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A NIKKATSU APRESENTA
A MULHER QUE EU ABANDONEI
Produzido por: Kazu Ōtsuka
Baseado no Romance de: Shūsaku Endо̄ Argumento de: Hisashi Yamanouchi
Direcção de Fotografia: Shо̄hei Andо̄ Chefes Electricistas: Yasuo Iwaki e Fumio Matsushita
Captação de Som: Ken'ichi Benitani e Koshirо̄ Jinbo Direcção de Arte: Yoshinaga Yoko'o e Hiroshi Fukatami
Música: Toshirо̄ Mayuzumi Montagem: Mutsuo Tanji
Assistente de Realização: Kōsei Saitō Assistente de Produção: Asajirо̄ Hasegawa
Nesta fábrica, o calor dos desperdícios é utilizado para gerar energia.
- Mas porque é que o fumo é tão branco? - Ei!
Bem, essa é uma pergunta interessante.
É o calor dos desperdícios que é consumido pelo...
ELENCO:
Chо̄ichirо̄ Kawarasaki Ruriko Asaoka
Toshie Kobayashi, Shо̄ichi Ozawa Takeshi Katо̄, Teruko Kishi Ryūtarо̄ Tatsumi
Haruko Katо̄, Chikako Natsumi Asao Sanо̄, Shigeru Tsuyuguchi Toshirо̄ Hayano
Hideji О̄taki, Tо̄ru Emori Jun Hamamura, Minako Sakaguchi Kunie Origa, Fumie Kitahara
Tadao Nakamura, Eimei Esumi Hisataka Yamane, Sayoko Tanaka Ayako Kuroda, Setsuko Horikoshi
Yukio Tada , Yasuhiro Kameyama Kimiko Higishi, Aiko Kanо̄ Nobue Shiina, Chigusa Takayama Keiko Hara
Keiko Watanabe, Masuyo Suzumura Yо̄ko Takagi, Chiyoko Shimizu Hiroshi Shimada, Yoshinobu Sasaki Takeo Sonoda
Realizado por: Kirio Urayama
Por aqui, por favor.
Oh, muito obrigado por terem vindo hoje.
- Obrigado. - Adeus, vemo-nos depois.
Adeus! Adeus!
Nagashima!
Nagashima, vai falar outra vez com o chefe.
Prometo que da, próxima vez, não falhamos.
A nossa oficina é das melhores!
Eu depois retribuo-te o favor. Combinado?
Então? Estás tão ocupado que já nem tens tempo para os teus velhos amigos?
Fala!
Estás a abusar da confiança.
Todas as empresas precisam de favores para progredirem.
Achas-te melhor só porque pagaste as bebidas das últimas vezes?
Precisamente.
Mas qual é a tua história com a sobrinha do director?
Andas a aproximar-te dela para te aproveitares?
Sim, algo do género...
Shimizu Automóveis Co. Sim.
Sim, dê-me um momento. Senhor Ono.
Sim.
Sim, sim, fala o Ono. Ah, obrigado.
Não é nada... sim, sim.
Sim, sim, não me diga! Pois, acerca do seu seguro automóvel...
É melhor tratar dele antes que o livrete expire.
Ora, as palavras são suas. Deixa-me sem jeito.
Não, não, eu sei. Tratarei já do seu assunto.
Shimizu Automóveis Co.
Sim, isso mesmo. Com certeza. Muito obrigado pelo telefonema.
O que é que é isso? Uma factura?
Vai tirar 20.000 ienes da caixa. Vou só pedir o carimbo ao responsável.
Por despesas de relações públicas? Então?
960.000 ienes por quatro automóveis? Está um bocado barato demais.
Se nos encomendar os refrigeradores, as reparações,
e revisão dos camiões... Vou encontrar-me com ele hoje à noite.
Não me desiludas. Estou a contar com essa tua determinação.
Sim, senhor!
- Não quero! - Aqui tens.
Vem a Hayama até às seis horas, combinado?
No sábado, é melhor descansares, por causa dos teus planos... do golfe!
- O rapaz é seu filho? - Não.
É o nosso sobrinho de Hayama.
Ena, com que então é o neto do director!
Nós não temos filhos, por isso ela enche-o de mimos.
O miúdo está sempre a pedir para subir à Torre de Tо̄kyо̄!
Aqui tens!
Ai, ai, que dor!
- Atenção! - Pareces o Kaneda, o lançador de basebol!
- Não, sou o Giant Baba, o lutador. - Peço desculpa!
Que fedelho endiabrado!
Muito obrigado pelo trabalho prestado esta semana.
Deixem tudo arrumado! Os acidentes ocorrem por pequenas negligências!
Esperemos que, na próxima semana, continuem o bom trabalho.
Confirmem o estado das fornalhas antes de regressarem a casa.
Adeus.
- Adeus. - Adeus.
Aqui tens!
Não gosto que te portes como há bocado. Faz-te parecer mais esquisito.
Arrendei um quarto.
É sujo, mas possso voltar quando quero, até de noite.
Já estou farto de depender dos outros.
Vem comigo agora. Estou livre até ao fim da tarde.
Estiveste a dar mimos ao Ichirо̄ em frente aos tios da criança?
Porque perguntas?
Porque pareces ter imenso jeito com crianças.
Porque não o levas à Torre de Tо̄kyо̄?
Como?
Eu tenho de levar a minha tia às compras.
E, à noite, tenho de ir ter com todos a Hayama.
Vem comigo para casa já!
Esses teus olhos quando te irritas... Adoro-os!
Ah, peço desculpa.
Adeus.
Lamento imenso por hoje, Sr. Yoshioka.
Logo hoje que é sábado. Devia ter outros planos.
Nada disso.
Será que amanhã fará mau tempo? O que achas, mãe?
Acho que o tempo pouco importa se o teu pretendente for boa pessoa.
Pois é. Ainda por cima, viemos todos até ao sul de Izu.
Quem é que vai dizer que está desiludido?
- Até à próxima! - Vai com cuidado.
- Bem, obrigado. - Obrigada por tudo.
Da plataforma 13...
- Vem ter comigo amanhã! - Mariko!
Vai partir o comboio para Kurihama.
Deixa estar o miúdo do director!
Quem é mais importante para ti?
- Deu-me dez ienes a mais. - Peço desculpa.
Nem toda a gente consegue pôr a vida em ordem com tanta facilidade como tu.
E todos têm as suas próprias circunstâncias.
A minha única opção é fingir. Não tenho alternativa.
O comboio para Kurihama vai partir, embarque antes de as portas fecharem.
Tens de vir. Anda!
Yoshioka!
Adeusinho!
O que estás a fa...? Então?!
Aqui têm o vosso pedido!
Façam o favor, sejam bem servidos.
Desde sempre que ele é fiel aos amigos.
Parece ser boa pessoa, o Sr. Yoshioka.
Se é isso que pensa dele, dê-lhe uma ajudinha.
Ainda por cima, diz que anda à procura de esposa.
Olhe lá, mestre, ofereça-nos aí qualquer coisa!
- Com certeza. - Tem algum irmão?
Sim, tenho.
Este homem pode arranjar-lhe um bom emprego.
A sério? É um banqueiro?
Ainda melhor! Oiça bem, mestre.
Departamento de importações do Ministério da Defesa.
Do Ministério da Defesa? Que cargo extraordinário!
Bem, Yoshioka, tenho de ir embora.
Fique de olho neste palerma, por favor.
- Até à vista, mestre! - Obrigado!
Aqui tem.
Peço-lhe a sua encarecida ajuda, por favor!
Yoshioka!
Dê-me um minuto, venho já.
Esse idiota também gosta de beber uísque.
Arranja-lhe uma miúda. Sabes onde ir?
Sei...
Seja bem-vindo.
Olha para ti... és nova cá?
- Muito prazer. - Não queres passar a noite comigo?
Tão confiante!
Hotel Gaivota
Sr. Yoshioka.
Ei, dá cá isso!
O que estás a fazer? Queres que te leve à polícia?
É para dar à Mitsu. Não posso?
À Mitsu Morita!
- Mitsu? - De quando eras estudante.
Já não te deves lembrar. As pessoas mudam a cada sete anos.
Dou-te uma hipótese de a reveres.
Tão-pouco sei o que é feito dela. De qualquer modo,
a Mitsu está viva. Isso é inegável.
Tu...
Para a deslocação. Volta sempre.
Primavera de 1961
A tua roupa interior tresanda, como de costume!
Não sabes lavá-la? Hein?
Não melhoras da constipação porque andas sempre cabisbaixo.
Sinceramente... Falta-te força de vontade!
Cala a boca.
Não tens adaptabilidade nenhuma! Seu imprestável.
Tanta coisa pelo Tratado de Segurança,
e, afinal, o Partido Conservador vence as eleições.
É isto o Japão...
A nós, os soldados rasos, ninguém pergunta nada, temos de comer e calar.
Agir em conformidade! Estou errado?
Uma carta para si, Nagashima. É outra vez de uma rapariga.
Vou já!
''Espero em frente à estátua do cão Hachikо̄, às três horas.''
“Tenho um profundo respêto pelo movimento estudantil...''
Olha só para isto. Nem sabe escrever.
Nem pensar que vou.
São todas umas porcas! Porcas, porcas, porcas, porcas!
Sete, oito, nove... Em dez, não há nem uma que se aproveite.
Vai-te embora. Já é meio-dia.
Se não fizeres caso, até te arranjo uma.
Esta é fã do Tony e tem 19 anos. Parece ter massa.
Diz que está completamentre disponível. É boa para ti!
Em vez de ficares a dormir, mais valia ires lamber o cu a essas porcas!
Amigos por correspondência
Por exemplo, se um ladrão invadisse a vossa casa,
e matasse os vossos pais, a vossa família inteira...
Estás a inserir os números? Começa com 1-5.
E a seguir é 3-3-1, não é?
Tenho a certeza que é ele.
Anda lá, vai lá perguntar.
Não quero, vai tu...
O que estás para aí a dizer? Só te vim acompanhar.
- Vai lá! - Não!
És a Mitsu Morita?
- Bem, na verdade... - És tu a Mitsu Morita?
Porque vieram as duas?
Ela pediu-me que viesse.
Eu bem te disse que era melhor não vir, eu nem queria vir.
Vais ser repreendida se chegares depois das nove.
Se ele não prestar, dá-lhe com os pés.
Shimako...
Na segunda, ferve a sauna, Na terça, vai à sauna
Trá lá lá lá! Trá lá rá lá rá!
Que lugar tão agradável!
- Está delicioso! - De onde vens?
Da cidade de Hara, em Fukushima. Os estudantes de Tо̄kyо̄ são...
- Refiro-me à fábrica onde trabalhas. - Ah, de Kyо̄dо̄.
Somos quatro num dormitório de dez metros quadrados. Mais as nossas coisas...
Viva! Ficam muito bem juntos. Conheceram-se no Movimento de Retorno?
- Devem andar ocupados, vocês os dois. - Shо̄!
- Olá! Peço desculpa pelo atraso! - Deve ter sido uma maçada!
Ou seja, era uma imitação.
- Olha lá, conheces aquele ali? - Está num encontro às cegas.
Isso ainda está na moda?
Parece que sim.
Que rapaz tão indelicado!
A olhar fixamente para nós! Não achas o mesmo?
Para lá da neblina nocturna, Faz as suas despedidas
O homem valente e vigoroso, E parte...
Cintila, pela janela, o candeeiro
O teu amigo é rico?
É.
Que maravilha, ser estudante!
Viver com qualidade e andar sempre na farra.
Não passam de uns idiotas, sem excepção.
Vamos, vem para dentro. Entra.
Trabalhei dois anos num restaurante em frente à estação de Haramachi.
Então, o meu professor da escola básica disse-me
que havia um bom posto numa fábrica farmacêutica em Tо̄kyо̄.
Os professores só sabem mentir.
Colar etiquetas e embalar caixas não é assim tão mau,
mas quando passas o dia inteiro a esfregar latas,
o fedor da terebentina agarra-se ao corpo.
Que calor!
Ontem, tomei banho duas vezes!
Alto...
Se calhar é melhor voltar para casa...
Vão dar-me na cabeça se chegar depois das dez.
Da próxima vez, eu...
Da próxima vez,
era mais fácil se saíssemos ao domingo.
Mas, de vez em quando, também trabalhamos ao segundo domingo do mês.
Por isso, eu...
Pára!
Não!
Vai para casa!
Não...
Não...
Não...
Não faças isso...
Diz-me, da próxima vez, será que...
Vamos partir.
Vai subir?
Tudo a postos.
Escreve-me!
Universidade Waseda Estação de Shibuya
Olha! Trata aí da pintura!
Ei, Shimada!
És surdo ou quê?
Deixa-me em paz!
Gostas que te chamem chefe e encarregado,
e de andar aí a falar de resultados.
Mas nós é que temos de fazer duas e três horas extraordinárias!
O teu suorzinho não se compara ao nosso suor!
Ora, ora, Sr. Shimada, não é preciso levantar a voz.
Mais tarde, falaremos com a empresa sobre isso, está bem?
Certo, Sr. Yoshioka?
Certo.
Sacana.
Não deve ser fácil ter gente invejosa de si, Sr. Yoshioka.
Mas diz-se que quem mil inimigos tem, mil aliados terá.
Olhe, podia emprestar-me umas seis notas?
Cinco também servem. Ultimamente, não tenho tido sorte nenhuma.
Não tenho esse dinheiro. Ainda não recebemos o salário.
Não me diga. A mim, parece-me que se anda a divertir.
- Mas, mesmo assim, sai-se com essa. - O que queres dizer com isso?
O Sr. Yoshioka já conhece a menina Shimako há muito tempo?
Ela não pára de telefonar. Está a incomodar-nos.
Pede sempre para passar ao senhor.
Hotel Gaivota
Não lhe estou a pedir muito. Pois não, Sr. Yoshioka?
Vamos reflectir no que se passou há pouco e fazer as pazes, sim?
O que é que te deu?
Raios!
Raios!
Escuta bem, Yoshioka!
As tuas ambições serão de pouca dura!
Prepara-te.
Não parece que sejam apenas mexericos.
O nome da discoteca até aparece aqui claramente.
O teu pai também se divertia muito,
mas não admitia que falassem mal dele...
É possível avaliar o carácter de um homem pela forma como se diverte.
Mas eras feliz assim, mãe?
O que é que queres dizer com isso?
Pergunto porque nunca me pareceste feliz.
Não consegui casar-me e encontrar a felicidade como me dizias.
A vida é tua, e sobre ela nada sei.
Mas eu fui amada o quanto baste, e, por isso, fui muito feliz.
- Senhora professora, obrigada. - Muito obrigada!
- Voltaremos a visitá-la. - Obrigada.
- Obrigada por tudo. - Fique bem.
Adeus.
Cairás certamente em desgraça, como dizes,
se confiares demasiado nos homens.
A vida de uma mulher acaba quando deixa que vejam o quão infeliz é.
É estranha...
Essa tua forma de pensar, mãe.
Porquê?
Porque dás demasiada importância às aparências.
Até pediste empréstimos para vestires kimonos Yūki e Ōshima no dia-a-dia.
Dizias que querias ser independente,
mas acabaste por pedir emprestado ao tio de Hayama
para abrires o teu ateliê de acessórios.
Nunca fizeste nada parecido com isso?
Fiz, mas é por isso que quero mudar daqui para a frente.
Tu mais o Sr. Yoshioka, a dois?
Acho que não serias capaz de entender, mãe.
Há algo nele que ressoa em mim.
Não sei explicar a razão.
Mas, seja como for, eu...
Eu cá acho é que te estás a precipitar.
Não tenciono pedir-te desculpa.
Porquê?
Porque seria inútil dizer algo apenas por obrigação.
Então, porque é que os homens e as mulheres procuram dar o laço?
Sei lá.
Nem sei se é mesmo possível duas pessoas se entrelaçarem de verdade.
Mas a verdade é que eu te amo.
É por isso que estou disposto a ir a Hayama e deixar a tua família avaliar-me.
Eu desejo-te.
Que coisa horrível de se dizer.
A tocares nos pontos fracos que fazem logo uma mulher chorar...
Mas, se achas que isso vai funcionar sempre, estás enganado.
As mulheres percebem sempre quando alguém as trai vez após vez.
O que se passa?
Vem para este lado, vou só comprar uma coisa.
Mitsu!
Há quanto tempo estás aqui?
Volto noutro dia, quando tiver tempo. Agora estou com pressa.
Bem, cuida de ti.
Oh, que bem cheira! Nunca pensei que houvesse orquídeas como estas!
Deves ser tolo! Que grande idiota!
Podes ver uma porca e achar que ela é gira,
mas quererias viver com ela para sempre na pocilga?
Os japoneses estão cada vez mais divididos
entre os que conduzem automóveis e aqueles que os lavam.
Ouve lá. Tens de ter cuidado. Se andares distraído, ficas para trás.
Eu sei.
A mulher é o indicador do nível de um homem.
Os gajos que sabem o que fazem têm quase todos boas mulheres.
O contrário também é verdade.
E olha que tu estás bem perto de ser um desses.
É por isso que digo que lhe deves dar com os pés.
Quando ela voltar para a terrinha, deixas de lhe escrever,
e, no segundo semestre, mudas de quarto.
Yoshioka!
Yoshioka!
Vem cá!
Socorro!
O quê?
Yoshioka...
Socorro...
Socorro!
Vem comigo!
Fica quieta! Sua imbecil!
Vamos, vamos, vamos.
Vamos lá!
Vamos, tudo a postos!
Tu nunca falas sobre ti.
- Não tens família? - Tenho, sim.
Pai também?
Já bateu a bota, o teu pai?
Fala japonês como deve ser, com modos.
Toda a gente tem coisas que não quer contar a ninguém.
E os mexericos são uma perda de tempo.
Quando te apaixonares por uma pessoa
Nunca te conseguirás separar dela
Essa primeira pessoa
Que até te faz tremer
Mas espera por ti
Para dar o primeiro doce beijo
Olha, posso juntar-me a eles?
Queima a noite e o peito
Um ritmo palpitante
Tum tum, tum tum, tum tum, Retumba no meu peito
Um fogo que ninguém pode apagar
Se te apaixonares
Nunca te esquecerás
Dessa primeira pessoa
Quando queima a primeira vez, A chama nunca mais se apaga...
Tsutomu...
Misaki Sentido: Costa de Hayama
Zushi
Tsutomu!
- Ora viva. - Tsutomu Yoshioka.
Este é o filho do director e a sua esposa.
Prazer em conhecer-vos!
Podes verificar o motor?
- O quê? - Do barco?
O responsável deixou-o ao abandono.
É de bradar aos céus.
Pois é, é o barco que tem escrito Jupiter.
Com certeza.
Que homem estupendo. Tem um ar tão forte, não é?
E parece ser desenvencilhado, o que é sempre bom.
Tsutomu!
Se não der para consertar, não faz mal. Deves estar com fome.
Vamos.
Vou arranjá-lo.
Se vagueardes à noite pela praia
Recordareis as pessoas de outrora
É verdade, não tenho mesmo como te vencer, irmão!
Pois não! Se fores à Alemanha Ocidental,
vais ver que lá os operários também não se dão a luxos.
Só os Japoneses é que esbanjam o que têm e o que não têm!
Tu é que costumas beber em estabelecimentos menos próprios.
Apanhado! A mãezinha disse-lhe das boas!
Já não bebeste o suficiente?
Gostas deste tipo de coisa?
Desculpe?
Não é muito antiga, mas é uma excelente peça.
Queres levá-la?
Não... Não é preciso.
Vá lá, aceita a oferta! É raro o meu irmão falar assim.
Não quero!
Céus, não tens ambição nenhuma. Deve ser porque és jovem!
Yuki, que tal uma partida mais logo? Quantos tacos já tens?
Desisti do golfe, troquei-o pelo canto.
- A sério? Porquê? - Bem...
Os carregadores de tacos davam-me pena.
Chegaste a carregar tacos part-time. Não foi, Yoshioka?
Ai sim?
O meu marido diz que temos de os maltratar e humilhar.
Só assim poderão treinar e tornarem-se bons profissionais.
Nem mais!
É péssimo quando não reparam para onde voam as bolas.
Mas a maioria dos carregadores de tacos não são mulheres?
É por isso que as chamo de meio-carregadoras de tacos.
Afinal, uma mulher não passa de um meio-homem.
- Não é verdade, Sr. Yoshioka? - Bem, eu...
Não creio que as mulheres sejam meios-homens!
O que é que te atraiu na Mariko?
Isso! É isso que eu mais quero saber!
A Mariko, sabem...
A Mariko... é uma boa menina...
E é muito bonita, a Mariko!
Olha para ele todo babado!
- Já chega. - Deixa estar que eu sirvo.
- E mais? - Isso que estão a dizer não é correcto!
É errado tratar mal os carregadores de tacos!
Concordo!
Eles são fracos.
Mas não podem mudar a sua condição.
O Osami é um bocadinho sádico.
Pois é!
É errado intimidá-los!
Concordo plenamente! Isso merece um aplauso!
És um bebé rezingão. Tipicamente japonês.
E ser tipicamente japonês é mau?
Qual é o mal de ser japonês?
Não tem mal nenhum, até tem algumas vantagens.
E, hoje em dia, há poucas pessoas como tu.
Licenciados que vão trabalhar no duro por iniciativa própria.
Está enganado! Eu não o faço por gosto!
Já chega, está bem?
O que estás a fazer? Leva-o daqui.
Minha sogra...
Que grande confusão. Vamos lá, Mariko, ajuda-me.
- Levantem-no. - Está tudo bem.
- Desculpem-no, por favor. - Ora, porquê?
Sim, sim, já sabemos. Vamos para ali refrescar a cabeça.
- Vais ficar bem. - Vamos, venha por aqui.
Acham que sabem tudo? Mas o que é que vocês sabem?!
- Fique aqui, sim? - O que é que vocês sabem?!
- Yoshioka! - Não te preocupes, está tudo bem.
O que importa é trabalhar, não é?
- Dá-me água. - Isso mesmo.
Quer transformar a nossa empresa na General Motors, director?
Pronto, pronto...
Eu...!
Yoshioka...
O que é que vocês sabem, pá?
O que é que vocês sabem?
O que é que vocês sabem...
1960: Manifestações contra o Tratado de Segurança entre Estados Unidos e Japão
E irromperam novos conflitos. Estamos a reportar do local. Desta vez...
Nagashima! Nagashima!
Vem comigo. Anda, anda daí...
Nagashima, aguenta firme!
Vamos escutar a próxima actuação.
Cantarão 44 alunos do 4ª ao 6ª anos da Escola Primária do Sul.
Ao piano estará Hiroko Takuma, aluna do 6ª ano do professor Kaze Matsuoka.
Coro a duas vozes. ''Para sorrirmos.'' O palco é vosso.
Mariko...
Mariko...
Desculpa pela noite de ontem. Mas não me lembro de nada.
Estive a beber sozinha até de manhã. Não conseguia dormir.
Estás bem do estômago?
Vomitaste duas vezes a vir de carro para aqui.
Até tentaste beber água da sarjeta.
E quiseste bater no Osami, que te impediu de a beberes.
Não te esqueças de mandar os fatos e camisas para a lavandaria. Sozinho.
Mariko...
És incapaz de te dar bem com a minha mãe e com o Osami.
Se tentasse reconciliar-vos,
ficaria tão cansada que acabaria por desfalecer.
Ontem à noite, percebi-o na perfeição.
Mas eu... aceito.
Eu e tu, neste quarto...
Não me oponho a que vivamos nós os dois aqui, juntos.
E o meu tio não te vai despedir da empresa.
Mariko!
Não tens de aceitar se for muita maçada.
Não tens de te sujeitar a um casamento que não garante a felicidade.
Mariko!
Estou farta! Estou farta de ti!
Tsutomu...
Muitos parabéns!
Muitos parabéns! Desejamos-lhe muitas felicidades.
Muito obrigada.
- Bom dia! - Estive este tempo todo à tua espera!
Como está a Mitsu? Ainda está de cama?
Não está nada bem. Passa o dia a tossir.
Porque não a mandaste ao médico?
Não digas parvoíces! Disse-lhe várias vezes para ir.
Então, é uma questão de dinheiro?
Como assim? Eu própria lhe dei. E logo 20.000 ienes!
O que se passa contigo?
- Para onde é que vais? - Para o hospital...
Volta para cima! Quero falar contigo.
Vem para minha casa hoje à noite. Eu pago-te as dívidas.
Em breve, vou começar a trabalhar por conta própria.
Ai! O que é isto?
Pára! Não mexas nas minhas coisas!
Era para o dia em que encontrasses o Sr. Yoshioka?
A esta hora, o Sr. Yoshioka está em lua-de-mel em Hokkaidō.
A esposa é a sobrinha do director dele.
Deixa-te de sonhos, ou ainda morres à fome.
Não temos 17 anos a vida toda...
Vem comigo. Eu deixo que o vejas uma vez.
Seja como for, sou a única pessoa em quem podes confiar.
Espera!
Vai pôr uma permanente no cabelo.
Vai lá!
Estação de Gotanda
Yoshioka!
Yoshioka!
É aquele homem, o que está a comer bolo.
- Mas, eu... - O que foi?
O que é que te deu? E os cinco mil ienes?
Já estás grávida de quatro meses, não é?
É so duas vezes e está feito.
Espera por mim, está bem?
Mitsu!
Mitsu!
- Doutor, muito obrigado por tudo. - Cuide-se.
Até à próxima!
Adeus.
Tão bondoso! Faltou ao trabalho só para a vir buscar.
Nesta situação, qualquer pai se tornaria mais protector.
Temos de mudar o lírio de vaso, está demasiado grande.
Tem razão.
- Obrigado. - O que se passa?
Não precisa de tirar isso. Não se dispa.
Deite-se aqui.
- Quantas já foram hoje? - Quatro.
Estou esfomeado.
Ponha a perna aqui.
Mais para a frente!
O que é que se passa? O que é que lhe deu?
Yoshioka! Yoshioka!
Bem, paramos?
O que quer fazer? Quer desistir?
Yoshioka!
Vamos mas é comer.
- Espere, espere! - Okinu, páre!
Espere, Okinu!
Não faça isso, Okinu!
- Espere! - Páre, Okinu!
Ei!
Espere por nós!
Senhora Okinu!
Quero morrer! Não quero ser mais sustentada por aquele velhaco!
Deixem-me morrer!
Cuidado!
Já chega de partidas destas...
Quantas vezes é que já foram, hein?
Da próxima vez, iremos à polícia.
- Temos muito que fazer. - Se se querem ir embora, vão!
Não pode expulsar a sua nora só porque não queria ser incomodada pelo seu filho!
Pois não! Os tempos agora são outros.
Calem-se! Quem é que vos mandou dar-me sermões?
Vamos lá embora! Quem ainda consegue falar não morrerá!
Não a vamos parar mais. Da próxima vez, faça um bom serviço!
- Que grande lata! - Ainda por cima, estamos tão ocupadas.
Olhem, a velha voltou!
Onde fica a casa dela?
- Vem por aqui! - Velha nojenta! Velha nojenta!
E vem às cavalitas duma mulher! Não dizes nada?
Maldita velha!
Aqui! É aqui!
O que é que foi, velha maldita?!
Traz-me uma tigela de água. Esfolei as pernas.
- Velha nojenta! - Velha nojenta!
Calem-se!
O que é que andas a fazer, velha maldita?
Resgatada por uma rapariga estranha...
Este é como uma rã quando lhe mijam em cima.
Não quer saber se a mãe vive ou morre.
Vai-te embora de vez! Desaparece!
Este aqui nem um tostão tem, mas é tão tarado
que se deixou enganar pela matulona do restaurante,
e deu-lhe o dinheiro todo até ficar sem que comer!
O que estás a fazer?!
Nunca agiste como uma mãe! Andavas sempre enrolada com homens!
Deixa de ser egoísta, e vai para o raio que te parta!
- Estás a magoar-me! - Velha de um raio!
Larga-me!
Vai trabalhar, se precisas de dinheiro!
O que estás a fazer, seu traste? Malvado!
O que é que tu fazes?!
Passas o dia de gatas,
no meio do óleo, na casa das máquinas!
Já és tão velho, mas não ganhas dinheiro nenhum.
E deixas-te enganar por uma cabra. Não tens vergonha?
Sua bruxa velha! Morre!
Morre de uma vez por todas!
Ai...
Seu sacana!
Vai para o inferno!
Saiam da frente! Saiam da frente! Abram alas!
- Raios vos partam! - O que está a fazer?
Grande mal-criado!
Instituição social Lar de terceira idade de Tōkyō
Mas, sabe, avózinha, nos dias que correm,
há muito boas mães que morrem às mãos dos filhos.
Quando as emoções se descontrolam, as pessoas são capazes de tudo.
- Tem razão. - Não concorda?
Vá para onde for, não existem paraísos. É o mesmo para este lar.
Podemos não ter dinheiro, mas compensamos com apoio emocional.
Estamos todos a fazer o nosso melhor.
E, se ficar connosco dois meses, ficará bem do estômago.
- Pois é. -Não acha?
Vá lá, fique connosco. Não lhe fará mal nenhum.
Ele tem razão. E o Hachirо̄ virá visitá-la de certeza.
Isso mesmo...
- Por favor, cuide dela! - Imploramos!
De qualquer forma, vou precisar que me tragam
uma autorização do filho arruaceiro.
Eu... estou aqui!
A menina?
Eu posso ir buscar a autorização dele. Por isso, esperem aqui. Por favor.
A menina é da família?
Não temos laços familiares, mas eu não tenho para onde ir.
Farei qualquer coisa! Eu...
Farei qualquer trabalho que seja preciso!
A carta de vinte pontos! Bolas...
Já está! Consegui!
- Toma! - Que sorte...
Até as empregadas domésticas já andam a ganhar 20.000 ienes.
Mas não sei quanto é que fazes a cuidar dessa gente enrugada.
Vou pagar as dívidas com o salário. Por isso, devolve-me as minhas coisas!
Podes ser burra, mas és incrivelmente atrevida.
Que rapariga mais burra!
Eu atendo.
Estou sim?
Sim, compreendido.
- É para ti, Megumi. - Quem é?
O homem das obras.
- Aquele com bigode? - Sim, está bem.
Fá-lo esperar. Não faz mal.
Esse velhadas é que não tem emenda!
Ainda tens as antigas cartas do Sr. Yoshioka?
Hei-de dizer-te em breve onde é que ele trabalha.
Maldito velhadas!
Faz o que te digo, e as tuas coisas...
Devolve-mas!
Olá.
O quê? Ainda estão a jogar?
Bem-vindo de volta. Parem lá com isso.
Temos de arrumar isto.
Vá lá, despachem-se a arrumar.
Quem é esta? É tua amiga?
Sim.
Não!
Pára com isso, querido.
Ainda é muito cedo para isso. Vá lá, levanta-te.
- Dá-me as coisas! - Sim, vou dar-tas.
- Já tas dou. - Tenho de ir fazer xixi!
Espera aí, venho já!
Para já, dormes aqui. O colchão está dentro do armário.
Não quero.
Vou arrendar-te um quarto para poderes trabalhar.
As minhas coisas, por favor!
Ei, porque estás a demorar tanto?!
Olha que ele se zanga.
Comigo, podes ganhar 50 ou 60.000 ienes por mês.
Shimako!
Meu querido!
Oh, querido!
Espera um pouco, querido.
Fecha a porta, ela pode ouvir.
Não importa. Só lhe faz bem.
Pára com isso! Pareces um miúdo!
As cerejeiras estão tão bonitas!
- Pois estão! - Ainda mais, com o vento!
É aqui!
- A Yuriko vive aqui? - Sim, vive!
A sério? Que casa incrível!
A Yuriko sabe mesmo representar. Faz um milhão por filme.
Não é como as outras actrizes. Será que ela nos vem cumprimentar?
Menina Yuriko! Yuriko!
Isso querias tu, sua tonta!
Yuriko! Menina Yuriko!
Dê a cara!
Deve estar a dormir, depois de tantas filmagens.
Tens razão.
Shimako, onde é que vais?
Espera um bocadinho!
Despacha-te! Despacha-te!
Está ali um cão! Vamos, vamos!
Vamos, por aqui!
Nem acredito! Estás a ver? É uma lata de Coca-Cola que a Yuriko bebeu!
- Ai! - Ai!
- Que malvada! - Tu é que és!
Miyashita 3-chо̄me, Setagaya-ku, Tо̄kyо̄, Farmacêutica Tо̄hо̄
Foi tão divertido!
Queria ter convidado mais amigos, mas temos pouco espaço.
Não, é grande que chegue.
Mas eu continuo a achar que, pensando nos futuros filhos,
o melhor era terem a vossa própria moradia.
De qualquer forma, quando o Osami voltar da Alemanha,
vão ter de lhe ceder esta casa.
Nessa altura, procurarei outro apartamento. Não tenho dinheiro agora.
O meu irmão de Hayama ajudar-vos-á.
Ele diz que podemos construir uma casa para todos no seu terreno.
Chama-me quando for o teu aniversário!
Sim, eu sei.
- Cumprimentos ao teu marido! - À tua mãe também.
- Obrigada pela óptima refeição! - Boa noite!
- Tchau! - Adeus!
Diz-me, quando é que a tua mãe parte de Hiroshima?
Na quinta-feira, acho. Mas não haverá problema.
Vai ficar a dormir em casa de uns familiares em Ikebukuro.
Não, ela que venha para cá!
A minha mãe também a quer conhecer.
Eu prometo que lhe faço um banquete!
Aí vem ele!
Olá.
Queria mostrar-vos Tо̄kyо̄ hoje,
mas tenho ir de urgência a Kinugawa para acompanhar clientes.
Telefona para este número.
- Trato já disso. - Está bem.
Tome, mãe. Vão os dois ver as atracções.
Deixa estar! Não te rales.
Toma lá, aceita, seu tolo.
- Sente-se, por favor. - Sim.
Temos de falar da adopção do menino.
- Adopção? - Sim.
Pelo tio Namioka. As duas filhas mudaram-se para Ōsaka.
E ele queria muito que to contasse.
Mas e o liceu? Vais viver para o meio do montanha?
- Não importa. - O tanas!
Na verdade, dizia que queria ir para a escola agrária e trabalhar os pomares.
Além disso, não te queremos incomodar mais.
E a mãe, o que vai fazer?
Eu ainda estou apta para trabalhar.
Irei para casa da minha irmã, em Fukuyama.
Entendo...
Tudo bem por mim. Se é essa a sua decisão.
Olha, uma girafa!
Também há pandas aqui?
- Há! - Há mesmo?
Aqui tem.
Obrigado.
Vou tratar agora do autocarro e do hotel.
Sim, por favor.
- Desfrutem da visita! - Obrigada.
Ainda bem que tens tido tanto sucesso!
- Não é nada de especial. - É sim, é excelente.
Eras um bom menino quando eras pequeno.
Até ganhavas o teu dinheiro com biscates, enquanto estudavas.
Para nós... tu és o nosso orgulho.
Há mais alguma girafa naquela casinha?
Mas que pescoço tão comprido que ela tem!
Ei, está aqui uma visitante!
Já vou!
Ah, vem cá.
O que é que tu queres? Dá-me isso...
A sua mãe está melhor.
Sente muito a sua falta. Venha vê-la!
Quando receber, leve-lhe um presente!
Não quero saber dessa velha!
Dás-lhe a mão e ela quer logo o braço. Velha de um raio!
Ela não é assim!
Ela até me pediu para ir ver se a sua casa está em condições.
É muito bom ter amigos, não acha?
Ouvi dizer que comprou muitas coisas para a sua mulher, não foi?
Como é que ela era?
Uma porca. Como todas as mulheres!
São todas umas porcas!
E os homens são iguais!
- Queres beber alguma coisa? - Não...
- E que tal arroz com caril? - Pode ser.
A senhora está cada vez mais magra.
Ei!
Bem-vindo, bem-vindo!
Vamos ter oito convidados.
Estão cansados das geishas do campo. Arranjei raparigas de Tо̄kyо̄.
- É seguro? - Sim.
Obviamente, não virão juntas.
Foi a Shimako que tratou de tudo.
- A Shimako? - Ela também vem.
A angústia da pupila
A imagem está desfocada!
Olha! Mostra lá mais para baixo!
Bolas, já não tenho dinheiro que chegue! Francamente!
- Uma pessoa entusiasma-se... - Já fui à vida...
Toda a gente parece estar satisfeita.
Não esperava que nos viesses ajudar hoje.
Somos amigos desde os tempos do cão Hachikо̄.
Nunca mais a viste desde essa altura?
Não...
Quer dizer que a abandonaste uma segunda vez.
Ando muito ocupado recentemente.
Ah, claro.
Então, presumo que não tenhas tempo para pensar nos outros.
Onde é que ela está agora? Ainda em Gotanda?
A sério que a queres ver?
A Mitsu ficará radiante se te vir.
A Shimako também me disse o mesmo várias vezes.
Mas era evidente.
Para dizer a verdade, tive muito medo.
Mas queria tanto ver-te...
Vieste a Gotanda uma vez.
Sim.
Isso foi antes de me casar.
Ai foi?
Depois disso, fiquei tão atarefado.
Tive cada vez menos oportunidades de vir.
Compreendo.
Fico feliz por ti.
Não mudaste nada. Ainda bem.
Perdoa-me, Mitsu.
- Eu sempre... - Não faz mal.
Se dissesse ''sempre'' seria mentira.
Mas, às vezes, tenho umas saudades loucas de ti.
Não digas mais.
Fiquei contente por te rever naquela altura.
Foi por isso que me consegui afastar da Shimako.
Porque te vi mais uma vez.
No fim de contas, é só isto que está ao meu alcance.
Quando as coisas melhorarem, farei mais por ti.
Não é preciso.
Ando bem vestido, mas não tenho um tostão.
Os meus negócios estão dependentes da ajuda da Shimako.
Na verdade, estão a correr-me pessimamente.
Deixa, não me faz falta.
Aceita. Aceita a minha oferta.
Não.
Nunca recebi nada no passado.
Perdoa-me.
Mas já não somos como antigamente. Eu e tu.
Dantes, queria depender de ti para ser feliz.
Tentei fazer de conta que não via
aquilo em ti de que não gostava ou me dava medo. Mas não devia.
Tu fugiste de mim. É natural.
Afinal, eu queria depender completamente de ti.
Tens razão.
Toda a gente quer depender de alguém, mas não pode ser.
Porque, quando essa pessoa se apercebe, afasta-se.
É por isso que temos de acabar com isto. Connosco.
Adeus.
Até sempre...
Tudo aquilo que me deste fez-me feliz.
Tudo o que tens para me dar, o teu perdão incondicional.
É tudo o que um homem como eu agora precisa. Por isso, amo-te!
Amo-te de morte.
Estou cansada de viver.
Trabalho no lar de idosos mencionado na carta.
Cuido de velhotes que não têm para onde ir para me sustentar.
Se partilhasses comigo um mero pedaço da tua felicidade...
Envio-te algumas das tuas cartas antigas.
Quero guardar o resto como recordação para a posteridade.
Vou tê-las sempre perto de mim, eternamente.
Yanagisawa, quarteirão 4, nº1, cidade de Hoya.
Lar de terceira idade de Tо̄kyо̄. Mitsu Morita
- Obrigado pelo vosso esforço. - Sejam bem-vindos.
Obrigado!
Olá, como tem passado?
Avózinha, discutiu outra vez? Não pode ser tão teimosa!
É hora das cantigas. Venham todas comigo!
Cantar faz-vos mais bem à saúde do que ficarem aí especadas.
- Vais cantar? - Eu?
Ela é que queria cantar. Nós cantamos se cantares primeiro.
Não eras tu quem queria cantar?
- O que dizes? - Não é verdade?
Eu canto, assim que despachar o serviço.
Em todas as casas, de Yasugi
Uma avalanche de pétalas
Tantas visitas e tantas caras novas... Não deve ser nada fácil para os velhotes.
Pois não.
A troco de visitarem os idosos,
algumas pessoas usam o nosso palco para ensaiarem.
- A sério? Que horror! - Não, não.
Se não formos gratos a esse tipo de apoio,
um serviço social como o nosso não terá futuro.
A meu ver, o mais importante é partilhar
com o maior número de pessoas possível,
a realidade do apoio social aos idosos.
Hoje, aprendemos imenso.
Ora essa, agradeço as palavras.
Hoje em dia, há cada vez mais idosos desamparados.
Até porque a esperança de vida aumentou.
Quando começou a trabalhar neste ramo?
Bem...
Perdi a minha perna na China, durante a guerra.
Nessa altura, fui salvo por um casal idoso de camponeses chineses.
Posso dizer que tudo começou graças a eles.
Mitsu Morita?
Eu sou a esposa do Yoshioka. Mariko Yoshioka.
Quanto é que queres, tu?
Quanto? Di-lo sem rodeios!
- Eu... - Digas o que disseres, neste momento,
é só isto que te podemos dar.
E olha que me custa imenso abrir mão deste dinheiro.
Mas, se ele fizer com que corrijas a tua atitude...
Mas eu...
Se ele te fizer esquecer o passado, já terá valido a pena.
Foi por isso que pensei dar-te este dinheiro.
Os problemas do Yoshioka também são os meus!
Peço imensa desculpa!
Por isso, peço-te que me dês o resto desta carta.
Não tenho razão? Ainda podes endireitar a tua vida.
Conta-me lá. Onde está o resto?
Há muitas cartas como esta?
O que é que estás a fazer?
Isto... é meu.
Quem é que achas que sofreu mais?
Não tens direito de amar o Yoshioka!
Eu amei verdadeiramente o Sr. Yoshioka.
Fica com isto, então!
Se continuares a importunar-me, se continuares a atormentar-me,
irei à polícia!
Senhora!
Senhora!
Mitsu!
O que é que aconteceu? Está toda a gente à tua espera.
Aconteceu alguma coisa?
Estávamos à tua espera, Mitsu!
Vou cantar a Shinsо̄ma.
Aquele lugar longínquo será
O céu de Sо̄ma? Será mesmo?
Essa Sо̄ma das paixões, da nostalgia
Será mesmo ela?
- Também devolveste os 50.000 ienes? - Sim, devolvi!
Se continuares a intrometer-te...
Não lhe devolveste o dinheiro que ele te deu no hotel?
- Não foi nada disso! - Não? Foi o quê, então?
Foi amor?
Foi amor?
E ele? O que achas que pensará de ti?
Ele leva uma vida pacata, num apartamento, com a sua bela esposa.
Com a sua bela esposa!
Seja como for, não importa.
Aqui estão elas.
As fotografias que vos tirámos.
Vê só.
Escuta.
Só precisas de lhe dizer que vais mostrar as fotos ao chefe.
Se o fizeres, ele paga-te, no mínimo, uns 300 ou 400.000 ienes.
Tens aí a causa para uma disputa familiar.
Ele que venha cá. Eu telefono-lhe.
Nem pensar! Se fizerem isso, chamarei a polícia!
Se fores à polícia, eles vão chamar o Yoshioka.
O snack das três é Bunmeidо̄!
O pão-de-ló é numero um, para ligar é o número dois, o snack das três? É Bunmeidо̄!
Não percebes nada do sofrimento alheio!
Não há ninguém que não sofra neste mundo!
O Yoshioka também?
Odiar-te-ia se não fosse parecida contigo.
Mas se tentares sabotar-me, podes crer que te odiarei!
Gostas assim tanto dele? Do Yoshioka?
Qual é o mal em amar alguém?
Ei, qual delas é que é?
Está aí escrito, não está? Na parte de baixo.
O que estás a fazer? Sua deficiente!
Raios! Pára com isso, sua imbecil!
Não brinques comigo! Sai daí!
Vem cá, levanta-te!
- Sacana! - Pára! Sua cabra!
O que é que queres? Estúpida!
- Calma. - Sua idiota!
Morre mas é, sua idiota!
- Ei! - O aquecedor pegou fogo!
- Grande vaca! - Oh, não!
- Traz-me um cobertor! - Um cobertor...
Qual cobertor! Água!
Alguém me acuda!
Alguém me acuda!
Grande cabra!
Mitsu...
O que é que te deu, Mitsu?
Mitsu!
Desde o seu tempo de estudante?
Não deixaremos que a sua empresa ou família saibam do sucedido.
Mas essa mulher que se diz amiga lucrou imenso como proxeneta.
Apenas gostaríamos de ter alguns documentos que o atestem.
Foi uma relação passageira com a senhora Mitsu Morita?
Foi...
No fim de contas, não passou disso mesmo, não foi?
Exactamente.
Conduz-nos até à terra
Da eternidade!
Conduz-nos até à terra
Da eternidade!
Ámen
Rogamo-Vos, nosso Senhor, Jesus Cristo,
que protejais a Vossa ovelha. Aceitai-a no Vosso rebanho.
Ámen.
Damos por terminada a cerimónia fúnebre da menina Mitsu Morita.
Venha, por aqui.
Faça favor.
Faça favor.
O que raio estás a fazer?!
Dê-me a fotografia, por favor...
Nem pensar!
Vai-te embora daqui!
Bem, posso dar-lhe uma fotografia pequena, se assim desejar.
- Vai-te embora! - Hachirо̄!
Vai para casa!
Fora daqui, sacana! Fora, pá!
Aconteceu algo?
Esta casa está muito silenciosa...
Hoje, aconteceu muita coisa. Por isso, bebi uns licores intragáveis.
Com a Mitsu Morita?
O que significa ela para ti?
Um caso? Ou ama-la?
Quando é que a viste?
Ontem, fui dar-lhe dinheiro. Ela dizia que o desejava.
''Quero ser indemnizada pela conspurcação da minha juventude.''
Que carta mais arrogante e nojenta!
Estás a estranhar algo?
- A Mitsu não escreveu isto. - Não digas o nome dela!
Esta não é a Mitsu. Quem escreveu isto foi a sua assassina!
Pára de dizer o nome “Mitsu”! O que significa ela para ti?
A Mitsu sou eu.
Mas eu...
Eu não sou a Mitsu.
Só que a Mitsu sou eu.
Amava-la?
Afinal, não foi só um caso.
Com uma mulher daquelas...
A Mitsu morreu ontem.
E eu também morri.
Fui interrogado pela polícia, hoje.
E voltei a abandoná-la.
Fingi que ela não passava de uma desconhecida com quem me enrolei.
Mas ela há-de perdoar-me.
Ela era a ternura em pessoa.
Só tu para dizer isso! Achas que tudo te pode ser perdoado!
Tudo o que ela tinha era ternura e nada mais.
Mas a sua ternura foi o que a condenou.
Portanto...
Portanto, deste-lhe com os pés e escolheste-me, não foi?
Então, isto foi tudo calculado e a pensar em ti!
Mariko, achas que consigo agir apenas de forma calculista?
Já percebi perfeitamente que tipo de pessoa és!
Por muito que gostasse de ti, havia sempre uma certa distância.
Agora, percebo porquê!
És arrogante, um desenvergonhado, um cobarde!
Recuso-me a ter vergonha!
Até os actos mais vergonhosos merecem perdão!
- A minha vida inteira, a Mitsu...! - Gaba-te lá, então!
Continua a gabar-te do quão incrível és, tão forte e maravilhoso!
Fica aí a falar sozinho, a vangloriar-te!
Mariko, não vás!
Não te vás embora, Mariko!
Tu também és a Mitsu!
Não vás!
Mitsu!
Já vou!
Mitsu, dá-me aqui uma mãozinha!
Sim!
Mariko, aperta com mais força!
Está bem!
Não há dúvidas. Está grávida há oitenta e poucos dias.
Obrigada.
Alimente-se bem, sim?
É muito magra, mas não sofre de anemias sequer.
Terá certamente um bebé saudável.
Muito obrigada. Quanto lhe devo?
Deixe-me ver...
Tão persistente.
Estou de volta.
Chegaste tarde. Por onde é que andaste?
Hachirо̄, podes comer pão ao almoço?
- Sim, qualquer coisa serve. - Mas vou preparar-te um bom jantar.
Para celebrar a tua promoção a fogueiro de nível dois?
O que pensará ele quando desaparece por debaixo da terra onde não brilha o sol?
Maldição!
Quem é que vai pensar para debaixo da terra?
Ah, estou esfomeado!
- E se eu fizer umas torradas? - Aquece só uma sopa miso.
Há leite e manteiga no frigorífico.
Dois-dois, Rei!
Três-três, Ouro. Xeque-mate!
Maldição, quero a desforra!
Caramba, és mesmo teimoso!
Mitsu.
Porque é que morreste?
Porque...
persistes em viver e atormentar-me até ao dia de hoje?
Devia ter-te conhecido melhor, sabido mais de ti.
Mitsu.
Agora, tenho de olhar fixamente para aquele que te matou,
e prosseguir lutando contra ele.
Amando quem amo por toda a vida, até que ela se me finde.
FIM
Legendagem: Miguel Patrício Tradução do japonês: André Pinto Teixeira
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