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Erika!
Erika!
Erika, leve os porcos pro chiqueiro!
Erika, os porcos!
Leve os porcos pro chiqueiro!
O SOM DA QUEDA
Legendado por Cabine de Projeção
Tradução: L@zz
A barra está limpa.
Berta?
Seus pestinhas!
Vocês vão ver só!
Vamos, todo mundo já chegou.
Pra mim?
A mamãe escolheu pra você.
Pro Dia de Finados.
Anda, vai se vestir.
O que eu tenho que fazer?
Faz o que os outros fizerem.
Deus eterno e santo
Hoje lembramos as pessoas
Que chamaste do nosso meio
E lembramos também
Que nós também um dia morreremos
A mamãe está com ânsia de novo. O estômago dela faz o que quer.
Todo mundo ouve no silêncio,
mas fingem que não notam.
Piscar uma vez significa: Eu te amo.
Piscar duas vezes significa: Eu te amo muito.
A gente conta quem recebe mais piscadelas da mamãe.
A Hedda geralmente ganha.
Mas só porque é a nossa aleijada.
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu
O pão nosso de cada dia nos dai hoje
Perdoai as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal, pois vosso...
E aí?
Acha que no ano que vem sua foto vai estar na cômoda?
Não tenho medo.
- Não precisa temer a morte. - Não.
Eu não temo.
Mas não vou entrar num caixão, já vou avisando.
Ninguém sabe
se você nota alguma coisa que fazem com você.
Ninguém sabe dizer
se a gente para de notar. O que fazem com a gente.
Vi todos morrerem.
Sobrevivi a todos.
À sua mãe também.
- Sim, minha Fanni. - Eu sei, eu sei.
Tchau.
Põe um saco de batata na cabeça da Trudi
e faz isso pelo seu país.
Parece a mamãe.
É a mamãe.
Quem é a menina?
Alma.
Não é verdade.
É sim.
É a Alma.
Mas eu sou a Alma.
Ela parece com você.
Talvez o espírito dela tenha passado pra você.
Talvez você não seja você, mas ela.
Acho que ela só está dormindo. Não parece morta.
Talvez acharam que estava morta e a enterraram viva.
Ela roubou beterraba do porão
e está comendo tranquila no caixão.
Quantos anos ela tinha quando morreu?
Sete.
Por que ela morreu tão cedo?
Não sei.
Ela era adoentada.
Uma hora...
ela simplesmente não acordou.
Lia?
O que quis dizer com "ela não acordou"?
Dorme, Alma.
O que acontece quando a gente morre?
Nada.
Foi um sonho.
Mãe?
Oi?
- Sabe o que eu acho engraçado? - O quê?
Quando vejo uma maçaneta,
sei exatamente que gosto ela tem,
embora nunca tenha lambido uma.
Não é engraçado?
É porque você colocava tudo na boca quando era bebê.
Cigarro do chão, cocô de cachorro...
- Mentira! - É verdade.
Mas como eu alcançava a maçaneta sendo bebê?
Hora de dormir.
Já pediu as caçambas?
Merda.
Esqueci de ligar.
Pede duas pequenas em vez de uma grande dessa vez.
E fala pra colocar bem embaixo das janelas,
pra eu jogar o entulho com a Lenka.
Quem era?
Aquela menina,
umas casas pra lá.
A filha da...
daquela...
cuja mãe morreu.
Quente.
Nelly, sai daí, é pesado.
Espera, assim.
Te peguei!
Agora cubra o olho direito.
- Assim? - Exato.
E olhe para o X com o olho esquerdo.
Isso! Agora se aproxime devagar.
Quando o "O" desaparecer, você achou seu ponto cego.
- Doido, né? - É, sumiu. Inacreditável.
- Simplesmente sumiu? - É literalmente seu ponto cego.
- O oculista que disse. - Quer tentar?
- É impressionante. - Como? No esquerdo?
Mantenha esse olho fechado, e então espera.
- Assim? - Mostra os óculos que escolheu.
Pra mim não desaparece.
Porque está fazendo errado. Te explico depois.
São chiques.
É impressionante, se pensar
que o mundo está, na verdade, de cabeça pra baixo.
O oculista que disse.
O cérebro espelha tudo
antes que chegue na nossa cachola.
Mas é assim pra todo mundo?
Todo mundo, menos você.
Vamos.
Me dá isso.
- O que está fazendo? - Vai.
Não faça essa cara. Tem coisas piores.
Agradeceu ao Tio Uwe pela carona até a cidade?
Não precisa, foi um prazer.
Chega disso. Senta.
E agora?
Pegou os óculos? Deixa eu ver.
Parecem chiques.
Você fez bolo de açúcar?
- Me dá um pedaço, por favor. - Entre.
Angelika...
Diga, Uwe,
não consigo entender o encanamento.
O que houve dessa vez?
- Pode dar uma olhada? - Claro.
Você está espalhando as migalhas.
Levem a braçada até o quadril.
Rainer, vamos!
Já vai descansar.
Mais duas semanas.
Eu vou conseguir.
Tem que conseguir.
Os outros também não dormem.
Com um pouco mais de tensão, eu consigo.
Então arrume tensão de algum lugar.
Pratique os movimentos todo dia.
Agora tem tempo pra entrar na água uma vez por dia.
Excelente.
Mas ainda está gastando muita energia.
Braçadas longas e vá até o fim.
Não vai manter esse ritmo a distância toda.
Vocês têm que manter os movimentos na cabeça.
Repassem os movimentos toda noite antes de dormir.
Muitas vezes fingi não notar como me olhavam.
Como se estivesse imersa em pensamentos.
Mas na verdade era eu
quem observava secretamente eles me olhando.
Olha, mãe. Consigo até com um braço só. Olha!
Mãe, você nem olhou.
Olhei sim, querida, foi ótimo!
Mentira, não estava olhando.
Como pode saber? Você estava debaixo d'água.
Vamos, mostra de novo.
Ótimo!
Olha!
E um e dois e três e quatro
Um chapéu, uma bengala, um guarda-chuva
E pra frente, pra trás, pro lado, e um e dois...
Mãe!
Nelly?
Nelly!
Nelly!
Adoro quando a pele cheira a mofo de rio.
E cheiro de porão.
Adoro cheiro de porão. Sou viciada.
- E esmalte. - É, mas não tanto quanto porão.
Primeiro, cheiro de porão.
O papai chegou.
Depois cheiro de rio na pele e depois esmalte.
Papai!
Droga, aqui é tão bom.
Aqui não é bom, crianças?
Sim!
Consigo plantar bananeira na água com um braço só.
É, muito legal.
E eu achei areia preta.
Areia lamacenta!
Estão com fome?
Temos pão, queijo, linguiça e vinho.
Eu vi um gafanhoto.
É, um gafanhoto verde grande.
O que está fazendo?
Sempre aprontando.
Triste é nunca saber quando estamos no auge da felicidade.
Oito, nove, dez.
Um, dois, três...
Esse vale por três.
Pelo menos.
Sete, oito, nove, dez.
Onze.
Ganhei.
Quente.
Está doendo?
Que nada.
Vamos ver quem chega primeiro no carvalho?
Dê um nó.
Uwe, Uwe...
Vou mostrar como se faz!
Não vale!
Essa não é minha bicicleta! Vou de novo!
Agora consigo.
Agora tá valendo.
Consegui!
Isso!
Pro tanque!
Volker, Volker...
Você não consegue!
Agora é a vez da Irm!
Irm, Irm...
Você consegue.
Vai!
- Sou azarada com essas coisas. - Não tem nada a ver com sorte.
É a vez de outra pessoa agora.
Tenta de novo.
Deixa eu ir.
Minha vez!
Angelika, Angelika...
Agora?
Agora?
Agora!
Agora.
Você está de pau duro.
Mentira.
- Levanta. - Vamos ver.
Melhor não.
Levanta.
- Nojento. - Fica pelado!
Levanta.
Abaixa a calça. Angelika, abaixa a calça dele.
Não tem muito o que ver, é pequeno.
Vamos, Rainer, levanta.
Levanta, levanta...
Abaixa as calças! Tira logo!
Tenha calma.
Bem aqui.
Me leva pra Glöwisch hoje?
Glöwisch?
Vai fazer o quê em Glöwisch?
Discoteca?
Talvez.
Onde você estava?
Bebendo schnapps com os outros.
Pode me levar pra Glöwisch agora?
Desculpa.
Tenho outros planos.
Como vai pra Glöwisch agora?
Anda, vai pra casa!
Hoje foi bom. Tudo deu certo.
Todo mundo se divertiu.
A comida foi suficiente.
Fazia tempo que eu não ria tanto.
Sobrou salada de macarrão.
As crianças também foram engraçadas.
Nunca vi a Anna rir tanto.
Ela geralmente só reclama.
Ainda bem que fiz aquele outro bolo.
Senão ia ser pouco.
Lembro de como a mamãe nunca sabia a hora de rir.
Quando algo era engraçado, ela nunca ria.
Ela ria quando não tinha nada pra rir,
quando algo ruim acontecia.
Quando alguém morria, ela abria um sorriso do nada.
Ela não queria, o corpo fazia sozinho.
E quanto mais tentava não sorrir, mais ela sorria.
Até ter um ataque de riso.
Ela tapava a boca com a mão pra ninguém ver e ficava vermelha.
Engraçado como a gente fica vermelho quando tem vergonha.
Bem na cara, pra todo mundo ver.
Fizemos uma pegadinha com a mamãe no aniversário dela.
Foi ideia do papai. Ele sempre quis fazer a mamãe rir.
Nunca funcionava.
Vida longa a ela
Vida longa a ela
Três vivas para ela
Vida longa a ela
Vida longa a ela
Três vivas para ela
Tudo de bom, Mãe!
Que ela envelheça
Três vivas para ela
Que bom que vocês se conheceram.
A Lenka não conhece ninguém aqui ainda.
Ninguém mora aqui.
Como está seu pai?
Bem. Aguentando firme.
Posso dormir aqui?
Bem...
Bom, se vocês quiserem.
Hoje?
Temos que perguntar para o seu pai primeiro.
Celular legal.
Roxo.
Era da minha mãe.
Herdei dela.
Sim, sou eu.
A mãe da minha nova amiga quer te perguntar uma coisa.
Alô.
Oi, aqui é a Christa, da casa 10.
Isso, de Berlim.
Então, sua filha está aqui agora...
Boa noite.
- Boa noite. - Durma bem.
Durma bem.
Qualquer coisa, venham nos acordar. Não importa o que seja.
Pode cantar uma música de ninar?
Sua mãe cantava pra você dormir?
Já vou avisando,
não canto muito bem.
Não tem problema.
Boa noite, boa noite
Coberta de rosas
Enfeitada com cravos
Deslize sob as cobertas
Amanhã de manhã, se Deus quiser
Você acordará outra vez
Amanhã de manhã, se Deus quiser
Você acordará outra vez
Alma, não vá.
Alma, não!
Acidente de trabalho.
Acidente de trabalho.
Acidente de trabalho.
Se você diz uma palavra muitas vezes,
ela perde o significado.
Fritz teve um acidente de trabalho.
Acidente de trabalho.
Vão tirar a outra perna dele também?
São dores fantasmas.
O médico disse que podia acontecer.
Parou agora.
Não.
Está quieto porque puseram um graveto entre os dentes dele.
Se escutar bem de perto,
ainda dá pra ouvir o choro dele.
Está ouvindo?
Engraçado como algo pode doer mesmo não estando mais lá.
Que calor.
O que foi?
Nada.
Volta a dormir.
Estava no Tio Fritz de novo?
A mamãe sabe de coisas que nem devia lembrar,
porque ela nem estava lá quando aconteceram.
Ela lembra, por exemplo,
que a irmã Erika sempre roubava as muletas do Fritz
pra ver se conseguia andar só com uma perna.
Mas se perguntar onde ela estava quando tudo isso aconteceu,
ela não lembra.
Talvez porque a gente só vê os outros de fora,
nunca a si mesmo.
Seu esquisitão.
Você foi pra Glöwisch?
Como você voltou?
De carona.
Quem te trouxe?
Seu pai.
Ele estava na discoteca também?
Não.
Então?
Ele passou de carro quando eu estava saindo.
Rainer!
Você é meu primo.
Mas o meu pai ser seu tio não te incomoda?
O quê?
Todo mundo sabe que você deu pra ele.
Sempre dizemos que o que conta são as ações,
e que uma pessoa é o que ela faz.
Eu não acredito nisso.
Acho que somos o reflexo do lugar onde estamos
enquanto fazemos alguma coisa.
Quando eu estava com uma amiga,
não demorava muito
pra dizerem que eu falava igual a ela.
Eu até adotava coisas que não gostava:
a risada aguda, a ênfase nas palavras...
Eu não planejava. Meu corpo fazia sozinho.
Às vezes o papai dizia: "Já chega."
Que eu devia ser eu mesma de novo.
Mas ser eu mesma de novo?
Meu corpo não conseguia fazer isso sozinho.
Então eu ficava tonta
tentando lembrar como eu falava.
Eu repetia meu nome várias vezes
até parecer estranho pra mim.
Então imaginava me ver pelos olhos do papai
e interpretava a pessoa...
que ele devia imaginar quando dizia para eu ser eu mesma.
Quanto tempo dá pra fingir ser feliz sem ninguém notar?
Acidente de trabalho.
Ela está assim há dias.
De repente, a mamãe não conseguia mais andar.
O médico não sabia explicar.
Disse que ela era saudável e não devia fazer cena.
A mamãe se esforçava, mas não adiantava.
As pernas não obedeciam mais.
O médico recomendou repouso.
À noite, rezávamos a Deus
para que a mamãe logo pudesse andar de novo.
Alma!
Alma, cadê você?
Sai daí, você ganhou!
Alma!
Alma, você está por aqui?
Aqui! Tô bem aqui!
Alma, não tem graça. Sai daí.
Aqui, tô na árvore, Lia! Olha pra cima!
Ela sumiu.
Tô aqui! Aqui!
Está vendo ela?
Não. Parece que foi embora.
Eu tô aqui, Lia!
Eu tô aqui!
Socorro!
Socorro!
Socorro!
Lia! Gerti!
Tô aqui! Aqui!
Aqui na árvore!
Eu tô aqui!
Lia!
Alma?
Como se sabe se está vivo ou morto?
Tive uma febre tão alta que queriam chamar o médico.
Ele não ia saber de nada mesmo.
A Trudi pôs a mão na minha testa,
igual faz pra acalmar as vacas quando têm bezerro.
Ela passou a noite toda do meu lado.
No começo, a mamãe resistiu
quando disseram pra Trudi pôr a mão nela também.
Mas, no fim, ela deixou.
Tenho certeza de que foi por isso que ela voltou a andar logo.
Com o Fritz foi mais complicado.
A Trudi não podia simplesmente fazer a perna dele voltar.
Hedda tinha certeza
de que os cachorros já tinham comido a perna.
Mas ela conseguiu aliviar a dor fantasma.
Ela pôs a mão no Fritz.
Ele se acalmou e gemia bem mais baixo.
Com a Berta Gorda, era fácil pros homens.
Ela já não podia ter filhos.
A Trudi não teve essa sorte.
Primeiro teve que ser "preparada para os homens".
Como criada, tinha que ser rápida e trabalhadora
e não faltar só porque estava de barriga.
Não sei exatamente
como fizeram a Trudi ficar igual à Berta pra sempre.
Mas logo que a Trudi chegou aqui,
ela teve que ir embora por uns dias.
Deve ter sido nessa época.
Quando ela voltou,
os criados faziam fila na porta dela à noite.
Não sei se botavam um saco de batata nela.
Gerti achava que ela não estava tão bonita quanto antes.
Parecia que tinha sido jogada na terra
e não sabia o que fazer consigo mesma.
Trudi disse uma vez que a vida do Fritz foi totalmente em vão.
Acho que a Trudi também viveu em vão.
Talvez por isso cuidasse dele:
para não ser tão solitário viver em vão.
E aí?
Não sei.
Deixa eu tentar.
E aí? A mosca ainda tá aí?
Tô ouvindo alguma coisa.
O último vai ser arrastado pro reino dos mortos!
O último vai ser arrastado pro reino dos mortos!
O último vai ser arrastado pro reino dos mortos!
A Alma esperou o verão todo pra cair dura ou não acordar.
Mas, de alguma forma, Deus esqueceu dela.
Em vez disso, me levou.
Eu podia estar viva se a Alma tivesse sido a última a passar.
A Alma ainda não estava morta no fim do verão.
Mas nossa bisavó sim.
E então, de repente, eu também.
Não chore.
Não foi de verdade.
Alma achava que a bisavó era a única que não ia morrer.
Como se a morte não fosse para ela,
só porque ela tinha muito medo.
Então a hora dela chegou.
Ela simplesmente caiu dura uma noite
a caminho do banheiro.
Ela devia ter alguma coisa urgente pra fazer.
Hedda riu e disse que ela deve ter se cagado de medo
quando percebeu que o fim estava próximo.
Ela já tinha levantado o roupão
pra ser mais rápido quando chegasse lá.
Mas nunca chegou.
O papai disse que foi a única vez
que ele viu a bunda da avó dele.
E assim, de repente, aconteceu com ela
o mesmo que com as outras pessoas que morreram.
A janela foi aberta para deixar o espírito sair.
Os relógios foram parados.
Pedras contra o mau-olhado.
AQUI REPOUSO E DEVO APODRECER
Para nenhuma mosca entrar.
Para o Papai do Céu acreditar que ela era devota.
Duas vezes por dia, a lavadeira de mortos da vila vinha
para lavar o corpo.
Mas como a nossa lavadeira
tinha morrido no parto duas semanas antes,
a Trudi teve que assumir.
Panos com vinagre e urtigas são postos no rosto do morto.
Lembro que no fim do velório,
as mãos dela estavam cheias de vergões.
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal
Pois vosso é o reino, o poder e a glória...
Nós rezamos...
para que ela não tenha que encontrar a mãe de novo.
Sempre que tento imaginar o rosto dela,
vejo tudo embaçado.
Como se eu não tivesse conseguido decorar,
embora a tivesse visto tantas vezes.
Mas ainda lembro exatamente como eram as mãos dela.
E a expressão quando ela estava morta.
Talvez porque ela nunca teve aquela cara em vida.
Ela parecia meio espantada.
Trudi disse que ela ficou assim porque percebeu que estava morrendo.
Mas pra mim, parecia
que ela via algo totalmente inesperado.
Hedda acha que ela pode ter reencarnado na África.
O papai disse que ela voltou como mosca.
Pelo menos ele nunca mais matou uma.
Quente.
A mamãe nunca falou sobre como sua irmã, Erika, morreu.
Eu sabia mesmo assim.
O tio da mamãe me contou uma vez.
Cheguei a conhecê-lo.
Ele nos visitou na fazenda:
Tio Fritz com sua perna de pau.
Disse para eu bater nela, que me daria sorte.
ATENÇÃO: FRONTEIRA INTERNA ALEMÃ
Erika entrou no rio,
como muitas mulheres quando a guerra acabou.
Elas sabiam o que tinha acontecido com mulheres em outras vilas.
Temiam o que podia vir mais do que a morte.
A mamãe fez um juramento com a Erika.
Mas quando ela estava debaixo d'água,
as enguias vieram mordiscar.
Ela não foi a única a desistir e sair do rio.
Ela ainda se envergonhava de não ter ido até o fim.
Às vezes acho que a mamãe ainda está embaixo d'água com a Erika.
Lia!
Lembro que a Nelly queria vir com a gente.
Não deixei porque não queria ela lá.
Lembro de pensar que minha vida foi em vão,
porque não escolhi morango como a Kaya,
mas sim baunilha.
Acho que foi naquele verão
que comecei a pensar: se eu fosse outra pessoa,
seria mais feliz.
Tinha inveja até da desgraça dos outros.
Até da mãe da Kaya ter morrido.
Desejei que algo assim acontecesse comigo
para eu poder ser como ela.
Hoje penso:
Se eu não tivesse pensado naquele momento que a vida acabou
só porque escolhi baunilha e não morango.
Do que sua mãe morreu mesmo?
Câncer de pulmão.
Por que você fuma, então?
Todo mundo morre de alguma coisa.
Você também.
Você estava lá...
quando sua mãe morreu?
Vem, vamos nadar.
Vem!
Talvez a gente se afogue.
Kaya?
Se eu quiser levantar a perna, eu consigo.
E se eu quiser levantar o braço, eu levanto.
Mas quando mando meu coração parar,
ele não obedece.
Continua batendo.
Talvez eu não deseje com força suficiente...
e assim ele não obedece.
Será que ele pararia agora,
se eu quisesse muito, muito mesmo?
Agora.
Agora.
Agora.
Agora.
Se na verdade a gente vê tudo de ponta-cabeça,
talvez na realidade tudo seja ao contrário.
Na verdade, dá pra simplesmente decidir
que o que é ruim é bom de verdade.
Depois do solstício, a Lia começa como criada na minha fazenda.
Bom.
Então está fechado.
Você cuida das coisas de mulher.
Eu sabia!
Você é um medroso.
- Vem cá! - Angelika, vem cá! Rainer!
Aí! Fiquem parados, parados!
Isso, bom.
Sim, tá bom. Mais perto.
Angelika, pra direita.
- Vamos nos juntar. - Rainer, murcha a barriga.
Agora tô curiosa com a máquina milagrosa.
- A máquina milagrosa. - Inacreditável.
Olha o passarinho!
- E agora dá pra ver a foto? - Loucura. Só balançar?
- Balança, balança. - Espera um pouco.
Agora tô curiosa.
Não dá pra ver nada ainda.
Se alguém dissesse que é possível, a gente chamaria de doido.
Mas eu tô gordo nela.
Mas a Angelika parece um fantasma.
Sumiu de novo.
- Eu não sou tão gordo assim. - Claro que é.
Então, a câmera é...
Procuramos por ela durante semanas,
mas ela simplesmente sumiu.
Uma hora disseram que ela nadou para a Alemanha Ocidental.
Não se falou uma palavra sobre ela em casa.
Nunca mais a vi.
Às vezes penso que ela só existia na minha cabeça,
e nunca existiu de verdade.
Angelika.
Lembro de tirar minha camiseta encharcada,
porque grudava muito no corpo.
Só depois percebi
que eu era a única correndo de topless e calcinha.
Lembro do cheiro de grama molhada.
E daquele olhar
do amigo dos meus pais.
Nem lembro o nome dele.
Sei que ele percebeu que eu vi o olhar dele.
Ainda sinto meu rosto queimar
e queria ter cruzado os braços na frente.
Mas ia ser óbvio demais.
Quando fingi não notar o olhar dele,
foi como compartilhar um segredo com ele
que eu não queria dividir.
Lia!
Choveu muito naquele verão.
Perdemos uma colheita inteira.
O vizinho da fazenda
nos indenizou por metade dos grãos perdidos.
Em troca, pediu a Lia como criada.
Depois do solstício, ela nos deixou e foi para ele.
Antes disso, ela teve que ver a Elli, igual a Trudi naquela época.
Ela não pôde começar a trabalhar por três semanas
porque quase morreu de hemorragia.
Depois, perguntaram o que tinha acontecido com a Lia no campo.
Eu disse: um acidente de trabalho.
50, 49...
Quando tento lembrar daquele verão,
sempre me pergunto o que a Nelly viu por último.
E se eu devia ter notado algo.
Acho que a Nelly estava brincando de "Guerra".
Sentada perto do fogo,
fingindo comer ratos e pernas de rã.
Mas só lembro dessa menina
que conheci no rio.
Acho que o nome dela era Kaya.
Ouvimos a mesma música o verão todo,
a favorita da mãe dela.
Quer um picolé?
Morango ou baunilha?
Morango.
Aqui.
- E você? Baunilha, como sempre? - Vou querer morango.
Morango.
Obrigada.
Quero morango também.
Poxa, perdão, querida. Só sobrou baunilha.
Podemos trocar.
Tá com você!
Legendado por Cabine de Projeção
Tradução: L@zz
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