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No extremo norte da Escócia...
Duas explosões gigantescas.
A fumaça subiu até o céu, cobrindo completamente o navio.
Centenas de vidas foram perdidas.
Um homem muito importante desapareceu.
Lord Kitchener era o Secretário de Estado da Guerra.
Ele era um herói nacional. As pessoas o adoravam.
Por mais de um século, as histórias do HMS Hampshire,
e do HMS Vanguard têm assombrado essas ilhas remotas.
Documentar o HMS Vanguard
é o enigma de arqueologia forense subaquática
mais complicado que você pode imaginar.
Um historiador local...
E uma descendente de um dos falecidos,
ambas determinadas a separar o fato da ficção.
Havia a imagem de uma mulher,
e nós não sabíamos nada sobre quem ela era.
E a homenagear as vidas que foram perdidas.
Sobreviventes relataram
que a explosão pareceu arrancar o coração do navio.
Três milhões de naufrágios,
perdidos nas profundezas dos oceanos.
Ali está a proa. É bonita.
Cada um é uma cápsula do tempo,
escondendo histórias de aventura, inovação...
O número de buracos nos destroços é extraordinário.
Coragem, tragédia...
Estamos falando da morte de dez mil pessoas.
Agora a caçada começou,
para achar os navios, desvendar seus segredos...
Imagine estar em uma casa assombrada só com uma lanterna.
- Não conseguimos chegar... - Abandone o navio!
Houve um acidente terrível...
- Eu implorei para que voltassem. - E tudo ficou quieto.
E escutar suas vozes outra vez.
OPERAÇÃO NAUFRÁGIOS
OS SEGREDOS DO MAR DA ESCÓCIA
Nas Ilhas Órcades,
na ponta da Escócia do Norte,
o mergulhador técnico Rod Macdonald se dirige
a um local de naufrágio muito especial,
de um navio que afundou no auge da 1a Guerra Mundial,
e agora é um túmulo de guerra protegido.
O HMS Hampshire.
Eu fui abordado por alguns dos meus coorganizadores,
perguntaram se eu gostaria de liderar uma expedição
para inspecionar o Hampshire
no centésimo aniversário de seu naufrágio.
Eu achei uma ótima ideia,
porque eu sempre tive uma grande afinidade,
com os destroços do Hampshire.
Eu percebi o quão especial ele é para Órcades
e para a história naval.
Eu estava ansioso para preservar o registro
de como é esse navio, para que quando chegar,
talvez daqui mais cem anos,
poderão revisitar nossos resultados
e compreender seu naufrágio, porque ele terá sumido até lá.
Com o processo de documentação do navio naufragado,
Rod planeja investigar as várias teorias
sobre o que ocorreu com o navio.
Agora estamos em cima do Hampshire.
O fundo do mar está a de cerca de 52 metros,
e a cerca de 46 metros do topo dos destroços.
O primeiro passo é lançar um sonar de varredura lateral
para ter uma visão geral do local de naufrágio inteiro
antes da equipe de mergulho descer até as profundezas.
- Essa é uma imagem clara. - Sim.
Veja todas essas coisas no fundo do mar ao leste também.
O navio está ali, há escombros ao leste.
Então está tudo dentro dessa área.
Pode ser que haja coisas no fundo do mar em outro lugar.
Aqui, o navio finalmente acabou no fundo do mar,
e depois ele virou para estibordo.
O impulso ou a maré o virou levemente para o oeste,
e essas coisas caíram para fora.
Você pode ver as entranhas do casco
até mesmo da superfície, como aqui.
Podemos enviar mergulhadores para ver
o que são essas coisas.
São imagens incríveis que estamos conseguindo.
Quando o Hampshire afundou no dia 5 de junho de 1916,
a Grã Bretanha mergulhou em luto pelas 737 vidas perdidas.
Especialmente por uma delas.
Lord Horatio Herbert Kitchener.
Por ser um herói de guerra condecorado,
Kitchener foi a escolha natural
para a criação do novo, e enorme exército britânico,
necessário no início da 1a Guerra Mundial.
E ele logo se tornou a face daquele exército.
Lord Kitchener era o Secretário de Estado da Guerra.
Então ele era o homem no comando da 1a Guerra Mundial.
SEU PAÍS PRECISA DE VOCÊ
Seu olhar de aço e bigode enorme
olhando bem nos seus olhos e apontando para você...
Era uma imagem incrivelmente poderosa.
Ele teve que criar um exército praticamente do zero.
E a reputação do homem foi o que trouxe
muitas pessoas até as centrais, para se alistarem.
O historiador local Tom Muir
possui um fascínio já antigo pelo Kitchener,
e seu destino a bordo do HMS Hampshire.
Ele era um herói nacional.
Sua reputação é algo difícil de se compreender hoje,
porque ele era quase como uma celebridade.
Nossas celebridades causariam tanto espanto em alguém
cem anos atrás, quanto as deles nos causam.
Kitchener viajou para Órcades,
sede da grande frota britânica, em uma missão secreta.
É o ponto de partida de uma jornada
que poderia afetar o rumo da guerra.
A delegação a caminho da Rússia havia sido convidada pelo czar.
Para tratar sobre o fornecimento de munições para a Rússia.
A Alemanha estava lutando em duas frentes.
Era importante para os aliados que a Rússia ficasse na guerra.
Mas eles tinham que importar armas de fora do país.
Eles não eram capazes de fornecê-las.
De sua base em Scapa Flow,
o comandante da grande frota, Sir John Jellicoe,
orquestrou a jornada de Kitchener à Rússia.
Pediram que Jellicoe escolhesse um navio
que levaria a delegação à Rússia.
Ele escolheu o Hampshire por conta de sua velocidade.
Seria capaz de fugir de U-boats.
Ele queria algo veloz.
Hoje, vamos mergulhar até os destroços
e depois vamos subir em direção à proa e dar uma boa olhada.
Vamos filmar a proa
e algumas coisas no fundo do mar ao leste,
que caíram quando ele virou.
Essa série de mergulhos será importante
para definir o estado do naufrágio.
Utilizaremos técnicas modernas
para entender melhor como ele afundou.
Também achamos importante obter resultados
que podemos mostrar à Marinha Real,
É do interesse dela, o estado desse navio de guerra.
O Hampshire era um cruzador blindado.
Então ele tem quase 152 metros de comprimento.
Foi equipado com canhões poderosos de 19 centímetros
que eram capazes de lançar uma bala de 91 kg a 13 km.
Tinha canhões menores de 15 centímetros,
que lançam balas de 45 kg a 11 kg.
Tinha os dois lados guarnecidos
com oito ou nove canhões de tiro rápido de 1,3 kg,
capazes de disparar cerca de 20 a 30 projéteis por minuto.
Era um pré-dreadnought,
construído no começo dos anos 1900,
antes do HMS Dreadnought,
o encouraçado lançado ao mar em 1906
que revolucionou a guerra naval.
Às 4:40 da tarde no dia cinco de junho de 1916,
o HMS Hampshire zarpou com Kitchener a bordo.
O Hampshire se dirigiu ao sul por Hoxa Sound, este estreito.
E daí originalmente estava programado
para passar pela costa leste de Órcades
a caminho da Noruega e dar a volta até a Rússia.
Mas, no último minuto, uma hora e meia antes de partir,
mudaram a rota, e o Hampshire daria a volta pelo oeste,
encontrando seus dois navios de escolta em Torness.
E depois subiria pelo lado oeste de Órcades.
Jellicoe decidiu que o navio deveria circunavegar
o lado leste de Órcades.
Mas teve ventania naquele dia, e o vento soprava do noroeste.
Então ele os enviou ao oeste,
protegido pelos penhascos no lado oeste das ilhas.
Mas o vento virou,
e eles acabaram navegando direto para o olho da tempestade.
Quando os contratorpedeiros subiram mais,
foram incapazes de acompanhar o Hampshire.
Os contratorpedeiros sinalizaram
que conseguiam chegar a apenas 10 nós.
O Hampshire não podia arriscar viajar a essa velocidade,
por conta da ameaça de ataques de submarinos alemães.
As ondas estavam terríveis,
ordenaram que os outros dois voltassem à base,
e o Hampshire continuou sozinho.
Ele continuou por duas horas
depois da partida dos contratorpedeiros.
E então, por fim, por volta de 20 para as nove da noite,
houve uma grande explosão estrondosa.
"Uma explosão horrível ocorreu no navio,
sacudindo da proa à popa.
A força da explosão apagou as luzes.
Eu nunca me esquecerei daquela caminhada,
na escuridão, em direção a um raio de luz
vindo de uma escotilha.
Subindo pela escada da escotilha,
escutei nosso oficial de artilharia,
o tenente Matthews, o qual eu reconheci pela voz,
gritando: 'Abra caminho para o Lord Kitchener.'
Algo incomum havia acontecido,
e a fumaça que começou a se espalhar
indicava que provavelmente atingimos uma mina."
O mergulhador técnico Rod Macdonald e sua equipe
estão nadando no meio dos destroços do HMS Hampshire,
após receberem permissão especial do Ministério da Defesa
para inspecionar o local usando fotogrametria 3D
e sonar de varredura lateral.
Nesse estágio da expedição
é difícil determinar por que a proa está desse jeito,
porque da proa até o cavername 38,
todos os cavernames e a quilha do navio se foram.
A quilha, a parte mais resistente do navio,
foi danificada cerca de 20 metros atrás da proa.
É preciso muita força para danificar uma quilha.
Pode ser prova de que atingiram uma mina.
Mas também, mais atrás, tem um anteparo de latão
que aparece nos projetos, que cruza o navio.
E esse anteparo de latão atualmente é côncavo.
Como se algo tivesse explodido nos espaços bem à sua frente,
e o gás se expandiu, subindo e atingindo aquele anteparo.
E, o latão é um metal mole,
então ele fez com que ficasse côncavo.
As provas no fundo do mar
são complementadas por arquivos locais únicos.
Temos muita sorte de ter gravações excelentes
guardadas na biblioteca e acervo de Órcades.
São gravações de pessoas que estavam vivas na época,
que se lembram do evento, ou até o presenciaram.
Houve uma grande tempestade no dia 5 de junho de 1916.
Ventos fortes vindos do norte, mares revoltos.
Meu pai saiu no início da noite e retornou dizendo,
"Venha ver o grande encouraçado passando pelo mar bravo."
Todos nós saímos e, quase que imediatamente...
Uma nuvem preta de fumaça subiu da beira d'água...
Seguida por uma explosão enorme.
Ele afundou devagar...
A nuvem de fumaça enorme, de cor amarelada...
flutuou em direção à Marwick Head.
E então tudo...
Acho que demorou 15 minutos para ele desaparecer...
Debaixo d'água.
Os motores não foram afetados, as hélices ainda estavam girando
na velocidade que estavam, a 13 nós.
Quando ele navegou adiante e sua proa desceu,
isso fez com que muita água entrasse no porão
e acelerou a velocidade com que ele afundou.
Quase imediatamente após atingir a mina,
a eletricidade caiu,
então eles não conseguiram enviar um pedido de ajuda.
E também não conseguiram operar as roldanas
para baixar os botes salva-vidas.
Então a única coisa que estava disponível
eram três jangadas Carley.
Estavam completamente expostos ao mar,
estavam a um metro e vinte de profundidade na água.
E o vento os empurrou para o sul,
para longe de Birsay,
em direção à paróquia de Sandwick, ali perto.
E foi lá que os corpos apareceram na costa.
Esse é um lugar chamado Nebbi Geo.
Então estamos a três quilômetros ao sul
do local onde o Hampshire afundou.
Foi aqui que uma jangada, que no começo levava 40 pessoas,
resgatou mais 30 e chegou à praia.
As ondas estavam gigantes.
É impressionante como eles chegaram até aqui
e não foram esmagados contra as pedras ali embaixo.
Alguns dos homens foram capazes de subir até a grama.
Alguns moradores locais os ajudaram
e eles foram levados para casas de fazenda na área.
E dois dos homens que vieram por aqui
acabaram na casa bem ali em cima.
Quando eu acordei,
estava na cama com outro sobrevivente ao meu lado.
Nós dois tentamos pedir ajuda e chamar atenção.
Finalmente, nós conseguimos.
E uma idosa adorável, a esposa do fazendeiro,
colocou a cabeça para dentro do quarto e percebeu,
para sua surpresa e alívio evidente,
que estávamos acordados e vivos.
Dos 749 homens a bordo, apenas 12 sobreviveram.
Como depoimentos de testemunhas oculares se contradizem,
não ficou claro se o desastre foi causado
por uma única mina,
ou se houve uma segunda explosão.
Alguns sobreviventes disseram que ouviram só uma explosão.
Alguns disseram que ouviram duas explosões.
Não há indícios de uma explosão de munições secundária
na área da proa, porque todas as latas corrugadas,
que eram latas à prova de incêndio,
que armazenavam o propelente Cordite, estão muito intactas.
Há sugestões de que o Hampshire atingiu mais de uma mina.
Pode ter atingido duas minas.
Foi só no segundo ou terceiro mergulho
que tivemos um momento eureka e pensamos:
"Foi isso que aconteceu."
Rod Macdonald está à procura de mais pistas
de que o HMS Hampshire foi atingido por duas minas,
e não apenas uma,
como foi amplamente noticiado na época em que ele afundou.
Nossos mergulhadores estão gravando as provas.
Nós formamos nossas próprias opiniões
sobre o que realmente aconteceu baseado no estado dos destroços.
Dou crédito ao fato de que havia duas bases militares,
onde havia soldados profissionais de vigia.
Seu dever era vigiar a costa.
Ambas as bases relataram independentemente
que a explosão inicial gerou muita fumaça que subiu,
mas que depois houve uma segunda explosão.
O número de minas
é apenas uma parte do mistério do Hampshire.
O desaparecimento de Kitchener também gerou
teorias extravagantes sobre o motivo de sua viagem à Rússia
e seu paradeiro após a explosão.
Logo que o corpo de Kitchener esfriou em seu túmulo aquático,
as teorias da conspiração começaram.
E algumas delas são bizarras.
A primeira era que havia muito ouro a bordo do navio.
Eles estariam levando ouro à Rússia para dar apoio ao czar.
As pessoas procuravam ouro.
No passado, havia caçadores de tesouros.
Sempre houve rumores de que havia ouro nos destroços.
Os rumores foram o suficiente para estimular
duas ou três tentativas de resgate ao longo dos anos.
É difícil distinguir o que são danos de mina
e o que são danos de resgate a essa altura.
Cem anos após o afundamento.
Nunca foi admitido oficialmente.
Não há relatos disso em nenhum lugar.
Será que havia ouro? Será que não? Eu não sei.
Não sei dizer.
Havia histórias sobre...
Uma espiã alemã muito bela,
que seduziu um oficial da tripulação do Kitchener,
e depois passou informações para a Alemanha.
E eles enviaram um U-Boat até lá para afundá-lo.
Tem a história linda de que ele não morreu,
mas está adormecido em uma caverna em algum lugar,
e ele voltará quando a Grã Bretanha precisar dele.
Dormiu durante a Guerra Mundial. Ele se deu bem.
Minha favorita é a que ele chegou na Rússia
e mudou seu nome para Joseph Stalin.
E ele comandou o país até morrer em 1952,
com 102 anos.
É coisa de Rei Artur. Virou um mito.
E tudo aconteceu dentro de vinte anos.
É impressionante.
As únicas teorias que fazem mais sentido
são coisas do tipo que a elite queria se livrar dele.
O fato de que o navio passou por um campo minado,
e como não sabiam que havia um campo minado ali?
Dá para ver como isso pode ter gerado especulações.
Levou anos para o motivo real vir à tona.
Tecnologia inimiga sobre a qual os aliados não faziam ideia.
Foi o submarino lança-minas alemão U-75 que implantou minas.
Tivemos acesso aos registros do U-75
que mapeiam com precisão a rota de inserção
que o submarino seguiu.
Mapeiam o padrão de implantação das minas.
O tipo de mina e a fuga da zona onde as minas foram implantadas.
É claro que foi o U-75 que implantou as minas.
O afundamento ocorreu em circunstâncias trágicas,
e ainda faz parte da vida em Órcades...
O que aconteceu naquela noite há cem anos.
Acho que na época,
Kitchener era um herói nacional tão grande,
que fazia sentido construir um memorial para ele.
Com o passar do tempo,
você percebe que a vida das pessoas importam.
Não apenas as dos famosos, mas as de todos.
Quando o centenário estava se aproximando,
decidiram, além de restaurar o memorial verdadeiro aqui,
fazer essa parede de memórias,
que relembra todas as vidas perdidas, não apenas uma.
Descobrimos agora que os navios da 1a Guerra Mundial
estão se desfazendo rapidamente, até os da 2a Guerra Mundial.
Em 20 anos, esses destroços vão ter desmoronado totalmente.
O objetivo é registrar o máximo de vestígios possível,
de como se encontram após 100 anos submersos.
A fotogrametria 3D que está sendo feita é muito incrível.
É tão precisa que dá para ver pedaços de carvão,
dá para ver xisto, dá para ver ouriços-do-mar,
dá para ver canhões pequenos, médios, grandes,
tudo isso com muito detalhe.
Os resultados do trabalho que fizemos ao redor da proa...
Acho que provaram conclusivamente
que não houve uma explosão secundária das munições
que estavam armazenadas na parte dianteira do navio.
Sabemos disso porque todas as latas corrugadas de Cordite
ainda estarem perfeitamente intactas.
As balas ainda estão empilhadas,
e as balas menores, e caixas,
então nenhuma parte do arsenal explodiu naquela área.
Outro ponto a se levar em conta
é que a quilha foi cortada cerca de 20 metros atrás da proa,
e foi arrastada,
então sua extremidade cortada se encontra no fundo do mar
no lado oeste dos destroços.
Então isso talvez seja um indício
de que se teve uma segunda mina, ela estava nessa área aqui.
O que pode ter acontecido
é que ele atingiu uma mina, houve uma explosão,
as hélices continuaram girando, ele navegou adiante
e começou a se ajustar.
E aí ele atingiu uma segunda mina.
A segunda explosão, ao nosso ver,
deve ter sido uma segunda mina,
se é que houve mesmo uma segunda explosão.
O afundamento do HMS Hampshire
foi algo terrível na história de Órcades e da Grã Bretanha,
e a morte do General Kitchener
pode ter mudado o rumo da 1a Guerra Mundial.
Mas um ano depois, ocorreu outra tragédia...
Ao sul dos destroços do Hampshire,
no centro do próprio Scapa Flow.
A mergulhadora de naufrágios e historiadora Emily Turton
lidera uma inspeção de mergulho separada
em outro naufrágio famoso de Órcades.
Eu mergulho no Scapa Flow desde 2003,
e há outros naufrágios em Scapa
que podemos visitar como turistas,
mas tem locais que não podemos, que são proibidos.
São locais controlados, túmulos de guerra britânicos.
E um em especial, para mim,
sempre esteve envolto em mais mistério do que os outros.
O local de naufrágio do HMS Vanguard.
O local de naufrágio do Vanguard é no canto inferior do Flow,
e eu passo meus dias de trabalho
levando mergulhadores visitar destroços da frota alemão ali.
Então ele tem sido esse mistério no canto inferior do Scapa Flow,
e uma história que precisa ser contada.
O HMS Vanguard era um encouraçado britânico,
um dos primeiros encouraçados dreadnought.
Era o terceiro projeto, eu diria.
No início da 1a Guerra Mundial, o Vanguard parecia bem acabado,
mas ainda era bem importante em termos de números,
quando os números definem o seu poder.
Ele tem 163 metros de comprimento
e pesa mais de 20 mil toneladas.
É uma grande máquina de guerra.
Canhões grandes, dez canhões de 30 centímetros
projetados para grandes batalhas navais.
No início da 1a Guerra Mundial, ele já estava em Scapa Flow
e passou a fazer parte da grande frota sediada aqui.
Estrategicamente, era um bom lugar para ter uma marinha,
por estar tanto no Mar do Norte quanto no Atlântico.
É também um dos ancoradouros naturais do mundo.
Ele entrou em ação pela primeira e única vez
quando disparou seus canhões de 30cm na Batalha da Jutlândia,
mas conseguiu sair daquela batalha sem danos,
e depois retornou à base em Scapa Flow.
Na noite do dia nove de julho de 1917,
o Vanguard estava de volta ao ancoradouro.
Muitos marinheiros já tinham ido descansar.
Às 23:20,
o Vanguard sofreu explosões catastróficas.
A fumaça...
Subiu até o céu,
cobrindo completamente o navio,
as chamas cresceram em direção ao céu
e criaram um brilho laranja na água.
Escombros foram lançados para todo lado,
choveu aço nos navios vizinhos.
Quando tudo acabou, o Vanguard tinha sumido.
Vamos tentar usar técnicas mais modernas,
tecnologia do século 21,
e descrever em detalhes exatamente o que aconteceu,
e como e por que o Vanguard está aqui agora,
espalhado ao redor de um local tão extenso.
Vamos coletar isso usando videografia,
fotogrametria e fotografia,
isso ajudará a responder tudo isso,
e também ajudará a capturar a essência do navio,
e as partes do navio que estão destruídas
e as partes que ainda são maravilhosas.
E realmente tentar compartilhar
todas essas facetas diferentes do Vanguard
do jeito que está submerso atualmente.
Estamos no local de naufrágio do HMS Vanguard,
e a bóia de navegação que delimita o local está aqui.
Está ao leste do local, para avisar navios grandes
para ficarem longe dos destroços que estão mais ao oeste.
Nossa inspeção vai levar cerca de quatro meses.
Nós temos 22 voluntários,
e, ao terminar, teremos coletado cerca de 500 horas
no local do Vanguard, debaixo d'água,
inspecionando os destroços.
Todos estão doando seu tempo,
é um projeto voluntário, é autofinanciado,
queremos compartilhar da maneira mais ampla
e com o maior público possível.
Emily e sua equipe esperam criar imagens 3D detalhadas
através da fotogrametria,
que requer dezenas de milhares de fotos dos destroços,
que serão unidas em uma imagem gerada por computador.
Para alcançar seus objetivos,
a equipe terá que fazer vários mergulhos
durante um período de meses.
Fizemos uma ótima busca da proa
para saber o que tem lá.
Só para juntar as peças, marcar tudo e medir tudo.
Demos uma olhada ao redor da torreta A e do passadiço,
tentando localizar mais alguns artefatos ali.
As torretas P e Q não estão onde deveriam estar,
nem a X.
Nós localizamos a torreta Q,
que foi lançada 55 metros para o leste
de onde deveria estar na explosão,
que é uma distância enorme.
Essas torretas pesam cerca de 450 toneladas,
foi uma bela explosão.
O Vanguard é um naufrágio virado do avesso,
e espalhado por todo lado, partindo do meio do navio.
As únicas partes intactas são a popa e a proa,
então tem coisas interessantes por toda parte.
Você vira a cabeça, vê mais alguma coisa e pensa,
"De onde veio isso?"
Documentar o HMS Vanguard
talvez seja o enigma de arqueologia forense
subaquática mais complicado que você pode imaginar.
Emily Turton está reunindo provas
do local de naufrágio do HMS Vanguard,
utilizando a tecnologia de imagem 3D mais moderna.
O que causou essa explosão terrível
que literalmente virou a proa do navio do avesso?
Havia tanta fumaça, que, quando ela se dissipou,
o Vanguard havia sumido.
Ninguém testemunhou o navio desaparecendo debaixo das ondas
por conta dos escombros, fumaça e chamas da explosão.
Imediatamente após a explosão,
no meio do caos da busca por sobreviventes,
a primeira coisa que teria acontecido é...
o comandante em chefe teria enviado um sinal
de reconhecimento que precisa ser emitido instantaneamente
por cada navio.
O único navio que não emitiu aquele sinal foi o Vanguard.
Precisamos responder questões específicas
sobre o desaparecimento do navio.
Então, onde foi que a explosão começou?
Isso coincide com a descrição do inquérito
sobre o que aconteceu no local?
Emily está lançando um sonar de varredura lateral
para ajudá-la a entender a natureza complexa
do local de naufrágio.
Estamos analisando filmagens da varredura lateral
para termos uma imagem de larga escala do local.
Tem uma faixa de destroços da lateral do navio
que foi dobrada para fora e retorcida para o lado,
literalmente se curvou sobre si.
Então temos uma ótima visão da popa,
que agora podemos ver claramente que foi deslocada,
foi retorcida, mas está de lado.
E adiante, é possível ver ambas torretas traseiras,
as torretas X e Y. A Y está onde deveria, bem na popa,
mas a torreta X foi deslocada
da parte frontal das salas de turbinas.
Isso agora é claramente visível na varredura lateral.
E é um ótimo conjunto de imagens de se ter, é muito bom.
Lançamos o equipamento até a seção da proa,
que é bem distinta no sonar de varredura lateral.
Nós o posicionamos em uma linha reta até a popa
e, curiosamente, a popa do navio está a 163 metros da proa.
É o comprimento do navio.
E, enquanto elas sofreram uma leve inclinação,
a proa e a popa se separaram
da parte principal do navio durante a explosão,
e afundaram onde deveriam estar.
É uma visão e tanto, a proa de um dreadnought,
as que eu vi na minha carreira sempre estavam de ponta cabeça.
Um navio intacto costuma virar e parar de ponta cabeça,
nesse tipo de profundidade,
mas a proa do Vanguard está intacta.
Está parada a 11 metros do fundo do mar.
Então seu momento Titanic, eu diria,
esse ponto de vista da proa é belíssimo.
Parece que se você passasse óleo no convés de teca,
ele ficaria perfeito, se inclina para baixo da proa.
Ainda há pilares dos balaústres que ficavam em volta,
é maravilhoso.
Teve um inquérito judicial logo após a perda,
para se tentar entender o que aconteceu
e como prevenir que se repetisse.
Os achados principais deduziram
que foi uma explosão acidental do cordite.
Uma explosão de paiol, uma explosão do propelente
usado para disparar os canhões grandes.
Será que Emily descobrirá novas informações
que confirmarão a versão do inquérito?
Nós viemos pelo sul da proa, e há uma porção de destroços.
E tem um tubo enorme os atravessando,
dobrado em 90 graus.
É o mastro, é o mastro de vante do navio,
e ele aponta para cima e se curva 90 graus,
e depois tem a gávea em cima desses destroços.
Então tem a maior parte do passadiço,
tem o primeiro canhão,
e apontando para fora do topo desses destroços,
ainda tem um morteiro de 30 cm.
Entre a torreta P e a torreta Q,
há um grande paiol compartilhado.
Era ali que se armazenava o propelente
que disparava as balas desses dois canhões.
Cordite é volátil, precisa ser,
faz parte de sua natureza ter um efeito explosivo
impressionante e excessivo.
Então é mantido no meio do navio,
o mais longe possível de qualquer ataque inimigo.
Eles precisavam armazenar tudo isso,
e também precisavam armazenar
a casa de força para mover o navio,
o que incluía muitas salas de caldeiras
em um navio movido a vapor.
Era gerado muito calor nelas,
enquanto as três áreas de armazenamento
precisavam ser resfriadas.
Nós localizamos materiais de caldeiras
das primeiras salas de caldeiras.
Mas certamente daqui para trás, esse material foi deslocado.
É um amontoado de caldeiras sobre caldeiras.
E daí as laterais do navio,
até aqui em cima, se curvaram sobre si mesmas,
como uma banana descascada.
Propelentes não precisam de oxigênio para queimar.
E, se ocorresse um incêndio no paiol,
mesmo se não tivesse oxigênio,
a pressão continua crescendo e continua queimando.
É exatamente por isso que é usado.
Se isso ocorrer em um paiol, vai explodir.
A explosão que fez o Vanguard afundar ocorreu aqui.
Foi no paiol compartilhado das torretas P e Q.
Isso acabou causando uma detonação secundária
no paiol da torreta A.
Houve caos após a explosão, após a fumaça se dissipar,
e botes foram lançados de navios vizinhos,
à procura de sobreviventes.
Mas tudo que encontraram foram partes de corpos.
O Vanguard foi um acidente terrível
que matou 843 pessoas,
mas existia pouca informação sobre as identidades deles,
e suas histórias...
Até agora.
Estamos documentando o local
para adicionar nossos achados ao inquérito.
Está claro que estão no caminho certo.
Durante três meses,
Emily coletou imagens de fotogrametria suficientes
para criar várias representações 3D
do local de naufrágio,
ajudando-a a entender exatamente o que aconteceu.
Podemos dizer que a explosão se deslocou
até a parte submersa do navio,
a deslocou para fora e para trás,
e separou a proa e a popa.
Os destroços, ou o navio, já que estava acima da água,
explodiu no ar.
A perda do Vanguard foi um acidente horrível
A perda do Vanguard apenas um ano após o Hampshire
foi mais um golpe para o moral da marinha em Órcades,
mas também mais um golpe para a população.
Órcades levou para o lado pessoal.
Mas o Hampshire foi alvo de um ataque inimigo.
Nós perdemos uma das nossas
personalidades de guerra mais famosas
no Hampshire, e isso virou notícia internacional.
Enquanto um navio de guerra que explodiu
devido a um erro interno
não tem o mesmo impacto global
que o afogamento do Kitchener com 737 homens.
É compreensível, quando você pensa no contexto,
mas é algo que nós precisamos corrigir.
Quando o Vanguard explodiu,
havia 845 homens a bordo.
Apenas dois deles sobreviveram.
É praticamente a perda total da tripulação a bordo.
É a maior perda acidental de vidas
na história da Marinha Real.
Nem consigo imaginar como deve ter sido
sobreviver a isso e ter perdido todo companheiro de tripulação,
e como isso deve ter afetado a vida desses marinheiros.
Espalhadas por toda parte desse local
que inspecionamos até agora,
seja ao longo da parte principal dos destroços
ou no campo de escombros externo,
a 200-300 metros da linha de referência,
há solas de sapatos.
Há solas de sapatos de pessoas por toda parte.
Fica claro que estamos visitando um túmulo de guerra,
assim como andar por campos de papoula na França
e ver todas aquelas lápides brancas.
Foi isso que as solas de sapato fizeram comigo
enquanto nadava no local do Vanguard.
Representam as almas dos homens que usaram aqueles sapatos.
Estamos na Ilha de Hoy,
a grande ilha montanhosa no lado oeste de Scapa Flow.
Lyness está no meio da ilha,
e é onde ficava a principal base naval
durante a primeira e a 2a Guerra Mundial.
É por isso que tem um cemitério naval aqui.
Essa parte do cemitério está cheia de túmulos
dos homens do HMS Vanguard.
Na verdade, não há tantos assim,
há 31 lápides aqui, e apenas 18 delas têm nomes.
Às vezes é difícil associar
o que você encontra debaixo d'água com os falecidos,
mas você precisa sentir a perda dessas vidas
para documentar bem um túmulo de guerra.
Há um ótimo trabalho feito por historiadores locais
para garantir que os nomes de tripulantes que sobreviveram,
e dos que morreram estejam corretos.
Isso atiçou o interesse de uma mulher em especial,
que se encarregou pessoalmente de pesquisar todo tripulante.
Ela está correndo atrás de fotos de cada um deles
que estavam a bordo do Vanguard naquela noite.
Meu tio avô era o Henry Metcalf.
Ele nasceu em 1898.
Ele cresceu em Ipswich,
e foi recrutado pela Marinha Real em 1916,
aos 17, e entrou para o HMS Vanguard
no dia dois de maio de 1917.
Eu sabia que ele morreu em um navio,
mas nós não sabíamos muito sobre ele,
tínhamos apenas algumas fotos.
Eu soube da inspeção do navio naufragado,
então entrei em contato com a Emily,
que me pôs em contato com historiadores de Órcades.
Meu pai me mostrou uma foto que eu nunca vi antes,
do Henry, mas nessa foto ele estava de uniforme,
mas estava com outro marinheiro.
Isso foi meu catalisador.
Eu pensei: "Bom, eu sei que esse é o Henry,
mas quem é o outro?"
E depois isso me fez pensar,
"Bom, como era o resto da tripulação?"
Enquanto as identidades perdidas há tempos
e as fotos dos homens jovens
que faleceram no HMS Vanguard são trazidas de volta à vida...
Ainda há um enigma para a Wendy,
que, até recentemente, havia permanecido sem solução.
Na minha família, sempre houve um broche
com uma imagem colorida do Henry.
E, na parte de trás, havia a imagem de uma mulher,
e nós não sabíamos nada sobre quem ela era.
Inesperadamente, Wendy foi procurada por alguém,
que, enquanto limpava o sótão,
encontrou uma foto de seu tio avô Henry.
Ela explicou quem era a bisavó dela na época,
então nós meio que deduzimos juntas
que eles tinham a intenção de ficar noivos
após a guerra, ou assim que ele retornasse do serviço.
Mas obviamente isso nunca aconteceu.
Seu nome era Annie, e ela obviamente guardou a foto
como uma lembrança de um amor perdido
que nunca aconteceu.
Foram 843 mortos nesse evento.
Achei 283 imagens confirmadas,
e ainda tenho mais de 500 fotos de tripulantes para encontrar.
É ótimo ser parte complementar de um projeto
que envolve a humanidade de tudo.
Nós traremos imagens do navio à superfície,
Mas esse projeto comunitário, liderado pela Wendy,
será a parte verdadeira da história do HMS Vanguard
que vai garantir que ele nunca seja esquecido.
O Vanguard é uma justaposição de destroços e devastação,
e também vida.
Na verdade é um lugar pacífico de se estar e visitar,
e é um local de descanso muito adequado
para esses homens que perderam a vida.
Assim como o estudo científico do Vanguard,
o trabalho contínuo de identificar
e homenagear os homens que ainda estão dentro dele
garante que o nome do Vanguard e o nome do Hampshire
farão parte da história destas ilhas por um bom tempo.
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