado e me escapou!

Aqui está Baez. Baez, venha!

- Ele passou correndo, você não viu? - Como ele é?

- Eu lhe dei a foto! - Sim, mas é alto, baixo?

Estatura mediana, magro... o que faz aí?

Não dou mais para isto, Benjamín.

Esse babaca ainda pergunta como ele é!

- Ele deveria estar lá, no estádio. - Ele não o conhece como nós.

- Por que não lhe deu a foto? - Eu dei, não escutou?

Seu animal, infeliz!

Vá para a puta que o pariu! Quer me matar?

- Saia! - Vá a merda, está ocupado!

Saia, a polícia está aqui, não vai lhe acontecer nada.

Que polícia? Não encha o saco!

Pablo!

Alto lá! Polícia! Pare!

Pare aí, não salte!

Onde vai?

Desculpe. Como vai?

- Estou esperando Sandoval. - Para quê?

Eu entro, faço um tipo e depois...

depois lhe explico, é a nossa rotina...

Mais velha que Matusalém! Vocês vão interrogá-lo sem o Juiz?

Claro, antes que chegue o Fortuna, senão ele vai estragar tudo.

Vai interrogar um detido sem advogado e sem o Juiz?

Ordóñez! Você viu Sandoval?

- Saiu há pouco. - Puta que o pariu!

Não vai ter validade!

- Do que o vai acusar? - Como, do quê? Parece pouco?

De estar em uma foto admirando a vítima? Parece pouco!

Por isso temos que tentar dobrá-lo.

- E se não for ele? - Eduardo!

- E se não for? - Como não vai ser ele?

- Sim, doutor? - Não me chame de doutor.

- Vá buscar o Sandoval. - É urgente? Vou de táxi?

Não, de manhã ele está no Robertinho,

ali no Viamonte. Vá depressa!

Não, espere, Edoardo. Por favor!

- Espere! - O que está fazendo?

Desculpe!

- É ele. - Como sabe?

- Não sei. - Então?

Não sei como sei, mas eu sei.

Como?

Gómez, Isidoro Néstor.

- Número de Documento. - 10.740.925.

- Estado civil? - Solteiro.

- Endereço? - Mocoretá 2428, Isidro Casanova.

Em que trem você vem para a Capital?

- Em que trem vem para a Capital? - Não uso o trem, pego o ônibus 96.

Algum problema?

Mo...

core...

Esta máquina não funciona.

Não tem a letra "a".

Espere, espere...

diga-me o que está acontecendo, por favor.

Por favor, lhe imploro...

Você é acusado no caso de Liliana Colotto de Morales,

homicídio qualificado.

Ocorrido em 21 de junho de 1974. Você é acusado de tê-lo cometido,

e eu tenho que interrogá-lo.

Será indicado um Defensor Público...

Espere, espere.

Liliana Colotto?

É uma conhecida de Chivilcoy. O que aconteceu com ela?

Diga-me uma coisa, Gómez,

por que acha que está aqui há 3 dias, incomunicável?

Não sei. Eu o vi no Estádio...

Sim, e quando íamos pegá-lo, você saiu correndo.

O que teria feito se visse dois sujeitos com cara de loucos?

Como ia saber? O que aconteceu com Liliana?

Gómez, não se faça de bobo.

Sabe tão bem como eu, que você violentou e matou aquela garota.

A Liliana...

Como poderia ter feito uma coisa dessas?

Há mais de um ano que não vou a Chivilcoy, posso provar.

Fomos buscá-lo uma semana depois do homicídio,

e você escapou, da pensão e do trabalho.

Que pensão? Nunca estive em uma pensão!

Gómez, não seja estúpido! A pensão da Rua Piedras.

Mas isso foi há um ano atrás.

Fui embora porque me cobravam os olhos da cara, e não podia pagar.

- E o trabalho? - Encontrei outro, onde pagavam mais.

O que tem isso a ver com Liliana?

É uma garota que conheço desde sempre, uma amiga de infância.

Não encontraram o Sandoval.

- O que foi? - Não encontraram o Sandoval.

Me deixe ver...

Escute, o Dr. Fortuna está para chegar a qualquer momento.

Por que não o espera? Por favor, peço por favor.

Ah, sim... Pode ser que...

Pode ser que tenha...

que tenha razão, que seja melhor...

mais conveniente... Deixe-me ver. Um segundo.

Escute, Gómez...

O Juiz que está cuidando desse caso, está para chegar.

Vamos esperar.

Doutora?

Desculpe se interfiro, oficial... Doutor.

Eu sei que este caso é seu...

Mas... não pode ter sido este garoto, de jeito nenhum.

- Podemos falar disto lá fora? - Espere. Só mais um minuto.

Você o viu bem? Não pode ter sido ele.

Deixe-me ver a autópsia!

Essa garota, Colotto... tinha 1,70m, 58 kg,

Olhe como a deixaram!

Desculpe, Gómez! Mas isto parece, oficial...

A amazona e o pigmeu!

Além de ser uma mulher bonita, hein?

Peço que você olhe para este rosto.

Uma beleza como esta não estaria ao alcance de qualquer um.

Tem que ser muito homem para conseguir uma mulher assim.

A senhora acha, doutora? Quero dizer...

a porta não foi forçada.

O que quer dizer que ela já conhecia o agressor.

Sim, mas não venha me dizer que uma mulher assim

ia dar bola para este garoto!

A menos que fosse uma prostituta,

porque com alguns, somente cobrando!

- Quem é você? - Cale a boca.

Não, a garota era direita, tenho certeza.

Nisso, estou de acordo com o garoto...

para mim, o cara do Banco era chifrudo!

Seguramente ele tinha um carro conversível,

para poder entrar com seus chifres.

Por que está rindo, imbecil?

Aquele cara que foi testemunha...

- Sandoval? - Ele! Para mim foi ele!

Era ele, o amante! Um tipo alto, boa pinta, ombros largos...

Um cara realmente capaz de interessar uma mulher!

Olhe para este desmilinguido.

Garanto que quando o viu, ela deve ter pensado:

outra vez este insistente, que está em todas as fotos,

com cara de "amo você", "adoro você". Sim ou não? Hein?

Sim ou não?

Não me comprometa! Sandoval!

Tirem-no daqui, por favor.

- Eu lhe ferrei, filho da puta! - Levem ele, por favor!

Eu peguei você, seu filho da puta!

Saia daqui, por favor! Imediatamente!

Vocês estão loucos!

Escute Benjamín: a fratura do osso parietal direito,

demonstra uma grande força

nas extremidades superiores do agressor.

Olhe isto... dois talharins!

Além disso, a profundidade das lesões vaginais,

permitem deduzir que o agressor

se tratava de um homem muito bem dotado.

Obviamente, não se referiam a este micróbio,

que deve ter um amendoim queimado!

Aqui está, piranha, você gosta disso?

Meu amor...

não salte para pegar os doces da "pinhata", você é baixinho,

e lhe falta muito hormônio, para uma fêmea como eu.

Falta hormônio... sua puta de merda?

Você sabe como trepei com ela, hein?

Você não sabe como trepei, com aquela filha da puta!

Por favor! Largue ele!

- Eu o mato! - Largue ele! Benjamín, por favor!

Solte-me!

Se tocar nela, eu o mato! Eu mato você!

Você é o Espósito?

Você é o Espósito, ou não é Espósito?

- Alô? - Alô, sou eu... acordei você?

Não, estava trabalhando... escrevendo um pouco.

Ainda acordada a esta hora?

Eu estava pensando...

Não me diga! Verdade?

Sim, seu bobo. É sobre o romance...

quando terminá-lo, quero ler.

Ah, muito bom! Gostaria muito.

Não quer conversar um pouco sobre isto?

Não... vou tomar um chá, e voltar a dormir.

Está bem.

- Tchau! - Tchau!

Esta manhã, na residência presidencial de Olivos

a Presidenta da Nação, Dona Maria Estela Martínez de Perón...

Irene, chegou a costureira. Venha ver,

ela colocou a capinha, como queríamos.

- Venha experimentar. - Já vou.

...municipalidades e entidades públicas

de diferentes pontos do território nacional.

Também fez entrega de roupa, material escolar e gulodices,

para serem distribuídos no município de Lobos, província de Buenos Aires.

Além da Sra. Presidenta, estiveram presentes...

Alô?

Morales! Como vai? Há quanto tempo, que surpresa!

Sim, estou vendo, mas abaixei...

O quê?!

Como?

...e que também, graças a eles, podemos realizar muitas coisas,

porque as pessoas não podem fazer tudo sozinhas.

Eles também nos ajudam a levar a cabo todas as realizações."

Bom dia, sou a Dra. Menéndez Hastings,

do Tribunal de Instrução, n° 42. Queremos falar com o Sr. Romano.

Neste momento está muito ocupado. Do que se trata?

Senhor! Senhor! Não pode entrar.

- Deixo as minhas credenciais. - Não se preocupe.

Quero que os procurem.

O que veio fazer aqui? Está louco?

- Não, você está louco! - Doutora!

- Queremos falar com o senhor. - Rapazes, podem sair, por favor?

Se tivessem me avisado, os esperava com um café!

Isidoro Gómez: estupro com morte, detido por ordem judicial...

O serviço penitenciário nos informou

que foi libertado por ordem do Poder Executivo.

Averiguamos, e aqui estamos. Tem algo a dizer?

Sim, é claro. Que vocês tem que sobressair um pouco mais...

porque a justiça é uma ilha no mundo, mas este aqui é o mundo...

e enquanto vocês ficam caçando passarinhos,

nós estamos aqui, brigando no meio da selva.

Gómez, Gómez, Gómez...

Sim... começou a trabalhar para nós quando estava na prisão.

Nos dava informações, espionando jovens subversivos...

Saiu-se muito bem e nos agradou. Por quê? Não estão de acordo?

O senhor se dá conta do que está dizendo?

É um assassino, convicto e confesso.

Pode ser... mas também é uma pessoa inteligente e corajosa,

capaz de entrar numa casa, sabendo o que fazer.

Sua vida pessoal, honestamente...

com todos esses subversivos por aí, não nos deixa preocupados.

Se formos contar somente com os bons!

É um prisioneiro, processado por ordem do Dr. Fortuna...

Acha que não sei que o liberou somente para me sacanear?

Acha que sou um idiota?

São duas perguntas. Qual delas quer que responda primeiro?

- Está certo isso? - Doutora...

Escute, por favor. Não se meta!

O que quer fazer? Apresentar um recurso?

Não se ofenda, mas não pode fazer nada!

Pode sim, voltar para seu escritório, ficar lá sentada, olhar e aprender...

porque esta nova Argentina não se aprende em Harvard.

E você, por que veio com a doutora?

Acha que isso lhe dá alguma imunidade?

Por que não a deixa em paz? Ela não tem nada a ver com você.

Ela é advogada, você um perito contábil. Ela é jovem, você é velho.

Ela é rica, e você um pobretão...

Ela é Menéndez Hastings, você, Espósito... ou seja: nada!

Ela é intocável, mas você, não.

Deixe-a no seu mundo, não seja idiota.

Mas se tem algum problema comigo, venha sozinho e podemos conversar.

Vamos, Irene.

Uma coisa vocês têm em comum:

nenhum dos dois pode fazer nada.

- Você me disse: prisão perpétua! - É verdade...

- deveriam ter-lhe dado perpétua. - E então?

O que quer que diga? Essa gente pega a justiça e a enfia no rabo.

E onde ele está agora, não se pode chegar perto!

E se pudesse, de que serviria?

O que eu faria? O que ganho se der 4 tiros nele?

Eu ficaria na prisão até morrer.

Gómez cairia no chão, livre de tudo, e eu passaria 50 anos preso,

com inveja da sorte dele.

Não. Para mim, a prisão perpétua para ele estaria bem.

Na verdade gostaria de ajudá-lo, mas honestamente, não sei como.

Quem sabe, talvez em outro momento...

- Muito bem! - É por minha conta.

- Não, por favor. - É somente um cafezinho!

Eu aprecio muito o que fez por mim.

Sem a sua ajuda não teríamos chegado até aqui, não é verdade?

Devo-lhe uma!

Dr. Espósito. Estava lhe procurando por causa daquele trabalho...

Não sou um doutor! Quantas vezes tenho que lhe dizer?

Se me chamar de doutor, na frente do Juiz, faço um papelão!

- Fez o trabalho que pedi? - Estou fazendo.

Para estar fazendo você tem que estar lá, mas está aqui!

Benjamín.

Sim?

Quanto tempo tem que passar para que você queira falar comigo?

Eu falo com você todos os dias!

Não sou intocável... e não venho de outro mundo.

Na verdade é sim.

- Irene, vamos parar por aqui. - O quê?

Você vai casar com o engenheiro Zapiola Menéndez Urtubey de Tal.

Você não estará com ciúmes?

Não, por Deus! Espero que sejam felizes!

- Alguma coisa para objetar? - Não.

Vamos, objete!

Irene, por favor...

O que está olhando? O que quer? Vá embora!

- Onde nos encontramos? - Para quê?

Para manifestar suas objeções à minha vida, meu noivo,

meu casamento e outras coisas que estão em causa.

- Podemos tomar um café na saída. - Hora?

- 8h30min. Lugar? - No "Imortais".

- No "Richmond". - Desculpe.

Não pensei em algo elegante!

Não, Benjamín, algo longe daqui.

- Por que está espiando? - Um telefonema para o doutor...

o dono do bar "Mala Yunta", pode ser isto?

Pablo Sandoval... seu filho da puta!

Vá à merda, babaca!

Não, Benjamín! Não acredito que chamaram você!

- O que aconteceu? - Eu disse a todos eles:

"Não incomodem meu amigo! Isto é uma coisa entre homens!"

E que homem é você, bêbado de merda?

Chamou a mim de bêbado?

É um nazista... um nazista!

Oficial, somos do Juizado 42, pode deixar comigo.

- Venha comigo. - Ele deveria estar preso.

Tem que prender este filho da puta! Ele tem que saber o que é a Justiça!

- O casaco, o casaco! - Você está com ele!

A que horas sua mulher volta do trabalho?

Às 8h.

Estranho, não atende.

Estou com a boca seca. Você não tem algo para...

Ela não atende, cara. Deixe isso!

Ela não vai atender nunca.

- Por quê? - Porque o telefone não funciona.

E por que não? Deixe isso!

Eu lhe disse mil vezes, Benjamín... que tinha que fazer uma queixa,

e você me mandava aos diabos!

Isto foi há 6 meses atrás!

Já tem um ano que não funciona.

Os filhos da puta nunca foram consertar o telefone.

Você não pode ficar aqui hoje.

Deixe, não mexa mais nisso.

Se alguma vez tivesse me ligado, saberia que não funciona...

O que está procurando, por que pega isto?

Eu queria fazer uma queixa!

Olhe para mim...

- Você está chateado? - Não, não estou chateado.

Sim, está chateado... e eu vou indo,

antes que você me mande à merda!

Droga, mas quantos móveis tem nesta casa!

- Venha, fique calmo. - Estou sempre esbarrando...

Por enquanto, fique sentado aqui,

até que melhore um pouco.

- Que horas são? - Tenho um relógio no quarto.

Que quarto, idiota? Você está na minha casa!

Estamos bem, estamos bem!

- Tranquilo. - Vamos, Benja...

Vou até a sua casa, convencer sua mulher a não matar você, e volto.

Chame-a pelo telefone.

Não acabou de dizer que não funciona?

O meu não, Benjamín, mas use o seu.

Fique aqui tranquilo, e não toque em nada.

Espere por mim, volto logo.

- Apague a luz. - Sim.

Nós vamos encontrar logo esse filho da puta!

Já vamos encontrá-lo.

- Nós trabalhamos o dia inteiro. - Basta, outro dia.

- Deixe-me explicar. - Mas vai ser a última vez.

Na verdade, você também podia ter se ocupado disso.

- Paciência, ele precisa de ajuda. - É ele quem precisa de ajuda?

Eu sei! Se o ajudarmos, estaremos todos nos ajudando.

- Você quer se livrar dele. - Não diga isso.

O que é isto?

- O que aconteceu? - Espere...

Pablo!

- O que aconteceu? - Não sei...

- Não me assuste! - Espere um pouco.

Pablo!

- Não, não! - O que aconteceu?

- Não, não! - O que aconteceu?

O que aconteceu?

Isso é uma loucura!

Loucura é se ele o encontrar, esse filho da mãe!

Ele virá atrás de você!

Eu já falei com meu pai, ele sabe com quem falar.

Esse cara trabalha para Romano, e Romano não se mete comigo.

Mas Jujuy? Por favor, Irene!

Meus primos são os senhores feudais lá.

Não poderão tocar em você, nem Romano, nem ninguém.

- O que irei fazer em Jujuy? - O mesmo que faz aqui:

- assinaturas, carimbos... - Não, não, Irene! Eu não posso!

Eu aqui tenho a minha vida, tenho meu pai, tenho...

tenho tudo...

E o que faremos... aqui?

Nós... estou dizendo...

você e eu.

Não podemos fazer nada!

Tchau!

É um rascunho.

Faço mais.

- Sua casa é como eu imaginava. - Ah, sim? Como a imaginava?

Exatamente assim, como eu imaginava.

E eu imaginava a sua completamente diferente.

- Você conheceu minha casa? - Não, digo diferente da minha.

Completamente diferente.

O que você teme, Benjamín?

Está escrito aqui "TEMO". Do que tem medo?

Não, nada... isto é uma anotação que fiz,

um lembrete que escrevi, meio adormecido,

para liberar a imaginação... nada de importante.

Diga-me, o que achou?

É um romance, não?

E num romance não é preciso dizer a verdade.

Nem sempre é verossímil.

Sim... não, como? O que não é verossímil?

Ah, Benjamín!

Nessa parte, quando o cara parte para Jujuy...

ele chorando, como se fosse uma perda!

E ela correndo, como se estivesse perdendo o amor de sua vida...

tocando-se as mãos através do vidro, como se fossem uma única pessoa!

Ela chorando,

como se soubesse que lhe esperava um destino medíocre, sem amor...

quase caindo nos trilhos,

como se quisesse gritar-lhe um amor que nunca tinha confessado!

Sim... mas foi assim, ou não foi assim?

E se foi assim...

por que não me levou com você?

Seu tolo!

E como vai continuar a história?

Posso escrever que ele ficou 10 anos

contando lhamas no deserto de Atacama,

e que quando voltou, a encontrou Promotora, casada e com dois filhos.

- Devo escrever isso? - Ou que ele voltou casado

com uma bonequinha de Jujuy, bonita, aristocrática.

Era uma moça divina. Não foi sua culpa, se não consegui amá-la.

- Que final desagradável! - Uma merda!

Eu não quero deixar passar tudo de novo. Como pode ser?

Como pude não ter feito nada? Há 25 anos que me pergunto,

e há 25 anos que respondo a mim mesmo:

foi outra vida, já passou... não pergunte, não pense.

Não foi outra vida... foi esta!

É esta! Agora que entendi isso...

Como se faz para viver uma vida vazia?

Como se faz para viver uma vida cheia de "nada"?

Como se faz?

Não é possível! É uma perda de tempo. Não vamos encontrá-lo.

- Lembre como ele era, super formal. - Quem declara mudança de endereço?

Tenho o mesmo desde quando dançava o "pata pata".

Gómez, Isidoro. Rua Espora 691, Chivilcoy.

O que lhe disse? O endereço da mãe dele.

Escute, senhor. Notificar a mudança de endereço é uma obrigação legal.

Não é o caso de querer fazer, ou de não querer fazer.

- Entendeu? - Sim, agora sim.

Morales, Ricardo... temos 4 com este nome, doutora.

Vamos procurar pelo número da identidade. Qual o seu?

- 3 milhões, e você? - 200 milhões, o que lhe importa?

Nós temos um com 5 e outro com 6.

Este aqui: Morales Ricardo Agustín.

Mudou de endereço em 1975. Tome nota, "pata pata".

Por quem procura?

Morales!

Como vai? Lembra-se de mim?

Espósito, do Tribunal... há 25 anos!

- Mas que surpresa! - Não é? Desculpe...

- Como vai? - E você, vai bem?

Quanto tempo!

- Que surpresa, hein? - Sim.

Venha... entre.

- Quer um cafezinho? - Um cafezinho...

você não toma mate, com este ambiente?

Que ambiente? Eu ainda passo todo o dia no Banco.

Ah, você ainda trabalha no Banco! Eu aceito um cafezinho.

Então, você veio logo para cá?

Sim, queria recomeçar, deixar tudo para trás.

O que há de bom no Banco Nacional, é que tem agências em toda parte.

E há sempre aquelas que ninguém quer! E então, eis-me aqui.

E também fui promovido, sabe?

Você lembra da Liliana?

Sim, claro!

- E você, como vai indo? - Eu estou sempre aqui...

Você continua sozinho? Não se casou?

Não... na verdade, não.

Acho que, a esta altura, já pendurei as chuteiras!

Não... eu tentei! Mas sabe o que acontece?

É muito complicado!

- Eu, ao contrário, me casei. - Ah, sim?

Sim, por um período...

mas não deu certo. Não sei, se foi por minha causa...

- É muito complicado! - É muito complicado!

Olhe este trabalho... não dá para acreditar!

Estou tentando ser um romancista, viu?

Sim, mas acho que está fazendo isso pouco. Parece um longo memorando.

- Que loucura! - Acontece que me lembro sempre!

Você faz mal, deveria esquecer.

Você veio para cá por causa de Gómez, não?

Por que pelo Gómez?

O cara estava solto, podia vir atrás de você!

Ah... não!

Não tenho medo do Gómez, na verdade.

- Pode ser que já esteja morto. - Sim, é possível.

- Eles vieram atrás de mim. - Sim, eu sei.

- Como sabe? - Acabo de ler,

- mataram o seu amigo. - Sim, claro.

Sandoval, coitado! Você se lembra dele?

- Não. - Meu companheiro do Juizado...

Foram atrás de mim, não me encontraram, e o pegaram.

Filhos da puta!

- Nunca pegaram Gómez, não é? - Adivinhe!

Esses caras sabem sempre como se livrar!

Eu queria lhe perguntar uma coisa, porque não sei como é...

Como você fez para aprender a viver sem ela?

Passaram-se 25 anos, Espósito!

- Achei que não ia conseguir. - Passaram-se 25 anos, Espósito!

Com aquele cara solto, por aí, como conseguiu recomeçar?

Passaram-se 25 anos!

Esqueça isso!

Se não fosse por mim, hoje você não estaria aqui! Lembra?

Me deve uma!

Não sei o que quer que eu diga, do que está falando.

Está dizendo que não fez nada, com aquele cara andando por aí?

- Sim, não podia fazer nada. - Ah, não?

Passou um ano buscando um cara que conhecia por foto,

- e depois não fez nada? - Passei um ano atrás, nas estações.

Depois o pegaram e soltaram, o que podia fazer?

E passou o resto da vida carimbando cheques?

- Olhe quem está falando! - Você é melhor do que eu.

O que lhe importa? É a minha vida, não a sua.

Não, Morales... é a minha vida, também.

O seu amor por essa mulher, eu nunca mais vi algo assim.

Em ninguém...

ninguém, nunca!

Saia da minha casa.

Agora, por favor.

É a minha vida, não a sua!

Perdoe-me...

São coisas de um homem velho!

Talvez seja assim...

A verdade é que pensei nisso tantas vezes...

Vá para sua casa, para pensar.

- Sandoval não foi morto por Gómez. - E daí?

Gómez conhecia nós dois.

Se ele andasse por aí, teria vindo atrás de mim.

E tem mais...

na minha casa tem duas fotos minhas...

Quando eles mataram Pablo, o Sandoval,

as fotos estavam viradas para baixo.

O resto estava em ordem, eles não tocaram em nada.

Eu pensei... acho...

Você é o Espósito?

Escute, idiota... estou perguntando se é o Espósito.

- O que está acontecendo? - O que está fazendo?

Responda.

- O que está fazendo? Onde vai? - Nada.

- Onde está indo? - Aqui.

O que vai fazer?

Coloco um disco, está tudo bem.

Vai colocar um disco? Olhe para mim...

Você é o Espósito, ou não é o Espósito?

Sou eu...

Me sinto tão mal com isso, que nem consigo

ir no cemitério levar umas flores.

Talvez não tenha sido assim...

talvez dormisse, e o tenham matado sem que se desse conta de nada...

e as fotos tenhas caído sozinhas, por acaso, pelo movimento.

Não sei...

fico imaginando e não sei o que pensar.

Ele está bem...

a única coisa que nos resta são as recordações!

Pelo menos que sejam lindas, não?

Mas é uma coisa da qual nunca mais vou esquecer.

A última coisa que me disse, na noite que o mataram, foi:

Não se preocupe, Benjamín, nós vamos pegar aquele filho da puta.

E eu vou pegá-lo.

Se ainda estiver vivo, vou pegá-lo.

Espere.

Entre, sente-se.

Não o procure mais.

Eu não podia ir ao Ministério, sabia que o cara era intocável.

Mas também sabia que, cedo ou tarde, ele viria atrás de você.

Nos vemos lá às 9h.

Ei, Gómez!

Escondi o corpo e, evidentemente, ninguém procurou muito por ele.

Valeu a pena?

Não pense mais nisso! Não pense mais!

O que importa?

Minha mulher está morta. Seu amigo está morto.

Gómez também está morto, estão todos mortos. Não fique mais imaginando,

não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu...

senão vai ter mil passados, e nenhum futuro.

Não pense mais, não vale a pena. Fique somente com as lembranças.

Eu lhe devia uma, não?

Agora estamos quites!

Não pense mais...

Não pense mais!

A verdade é que pensei nisso tantas vezes...

O que ganho, se der 4 tiros nele?

É a minha vida, não a sua!

Vá para sua casa, para pensar...

Nós já vamos encontrá-lo.

Há 25 anos que me pergunto...

Não foi outra vida... foi esta!

Uma pessoa pode mudar qualquer coisa, para ser diferente...

O que ganho, se der 4 tiros nele?

Há uma coisa que não se pode mudar. Nem você, nem eu, ninguém, Benjamín.

Como se faz para viver uma vida vazia?

Como se faz para viver uma vida cheia de "nada"?

Como se faz?

- Você sabe como trepei com ela? - Compensação?

É como se a morte da mulher o tivesse detido aí, para sempre.

Minha mulher está morta. Seu amigo está morto.

Gómez também está morto, estão todos mortos.

... lhe dariam uma injeção, e ele dormiria tranquilamente.

Ninguém, Benjamín...

... que ele viva muitos anos

para se dar conta de que todos estes anos serão cheios de "nada".

Como conseguiu recomeçar?

Passaram-se 25 anos!

25 anos, Espósito! Esqueça!

Por favor!

Diga-lhe...

peça a ele... que ao menos, fale comigo!

Por favor!

Você disse perpétua...

PABLO R. SANDOVAL

TEMO

TE AMO

- A doutora está aqui? - Sim, está no escritório.

- Você ainda está vivo?! - Sim.

Tenho que falar com você.

- Trago café, doutora? - Vá embora, garoto!

Vai ser complicado!

Não me importa!

Feche a porta!

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

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