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Às vezes eu fico imaginando de que forma que as coisas acontecem.
Primeiro vem o dia.
Tudo acontece naquele dia.
Até chegar a noite.
Que é a melhor parte.
Mas logo depois vem o dia outra vez.
E vai.
Vai, vai.
E é sem parar.
A única coisa que não tem mudado ultimamente é o Santa Cruz nunca mais
nada. Mas nem título de honra.
E eu não tenho encontrado alguém que me mereça.
Só se ama errado.
Eu quero é que todo mundo vá tomar no cu.
Vamos afastar o baixo astral que de hoje tem 20 mil reais.
encontrou seu marido com amante. Aí a coisa ficou presa.
Ela, uma evangélica, bateu pra cima da fulana, que foi um tal de Deus, do
sacuda. Resultado, amante no hospital, ferida.
deixando você muito bem informado, porque, afinal de contas, nem tudo é tão
difícil em Recife.
Pegar a Kombi, minha senhora, por exemplo, é uma coisa muito fácil.
Você pega por uma Kombi também.
Caso de polícia não fosse a polícia, a principal suspeita do homicídio de dois
meninos do grupo escolar de Ampolzá, que apareceram no banheiro da escola, 14
anos cada qual, e vivem mortos por dois policiais que faziam a ronda.
Motivo do crime?
Maconha! O negócio é o seguinte, quem viu não quer falar, quem fala só ouviu
dizer.
É isso mesmo, essa é a tropa da cidade, com uma verdade diretamente no seu
rádio. Aleluia, irmãos!
Aleluia, irmãos!
Devemos temer o demônio e glorar ao Senhor.
Não devemos dar espaço em nossas mentes para que Satanás invada nossos corações.
Amém! E faça sua morada.
Aleluia!
A arma contra o sofrimento.
em nosso Senhor Jesus Cristo.
Amém!
Louvemos ao Senhor!
Eu sou capaz de matar um homem?
Entre todas as espécies que habitam o mundo, o homem é o que mais merece
Na verdade, sabe, eu já matei um. É por isso que me chamam de Carnaval.
Wellington Carnaval.
Olha, a única coisa que eu não seria capaz de matar é Kika.
Não é a mulher mais bonita do mundo, não, mas é melhor porque é crente.
É.
É que Deus a conserve daquele jeito assim.
O Deus, ele diz, meu amigo, que eu confio mais em Kika que em mim.
cada coisa bonita.
Mangodini amarelou, não vai ficar de graça.
Mangodini
amarelou, não vai ficar de graça, dentro dessa caixa, um corpo indigente, um
corpo que não fala, um corpo que não sente, dentro dessa caixa, um corpo
indigente, um corpo que não fala, com licença, dona Aurora, um corpo que não
sente, mandou de mim, amarelou, não vai ficar de graça, dentro dessa
caixa.
Subiano, Subiano, está procurando aqui.
É a chave da dispensa, Dunga. Não tá no terceiro gancho, não.
É, tá danado, né, rapaz? Fazia tempo que eu procurei essa chave no encontro. Não
tô subindo, não.
O que já tá ficando já meio jastego, já, viu?
A chave no mesmo lugar de sempre, pra mim não acha, não.
O que é que o senhor tá, mais óbvio?
Uhum. Não sei.
Eu vou ver.
Ô, Dunga.
O Isaac tá acordado?
Aquilo acorda antes das 10 do dia mesmo.
Pois vai acordar.
Diga que é urgente. É um tal de rabecão.
É um pouco.
Mas o senhor sabe como ele fica.
Parece uma fera do mato, com aquela cara de papai no meio.
O que é, porra? O que é, porra?
Vai tomar no cu!
Tá esperando?
Responde, viado! Ele tá esperando!
Sou eu mesmo.
Vou até acordar agora, caralho.
Fala aí.
Olha só, daqui a 40 minutos a gente se encontra no local de sempre.
Pronto.
Claro que eu vou levar o doido.
Não, está tudo conformado, combinado, decidido.
Olha, estou falando.
Bati o martelo, pronto.
Para, Ravecão.
O que foi?
Está me estranhando?
Rapaz, pendura a carne ali no ganchinho.
Pendura.
Bota a carne ali no ganchinho.
Tô por perto, né, Domingo?
Qualquer hora tu pode dar o pote, né?
Mas não tenha medo, não.
Quem não deve, não teme.
Tire bem a pelezinha dela, deixa a carne bem tratadinha.
Bora, porra.
Caralho, Dunga, porra.
Por que tu não vai sacudir essa merda na puta que teve a infelicidade de te
parir, Dunga? Hein?
Merda.
Caralho, eu tenho que ir cuidar dessa bicha melhor que essa porra de que põe
mim.
Vai aqui, Dunga.
Meu Deus, que foda.
Eu te fodo.
Com certeza.
É, fodinha.
Tu é fodinha, fodinha, né?
E... Dona Kika, a quantas anda?
Aquela com a graça de Deus de ajuizada, viu? Crente.
Qualquer dia, sabe, dominha, sei eu que marco nessa.
Tô mesmo parado com uma... Aquela que é mulher de sorte, come muita carne, né?
Gosta não.
Olha na cama, ela até que é fraquinha, viu? Ela é boa como mulher.
Não acredito.
É a forma mais inteligente da perversão.
E então, dona Lígia? Calma.
Tô pensando.
Essa noite eu sonhei com o dia de hoje.
Sabe de uma coisa?
Essa cena eu já vi.
Olha lá.
Já aconteceu.
Hoje não é 16 de junho?
Com certeza.
Hoje eu completo anos.
Eita! O bicho tá ficando velho, hein?
Velho não.
Experiente.
Então tá certo.
Me joga a data de hoje.
Do primeiro ao quinto.
Na milhar e na centena.
Faz invertido também, faz.
06, 16.
Bom jogo, hein?
O bicho que deu ontem? Ontem deu o cachorro. Tá, que pariu.
Eu joguei vaca. Vamos espiar nossas culpas aqui.
Eu não sou rico, mas tenho culpa.
Ter senso no Brasil é ter motivo de culpa. Vai começar o show.
Eu já tinha espiado isso num sonho também.
Eita. Tá vidinha mais ou menos, isso.
Ô, Lindinha, não vai trazer um negócio pro nosso Jinju, não, é?
Até mais, Ana Lígia.
É. Traz -lhe uma cerveja.
Até mais.
Até mais, Jovem Ano.
Já tá confuso.
da felicidade reina.
Viva Dinamarca!
Ai, que moleque!
Aí, o que mais pode se esperar da vida?
Puta que pariu!
Ô, Duga!
Duga!
Duguinha! Meu Deus!
O que foi? Onde é o incêndio?
Olha, parece que o padre vai comer com a gente hoje, viu?
Rodolfo, o que é isso?
Está chorando, é?
Claro que não, né, seu Biano? É a cebola.
Porra da cebola.
Cebola.
Mas é cada um.
Era só o que me faltava.
Ninguém é inocente.
Há muito tempo se perdeu a esperança nos homens.
O castigo urge e grita aos sete cantos. Os humanistas de
beira de púlpitos se apiedam, pois que se apiedem de suas próprias almas,
pois é justamente o orgulho da bondade que reside o maior de todos os pecados.
O homem morre, o mundo se expulgue e as chamas se consomem,
mas a sua vida acompanha o fato.
Lígia, minha manga, me dê mais um remédio para o seu amigo e uma moela de
tiragosto.
A moela está dormida.
Ah, mas tem passarinha, Sérgio?
Que frio não, flor do meu bairro.
Vou passar a mão no rabo dessa galinha.
E uma cerveja, hein?
E foi aí que eu ouvi toda a história dos argentinos.
Filho da puta, hein?
Um dos tais falava assim, primeiro pensamos em ser argentinos e passamos a
espanhóis.
Nidi,
Nidi, como é que brasileiro distingue espanhol de não espanhol?
Depois de muito nhenhenhen, falaram a frase mó, o tesouro do pensamento
brasileiro, a frase que humilha antropólogos.
Vamos comprar um carro.
Um carro no Brasil vale mais do que um caráter.
Eu odeio argentino, mas tive que considerar os brasileiros.
E a conclusão era brilhante. Os habitantes do Brasil
nutrem certa admiração pelo engodo.
O prazer do brasileiro médio é ser enganado.
Tu vai te sentar em cima de um caralho!
Estão pensando que minha bunda é a bucheta da tua mãe? Vai se fuder! Tá me
ouvindo? Vai se fuder!
E tu me solta aqui também!
Seu porra! Vão trabalhar, seus filhos da...
Meu copo d 'água está lixo da verdura que eu vou lá.
Agora, que o Biano... Por favor, que o Biano traga para mim uma caixinha de
bilírios.
Cacete, rabicão! Mas que demora da porra! Devagar, devagar, cidadão.
E aí, cadê o bicho?
Tá aí dentro.
E o estado?
Tá muito avariado?
Olha, o corpo tá meio perfurado, mas aguenta.
Tá gelado.
Gelado? Tá picolé.
Caralho!
Olha aí.
Manera com o bicho aí, hein?
Não tem dono mais.
Bom, eu só tô avisando. Tá certo.
Se manda, Rebecau.
Ah, Isaac, não esquece. Te espero numa avenida, hein?
Lazy. Tá bom, obrigado, viu?
Ih, ué, porra, você tá fedendo, porra?
Caramba. Ó aqui, ué, já enchi o saco, tá? Que isso, meu amor? Pô, meu irmão,
isso?
Tu vai ter que escolher sim, senhor.
Eu não vou ficar levando nome de puta por aí, tá? Eu sou a que não presta, a
ruim, a safada.
Ontem, meu pai que não consegue nem andar direito.
Olhou pra mim e falou assim, na sua tacada, vagabunda.
Quica, quica. Quica o caralho, porra. Beije minha filha, beija uma coisa.
filha, o cacete. Que isso, Wellington.
Virou parente agora?
Mas eu não tô dizendo.
Wellington, meu pai me chamou de vagabunda, porra.
Sabe por quê?
Sabe não, né? Por tua causa.
E tu foi contar pra ele. Claro que eu não contei, né? Sou frouxo.
Mas ele tá sacando, bicho. Ele saca que eu tô de casa com homem casado.
Namorado fantasma é homem casado.
Deus me livre que ele saiba que o homem é tu.
Do jeito que ele gosta de Kika.
Tá lá, sonsa. Não, sonsa não. Kika é crente. Kika não é do tipo que... As
crentes são as mais safadas, viu?
Repete!
Repete! Repete se tu tem coragem!
As crentes são as mais safadas!
Bate! Bate!
Então vai, bate.
Bate, canibal.
Olha aqui, se tu não exagerar, tu leva a pior.
Tu leva a pior, entendeu?
E se teu pai que te conhece te chamou de vagabundo, é porque tu merece. Tá me
entendendo? E eu não vou encher essa tua cara de porrada, mas não vou encher
essa tua cara de porrada, não. Porque tu merece, tu merece. Agora é só me
interesar, que vontade não falta.
Agora, olha aqui, eu nunca mais falei de Kika.
Nunca mais falei de Kika. Respeite Kika.
Não, eu te enfodo aqui.
Eu te enfodo.
Nunca mais falo de Kika, tá me ouvindo?
Tô indo.
Hoje eu vou lá no terreiro.
Ah, se não vou, vai ver.
Vou pegar canibal é na virada.
O trabalho já comecei, agora só termino quando aquele porra estiver aqui, ó.
Na minha mão.
Ó, ó.
Vai. Vai lá.
Fica lá com aquela bilolada daqui, com aquela cebosa da Deise, vai.
Ó pra vocês.
Arroz. Arroz.
Eu vou dar uma rasteira nas duas.
Vai subir racha.
Ó. Ó. Vai subir racha.
Meu filho, bicha quer, bicha faz.
Eu?
Ficar cegado?
Vai debaixo da areia.
Eu sou mulher pra não conseguir o que eu quero? Hum, eu consigo.
Olha, Deus que me perdoe, mas eu faço tudo.
Eu não tô de brincadeira.
Agora? Fica aquela lá de Jesus é amor, a salvação, caralhada.
E Dave?
Dave é só escratinho, se rala a coxa.
Mulher viciada em mar casado.
Ai, vale Deus que me perdoe. Imagina que até essa bueira já mamou naquele peito.
Safada.
Safada do jeito que é.
Deve ser verdade mesmo.
Agora, ó Dave.
Eu é que não trocar um macho como o Wellington.
Por causa de uma saboeira, né, nega?
Ah, lésbica.
Mas eu arranjo as coisas.
Ela vai lá no terreiro, eu bato com ela.
Jogo o verde pra colher maduro.
É de brincadeira? Mas porra!
Eu consigo.
Dunga, meu filho, vai ter almoço hoje?
Já, já, dona Aurora. Olha...
Olha, fique lá com o seu bianô conversando. Quando estiver pronto, eu
senhora, viu?
Tu tá com a cara de quem tá aprontando, Dunguinha. Já vi essa cara antes.
Ai, ai, dona Aurora, hoje eu não tô muito pra brincadeira, não.
Fique lá com o seu bianô, senão não vai sair comida hoje nessa casa.
Vá.
Chegou, chegou, chegou, chegou, chegou, chegou Ligia.
Falou, falou, falou, falou, falou.
Todo material, né?
Amarelo feito manga.
Puta que me pariu. Que mulher da porra.
Quem é essa, Rabecão?
A louva do Avenida, meu irmão.
Essa mulher é muito doida.
Parece puta.
Mas ninguém aqui comeu ela.
Ah, está brincando. O seu lado brincadeira, Isaac.
E o presunto?
Ficou muito estragado?
Ah, está lá.
Não, acho que não ficou mais avariado do que já estava, não.
Pode ir lá pegar o bicho.
E a mata?
Está no carro.
500 gramas.
Então vamos logo.
Eu já estou cego.
Espera aí, Rabecao. Faz o seguinte.
Pega a porra da maconha lá no carro.
Tá no banco do passageiro de baixo.
Eu vou dar um tempo por aqui.
Entendeu?
Tô ligado, meu irmão.
Tá afim de enfar com a garega aí.
Olha.
Essa daí.
Eu te derrubo a parada.
Tu pode comer meu cu.
Frango. Eu dispenso.
Mas tá aí.
Eu topo a aposta da parada.
Não há acordo.
Tento rolar o cozinho.
Sem cu.
Nada feito.
Vai pra lá, bichona.
Cabecão. Se aparecer outra joia igual aquela, tu ó.
Paga a conta aí, bicho.
Ô, minha filha.
Quero uma.
Isso é coisa de criança.
Tu não sabe que essas peixes, menino, adoram abacar as pessoas de bem.
Tu não viu? Em casa do seu Ian.
Manicure? Essa.
Não mandaram dizer pra vila toda.
Mas ninguém vai fazer unha com ela que a mulher tá vaidética.
Saudade de criança.
Filho de uma puta.
Wellington.
Já te pedi uma, duas, três vezes, um milhão de vezes.
Quer falar palavrão, vai falar com os teus amigos lá no bar.
Que não.
É pra igreja o respeito. Nome de Jesus.
Desculpa, Vitor. Desculpa.
É bem que merecia.
Traiu.
Oi?
Suiã.
Merecia o castigo.
Traiu o marido.
Todo mundo ficou sabendo. É uma
coisa, Hélio.
Uma coisa que eu não tolero, mas não tolero não.
Traição.
Tolero não.
Faculato, violência, roubo, tudo isso eu perdoo.
Traição não.
A doutora errou todo o mel.
A doutora também.
Com o ferro, sério, com o ferro será feliz.
E da Coreia? Seul.
E a capital do Chile?
Santiago. E a capital da Afeganistão?
Cabu.
E a capital da Venezuela?
Caraca.
E a do Egito?
O Egito é Caio.
E a do Peru?
Lima.
Saúde. Saúde?
Saúde é quando a pessoa espirra.
Ela está por cima.
Ah, meu Deus.
Levanta os braços agora.
Levanta os braços.
Água. Água. Tome água.
Aqui. Aqui.
Engula. Engula. Beba água.
Beba, beba, beba, beba, beba, beba, beba.
Engula. Beba, beba, beba, beba, beba, beba, beba.
Engula.
Como engasgo.
Isso são pecados de outros tempos. Que provação, meu Deus.
Toda vez é assim.
Parece que tem uma coisa.
Ai, desde pantinha, Aurora.
Já vem armando um circo?
Já passou, nega.
Vá. Engula o frango devagar.
Engula com água.
É o arroz. O quê?
Arroz? Por que arroz, seu Biano? Seu Biano acha que o arroz tem que ter papa
para essa mulher não engasgar.
Eu não sei fazer arroz de papa.
A minha respiração já não é tão bacana.
Eu me engasgando assim.
Dona Aurora, a senhora vive dizendo que está pagando, que isso, que aquilo.
Mas peça comigo, criatura.
Perdão. O perdão é dado pelo que nós somos.
E castigo nunca é equivalente àquilo que nós fizemos.
Outra coisa, veja bem.
Engasgar não é uma forma exemplar de punição.
Pesa o teu passado.
Vê o teu presente.
Meça o que a senhora acha que seja um castigo, criatura.
E a caprichosa ceia da massa.
Minha manga, mais uma.
Mais uma aqui.
Todos
os
seus cabelos são dessa cor ou a moça só tem grana pra pintar os
cabelos?
Seu Sá, oi! Tudo bom? Seu Sá, faz um favorzinho pra mim?
Toma conta aí da banca pra mim que eu vou ali dar um telefonema e volto
rapidinho, tá legal?
Ó, volta rápido mesmo.
Não vou ficar olhando muito tempo não, tá?
Você é danado mesmo, né, Seu Sá? Pra pedir tudo bem, agora pra ajudar...
Eita bicho cabuloso danado. Eu vou ali rapidinho aqui na videolocadora. Eu
logo.
Alô?
Peraí. O canibal já voltou pro almoço?
Calma, ele foi.
Tá bem?
Tô indo.
Olha aqui, Deise, tu não tá certo não, viu? Não tá certo não.
Caralho, tu tá foda, minha amiga.
Caralho, Deise.
Não, não, não, não.
Não, não, fala assim comigo.
Olha.
Não, não, não. Aí não.
Tu não se via capaz.
Eu tinha isso de porrada.
Eu tinha isso de porrada, viu, Deise?
Calma, calma.
Hoje, Tem que ser hoje, não pode?
Tu é muito tinhosa mesmo, não é, Deise? Hein?
Hein? Ah, tá com pressa. Tá bom.
Hoje, lá no campinho.
Lá no campinho. Agora é o seguinte.
É o seguinte, Deise. Não sei se tu me aponta ou não.
Por quê? Alô?
Alô?
Alô?
Filho de uma puta, viu? Ô, rapaz. Tu briga com suas raparigas e vem te contar
meu telefone, pô?
Desculpa aí. Desculpa aí.
Essa mulher me deixa louco.
Eu não sou mais nem menos infeliz com a situação da minha igreja.
De uma coisa eu não posso me reclamar.
Fiei.
Aliás, isso é uma coisa que eu nem ligo.
A igreja está fechada.
Não tem santos.
Roubaram. As missas estão paradas.
E daí?
Não me faz diferença.
O importante para mim é Deus.
O resto é resto.
Por que não acha que eu estou certo?
Quem sou eu para contradizer uma palavra sua?
De certo, deve estar certo.
Piano, esse povo tem muito lugar para expor sua fé.
Os tempos protestantes, Umbanda, os terreiros, as clínicas psiquiátricas.
Por que não deixo a minha igreja em paz?
Eu só imagino que se continuar assim desse jeito, um dia ela vai se acabar.
Vai? Você está certo, vai.
Porque o povo gosta de ostentação.
Não tem ostentação, então não tem grejo.
Eu estou tranquilo e calmo.
Eu vou mandar a Dunga preparar a sopa do jantar.
Texas Hotel, às ordens?
Pois não.
Um momento.
Dunga?
Dunga, meu filho.
Telefone.
Alô? Dunga?
Deise?
Mulher, que surpresa é essa? Pensa que vai chover hoje.
Ó, queria te pedir um favor.
É o seguinte, eu vou falar rapidinho, tá? Porque eu não posso demorar muito
aqui, não.
Hoje eu não vou no terreiro, não.
Tu avisa o pai Adão que hoje eu tenho um compromisso e eu vou ficar na falta.
A bicha vai rodar nesta manca, Deise.
Diz pra ele que é urgente, né, Dunga?
Ó, o Wellington.
Vai, vai mamar.
Que baixaria é essa? Não é nada disso, não.
Hoje eu acabo tudo.
Dá mais não, Dunga. Tô cansada. Dá mais não. Essa história de homem casado é
foda. E onde que vai ser a capoeira?
Parece que vai sair tempero daí, né?
É lá no campinho do Euclides.
E agora?
Não, não, não. No comecinho da noite.
Mas eu vou falar tudo, eu vou acabar, porque eu tô cheia, Dunga. Tô cheia, eu
não aguento mais, eu tô de saco cheio.
Tá decidida, né?
Pois é.
Então, ó, tu faz esse favor pra mim.
Fala lá, papai Adão.
Amiga, obrigada, viu?
Que ansante, deu um toque maravilhoso.
Desfioça, amiga.
Até logo.
Até.
Aproveita a sobra do feijão e faz uma compra pra noite.
Vem comigo, meu xerém já tá pronto.
A sopa já tá quase pronta.
Seu Vianô, eu vou ter que dar uma saídinha mais pro final do dia, mas eu
logo, viu?
Vou arrendar esse bar, filho.
Não aguento mais essa merda, nada.
Ainda tem essa jantinha de merda, olha lá.
Então é cada coisa que a gente tem que ver. É incrível isso. Como é que a gente
tem que pagar pra ver?
Sempre ver.
Dona Júlia, bota uma pinga.
Os cabelos são ideias.
Pura ideia.
Por ideia!
Por barro! Por ideia!
Por ideia!
Por barro!
Por ideia!
Desapareça daqui!
Desapareça daqui!
Vai ter que pagar o que consumiu! Vai ter que pagar!
Tá entendendo?
O ser humano, hein?
O ser humano é estômago e sexo.
E tem diante de si uma condenação.
Terá obrigatoriamente que ser livre.
Mas ele mata e se mata com medo de viver.
Por isso meus olhos estão cegos.
para não enxergar a gosma desses pecadores.
Meus ouvidos escutam uma voz que diz... Padre!
Morrer não dói.
Morrer não dói.
Estamos todos condenados.
Eternamente condenados.
Condenados. Nós vamos almoçar
agora, tá?
Nós vamos almoçar muito bem, porque só vocês são fiéis.
Vocês são fiéis, vocês.
Toma, faquinha.
Vem, vamos comer, vamos comer. Olha aqui, coma.
Coma tudo, hein?
Toma, faquinha.
Só vocês são fiéis.
Só vocês são fiéis.
Obrigado.
Chegou. Olha o alemão.
Tá tomando o cu?
Tá tomando o cu.
E aí?
Pegado direitinho?
Direitinho. Qual o número da casa?
Rua da Boa, número 13.
Puta que pariu do caralho, viu, meu filho?
Olha, fique com isso.
Mais tarde eu lhe dou outra coisa, que você já tá na idade de tirar o queijo.
até falar, frango safado.
Minha amiga, não pretendo fazer inferno com ninguém, mas um homem que trai
precisa ser desmascarado.
Hoje à noite, hoje cedo da noite, hoje
cedo da noite, apareça no campo de Euclides. Não tenho mais nada a dizer.
Abre o olho.
Homem traidor tem que ser desmascarado.
Cedo da noite, hoje, não tenho mais nada a dizer.
Uma colega, não, uma amiga.
Juliano, Juliano...
Juliano...
Ah, meu Deus, e agora?
Calma, Guma. Tome essa água com açúcar.
Eu nunca sei o que faz nessas horas.
Eu não sei o que faz.
Seu Pianô, isso são horas.
Ô, Dunga, isso é muito complicado mesmo, viu?
Tem que ter a testa de óbito, tem que ter o médico, tem que ter o caixão, e
depois tem o cemitério.
O homem não me aperreia mais do que eu já estou aperreado, não.
Oxi.
Ô, seu Pianô.
Até na hora de morrer o Júlio me dá trabalho.
Ai!
Aurora, não sabe o que aconteceu.
Fala, bunda, o que foi?
Seu piano!
Claro que estava. Morto é que não estava. Morto não morre, né, minha
Pronto. Era só o que faltava.
Pobre do seu Vianô.
Mas eu não consigo ajudar em nada, minha flor.
O velório é uma coisa toda enrolada, uma coisa... Sei lá de quê.
Minha cabeça... Por favor, minha santa, me dê uma luz.
O padre... Já avisaram o padre, Dunga? O padre pode ajudar em quê?
Aquele homem é doido, o nega. Aquele homem mal sabe de reza.
Aí... Aí eu não sei lidar com o defunto.
O caixão. Antes de tudo, o caixão do finado.
E com que dinheiro eu vou comprar o caixão?
Hein? Hein?
Se o Biano até tinha algum dinheiro, mas sabe -se lá, um dia eu veio guardar os
trocos. De uma ganduguinha. É melhor baixar em outra freguesia. Eu não sei o
fazer.
Uma vez morreu uma prima minha.
Eu tive que resolver um monte de coisa.
Tive que tirar o atestado de óbito.
E a mulher que batia na máquina ficava dizendo o tempo todo, eu morro de medo
errar, eu morro de medo de errar.
Eu tenho muito medo.
O que é, Dunga?
Esse é o Bianô.
Ele faleceu.
O que tem com isso?
Tem que a gente não sabe como que faz com o caixão.
Se o Bianô tinha até algum dinheiro, mas ninguém estava nele e guardava, eu não
sei o que fazer.
Aí eu é que sei, porra.
Vê se o velho não guardava dinheiro no cacete.
Aproveita, Dunga.
Mete a mão no pó do velho e vê se daquele mato sai coelho.
Então vá procurar um vereador.
Não tem um vereador aí que dá caixão pra pobre?
O senhor é bem filho da puta, né, seu Isaac? Nem o modo o senhor ajuda.
Isso é o que dá a
viver.
Pois é, transportadora de paz.
Aê, tá ali, bandanada. Valeu.
Ó, muito bom.
Aê, grande.
Valeu aí. Não pode perder esse trem, não, aí.
Falou. Ó, segunda -feira tudo certo, viu?
Valeu aí.
Galera, só tem menino bom aqui. Só tem Osama.
Ai, condenado.
Obrigado.
Obrigado.
Tem conforto.
Esse povo deveria buscar conforto onde tem conforto.
Quem é? O que deseja?
Eu sei que a vida é dura, mas não podemos nos curvar diante das mazelas.
Meu guardião, só venho te falar que a morte levou seu Vianor e que lá também
precisam de teus préstimos.
Diga que eu já vou.
Vianor.
Ainda pouco vivo.
Eu gelo só em pensar na morte.
Joga essa merda aí. Vai, porra.
Joga essa aqui, ô babaca.
Agora tu vai se fuder.
Porra, Dunga, você tem que chegar na hora errada.
E então, bichona?
O que foi?
Resolveu o problema?
Achei o dinheiro.
Tá no saco do velho meu.
É safado.
Não diz?
Um falha.
Quando não serve pra mais nada, vira cofrinho.
Ó, minha gente, tá tudo resolvido.
O caixão já tá chegando, viu?
Não é questão de nervoso não, tá legal, Wesley?
Sem controle?
Eu? Que nada, meu santo.
Pensa numa mulher controlada.
Pensou? Sou eu.
Wesley, eu quero futuro.
Acabou, tá legal?
Acabou. Acabou, não dá mais.
Eu não aguento mais.
Esse papo de ser a outra não dá mais pra mim não.
Pena, viu, porque tu é um bosta da porra.
Por favor. Deixa de braveza. Não, não, peraí, vai, tira essa mão daí, vai.
Ela é despedida, não acabou tudo. Vê lá, hein, mano.
Passa aí, vira. Ai, meu Deus do céu.
Agora foi o velho Bionô.
Às vezes me parece que tudo vai morrendo.
Menos eu.
Não dizia isso?
Que gente ruim morre por último?
Eu tenho muito medo de ficar sozinha.
Imagina, minha casa já foi de festa.
Poxa, era gente, viu?
Agora só essa falta de ar.
E eu não vou descer de jeito nenhum.
Nem mota.
Mas não sobrou nem fantasma.
Isso é bom.
De lata de ideias.
Amarelo é a cor das mesas.
Dos bancos, dos tamburetes, dos cabos das peixeiras, da
enxada e da estrofeca.
Do carro do boi, das candas, dos chapéus envelhecidos,
da enxada.
Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das
feridas purulentas, dos escarros.
das verminoses, das empatias, das diarreias,
dos dentes apodrecidos.
Dentro interior amarelo, velho, desbotado,
doente.
Isso é Renato Carneiro Campos.
Aí, Isaac.
Voltou do ar, né?
Isso aí, rabicão.
Espia.
Espia só quem voltou.
Mas vê que agora o homem se apaixonou.
É muita faceta que tem a criatura humana. Uma porrada, um amor.
Uma porrada, um amor.
Eu quero a minha identidade.
Ah, mas era só o que me faltava.
Ó,
ninguém aqui pegou tua identidade não, viu?
Vamos dando fora, porque de corno eu já tô cheia. Peraí, meu amigo aqui não é
corno não. Ah, é teu amigo, né? Ô, papo ali cedo.
Pois esse filho de rapariga chegou por aqui só na anarquia, me provocando e
apanhou. Que eu sou mulher, mas até macho tem medo de milis. Pois eu quero
identidade em você.
Você todinha.
E todas as suas ideias.
Olha aqui, seu escroto.
Tu já deu um vexame hoje.
Vai querer outro, é? Tá afim de levar mais porrada, não tá não?
Caralho da minha identidade.
E agora?
O que minha paciência já tomou no cu.
Então, vamos lá?
Vamos resolver esse problema. Vamos resolver esse problema com uma certa
inteligência, tá certo?
Inteligência, né?
Quando o homem não sabe mais o que dizer, apela pra diplomacia.
Amém.
Se foi seu Bianor.
Coitado.
Ainda bem que ele não sofreu muito, né?
Seu Bianor foi uma pessoa que morreu como nasceu.
Completamente anônimo.
Sim. Agora, pense mais eu, padre.
O que é que vai ter dessa espelunca?
Quem vai tomar conta disso tudo aqui?
Tu. Tu vai comer aonde? E eu?
Vou trabalhar aonde? Isso não é problema, meu filho.
Porque tudo na vida tem seu tempo.
Olha, Deus fez a vida com esses mistérios.
Que é pra gente desmissar.
Se você reparar bem, a morte de Biano é um sinal.
O sinal das mudanças que nós queremos.
Ou então não significa nada.
O que é mais provável?
Desce de doideira, eu já sei o que você está falando.
Onde é que mora a sua família?
Que curiosidade é essa, macho?
Não, é que família é o grande mistério, meu filho. E é tu onde está?
Eu perdi contato com a minha família. Eu fui ser padre, né?
Fiz voto. Não me venha com essa missa que eu sei muito bem a igreja em que tu
reza, vinte.
Estou cansado de gente doida. Parece que a única pessoa boa de juízo aqui sou
eu. E é.
E é.
E é.
O senhor acha que por amor a gente pode fazer tudo?
Pode.
Não há erro quando a gente ama.
O amor está acima de tudo.
Até matar?
Eu evito pensar em matar, mas não é uma ideia completamente boa.
Não existe mesmo não, né homem?
Eita padre comédia.
O que foi?
Entra aí.
Essa mancha na sua roupa. Do sangue.
Arranquei a orelha da amante do meu marido.
Era uma mulher morta por dentro.
Sinto muito, Beno. Não consigo descer, não.
Às vezes eu penso que o mundo todinho foi feito de mim.
E que eu nunca vou morrer.
Mas é que não vou ficar olhando o outro.
Mesmo que seja o meu amor.
Mas o meu não era bom.
E eu não.
Hoje sou melhorzinha.
Já fui ruim.
Mas boa, boa.
As
vezes
eu fico pensando.
O conhecimento só tem fantasma a vir.
Amém.
Obrigado.
Já vai.
Que porra é essa, meu Deus? O que
aconteceu? O que é, Dunga?
O que é que me deu o godejo?
É um circo, Dunga.
Vem aqui. Sente aqui.
Vem aqui.
Me conte.
Kika com a minha orelha de Deise.
Ela avisou para passar o aparato dele.
E a orelha foi em Deise. Deise está onde?
Chega lá, puta. Me põe no seu cu.
Chega lá, puta.
Kika, tu nunca... Kika desapareceu.
Eu estou puto com Deise.
Tô puto com Deus, Dunga.
Porra, me separou da bichinha.
Tô em casa.
Eu não vi o Kika.
Não, não, não.
Não, não.
Quero ir.
Não.
Não, não chore.
Não chore.
Vem aqui no meu quartinho. Eu vou lhe preparar uma aguinha com açúcar para
descansar, relaxar. Vem.
Chega.
Não, meu filho.
Não. Olha, vem ali.
O que é isso, Dunga?
Sabia não. Inventou de morrer de uma hora pra outra.
Mas não liga ele não, viu?
Vem aqui. É te fuder, Dunga. Dunga com o moto por perto nem com a porra,
entendeu? Nem mata.
Uma porra, Dunga.
Uma porra.
Presta atenção.
Tchau.
Obrigado.
Era uma mulher morta.
Às vezes eu fico imaginando de que forma que as coisas acontecem.
Primeiro vem o dia.
Tudo acontece naquele dia.
Até chegar a noite.
Que é a melhor parte.
Mas logo depois vem o dia outra vez.
E vai, vai, vai.
E é sem parar.
E aí, nega, vai fazer o que nesse cabelo, hein?
Corta esse negócio, depois pinta.
Cortar assim, vai tirar as pontinhas dele. Não, meu filho, arranca tudo e
Qual é a porca que a gente vai pintar esse cabelo, hein?
Uma coisa...
Meio amarelo.
Uma coisa até rústica, barro, não é isso? Não, não.
Uma coisa mais manga.
Um amarelo manga.
. . .
Alô, alô, alô, alô, alô, alô, alô, Ligia.
Chegou, chegou, chegou, chegou, chegou, Ligia.
A música desbocada.
Alô, alô, alô, alô, alô, alô, alô, Ligia.
Quis me ver você e não lhe fazer sofrer. Ele disse que eu
vivi por mim, foi por você.
Fui e me retirei, minha intenção de vida.
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