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GUIADOS PELO CORAÇÃO
Um a zero.
Um a um.
Droga! Dois a um.
Dois a dois.
- Oi, mãe. - Oi, amor.
Oi, Marlène.
Oi, minha querida.
Deixe-me pentear seu cabelo.
Tomou seus remédios?
Seu pai vem esta noite para nos ver.
É mesmo?
O que foi? Não quer vê-lo?
Quero, mas é estranho.
Ele nunca vem durante a semana.
Posso deixá-la no colégio?
Não, obrigada. Gosto de caminhar de manhã.
- Não vai levar seus óculos? - Não preciso!
ALUGA-SE
- Em que ano você nasceu? - 2003 e você?
- Eu também. - Que legal!
- Mas em que mês? - Dezembro.
- É mesmo? Eu também! Que dia? - Dia 22.
- Verdade? - Juro.
- Que horas? - Acho que às 3h da manhã.
Eu também! Fala sério, que louco!
Vocês são bobos.
- Oi, tudo bem? - Tudo e com vocês?
Muito bem. Faz tempo, não é?
Sim, desde ontem.
Ao menos ele foi falar com ela.
Quem está falando com quem?
- Quer sentar ao meu lado? - Não.
Quando falará com ela?
Falar com quem?
Com a Marie.
Está louco? Por que está falando da Marie?
Nada a ver.
Já estamos em março. É melhor falar com ela.
Por que está de pé?
Não estou de pé.
Olá.
Espero que as férias tenham sido boas.
Descansaram?
Porque, pelos resultados de alguns na última avaliação,
é hora de acordar.
Ao menos um pouco.
Marie, 18.
Só não dei 20, para que você continue melhorando.
Mas o que está havendo com a caligrafia?
Cuidado com isso.
Romain.
17.
Só esqueceu as maiúsculas em nomes próprios.
Haïçam.
"Depois da chuva, a chuva"?
Sério? Certo, 15.
Mas esta aqui... Esta aqui!
É uma maravilha.
Victor?
Você nunca desaponta.
Você é um poeta, sabia?
Vou até citá-lo.
À questão "Qual é o clima de Nice?".
Você respondeu:
"O clima de Nice é polar,
principalmente quando neva,
em especial quando a maré está baixa. "
Gosto de você, Victor.
Zero.
Victor!
Quando vai nevar?
- Idiota! - Burro.
Victor?
Sabia que, em 1992, houve uma nevasca em Nice?
É sério?
Verdade.
Tchau.
Pare com isso.
Já chega.
Não, não, não.
Não há outra solução!
- De qualquer forma, eu já liguei. - Já?
Sim, estão prontos para recebê-la. Imediatamente.
Não tem melhor na Europa. É perto daqui.
Tenho certeza que o Dr. Vergne vai concordar.
É um hospital.
Não quero que a Marie estude em um hospital.
- Não estamos nesse ponto. - Não é um hospital. É um instituto.
Prefere vê-la vegetando nessa escola ruim?
A escola dela não é ruim.
- E tem o violoncelo. - O violoncelo...
Não vejo relação.
É a paixão dela.
- Não pode privá-la disso. - Quem falou em privar?
Quem?
Por que ela não poderia tocar no instituto?
Não é igual. Aqui, ela tem o professor, o conservatório.
- O teste é em junho. - Sim, certo.
Eu sei que ela tem um dom.
Podemos dar um jeito por lá mesmo.
Quantos músicos têm sucesso?
E cegos ainda por cima?
Sem dúvida é a prioridade...
- Pare, por favor! - Posso falar com minha filha!
Não é a melhor hora.
Vamos lá.
Quando quiser, Robert.
Me chame de doutor ao menos quando seus pais estão aqui.
Tudo bem, Dr. Robert.
Muito bem.
T. A. O. Quer dizer, C.
Eu vi que era C.
P.
F. U. Ou é D?
E. S. T?
F. U. D?
Z.
Florence, enquanto termino aqui,
acompanhe os pais da Marie até o escritório?
Já estou terminando.
Marque uma consulta antes da Páscoa.
Nas férias.
Muito bem.
Ela progrediu desde a última vez.
- Não? - Verdade.
Vamos fazer outro exercício.
Tente.
I.
S.
Como você soube?
Decorou o teste, não foi?
Pode enganar seus pais, mas não pode me enganar.
É sempre assim ou são crises?
São crises.
Já está melhor agora.
- Você usa os óculos? - Todo dia.
Vai ficar pior, Marie.
A partir de agora, as crises serão mais fortes e frequentes.
- Tenho que falar para seus pais. - Não!
Não quero ficar presa aqui!
Agora, não!
Sou obrigado a falar o grau da sua doença.
Você tem 12 anos, Marie. Sou responsável por você, entende?
Eu sei.
Tenho algo para fazer lá fora, muito importante.
Preciso terminar o ano letivo. Não tenho opção.
Não posso. Preciso contar.
Então sou eu que falo.
Eu.
- Promete? - Prometo.
- Estudou? - Muito.
Victor, pegue suas coisas e sente aqui na frente.
- Mas, senhora... - Vamos!
Muito bem.
Rápido!
Assim você não vê o material do Haïçam.
A partir de agora, você senta aqui.
Vocês têm meia hora.
Obrigada, Romain.
Obrigada, Marie.
Tudo bem, Victor?
Sim. Desculpe, senhora.
Victor!
Vai ficar aí a noite toda?
Vamos!
Cuidado, meu pai está aí.
Ele terminou a oração.
Sente-se.
Oi, Victor.
Tudo bem?
Como assim?
A prova.
Não ligo para a avaliação.
Tem certeza?
É claro.
De qualquer forma, a Marie gosta de você.
Me deixa! Já chega disso.
E como você sabe isso?
Eu sei tudo.
E não confio nelas.
As mulheres sempre nos machucam.
Mas no seu caso, ela está caidinha por você.
É do fundo do poço que se aprecia melhor a luz.
Fique atento e aproveite a oportunidade.
Sei que ela vai passar.
Espere, por que fez aquilo?
O quê?
Sexta-feira, com a cola.
Espere, por que fez aquilo?
Fiz porque todos riem de você e estou sempre do lado dos oprimidos.
Os oprimidos?
O que é isso?
Está zoando comigo?
Nem um pouco.
É tudo? É só por isso?
Sim.
Então até mais.
Bem...
Vou começar dando as notas de sexta-feira.
Victor.
Não tem nada a me dizer?
Nunca passou a média e hoje você tira 20?
Tira 20! Tira 20...
E acha que darei os parabéns sem perguntar nada?
Você colou, Victor. Você colou.
Aqui, a sua prova.
Por que não quer dar a partida?
O que eu fiz a você?
Me dê um sinal.
Quer brincar comigo? É voluntariosa.
Sabe que eu não resisto.
Papai!
Tudo bem?
E a escola...?
Tudo está ligado.
Vamos lá! É com você.
Um, dois, três, quatro!
Colar! Colar, Victor!
Não, não! Não pode haver satisfação verdadeira na cola.
Entendeu, Victor?
- Entendeu? - Entendi, senhor.
É só pensar no Armstrong, pronto!
Sete Tour de France e o que ele tem agora além de vergonha?
Isso mesmo!
Cuidado.
Você está arriscando perder seus estudos em mecânica.
- É isso que quer? - Não, senhor.
Você está por um fio, Victor. É melhor se mexer.
Posso ir embora, senhor?
Saia.
Espere! Você ferrou comigo.
Como vou continuar com as boas notas?
Certo. Me desculpe. Eu não devia ter feito aquilo.
- É... - Espere.
Já que é assim, eu poderia ajudá-lo.
Como assim? Vai continuar me passando cola?
Não, mas posso ajudá-lo a estudar, a se recuperar. Sei lá.
E por que faria isso?
Porque não tenho amigos.
E por que não tem amigos?
Porque...
Talvez eu nunca tenha precisado.
Precisado?
Interesse, sei lá.
É a mesma coisa.
Falta uns parafusos na sua cabeça.
E quem disse que quero ser seu amigo?
Então tchau.
Eu disse que ela estava apaixonada.
Ou ela tem vontade de estar.
Ainda não sei.
Por que ela faria isso?
Não sei.
Meninas são muito complicadas.
Desculpe-me, Victor.
A história da cola acabou sendo pior.
Às vezes, sou complicada mesmo quando tudo é simples.
Seria um prazer ajudá-lo a estudar.
O que está fazendo?
O quê?
Vai passar suas provas agora?
Sim.
E você acha isso normal?
Sim.
Certo.
É o Victor Serano.
Nossa.
- Oi. - Olá.
Venha, entre.
- Que chique a sua casa. - Obrigada.
Seus pais não estão?
Moro com minha mãe, mas está sempre viajando.
Ela é compradora de arte.
Meu pai é comissário...
Comissário? Ele é policial?
Não, ele é leiloeiro.
Venha.
Você mora sozinha?
Não, a Marlène cuida de mim.
Marlène?
Minha babá desde que era pequeninha.
Você vai ver, ela é muito legal.
Você tem uma babá?
Pois é... Teremos trabalho.
Quer começar por onde?
Tanto faz. Qual é o pior?
Nada é grave.
Escolha a matéria que quiser e eu já volto.
Escolheu essa? Leia para mim.
"Os irmãos Kalachnikov eram muito... "
Os irmãos Kalachnikov? São os irmãos Karamazov.
Não Kalachnikov.
Quem são os irmãos Kalachnikov?
Acabou.
Não.
Eu não vou poder fazer. Sem o giz...
Acabou, sim.
- Não. - Acabou.
- Está certo? - Não.
Muito bem, Victor.
- Está certo? - Está.
O pulmão! O pulmão! O pulmão, repito!
O pulmão!
O pulmão. O pulmão!
O pulmão?
Gutenberg.
Sim?
O que Gutenberg inventou?
Não sei.
A im...
A imp...
A impressora!
Sua mãe é linda.
Obrigada, direi a ela.
E a sua como é?
Ela morreu.
Meu pai diz que ela foi embora, mas ela faleceu.
Mas já faz muito tempo.
Eu tinha 5 anos.
Você acha que se ama só uma vez?
O que foi?
Nada. Estou atrapalhando?
Não.
- Pai, me diz uma coisa. - Sim.
Como que você soube que a mamãe gostava de você?
Não sei. Eu senti, só isso.
Quer dizer que não tem sinais? Nada visível?
O quê, por exemplo?
Não sei, por isso perguntei.
Às vezes, o cabelo delas fica assim na frente.
E começam a gaguejar em espanhol.
- Também... - Você não sabe falar sério nunca!
Vamos!
Então não tem sinais?
Sinais de quê?
Ainda isso? Já chega.
Me desculpe por antes.
Com a sua mãe, me lembro de não ligar para ela por três dias.
De propósito.
Ela me ligou para me xingar.
Isso é claramente um sinal.
E quando estão morando juntos, ela decide pintar toda a casa,
mudar os móveis de lugar.
Aí entendi que ela estava amando.
Mas é pelo olhar.
O olhar, Victor, é importante.
É assim que vemos se a mulher está amando.
Mas é estranho.
O que é estranho?
Não sei.
Sabe, o olhar é o primeiro capítulo de uma história de amor.
Sabia disso?
E a sua mãe tinha um olhar que me derrubava.
Me deixava sem proteção nenhuma.
Já esteve apaixonado?
Não.
- Pode contar ao seu pai. - Não.
Tem alguma menina que você viu...
Não.
Entre feio e bobo, você é mais bobo que feio.
Se sou bobo, puxei de você.
É o que fazemos de melhor na família.
Está certo?
Não está certo?
Sim, está certo.
- Não está de saco cheio? - Demais.
E não vejo utilidade nessas retas, nesse x,
nesses produtos consideráveis...
Notáveis.
- Gosta de música? - Gosto.
Quem é seu músico favorito?
Mozart.
Gosto muito de Mozart.
Do que em especial?
Tudo, sou um fã. Gosto de tudo.
Vou tocar um pouco para você. Não é Mozart, mas é lindo.
- Você também toca? - Não.
Muito obrigado pela aula de geometria.
Se eu puder fazer algo por você, algum serviço,
por favor, peça. De verdade.
Pode deixar.
Marie, está na hora.
E não se esqueça dos óculos.
Não preciso.
- Preciso ir. - Aonde?
- Ao conservatório. - O que é isso?
É assim que se chama a escola de músicos.
Em junho, farei o teste do Conservatório Nacional Superior.
Fazemos músicas e estudamos.
Meu sonho é entrar.
Tipo Educação Física?
Isso, isso mesmo.
- Marie? - Sim?
Você terá cuidado com o Victor?
Por quê? Está com ciúmes?
Não, ele é meu amigo.
SERANO PAI E FILHO
MANUTENÇÃO E RESTAURAÇÃO DE CARROS ANTIGOS
- Olá. - Oi, Marie.
- Oi, Marie. - Nunca ouvi nada igual.
- Não brinque com isso, por favor. - Não estou brincando.
- Nós temos que voltar. - Vamos nessa.
O que foi que falei?
Tchau, pombinhos.
Poderia ter avisado que vinha.
Preciso contar uma coisa.
É muito importante.
Na verdade, eu vou ficar...
- Olá, senhor. - Como é?
Olá, senhor.
Desculpe.
Oi, pequena.
Acho que vou embora.
Tchau.
Sua namorada é estranha.
Às vezes, ela é meio avoada.
- Sabe esse carburador, não sei... - Marie!
Me desculpe.
Fiquei incomodado por você ter escutado nosso barulho.
- Mas não é barulho. - Sério?
Juro.
- Fico feliz. Vindo de você, então. - Por quê?
Porque você é uma musicista de verdade e posso confiar em você.
Você ia dizer algo.
Agora há pouco, você disse que queria contar algo importante.
Não. Na verdade, sim.
Eu queria dizer que estou muito feliz por sermos amigos.
Até amanhã.
Cuidado!
Tudo bem, pode ir agora.
Obrigada, Victor.
"Uma gaivota sobrevoando a areia da praia
é como uma criança que desiste dos sonhos.
E com um bater de asas,
ela pode fazer da vida um prazer perpétuo. "
Virou Victor Hugo.
- Nós o perdemos. - Verdade.
Victor, seu boletim é o reflexo do seu poema.
Ainda há muito pela frente, mas é a melhor recuperação do trimestre.
Parabéns!
Fácil quando se sai de zero.
Repete se tem coragem, idiota.
Largue-o! O que...
Sente-se!
O Azra nos botou de castigo no sábado.
Por que você não disse que foi o Romain que provocou?
Sinto muito, não vi nada.
- Não precisava voar nele também. - Verdade.
Mas ninguém pisa em mim.
- Desculpe. - Me desculpe.
E aí, você não o viu?
Eu estava viajando.
Você está sempre viajando.
Pronto.
Assim, não tropeço mais.
Vai ficar aqui nas férias?
Pouco tempo. Vou ver minha tia no hospital.
E você?
Nada de especial.
A gente se fala?
Sim.
Na minha mão. Ela está na minha mão.
Ela pegou minha mão. Ela, não eu.
Pegou minha mão, senti choques no corpo todo.
Quer doce?
Ela me ama, cara.
Eu a segurei assim, como um cachorro.
Tirando isso, você não está apaixonado?
Não, ela me ajuda a estudar. É tudo.
E depois?
Ela me deu um beijo.
Está bem, na bochecha.
Normal.
E vocês se casam quando?
Quando eu quiser me caso com ela.
Ela vai viajar nas férias?
Sim, ela vai ver o pai dela e uma tia no hospital.
Na verdade, ela gostaria de ficar comigo.
Mas eu disse: "Não, vá ver sua tia. Tudo bem. "
A família é importante.
Espere.
Coloque isso.
Não entendo. Você é judeu ou muçulmano?
Os dois. Meu pai é muçulmano e minha mãe é judia.
Então alternamos.
Esta semana é o Shabat.
Venha.
Hoje, oremos pelos que amamos e se foram.
Conversamos lá fora?
Nesse ponto da patologia,
precisa-se de uma colaboração sincera do paciente.
E a Marie está resistindo.
Não consigo expressar o quanto.
Mas é bom que ela resista, não?
É claro. A filha de vocês é incrível.
Muito obrigado, mas não é esse o ponto.
Estou cansado desse papo.
Ela precisa ser tratada aqui, no instituto, o quanto antes.
Se não tem lugar para ela, é só dizer.
Procuramos em outro lugar.
Minha filha está doente. Você entende?
Ela está doente!
- Acalme-se, por favor. - Não vou me acalmar!
Porque cansei de esperar.
Minha filha está mal.
Parece que não percebem!
Você acha mesmo isso?
É... Muito bem... É...
Diga-me o que faremos.
Não posso dizer nada. Hoje, não.
Como não pode?
Se os médicos são incapazes de responder coisas tão simples,
para que vocês servem?
A Marie está mal!
Não podemos deixá-la assim!
Claramente, não é a única que está mal.
Está rindo da minha cara?
- Talvez o senhor precise de terapia? - Terapia?
Terapia...
Fale com ela.
Veja-a viver.
A hora certa aparecerá.
Olá?
Olá?
- Oi. - Oi.
Está pronto?
Quase.
Já faz um mês e meio que está com meu carro.
Você não é mecânico?
Refiz toda a transmissão.
E desmontei a caixa de câmbio,
troquei a engrenagem.
Em uns quinze dias, vai estar pronto. Está no fim.
- Quinze dias? - Mais ou menos.
Deve ser... Com licença.
- Alô? Oi. - Oi.
O Victor, por favor?
Victor? É para você!
Oi.
Venha comigo.
- Onde está? No hospital? - Sim, no quarto da minha tia.
Ela acabou de sair.
Eles a levaram para fazer exames.
Como ela está?
Bem, obrigada.
E você está bem?
Sim, tudo bem.
Está ensaiando com os gêmeos?
Não, eles viajaram.
Quem está rindo assim?
Uma cliente do meu pai.
Parece que estão se dando bem.
Você acha?
Quando eu voltar, vai ser como antes?
Como assim?
Continuaremos a nos ver?
Por que pergunta isso?
Porque...
Porque estou com saudades.
Preciso de você, Victor.
Eu também.
Jantar!
Jantar!
Sente-se.
Seu prato.
- À nossa. - À nossa.
Quem era a moça que estava aqui?
A dona do carro.
E como ela se chama?
Não sei.
Eleonore Bonnavaud.
Bonito nome, Eleonore.
E ela não é do seu tipo?
Sei lá. Por que pergunta isso?
Por que não tem namorada?
Já disse que isso não é da sua conta.
Vai ficar assim a vida toda?
No sofá?
Por que guarda as coisas da mamãe?
- Quando sua mãe se foi... - Morreu!
Ela não se foi, ela morreu!
Por que nunca diz que ela morreu?
O que faremos agora?
Quer tirá-la da escola a 2 meses do fim do ano?
Não sei.
Como podemos fazer?
- Você nunca está, eu... - Você?
Sim, por favor.
Por favor o quê?
Já me sinto bem mal por deixá-los, porque não tenho dinheiro.
É isso que queria dizer?
Por favor, não misture as coisas.
É uma loucura não podermos dizer o que fazer.
Você não é o único preocupado. Eu também estou.
Prometo.
Venha. Estamos quase lá.
- Quase onde? - Você verá. É mágico.
O que está fazendo? Vai ser maravilhoso!
Então vou sozinho. Tchau.
Engraçadinho.
Está com tontura?
Não posso. Não posso, Victor!
Eu...
O que você tem?
O que houve?
Não posso me mexer. Não posso mais.
O que houve?
O que aconteceu?
Tenho uma doença nos olhos.
Estou ficando cega.
Sei desde pequena, mas está cada vez pior.
E tenho crises.
Não me toque!
Foi por isso que fui atrás de você.
Precisava de alguém para me ajudar a esconder minha doença.
E por que quer escondê-la? Não é sua culpa.
Por causa do teste. Se meu pai descobre,
vai me colocar no instituto e minha vida acaba.
E qual é a relação?
Meu pai é surdo, ele não entende nada de música.
- Por que não me disse nada? - Não sei.
Não consegui. Me deixe, é melhor.
Saia! Saia daqui! Não quero sua piedade!
Me deixe! Está bem?
Me deixe sozinho.
Tudo bem?
Tudo bem.
Nada cai do céu.
Já chega desses...
Meus provérbios?
É, isso enche o saco.
É como se você tivesse o manual da vida, mas não é tão simples.
Com certeza.
De grão em grão a galinha enche o papo.
- O que foi? - Nada.
Vamos embora.
39, 40, 41, 42, 43, 44...
- Me desculpe... - Já chega, some daqui!
Não entende? Não quero falar com você. Vaza.
- Aquele que... - Cale a boca!
Marie, o que está fazendo aqui?
- E você? - Como assim "e eu"?
Tenho um negócio por perto. Como sua mãe não está, vim trabalhar.
É um pouco minha casa ainda.
Sim, é sua casa quando convém. Você nem deve ter as chaves.
Olhe como fala comigo.
E por que não está na escola?
- O que houve? - Nada.
Você caiu. Como caiu?
Não é da sua conta.
Você nunca caiu?
Sim, algumas vezes.
É o seguinte.
Jamais irei para seu instituto para cegos.
Entendeu? Nunca! Não vou!
Vou passar no teste e estudar música! É o que conta!
- E você não decide isso! - Como não decido? Sou seu pai!
- Não está com fome mesmo? - O quê?
- Não vai comer? - Não.
Victor?
Victor!
Venha aqui.
O que foi agora?
Se é tão importante para você, não deixe passar.
Não sei do que está falando.
Ela mentiu para mim.
Amor sem mentira não é amor.
Está amando?
Não!
Eu sabia.
Está infeliz?
Eu, infeliz? Quem você acha que sou?
Quando vai arrumar seu quarto?
Hoje, não.
Quando você quiser.
DOAÇÃO DE ROUPAS
- Você pode contar comigo. - Conosco, Sr. Azra.
Conosco, conosco.
Se perceberem alguma coisa, me liguem.
É claro.
- Marie? - Sim.
Essa citação de Sir Winston Churchill faz você pensar no quê?
Winston Churchill nasceu em 1874.
Obrigado. Mas não foi o que pedi. Comece pela citação.
Winston Churchill certamente é o político mais citado da história.
Marie, você pode ler o que escrevi no quadro?
Não é difícil.
E eu?
Por que não me perguntam sobre o Churchill?
Ele é meu herói! Adoro Winston Churchill.
- Ele é meu amigo. - O que deu em você, Victor?
Nada, é a verdade.
"É preciso coragem para se levantar e falar;
mas também é preciso coragem para sentar e ouvir".
Sinceramente, não sei o que a Marie acha,
mas Winston se esqueceu de ser tolo.
Saia, Victor!
Senhor, quando me interesso na aula...
Vá falar de suas paixões ao Sr. Azra! Vamos!
- Já vai tarde. - Cale a boca, idiota.
Estou esperando, Marie.
"É preciso coragem para se levantar e falar;
mas também é preciso coragem para sentar e ouvir. "
Acho que se precisa de mais coragem para se levantar e falar
do que ficar sentado e ouvir.
É claro que mentiu para mim!
Não dizer a verdade é mentir!
Esse não é o pior!
O pior é que você quis me usar!
E isso é um abuso!
E me abandonar no meio do mato depois de eu quase me afogar não é?
No meio do mato?
No meio do mato?
Que hipocrisia!
Que hipocrisia!
Quer que eu fale o que me disse?
"Saia daqui!" Você disse saia daqui.
E quando pegou minha mão?
Achou que eu era o quê? Um labrador? Au! Au!
Não, não!
Não foi só por isso, Victor. Juro.
Não achei que me apaixonaria por você.
É mesmo?
É assim que você vê?
Sim, mas isso há um mês e meio.
Agora é assim.
É genético. Se chama retinose pigmentar.
Nossa.
Às vezes, há pequenos progressos, mas no todo, está pior.
É também por isso que nunca tive amigos.
Não gosto de piedade.
Até quando tem que esperar?
Meu teste é dia 19 de junho.
E estamos aqui.
Cinco semanas, 42 dias.
- Não, 35 dias. - Isso, 35 dias.
É bastante.
Mas você não pode mais escrever? É claro, você não pode mais escrever!
É muito difícil.
Precisamos de uma solução. Preciso aprender sua caligrafia.
Espere. Pode ficar pior?
Sim.
Por exemplo, sei que há 108 passos da grade da escola até a escada.
Ou 64 passos da porta da sala até a porta da biblioteca.
Assim, quando eu não vir mais nada, estarei pronta.
Pare de se vangloriar e venha fazer uma cesta.
Pegue.
Pare.
Venha, o Tony Parker fazia de olhos vendados.
Não tem por que não.
Venha, você consegue.
Prepare. Atire.
NÃO AGUENTO MAIS!
Tem certeza que não quer ajuda?
Não, por quê? Estou indo bem.
- Mrs.? - Sim, Haïçam?
Posso te ajudar?
Não, tudo bem, obrigado.
Está na hora, crianças. Deixem o material na mesa.
Entreguem seus testes. Obrigada.
Seu teste, por favor. Obrigada.
Marie. Obrigada.
Obrigada.
O que houve, Victor?
Acho que estou com dor de cabeça, senhora.
Vamos entregar! Obrigada.
Para que sofrer, Romain?
Como é?
Você sabe do que estou falando.
Victor, queria falar com você.
Os pratos.
Você se dá bem com a Marie?
Sim, por quê?
Não reparou nada estranho nela?
Não, nada.
E sobremesa.
Obrigada.
Mas se vir algo estranho, vai me dizer?
Sim, é claro.
- Mas não tem nada estranho. - Pode ir.
Victor!
Ouçam. Não sei o que estão tramando, mas tomem cuidado.
Como assim?
Acham que sou bobo?
No meio, tem uma bela mulher, com os seios para fora.
Desculpa, mas você pediu. Estou falando.
Qual é o nome do quadro?
Não consigo ler daqui.
- Você é cego? - Engraçadinha. Azra.
O que mais?
Ao lado dela, à direita, tem um homem tipo eu,
- com um Colt. - Um Colt?
Uma arma.
Só isso?
Não, tem uns caras empilhados nos pés dela. Parece que sofreram.
Tem um olhando para ela com cara de morto de fome.
A mulher segura uma bandeira.
- Uma bandeira francesa? - Sim.
E à esquerda tem um homem com uma cartola e um fuzil?
- Como sabe? - É isso.
Prontinho.
Pode me explicar?
Posso.
Na verdade, é uma interpretação cubista.
Como se César comprimisse um Délacroix.
Sim, muito interessante.
Você é louca.
Não vou conseguir nunca. Acabou.
Se você for, acabou mesmo. Precisamos de um milagre.
- Sim, alô? - Alô?
Aqui é a Frente de Libertação da Crimeia Oriental.
Colocamos uma bomba no colégio.
- Uma bomba. - O quê?
Obrigado, senhor.
Minha mãe vai bem.
- O que foi? - Não sei.
- Uma bomba. - Uma o quê?
Alerta de bomba? Saiam todos!
Saiam! Saiam todos!
Você é mesmo muito louco.
Não sei se aguentaremos muito tempo assim.
Desculpe, sei que é difícil me olhar nos olhos.
Mas se quiser, posso parar de olhar.
Não, sou eu que olho você.
Você não me vê, mas eu a olho.
Está enganado, eu olho você, mas você não sabe.
- Mas se quiser, eu paro. - Não!
Continue me olhando. Gosto quando me olha.
Vou pegar meu violoncelo.
O Azra está vigiando você.
Onde?
Lá, ao lado do Romain.
- Me dê. - O quê?
Me dê a bola.
Espere, o que está fazendo?
Não é possível.
Tem alguma coisa errada.
Ela não gosta dele. Ele a acompanha como um cachorro.
Por que diz isso?
Não é engraçado, vá pegar.
Olhe só, não inventei nada.
Tenho certeza que está louca.
Obrigada.
De qualquer forma, não vejo nada.
- Marie! Marie! - Marie! Marie!
- Viu isso? - Tem algo errado.
- Marie? Podemos conversar? - Sim.
Encontro vocês depois.
Vou fazer uma festinha na minha casa no sábado
e queria convidar você e o Victor.
- Mesmo? - Sim.
Muito obrigada.
Muito gentil.
E sei bem onde é.
Nós iremos. Muito obrigada.
- Obrigada, Romain. - Até sábado.
Sim, até sábado.
Fez muito bem em falar comigo, Romain.
- Você está indo muito rápido! - Tranquilo.
Vamos estacionar ali.
- É bonito? - Nunca vi nada tão lindo.
Louco.
Eu...
Eu me pergunto se é assim que se faz.
Um dia, li como fazer
em uma revista no dentista.
Mas com manuais, sempre montamos de cabeça para baixo.
Não, é assim mesmo que se faz.
Ano que vem, você estará na sua escola de gênio de música e eu...
E você?
Seria bem melhor se você não passasse.
Mas você sempre passa.
Você vai conseguir.
Ano que vem, sem você, quem fica cego sou eu.
Porque depois de tudo que fez, vamos deixar de nos ver?
Não é porque vou mudar de escola que...
- Certeza? - É claro.
E agora, temos que aproveitar.
Tudo está bem.
Conseguimos, Victor.
Graças a você, em dois dias, vou fazer o teste.
Até o Romain veio pedir desculpas.
Percebe?
Ele nos chamou a uma festa na casa dele no sábado.
- Sério? - Sim.
Deixe-me ver.
Não tem nada escrito no cartão!
Nada! Ferrou! Ele vai dizer para todo mundo!
Até aos seus pais!
Você vai para o instituto.
Não vou, de jeito nenhum!
Não vou! Não vou!
Estarei lá à meia-noite. Certo?
- Certo. Até mais. - É bem à frente.
Fez muito bem. E agora fazemos o quê?
- Marie! - Até mais.
Marie!
Marie!
Me desculpe, Marie!
Minha filha!
Ficou louco?
Droga!
Vamos?
Eu disse à meia-noite! Onde ela está?
- Todo momento tem... - Cale a boca!
Cale a boca!
Vamos!
- Segure firme. - Cuidado com os pés.
- Com calma. - Isso.
Fique tranquila. Ajeitamos tudo.
Não se esqueçam dos doces.
Obrigado, Haïçam.
Pode ser inteligente toda a vida e burro num instante.
- Obrigado. - Obrigada.
- Até, pessoal. - Tchau.
Era aqui que ensaiávamos com Etienne e Marcel antes.
Pode ser aqui?
Não vejo muita coisa, mas parece ser bom.
- Sabe de uma coisa, Marie? - O quê?
Se você tocar assim amanhã, eles não a aceitarão.
Foi horrível.
Obrigada, Victor.
De nada.
Boa noite, Victor.
Boa noite, Marie.
Marie? Marie, acorde.
Pegue.
Quer voltar?
Sério, Victor?
Você está queimando.
Precisamos voltar. Você não está bem.
- Você está branca. - Vai ficar tudo bem.
É só um resfriado ou algo do tipo. Nada grave.
Mas...
Acho que deve ser ansiedade. Isso, ansiedade.
Eu acho. Pegue minha mão.
Vai me fazer bem.
Vou buscar remédios, senão você nem vai conseguir tocar.
Droga!
Por aqui.
Victor?
Oi, pai.
Por que não falou nada?
Ela não parece bem.
Saia da frente!
Está tudo bem, meu anjo.
Com calma.
Não acredito!
Espere, Victor.
Ligue para o hospital.
Diga que chegamos daqui a pouco.
Pai, é hoje o teste. Ela não pode faltar.
Não podemos deixá-los.
Do jeito que ela está, duvido que consiga tocar.
Podemos dar um jeito nisso. Senão, seria uma pena.
- Senhor! - Sim?
Sinto muito.
Mas você é um perdedor!
- Como é? - Ou um velho idiota!
Não é porque é surdo que o mundo não deve ouvi-la!
Todo mundo deveria ouvi-la!
O quê?
Já chega! Entre no carro!
- Está bem? - Estou.
Vem conosco?
Entrem no carro.
Quem planta vento colhe um bom tapa.
Siga-os, papai. Não quero deixá-la sozinha.
Vou ao hospital com ela.
O que ele está fazendo?
Acho que mudou de ideia.
Que horas é o teste?
Às 11h30.
Vão com calma! E eu?
Isso também é graças a você.
Abra a porta. Vamos!
Marie, ela é violoncelista.
Mas estão muito atrasados!
Não pode fazer isso conosco.
- Agora não! - Deixe-me cuidar disso.
Leve a Marie.
Madame, vou explicar à senhora. Você vai entender.
Marie! Marie!
O violoncelo.
- Obrigada. - Espere!
Tome uma dessas.
O que é?
É... Vai ajudá-la.
Rápido, rápido!
Vou explicar uma coisa bem simples.
Essa menina é minha filha, meu bebê.
Ela está doente e tem que passar nesse teste.
Apenas olhe a ficha
e veja a saúde mental e musical...
Esperem!
Tem uma última candidata. Façam a audição com ela. Obrigada.
Obrigada.
- Está tudo bem? - Não sei o que Ezra me deu,
mas me fez muito bem.
Obrigada, Victor.
Meu Deus!
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Tradutora: Patrícia Silveira LEGENDAS ETC FILMES
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