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NADA ACONTECEU AQUI
Sua filha se mudou pra Espanha, não foi?
Sim, ela foi há três semanas. Estamos nos virando.
- Coitadinha. Ela tem 22, 23...? - Vinte.
Ela já tem emprego em Madri ou vai procurar?
Ela não tem emprego, mas conhece algumas pessoas.
Lola tem muitos amigos lá. Vão arranjar um emprego para ela. Veremos.
Ela vai acabar se adaptando. Mas será difícil, para a Lola e para nós.
É claro. Com certeza.
Normalizamos que nossos filhos se mudem ao exterior, que fujam. É foda.
Vemos famílias se despedindo no aeroporto.
Vim de Paris semana passada. Eu vi.
É muito triste.
- Que retrocesso. - E eles dificultam a papelada.
Mesmo se for emprego de garçom ou de babá.
Que pena.
Os espanhóis esquecem
que acolhemos três milhões de espanhóis que fugiam da guerra e da fome.
- Italianos também. - Eles ainda mais.
Eram quatro milhões e os acolhemos de braços abertos.
Agora é o contrário. As crianças não veem futuro aqui.
Mas não é tão fácil no exterior. Tem suas complicações.
Em países que funcionam, algumas vantagens estão fora de discussão.
Acho que não há solução.
Coletivamente, não. Aí tem razão.
Mas individualmente, os argentinos superam qualquer um.
Pode parecer clichê, mas é verdade.
Argentinos sempre se destacam individualmente.
Argentinos são criativos.
Conseguem resolver qualquer coisa com o que tiverem em mãos.
Dão valor à família.
Nos importamos uns com os outros. Temos valores.
Não entendo por que não podemos ter sucesso como país.
Ah, bom...
A festa começou!
Vou lá fora fumar.
Socorro!
Chame uma ambulância.
- Meu Deus! O que aconteceu? - Não se mexa! Não se mexa, cara!
Fique parado. Chame uma ambulância!
Socorro, por favor!
NOITE DE SORTE
Barrientos.
- Como vai? - E aí, cara?
- Tudo bem? - Bela noite, né?
- Certo. - Bom descanso. Até amanhã.
Obrigado. Até amanhã.
Seu desgraçado! Seu babaca! Você é um vagabundo!
Você é um vagabundo!
Você é um merda!
É sempre a mesma merda!
A mesma merda!
Vagabundo!
- Está tudo bem, moça? - Eu? Estou ótima. E você?
Precisa de algo?
Posso ajudar?
Abra a porta.
Fale para onde vamos.
Para onde você for.
Tô congelando. Pode ligar o aquecedor?
Não funciona.
Pode vestir meu casaco.
Eu quero morrer!
Posso levá-la a algum lugar? De volta pra casa?
Quem dera aquela fosse minha casa! Não moro lá.
Como alguém pode ser tão falso? Um filho da puta desses?
Vá se foder, idiota! Você não vai me ver de novo!
Estou com fome.
Leve-me para comer algo.
Mas não tenho dinheiro.
Oi, Adela. Desculpe. Preciso que fique com a mamãe essa noite.
Surgiu um imprevisto.
Pediram para eu fazer hora extra. Devo voltar muito tarde.
Não se preocupe. Darei um bônus pelas horas extras.
Estava morrendo de fome.
Onde estamos?
Saímos da capital?
Não, aqui é Liniers.
Fale sobre você.
Onde trabalha?
Perto de onde te peguei.
- Sério? - Sim, Madero 1700.
Mesmo quarteirão de casa.
Desculpe, a casa do... cara mau.
Trabalho no posto de segurança. A meio quarteirão de lá.
Você trabalha para viver.
Isso é coisa de homem.
Você deve ser dez vezes mais homem que aquele cara.
Não sei.
Aquele babaca sustenta a ex-mulher. Paga seios novos e bunda nova pra ela.
Nunca o vi trabalhar.
De onde vem o dinheiro?
Não sou idiota. Tem que vir de algum lugar.
Não faço ideia.
- Ninguém sabe. - É.
Se você me perguntar: Ele tem uma vida boa?
Ele é feliz?
- Não sei. - Sabe-se lá.
Pueyrredón e Las Heras é perto daqui?
Não, é perto de onde saímos.
Quer que eu te leve lá?
Você é fofo.
Vamos. Não seja tímido.
É que...
Oi, amiga! Como vai?
- E aí? Olá. - Olá.
Ele é...
o Panter, um amigo meu.
- Muito prazer. - Muito prazer.
Exótico.
- Entrem, por favor. - Com licença.
Sim, claro.
Você não bebe muito, né?
Não. Quando bebo em excesso, tenho dor de cabeça.
Onde vocês se conheceram?
- Bom... - A vida nos uniu.
Isso.
- Nossa! - Pois é.
Sabe quando você olha nos olhos de alguém
pela primeira vez
e tudo faz sentido?
Uma coisa assim, né?
Pode ser.
"Pode ser", não.
- Foi assim. - Foi assim mesmo.
Sim.
O formato do rosto dele não é lindo? Olhe para ele.
- Sim, muito viril. - É?
Sim, ele tem algo... bem másculo.
Acho que o bigode dele o deixa muito macho.
- Estou ficando com ciúmes. - Não.
Qual é a relação de vocês, então?
São amigos? Namorados? Um casal?
- Não sei... - Somos seres conectados.
Isso aí.
Você está transando com ele, esquisitona
Não fique com ciúmes.
Tem para todo mundo.
Aqui.
- Aí? - Vamos lá.
Venha. Vamos para o quarto.
Muito bem.
Entre.
Panter!
Panter?
- Panter! - Panter!
- Panter! - Não...
Venha. Vamos ver se é machão mesmo.
- Panter! - Estou aqui.
- Venha aqui, Panter. - Vamos.
Aqui está seu casaco. Obrigada.
Acho que peguei um resfriado ontem.
Espero não ter passado nada pra você.
Pode passar o que quiser.
Tchau, gato.
- E aí, Barrientos? - Como vai?
Tudo bem.
- Nenhuma novidade por aqui. - Está bem.
- Até amanhã, se Deus quiser. - Até.
FELIPE KELLER O PODEROSO EMPRESÁRIO SE ABRE
O MAGNATA E SUA FAMÍLIA CELEBRAM SEU GRANDE MOMENTO
ELES DIZEM: "NOSSO SUCESSO É BASEADO EM RESPEITO E AMOR"
54º ANDAR
Sinceramente, não tenho tanta certeza.
Não quero que isso se arraste.
Não concorda?
Coordene com a Milena.
Ela é quem conhece o pessoal no Ministério.
Tenho que ir. Cheguei ao restaurante.
Vou jantar com o pessoal do laboratório canadense.
Conversaremos semana que vem, se estiver tudo bem para você.
Ok. Se cuida.
- Pode passar. - Obrigada.
Vai subir?
Sim.
Também vai para o 54º, para o restaurante?
Sim.
O senhor é Felipe Keller, não é?
Isso mesmo.
Eu o reconheci da revista.
Certo.
Tem uma linda família.
Muito obrigado.
Escute aqui.
Quero 50 mil dólares ou saio gritando que você tentou me estuprar.
- Ah! Você é completamente louca. - Espere.
Calma, Keller.
Pense que é um negócio, com seus custos e benefícios.
Posso chamar a polícia agora, e isso acaba na hora.
- Tem certeza? - Sim.
- É mesmo? - Sim.
O que vão dizer quando eu sair assim e gritando?
"Socorro, por favor. Ele tentou me estuprar!"
Você está cometendo um erro grave.
Amanhã, suas ações...
Manchetes: "Felipe Keller acusado de agressão sexual."
Será o escândalo do ano.
- Está se metendo em sérios problemas. - Talvez.
É, mas será tarde demais para você. Vai perder tudo, até sua família.
Vi sua esposa e filhos na revista.
Eles são lindos.
Vocês me dão nojo.
Você já perdeu. Caia na real.
Meu alias bancário é anita.91.
Vai transferir o dinheiro agora.
Não posso fazer essa transferência.
É um valor alto. Há validações...
Sei que você pode. Não me faça de boba.
Você é louca.
Tudo bem.
Vamos subir, e enfrente as consequências.
Esses milionários de merda.
São 50 mil dólares, ou sua vida vai para o inferno.
Você tem até o 54º andar, Keller.
48º...
49º...
50º...
Pare-o.
Adoro fazer negócios com gente como você.
É anita.91.
BENEFICIÁRIO DA TRANSFERÊNCIA ANITA.91
TRANSFERIR
Pronto.
Vou clicar em "Ok", e você terá seus 50 mil dólares.
Ah, quer saber? O preço acabou de subir.
Agora são 100 mil.
Cem mil, pão-duro. É uma mixaria pra você.
Acabou. Não vou aceitar isso.
Faça o que quiser, não ligo.
Ok. Perfeito.
Em alguns segundos, a vida que você conhece irá acabar.
Socorro, por favor.
Esse filho da puta tentou me estuprar. Socorro!
- Não. - Façam algo!
- É mentira, por favor. Por que...? - Filho da puta nojento!
- Como pode dizer...? - Estuprador, doente de merda!
- Ela está mentindo. - O que fez?
Vai subir?
Não.
Vou pela escada para perder peso.
Câmbio. Dólar.
Euro. Real. Câmbio.
BEM-VINDOS A BUENOS AIRES
Câmbio. Câmbio. Câmbio.
Câmbio. Ei!
O melhor câmbio do mundo.
O melhor. Não?
Ok.
Câmbio.
Câmbio. Dólar. Real.
Câmbio.
Dólar. Real.
Ei! Brasileiros?
- Sim. - Isso aí!
Ofereço o melhor câmbio da cidade.
Da cidade.
- É comigo. Ok. Querem trocar? - Sim.
Vamos lá.
De onde vocês são?
Cidade importante. Muito dinheiro.
Cidade poderosa. Prédios altos.
Não, não conheço.
Perfeito. Tudo pronto, Guillermo.
Dólares?
Perfeito.
Notas pequenas para compras.
Compras pequenas.
Notas grandes.
Perfeito.
Perfeito.
Gostaria de lhes dar um presente.
Curtem dançar tango?
Há uma casa de tango extraordinária. A melhor do mundo.
Desconto de 15 por cento. Fica em San Telmo.
É um prazer.
Tenho outro presente. Não é para você. É para a Marisa.
Aqui está. Olhe para isso.
O papa argentino.
Disponha. O prazer é meu.
Posso perguntar algo, Marisa e Guillermo?
Pelé, Maradona ou Messi?
Você escolhe o Messi, Guillermo. Marisa?
Para mim é o Pelé. Pelé é o melhor jogador do mundo.
Maradona é um ótimo jogador,
mas usar a mão para fazer gol é trapaça.
Como argentino, não posso aceitar isso.
E o Messi é um ótimo jogador também. Ele é brilhante.
Mas é mais espanhol do que argentino.
Pelé é tudo para mim.
Que visual. Ele cabeceava. Usava as duas pernas.
Ele era excelente. E tinha um comportamento impecável.
Marisa, gosta de jaquetas de couro?
Então agora, não. Outro dia.
Vou acompanhá-los até a saída.
Alô? Casal brasileiro.
Ele de jaqueta azul. Ela de jaqueta verde.
Colocaram os pesos na mochila, na bolsa e nas jaquetas.
Ele também tem dólares no bolso direito da calça.
Ah! Tchau! Só um instantinho.
Aproveitem e bem-vindos a Buenos Aires!
Alô? É isso. Peguem leve.
Obrigado.
O ETERNO MENINO
- O que está fazendo? - Vou tomar água.
Te acordamos, pai?
Não, eu queria água, filho.
Puta que pariu!
Como...? Mas o que...?
Dá para acreditar? É uma casa de família.
Ele não dá a mínima para nada.
Moleque nojento do caralho.
Nancy, não imagina o que acabou de acontecer. Merda.
- O que foi? - Eu o peguei transando.
Na sala. Você nem imagina. Meu Deus!
Não ria.
Quero morrer, puta que pariu!
Apague a luz.
Mas...
Ele vai meter de novo.
Que desgraça. Ele tem 40 anos.
Ele tem 39, Oscar.
É a mesma coisa, Nancy. Não encha o saco.
Não é isso. Concordo com você.
Mas, de alguma forma, a culpa é nossa. Nós o mimamos a vida toda.
Bom, já chega. Está bem.
Ele não pode ficar nesta casa.
Toda vez que sugerimos, ele se fez de bobo.
Bom, ele continua lá.
Amanhã resolvo isso. Já chega.
Gozou.
Aí vem ele.
Não seja duro com ele.
- Bom dia! - Ei. E aí?
- Tudo bem? - Olá.
Ela já foi embora?
Ela saiu cedinho.
Ontem à noite foi um pouco demais.
Desculpem. Foi culpa minha. Tudo começou...
com umas apalpadas furiosas e...
Não precisamos de detalhes, mas foi demais.
Aconteceu alguma coisa?
Não, mas vai acontecer. Vai ser bom, né?
- Sim. - Vai ser bom para todos.
Sim, com certeza.
Seu pai tem algo a dizer.
Seu pai e sua mãe.
- Seu pai e sua mãe, sim. - Isso.
Sim.
Escute, Ariel. Não vou enrolar.
Achamos que deveria ir morar sozinho.
- Por quê? - Bom, porque você tem quase 40, filho.
Você morou conosco a vida toda.
Acho que será muito bom para você experimentar morar sozinho.
É legal.
Sei que não é tão normal.
- Não é. - E o que é normal, então?
Sair de casa aos 20, 30, 40?
São só convenções. Estou ótimo aqui.
Você também tem que pensar nos seus pais.
Também queremos viver nossa própria vida.
Eu sou um incômodo?
- Não. - Não! De jeito nenhum.
- Onde eu seria mais bem cuidado? - Não é sobre você ser cuidado.
Não é sobre isso.
É sobre você viver a experiência de estar sozinho em algum lugar, uma casa.
Ter sua privacidade.
Não tenho condições de morar sozinho. Vocês sabem disso.
Isso não é problema. Nós sempre vamos te ajudar.
Bom, nem sempre. No começo.
Conte com o dinheiro.
Pense nisso, Ariel. É...
O que estamos te oferecendo é uma experiência incrível.
Você não terá dois velhos te vigiando o tempo todo.
Vendo tudo que você faz, se mijou fora do vaso.
Ou deixou suas roupas espalhadas.
Vai poder fazer o que quiser. Independência absoluta.
Liberdade.
Ok.
Vamos tentar.
Amor da minha vida.
- Mas quero que saibam que estou bem aqui. - Claro que sabemos.
Tchau, filho.
Tchau, querido. Tchau.
Se cuida.
Se cuida.
Segure isso, cara.
Pronto.
Tchau, pai.
Tchau, meu filho.
Tchau.
UM MÊS DEPOIS
O que está fazendo acordado?
Sinto falta do gordinho.
Paspalho.
NOTÍCIA URGENTE
NOTÍCIA URGENTE
Moradores estão reunidos aqui.
UM HOMEM DETERMINADO
Eles exigem mais segurança. Vamos falar com um deles.
Um idoso foi assaltado hoje?
Um vizinho de longa data. Coitado do Sr. Rocco.
Não só o assaltaram, mas também o machucaram.
O rosto dele parece um pimentão.
Até quando vamos aguentar isso?
Quatro botijões de gás foram roubados da paróquia.
Ninguém fala nada. É terrível, senhor.
É uma área descontrolada. Nós...
Filhos da puta. Olhem para eles.
ONDA DE INSEGURANÇA IDOSO ASSALTADO E ESPANCADO
Olhem para eles.
Eles só passam agora porque tem uma câmera.
O bandido devia saber.
Se você entra na minha casa, sabe o que eu faço?
- Eu te mato. - Velho fascista!
Que "velho fascista"? Vá se foder!
- Calma. - Volte aqui!
- Acalme-se. - Velho fascista?
Meu Deus, senhor! Não aguentamos mais.
Por isso sugiro que os vizinhos se unam e acabem com o crime.
Digo isso aos bandidos:
entre na minha casa, bandido. Estarei te esperando.
Você entra na minha casa. Bang, bang, bang!
Eu te mato. Tchau, bandido!
- Acabou. Estou certo? - Ele está certo!
- Segurança! - Segurança!
- Segurança! - Segurança!
São os moradores de Villa Ballester, no distrito de San Martín.
Eles reclamam da insegurança.
- Segurança! - Segurança!
Entraram na casa dos Carranzas.
A paz só durou uma semana. Roubaram de novo.
- Sério? - Merda!
O dono da loja de ferragens disse que esvaziaram o lugar, Gladys.
Também comeram toda a comida, beberam sei lá quantos vinhos.
Um deles cagou na mesa.
Pare! Estamos comendo.
Não é culpa minha.
Lembre-se: Se eu não estiver em casa, e eles entrarem,
a grana está no pato de madeira.
Entregue a eles para irem embora logo.
Já chega. Eu sei disso, Aníbal.
Não podemos falar de outra coisa?
Sim, claro. Com certeza.
Mas já sabe. Se aparecerem quando eu estiver aqui...
Bang! Bang! Bang!
Olhe aí. Vamos.
Olhe ali.
Nada aqui.
- Procure ali, cara. - Não tem nada.
Venha comigo.
- Acorde! - Onde está a grana?! Acorde!
No pato. No pato de madeira.
- Que pato? É só falar que fica tudo bem. - Vamos.
Lá, aquele enfeite.
Esse pato!
Aqui está o pato. Cadê a grana?
- Cadê a grana? - Dentro do pato!
Prenda-a no banheiro!
- Não me prendam. - Entre aí, velha desgraçada!
- Vamos. Me dê o anel! - Sim.
- Caladinha, ouviu? - Sim.
- Vai ficar calada? - Sim.
Tranque a porta! Vamos!
Ande! Pegue a televisão.
Aníbal!
O que está fazendo? Cadê você?
Aníbal!
Filhos da puta! Aqui vocês não voltam!
Ladrões de merda!
Sou eu, Gladys. Calma. Sou eu.
Eles te machucaram?
- Dei a eles o dinheiro do pato. - Fez bem.
Mesmo assim, meti bala neles.
Bandidos de merda. Não vão voltar.
Vão pensar duas vezes antes de invadir uma casa de novo.
Estavam morrendo de medo.
Você nem imagina.
Você me conhece, Gladys. Eu não penso duas vezes.
Olhei para eles. Bang! Atirei na perna de um.
Atirei no ombro do outro.
Estavam tremendo de medo.
Eles saíram correndo.
Bang! Bang! Bang!
Tchauzinho, bandidos.
Tchauzinho, bandidos.
Argentina! Argentina!
Este pênalti é o sonho de todo jovem jogador,
de toda criança que começou a jogar em terrenos baldios, na rua.
A FESTA DE TODOS
Lá vai o nosso Gonzalo.
Ele é nosso gladiador.
Com passo firme e seguro.
Ele faz sua longa e solitária caminhada ao momento decisivo.
Hoje se tornará um herói, garoto.
Por favor, eu imploro.
Se ele marcar,
depois de 36 anos,
a Argentina será campeã do mundo.
Lá vai ele. É o nosso Quixote.
Maradona está te guiando dos Céus, garoto.
Na sua chuteira direita, você carrega a alma e o coração
de 45 milhões de argentinos.
Vamos lá, garoto!
Vamos lá! Ele ajeita a bola.
Messi faz o sinal da cruz.
Ele olha para os céus.
Lloris o encara.
Montiel coloca a bola na marca do pênalti.
Vai! Ele pega distância.
Ele respira fundo. Vamos, Gonzalo.
Por favor, eu imploro.
Gol!
Gol!
Gol!
Argentina é campeã do mundo!
Argentina é cam...
Argentina é campe...
Argentina! Argentina!
O CARRO DOS MEUS SONHOS
Pronto para seu novo carro?
O volante é revestido em couro.
As borboletas de câmbio ficam atrás.
Permitem alternar do automático para o manual.
A tela multimídia está aí. É sensível ao toque.
Tem controle de voz integrado.
A informação do computador de bordo
aparecerá no display holográfico do para-brisa.
Por exemplo, pressão dos pneus e nível de combustível.
O GPS central,
claro que pode ver na tela.
Pode ativar a sincronização com seu celular.
Ou usar o software do veículo, que é bom.
O senhor me ouviu?
Sim, querido.
Representa...
muito esforço individual,
muito trabalho duro
e muito sacrifício.
- Parabéns. - Obrigado.
É um carro maravilhoso.
Chegou a hora.
Sim.
"Ligar."
Qual é a mensagem?
Meu amor, estou a cinco quarteirões.
Pode descer, vou te mostrar a máquina.
Mensagem sendo enviada a Mónica.
Ah, puta que pariu!
Puta que pariu, seu filho da puta do caralho!
- Acabou com meu carro, puta que pariu! - Desculpe.
- Seu idiota! - Desculpe, os freios falharam.
Seu babaca, é pintura de fábrica. Não dá pra recuperar.
Desculpe.
Nem em 20 vidas, compraria um carro desse, seu rato miserável.
Olhe essa lata-velha!
Passe os dados do seu seguro. Puta que pariu.
Não tenho seguro.
Como assim, seu merda? Não tem seguro?
Desculpe...
Você não é o Herrera?
Sou Sergio Herrera. Por quê?
Não acredito.
Ernesto?
Ernesto Antonuzi. Claro!
Não acredito, cara!
Como vai?
Não posso acreditar.
Filho da puta, essa barba... Não mudou nada.
Do que está falando? Já se passaram 50 anos, Sergio.
- Andem logo! - Calma!
Pare de buzinar!
Andem logo, puta o que pariu!
Vá você pra puta que o pariu!
- Puta merda! - Está com pressa? Ele bateu no meu carro.
E você continua. Espere aí!
Sempre me lembro quando fomos pegos com os braços cheios de cola.
- Lembra? - Claro. Éramos selvagens.
Escute. Estávamos juntos no primeiro ano. Depois você mudou de escola.
Fui estudar em Avellaneda. Acho que foi a última vez que nos vimos.
- Você ainda desenha? - Não.
Desentupimento e encanamento.
- Ah, trabalha com isso agora? - Sim.
Usa o carro para trabalhar?
Usava. Olhe só agora.
Não se preocupe. Falo que freei de repente
e você bateu sem querer.
A culpa seria minha. Meu seguro paga para você. Resolvido.
- Dá para fazer isso? - Será feito.
- Muito obrigado, Sergio. - Nem fale nada, Ernesto.
Que maravilha.
Fale sobre você.
Sei lá. Eu me casei.
Com uma colega da faculdade, Mónica.
Estava indo para casa agora.
- E você? - Não tive filhos.
É uma longa história. Um dia eu te conto.
UMA EXPERIÊNCIA ENRIQUECEDORA
Deixe que eu estaciono.
Muito obrigado.
Com licença. Pode me dar um trocado para comer?
Ei, garoto!
Com licença, moço. Me dá um trocado para comer?
Já falei mil vezes, não pode fazer isso aqui.
Tudo bem, Beto.
Pode ir.
Qual o seu nome?
Axel.
Está com fome, Axel?
Sente-se.
Relaxe, pode se sentar. Tudo bem.
Falando sério.
Beto! Traga um cardápio.
Obrigado.
Escolha o que quiser.
O que quiser?
Como é o seu dia normalmente?
Você acorda e sai para pedir esmola?
Quando a minha mãe arruma algum bico, levo meu irmão ao sopão.
Às vezes, a ajudo a catar papelão.
Se não, pego o trem e venho pedir dinheiro no centro.
Esse país de merda, puta que pariu!
Vou desligar isto, senão vão encher o saco o dia todo.
O que você faz?
O que eu faço? Negócios.
Compramos empresas falidas, as recuperamos,
e as vendemos por um preço maior.
Também estou envolvido no mundo das criptomoedas.
Trabalho com um sócio, o Lucas.
Ele é meu amigo e irmão da vida toda.
Tem filhos?
Dois. Um tem a sua idade.
Você fica na rua o dia todo.
E ele mal pisa na calçada. Meu Deus!
Vida de mauricinho.
Diga-me, Axel.
Qual é o seu sonho?
Bom...
Um tênis.
Esse é o seu sonho?
Sim, um tênis.
Belo tênis!
Pegue. Vamos!
Pegue um par para os seus irmãos também.
Quer um celular?
Sério?
Deixe comigo.
Boa tarde. Bem-vindos.
Como posso ajudar?
Um celular para ele. Um bom, último modelo.
Quer mais alguma coisa?
Que celular foda!
Sim, é incrível. Não precisava me dar carona.
Não! Está cheio de sacolas. Não é problema para mim.
Estou curioso com uma coisa.
Você usa alguma droga?
- Maconha. - Maconha?
Só se der vontade.
Mas dá fome, então... Sei lá.
- Só isso. - Muito bem.
E o senhor?
Eu fumo um baseado às vezes.
À noite, com uma taça de vinho, e minha esposa, olhando para o lago.
Gosto. Me deixa alto. É bom.
Deve pensar que sou milionário, né?
Tenho esse carrão. Compro o que quero.
Não faz ideia da sorte que tem, garoto.
Por quê?
Quando se tem dinheiro de mais,
ele se volta contra você.
Você quer mais.
Você se torna um escravo disso.
Já você, pode fazer o que quiser o dia todo.
É maravilhoso.
Se tivesse que escolher, escolheria o dinheiro.
Tenho que ser sincero sobre isso.
Mas o que você tem é legal também.
- Me deixe naquela esquina. - Não, eu te levo.
Não deveria entrar no bairro com este carro.
Ah, ok, ok.
Bom, Axel. Foi um prazer te conhecer.
Passe a chave e saia do carro.
Passe as chaves e saia, seu otário!
Estou brincando.
Comprou tantas coisas pra mim.
Eu não roubaria de você.
Tchau.
Oi, Lucas, parceiro.
Desculpe. Sumi a tarde toda.
Desliguei o celular. Acabei de ver suas mensagens.
Tive uma experiência extraordinária, cara.
Com um garoto de rua que estava pedindo dinheiro.
Sabe o que eu fiz, cara? Paguei um almoço pra ele.
Juro! Foi incrível.
Conversamos.
Fomos às compras.
Em certa hora, disse a ele: "Compre o que quiser."
Devia ter visto a cara dele!
Eu pirei com a experiência. Fiquei maravilhado. Sério.
E sabe quanto me custou?
Pensando em dólares...
Foi menos de quatro mil, cara. Juro!
É isso. Estou tão feliz!
Só queria te contar. Tchau, tchau.
Lucas, esqueci. Você falou com o gordo idiota da financeira?
Qual é o problema dele? Ele quer cinco e meio?
O que ele tem na cabeça? Ele está louco.
Mande passear. E ele disse isso sem perguntar?
Ele que se foda. Fui claro?
Um abraço. Tinha me esquecido.
Filhos da puta.
Nos termos do artigo 75, da Lei de Comunicação Audiovisual 26.522,
REDE NACIONAL
a partir deste momento,
a Rádio Nacional e a TV Pública transmitem,
juntamente com todas as emissoras da rede nacional de rádio e TV,
a primeira mensagem ao povo argentino do presidente recém-eleito.
O Presidente da Nação fala ao país.
Senhor José Luis Estrada.
Boa noite.
Me tirem daqui.
Puta que pariu!
Vão se foder, seus merdas.
O Presidente da Nação falou ao país.
Senhor José Luis Estrada.
A partir deste momento,
as emissoras de rádio e TV do país retomam sua programação normal.
Muito obrigado.
A NAMORADA DO PAPAI
Vamos ver!
Uau! Bem mal passado, hein?
Bom trabalho!
Bom, meus filhos.
Eu os chamei aqui porque preciso contar algo a vocês.
Está doente, pai?
- Ah, não, querida. - Que bom.
Estou melhor do que nunca, meu bem.
Pelo contrário. Gostaria de contar uma coisa boa.
Então...
Pode falar, pai.
Quanta tensão. Fale, pai.
Bom.
Como vocês sabem, há dois meses fez um ano que a mãe de vocês faleceu.
Quero que saibam que ela sempre será o amor da minha vida.
E ela me deu a coisa mais importante: Vocês.
Arrumou uma namorada, pai?
Sim, querida.
Preciso de água.
Bem, quem é ela? Se quiser nos contar.
A gente conhece?
Sim, Mati.
Quem é?
A Eliana.
Não...
- O quê? - Não.
- Sim. - Pai!
A Eli?
Pai!
- Eliana, venha, por favor. - Espere, pai! Não.
Bom...
Agora, sim.
Queria que conhecessem minha namorada formalmente.
Parabéns ao casal.
Parabéns!
Claro. Parabéns.
- Obrigada. - Isso pede champanhe.
- Eu busco. - Não, não.
Eu pego.
- Eli. - Eli.
- Onde você mora? - Moreno.
Na província.
Antônio quer que passe mais dias aqui agora.
Mas você nasceu aqui. Você é...
Quer dizer, você é argentina?
- Escuta... - Tudo bem.
Não me incomoda.
Eu entendo que isso possa ser um pouco estranho.
E, sim. Sou argentina. De Clorinda, Formosa.
Vocês estão juntos há muito tempo?
Quero dizer, estão namorando?
Com licença.
- Bom... - Um champanhezinho.
Vamos lá.
Boa!
Estes são os produtos de limpeza.
Tem que tomar cuidado com estes armários de madeira.
São muito delicados.
Limpe com uma flanela. Não use pano de prato,
senão arranha.
- Sim, senhora. Certo. - É importante.
Desculpem. Olá.
- Boa tarde. - Boa tarde.
Rosa, este é o Antônio, meu namorado.
- Como vai? - É um prazer.
Amor, posso reservar no Marcelo em Puerto Madero pra jantar?
- Tudo bem... - A campainha? Estranho.
- Olá! Que surpresa! - Como está?
- Bem. - Oi, pai.
Olá. Como vocês estão?
- Como está, pai? - Oi, querida. Como vai?
- Estou bem, e você? - Que bom vê-los.
E aí? O que estão fazendo aqui?
- Só queríamos te ver. - Legal!
- A Eliana está? - Sim. Está com a nova empregada.
Uau! Nova empregada.
Você emagreceu, pai. Ou é a roupa?
Não, não emagreci. A Eli mudou um pouco meu guarda-roupa.
O moletom, o tênis.
- Fez algo no rosto? - No rosto não. Não fiz.
- Como eu poderia...? Filha! - Tudo bem.
Por que apareceram do nada? Aconteceu algo?
Não, está tudo bem. Só queríamos conversar com você.
Pensamos muito sobre isso.
E achamos que é uma opção inteligente. Bom, uma opção sensata, diria.
Achamos melhor planejar certas coisas com antecedência.
E...
Achamos que seria uma boa...
passar todos os seus bens
ao nosso nome.
Trata-se de prevenir muitos problemas
que poderíamos ter num processo de sucessão no futuro.
Bom, estão me matando.
- Não, pai. - De jeito nenhum, pai.
Seria um jeito de blindar o patrimônio que pertence à família.
Muito bem.
Por que a pressa? É por causa da Eli?
- Não! - Não, pai!
Processos de sucessão podem ser muito complexos.
Só queremos evitar esses problemas.
Pode optar por uma doação em vida,
e terá o direito de usufruto de tudo.
A ideia é que continue vivendo como viveu até agora.
Continuará recebendo o aluguel das vagas de garagem e lojas.
- Tudo. - Na prática, será a mesma coisa.
Ali.
Aí mesmo. Muito bem.
- Aí, não. - É assim?
Vai encharcar tudo!
Tudo bem.
Certo. É lógico, esses processos...
de sucessão são complicados. São mesmo.
Mas me fazem sentir como se estivesse com um pé na cova.
- Não! - Não, pai!
Como planejam dividir tudo?
Somos três.
Um terço para cada um. É o que a lei diz.
Bom.
Vamos em frente.
Mas não podemos nos esquecer...
da grana no cofre.
O quê? Que dinheiro?
Os dólares, Lucas.
- Dólares? - Quanto?
Um milhão. Um milhão de dólares.
O quê? Quando você ganhou tanto dinheiro?
Um milhão? Assaltou um banco?
Não, filho. Trabalhei por 50 anos, Lucas.
Quando fui promovido, recebi ações da empresa.
Vendemos a casa do vovô.
- Nem sabia que tinha tanto dinheiro. - É muito.
Mas não acho justo dividir dessa forma.
Não, não, não.
Acho que o mais justo seria sessenta por cento para o Lucas,
trinta por cento para você, Mati,
e dez por cento para você, Jime.
Por quê?
Bom, é que a sua mãe e eu...
e eu assumo minha culpa,
sempre sentimos que não os tratamos de forma justa.
Você sempre teve mais benefícios, Jime,
emocional e economicamente,
porque você era a menina.
Mati, demos muito a você também, mas bem menos que à Jime.
E você sempre esteve em desvantagem, Lucas.
Você sempre foi introvertido.
Não falava. Nunca pedia nada.
Sempre foi assim. Mas você teve de tudo, moral e materialmente.
Então não acho justo dividir dessa forma.
É sessenta por cento para o Lucas,
trinta para o Matías, dez para você.
Não. Está me pedindo para indenizar o Lucas.
A minha irmãzinha é tão fofa!
Acha que não percebi que eles faziam tudo por você?
O carro, o apartamento que te deram.
Estudou no exterior.
Também te demos muito dinheiro para sua casa nova.
Eu não os obriguei a me ajudar com a casa.
Não fiz nada pra ser um filho de segunda, e fui.
Nunca foi um filho de segunda, aí não.
Fui, sim.
Talvez por você ser o centro das atenções da casa, como diz o pai.
Você era a princesa. Eu, o filho problemático.
E ainda por cima, gay. Quer saber?
Concordo com o pai. É sessenta, trinta e dez.
Esperem. Uma coisa que o pai falou é verdade.
Também sinto que não houve equilíbrio, e agora poderíamos compensar.
Mas não sei essa proporção.
Acho que 50 por cento é suficiente para compensar o Lucas.
Dez por cento pra Jime. Quarenta pra mim.
- Você é um merda. - Não, não.
Ouça o pai. Ele sabe como as coisas eram.
São dois filhos da puta! Não vou aceitar isso.
Estou avisando. Vou contratar um exército de advogados.
- Vou acabar com vocês. - Que medo!
Pode contratar, sua vadia. Cinquenta, quarenta e dez é justo.
Não, não.
Você não vai conseguir mais. É um oportunista.
Você não vai levar nada.
Cale a boca, seu doente.
Me foderam a vida toda. Agora vão ver.
- Cale a boca! - Eu falo o que quiser.
- Seu veado... - O que disse?
Chega. Chega.
Chega!
Sentem-se.
Meus filhos.
Eu menti sobre o milhão de dólares.
Sei que toda essa merda é por causa da Eliana.
Pensam que eu nasci ontem?
Têm medo de que esteja comigo pelo dinheiro.
Que vergonha! Meus próprios filhos.
O que é isso?
Olhem no que se tornaram.
Vocês se ouviram?
Nunca imaginei que os veria agir assim...
tão mesquinhos.
- Tchau, Eli. - Tchau.
Obrigado por virem.
- Tchau. - Tchau.
Contou que vão ter um irmãozinho novo?
Ainda não.
Não consegui encontrar o momento certo.
- Acha que vão ficar felizes? - Muito felizes.
Você criou filhos tão bons, Antônio.
São fantásticos.
AS VANTAGENS DE SER POBRE
REFEITÓRIO "BARRIGUINHAS FELIZES"
Obrigada, padre.
- Obrigado, padre. - Bom apetite.
Obrigado, padre.
Esperem.
Esperem, por favor.
Antes de comerem esse prato de comida, vamos agradecer a Deus.
Vocês são pobres.
Mas a maior pobreza é viver a vida sem Deus.
Mesmo que se tenha dinheiro,
essa é a pior das pobrezas.
Por outro lado, há uma grande virtude na pobreza de vocês.
Ela os torna seres livres.
Vocês não estão atrás do celular novo,
de um carro novo, uma casa luxuosa.
Por quê? Porque são livres.
Nosso papa,
que tive o privilégio de conhecer enquanto andava por este bairro,
disse há alguns anos,
"De pouco adianta ter riqueza nos bolsos
se há pobreza no coração."
Queridos irmãos e irmãs, vocês são o rosto de Jesus.
Devemos aprender com vocês.
- Porque os pobres... - Com licença.
Com todo o respeito, estou morrendo de fome.
Podemos comer primeiro?
E depois nos conta sobre as vantagens de ser pobre?
Não. Vão em frente.
Comam, comam.
REPÚBLICA ARGENTINA
Ei.
Vou sentir saudades.
Nós também, filha.
Linda.
Você vai adorar Madri.
Você vai ver.
Está fazendo a escolha certa. Sim.
Cuide-se, filha.
- Mande mensagem quando estiver no avião. - Sim.
- E assim que pousar. - Sim.
Você vai se dar bem.
Amo muito vocês.
- Você sabe. Se... - Eu sei.
- Se eu não gostar ou sentir saudades... - Sempre estaremos aqui para você.
Que tal um churrasco agora?
O que acha?
Isso não tem na Espanha.
- Tem, sim. - Não é a mesma coisa.
Não é a mesma coisa.
UM BRINQUEDO MUITO CARO
ESCOLA AULA ABIERTA ABORDAGEM PEDAGÓGICA INTEGRAL
Vovô! Vovô!
Uri! Como vai, querido?
Acabei de pousar, e vim direto.
- Isso é para mim? - Claro. Foi o que pediu.
Direto de Miami. Olhe só! Bem...
Que legal! Obrigado.
Vamos. Sua mãe está esperando para lanchar.
Podemos levar o Santi?
- Ninguém vem te buscar? - Não, eu venho e volto sozinho.
Tudo bem, vamos. O carro está ali.
Legal, né? Fantástico.
É legal, sim. Eu já tenho um.
- Como assim? - Tenho, sim.
- Sério? - Sim, sim.
Você tem o mesmo robô?
Sim, é o mesmo.
Não deve ser o mesmo.
Sim, tenho um.
- Qual era seu nome mesmo? - Santi.
Santi, para ser sincero, não acho que não tenha o mesmo.
Mas eu tenho.
É que não vendem esse robô aqui na Argentina.
Comprei nos Estados Unidos.
É uma edição especial que acabou de ser lançada.
Mas eu tenho, senhor.
Santi, ele custou 250 dólares.
Aí eu não sei, mas eu tenho um.
Vamos fazer assim, Santi.
Quando chegarmos à sua casa, busque o robô e mostre pra gente.
Tudo bem?
Não sei se vou achar.
Não se preocupe. Nós te esperamos. É só ir e buscar.
Deixe pra lá, vovô.
Não... Bom...
- Falando sério, não sei se vou achar. - Procure lá.
Sem pressa. Procure. Nós te esperamos aqui até voltar.
Não se preocupe.
Tudo bem.
Porque está com essa carinha? Come um biscoito, vai.
- Quer saber o que há com seu amigo? - Sim.
O vovô vai explicar.
Há muitas pessoas que ficam mal, coitadas,
porque não podem ter o que os outros têm.
Elas ficam chateadas e tristes.
Chama-se "ressentimento", Uriel.
Eles não têm um avô como o seu, alguém que pode viajar a Miami
e comprar um brinquedo caro para o neto.
Então ficam chateadas e fazem de tudo para estragar sua alegria.
Só por serem ressentidos.
Quero ir para casa.
O vovô vai te explicar o que vai acontecer.
Ele vai voltar e dizer: "Não o achei."
Ou "Está quebrado."
Ou terá que assumir que mentiu para você.
E acabará expondo a mentira sozinho.
Amanhã vão brincar como se nada tivesse acontecido.
Vocês vão rir juntos.
Pode até emprestar o robô para ele brincar com você.
Mas ele vai aprender a lição...
São iguais.
- Que filho da... - São iguais. Vamos lutar.
Filho da...
Está bom. Vamos...
Não temos o dia todo, Uriel. Vamos. Vamos!
- Tudo bem. Tchau, Uri. - Tchau.
- É insuportável. - É sempre assim ou só hoje?
Sempre... Lá vem ele.
Lá vem ele, pessoal. Oi, diretor.
UM FILME NECESSÁRIO
Quanto demoraram para colocar só duas luzes. Inacreditável!
Estou no trailer há quatro horas.
Olhe só isso.
Essa gente, meu Deus! Puta que pariu!
- Posso fazer uma pergunta? - Não encha o saco. Fora.
Que jeito lerdo de fazer cinema!
Corta!
Não presta. Nenhuma mosca pousou nela!
Nem uma! Puta que pariu!
Inacreditável. Assim não dá para trabalhar. São desastrosos.
Olha aquele índio paspalho. Por que está sorrindo?
Não deveria sorrir. É uma história triste, idiota.
Fique sério.
E aquela com a cesta.
Tem que segurar com o outro braço. Vamos!
E olhe aquele, brincando com a lança.
Deixe-a no chão, idiota. Isso.
O povo Arawi era subdesenvolvido quando Colombo chegou
e 500 anos depois, continuam os mesmos.
Puta merda!
Você aí, com o microfone!
Que diabos está fazendo aí? Vá para lá!
Cadê a menina...? Venha aqui, menina.
- Ouça. Lambuze-a com muito mel. - Ela já tem bastante.
Bastante? Você é estúpida? Está me ouvindo?
Eu quero mais. Preciso que a mosca pouse no rosto dela.
- Quer passar mais um dia aqui? - Não.
Eu não quero. Passe bastante mel.
Mais mel.
É isso! Lambuze.
Passe mais!
Atenção. Vamos filmar.
Cena 84, tomada 5, rolo 11.
Vamos lá, menina.
Solte as moscas.
Isso. Isso.
Agora saia. Saia!
Concentre-se. Você é uma índia triste.
Você tem muitos problemas.
Mamãe e papai estão mortos. Um urso os comeu.
Assim, desamparada, menina.
É isso. Aí está.
Assim.
Pronto! Uma mosca pousou.
Perfeito. Fique quieta. Quietinha.
Que mosca espetacular, puta que pariu!
Não se mexa, garota. Fique parada.
É isso! Não se mexa. Não respire.
Conseguimos! Conseguimos! Isso aí!
Senhoras e senhores, essa foi a última tomada. Terminamos!
Isso aí, porra!
Se eu tivesse que ficar mais um minuto,
me mataria.
Me tirem dessa porra de lugar agora mesmo, por favor.
O vencedor da categoria de Melhor Filme é...
O Resgate dos Arawis.
Neste filme, o diretor Iván Gutiérrez,
com humanidade, compaixão e empatia,
narra os problemas da tribo Arawi na Argentina.
Sem dúvida, é um filme necessário.
Este prêmio de primeira classe é entregue
pelo presidente
da Associação Internacional de Academias de Cinema.
Gianluca Mengoli.
Vou falar espanhol.
Não esperava por isso.
Estou sinceramente grato por este prêmio.
Mas não posso estar feliz e celebrar com o mundo nessas condições.
As mudanças climáticas,
as políticas anti-imigração, os discursos de ódio.
Meu filme representa o oposto: empatia, compromisso, humanidade.
Espero que ajude o mundo a conhecer e valorizar
a comunidade indígena Arawi.
Os dias que passei com o povo Arawi me permitiram observar
sua sabedoria ancestral, sua sensibilidade e qualidade humana.
Devemos protegê-los
deste capitalismo criminoso.
Quero agradecer este prêmio ao amor da minha vida.
Roberto.
Eu te amo, Roberto. Você é tudo para mim.
Sua ética. Sua vida exemplar.
Foi isso que me mostrou o caminho para rodar este filme.
Eu te amo.
Eu te amo.
O povo Arawi precisa de nós, senhoras e senhores.
Somos todos Arawi.
DOCE DEMAIS
- Bom dia. - Bom dia.
Estou procurando a família Muscarella, senhor.
- Muscarella. - Sim.
Vou mostrar a foto do meu avô.
Giuseppe Muscarella.
Quero visitar a cidade da minha família.
Vim da Argentina. Viajei 12 mil quilômetros.
Sabe onde fica a casa deles?
- Siga por essa rua. - Certo.
Vire à direita na segunda rua.
- Para a direita. - Siga em frente.
- Chegará a um mirante. - Sim, senhor.
Continue um pouco à sua esquerda.
Verá a casa dos Muscarellas à sua frente.
Vai reconhecê-la pelos chifres acima da porta.
- Tem chifres em cima da porta? - Sim.
- Por quê? - Não sei o que dizer. Não sei.
Bom. Muito obrigado, senhor.
Bom dia, senhora.
Família Muscarella?
- Quem é você? - Sou Fabio Muscarella.
Sou neto de Giuseppe Muscarella.
Vim da Argentina.
- O tio Giuseppe! - Sim!
Não acredito! Estou tão feliz!
Ana, olhe quem está aqui! Entre!
Entre! Veja quem está aqui. Ele é um parente da América!
- Entre! - Com licença.
- Bem-vindo! - Que prazer!
- Obrigado. - Que prazer!
- Um parente da América! - Bem-vindo.
- Obrigado. - Estou tão feliz! Não acredito!
Eu trouxe duas coisas típicas da Argentina.
Uma garrafa de vinho Malbec.
É excepcional.
E alfajores.
Doce típico argentino. É recheado de doce de leite.
- Doce de leite? - Doce de leite.
- Obrigado. Não precisava. - De nada.
- Obrigado. - Obrigado.
De nada.
- Vocês notaram? - O quê?
Ele tem os olhos do Carmelo.
Os olhos dele?
- É mesmo. - É verdade.
São parecidos.
Você é cem por cento Muscarella.
Claro.
E a massa? Hein?
Tina, o que está fazendo?
Elisabetta era minha mãe.
- Ela era a irmã mais nova do Giuseppe. - A mais nova.
Lembro dele como um homem alto, forte e loiro.
Que legal.
Os irmãos Muscarella eram oito.
Quatro mulheres e quatro homens.
- Quatro homens. - Ele era o mais corajoso e aventureiro.
Por isso ele foi para a América.
Ele queria ir para Nova York.
Não sei como,
mas o navio dele o levou à Argentina.
Claro. Milhões de italianos migraram para a Argentina.
Já vi a Argentina em fotos.
- É linda. - É muito linda.
Aquelas praias com palmeiras altas.
O Cristo enorme no topo da montanha.
Não, não tem Cristo. É um obelisco.
Sempre sonhei em vir aqui.
Mas por causa do trabalho ou outra coisa, sempre foi difícil vir.
- Entende quando eu falo? - Sim.
Nunca pude vir até agora.
Estou realizando meu sonho de visitar a cidade do meu avô.
Eu sempre...
quis...
- Posso ver seu relógio? - Gostou?
- Quer ver? - Rocco!
- Posso experimentar? - Claro.
Deixe experimentar, por favor.
Pronto.
Rocco!
Rocco, devolva o relógio! Volte!
- Rocco. - Não me faça levantar, Rocco!
Tudo bem. Não se preocupe. Ele já vai devolver.
- Fabio. - Sim?
Fale um pouco sobre você.
O que você faz na Argentina?
O que eu faço? Sou engenheiro.
- O quê? - Ele é engenheiro.
Sim. Sou dono de uma construtora.
- É dono de uma construtora? - Sim.
Ganha bem, né?
Nada mal.
- Fabio? - Sim?
Talvez possa nos ajudar.
Ajudar?
Precisamos comprar uma cadeira de rodas nova pra Francesca.
Uma cadeira de rodas elétrica, sabe?
A cadeira dela é muito velha e difícil de empurrar.
Claro.
Mas não temos dinheiro para comprar uma nova.
Coitada da Francesca. Ela nasceu para sofrer.
Minha querida, ela sofre em silêncio.
O dinheiro para a cadeira de rodas mudaria a vida dela.
- Sim. - Claro. Certo.
A cadeira de rodas nova
custa mil euros.
Uau!
Você faz parte da família agora.
Se pudesse nos ajudar, seria uma bênção.
- Uma bênção. - É.
Bem, se eu puder ajudar,
seria um prazer. No hotel,
vou ver quanto tenho, e transfiro o dinheiro.
O quê? Não tem dinheiro vivo?
Não, não tenho essa quantia aqui.
Olhe na sua carteira. Vamos.
- Eu não tenho... - Olhe. Pode ter algo.
- Olhe. - Olhe.
Não tenho essa quantia.
- Olhe! - Vamos!
Olhe. Com certeza um dinheirinho deve ter aí.
Não devo ter nada.
Porque só tenho dinheiro argentino e só isso...
- Viu? Tem 600 euros. - Não, mas...
Depois veja se tem mais.
Francesca.
Tem que agradecer, porque ele é seu parente.
Diga: "Obrigada, Fabio."
Obrigada, Fabio.
Disponha, Francesca. Tudo bem. Foi um prazer.
Fabio.
Você é uma pessoa de sorte.
Ganhou dinheiro.
O fato de ter decidido vir à Sicília
para descobrir as origens da sua família
é importante, e por isso, deve nos ajudar.
Você tem dinheiro. Nós, não.
Também é difícil para mim ganhar esse dinheiro.
Na Sicília, há dois valores importantes:
respeito e honra.
Deve ter isso em mente.
Entendido?
Um café?
Não, não.
Não, muito obrigado. Preciso ir para o hotel.
- Posso usar o banheiro? Onde fica? - Claro.
Vou com você. Eu te mostro.
Bom, obrigado.
- Com licença. - Pode ir.
Ele tem dinheiro. Prestem atenção.
Ei, o que está fazendo?
O que é isso? Não, por favor.
- Me ajude a fugir dessa cidade de merda. - Não.
Desta família de monstros. Não há futuro neste buraco.
- Me leve com você, por favor. - Não.
- Faço o que quiser, te dou prazer. - Não.
- O que tá fazendo? Não! - Giulia!
Giulia! O que está fazendo?
- Sr. Carlo! Ela entrou aqui. - Abra!
- O que está fazendo? - Vá embora, ou ele te mata.
Giulia! O que está fazendo?
Giulia!
Encontrou a casa?
Vovô Giuseppe, puta que o pariu.
Desgraçado!
Filho da puta!
Argentino de merda!
REPÚBLICA ARGENTINA PASSAPORTE
REPÚBLICA ITALIANA PASSAPORTE
CARTEIRA DE MOTORISTA BUENOS AIRES
Como é, vovó?
Doce demais.
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