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Zulu
Em partes diferentes do planeta,
mergulhadores exploram cemitérios subaquáticos
à procura de provas
do momento que pendeu a balança da guerra...
e os conquistadores do passado
foram alvos de um acerto de contas horrível.
Três milhões de navios naufragados,
perdidos nas profundezas dos oceanos.
Ali está a proa. Puxa, é bonita.
Cada um é uma cápsula do tempo,
escondendo histórias de aventura, inovação...
O número de buracos naqueles destroços
é extraordinário.
...coragem, tragédia.
Estamos falando da morte de dez mil pessoas.
Agora a caçada começou,
para achar os navios, desvendar seus segredos...
Imagine estar em uma casa assombrada
com uma lanterninha.
Abandonar o navio!
Houve um acidente terrível.
Eu implorei para que voltassem.
E tudo ficou quieto.
...escutar suas vozes outra vez.
OPERAÇÃO NAUFRÁGIOS
VINGANÇA SELVAGEM
Nas profundezas abaixo da superfície do Mar Báltico
foi encontrado um amontoado de metal retorcido e rasgado,
um navio quase irreconhecível.
Quando você mergulha, não enxerga muita coisa.
Apenas a popa e a proa estão em boas condições.
A parte do meio desabou como cartas de papel.
O mergulhador de naufrágios Tomasz Stachura e sua equipe
conseguiram acesso exclusivo
para investigar uma das mais chocantes
tragédias marítimas da história.
Durante o mergulho,
é impossível esquecer a escala desse desastre.
Sabe quantas pessoas morreram lá?
Sempre vem à mente quando você está mergulhando.
Como este navio acabou completamente destruído
no fundo do Mar Báltico?
E por que tantas pessoas morreram?
Do Báltico até os Cárpatos,
por toda parte ao longo da extensa Frente Oriental,
armamentos russos extremamente pesados
destroem o inimigo submerso.
Após suportar perdas terríveis causadas pelos nazistas,
o vingativo Exército Vermelho invade o Leste Europeu,
em direção à própria Alemanha.
Os soviéticos alcançaram o território alemão
pela primeira vez,
alcançaram a fronteira leste da Prússia Oriental,
e, muito rapidamente,
começaram a se vingar em populações locais.
Milda Bendrich é uma das centenas de milhares
de civis alemães que fugiram para o oeste.
Ela viajou com seus pais
e sua filha de dois anos de idade, Inge.
Nós ficamos presos na neve profunda.
Você, Inge, foi a única que gostou da viagem,
já que estava posicionada confortavelmente
e protegida do vento forte em um espaço entre a bagagem,
como se estivesse sentada em uma poltrona.
Os civis foram perseguidos pelo Exército Vermelho.
Estava terrivelmente frio,
então as crianças morriam vítimas de geladura.
Muitas dessas carroças atravessavam o gelo.
Não havia ninguém para puxá-los para fora.
E já havia um número alto de mortes,
muito antes de eles chegarem aos portos,
onde eles esperavam encontrar alguma segurança.
Como o regime nazista dizia a eles,
isso era algo como o fim do mundo.
Isso era apocalíptico.
Era uma ameaça existencial para eles.
Os refugiados se dirigiram aos portos no Báltico,
de onde esperavam poder embarcar em um navio para a Alemanha.
Tomasz Stachura está investigando
o naufrágio de um navio grande
que já esteve atracado no porto de Gdynia.
A temperatura da água é, mesmo durante o verão...
A água no fundo tem quinze graus negativos.
A maior parte dos destroços está coberta com redes.
É perigoso mergulhar lá.
Nos destroços retorcidos,
os mergulhadores encontram provas
de que esse navio costumava ser um transatlântico espetacular.
Ainda conseguimos encontrar vigias lindas em boas condições.
O que mostra o quanto esse navio era bom,
e como era luxuoso antes da guerra.
Isso é tudo que sobrou do Wilhelm Gustloff.
Com 213 metros de comprimento,
e pesando mais de 25 mil toneladas,
foi um dos mais espetaculares transatlânticos alemães
e era capaz de acomodar quase duas mil pessoas.
Motivo de orgulho da Alemanha nazista,
foi lançado ao mar em 1937,
na presença do próprio Adolf Hitler,
que lhe deu esse nome em homenagem
a um nazista suíço que foi assassinado.
O Wilhelm Gustloff era um transatlântico,
o primeiro a ser construído pelo regime nazista,
com o propósito de levar trabalhadores alemães de férias.
Era operado por uma organização nazista
que tinha o objetivo moldar o tempo livre
de alemães comuns.
Então tinha tudo,
desde clubes de xadrez a férias organizadas,
e até cruzeiros em alto mar.
Em janeiro de 1945,
seus dias de cruzeiro já haviam acabado fazia tempo,
e ele era a última esperança
de milhares de refugiados desesperados.
Eles estavam em estado de desespero.
Muitos haviam morrido de fome no caminho,
ou congelados,
e testemunhas oculares que viram esses civis
costumam comentar que estavam em um estado de abandono,
estavam muito fracos, eram muito pobres,
e sua saúde já estava muito debilitada.
Eles já estavam em péssimas condições
antes de chegar ao porto,
então não devemos subestimar
a gravidade dessa crise de refugiados,
e é isso que foi.
O Gustloff foi preparado às pressas
para navegar durante uma evacuação gigante
chamada Operação Hannibal,
um plano de resgate de tropas militares alemãs.
Seu capitão era o Friedrich Petersen.
Capturado pelos britânicos no início da guerra,
ele foi solto com a condição
de que nunca mais comandasse um navio.
Mas ele assumiu o comando do Gustloff
para ajudar com a evacuação.
Começou como uma operação puramente militar,
mas depois as coisas mudaram.
O capitão Petersen recebeu permissão
para também levar civis a bordo,
desde que cuidasse dos militares primeiro.
E o capitão Petersen sentiu pena dos civis
que estavam aparecendo em Gotenhafen.
Ele entendeu seu pânico e medo do Exército Vermelho,
e então ele permitiu que os civis subissem a bordo.
No início,
os oficiais tentaram limitar os passageiros a quatro mil,
que já era mais que o dobro da capacidade do navio.
Mas esse número foi ignorado rapidamente.
O sistema de emitir passagens e tentar controlar o tráfego
de pessoas tentando embarcar no navio
saiu do controle.
Acho que eles pararam de contar um pouco antes dos oito mil.
Dá para imaginar o caos nas docas.
Um mar de pessoas.
Milhares de pessoas
tentando desesperadamente embarcar no navio,
atropelando e empurrando umas às outras.
Ficamos felizes quando entregamos
nossos últimos pertences
à tripulação do Wilhelm Gustloff.
Meus pais e as mulheres idosas
deveriam dormir em colchões no teatro.
Você e eu em uma cabine com vários beliches,
que, com o passar do tempo, não foram suficientes
para o número cada vez maior de mães e crianças.
O desconforto era um pequeno preço a se pagar
para fugir do terror do Exército Vermelho.
Deve ter dado a sensação de algo como a Arca de Noé.
Os civis da Prússia Oriental devem ter sentido
que tinham escapado de seu destino.
Que haviam chegado ao Ocidente, e estavam em segurança.
Tomasz Stachura e sua equipe
continuam explorando os destroços do Gustloff.
As condições de mergulho
dificultam a procura por provas de suas horas finais.
Nós, mergulhadores, nunca temos a oportunidade
de enxergar o naufrágio inteiro.
Conseguimos ver apenas cinco metros
por conta da visibilidade da escuridão.
Além de provas encontradas nos mergulhos,
Tomasz estuda novas imagens em 3D
para ter uma visão completa do naufrágio.
Ao ver a sondagem do Gustloff,
é possível notar na hora que o navio está bem danificado.
As sondagens mostram um navio dividido em três.
A proa e a popa são facilmente reconhecíveis,
mas a parte do meio desabou completamente.
A proa foi cortada parece que à faca,
e dá para ver a proa em um só pedaço.
E daí, dois metros sem nada,
e depois podemos ver a parte do meio.
Será que estes danos catastróficos,
algo que partiu o transatlântico em três,
são provas do que o mandou para o fundo do mar?
O mergulhador de naufrágios Tomasz Stachura
lança luz sobre as horas finais do Wilhelm Gustloff.
Por muitos anos, o Gustloff,
especialmente após a Segunda Guerra,
foi saqueado por mergulhadores russos.
Aparentemente os russos
estavam procurando algo de grande valor.
Há rumores de que pode ter sido a lendária Câmara de Âmbar,
saqueada pelos alemães quando atacaram Leningrado.
O que quer que fosse, seus esforços para recuperá-lo
destruíram todas as provas dos golpes que o afundaram.
Nós sabemos que eles usaram algumas ferramentas
para cortar as paredes.
Eles usaram, por exemplo,
correntes de aço para prender a lateral do navio,
e daí a quebraram.
Ou então usaram dinamite.
Então, com esse trabalho,
podemos dizer que destruíram o navio.
Apesar dos danos,
Tomasz foi capaz de encontrar algumas pistas.
Quando você é cuidadoso e experiente,
vê as pequenas coisas.
Alguns dos detalhes contam histórias,
como uma vigia retorcida,
como um pedaço do convés que está a 40 ou 50 m do navio.
Então, essa distância pode ter sido causada
por uma explosão.
Em janeiro de 1954,
o Wilhelm Gustloff estava atracado no Porto de Gdynia,
na costa báltica.
Havia passado os últimos quatro anos
como um quartel flutuante para recrutas de U-boats.
O capitão de treinamento de U-boat,
Willhelm Zahn, ainda estava a bordo
e interessado em permanecer no comando.
Enquanto se preparavam para sair,
ele discutiu com o capitão Petersen
sobre a rota mais segura pelo Báltico.
Willhelm Zahn, o capitão militar,
estava bem ciente da ameaça
dos submarinos soviéticos, por exemplo,
e que eles poderiam ser atacados a qualquer momento.
E ele estava ansioso
para zarpar o mais rápido possível,
e para permanecer perto da costa da Pomerânia,
para ter uma espécie de abrigo, alguma proteção,
ao invés de ir pelas rotas principais
do Mar Báltico.
Mas essa rota estava cheia de campos minados.
Essa outra rota
passava por uma área de uma rota de navegação
em que as minas tinham sido removidas,
e nesse sentido, ela era segura.
Porém, teriam que ir mar adentro no Báltico,
e, portanto, era muito mais arriscado
e ficariam mais vulneráveis
a ataques de submarinos soviéticos.
Por conta do Gustloff
ter ficado confinado ao porto por quatro anos
e estar carregando pessoas demais,
capitão Petersen achou que navegar rápido
seria muito arriscado.
Então, ele queria navegar bem mais devagar.
Queria navegar pelas rotas principais,
de luzes ligadas, por exemplo,
como em uma viagem normal.
Foi com esse comando conflitante
que o Gustloff finalmente zarpou
ao meio-dia em 30 de janeiro de 1945,
com cerca de dez mil pessoas a bordo.
Ele levantou âncora e partiu
enquanto uma tempestade se formava,
com ventos fortes,
e uma temperatura de quinze graus negativos.
O garoto de dez anos Horst Woit viajava com sua mãe.
É, eu me lembro das duas torres, as torres de luz.
E ao passar por esse trecho específico
aqui do porto,
você tem a sensação:
"Agora nós estamos seguros. Agora ficará tudo bem."
Havia muitas pessoas desesperadas,
muitas lágrimas,
muitas pessoas que acreditaram
que tinham alcançado o que queriam,
e que agora estavam seguras e haviam escapado.
Não demorou muito
para as primeiras vítimas de enjoo marítimo
se agarrarem aos lavatórios.
Qualquer tentativa de chegar
aos vasos sanitários a tempo teria sido em vão,
porque os corredores e escadas estavam lotados de gente,
principalmente de mulheres e crianças.
No passadiço, Peterson triunfou,
levando o Gustloff devagar às rotas marítimas principais,
com as luzes ligadas para todos verem.
Um dos primeiros a avistá-lo
foi o capitão de um submarino soviético,
Alexander Marinesko.
De repente, vi a silhueta enorme de um transatlântico.
Estava até com as luzes acesas.
Eu tinha certeza de que estava lotado
de homens que haviam pisoteado a Mãe Rússia
e que agora estavam tentando fugir.
Decidi que a embarcação precisava ser afundada.
E seria pelo submarino S-13.
A nomeação de Marinesko para comandar o S-13
era um sinal de sua alta patente
dentro da marinha da União Soviética.
Os submarinos de classe S
estavam entre os melhores da União Soviética.
Ele nasceu em Odessa, na Ucrânia.
Já era bem experiente em 1945,
tinha por volta de trinta anos,
e ele era conhecido por ser um pouco rebelde.
O problema do capitão Marinesko
é que aparentemente ele era um livre-pensador.
Ele deveria ter retornado a seu U-boat,
mas ele estava três dias atrasado
porque estava em Tartu com uma mulher,
e aparentemente estava muito bêbado
durante grande parte do tempo.
E então ele não conseguiu voltar ao seu navio a tempo,
e isso é, claro, um crime de guerra.
Sua tripulação foi avisada para partir sem ele
quando ele foi denunciado por deserção,
por outro comandante.
Mas disseram "não", queriam navegar com o Marinesko.
Permitiram que ele retornasse a seu navio.
Ele levou o U-boat para o mar,
e pareceu estar desafiando seus limites
no sentido de querer mostrar o seu valor.
A decisão de Friedrich Petersen de manter uma velocidade baixa
colocou o Gustloff em grave perigo,
dando a Marinesko a chance
de manobrar até a posição de tiro perfeita.
Em cada torpedo, havia uma mensagem de vingança.
"Pela Mãe Rússia."
"Pelo povo soviético."
"Por Leningrado."
Não fazia nem meia hora desde que tínhamos ido dormir
quando, de repente, fui arremessada do meu beliche.
Você dormia contra a parede e permaneceu quieta,
mas aquele primeiro golpe me fez sair voando.
O segundo e o terceiro golpe vieram logo depois.
Dentro do Gustloff atingido,
a sobrevivência dos tripulantes
dependia de eles chegarem aos botes salva-vidas rápido.
A reação imediata foi de pânico.
A noção de que estavam em uma noite escura
como breu no Mar Báltico,
a 20 graus negativos, em uma nevasca,
desencadeou um pânico desenfreado
dentro da embarcação.
Qualquer pessoa que hesitasse
em passar por cima das outras abaixo dela,
ou ficasse sem energia, acabaria sendo pisoteada.
O pânico havia se instaurado.
A detonação dos torpedos
fez com que os extintores de incêndio
explodissem sobre as escadas.
Nós tentamos subir para o lado de fora.
Todas estavam cheias de espuma.
E eu consegui chegar ao topo das escadas,
mas minha mãe caiu...
até o pé da escada.
E eu fiquei lá no topo, gritando com todas as forças...
"Mãe!"
As imagens dos destroços revelam mais detalhes
sobre os momentos finais do navio.
Quando vimos pela primeira vez as lindas sondagens do Gustloff,
percebemos que, a 40 metros da proa dele,
havia um barco pequeno.
Tomasz decide investigar mais a fundo.
Era uma situação completamente maluca,
porque, apesar de o Gustloff ter sido saqueado,
ninguém sabia que a 40 metros perto do fundo
havia um bote salva-vidas intocado.
E esse barco estava em perfeitas condições,
com um motor Rolls Royce,
com um pequeno leme e por aí vai.
Por que esse bote salva-vidas,
que deveria ter levado os tripulantes em segurança,
afundou junto com o navio?
Empurrando e puxando, conseguimos chegar ao balaústre
e fomos puxadas para dentro do bote salva-vidas.
Enquanto nosso barco estava sendo solto,
outro barco, já baixado até a água,
virou e derrubou todo mundo.
O Gustloff tem botes salva-vidas e jangadas suficientes
para apenas cinco mil pessoas,
mas mais de dez mil precisavam fugir.
E o pior ainda estava por vir.
Por conta do navio ter adernado cerca de 10 a 15 graus
depois que os três torpedos nos atingiram,
nenhum dos botes salva-vidas foi solto no lado estibordo.
Dos seis barcos que eles conseguiram soltar,
em um deles, a âncora quebrou,
a braçadeira quebrou
e ele tombou enquanto era baixado.
E todas as 60 ou 70 pessoas que estavam no barco
provavelmente não sobreviveram
Muitos botes salva-vidas congelaram no navio
e, pior ainda,
a maior parte da tripulação havia morrido,
então sobraram poucas pessoas treinadas
para lidar com emergências.
De repente, eles começaram a gritar:
"Alguém tem uma faca?
Estamos congelados, não conseguimos sair!"
A faca que eu tinha roubado do meu tio
estava nas minhas calças de esqui.
Claro que minha mãe não sabia que eu estava com ela.
E eu a entreguei para um dos marinheiros,
e eles cortaram aquelas cordas pesadas.
E é por isso que estou vivo hoje.
Milda Bendrich também teve sorte.
Carregando sua filha de dois anos de idade Inge,
ela chegou a um dos poucos botes salva-vidas
que foram soltos.
Inge, você não fez nenhum barulho,
desde que saímos da cabine e no bote salva-vidas,
até 20 minutos ou mais,
já que eu não tenho noção de quanto tempo havia passado.
De acordo com as testemunhas,
apenas seis botes salva-vidas escaparam do navio que afundava.
Milhares de tripulantes
foram obrigados a pular no Báltico
e tentar a sorte no mar congelante.
A temperatura do mar estava quase congelante,
então aqueles que pularam do convés,
ou foram arrastados para fora do convés do Gustloff,
provavelmente tiveram 30 segundos ou um minuto,
antes de começar a sucumbir à hipotermia.
Quando fomos salvos, havia cinco de nós,
três oficiais, um berlinense e eu.
Aqueles que congelaram até a morte,
tivemos que jogar de volta ao mar.
Muitas famílias não conseguiram nem sair do navio.
Em muitos casos, eles chegam no convés superior
e percebem que estão presos em vidro temperado.
Existem vários relatos de outros sobreviventes
que observam essa situação,
observam essas pessoas subirem até o convés superior.
Tenha em mente que o navio estava adernando a bombordo.
Eles os observam,
achando que alcançaram seu objetivo
e poderiam respirar o ar fresco do Báltico,
até perceber que estão dentro de um caixão de vidro.
Expressões de espanto,
olhos de mulheres e crianças em pânico,
socando a parede de vidro indestrutível.
Cerca de mil pessoas
ficaram presas na barriga do barco
e foram deixadas para morrer.
Ouvi um borbulhar alto e centenas pedindo ajuda.
De repente, começaram a gritar do bote salva-vidas:
"Olhem o Gustloff!"
Todas as luzes se acenderam nos conveses superiores,
e ficou parecendo uma festa de Reveillon.
E então...
E depois, em poucos minutos,
as luzes começaram a diminuir cada vez mais.
E ficou tudo escuro.
Aquilo foi uma enorme tragédia humanitária.
Uma das piores coisas sobre ela é que eram refugiados,
e uma grande parte das pessoas que morreram
era de crianças pequenas.
A escala desse naufrágio foi uma tragédia enorme.
É o maior desastre,
em termos de vidas humanas perdidas,
da história marítima.
Sempre vem à mente quando você está mergulhando.
Você vê um pedaço de banco, por exemplo, e pensa:
"Quem estava sentado nesse banco naquele dia?"
Você vê sapatos e pensa:
"Isso é o sapato de uma mulher ou de uma criança."
Apenas 1.200 passageiros sobreviveram.
Com um número de mortos
seis vezes maior que o do Titanic,
parece inacreditável
que essa história não seja mais conhecida.
Tinha tanta coisa acontecendo,
tantas vidas foram perdidas no final de 44, começo de 45.
O último ano da guerra foi especialmente brutal,
de modo que as perdas no Gustloff
e a história de Marinesko
são consideradas insignificantes.
Marinesko ganhou a distinção chocante
de ter causado o maior desastre marítimo
da Segunda Guerra Mundial e da história da humanidade.
Ao tentar mostrar seu valor,
era essa a vingança que ele buscava?
Sabemos que levava civis, mulheres e crianças,
mas Marinesko não sabia.
Acho que não se importaria, se soubesse.
Não faria diferença para ele.
A guerra é brutal, é sangrenta e, em muitos casos,
os civis acabam virando dano colateral,
e isso é trágico, mas não é um crime de guerra.
Esse naufrágio nos faz lembrar
como as pessoas costumavam agir há 75 anos,
e esses destroços nos fazem lembrar
do desastre enorme que foi.
E é bom saber que 75 anos atrás
algo assim aconteceu.
Por quê?
Porque não queremos repetir nossos erros, não é?
Nas águas quentes do Pacífico Central,
um paraíso subaquático.
Um refúgio tranquilo
para uma variedade deslumbrante de vida marinha.
A Laguna de Truk.
Mas o ecossistema inteiro daqui pode estar ameaçado.
Flutuando na superfície do mar, sinais reveladores de poluição.
Os mergulhadores Chris e Allison Selman
saíram para investigar sua origem.
E nas profundezas abaixo da superfície,
ficaram cara a cara
com uma cena de devastação absoluta.
Você dá o primeiro mergulho,
você afunda e a proa gigante de um navio
ou uma hélice paira sobre você na escuridão.
É enorme. É incrível.
Depois, ao vasculhar os destroços,
você nota os danos e a escala daqueles danos.
Vê barcos do tamanho do Titanic partidos ao meio.
Metade de um barco desapareceu totalmente.
Crateras de 100 metros ainda estão no fundo do mar,
setenta anos após o ocorrido.
O maior cemitério de navios do mundo.
Mais de 40 navios naufragados,
todos destruídos durante um único ataque chocante,
de impacto sem precedentes.
A MARINHA DOS ESTADOS UNIDOS APRESENTA
"NÓS DISSEMOS QUE VOLTARÍAMOS"
FEVEREIRO DE 1944
Aqui é a sua Marinha.
Os navios, as armas, os aviões, os homens...
Uma enorme força-tarefa americana
estava pronta para um ataque-relâmpago
à Laguna de Truk,
uma importante base naval japonesa.
Sua missão, a Operação Hailstone,
era não apenas derrotar o inimigo,
mas aniquilá-lo.
Sua Marinha cresce.
Era para ser um grande ataque à frota inimiga no porto,
para compensar o que os japoneses fizeram
com os americanos em dezembro de 1941.
Foi uma espécie de Pearl Harbour invertido.
Vindos do mar,
bombardeiros da Marinha explodem aviões
antes de levantarem voo e destroem suas pistas.
As ilhas principais do Atol de Truk
sofrem um golpe fatal.
Não havia só tropas japonesas sediadas aqui.
Milhares de pessoas moravam permanentemente nas ilhas.
Civis inocentes,
incluindo o adolescente Kimiuo Aseck.
Eu estava dormindo em casa.
Eu acordei quando ouvi barulhos de bombas e tiros
por toda parte.
Quando olhamos para cima, dissemos:
"Nós vamos morrer!"
Os aviões americanos apareceram e, quando escureceu,
começaram a lançar bombas.
Eles as lançaram no aeródromo e o lugar estava em chamas.
Na ilha principal,
pilotos continuam sua missão de destruição
ao bombardear cada parte da grande base.
A base vem sendo transformada há mais de 20 anos
em uma fortaleza considerada impenetrável.
Após neutralizar as pistas,
os bombardeiros americanos ficaram livres
para focar seu verdadeiro alvo,
a frota japonesa.
Mas os japoneses estavam preparados para isso.
Sabiam que esse dia ia chegar.
Eles retiraram os porta-aviões, os seus encouraçados.
De modo que as únicas coisas que restavam na Laguna de Truk,
quando os americanos atacaram,
eram alguns cruzadores leves, alguns contratorpedeiros,
e muitos navios mercantes e cargueiros,
conhecidos como "marus",
e aquele era o verdadeiro alvo do ataque americano.
Setenta e cinco anos depois,
nas profundezas da Laguna de Truk,
os destroços de um desses navios são encontrados.
Dá para notar que é um navio de luxo.
Todos os acabamentos das janelas eram impecáveis.
Ele se chama Aikoku Maru,
um transatlântico de última geração,
convertido para se tornar
o que é chamado de "cruzador auxiliar."
Atualmente, seus destroços destruídos
nos proporcionam um retrato gráfico
de seus momentos finais de desespero.
Quando nos aproximamos do topo da meia-nau,
podemos ver dois conjuntos de canhões antiaéreos.
Esses canhões antiaéreos estão apontados para o céu.
Tem cartuchos de balas por toda parte.
Então sabemos que esses caras lutaram até a morte.
O casco é uma cena de destruição total.
Toda a parte dianteira do passadiço sumiu.
Desapareceu totalmente.
Eu nunca tinha visto pessoalmente
um navio que sofreu um golpe dessa magnitude.
Em 1944,
o Aikoku Maru estava atracado na Laguna de Truk.
Além de levar quase mil homens, estava lotado de munição.
E, por conta de seu tamanho enorme,
visto do céu, era um alvo premiado.
Um avião torpedeiro acertou os porões
que continham munição, causando uma explosão gigante.
Eles afundaram aquele navio em um minuto.
Um minuto!
E só fez "bum!"
Quando a fumaça se dissipou, o navio não estava mais lá.
Eu vi só algumas pessoas
nadando na superfície.
Havia 950 soldados a bordo do Aikoku
quando foi atacado.
E, dessas 950 pessoas,
mais de 750 pessoas morreram instantaneamente.
Está sendo dizimada por uma frota de aviões
com uma força esmagadora.
Durante dois dias infernais,
os americanos atacaram incessantemente.
Afundaram mais de 40 navios inimigos,
deixando a base naval japonesa de joelhos.
As ilhas de Truk nunca mais foram as mesmas.
E mais de 75 anos depois,
os navios naufragados continuam deteriorando
no fundo da Laguna.
Os especialistas em corrosão Chris e Allison Selman
investigam suas condições.
Eles pareciam congelados no tempo.
Parece que aconteceu ontem.
Quando fizemos as análises de corrosão,
ficou óbvio o quanto são delicados
e a rapidez com que estão se desfazendo.
Nessa profundidade,
existe a situação ideal para um maior grau de corrosão.
O problema é que o ferro corroído
nos tanques que continham o combustível,
está ficando mais fino a cada dia que passa.
Por hora, a incrustação marinha consegue segurá-los.
Mas, em alguns dos destroços,
o metal não está mais intacto,
e o óleo está começando a vazar.
Tem muitas questões em relação ao óleo bruto restante
e o óleo combustível marítimo nos destroços.
Só na Laguna de Truk tem seis navios petroleiros,
e cinco transatlânticos,
então a chance de ocorrerem catástrofes
devido ao vazamento de óleo é bem grande.
A parte mais complicada
é que a Laguna está em uma área tão protegida
que isso afeta o meio ambiente
e afeta a vida marinha diretamente.
E o sustento do povo chuukese é basicamente a pesca,
então é daqui que eles tiram seu alimento,
e é aqui que eles obtêm seu sustento.
Se nada for feito ali,
seremos a última geração a ver isso.
Os destroços na Laguna de Truk
são uma cápsula do tempo extraordinária,
diferente de qualquer outra coisa no mundo.
Mas esse museu subaquático
está se desintegrando aos poucos.
O explorador de naufrágios Pete Mesley
faz parte dos esforços para salvar o local
e preservar os destroços.
Depois de ter ficado submerso por 76 anos,
a ferrugem, a grande explosão que ocorreu,
o casco e os danos estruturais que foram causados,
a maquinaria pesada está começando a cair
nos porões inferiores.
As áreas estão começando a desmoronar,
e é preciso tomar muito cuidado ao se mergulhar.
Pete está desenvolvendo
um novo método de monitoramento dos destroços
usando a fotogrametria
uma técnica de captura de imagens
desenvolvida originalmente para se usar em terra.
Quero fazer um mapeamento 3D dos destroços na Laguna de Truk
há muitos anos,
e a tecnologia para isso só foi criada recentemente.
Após tirar milhares de fotografias,
Pete cria modelos detalhados dos destroços em 3D,
e, desse modo, pode monitorar a taxa de desintegração,
uma técnica que ele pretende utilizar
em todos os navios naufragados na Laguna.
Podemos ver aqui o exemplo do Amagisan Maru.
Se você der uma olhada aqui, na parte da popa,
o canhão da popa caiu,
e o peso dele separou o convés traseiro
do lado estibordo do casco.
Enquanto Pete coleta dados,
outros mergulhadores e cientistas do mundo inteiro
trabalham em conjunto para encontrar uma solução.
No centro da Laguna está um navio naufragado
que é motivo de grande preocupação.
Mas, por hora, é uma maravilha ecológica.
Apesar de ter afundado devido a condições brutais,
ele se tornou um sistema de recife de corais magnífico,
então é bem interessante observar
como um ato de guerra acabou gerando
uma quantidade incrível de vida marinha e aquática
ao redor dos destroços.
Ele se chama Shinkoku Maru,
um petroleiro construído em 1940,
requisitado pela Marinha japonesa.
É possível nadar através do buraco na lateral do casco,
onde ele foi atingido.
No lado bombordo da casa de máquinas
tem um buraco grande e irregular,
um indício do golpe letal que acabou com esse barco.
E algumas bombas de proximidade causaram muitos estragos nele,
abrindo um buraco em seu lado estibordo.
Hoje em dia, o Shinkoku pode ser a solução
contra a bomba relógio ecológica que ameaça a Laguna de Truk.
Chris e Allison Selman exploram as profundezas de seu casco,
tentando coletar uma amostra de óleo.
Tivemos que mergulhar bem fundo na casa de máquinas,
e ir além dela para achar a sala onde estava o óleo.
Tivemos que nos aproximar bem devagar e com cuidado,
porque muitos dos combustíveis marítimos
podem ser bem corrosivos.
Os Selmans enviaram sua amostra de óleo
ao conservador de metais ao Dr. Ian MacLeod,
da Austrália Ocidental,
Tem diesel aqui,
e o diesel é bem nocivo ao meio ambiente marinho.
E também tem combustível leve de aviação,
e ele pode pegar fogo,
então precisamos criar um plano de ação.
Existem bactérias no combustível,
e elas podem oferecer uma solução ecológica.
A análise do óleo e as bactérias encontradas nas amostras
revelam que os insetos estão se alimentando dos óleos.
Então uma das soluções possíveis
é descobrir que tipo de dieta eles precisam,
para que possamos alimentá-los com nutrientes extras,
para que eles possam "chomp, chomp, chomp,"
comer óleo de café da manhã, almoço e jantar.
As lições aprendidas na Laguna de Truk
possuem implicações globais.
Onde aconteceu a Segunda Guerra Mundial,
ainda há destroços.
E onde há destroços, há destroços cheios de óleo,
seja de seus tanques de combustível,
como parte da carga que transportavam.
A probabilidade de ocorrer um grande vazamento de óleo
de destroços da Segunda Guerra cresce a cada dia.
EM MEMÓRIA DO PROFESSOR ERIC GROVE
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