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[música]
[música]
[música]
[música]
Oh.
>> [música]
>> เ
А, А,
а,
а.
Ока. Ока.
Como é que ele sabia que a gente estava
aqui?
>> Ele não sabia.
Por que que você tá assim?
Por que isso agora?
Quantos paraguai você não marcou só na
semana passada?
ter sido mais que eu, Henrique, em dois
anos de guerra,
>> porque a gente tá numa guerra,
mas eu nunca assassinei ninguém.
Guerra,
você chama o que aconteceu em Maitá,
que a gente fez naquela cidade.
Você chama de guerra.
É nisso que você quer acreditar?
Não era para ter acontecido nada disso
hoje.
>> Não, não era.
>> V achar ele naquele rio a qualquer
momento e a gente vai morrer aqui por
causa disso.
A gente ia morrer de qualquer jeito.
A gente ia morrer na guerra ou a gente
ia morrer porque fugiu dela.
Tanto faz.
A gente não foi feito para sair daqui
vivo.
Pelo menos não você.
Se eu tivesse opção, não estaria aqui.
Posso ter certeza que eu tô nessa tanto
quanto vocês dois.
A gente não pode encontrar seu amigo em
outro lugar.
Agora
já deve ter ido embora há muito tempo,
mas com aqueles soldados andando por lá
procurando o coronel.
Como é que a gente faz para sair daqui?
>> Não tinha plano B para isso.
A gente vai ter que improvisar.
Mas eu ainda quero meu dinheiro.
Vai receber seu dinheiro se a gente sair
daqui vivo.
Nós três
que isso?
Minha mãe me deu.
>> Eu acho que foi ela.
>> Como se fosse uma cruz.
Não é esse tipo de salvação.
>> [música]
[música]
[música]
>> Boa noite.
Tem alguém aí?
Desculpa bater essa hora.
A gente não achou mais nenhuma [música]
outra casa por aí.
A gente só tá pedindo ajuda pro nosso
amigo.
Olha,
eu sei que é estranho,
mas a gente só tá pedindo ajuda mesmo.
Acho que isso diz que vocês podem
confiar na gente.
>> Por que vocês podiam não estar pedindo?
Eu
só tô dizendo que a gente precisa de
ajuda, só isso.
Nosso amigo não tá bem. Esses aí não
falam.
São brasileiro. Não
>> sou.
Sou do Rio de Janeiro.
>> Ele é brasileiro também.
Ele é brasileiro.
>> Que que aconteceu com seu amigo?
>> Assaltaram a gente perto daqui
e aí deram tiro na perna dele.
>> Tem muita coisa estranha acontecendo por
aqui nesses tempos.
Muita gente estranha passando por aqui.
Deve ter sido longe. Eu não ouvi barulho
de tiro perto daqui.
>> Você ouviu alguma coisa?
Foi bem longe.
Vocês
podem ficar aqui essa noite.
Amanhã vai passar um ambulante indo
direto pra cidade. Ele pode levar vocês.
>> Essas correntes aí.
>> Eu tranco todas as portas dessa casa.
Entendi.
Mas não tem necessidade nenhuma de
trocar a gente aqui.
>> Três homens que eu nunca vi na minha
vida chegam na casa de um velho e de uma
garota no meio da noite.
Eu acho que eu prefiro trancar senha.
>> Desculpa, mas
eu não vou ficar trancado aqui.
>> Ninguém disse que você precisa,
>> Gabriel.
por favor.
Tá tudo bem,
a gente agradece.
>> Vocês podem deixar as coisas de vocês
daí pra gente ir lá pra sala.
>> Será que não é melhor a gente dormir
agora
>> para não dar mais trabalho para vocês?
>> A gente ainda tem uma coisa para
resolver.
>> O Gustavo pode ficar aqui pelo menos.
É ele que a gente tem que resolver.
Qual foi a história que vocês estavam
contando?
Vocês disseram que foram assaltados.
>> A gente já explicou.
>> Eu só tô querendo entender exatamente
essa história.
>> Assaltaram a gente numa emboscada.
Eram quatro homens armados
>> e atiraram só em você. Corre,
eu não sei.
Acho que pensaram que eu ia fazer alguma
coisa.
Por
você é do tipo violento, é isso.
E quando atirar em você, atirarão
por baixo da calça.
A gente trocou a roupa dele porque tava
completamente suja.
A gente não queria que infeccionasse.
>> Quer dizer que vocês estavam passando
por aqui, indo pra cidade quando foram
assaltados.
>> É,
a pé.
Não,
não.
Um amigo meu ficou de encontrar a gente,
não apareceu. Aí a gente não conseguiu
voltar pra cidade.
>> Vocês são um trio bastante incomum.
>> O meu pai
tem um comércio no Rio de Janeiro,
mandou a gente aqui para ver uns
terrenos.
Então ele tem dinheiro?
>> Tem.
>> Isso já faz mais sentido, porque não é
muito inteligente andar por aqui
sozinho.
>> Acho que não
>> tá explicado.
Então, todo mundo aqui é gente de bem.
Agora o preto deita na mesa.
>> Como assim?
>> A gente tem que dar uma olhada nessa
perna.
>> Precisa.
Precisa.
A gente vai ter que cortar.
>> Cortar o quê?
Essa perna não vai durar muito tempo.
>> Pera aí, eu não tô entendendo. Você quer
cortar a perna dele?
>> Ou ele perde esse pedaço agora, ou ele
morre depois.
>> Você é médico?
>> Se eu fosse médico, eu ia ter pelo menos
um forceps ou uma pinça para tirar essa
bala daí.
>> Eu acho que tá todo mundo um pouco
nervoso.
Vamos esperar até amanhã. Acalmar.
entender isso melhor.
>> Vocês não estão entendendo a situação.
Ele tá pelando de febre. Se a gente não
tirar essa bala daí agora, ele vai
morrer aqui nessa casa. Eu acho que vai
ser muito ruim explicar essa história do
assalto de vocês
e como ele morreu aqui nessa casa pra
polícia amanhã ou pros soldados que não
devem estar nem um pouco longe daqui.
Aliás, eu acho que eles estão tão perto
que com certeza eles iam escutar um tiro
daqui.
Então,
se vocês quiserem dormir aqui
nessa casa,
vocês vão ter que tirar essa bala daí.
>> Você quer que a gente tire essa bala?
Não tô entendendo.
>> Seu amigo aí lembrou muito bem que eu
não sou médico.
Além disso, os meus olhos não vão ajudar
muito não. Não é fácil ver uma bala no
meio desse sangue todo.
Eu acho melhor
você ficar com a faca.
Você não vai querer que ela jogue álcool
nessa mordida aí na sua mão, né?
[música] Foi um bicho.
>> Quanto mais você demorar, pior para ele.
Espera, espera.
Vocês estão mesmo querendo fazer isso?
>> Não sei. Você não tá bem mesmo.
>> Você quer que ele enfie essa faca na
minha perna? É isso.
>> Para [música] mim tanto faz. Eu só quero
ver essa bala saindo daí. Se você
inventar outro jeito.
Merda.
Me passa garfa.
>> Você não tá querendo botar boca no meu
vinho, tá?
Eu tenho uma coisa para dor melhor que
essa cachaça,
mas acho melhor deixar para depois,
[música] porque com certeza você vai
precisar.
Mas pode ficar tranquilo, você não vai
ficar acordado muito tempo, não.
>> Que que é para fazer?
>> O grandão abriu [música] o buraco na
perna do preto.
>> Com quê?
>> Com os dedos.
Você tirar a bola com a faca.
Quanto mais você demorar, mais ele vai
sangrar, então é melhor tirar rápido.
>> [risadas]
>> Ah.
E não abre nada aqui dentro.
Cadê o Gabriel?
>> Tá lá fora esperando a carroça.
>> O Gabriel tá lá fora com esse cara.
A gente vai embora, vai dar tudo certo.
E se esse bando de corrente
não for para alguém não entrar?
Já pensou que pode ser para alguém
não sair?
>> O que que você tá falando? Eu acho que a
gente não tá sozinho aqui.
Tem alguma coisa muito estranha
acontecendo nesse lugar.
Bom dia.
Ele não fala.
Já era para homem da carroça ter
passado.
>> As coisas têm outro tempo por aqui.
E, infelizmente, na maioria das vezes,
as coisas não acontecem como a gente
quer, principalmente com a guerra cada
vez mais perto.
Aqui não é o tipo de lugar onde um
cidadão de bem quer passar, né?
Agora a vagabundagem e a bandidagem
correm soltas por aí.
Você sabe bem, né?
Já que foram até assaltados, não é isso?
É,
eu sei.
>> Ele aparenteu,
>> não?
Será que esses que assaltaram vocês não
eram paraguaios?
Você não faz ideia do número de
paraguaios que tem passado por aqui nos
últimos tempos.
>> É.
>> É.
>> Por quê?
Deve ser porque a gente tá matando todos
eles lá,
mas vocês podem ficar tranquilos.
Eu sei dar um jeito nos paraguaios e na
bandidagem por aqui. Yeah.
เ
Posso entrar?
Ele não vai ficar chateado. Ele tá
entrando aqui.
>> Vocês já não estão indo embora?
>> Acho que não.
Não, hoje pelo menos.
>> Se você vai, vocês sempre vão
>> vocês.
Quem são? Vocês
>> Você acha que vai ser o primeiro aqui?
>> Não sei.
Muita gente passa por aqui.
>> Tem alguma coisa nesse lugar que atrai
as pessoas,
principalmente agora com a guerra.
>> Por que que você acha isso?
>> Sei que me disse. Vocês não vieram para
cá?
Para onde você é?
>> Conhece São Paulo.
>> Você mora lá?
>> Moro.
Você já foi lá?
>> Não.
>> Quer conhecer?
>> Por quê?
Você quer me levar? Você acha que ele ia
deixar?
>> A difícil,
mas precisa de mim aqui.
>> Precisa
o quê?
>> Precisava.
Agora com a guerra eu não sei mais.
>> Por quê?
>> Porque antigamente era só gente para
cuidar desse lugar.
Já tem uns anos que
sempre aparece alguém novo por aqui.
Cuidado esse lugar.
Eu duvido que ele me peça ajuda para
alguma coisa.
Acho que ele não foi muito com a minha
cara.
Pode ficar tranquilo.
Você com certeza não faz o tipo dele.
>> É,
foi meu tipo.
>> Tipo que vai me [ __ ] aqui nessa
cozinha.
>> Vocês estão fazendo mau juízo de mim.
Você não vai acreditar.
Mas eu era to em São Paulo
de Isso tudo acontecer.
>> Você é famoso em São Paulo?
>> Se eu fosse famoso de verdade, não tinha
me mandado para cá.
Mas eu me viro bem. Não dá para
reclamar.
Muita gente que passa por aqui, né?
Acho que é suficiente. Gente,
podia jurar que a gente tinha vindo do
norte.
Mas por que que o som da guerra tá vindo
do noroeste?
Tá falando do sudeste.
>> Você acha que tá vindo de lá? Eu acho
que o som ecoa pelo lugar todo.
A gente nunca mais vai sair daqui.
Eu
acho que a gente não pode mais esperar
aqui.
>> Por quê?
Porque a gente tem que levar o Gustavo
pro hospital. Ele não pode continuar
assim.
Tô melhor trazer um médico para cá.
>> Não foi isso que a gente combinou.
Tent combinar alguma coisa.
O que ele tá falando
é que a gente tinha entendido que ia ter
uma carroça passando por aqui hoje
e ela não passou.
Será que não tem como falar com esse
ambulante, chamar ele?
Acho que não.
A gente percebeu
que o senhor tem uma pequena carroça lá
fora. Será que o senhor mesmo não pode
levar a gente na cidade? Eu posso pensar
numa compensação por esse trabalho todo.
>> Não entendi.
Vocês não foram assaltado? Posso mandar
um telegrama pro meu pai assim que a
gente chegar na cidade.
Foi até bom você falar nisso, que ontem
eu fiquei pensando
e fiquei meio confuso com a história de
vocês,
porque pelo que eu entendi,
você
é o riquinho que o pai mandou pra
guerra, o que é curioso, porque
normalmente os pais querem salvar os
filhos.
E se você é o riquinho?
Esse aqui é o empregado.
>> Como é que é? É para ficar irritada não.
Mas se você não é quem tem o dinheiro,
tá correndo atrás do dinheiro.
Agora
esse aqui é o que eu não entendo,
porque é muito
curioso o esforço que esses dois fizeram
para salvar essa tua perna. Normalmente
não compensa muito.
>> Na verdade, eu ia ter que fazer muito
mais para começar a pagar a dívida que
eu tenho com ele.
>> Aí tá certo. Faz mais sentido. Eu também
ia querer um cara desse aí me salvando
por aí. Mas o que eu não entendo
é porque ele tá andando com você.
Aqui não é o tipo de lugar para onde os
pretos vêm por vontade própria. Também
não é o tipo de lugar de onde eles saem.
Então vocês devem ter um combinado
muito bom
para ele tá andando contigo. Não tem.
Olha, desculpa,
mas não dá mais pra gente continuar
nessa situação.
A gente vai ter que descobrir o que
fazer para sair daqui amanhecer. cedo
não dá mais para esperar.
>> Se vocês quiserem, ela pode preparar os
sanduíches para vocês.
Se vocês saírem agora,
em uns quatro ou cinco dias vocês vão
chegar na cidade. Mas eu acho que vocês
não vão ter problema. Eles só estão
procurando
desertores.
Vocês não fazem ideia do número de
soldados que fogem da guerra e acabam
num pelotão de fuzilamento.
nesses últimos anos tem passado uns três
ou quatro por aqui todo mês.
>> Qual o seu sobrenome?
Beirelles.
>> Meirelles.
Meirelles é um sobrenome de respeito.
Sabia que a maioria das pessoas acha que
Meirelles é um sobrenome português,
mas na verdade ele vem da Holanda.
Sabia?
>> Não sabia.
>> Ah, pois é. Você tem sangue holandês,
sangue viking.
Nada de Viking aqui. Quem sabe
qual é o seu sobrenome?
>> Eu não sei.
>> Você não sabe seu sobrenome?
>> Me separaram da minha mãe quando eu
tinha 3 anos.
Me deram outro nome,
então não.
Eu não sei o meu nome. Não sabia que
eles faziam isso.
A gente não tem muitos de você por aqui.
>> Pretos
>> escravos. Eis
escravo.
Isso.
Até porque se você não fosse um homem
livre, não ia estar perambulando por aí
com dois homens brancos. Porque se
alguém tivesse te procurando por aí,
com certeza você ia valer um bom
dinheiro.
Quanto é que tá hoje?
1000, R$ 2.000.
Posso ver seus dentes? Calma,
eu não quero ofender não.
Eu não tenho nada contra escravos. Pelo
contrário,
se eu fesse, eu também ia ter ru aqui.
Eu não sei se você reparou,
mas eu sou um homem dos vinhos
e eu gosto deles especialmente por causa
da história por trás que eles fazem.
Não sei se vocês já viram uma uva
Malbec, por exemplo.
Ela tem a pele escura, intensa.
É uma joia da natureza,
um tom profundo de roxo e um azul
escurecido por causa do sol.
É uma uva muito difícil de cultivar,
porque o frio intenso da França e
doenças como o Mídio e o oídio que vocês
nunca nem devem ter ouvido falar,
boca água, muita umidade. É como se tudo
em volta dela tentasse acabar com ela,
mas mesmo assim ela é uma sobrevivente.
E são essas dificuldades que fazem dela
uma uva complexa,
diferente de todas as outras.
O que eu tô querendo dizer é o seguinte,
é que se vocês três fossem uma uva,
eu com certeza ia querer saber o gosto
que você tem.
Deve ser muito mais interessante que
esses dois aí.
Isso é um elogio, tá?
Você vai levar a gente?
A gente pode ver isso sim.
Eu
ia mesmo levar umas coisas para vender
lá na cidade.
Tá certo.
Eu levo vocês amanhã.
Amanhã cedinho eu venho chamar vocês.
>> Ele já sabe da gente. Ele sabe desde
quando a gente chegou aqui. O
>> problema não é ele saber,
é o que ele vai fazer com isso.
>> Você acha que ele tá amando alguma
coisa?
Eu tenho certeza. É óbvio que ele tá
segurando a gente aqui.
Qual é a chance dele já não ter
entregado a gente pra polícia ou para
algum soldado? A gente tem que fazer
alguma coisa. Como assim? Fazer o quê?
A garota deu a entender
que já teve mais gente passando nessa
casa. E óbvio que teve. Será que esse
cara rouba essas pessoas? E aquele homem
estranho no jantar, da onde surgiu esse
cara? Vocês viram o jeito que eles
falam? Eles não são daqui. O que que
eles vieram fazer nesse lugar?
Aquele homem estranho,
ele ficou tentando me mostrar alguma
coisa com os quadros das paredes dessa
casa.
Que quadros? Eles tiraram todos os
quadros. Que que tinha nesses quadros?
Eu não sei vocês,
mas eu quero sair daqui
e vivo.
Mas enquanto esse cara fica trancando a
gente aqui, eu não sei o que pode
acontecer. A gente tem que começar a
entender
que uma hora pode ser que seja a gente
ou ele.
A gente vai embora amanhã de um jeito ou
de outro,
mas ninguém vai matar ninguém aqui.
escondido
da casa.
Esse era seu plan Gustavo.
Era isso que você queria.
Tá na hora da gente pra cidade.
Me ajuda a bater as coisas na carroça.
Você tem que ir na floresta
pegar as nossas coisas.
A gente tem que sair daqui.
Você pode fazer o que você quiser.
Eu vou ficar
até descobrir que merda eles estão
fazendo aqui.
[música]
Oh.
[música]
Ah,
onde é que tá aquele cara?
>> Mudo.
>> Ele foi embora ontem à noite.
>> Ontem à noite.
>> Estranho, né?
É perigoso sair daqui no meio da noite.
>> Eu também acho.
Mas acho também que ele não era o cara
mais inteligente do mundo.
Acho até que ele já tava meio pancado.
A gente vai conseguir puxar essa
carroça?
Ela
é menorzinha, não é para cavalo.
Vai dar um pouco mais de trabalho e
demorar um pouco mais,
mas revesando dá para ir.
Me ajuda a pegar umas ferramentas pra
gente botar essa roda no lugar.
Não Care?
Entra. Você
falou com ele?
>> O quê? de São Paulo.
Pois é, eu
não consegui.
Ele não é um homem muito fácil de falar,
principalmente quando tem uma espingarda
na mão 24 horas.
Quer que eu fale? Eu
acho que não ia ajudar muita coisa.
Você sabe de eu lhe guardo o dinheiro?
>> Que dinheiro?
>> Não sei,
mas só dentro daquele armário de bebida
dele deve ter uma fortuna.
Ele nunca me falou nada disso.
>> Eu acho
que ele não te contou
porque ele deve fazer alguma coisa muito
errada para conseguir esse dinheiro.
Essas pessoas
que você disse que passam por aqui,
que que acontece com elas?
M.
Você
tá andando com esses dois há muito
tempo?
>> Hum. Não muito.
>> Ah,
e você conhece bem esses dois?
>> Conheço o suficiente. Hum.
E eles te conhecem bem.
>> Essa
é a sua chance.
Você
não é assassino. Dá para ver.
É covarde, não é isso?
>> O quê? Você
podia ter atirado em mim.
Seu amigo teria atirado.
Ajoelha.
Ajoelha.
Tem alguma coisa muito estranha
acontecendo nessa casa e eu acho que no
fundo você sabe disso. A gente não pode
só ir embora.
>> A gente vai, eu juro,
a gente pode ir hoje.
Em São Paulo é uma cidade cara,
cara mesmo,
principalmente para duas pessoas.
Não são duas pessoas.
Tô grávida.
>> Do que que você tá falando?
>> Falando de ontem.
>> Tá sentindo?
A gente vai poder ficar com esse dessa
vez.
>> O quê?
>> Você trouxe o seu amigo, então a gente
vai poder ficar com esse.
>> Que amigo? De quem que você tá falando?
>> Você tava certo. Ele não precisa mais de
mim aqui.
>> Que que vocês estão fazendo aqui?
>> A gente pode ir embora.
A gente vai poder ficar com esse.
A gente vai poder ficar com esse. Vai
dar tudo certo. [risadas]
[música]
เฮ
[música]
Você
[música]
já tá morto.
Todos vocês morreram
no momento em que abandonar aquele campo
de batalha.
Pelo menos vocês aceitaram o risco.
E é por isso que eu posso fazer o que eu
quiser com vocês.
Acha que eu não sei que vocês querem
matar a gente, pegar meu dinheiro.
Eu juro.
Quer sair daqui quando chegar na cidade?
Eu tenho dinheiro. Dinheiro do seu pai.
Abre,
abre a boca.
Você acha que o seu pai ainda vai gastar
algum dinheiro com você? Hum.
Seu pai te jogou aqui para você morrer,
para não ter que gastar mais dinheiro
nenhum com você,
porque você
não vale nada para ele.
Você é só uma
piada ruim que ele tem que ouvir dos
amigos. E adivinha? O dinheiro do seu
pai vale tanto quanto você aqui nesse
lugar.
E você tá atrapalhando o trabalho que a
gente faz aqui nessa casa.
Então eu vou te dar agora
duas opções.
Um.
Eu posso apertar esse gatilho,
estourar sua cabeça.
Seus amigos vão ouvir e provavelmente
vão me matar.
Só que aí você vai paraa casa sem
cabeça.
Todo mundo vai descobrir
que além de tudo
você é um desertor.
E aí você vira mais uma vez uma vergonha
pro seu pai.
Dois. Você pode arrebentar sua cabeça
nessa parede sem fazer muito barulho.
E aí, amanhã
alguns soldados vão encontrar o seu
corpo jogado no mato perto do
acampamento.
Você foi assaltado,
assassinado,
morre em combate. faz.
Mas pelo menos
você vai morrer do jeito que seu pai
queria. Uma morte digna e honrosa no
meio da guerra.
[risadas]
>> [risadas]
>> de novo.
Ai,
eu não configo.
Eu não configo.
Mas tudo bem.
Eu
vou deixar o seu pai orgulhoso.
aconteceu alguma coisa?
>> Tá na hora da gente ir.
Viagem vai ser difícil.
Como é que tá a perna?
>> Doendo.
>> Eu tenho uma coisa
para te ajudar.
Você
sabe o que é clorofómio?
>> Não.
>> Ele foi descoberto há 30 anos por um
químico americano chamado Samuel Grey e
um químico francês Eugênberan.
Ele é uma reação entre o cloro e o
etanol.
Mas o que você precisa saber mesmo
é que basicamente isso aqui
serve para você não sentir dor.
É uma revolução na medicina
>> para beber.
>> Não
é para cheirar mesmo.
Você mesmo pode cheirar.
Toma.
Você
vai ver
como vai aliviar a dor.
Dá uma cheirada forte.
Mas tem que deixar mais tempo, senão não
vai funcionar.
Ah. Ah.
>> [música]
>> Quantas vezes você quase morreu
fog
mais uma vez?
O quanto que você teve que sangrar
só para escolher isso.
Nesse tronco,
chega de sangrar.
Máximo que você vai conseguir é quebrar
o seu pescoço.
E a gente não quer isso.
O que que tá acontecendo?
>> Se você quiser, o clorof tá aí do seu
lado. Tem necessidade nenhuma de você
ficar acordado agora.
O que que você vai fazer?
Primeiro eu vou
salvar essa perna,
senão essa necrose vai te matar
e você tem que aguentar até o mês que
vem. Você não precisa fazer isso.
Eu não queria fazer isso.
Eu não queria mesmo.
Você sabe que às vezes a gente tem que
fazer algumas coisas terríveis
para que outras coisas muito mais
horríveis não aconteçam.
O quê?
Todas as pessoas que você matou nessa
guerra, tudo que você quer esquecer.
Tudo isso vai ficar para trás agora,
Gustavo.
Eu prometo que você vai se redimir.
[risadas]
Seu sangue, a sua carne
vão ajudar a manter
essa casa trancada.
Você vai salvar.
Muito mais gente
que qualquer guerra poderia matar.
Por favor, não faz isso.
Não, não, não, não, não. Por favor, não.
>> Gustavo, eu vou cortar sua perna agora.
Por favor, não faz isso.
>> Você pode me ajudar ficando parado
ou pode ficar se debatendo e fazer uma
bagunça muito pior.
Pode ficar muito pior mesmo.
Você estragou tudo.
Você estragou tudo.
Você estragou tudo.
>> Eu não vou mentir para você.
Agora você vai sentir a pior dor que
você já sentiu na sua vida.
e provavelmente vai sentir coisas que
nunca sentiu.
Uma delas é uma forte pressão enquanto
eu corto a sua perna,
principalmente quando eu chegar no osso.
Você provavelmente também vai sentir
muito frio,
porque os tecidos e os vasos sanguíneos
vão ficar expostos enquanto eu tô
cortando.
Então, quanto mais rápido eu cortar,
mais rápido eu vou poder estancar o
sangue. Parece que é rápido, mas não é.
Eu sei que parece horrível,
mas pode ter certeza.
Essa não vai ser a pior parte.
>> Olha o que você fez.
Olha o que você.
>> [risadas]
>> Espera, espera, espera.
Que foi que eu falei?
я
inferno da guerra.
Só para continuar fugindo.
Você deixou eles me matarem?
Porque você tinha que fugir de novo.
Mas agora chega.
Não.
>> [risadas]
>> Você
tá bem?
Aposto que agora você vai querer aquele
claraformóme.
Ainda falta outra perna e os dois
braços.
А
Fica quietinho aí.
Ah.
G
Ah.
Os seus amigos já morreram.
Pode não parecer, mas nós estamos
fazendo a coisa certa aqui. Você acha
que eu queria fazer isso?
Acha que eu queria viver assim?
Vocês não se perguntaram por que eu não
fui embora desse lugar? Porque eu não
posso? Alguém tem que manter essa casa
trancada.
É o único jeito de mantê-la assim. Não
fui eu que fiz essas regras.
Escuta,
vocês cagaram tudo quando queimaram
aquele celeiro.
Se você me matar agora,
não vai ter ninguém para fazer a merda
desse ritual para manter sua casa
trancada.
Você
acha que eu faço o que é ruim?
Você achava que a guerra era ruim?
Você não faz ideia do massacre que vai
acontecer se até o primeiro raio de sol
a gente não terminou.
Ah,
boca. Ah,
>> Gustavo, Gustavo,
Gustavo.
Já foi.
Ele tá morto.
O que que ele disse lá fora?
Ele arrancou minha perna com serrote.
Você acha que eu tô ligando porque ele
tava falando?
>> Que quer dizer manter a casa trancada?
Eu não sei
>> que que ele queria que a gente
terminasse.
>> Ele queria arrancar as minhas pernas e
os meus braços.
Algum retorno maluco.
>> Que que é isso? Agora
>> tem uma fogueira do tamanho de um
celeiro lá fora.
O que que você achou que fosse
acontecer?
São dois soldados.
Não sei se tem mais com eles.
>> Não tem muito mais o que fazer.
>> Como assim?
>> O que é que você acha que vai acontecer
quando você abrir aquela porta?
>> [música]
>> Não sei,
mas são só os soldados que viram ve. Tem
nada a ver com a gente, não é a polícia.
Se a gente conseguir fazer eles irem
embora hoje, amanhã, quando eles
voltarem para entender o que aconteceu
aqui, a gente já foi embora há muito
tempo.
>> Eu não sei como é no Rio de Janeiro, mas
de onde eu venho?
Eles primeiro vão me fazer sangrar até a
morte para depois encontrar um jeito de
me botar a culpa.
>> Não, se você não poder ter feito nada.
Você
não vai me deixar trancado aqui desse
porão.
>> Eles não vão vir aqui embaixo. Mas se
eles vierem, não vai ter jeito de te
culpar de nada. Eu falei que eu ia te
ajudar, não falei. Mas a gente tem que
sair daqui vivo primeiro para isso.
>> Eu não tô gostando disso,
>> Gustavo. Se eles entrarem aqui e virem
isso tudo, eles não vão matar só você.
Eu quero te ajudar, mas eu não quero
morrer também. Então você vai ter que me
ajudar de novo pela última vez. Se você
quer encontrar sua mãe, você tem que
confiar em mim.
>> A gente sabe que tem gente aí.
Você
tá bem?
>> Mataram,
mataram quase todo mundo aqui.
Só tô vivo agora porque acharam que eu
tava morto também.
Quem é que tá na casa?
>> Não sobrou ninguém.
Minha irmã e o marido dela.
Meu tio.
Tá todo mundo morto.
>> Não tem ninguém na casa. Tem certeza?
Tem um escravo do meu tio
ainda tá vivo, mas
ele não passa dessa noite. Ele tá muito
machucado.
>> Você ficou sabendo assassinato de um
coronel aqui perto.
>> A gente conseguiu ouvir o barulho da
guerra daqui. Mas é disso que você tá
falando.
>> Ele não morreu na guerra. Se tivesse
estava tudo bem. Alguém matou ele. A
gente tem bastante certeza de que quem
matou ele veio para essa casa. Pode ser
que quem a gente esteja procurando seja
quem fez isso aqui com vocês.
>> Pode ser sim.
>> A verdade
é que a gente não pode voltar sem nada.
Tem uma recompensa pela cabeça de quem
fez isso com Coronel. Ele é um desses
filhos da [ __ ] de família com nome. A
gente precisa voltar alguma coisa.
Ninguém falou que a coisa tem que tá
viva.
>> É,
desculpa, não sei se eu tô entendendo.
Como a gente já explicou,
a gente precisa levar alguém.
>> Alguém que tenha matado o coronel?
Claro.
>> Isso.
Você falou que todo mundo aí na casa tá
morto, certo? Menos o escravo. Menos o
escravo.
Como é que é o nome dele mesmo? É,
é Gabriel
ou é Odselmo?
Você
parece um rapaz direito,
cidadão de bem.
>> Eu não conheço o escravo.
>> Ele não é meu amigo, mas eu conheço ele.
>> Conhece bem?
Não.
Onde tá o rapaz?
Que que vocês vão fazer com ele?
>> Onde é que ele tá? A gente precisa
resolver essa situação. Onde é que ele
tá?
Ele tá algemado no porão lá em
Olha
para mim.
>> Joga a arma para fora. Agora
eu tive que fugir daquela fazenda.
Eu tive que fugir da guerra.
>> Eu não vou avisar de novo,
>> Gustavo.
Não.
>> Eu tô fugindo desse lugar.
Parece que minha vida inteira eu tenho
que ficar fugindo de um bando de gente
louca. Se você jogar arma, eu deixo você
fugir.
>> E até hoje eu não sei porquê.
>> Esse é o último aviso.
Joga a arma.
Gustavo não.
Ah.
>> [música]
[música]
[música]
[música]
[música]
[música]
>> а
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