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GUERRA & PAZ
Parte Um O DIA DO SANTO
MOSCOVO 1805
- Mitenka, já chegaram as lagostas? - Há uma hora.
- E os melões? - Hoje de manhã.
- Estão maduros? - O aroma é divinal.
Excelente, meu caro.
Mas que manhã esta... As visitas não param de chegar!
Aí vem mais uma.
Este, não, está esmaecido. Traga outro.
Mitenka, o serviço é tudo. Mas mesmo tudo.
Tudo, mas mesmo tudo, Vossa Senhoria.
Estou estafada com tantas visitas, tem sido um corrupio toda a manhã.
- Não pode mandá-la embora. - Mas mal a conheço.
- Além disso, tenho uma enxaqueca. - É indelicado, mamã. Elas que entrem.
Hoje em dia, os filhos já não têm consideração por nós.
Quer que lhe traga um pouco de água-de-colónia, minha pomba?
Tudo o que quero é paz e sossego. Será pedir muito?
Afinal, hoje celebra-se o dia da sua santa, Ilya.
Se é contra a sua vontade, porque tem de receber mais visitas?
São as últimas, minha pomba. Prometo.
Mme. Karagina, mas que prazer.
- Conde Rostov. - E esta é...?
A minha filha, Julie. Estava ansiosa por conhecer os Rostov.
Fez muito bem em vir. Sente-se, minha cara.
Muitas felicidades, Sra. Condessa.
Obrigada pela visita. Há muito que não nos víamos. Desde...?
- Desde o baile dos Razumovsky. - Sim, claro.
Já conhece a minha filha, Vera.
E a minha prima e boa amiga, a Princesa Drubetskaya.
Com certeza.
Eles passaram por aqui, Mitenka?
Tem uma guloseima para mim?
De caminho, fizemos uma visita ao Conde Bezuhov.
Ele está muito mal. Não deve passar de hoje.
Sim, já soubemos. É uma pena. É parente da Anna.
- Conhece o Conde Bezuhov? - Nem por isso.
Mas conheço a sobrinha, Katishe, que vive com ele.
- A Katishe... - Ficou sensibilizada com a visita.
- Tenho a certeza que sim. - Está desgostosa, obviamente.
Como seria de esperar. Mas é um homem de provecta idade.
Sim, teve uma boa vida, dedicada à vida pública.
Foi um exemplo para os mais jovens, não concorda, Princesa Drubetskaya?
Um exemplo que espero que não venha a ser seguido.
A sua reputação não é das melhores, convenhamos.
Anna, as crianças...
Perdeu a conta à prole que gerou.
Um homem muito bem posto, vi-o no ano passado.
Nunca vi figura mais distinta.
O mesmo acharam muitas senhoras... para sua perdição.
Quem acha que vai receber a herança, Princesa?
Não lhe sei dizer.
Sei que o Príncipe Vasili Kuragin é o herdeiro natural por parte da esposa,
mas creio que enfrenta a concorrência do jovem Pierre.
- Mas ele é filho ilegítimo. - São todos, como já referi.
Mas tamanho devasso, tamanho perdulário...
Já sabem o que se passou em Petersburgo?
Claro que sim, minha cara.
Dizem que atou um polícia a um urso e que atirou ambos para dentro do rio.
Deve ter sido hilariante.
- Como pode rir-se disso, Sr. Conde? - Não, claro que não.
Mas ver um polícia a nadar às costas de um urso...
- Já me deve... 40 rublos. - Sim.
- Quer continuar a jogar? - Claro, vou recuperar o que perdi.
Dê as cartas.
Pois se quer ficar na miséria, hei-de sacar-lhe todos os rublos.
Ficará o meu pai na miséria, É o dinheiro dele que aposto.
Quanto tempo vai ficar em Moscovo?
Até lerem o testamento do seu pai. Só depois partirei. Este sítio e atroz.
O que veio cá fazer?
- Porque acha que vim? - Não sei.
O meu pai cobre todas as possibilidades.
Estou aqui para o caso de o seu pai não morrer.
Já viu como seria se o seu pai recuperasse milagrosamente
e eu não estivesse aqui para lhe dar os cumprimentos?
Já viu como seria?
- Eu passaria por insensível. - Sim...
Claro que sim, seu idiota.
Todos achariam que não me preocupo com ele.
E, assim, se me tivesse contemplado no testamento,
talvez mudasse de ideias e me excluísse por completo.
Está mesmo em maré de sorte.
Já me deve 45 rublos.
Tive uma ideia.
O que receber de herança, partilha comigo e vice-versa.
Assim, ambos recebemos alguma coisa.
- A menos que não recebamos nada. - De que está para aí a falar?
Do testamento, homem!
Acha que vai receber mais do que eu, não acha?
- Vamos jogar às cartas, ou não? - Sim.
Cada um aposta o seu quinhão. Vamos, parta.
Ganha quem tiver a carta mais alta.
- Vamos, parta. - Veja o que me fez fazer!
- E porque não? - Bem...
- Porque não? - Não tem sentimentos, Anatole?
- Por amor de Deus... - Sentimentos?
Isso não é para aqui chamado. Sente alguma coisa por ele?
Não sei, talvez devesse.
E isso tem alguma coisa a ver com gastar o seu dinheiro?
Esta casa daria comigo em doido.
Parece um mausoléu.
- Como é que aguenta? - Não sei.
O que faz o dia todo?
Vamos passando o tempo.
- Arranjou alguma pequena? - Sim, algumas.
Vou dar uma festa quando voltar para Petersburgo.
Não quer vir?
Só posso voltar daqui a um mês.
Um mês é muito tempo. Já gastei a minha mesada.
Mas seja, daqui a um mês.
E arranjo umas raparigas, mas à séria.
Bem jeito me fazia uma agora...
Não sabem fazer mais nada senão jogar às cartas o dia todo?
Claro que sim, pai.
O que é que lhe fazia jeito?
Só estão aqui há cinco minutos e esta sala mais parece uma sauna.
Acham bem jogar às cartas na casa de um moribundo?
Não vejo a ligação, pai.
Trouxe-o aqui para apresentar cumprimentos ao Conde Bezuhov,
não para esbanjar o seu tempo e o meu dinheiro ao jogo.
Como posso apresentar cumprimentos se ele está inconsciente?
Por vezes, tenho a impressão que é um caso perdido.
E o meu amigo não é muito melhor.
É o seu pai que está lá em cima, isso não lhe diz nada?
Sim, peço desculpa. Foi sem pensar.
Mas devia pensar, e depressa. Ele está às portas da morte.
Posso fazer alguma coisa?
Sim, pode ir apanhar ar puro.
Não precisa de passar o dia fechado em casa.
E se ele me mandar chamar?
Nesse caso, alguém o chamará.
É uma pena não o ter atado a um urso e atirado os dois ao rio!
- O que pensam que estão a fazer? - Natasha!
Estão a virar a casa de pantanas?
O que podemos fazer?
Também é o dia da santa dela. As crianças precisam de brincar.
Estraga-a com mimos, Ilya. Veja o corpete dela.
Quem é que a estraga?
Como está, minha querida? Muitas felicidades neste dia.
Não sabem entrar numa sala com modos?
Não vêem que temos visitas?
Qual é a piada? Vamos, contem lá.
Parece que tem algo a ver com a boneca.
Como é que ela se chama? E a sua menina?
Ela não é a minha menina.
É da Sonya!
O que havemos de fazer com eles? Já são crescidos para levar tabefes.
Talvez eu já seja demasiado velha para isso.
Boris, esperava que o menino tivesse outras maneiras.
Não é apropriado andar por aí em correrias fardado.
Perdão, minha mãe.
Meninos, esta é Mme. Karagina e a sua filha, Julie.
Estes são os meus filhos, Nikolai e Petya,
e a minha sobrinha, Sonya, que foi criada connosco.
E este é Boris, filho da Princesa Drubetskaya
e afilhado do Conde Bezuhov, como estávamos a comentar.
- Gosto da sua farda. - Obrigado.
Gosto muito de ver um jovem fardado.
Diz isso porque não tem filhos varões.
Muito pelo contrário, tenho um filho, um rapaz encantador.
Também vai-se alistar no Exército.
- Vai fazer o mesmo? - Já me alistei.
O Boris alistou-se, e ele abdicou da faculdade para fazer o mesmo.
- É assim a amizade. - Não é uma questão de amizade, pai.
Eu disse que quero fazer carreira.
Carreira... Só pensam no Napoleão.
Acham que podem todos subir de porta-estandarte a imperador.
Não penso no Napoleão,
apenas na coça que vai levar quando enfrentar o Exército russo!
Ele vai ver que não somos alemães, austríacos ou polacos.
Bravo!
Não tenho feitio para diplomata, ou funcionário público.
Mas se insiste, eu fico aqui.
- Quando é que eu insisti? - A farda vai cair-lhe muito bem.
Obrigado. Mas a questão não é essa.
- Os rapazes só querem ser soldados. - E nem sequer essa.
Sentem-se, meus filhos.
É má educação ficarem de pé como se estivessem de saída.
Mãe, creio que queria sair. Mando preparar a carruagem?
Sim, meu querido, faça isso.
- Conhece os Aharov? - Sim.
Bem me pareceu. Deram uma festa na quinta-feira.
Alguém falou de si. Foi divertido, devia ter ido.
Quem me dera ter ido.
Com licença.
Por favor, dêem-me licença.
Andam sempre com o coração na boca.
É verdade. O sofrimento e as preocupações que nos dão
antes de nos darem alegrias.
- Posso sair? - Alguém lhe pediu para entrar?
- Não. - Então, porque pede para sair?
Venha cá.
Que piada foi aquela lá fora?
A Sonya roubou a boneca da Natasha e escondeu-a na saia dela.
A Natasha tirou-lha, disse que ela tinha tido um bebé e ia dizer a mamã.
- Sonya, pára, por favor. - Deixa-me em paz!
Volta para aquela Julie Karagina.
Não é isso que eu quero, não vês? Estava só a ser simpático.
- Ficaste muito cortês de repente. - Devemos ser simpáticos.
Para ela, sim, mas a mim insultas-me!
Quando é que te insultei?
Disseste que gostarias de ter ido à festa dos Aharov na quinta-feira.
E depois?
Foi nessa noite que tocámos clavicórdio e cantámos juntos!
E disseste que tinhas adorado.
Só disse que gostaria de ter ido à festa por cortesia.
- O que achas que estava a fazer? - Eu sei que gostaste dela!
- Mentira. - Verdade! Viu-se pela tua cara.
Sonya, por favor...
Juro que estava apenas a fazer conversa de circunstância.
Como podes pensar o contrário? Ela nem sequer é bonita.
Mas se fosse bonita, tudo seria diferente, suponho.
Não, claro que não.
Sonya, tens de acreditar em mim.
Como podes torturar-nos por causa de algo tão trivial?
Somos tudo um para o outro.
Não fizemos uma jura na outra noite?
Dissemos que nunca haveria ninguém entre nós.
Não te lembras?
Por favor, diz que me perdoas.
Por favor...
Eu perdoe-te.
Natasha?
Natasha?
O que estás a fazer aí? Anda cá.
Estava à tua espera. Sabia que me seguirias.
Fui mandar preparar a carruagem para a mamã.
Vai visitar o velho Conde Bezuhov e quer que eu vá com ela.
Porquê?
Acha que ele me vai deixar dinheiro. Sei que não, mas conheces a mamã...
Queres beijar-me?
Tontinha...
- Natasha... - Gostaste?
Claro que sim.
Não senti nada.
Devia estar muito nervosa.
Amas-me, deveras?
Sabes bem que sim.
Mas acho que não devíamos...
Acho que não devíamos...
A tua mãe não aprovaria e eu vivo aqui convosco.
Mas, daqui a quatro anos, pedirei a tua mão.
A serio? Não te vais esquecer?
Prometo que não. Juro.
Espero que não tenhamos tomado muito do vosso tempo.
Claro que não.
Agradecemos imenso terem vindo. Não é assim, minha querida?
Sim, agradecemos imenso.
Venham jantar connosco ou ficarei muito ofendido.
Em nome de toda a família, peço-lhe que venha.
E traga a Julie. Às nove horas.
Pelas minhas duas queridas cuja santa hoje homenageamos.
Vai ser muito divertido. Teremos connosco família e amigos...
Estava a ver que nunca mais se iam embora!
Parece que algumas pessoas não sabem quando estão a mais.
É apenas uma questão de boas maneiras, nada mais.
Não é estranho?
À medida que vamos envelhecendo, cada vez queremos ver menos gente.
Apenas os velhos amigos.
E já somos poucos, minha querida.
É por isso que prezo tanto a sua amizade.
Tem toda a razão, Annette. Cada vez menos velhos amigos.
Parece que vão ficando para trás enquanto seguimos viagem pela vida.
Vera, porque não vai para junto da sua irmã?
Com certeza, mamã. Se acha que estou a mais...
Não é saudável uma jovem passar tanto tempo com mulheres mais velhas.
O que estávamos a dizer, minha querida?
Cada vez menos amigos.
Sim, cada vez menos.
Aprendemos a valorizar aqueles que nos restam.
O que teria sido de mim estes anos todos sem si?
Não falemos disso agora. A vida trata-nos a todos de maneira diferente.
É bem verdade.
Para algumas pessoas, a vida parece muito fácil.
Para outras, é um rol de intermináveis labutas.
A minha vida não tem sido fácil, como bem sabe.
- Não foi um mar de rosas. - Eu sei.
A riqueza traz tantos problemas como a pobreza, minha querida.
Pode ser igualmente extenuante.
A quem o diz. Quem a não tem, pergunta de onde vem;
mas quem a tem, pergunta para onde vai.
- Exactamente. - Sei bem disso.
Já vi as duas coisas, a pobreza e a riqueza.
Se continuarmos a este ritmo, quanto tempo acha que aguentamos?
Somos ricos, é verdade, mas não temos uma fonte inesgotável.
Quanto julga que custa manter esta casa?
Não me diga. Vivo sob este telhado e estou muito grata. Prefiro não saber.
Ele tem boa índole, não diz "não" a nada.
Mesmo vivendo no campo, não olha a meios.
Encenações, caçadas, tiro... E sabe Deus o que mais.
Mas é igualmente culpada, minha querida.
A sua índole não lhe fica atrás.
Não criou o meu filho estes anos todos como se fosse seu?
Não custou nada. Foi apenas mais uma boca para alimentar.
Além disso, o Boris e o Nikolai dão-se lindamente.
Sabe o que mais me espanta, Annette?
A Annette.
Faz o que for preciso por aquele rapaz.
Vai sozinha a Petersburgo, pede audiências a ministros...
O que mais poderia eu fazer?
Queira Deus que nunca saiba o que é ficar viúva,
com um filho que adora e sem meios para o ajudar.
Aprendemos muitas coisas.
Persistência é uma delas.
Não me interessa o que pensam de mim.
Se quero falar com alguém, continuo a insistir
até me concederem uma audiência, não quero saber.
Acho isso maravilhoso.
Vai mesmo a Petersburgo pedir para transferirem o Boris para a Guarda?
Tem de ser, minha querida.
No regimento onde está, até onde pode chegar, mesmo sendo oficial?
Ele tem de ir para a Guarda, não há outra saída.
Então, tenho a certeza que vai conseguir, cara amiga.
Hei-de conseguir, sim, mas e depois?
Mesmo que consiga, como pagarei a sua farda?
Se o Conde Bezuhov não nos ajudar,
não conseguirei equipar o Boris mesmo que ele seja transferido.
Deve deixar-lhe alguma coisa, afinal é seu afilhado.
Ouça,
não quis que aquela harpia e a filha pensassem o contrário,
mas ele deve ter-se esquecido que é padrinho do Boris.
Mas foi por isso que mandei preparar a carruagem.
Irei com o Boris visitá-lo.
Acho que não está tão mal como dizem.
Vou falar abertamente com ele.
Já dei ordens que não recebemos mais visitas.
- Para onde vai, minha querida? - Fazer uma visita ao Conde Bezuhov.
Se ele estiver melhor e o Pierre puder sair de casa,
convide-o para o jantar de logo.
Ao Pierre, naturalmente.
Costumava vir cá a casa, dançava com as crianças...
- Não se esqueça. - Com certeza.
É uma mulher corajosa, Ilya.
Às vezes, acho que não sabemos a sorte que temos.
- Como está a sua enxaqueca? - Que enxaqueca?
Onde arranjou essa nódoa?
É tão descuidado a comer...
Ilya, tenho um pequeno pedido a fazer.
- Pequeno, como? - Pobre Anna...
Ela esforça-se tanto pelo Boris.
Sabia que ela vai a Petersburgo pedir que o transfiram para a Guarda?
O Boris é um bom rapaz, há-de vingar na vida.
E ela há-de conseguir que o transfiram.
- Precisa de dinheiro? - De algum.
Temos gastado muito dinheiro.
- Diz-me o guarda-livros... - Bom, se não há dinheiro...
Quem disse isso? Eu disse isso?
O dinheiro, Conde, o dinheiro.
Quanta desdita traz ele ao mundo.
Tem um coração de manteiga.
Qualquer tristeza a transtorna.
Mas hoje não.
Dei ordens para que a minha pomba não seja importunada.
Pode ter tudo o que quiser.
Quanto? 100, 200?
Preciso de 500.
Se são 500, são 500.
Terá o dinheiro hoje à tarde.
Quero ver a minha condessa feliz.
Faz-me todas as vontades, meu amor.
Quer que lhe recuse o dinheiro?
Podia perguntar para que o quero. Ou fazer-se de difícil.
Faço-me de difícil amanhã. Hoje pode ter tudo o que quiser.
Que tal?
Vá à cozinha tirar essa nódoa.
Boris, quero que seja afectuoso e atencioso com ele.
Afinal de contas, é seu padrinho, e o seu futuro depende dele.
Sei que esta visita só pode resultar em humilhação.
Meu querido, prometeu-me...
Príncipe!
Voltamos a encontrar-nos em circunstâncias melancólicas.
Há quanto tempo...
Como está o nosso acamado? Receio que nada bem.
- Dizem-me que não recebe ninguém. - Ele está muito mal.
Que pena...
Este é o meu filho, Boris.
O Príncipe Vasili Kuragin, meu querido.
Pelo que vejo, pertence à Infantaria.
Aguardo ordens para me juntar ao meu regimento, Alteza,
mas espero ser transferido para a Guarda.
- Vive com a sua mãe? - Vivo em casa do Conde Rostov.
Ilya Rostov, que desposou Nathalie Shinshina, lembra-se?
Sim, claro que me lembro.
Nunca percebi como pôde casar com um sujeito tão absurdo.
Mas um excelente homem, Príncipe. O que dizem os médicos?
Estão lá dentro com ele.
Quero agradecer-lhe pessoalmente
a gentileza que me dispensou a mim e ao Boris.
É padrinho do Boris, sabia?
Vou esperar mais um pouco, talvez ele se anime.
Não acha que uma tal audiência seria um pouco penosa?
Estou habituada a sofrer, Príncipe.
O que disseram os médicos?
Está na mesma.
Katishe, quase não a reconheci.
Acabei de chegar, vim oferecer os meus préstimos como enfermeira.
Minha querida, parece estar exausta.
Imagino o que tem passado.
Boris, vou ver o seu padrinho.
Veja se encontra o Pierre.
Não se esqueça de o convidar para o jantar dos Rostov mais logo.
Eles convidaram-no, mas talvez prefira que não vá.
Muito pelo contrário.
Ficarei contente por ver esse jovem pelas costas.
Dá comigo em doido, sempre aqui pelos cantos.
O Conde nunca pediu para o ver.
É o fim da Inglaterra.
As minhas tropas atravessaram o canal e estão, neste momento,
às portas de Londres.
O Sr. Pitt, que traiu o seu país e os direitos do Homem,
será condenado...
Olá...
Estava apenas...
- Mas que prazer. - Lembra-se de mim?
Sim, claro que sim.
Vim com a minha mãe visitar o conde, mas parece que está muito enfermo.
É verdade.
O Conde Rostov pede o prazer da sua companhia para jantar.
Claro, o Conde Rostov... Deve ser o seu filho, Ilya.
Não, sou Boris Drubetskoy,
e é o Conde Rostov quem se chama Ilya.
O seu filho chama-se Nikolai.
Nikolai, claro...
Onde estou eu com a cabeça? Conheço tanta gente em Moscovo...
Pois muito bem...
O que acha da campanha de Bolonha? Acha que Napoleão atravessa o canal?
Não sei nada sobre essa campanha.
A Moscovo chegam apenas rumores.
Presentemente, sobretudo relativos a si e ao seu pai.
Deveras?
Homessa...
Não sabia. O que dizem os rumores?
Todos se perguntam quem vai herdar o dinheiro.
Sim, suponho que sim...
Deve pensar que todos querem o seu quinhão.
Mas fique ciente que se me incluir a mim e à minha mãe nesse rol,
estará redondamente enganado.
- Deus do Céu, acha que eu... - Quis apenas esclarecer as coisas.
Aceita o convite para jantar?
Você é um tipo espantoso.
Deve ter pensado que eu...
Não, claro que o compreendo.
Compreendo perfeitamente.
O que acabou de dizer é fantástico.
Acho que não o faria.
Ou faria?
Sabia que ainda não fui ver o Conde? Bem, ele não me chamou.
- Isso incomoda-o? - Nem um bocadinho.
Ou será que sim?
Enviou-me para Petersburgo para escolher uma carreira, mas...
Então, sempre vai?
- Vou? - Ao jantar dos Rostov.
Sim, claro.
- Então, adeus. - Adeus.
- E então? - Ele está muito mal, minha querida.
Mal o reconheceria, de tão mal que está.
- Não conhece ninguém. - Isso não me surpreende.
Quem mais estava lá?
O Vasili, a Katishe e as outras sobrinhas.
Mas estão de volta dele como abutres;
os parentes, os amigos... pavoroso.
- É indecente. - Só fiquei uns minutos.
Mas voltarei hoje à noite.
Cumprirei o meu dever de velar por ele.
São uns inúteis, todos eles.
Não pode ficar entregue a eles.
- O Pierre estava lá? - Sim, e vem ao jantar.
- Qual é a posição dele? - Quanto à herança? Quem sabe?
Sendo ilegítimo, só com uma licença especial é que ele pode ser herdeiro.
Tê-la-á o Conde pedido? Mais uma vez, quem sabe?
É um enigma.
Anna, por favor, não diga que não.
É para equipar o Boris.
Cara amiga, por favor...
O dinheiro é tão sórdido...
- Tem sido tão minha amiga... - Isto não é nada.
Eu tenho e a Anna não.
Se fosse ao contrário...
Seja como for, o Boris vai ficar esplendoroso.
Esplendoroso.
O manifesto do Czar já chegou a Petersburgo.
Eu já o vi.
Entraremos em guerra dentro de poucas semanas.
É tudo uma grande asneira, é só o que posso dizer.
Então, seria melhor que não dissesse nada.
O Czar precisa do nosso apoio na guerra contra Bonaparte.
Mas por que raio temos nós de lutar contra Bonaparte?
Derrotou a Áustria e vai derrotar-nos a nós.
Aí é que está. O imperador referiu isso no seu manifesto.
Não podemos ficar indiferentes aos avanços de Bonaparte.
Os alemães são soldados profissionais, só sabem combater.
- O nosso país está em perigo. - O meu país.
Também é o meu, e estou disposto a morrer por ele!
- Mamã? - O que foi?
Gostaríamos de saber o que é a sobremesa.
Nem imagina o que lhe faço se tiver de ir aí.
Gostaríamos de saber o que é a sobremesa.
Seja o que for, a menina não come.
Sente-se e comporte-se.
- É gelado? - Sim, de cenoura.
Não existe gelado de cenoura!
Como é que sabe? E assim tão sabichona?
Quem é que come gelado de cenoura?
Os burros. Quem haveria de ser?
Foi por isso que o fizeram para si.
Nós vamos comer gelado de ananás.
Ele deve ser deitado na cama.
Vá chamar os criados.
Eh, bien, ma cousine, como está ele?
Na mesma.
Não vai sobreviver a uma terceira apoplexia.
A Katishe e a minha esposa são as únicas herdeiras directas.
É doloroso, eu sei, mas temos de falar destas coisas.
Nunca deixei de pedir a Deus que fosse misericordioso.
Mas temos de estar preparados. Mandei chamar o Pierre.
Foi ele quem o chamou.
Para quê? É ilegítimo, não pode herdar nada.
Já tentei explicar-lhe. O Conde só tinha de escrever uma carta ao Czar
a pedir-lhe para o tornar legítimo. Vou dizer-lhe uma coisa.
A carta foi escrita, mas não foi enviada.
Resta saber se foi destruída,
ou se está junto dos seus papéis.
Se estiver junto dos papéis, o Pierre torna-se legítimo.
Sei de fonte legal segura que a Katishe não herdaria nada.
Bela maneira de mostrar gratidão.
É assim que reconhece o valor de quem sacrificou tudo por ele.
Sabe de quem é a culpa? Daquela mulher que esteve aqui,
a Princesa Dubretskaya.
Ela veio aqui há uns meses para o virar contra nós.
Mas ainda há tempo, minha cara.
A carta foi claramente escrita num momento de fúria ou fragilidade
e logo depois esquecida.
O nosso dever é claro. Se sabe onde está a carta,
temos de lha levar e perguntar se quer que a destruamos.
- Ele não consegue falar. - Mas consegue fazer gestos.
Por menores que sejam.
Não quero que ele morra sabendo que fez algo de que se arrepende.
A carta está numa pasta, no quarto.
Vamos levar-lha agora?
Não, esperemos que fale com o Pierre.
Não quero que se diga que tentámos influenciá-lo contra ele.
Na Cavalaria, ganharia 200 rublos de quatro em quatro meses;
na Infantaria, como capitão, posso ganhar 230 por mês.
Mas demora tanto tempo a fazer carreira na Infantaria.
Demora tanto tempo fazer carreira na Infantaria.
Nem por isso. As baixas são maiores e as promoções mais rápidas.
Também posso poupar,
fazer um pé-de-meia para o feliz dia em que me casar.
Tenho a certeza que vai ter sucesso seja em que regimento for.
Temos de estar dispostos a morrer pelo imperador, sem contestações!
Temos de morrer, se for caso disso.
- Apoiado! - Concorda, jovem?
Absolutamente.
Nós, os russos, temos de conquistar ou morrer.
Temos de dar uma lição a Bonaparte.
Vai saber a diferença quando enfrentar os hussardos russos.
Foi esplêndido aquilo que disse.
É do seu pai?
Vamos imediatamente para junto dele.
Courage, mon brave. Já falta pouco.
Persigne-se.
Sinto muito.
Sinto muito...
Deve ser assim...
Deve ser assim...
Sim, é assim mesmo.
Tem de ser...
Sim...
Permita-me decidir o que deve ou não ser feito.
Não pode levar-lhe isto agora, ele precisa de repousar.
Largue!
A sua alma está pronta, quer deixar para trás estes assuntos mundanos.
Pierre, meu querido, chegue aqui.
Não estará a mais nesta reunião de família, pois não, Príncipe?
Porque não se pronuncia? Porque teima em guardar silêncio?
Isto é um ultraje. Largue, Anna!
Eu assumo as responsabilidades.
Mas, Príncipe, não é altura de o incomodar.
Criatura hedionda, largue! Como se atreve, mulher pérfida?
O Conde morreu. Onde estão com a cabeça?
Põem-se a discutir enquanto um homem morre no quarto ao lado?
Que Deus vos perdoe.
Certifique-se de que esta pasta é colocada entre os papéis do seu pai.
Pode não ser nada importante,
mas nunca se sabe.
Sonya?
Sonya...
O que se passa, Sonya?
Não chores, minha querida, por favor.
O Nikolai vai partir.
Amo-o e ele não olhou para mim a noite toda!
Ele ama-te, Sonya.
Eu sei que sim.
Mesmo que me ame, a mamã não permite.
Vai dizer que eu vou arruinar a sua carreira.
E que sou uma desalmada e uma ingrata.
Mas não sou.
Tem sido muito boazinha para mim desde que era pequena,
e eu adoro-vos a todos.
Nunca faria nada para vos magoar.
Sonya...
A Vera disse que a mamã nunca permitiria que me casasse com ele
porque somos primos e ele vai casar com a Julie.
Viste como ele olhava para ela.
Não acredites nela, Sonya.
Não acredites.
Lembras-te do que dissemos na outra noite depois do jantar?
Eu, tu, o Boris e o Nikolai?
Combinámos como seria.
Combinámos tudo.
O Nikolai não se esqueceu.
Não chores, minha querida.
Vai correr tudo bem, tenho a certeza.
Achas mesmo?
Tens a certeza?
Tenho a certeza.
Sonya...
Aquele balofo do Pierre que estava à minha frente e tão engraçado.
Só me dá vontade de rir.
Anda, vão brindar à saúde da mamã.
Estou tão feliz, Sonya!
Meus queridos amigos,
que tiveram a gentileza de dar a mim e à minha família a honra
de jantar connosco esta noite,
peço que brindem comigo
à saúde e felicidade da minha adorada esposa,
e da minha traquinas que ali está,
e cuja santa de baptismo também hoje celebramos.
Que desfrutem de uma longa vida, cheia de felicidade,
e que este dia lhes recorde durante todo o ano
o bem que todos nós lhes queremos.
Tradução e Legendagem Pedro Póvoa / CRISTBET, Lda.
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