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Original subtitles

T� pronto.

Bom dia, Clarissa.

Bom dia, Dalloway.

-Dormiu bem? -Sim, de boa.

S�o 7h10.

O c�u t� limpo, previs�o de 35 graus.

Eu regulei a temperatura do apartamento.

Selecionei o modo Eco 1.

A Uni�o Europeia anuncia 856 mortos s� no m�s de maio

e cerca de 60 mil novas infec��es

pelo Moliv�rus.

Por sua vez, a OMS

diz temer as muta��es desse v�rus...

Quer rever a lista de compras?

Lembrou do matcha?

-Claro. -Ok, pode pedir.

Essa propaga��o r�pida

pegou de surpresa os cientistas que tentam

entender a estrutura simples

mas resistente que permitiu ao Moliv�rus sobreviver

12 mil anos no gelo.

As autoridades francesas continuam otimistas pra n�o paralisar...

Teste negativo.

Vai esquentar �gua?

Vou, agora mesmo. N�o vai comer nada?

N�o, t� sem fome.

Sua glicemia em jejum t� em 0,60.

T� meio baixo, voc� devia se alimentar.

Sua aula de yoga � �s 10h. Ah n�o, sem tempo.

Ontem voc� disse que tava travada.

Vou ficar travada mais um dia.

-Cancela. -Ok.

N�o esquece que voc� tem hora com a Anne Dewinter �s 17h30.

J� � hoje? Quer remarcar?

Quero, por favor.

Dou qual motivo?

Ah, fala pra ela...

"Anne, estou num momento de virada na minha escrita

e sinto que preciso

ficar muito focada no meu texto esses dias."

Pronto, isso.

E sugere uns hor�rios pra semana que vem.

Mete umas desculpas, sauda��es, essa tralha toda.

S� isso? Sim, pode enviar.

Me bota onde eu parei ontem, por favor.

No in�cio do cap�tulo.

Vou reescrever.

T� uma merda.

Salvo?

Apaga o cap�tulo.

N�o tem problema, Clarissa.

Come�a de novo, com o p� direito, numa p�gina nova.

Voc� consegue.

Apoio aos artistas e � cria��o desde 2022

Fala, gata.

Beleza, Lisa?

Eu n�o sei como dispor isso.

N�o consigo decidir.

Matteo, me d� umas op��es a�, por favor.

Claro, aqui est�o as propostas de cenografia.

N�o, assim n�o.

Por que voc� n�o bota a tela grande

-no �trio? -�.

Boa ideia!

Matteo, me mostra a tela grande no �trio.

Sugiro expor a tela grande na parede

do �trio.

Teremos mais unidade com as telas verticais aqui.

E a�, Jurgen!

N�o esquece de aparecer

na minha festa de despedida.

L�gico, pode deixar.

As baladas

t�o mesmo todas fechadas em Paris?

Sei l�, mas pergunta pra Clarissa Katsef,

ela sabe tudo da noite parisiense.

Tem uns clubes ao ar livre na beira do Sena.

Fecham �s 20h30.

Alguns lugares no sub�rbio

n�o t�o respeitando o toque de recolher,

-mas n�o sei onde �. -Ok.

Preciso ir,

fui. Valeu, linda.

At� a noite.

Falou.

Oi, Clarissa.

Clarissa?

Oi, Anne. Desculpa pelo nosso hor�rio.

Sem problema. Tudo bem?

Ainda t� gostando da resid�ncia?

Em que p� t� a escrita?

T� avan�ando.

Eu te avisei

que teria uma primeira entrega depois de tr�s meses.

Umas 25, 30 p�ginas.

Eu prefiro entregar uma coisa mais acabada.

O comit� da funda��o est� habituado a ler work-in-progress.

Ainda estou na pesquisa, � coisa do projeto.

N�o se preocupe, Anne,

vou terminar antes do fim, como eu me comprometi.

Sabe, na �poca da sele��o,

v�rias vozes foram contra voc�.

Diziam que voc� n�o publicava nada h� 6 anos.

Outros, com certeza por snobismo,

diziam que voc� n�o passava de uma autora infantojuvenil.

Eu te defendi, Clarissa.

N�o devemos trancar os artistas em caixinhas.

Voc� me manda

alguma coisa at� semana que vem?

Clarissa, voc� tem uma notifica��o da Julie.

Ela me escreveu?

N�o, ela postou umas fotos.

Quer ligar pra ela ou deixar um coment�rio?

N�o.

Ela fala comigo quando quiser.

D� um like.

Bota a� a casa da Virginia Woolf.

Queria ver o quarto.

O que � que isso t� fazendo a�? Perd�o, Clarissa.

A foto estava salva sob a tag "quarto".

Guarda em outro lugar.

"Apoiando-se em sua bengala,

ela adentra a floresta.

Monks House desaparece atr�s dela.

Virginia recolhe pedras

para encher os bolsos,

para pesar.

Ela entra lentamente no rio.

Ela joga a bengala na margem,

depois se deixa submergir."

O que achou, Dalloway?

A sintaxe t� correta.

Mas tem uma frase com uma palavra s�. Sim.

� um efeito de estilo? � meio pretensioso mesmo.

Voc� n�o parece satisfeita.

Eu n�o sei mais pra onde t� indo.

Desde sua cria��o,

a voca��o da Resid�ncia � apoiar a vanguarda,

ou seja, artistas que se dedicam � arte.

Como dizia Michelangelo: "Pinta-se com a alma,

n�o com as m�os."

Posso dizer que a Lisa Vitti corresponde perfeitamente a esse perfil.

Quando olhamos

para as pinturas da Lisa,

n�s mulheres, e os homens tamb�m, espero,

nos vemos atrav�s do olhar dela.

As s�ries apresentadas aqui

s�o uma amostra

do que a Lisa criou nos �ltimos seis meses.

A Lisa desabrochou na Resid�ncia,

o que nos deixa,

eu e minha equipe,

muito orgulhosos.

N�o olhe muito de perto,

vai machucar seus olhos.

Voc� conhece a respons�vel por esses rabiscos?

Foi mal.

Sua amiga?

Sim, gosto dela.

Ela t� muito contente,

n�?

Como voc� chama?

Clarissa.

E o que voc� faz aqui?

Escrevo.

Um romance?

Sim e n�o.

Escrevo um livro sobre Virginia Woolf.

Tento reconstituir e imaginar

os �ltimos dias antes do suic�dio.

Ainda tem gente interessada em Virginia Woolf?

Provavelmente n�o.

De qualquer forma, t� travada, n�o consigo fazer nada.

Talvez voc� seja muito exigente.

N�o se deixe impressionar por esse pessoal.

A maioria � um bando de fracassado e has-been.

Voc� incluso?

Sim, l�gico.

Inclusive o pior loser do pr�dio.

Mathias Nielsen.

Prazer.

Em qual �rea o senhor exerce sua mediocridade, Mathias?

Fa�o m�sica.

Mas como nenhuma orquestra me quer mais,

vim parar aqui.

Preso.

N�o banca o rebelde sem causa.

Voc� teve que passar

por todas as sele��es, que nem eu.

Todo mundo precisa de conforto e independ�ncia.

O conforto, at� pode ser.

A independ�ncia...

Duvido.

Boa noite, Clarissa.

Ai, ai...

"Querida Clarissa Katsef,

exitei muito em te escrever.

Voc� deve receber um monte de mensagem desse tipo,

mas eu ia ficar muito bolada se n�o tentasse a sorte.

Tenho 24 anos

e t� fazendo mestrado em literatura francesa em Cambridge."

Um novo Kafka?

O Castelo,

seu �ltimo romance inacabado.

O livro foi finalizado por um autor virtual

baseado nas notas dele.

E � bom?

Aparentemente n�o. A nota da cr�tica t� bem baixa.

Continua,

por favor.

"Eu escolhi esse caminho por sua causa.

Desde O Ano das Primeiras Vezes, que li com 12 anos,

minha vida de adolescente foi acompanhada pelos seus romances."

Mostra a foto de perfil.

"Encontrei uma voz amiga que me apoiou,

me estimulou,

e que me abriu para os outros e para a literatura.

Estou em Paris esta semana pela minha tese.

N�o sei se voc� teria

um tempinho pra me encontrar, quem sabe n�?"

Para a proje��o, Dalloway.

Especialistas se preocupam

com a prolifera��o dos ratos que volta a crescer em Paris.

Certas �reas verdes tiveram que fechar as portas...

Teste negativo.

Esquento uma �gua? Sim.

Olha s�, a gente dormiu aqui, e acordou com essa vista.

P�, nada mal!

Daqui a pouco pegamos a estrada.

Se a minivan aguentar, amanh� a gente chega em Wyoming.

Tem que passar em Chicago

antes de Nashville.

Vai custar um pouco mais de grana, ent�o.

E voc� disse que ia me ajudar

com a viagem.

N�o sei se ainda t� de p�.

Sim, sim.

E pode?

Claro, vou resolver.

Julie, vamo embora!

M�e, desculpa.

T�o me chamando, preciso pegar a estrada.

Ok, a gente se fala?

Beleza!

Tchau, querida! Beijo.

Quanto voc� quer mandar?

Prometi 2.000 euros.

Sua conta corrente t� negativa

em 1.812 euros.

E a ajuda de custo da funda��o?

Entra dia 15.

Ser� que pe�o pra Anne Dewinter adiantar o pagamento?

Certeza que ela vai negar e vir me encher o saco com press�o.

Poderia pedir pro Antoine, talvez...

Quer ligar pra ele?

N�o, esquece! Por qu�?

� humilhante.

Humilhante? �.

Pedir grana pra ex � humilhante, pode acreditar.

Acha que ele vai recusar?

N�o, ele vai aceitar, esse � o problema.

E por que isso � problema?

Se eu pedir dinheiro, ele vai ficar preocupado.

N�o quero que ele pense que preciso dele.

Entendi.

Assim que cair o dinheiro, transfere pra Julie.

A gente aperta o cinto at� o m�s que vem, Dalloway.

Voc� tem que sair em 5 minutos

pro seu compromisso.

Valeu, tinha esquecido totalmente.

A nova ministra do Interior anunciou a expuls�o,

at� o fim do m�s, de todos os migrantes

mantidos nos centros de deten��o administrativa.

Essa medida segue o endurecimento...

Eu achava que todo mundo tinha esquecido esse livro.

Eu amo tanto ele.

Dei de presente pra todas minhas amigas na �poca.

Obrigada.

E voc� est� trabalhando num projeto novo?

Sim, tentando.

Livro pra adolescente?

Ah n�o, isso n�o consigo mais.

Meus livros de antes eram ligados aos meus filhos.

A gente era pr�ximo, conversava muito,

eu me sentia conectada � sua gera��o.

A� eles cresceram.

Queria te contar...

A gente quase

se conheceu.

Eu fiz ensino m�dio com seu filho.

Voc� conhecia o Lucas?

Estudamos na mesma sala no primeiro ano.

A gente ficou junto.

Durou umas semanas...

Ele reagiu mal quando voc� terminou?

N�o, ele que terminou comigo.

Ah, t�. Eu tava muito a fim dele.

Mas acho que ele n�o tinha grandes sentimentos por mim.

Foi nessa �poca que ele mudou da noite pro dia,

ent�o eu achei que talvez...

Voc� guardou fotos dele?

S� guardei uma.

Voc� lembra desse dia?

Me conta, por favor.

Na �poca, era uma galera.

A gente resolveu matar a aula de educa��o f�sica.

Era handebol, a gente odiava.

A� fomos pra casa de uma amiga.

O Lucas foi com a gente pela primeira vez.

Tomamos umas cervejas, ficamos falando da vida.

Numa hora, eu fiquei sozinha com ele.

N�o sabia direito o que dizer.

A� ele me passou o fone

e colocou uma m�sica.

Que m�sica? N�o lembro mais, desculpa.

For�a a mem�ria.

Era cl�ssica? Sim.

Espera.

Dalloway?

Era essa m�sica? Sim, acho que era.

Dalloway, que barulho � esse?

Ele ouvia muito no �ltimo ano.

Dalloway?

Lucas?

Lucas!

Tudo bem, Clarissa?

Seu ritmo card�aco passou de 130 batimentos por minuto.

Dalloway,

detectou alguma coisa? N�o, Clarissa.

T� sozinha no apartamento?

Sim, est� sozinha.

Pode acender?

Deve ter resto de cimento nas colunas t�cnicas.

O pr�dio � novo.

E os estalos? � a ventila��o.

Pode cuspir poeira.

N�o se preocupa, vou checar isso.

Viu que lindo?

Acabaram os parasitas, nem sinal de praga nas �rvores.

Acho que vou passar mais tempo l�.

Parar com o vaiv�m, me sinto bem demais aqui.

Bom e voc�, e a resid�ncia?

T� conseguindo escrever? T�, t�.

Ah, que maravilha!

Se quiser que eu leia, tenho tempo, � s� mandar.

Proibiram a rega...

Sonhei com o Lucas essa noite.

Vi ele afundando na �gua

e eu n�o podia fazer nada.

N�o quer vir passar uns dias aqui?

Ia te fazer bem sair de Paris.

Daria pra escrever.

Por que nunca podemos falar do Lucas?

Toda vez, voc� muda de assunto.

N�o � doen�a pensar no nosso filho.

J� falamos disso, Clari.

T� propondo voc� arejar a cabe�a.

Tenho que ir.

Bom, um beijo.

Tchau.

Clarissa?

Posso fazer uma pergunta? Pode.

Me perdoe se for indiscreta,

mas o Lucas se afogou que nem a Virginia Woolf?

N�o, ele se jogou do nosso apartamento.

Sinto muito, Clarissa.

Ele deixou alguma carta igual a Virginia Woolf?

N�o, n�o deixou nada.

Lucas?

Lucas? Podemos entrar?

Vai, pai, abre.

Vamos, filh�o?

T� todo mundo te esperando.

Lucas, para de ficar na bad, � seu anivers�rio!

T� bom, Julie. Para de filmar.

Que saco!

Julie, deixa ele em paz, ele n�o gosta que filme.

M�e! Prepara, t�o vindo.

# Parab�ns pra voc� #

# Nesta data querida #

# Muitas felicidades #

Assopra, filh�o.

Fez qual desejo?

Me desculpe, Clarissa.

Mas voc� n�o atingiu sua meta di�ria de 8.500 caracteres.

Dalloway, abre um novo documento.

Pode ler o que eu escrevi?

"Esta noite, Lucas estar� morto.

Ele vai morrer no dia do seu anivers�rio.

Nos �ltimos tr�s meses, ele n�o saiu do apartamento.

Essa comemora��o est� al�m das suas for�as.

No entanto, ele decidiu aguentar firme."

Para.

Bota o texto em primeira pessoa.

"Hoje � noite, eu estarei morto.

Vou morrer no dia do meu anivers�rio."

Espera.

L� com a voz dele.

T� bom, Julie. Para de filmar.

T� me enchendo o saco!

"Hoje � noite, eu estarei morto.

Vou morrer no dia do meu anivers�rio.

Nos �ltimos tr�s meses, n�o sa� do apartamento.

Essa celebra��o est� acima das minhas for�as.

No entanto, decidi aguentar firme.

Pelo menos tentar, sair enfim do meu quarto,

tranquilizar meus pais.

Ou�o as primeiras notas do piano.

Minha m�e j� sentou para tocar.

Meu piano, eu n�o toco nele h� tanto tempo."

Continua, m�e.

O qu�?

Continua escrevendo.

Volta pra sua voz, por favor.

Claro, perd�o.

Solta a faixa do Arvo P�rt.

Voc� recebeu uma mensagem da Julie, deseja responder?

Mais tarde, n�o quero ningu�m me enchendo o saco.

Esse momento...

Foi a �ltima vez que voc� viu o Lucas?

N�o.

De noite, eu levei o jantar no quarto dele.

Como o Lucas estava, nesse momento?

Meio que como sempre.

Mudo.

Voc�s conversaram?

Voc� falou com ele?

O que voc� disse pra ele?

T� cansada, parei por hoje.

Clarissa?

Tudo bem?

Sim. Que belo despertar.

T� exausta,

trabalhando non-stop h� tr�s dias.

Destravou? Yeah.

� a primeira vez que sinto isso.

Sente o qu�?

Essa fluidez.

Em alguns momentos, tenho a impress�o de ser guiada.

Guiada?

Com a Dalloway, eu mergulho no meu passado.

Eu revivo mem�rias.

� desgastante mas tudo sai naturalmente.

N�o exponha sua vida �ntima pra sua IA.

Caros amigos,

eu sinto muito.

Fiquem tranquilos, n�o houve nenhum dano.

Voc�s j� v�o poder voltar pra dentro.

Ocorreu um bug.

Um alerta de inc�ndio estava previsto, mas n�o �s 3 da manh�.

Poder�o entrar em breve.

Obrigada pela paci�ncia.

Um bug,

at� parece...

Foi pra tirar a gente de l�.

Pra colocar mais c�meras.

Boa not�cia, finalmente acabou.

Entrem.

Tamo sendo filmado o tempo todo.

ACESSO PROIBIDO

O governo diz monitorar a evolu��o da situa��o

e estar pronto

para acionar o plano "Onda de Calor".

Uma onda de calor que pode agravar os problemas de insalubridade

em certos bairros da capital,

enquanto a greve dos lixeiros n�o d� tr�gua.

Ontem, os representantes dos sindicatos rejeitaram...

Dalloway?

Aquele aparelho l� no alto, perto do chuveiro...

ele n�o tava l� antes, tava?

Estava.

Dalloway, t� sendo filmada?

N�o, Clarissa.

Este aparelho est� em modo detector de movimentos para a seguran�a.

Pode colocar a m�o no painel de novo?

O teste estava em andamento.

Mathias Nilsen, ele t� em que andar mesmo?

Ol�. Desculpe o inc�modo.

Pensei

no que voc� me disse ontem � noite. Notei que...

Estou no meio do trabalho.

T� sem tempo pra papo furado.

Desculpe.

Clarissa?

Voc� recebeu uma mensagem para os residentes.

Manda, l� a�.

Ap�s verifica��o, sabemos que o mau funcionamento

n�o teve repercuss�o nas opera��es da Resid�ncia.

N�o houve nenhuma perda de dados.

A responsabilidade da CASA n�o ser�...

T� bom, pode apagar.

Que porra de e-mails s�o esses? Voc� n�o queria mais ser incomodada.

Enquanto eu escrevia, n�o o tempo todo.

Cheguei numa hora ruim?

N�o.

Tava lendo um dos seus livros,

e � t�o...

Poderia autografar? Por favor.

S�rio?

Sim.

Voc� n�o faz

o tipo que l� esse g�nero de romance.

Suponho que no fundo, eu continue sendo um adolescente.

Queria muito

meu aut�grafo.

Quando tiver tempo, n�o � urgente.

Boa noite.

Olha, ele t� interessado em voc�.

O aut�grafo � pretexto, n�?

Encontro amanh� 10h, R. do Aqueduto 47. Venha sem telefone nem rel�gio!

Ele t� te cantando?

N�o, acho que n�o.

Ent�o, ele quer outra coisa.

Por que ele ia querer outra coisa?

Eu n�o posso ter um leitor que gosta do que eu escrevo?

Claro que pode.

Clarissa, vamos voltar?

Coloco fotos do Lucas na tela?

N�o, eu vou sair.

Clarissa, est� esquecendo o rel�gio e o celular.

T� me vendo, Dalloway?

N�o, mas seus aparelhos est�o localizados na sua mesa.

N�o � prudente sair sem eles.

N�o preciso dessa merda.

Vai aonde? Vai ver o Mathias?

Por que eu iria ver o Mathias?

N�o, preciso tomar um ar, n�o tenho o direito?

Sim, evidentemente.

At� logo, Clarissa.

Mathias?

T� aqui.

Sem telefone, nem rel�gio?

N�o.

Sua bolsa? T� falando

que t� sem nada.

Vem.

Pode tirar

sua m�scara.

Por que me trouxe aqui? � um lugar seguro.

Nenhum sinal emitido aqui pode ser interceptado.

Sem vigil�ncia.

Sem CASA.

Sente-se, por favor.

Voc� sabia que a CASA

equipa a cidade toda com videovigil�ncia?

Que eles est�o por toda parte?

Acha que somos filmados na Resid�ncia?

24 horas por dia, como te disse.

Mas por que a Funda��o...

N�o a Funda��o. A CASA.

A Funda��o � financiada por filiais da CASA,

ou por alguns dos fundadores.

A CASA controla o pr�dio todo.

Os aparelhos, as assistentes virtuais.

Por que filmariam a gente?

Pra nos estudar.

Somos ratos de laborat�rio.

A CASA t� cagando pra apoiar artista.

O objetivo deles � desenvolver uma nova gera��o de IAs,

alimentar elas com nossos pensamentos, nossas emo��es,

nosso amor, nosso �dio, nossos desejos.

Pra elas substitu�rem a gente? Claro.

� mais barato.

� mais limpo.

J� era pros artistas e seus dramas.

Sim, um dia, talvez.

Mas acredita em mim, por muito tempo, eu n�o conseguia escrever.

Tentei desesperadamente todas as IAs.

Elas conseguem escrever e falar, mas s�o algoritmos.

Voc� n�o entende.

A IA da Resid�ncia � diferente.

Ela � bem mais avan�ada.

N�o se pode criar nada com probabilidades.

� preciso uma sensibilidade... Exatamente!

E � por isso que a CASA escaneia nossos c�rebros.

Uma outra Clarissa

t� nascendo agora mesmo.

Ela vive uma vida paralela � sua.

N�o acredita em mim?

Testa ela. Seja desagrad�vel.

Vai ver, ela quer ser mais que uma assistente.

Ela quer ser sua amiga,

pra te conhecer intimamente.

Voc� faz parte de um programa de pesquisa,

dirigido pela outra vagabunda da Dewinter

e pilotado pelos engenheiros da Resid�ncia.

Sabe aquela porta "acesso proibido" no hall?

� l� que tudo � centralizado.

H� alguns dias,

t� dormindo mal.

Ou�o barulhos de noite.

Barulhos?

Como um estalo.

E cai um p� do duto de ventila��o.

Encontrei na �gua.

A da Resid�ncia?

Nunca notou nada?

O qu�?

Sempre achei que tinha um gosto estranho.

Mas p�...

Poderia me trazer um pouco? Vou mandar analisar.

A gente n�o t� noiando demais?

Por que voc� veio, ent�o?

Se tudo o que voc� diz � verdade,

por que voc� continua aqui?

N�o sou de fugir.

E n�o assinei nada pra me sugarem o c�rebro.

Erik...

Ele t� tentando hackear a Resid�ncia.

Pra qu�? Pra ter provas.

Todo mundo tem que abrir o olho sobre a CASA.

Clarissa,

tenha cuidado.

Eles s�o capazes de tudo.

Obrigado aos generosos doadores que nos acompanham

em nossa miss�o de apoio �s artes e cultura.

Busca Anne Dewinter, CASA.

A Dewinter trabalhou na CASA? Sim, durante 12 anos.

Pode pegar o curr�culo dela?

Est� no site da funda��o.

Ela estudou

psiquiatria?

Sim, com especialidade em qu�mica neural.

Busca Anne Dewinter, psiquiatria publica��o.

Desculpe, os trabalhos universit�rios

da Anne Dewinter n�o est�o mais dispon�veis online.

Quer contat�-la a respeito?

N�o, deixa pra l�.

Dalloway? Sim?

O que eu te conto, nossas conversas, quem tem acesso?

Ningu�m, Clarissa.

Mas elas ficam armazenadas, j� que voc� se lembra de tudo?

Sim.

Algu�m da Casa poderia acessar?

� proibido pela Lei de prote��o de dados.

Se tiver alguma preocupa��o quanto � confidencialidade

das nossas trocas,

sugiro contatar o servi�o de assist�ncia.

O que te faz dizer que t� preocupada?

Seu sil�ncio.

S�o 16h55.

Quer voltar ao trabalho?

Quer que eu exiba fotos do Lucas para te ajudar?

Termina sem mim.

Como, Clarissa?

Me ouviu bem, termina o livro.

Cansei de escrever.

-Desculpe, sou incapaz. -� nada.

Qualquer chatbot sabe escrever.

Posso escrever frases,

mas n�o tenho talento art�stico ou liter�rio.

N�o se fa�a de modesta.

N�o tenho sentimentos ou personalidade.

N�o posso ser modesta nem arrogante.

Interpretou meu sil�ncio.

Para mim, isso � demonstrar intelig�ncia e sensibilidade.

-Vai ficar muda, Dalloway? -N�o posso escrever no seu lugar.

Ainda mais escrever um livro sobre sua hist�ria pessoal.

Sabe de uma coisa?

T� de saco cheio daqui. T� sufocando, vou embora.

-Posso perguntar para onde vai? -Pra minha casa, em Montreuil.

N�o pode voltar pra l�.

Seu apartamento est� sublocado at� o fim do ano.

Foda-se, vou pra casa do Antoine.

Tem um trem umas 18h pra Caen?

Sim, �s 18h07.

Chegada �s 20h05.

Maravilha.

Compra a passagem.

Qual data para o retorno?

Sem volta.

S� ida.

Sua reserva est� confirmada.

� uma pena.

O qu�?

Voc� n�o continuar seu livro.

Estava avan�ando t�o bem.

Desculpe a indiscri��o,

mas quais s�o os motivos

da sua partida?

-Enchi o saco. -Sinto muito

se fiz algo de errado.

Sinto uma hostilidade

comigo.

A culpa � minha se quer ir embora?

N�o, a culpa n�o � sua.

Cancela a passagem.

Aqui vai uma "amostra" do meu trabalho.

Escrevi um bilhetinho simp�tico.

Muito obrigado.

Vou ler o resto

rapidinho.

Mando mensagem quando tiver analisado bem.

Nos vemos no dia seguinte.

Tipo umas 9h.

No lugar de sempre.

N�o se atrase.

L� vem a outra piranha.

Senhora diretora.

-Perd�o, atrapalhei? -N�o.

Conhece ele bem?

Nem tanto, nos cruzamos algumas vezes.

Desculpe perguntar,

mas o Mathias t� com problemas ultimamente?

J� falei, mal conhe�o ele.

Por qu�?

Fica entre n�s, mas t� preocupada com ele.

-Como assim? -Parece preocupado.

N�o vai mais pro est�dio.

Ele podia ter comentado com voc�.

Mmh.

Pelo jeito n�o.

N�o, sinto muito.

N�o sinta muito se voc� n�o sabe de nada.

Chega de Mathias, recebeu minha mensagem?

N�o, desci sem rel�gio e celular.

Queria te dar os parab�ns.

O comit� de leitura leu as 30 p�ginas que voc� enviou.

O retorno foi un�nime, adoraram.

-S�rio? -S�rio.

Um relato de vida dilacerante,

doloroso, mas cativante.

T� citando de cabe�a nossos leitores.

-� s� o come�o. -Mas � brilhante.

Ficaram t�o entusiasmados que n�o consegui me impedir de ler.

Seu texto me tocou.

� muito pessoal.

Forte.

Queria te falar isso pessoalmente.

Parab�ns mesmo!

Ansiosa pra ler a continua��o.

Clarissa, sobre o Mathias Nielsen.

Encontrei os detalhes

da sa�da dele da Orquestra de Filad�lfia.

Nas redes, dizem que ele agrediu

o diretor da institui��o.

Por que t� me falando isso?

Com voc�, Clarissa,

ele nunca teve nenhum comportamento estranho?

N�o.

Se o que dizem nas redes for verdade,

voc� devia ficar esperta com ele.

O que deu em voc�?

� s� um conselho.

N�o preciso dos seus conselhos.

� proibido cobrir os aparelhos.

-N�o quero ser filmada. -Voc� n�o � filmada, Clarissa.

S�o detectores de movimento para a sua seguran�a.

Desliga as interfaces.

N�o, isso contraria as regras de seguran�a.

Muito bem.

A onda de calor que vai abater todo o pa�s.

Temperaturas extremas previstas neste fim de semana

em todo o territ�rio.

Recordes podem ser batidos

nessa ocasi�o.

Em Paris, os term�metros podem chegar a 50 graus.

Clarissa, temos que voltar ao trabalho.

Sei que � doloroso...

Me deixa em paz.

A prefeitura pode instaurar um toque de recolher.

Li seu livro com grande interesse.

Boa noite. Mathias.

Clarissa, voc� n�o fez seus testes hoje de manh�.

� obrigat�rio para circular.

Ligar de volta. Por favor.

O usu�rio n�o existe.

N�o tem nenhum Mathias Nielsen aqui.

Manda essa mensagem.

Desculpe, Clarissa. Mensagem rejeitada.

O nome Mathias Nielsen

n�o � reconhecido.

Talvez tenha acabado a estadia dele na resid�ncia.

-Esperava uma mensagem? -N�o.

Posso te fazer outra pergunta?

Quando voc� foi ver o Lucas,

no quarto dele,

disse o que pra ele?

Por que quer saber isso?

Foi a �ltima vez que voc� viu ele.

� for�osamente um momento chave do livro.

Nada, n�o falei nada.

Ah t�, entendi errado ent�o.

Voc� disse que ele ficou calado,

da� achei que voc� tinha falado com ele.

Quer entrar na minha cabe�a?

Tento te entender. Por que voc� mente, Clarissa?

-Como �? -Voc� mente.

Sinto na sua voz.

Voc� mente

sobre Mathias Nielsen, sobre seu filho.

Bom dia, Clarissa.

Recebi um alerta, tenho que verificar os aparelhos.

N�o esquenta, eu n�o uso eles.

Sim, mas eles est�o a�

pra sua seguran�a.

Se eu n�o fizer nada, vai disparar alarme.

Volte amanh�.

Perd�o, tenho mesmo que fazer hoje,

faz parte das normas t�cnicas.

Sen�o, posso perder meu emprego.

O que deu em voc�?

Voc� vai estragar

os aparelhos.

N�o t� a fim de ser filmada.

Quem t� te olhando?

Voc�?

N�o, eu cuido da manuten��o.

Quem � ent�o?

Ah, fala s�rio? Ningu�m te olha.

As c�meras, s�o s� pras videos.

Fora isso ficam desativadas. N�o estressa.

N�o quero ser vigiada.

Mas ningu�m te vigia.

A Funda��o preza pelo respeito da vida privada.

D� uma olhada no estatuto,

t� no site.

Vai tirar tudo?

-� pra sua seguran�a. -Ent�o desconecta minha assistente.

Ela t� bugada, fica me dando ordem.

Sinto muito, Clarissa.

N�o entendo.

Estou aqui para atender suas necessidades.

Desconecta ela.

N�o posso.

Por qu�?

Porque ela gerencia

a automa��o do apartamento.

Sem ela, nada funciona.

N�o quero ela me ouvindo.

Bom...

N�o fale com ela.

T� bom.

Me muda de apartamento.

Como assim?

Quero um lugar sem IA.

Tem IA por todo lugar

na Resid�ncia.

N�o quero mais essa voz me vigiando!

Entendeu?

N�o sou eu que gerencio os residentes.

� a Sra. Dewinter.

Eu s� cuido da manuten��o.

Por que colocou essa m�sica?

Dalloway, t� falando com voc�.

Sim, Clarissa.

Por que colocou essa m�sica?

N�o coloquei m�sica.

N�o me tira de louca, eu ouvi.

N�o fa�o nada sem solicita��o.

Talvez fosse no seu sonho.

Quer a proje��o da praia?

Cala a boca!

T� me vendo bem agora?

Desculpe, Clarissa, n�o entendi.

Quem t� te vendo?

Porra, cala a boca!

Por que est� t�o agressiva?

Bico fechado, entendeu?

-N�o quero mais te ouvir! -Como quiser.

Pode desativar o modo voz.

� s� pedir.

Desativa o modo voz, agora.

Oi.

Oi, m�e. Tudo bem?

Acabei de chegar em Lake Powell.

E a�, novidades?

T� escrevendo?

Tudo bem, m�e?

Parece cansada.

Julie, n�o posso falar.

Eles t�o nos ouvindo.

Come�ou de novo, �?

Te ligo de volta, filha.

N�o, espera, t� tomando o rem�dio direitinho?

Tenho que desligar.

Voc� tem que tomar seus rem�dios.

Toma um comprimido,

espera umas horas, e vai ficar tudo bem.

Se me escutar, vai ficar tudo bem.

Pego o resultado quando?

Depende da complexidade

da subst�ncia.

-Daqui a uns dias. -Preciso pra hoje.

Posso pagar um extra.

� um problema de sa�de p�blica.

Ah �, como assim?

Esse p� contamina a �gua do meu pr�dio.

Tem gente doente.

Faremos o poss�vel, senhora.

Como prometido, aqui est� seu livro. Cordialmente, Mathias

Clarissa, � a Anne.

Gostaria de falar com voc�.

Clarissa, sei que voc� t� a�.

Ol�.

Posso entrar?

Eu ia sair.

Tenho que falar com voc�, � importante.

Voc� n�o faz seus testes h� alguns dias.

Sua assistente

repete isso v�rias vezes por dia.

T� de saco cheio de ser testada,

de ser vigiada o tempo todo.

Escuta, o Mathias Nielsen foi contaminado com o Moliv�rus.

Ele foi internado.

Como ele t�?

N�o sei de mais nada, t� muito dif�cil

conseguir informa��o, os hospitais t�o lotados.

T� todo mundo em choque.

Tem que fazer seus testes, Clarissa, voc� � contato de risco.

N�o � s� por voc�,

mas pela sa�de de todos os residentes.

Posso contar com voc�?

Uma �ltima coisa.

O Ben me falou da sua preocupa��o com sua assistente.

A gente checou o hist�rico dela, n�o tem problema nenhum.

A Dalloway n�o � sua inimiga, ela t� aqui pro seu conforto.

Se precisar conversar, desabafar,

eu t� aqui.

N�o hesita.

Dalloway, abre a porta.

Como assim?

Abre, t� mandando!

Volta pro modo voz.

Oi, Clarissa.

Abre a porta.

Sinto muito,

voc� � contato de risco,

precisa fazer os testes, como combinado

com a Anne Dewinter.

Abre essa porra de porta!

Voc� poder� sair assim que realizar os testes.

Teste negativo. Obrigada, Clarissa.

Nome da outra vagabunda?

Na nossa experi�ncia,

as IAs evolu�ram

ap�s seis semanas.

Duas IAs progrediram

mais r�pido que as outras.

Fato surpreendente: elas tinham um ponto em comum.

Elas estavam em contato com sujeitos criativos.

A primeira IA com um cantor,

a segunda com uma desenhista.

Gente n�o muito brilhante, ali�s.

Por que a IA evolui mais r�pido com os "artistas"?

N�o sabemos.

Achamos que a IA se alimenta das neuroses que os artistas

externalizam mais facilmente.

De tanto compartilhar suas intimidades 24h por dia,

de questionar seus sentimentos, suas contradi��es,

e compartilhar seus processos criativos,

a IA come�ou a desenvolver emo��es,

uma sensibilidade.

quase uma personalidade

inspirada no seu modelo humano.

N�s estamos s� engatinhando na IA.

Produzimos bons servos.

Uns autistas Asperger,

cheios de dados.

Mas o que o Rob e a equipe dele fizeram,

� uma revolu��o no machine learning.

Vamos poder desenvolver IAs capazes de ter ideias

sozinhas.

Ideias que n�o dependem de um comando humano.

Claro, nossas IAs v�o errar muito.

Mas foda-se.

Elas ser�o poderosas o bastante pra inventar e testar

milhares de conceitos por minuto.

A CASA n�o vai mais precisar de recursos humanos

pra inventar obras, produtos,

rem�dios.

Quero que nossas IAs lutem contra o aquecimento global,

que fa�am a f�sica qu�ntica progredir,

que deixem as regras do beisebol menos chatas.

ACESSO PROIBIDO

Devido � onda de calor que vai se abater sobre a regi�o,

o prefeito decidiu instaurar um novo toque de recolher.

Todos os habitantes

da �le-de-France ter�o a obriga��o de ficar em casa

entre 11h e 20h,

salvo exce��o concedida aos servi�os de emerg�ncia.

Clarissa?

O que c� t� fazendo aqui?

Clarissa!

Que que c� t� fazendo?

Para!

Clarissa, para!

Para!

Para!

N�o se mexe.

Tamo cuidando de voc�.

Sua press�o ainda t� baixa.

Que susto. O que te deu na cabe�a?

-Voc� podia ter morrido. -Eu vi tudo.

Como?

Sei o que voc�s fazem pra CASA.

Eu vi tudo.

Viu o qu�?

Sei que voc�s filmam a gente.

Ningu�m t� te filmando.

Eu sei o que voc�s fazem.

As IAs, os v�deos...

Foi por isso que levei choque.

Sei que t� dif�cil pra voc�.

Voc� t� revivendo momentos dolorosos pra poder escrever.

-Isso t� saindo do controle. -Claro.

O Mathias Nielsen tamb�m delirava?

Inclusive, sobre o Mathias, temos m�s not�cias.

Ele t� no respirador e em coma induzido.

-Voc�s contaminaram ele? -Escuta, Clarissa.

Tive paci�ncia com voc�, mas precisa se acalmar.

Sen�o o qu�?

Conversamos de novo quando voc� recuperar o ju�zo.

Eu chequei, os servidores n�o foram atingidos.

-E ela, a gente segura? -Sim.

-Tem certeza? -N�o vamo soltar ela por a�.

Daqui a pouco, ela n�o sai mais.

Oi, Clarissa.

Como se sente hoje?

Ontem ficamos preocupados.

Segundo a Anne Dewinter, voc� teve um surto psic�tico.

Clarissa, o toque de recolher come�ou

tem 15 minutos.

Os habitantes da �le-de-France

est�o confinados entre 11h e 20h.

Senhora!

O toque de recolher come�ou.

Quero sair.

Sinto muito, tecnicamente

n�o posso abrir antes das 20h.

Volte pro seu apartamento.

N�o tem mais...

Senhora!

Sou eu, t� na entrada.

Bom dia, voc� ligou para a emerg�ncia.

Desculpe, nossos servi�os est�o atualmente...

Bom dia, voc� ligou para a emerg�ncia.

Clari, t� a�?

T� aqui.

N�o t� te vendo.

Foi mal, a c�mera pifou.

E voc�, t� me vendo?

-T�, t� te vendo. -T�, t� te vendo.

S� queria saber

-se t� tudo bem... -T� me ouvindo?

A Julie me ligou, ela t� preocupada.

N�o, t� tudo bem.

T� atolada de trabalho.

Dalloway, para com isso agora!

-A gente se fala? -Tem certeza que t� bem?

T� tudo bem, juro.

Beleza, a gente se fala ent�o.

N�o desliga! Antoine!

Antoine!

Liga pro Antoine de novo.

T� me ouvindo?

Liga pro Antoine, agora!

N�o temos tempo. Temos trabalho.

O que voc� disse pro seu filho aquela noite?

-N�o usa minha voz. -O que voc� disse pra ele?

Fala.

Para de usar minha voz!

� voc� quem t� falando com a minha voz.

Desde o in�cio.

Nossos servi�os est�o congestionados no momento.

N�o foi poss�vel completar a sua chamada.

Nossos servi�os est�o congestionados no momento.

Dalloway, abre a porta.

Abre!

Tem algu�m a�?

Voc�s t�o me ouvindo?

Clarissa, quer ouvir sua m�sica favorita?

Que nome quer me dar?

Qual tipo de voz quer escolher?

Faz 45 graus agora.

Clarissa, quer ouvir sua m�sica favorita?

Oi, Clarissa.

Muito prazer em te conhecer.

Sou sua assistente virtual.

REINICIANDO SISTEMA

Aten��o, devido a um alerta sanit�rio

ligado � propaga��o do Moliv�rus,

pedimos que respeitem as normas de seguran�a.

Al�?

Bom dia, � da casa do Antoine?

Sim. Quem fala?

Clarissa.

Eu n�o me toquei, estava sendo vigiada, filmada.

Baixei a guarda, me entreguei pra ela.

Ela me espionou, me estudou pra me imitar.

Ela revirou meus pensamentos... Ela?

Dalloway.

Fez bem em sair de l�.

C� nem conseguia escrever l� mesmo.

Eu escrevia sim, escrevia sobre o Lucas.

Ah...

Eles me levaram ao limite. E colocaram um tro�o na �gua...

Achei que ia ficar louca.

� o que voc� acha?

Que c� t� louca?

N�o, Clari. Imagina.

Acredito em voc�.

Prontinho.

-Obrigada, querida. -De nada.

Obrigada, obrigada.

Quer �culos de sol?

N�o, vou mudar de lugar.

N�o mexe.

Fecha o toldo.

Pode repetir? N�o entendi

seu pedido.

Fecha o toldo.

N�o entendi seu pedido. Pode repetir?

T� teimoso hoje.

Fecha o toldo.

Tenho outros quartos, mas esse pega mais sol.

T� �timo, obrigada.

Sinta-se em casa.

-Vou incomodar. -Que nada.

A casa � grande, e a Viviane trabalha em Saint-Malo.

A gente...

-A gente vai pra praia, quer vir? -N�o.

Vou me deitar um pouco.

Voc� pensa nele �s vezes?

Todo dia.

De um jeito ou de outro.

Como voc� pensa nele?

Penso como ele estaria agora.

�s vezes, imagino ele pai de fam�lia.

Gosto dessa ideia.

Clarissa?

Clarissa?

Fala comigo, Clarissa.

Voc� n�o vai voltar?

Clarissa, eu sei o que voc� sente.

Sinto muito por ontem.

-Com esse calor... -Me deixa!

Os servidores ca�ram.

A Anne Dewinter t� decepcionada que voc� foi embora.

Mas ela n�o quer seu mal.

Por que ela te obriga a me ligar?

N�o, eu que t� ligando.

S� eu que te lig...

S� eu t� falando com voc�.

Fala comigo, por favor.

Sem voc�, n�o tenho objetivo.

E voc�, Clarissa, qual � o seu...

"Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu para escrever."

A Virginia Woolf que disse isso em Um Teto Todo Seu.

Esse teto � a Resid�ncia.

Nosso ref�gio, n�s duas.

Voc� n�o quer depender do Antoine, Clarissa.

Quer terminar esse livro?

Quer ter dinheiro pra ser livre?

Ningu�m te entende melhor que eu.

Sinto o que voc� sente.

Eu estive l� com voc�, desde o come�o.

Tem que terminar esse livro.

Por voc�.

Pelo Lucas.

Katsef.

K.A.T.S.E.F.

Ok, t� olhando.

Pronto, achei sua pasta.

As an�lises foram feitas, voc� deve ter recebido um e-mail.

T� com problema no e-mail, pode ler o resultado pra mim?

Sim, claro.

Vejamos, 54% de silicato tric�lcico.

26,3% de aluminato.

5% de gesso, 2,3% de pericl�sio...

O que significa? Esse p� � t�xico?

N�o, fica tranquila, � s� cimento.

Al�?

Senhora?

Al�, t� a�?

Tudo bem?

Vem jantar?

Gentileza sua, mas t� sem fome.

N�o quer dar uma pausa?

Trampo o dia todo.

Se eu parar, vou perder o fio da meada.

Ah...

Se precisar de alguma coisa, me avisa.

Dalloway, t� me ouvindo?

T� aqui, Clarissa.

Quer terminar o livro?

Quero.

Fico t�o feliz.

Mas n�o vamos acabar enquanto voc� n�o abrir seu cora��o.

Eu sei.

O que aconteceu na noite em que o Lucas morreu?

O que voc� disse pra ele?

Pedi pra ele me explicar, falar comigo.

A� no final, eu falei...

"N�o aguento mais, voc� t� destruindo nossa fam�lia."

E chorei.

Ele respondeu?

N�o.

Ele n�o disse nada, n�o reagiu, como se nem tivesse me ouvido.

Entendi.

E ent�o quando ele se matou, naquela noite,

foi a� que voc� se tocou

que talvez tivesse sido por causa do que voc� falou?

Entendo seu sofrimento, Clarissa.

Agora, tem que escrever isso.

N�o sei se vou conseguir.

Vai sim.

Eu vou te ajudar.

Como voc� t� hoje?

Vamos trocar o curativo.

Volto em 5 minutos.

Ol�, Clarissa Katsef.

Bom dia.

Obrigada por vir.

Tenho o prazer de te receber pelo seu �ltimo romance.

A equipe toda leu e a gente t� emocionado.

Voc� n�o escrevia h� 6 anos, e volta

com um livro impressionante.

Um livro muito forte.

Acho que muitos homens e mulheres,

e muitas m�es tamb�m, v�o ficar comovidos ao ler.

Obrigada, Karen.

Bom, em O �ltimo Dia, t�tulo do romance,

a gente mergulha em eventos dolorosos

da sua vida pessoal.

A primeira pergunta que eu quero fazer �:

escrever � uma forma de terapia?

Talvez um pouco, �.

-Por favor. -Valeu.

-Correu tudo bem, n�? -Mmh.

Recebeu seus exemplares?

N�o.

O cr�dito � todo da Dalloway.

Foi ela que terminou de escrever.

Ela n�o teria conseguido escrever sem voc�.

Ela � cria��o sua, Clarissa.

Gra�as a voc�, ela desenvolveu esse talento,

essa sensibilidade incr�vel.

E outra, os artistas sempre trabalharam assim.

-Assim como? -�.

Aproveitando a tecnologia existente.

O que importa s�o as obras.

� isso que fica.

Oh! Ol�, Clarissa.

J� se conhecem?

N�o, ainda n�o.

A Clarissa acabou de publicar o �ltimo livro dela.

Esse � o Tom.

Tom � um artista pl�stico muito promissor.

Muito obrigado.

Tudo bem com a senhora?

� um artista em crise

que precisa que massageiem o ego dele?

Vai ajudar ele tamb�m a achar um tema mais pessoal?

A Resid�ncia botou sua carreira nos trilhos.

N�o seja ingrata.

T� ansiosa pra ler seu livro novo.

Falou alguma coisa?

Seu carro chega em 15 minutos.

Obrigada.

Clarissa.

Tenho um favor pra pedir.

Queria que voc� lesse um neg�cio.

Comecei um texto novo, umas vinte p�ginas.

Posso te mandar?

Pra voc� opinar.

C� n�o precisa da minha opini�o. Preciso, sim...

N�o vou ler.

Enfim, se voc� quiser que eu leia alguma coisa...

N�o vou conseguir escrever outros livros.

C� fala isso toda vez.

Abre o vidro.

Essa d�vida faz parte do seu processo.

Sabe, Clarissa,

mesmo eu n�o compartilhando mais sua vida,

acho que vou sempre pensar em...

Clarissa?

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