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Deixa eu dar uma filipetinha pra você aqui, Madame Gilda.
Posso dar um filipetinha aqui? Peraí, peraí!
Ai, não consigo dar a filipeta!
Vocês ficam me puxando. Tá impossível!
Vou chegar lá na madame Gilda, ela vai falar pra mim
que eu não entreguei nada. Claro, vocês não deixam.
Vocês ficam me puxando.
Reunião! Vou fazer a reunião aqui com todo mundo, hein?
Fazer uma reunião.
Nada de ir para o lado. Só pra frente.
Gente, olha só, vou falar um negócio pra vocês, hein?
Tem um cachorro ali, mas não olha.
Finge que não viu. Passa assim, de ladinho.
Olha pro lado, faz um charme.
Passou despercebido. Muito bem. Obrigada! Pra cá!
Opa! Ai, Abelardo! Abelardo, vou falar um negócio pra você, hein?
Para quieto!
Abelardo! Abelardo, parou! É um grupo! Pensamento de grupo!
Ai! Ai! Peraí! Ai!
Você tá maluco?
Você não olha pra frente, não? Quase me atropelou aqui!
Vai atropelar a mãe, palhaço! Caramba!
Quase me atropelou aqui!
Viu aquela maluca querendo se matar? Era só o que me faltava.
Olha pra frente! Atropela a mãe! O que é? Palhaço!
Vocês estão bem? Tá tudo certo? Caramba! Pra você, aqui, ó!
Ainda por cima é mal-educada.
-Irado, moleque! Tu viu, Breno? -Eu vi, moleque! Foi demais!
É ele mesmo. É o Daniel! Olha lá!
Ai, Ricardo, deixa! Que delícia!
Delícia, é? Porque não é seu filho.
O Breno tem mais juízo. Daniel!
Pô, teu pai! Como é que ele descobriu?
Relaxa, Breno.
Você não pode estar fazendo uma coisa dessa!
Eu tive que vir aqui pra ver, pra acreditar!
Que absurdo é esse? Que irresponsabilidade é essa?
Desde quando você voa nessa coisa?
Não começa, vai? Olha aí o vexame.
Desde quando, Daniel?
O seu espião não te deu o serviço completo?
Estou decepcionado com você. Você mentiu pra mim!
Omiti, pai.
Pra manter o controle de qualidade da minha vida.
Você exagera em tudo. Você ainda acha que eu sou criança.
Você não...
Olha, nós vamos conversar no meu consultório!
Conversamos lá! E não demora! Vê se você não demora!
Bro, quebra meu galho, vai?
Deixa que eu arrumo tudo aqui, bro. Boa sorte!
-Ô, mãe, foi você, né? -Eu?
Eu nem sabia desses voos. O que é isso?
-Cuidado você também, hein? -Tchau!
Dr. Ricardo tá um gato nessas fotos!
-Tá! -Olha aí!
Eu nem sei como é que não casou de novo.
Mas dizem que a doutora já fez até promessa pra casar.
-Jane. -Oi, querido.
O que houve com pai e filho?
O de sempre. Temperamentos opostos.
Irresponsabilidade sua, sim! Você é um futuro médico!
E se você sofre uma fratura numa das mãos, num ombro, num braço?
E você fica impossibilitado de realizar
uma cirurgia mais delicada?
Isso sem falar num acidente fatal,
-isso eu não quero nem pensar. -Pai, me escuta, pai!
Tive que ver você pessoalmente para acreditar, Daniel!
E você não está em pleno horário da sua faculdade?
Os primeiros tempos foram cancelados.
-E daí? -Eu estou indo pro meu estágio,
-que não quero chegar atrasado! -Não, não!
Outro absurdo esse seu estágio na favela,
meu filho, abre os olhos.
Você tem um futuro brilhante pela frente.
Você tem esta clínica! Você tá jogando tudo isso fora!
Pai, eu quero ser um grande médico!
-Claro! -Mas eu também gosto de voar,
de correr!
Experimentar coisas novas, pai! Eu não tenho o mínimo interesse
em dedicar a minha vida inteira
a quem pode pagar uma fortuna por uma consulta, pai!
-Daniel! -Quero cuidar dos mais pobres!
Aqui, na África, na Amazônia, sei lá onde!
Eu sei que você acha isso tudo uma grande besteira, não é?
Mas é assim que eu sou, pai.
Tá na minha hora. Eu tenho que ir.
Olha, às quatro, parte o nosso avião pra São Paulo.
Vê se você não esquece.
E não se atrasa, não é?
Pode deixar, pai. Pode deixar.
Voucher pro hotel em São Paulo, dr. Ricardo.
-Tem que chegar uma hora antes. -Você tinha razão, Gilmar.
Daniel está fazendo essa coisa de asa-delta.
Não queria preocupar o senhor.
Você fez muito bem em me avisar,
porque só assim eu posso impedir, não é?
Quero o meu filho vivo, saudável, comigo!
Você não entende isso porque você não é pai.
Quando você for pai, você vai entender.
Eu não posso fazer milagre, né, madame.
Aqui, ó, sobraram 89 santinhos.
Nossa, tudo isso? Ah, me dá aqui a Juju.
Tadinha! Ela parece tão estressadinha.
Mas você não sabe trabalhar mesmo, né, Viviane?
Tudo isso encalhado? Onde é que já se viu?
Bom, pelo menos, estou falando a verdade pra senhora, né?
Porque eu podia jogar tudo no lixo e dizer que entreguei tudo.
-Não é mesmo? -Sabe o que é?
Você não acredita nos meus poderes.
Passa uma energia negativa.
-As pessoas percebem. -Ô, madame, o povo tá é duro.
Essa que é a verdade porque acordei hoje cedo pra caramba,
com as galinhas, e me despenquei até São Conrado
pra passear com uma cachorrada.
Vim pra Copacabana passear com outra cachorrada.
No meio disso tudo, vem um carro que passou assim por mim.
Chega, chega! Chega, Viviane!
Você quando dispara... Eu já entendi!
Minha semana, madame. Cinquenta pau.
Ah, é, cinquenta...
Dez por dia. Cinco dias, cinquenta.
Ó, tenho quarenta.
Vou ficar devendo dez. Mas eu posso ler a sua sorte.
Acho que eu prefiro dinheiro, né, madame?
Semana que vem a senhora me dá. Tá tranquilo.
Você é uma boa garota, viu, Viviane?
Vou te dar uma dica.
Apesar de que você não acredita em Madame Gilda.
O quê? Que um príncipe encantado vai me atropelar agora?
Não! Não! Dois!
Eu tenho visto dois príncipes encantados no seu caminho.
Ambos já cruzaram com você em vidas passadas.
E um deles é a sua alma gêmea.
Mas, pra mim, ainda tá tudo um pouco nebuloso.
É. Pra mim, também, né, madame? Vidas passadas, sei lá.
Porque a que eu tô vivendo tá muito difícil já.
-É? -É.
Vai rindo, vai. Vai rindo.
Há mais mistérios entre o céu e a terra do que você imagina.
Já dizia minha santa avó.
Que Deus a tenha, não é? Pronto!
Tchau, Juju! Até semana que vem.
-Tchau, madame! -Tchau, Viviane. Tchau!
Quem estava aí? Cliente nova?
Ah, não. A Viviane.
Acredita que nem em São Conrado
ela conseguiu distribuir muita coisa?
Desse jeito, a gente morre de fome.
Já falei pra você que você tem que arrumar
alguém com mais classe, né?
Uma favelada? Francamente, né, Juju?
Respira fundo.
De novo.
Olha, o senhor precisa parar de fumar, viu?
O senhor tá com começo de enfisema.
Pelo amor de Deus! Peraí, doutor!
Eu já tenho tão pouco prazer na vida, né?
É, mas esse pode te matar, né?
O senhor tem ficha aqui no posto?
Tenho não, doutor. Tenho não.
Eu vim pra comunidade tem pouco tempo, sabe?
-E aí? -Passei dona Lucélia na frente.
Tá com muita dor,
acho que a gente vai ter que tirar um raio-x.
Bom, o senhor toma a injeção e volta na segunda
que eu quero acompanhar isso de perto, tá?
-Tá bom, doutor. -Vem, Breno. Coloca ela aqui.
Toma cuidado, tá, Breno?
Troca o pé. A senhora pode usar a escadinha aqui.
Quem é o cara, Guilherme?
-Cara esquisito, hein? -Paciente novo.
Se não parar de fumar, não vive muito.
-Cadê a grana do homem? -Eu falei que eu vou pagar,
-eu vou. Pode ficar tranquilo. -Cadê a garota?
Não, minha filha? Não vai botar minha filha nessa jogada.
-Então, tu paga o que tu deve. -Larga o meu pai!
Larga o meu pai! Larga!
Então tu manda ele pegar o que deve ou vão os dois para a vala!
Larga a minha filha! -Pai!
Seu covarde! Covarde!
Pai, machucou aqui?
-Tá tudo bem, filha. -Tem certeza?
Tudo bem, filha. Tudo bem.
Ai, pai, tá todo ralado aqui.
Você podia ter quebrado o braço, sabia?
Não. Foi nada não, filha. Taca um iodo aí, que fica novo. Ai!
Você já se meteu em confusão de novo, né?
A gente mal acabou de se mudar!
Você viu a cara daquele homem, paizinho? Você viu?
Essa gente mata, pra depois perguntar.
Calma, filha! Calma!
Eu não vou dar o cano em ninguém também, né?
Foi só um joguinho. Eu juro que eu não vou jogar mais, filha.
Olha, depois dessa, eu juro pra você. Eu não vou mais jogar.
-Tá devendo quanto, pai? -É bobagem, é besteira.
Eu fiz uns biscates aí, eu vou pagar tudo, você vai ver.
Toma juízo, tá bom?
Comprei um bife pro senhor. E não é sola de sapato não, hein?
Ô, filha, obrigado, ó. Obrigado.
Escuta, você vai trabalhar hoje à tarde?
Vou, vou. Arranjei um bico ali.
Pai, dá uma deitada, o tombo foi feio. Vou tomar um banho,
daqui a pouco eu faço o almoço pro senhor.
-Descansa, pai, por favor. -Obrigado, filha.
Obrigado, viu, filhinha?
Rapaz, a menina tá em casa!
Tô ligado, é rápido. Ó, vai encarar o lance?
É hoje à noite. Pegar ou largar.
Eu vou encarar. Claro que eu vou encarar!
Tem outra chance? Não tem, né?
Mas, olha, a Viviane não pode saber de nada!
Ela não pode saber! Olha lá, hein?
Fica tranquilo. Tá tudo no esquema. Tranquilo.
Eu vou botar a mão nessa grana
e eu juro que eu vou mudar de vida! Eu juro!
Eu juro que eu acredito. Hoje à noite, hein?
Oi, Pepe! Vem, vem! Olha o que eu trouxe. Presente!
Vem, vem! Isso, bonitão! Vamos pra São Paulo comigo, vamos?
Olha lá, pega lá! Vai!
Isso, Pepão!
-Ah! -Bobona. Leva susto à toa.
Escuta, que história é essa de querer virar passarinho agora?
Já tá todo mundo sabendo. E se aquela asa despenca, menino?
Ninguém morre de véspera, Tunica!
Parabéns pelo aniversário amanhã, viu?
Vai ter aquele bolo gostoso?
Olha, obrigada pelos parabéns, mas não muda de assunto.
Imagino o desgosto do dr. Ricardo.
Ele me pegou no pulo, Tunica. Literalmente.
Aí fez aquele drama de sempre, que você conhece, né?
Teu pai te adora. Deixa de implicância.
Ele só esquece que eu já sou bem grandinho.
Ó, vê se não coloca muita roupa aí,
que é só um fim de semana em São Paulo, tá?
Será que você volta noivo de lá?
Tá me rogando praga, é, Tunica?
A Beatriz é doidinha por você.
Vira essa boca pra lá, Tunica.
A mulher que eu quero é bem diferente da Beatriz, tá?
Só que essa gata ainda não pintou no pedaço.
Pois vai ser a noiva mais sortuda desse mundo.
-Vou tomar um banho, tá? -Vai.
Terno do doutor. O que foi, dona Antônia?
Um peso... um pressentimento...
Um troço ruim, Berenice. Não tô gostando nada.
Mas a senhora tá vendo alguma coisa?
Parecia uma sombra escura...
perto do Daniel quando ele estava indo.
Isso não é coisa boa... Isso não é coisa boa.
Dona Francisca, a senhora não tinha nada que ter morrido.
Trata de proteger seu filho aí de cima, viu?
[música]
Essa proposta de estágio na favela, Guilherme,
você tinha que ter me avisado isso antes.
Tinha sim...
Daniel já vive cheio de ideias românticas na cabeça.
Ricardo, o Daniel quer conhecer outro tipo de realidade.
Eu acho isso muito saudável.
Ele tá se saindo muito bem lá, no posto da favela.
O pessoal tá adorando!
Daniel é muito inteligente, Ricardo.
Na hora certa, ele vai saber
escolher o que for melhor para ele.
Vamos ver. Quando eu voltar de São Paulo, a gente conversa.
Jane, amanhã é a transferência do Paulina Bastos.
Pede o Breno pra assistir.
Vai ser um procedimento muito interessante.
Breno tá indo pra São Paulo passar fim de semana com vocês.
Daniel não falou não?
Não, mas acho ótimo! O Breno tem juízo.
Ele é uma ótima companhia pro meu filho. Até segunda!
Ricardo! Como é que é?
-Me dá aqui. Fizeram boa viagem? -Tudo bom!
Tudo ótimo.
Ih, olha lá. A Beatriz tranquilinha, discretinha.
Esses dois não têm jeito.
-E Sofia? -Tá lá em casa,
esperando a gente para um drink.
Ah, não precisava se incomodar, Vicente!
O que é isso? Bobagem, rapaz! Vem cá!
-Vicente! Como é que tá? -Ê, Daniel! Tudo bom?
Desculpa, viu? Mas quem mandou ter uma enteada tão bonita, tio?
-Cada vez mais bonita. -Ai, obrigada, tio!
Mas o seu filho me maltrata demais.
Não liga, não manda e-mail, um grosso!
Ih vai, vamos lá. Vambora. Vamos conversar sobre isso. Vamos lá.
-Dr. Ricardo, por favor. -Pois não?
Algumas palavras sobre a importância do congresso
de engenharia genética.
É um congresso muito importante, especialmente pra...
[falas sem som, música ao fundo]
E, então, Vicente, você pensou na minha proposta de trabalho?
O quê? A Beatriz e a Sofia não me deixam esquecer um segundo!
Ainda bem!
Mas é sério. Você sabe que eu adoraria
-voltar pro Rio de Janeiro? -Nós vamos voltar, tio!
Vicente tá quase se convencendo, não é, Vicente?
Vamos ficar pertinho, Daniel!
Por que não se hospedam com a gente, Ricardo?
Ah, muito obrigado, Sofia.
Fiz reservas no hotel do congresso mesmo.
Amanhã chega o Breno, amigo do Daniel. Quer dizer...
-Puxa, Daniel, e eu? -Você?
Você vai mostrar São Paulo pra gente.
Na verdade, eu gostaria de ter chegado mais cedo aqui,
mas tivemos um probleminha lá, na clínica, não é?
Viu como o seu amigo precisa de você?
Sofia!
Fica tranquilo, Vicente. Não vamos falar de trabalho hoje.
Isso.
Eu fiz reservas num ótimo restaurante.
E vocês são meus convidados.
-Saúde! -Santé!
-Saúde! -Saúde!
Saúde, filhota.
Vamos lá fora um pouquinho?
Licença, gente.
Acho que vai sair noivado ali.
Daniel não pode se prender, Sofia.
Ele tem mais um ano de faculdade e três de residência médica.
E a Beatriz, que até agora não sabe o que fazer da vida?
Já largou duas faculdades. Não pode nem pensar em casamento.
-Vamos ficar juntos hoje? -Direta você, hein?
-O que é? Tem outra no Rio? -Várias.
Topa dividir uma palafita comigo na Amazônia?
Eu vou pra lá quando eu me formar.
Trabalhar com a população indígena, vamos?
Ai! Te faço esquecer esse planos malucos.
-Duvido, Beatriz. -Duvida?
Duvida que vai se apaixonar por mim?
Duvido.
Assina a minha carteira, seu Manoel.
Posso vir todo dia. Por favor.
Você chega muito tarde, menina.
Se vier na parte da manhã, mais cedo, o emprego é seu!
Você sabe que eu não posso. Eu tenho os cachorros.
O que eu posso fazer? Não posso deixar eles assim, sozinhos!
Não dá. Quem é que vai cuidar deles? Não dá!
Não se pode ter tudo na vida, Viviane.
Um pouquinho só já tava bom, seu Manoel. Obrigada!
Boa noite!
Oi.
Pai?
Pai!
Onde ele se meteu?
Ai, pai! Onde é que você tava?
Ué, eu tava fazendo biscate. O que mais?
Tá com uma cara...
Vem cá, e o braço, como é que tá? Deixa eu ver.
-Tá tudo bem, filha. Tudo bem. -É?
Eu tô é muito cansado, sabe?
Mas eu consegui o dinheiro do homem.
Ai, graças a Deus, pai!
E eu consegui outros biscates também.
É? Então tá. Então agora, vê se não faz mais besteira. Tá bom?
Vou dar uma descansada.
[música]
Os casais continuam querendo ter seus filhos
através de um encontro sexual e amoroso.
E a reprodução humana assistida vem atender aqueles que,
por diversas razões, não possuem essa proximidade.
[ininteligível]
Eu não acredito que o Vicente disse isso!
E mais! Que você não pode se casar
enquanto não se decidir por uma carreira!
Eu não tenho vocação pra nada mesmo. O que eu posso fazer?
O Vicente não entende nada da alma feminina, querida.
Da nossa, em particular.
Imagina se a mulher de Daniel Aguillar precisa trabalhar!
Daniel herdou uma fortuna da tia Francisca.
Sem falar no dinheiro que o tio Ricardo tem, né?
Vicente podia ter herdado
uma coisa melhorzinha do velho, hein?
Criado, praticamente, como irmão da Francisca..
comeu mosca, né, como sempre!
Ah, mãe, mas seu marido tem vocação pra pobre, né?
Mas deixa comigo. Deixa, que o Daniel tá quase, ó,
nas minhas mãozinhas.
Precisávamos de algo mais palpável, querida.
Um bebezinho, por exemplo.
Ah, mãe, credo! Bebezinho, que isso?
Destruir o meu único patrimônio?
Esse corpinho lindo que Deus me deu?
Eu, hein! Bebezinho...
-[imita choro de neném] -Para, mãe!
Pai?
Vai nessa. Obrigado aí pelo toque do biscate, viu?
Pode contar.
Tudo certo, tudo certo. Vai nessa, vai nessa.
O que esse cara tá fazendo aqui, hein, pai?
Todo mundo sabe no que que ele anda metido. Fala!
Não te interessa, Viviane! Não te interessa!
Minha filha, que droga!
Você fica me tratando como se eu fosse criança!
-Eu já estou cheio disso! -Ah, tá de saco cheio?
Eu também estou de saco cheio! Tô de saco cheio de confusão!
Eu estou de saco cheio de cuidar de você! Eu não sou a sua babá!
Você cuida de mim porque você quer!
Eu sei me virar muito bem sozinho!
Ah, sabe? É só eu virar as costas
e você continua fazendo confusão!
Peraí! Peraí! Você vai trabalhar?
Tá chovendo, minha filha.
Não tenho escolha não, pai. Você não jogou tudo fora?
A nossa casa em Vitória, a minha chance de estudar!
Tudo por causa desse maldito jogo, não foi?
Tá o maior temporal, cara! Tá caindo barraco.
Tem muita gente desabrigada.
O posto médico tá cheio, cara.
Não vou pra São Paulo, bicho.
Tá, te ligo daqui a pouco então. Tchau!
O que foi, Daniel?
Tá caindo o maior temporal no Rio de Janeiro.
O Breno disse que caiu barraco,
que tem um monte de gente ferida lá.
Licença.
Vamos, Daniel? Dr. Plank Wilton vai dar agora uma palestra
falando dos aspectos jurídicos da reprodução humana.
É muito importante.
Pai, tá caindo o maior temporal no Rio de Janeiro.
O posto médico da favela tá servindo de abrigo
e tem muita gente ferida, pai.
As condições por lá são bem precárias, não é, meu filho?
Mas o que você pode fazer?
Vem, Daniel. O trabalho do Plank é inovador. Vamos!
Comovente a sensibilidade do meu pai.
Pai! Eu estou falando sério! O negócio lá está feio, pai!
Tem gente machucada. Tem gente ferida!
É gente da comunidade que eu ajudo a cuidar!
Eu já entendi, Daniel.
Mas o que é que você pode fazer? Nós estamos em São Paulo.
Vem logo!
Como assim? O Daniel voltou pro Rio?
Bom, ele ficou preocupado com as notícias, né, Ricardo.
Mas o que ele está achando? Que vai salvar a humanidade sozinho?
Por que você não o impediu, Vicente?
Você conhece seu filho?
-Ricardo! -Oi, oi.
E, então, vamos almoçar aqui mesmo no hotel ou...?
Cadê o Daniel, tio Ricardo?
[música]
A gente veio ajudar aí.
Estamos chamando todo mundo da comunidade.
Tá todo mundo chegando aí.
Aí, tem que levar o pessoal que está ferido para o hospital.
-Não tá dando não. -Não, eu sei.
Eu tentei, mas não deu. Os hospitais estão lotados!
Gente, eu sou só um estagiário!
Mas cadê o doutor que dá plantão aqui?
-É! Cadê, cadê? -Eu já me consultei com ele.
-E aí? -É o dr. Guilherme,
mas ele tá de plantão numa clínica de Botafogo.
-Ele não pode sair de lá! -Peraí! Botafogo é aqui perto.
Tem voluntário pra levar no carro.
Vambora! Vamos levar todo mundo!
Não, moça, não dá. Lá é clínica chique. Clínica de bacana.
Não tem emergência lá, gente.
É uma clínica de reprodução humana.
Minha mãe trabalha lá!
Vambora pro hospital! Qual é o hospital da sua mãe? Vambora!
Eles não vão deixar você entrar, Viviane.
Eu estou pagando pra ver se eles não vão me deixar entrar.
Vambora!
E aí, minha filha, vai atender esse pessoal ou não vai?
Mas aqui, moça? Aqui é impossível!
Anda, minha filha! Chama logo o médico que fica de plantão lá,
no posto da comunidade!
Vai deixar essa gente aqui, na chuva? Pelo amor de Deus!
Mas são ordens do dr. Ricardo. Ele não vai permitir.
Quem é esse dr. Ricardo que não vai permitir?
Anda! Chama esse cara!
Chama esse cara! Não tenho medo de covarde não!
Anda! Tá todo mundo ferido aqui! Vai deixar todo mundo morrer?
É minha filha, moça. Salva ela, por favor!
Chama a minha mãe lá dentro! Não tá vendo essa chuva não?
-Eles têm que entrar agora! Vai! -Anda!
A dr. Jane não vai passar por cima do dr. Ricardo.
Ai, meu Deus, o que eu faço?
Vem cá, você não sabe o que você faz? Eu falo o que você faz!
Você chama esse médico, senão eu denuncio essa espelunca toda
e esse dr. Ricardo pra televisão! Anda!
Anda, minha filha! Anda! Não vai atender esse povo não
ou vou ter que chamar a polícia?
O dr. Ricardo não vai permitir.
Moça, é melhor tirar essa gente daqui o quanto antes.
Isso aqui não é um pronto-socorro!
-Isso aqui é uma clínica de... -Breno?
Breno, o que está acontecendo? O que houve?
Essa gente é da comunidade, Guilherme.
O posto médico desabou! Eles não têm pra onde ir!
Tá todo mundo ferido! Pelo amor de Deus, ajuda aqui!
Não, pode deixar. Eu vou atender todo mundo,
porque é uma emergência.
-Mas o doutor... -Pode deixar.
A responsabilidade é minha. Vem!
Vem, moça!
O que é isso, gente?
Vem cá! Chama os enfermeiros! Vem todo mundo agora!
Todo mundo! Vem, vem!
Cadê o Breno? Breno! Cadê o Breno?
Ai, que nojo! E que cheiro ruim ficou aí dentro!
Deve ser dessa sua alma podre! Você respeita a dor dos outros!
Ei, me solta! Idiota! Me solta!
Idiota! Me solta! Não fiz nada! Ai!
Disseram que veio um pessoal ferido pra cá.
Fica calmo, seu Daniel. Tá todo mundo aí dentro já...
sendo atendido. O dr. Guilherme já autorizou a entrada
-de todo mundo, ok? -Tá bom.
Se você não deixar todo mundo ficar, acabo com você!
-Você e esse dr. Ricardo! -Ei!
Larga a moça! Deixa ela falar.
Não, eu tô tranquila.
Eu tô bem. Só tem uma galera aí dentro que tá ferida.
Estão dizendo que vão botar todo mundo pra fora.
Eu acho um absurdo um médico fazer um negócio desse!
Eu não vou deixar.
Agora fica calma, tá legal?
E como é que eu vou saber que você tá falando a verdade, hein?
Vem comigo. Eu te mostro.
Vem!
Não, tá tranquilo. Eu vou procurar meu pai.
Vou ver se a chuva não levou a minha casa.
Mas daqui a pouco eu volto pra ver se tu não mentiu, tá bom?
O Daniel, ele tem esses rompantes.
Mas essa grosseria com vocês foi imperdoável, Sofia. Imperdoável!
Tem um lado tão bonito nesse gesto dele, Ricardo.
Eu acho... eu acho raro esse desapego num jovem, né?
Né, Beatriz?
Ouviu o que a sua mãe disse, Beatriz?
Com licença.
[telefone toca]
Fala, Gilmar!
O quê? Não é possível.
Quem comandou essa baderna na minha clínica?
Quem foi?
Favelada imunda, dr. Ricardo!
Com o Breno! Veio com o Breno, lá do posto.
Ameaçou chamar polícia, televisão...
Eu tentei impedir, mas não foi possível.
Aí, achei melhor avisar o senhor.
[em off] Foi assaltada uma joalheria
na noite de ontem, no bairro de Ipanema.
Ao reagir, o segurança foi baleado e...
Bora! Pega a parada! Pega logo, meu irmão!
Pai! Onde você estava? Eu estava preocupada, pai! Fala!
Minha filha, a polícia está atrás de mim!
Como assim polícia, pai? Não tô entendendo, pai, peraí!
Viviane, eu vou ter que sumir por uns tempos, tá?
Como assim a polícia?
Olha, você não pode me procurar,
senão eles vão te procurar também.
-O quê? Não, não tô entendendo! -Não tem mais tempo!
Peraí!
Pai, o que você fez, pai?
Finge que eu morri! Viviane, finge que eu morri!
Eu morri! Eu morri, tá bom? E pronto!
Tem uma saída aqui por trás, vambora! Vambora! Te cuida!
Some também por uns tempos! Não vai atrás de mim, te cuida!
-Não, não! -Vambora! Vambora!
Peraí, pai! Peraí, pai! Me explica, pai!
Ai, meu Deus, será que isso é joia de verdade?
Não é possível!
Polícia! Revista a casa toda!
Os caras podem estar escondidos por aí.
Você, quem é?
Ninguém, moço. Ninguém. Moro aqui sozinha.
Não tem ninguém. Não tem ninguém.
O pessoal disse que o vagabundo mora aqui.
Cadê ele? Fala logo, garota!
Não. Ninguém. Não tem ninguém. Eu moro sozinha.
Pode revistar. Não tenho nada pra esconder.
O que você tá escondendo aí atrás?
-Vai embora, moço. Por favor. -Mostra a mão, garota!
-Mostra a mão, vai! -Moço, vai embora, por favor.
Não, não, não! Ai!
Eu juro que eu não roubei. Eu juro.
Eu juro. Eu não sei nem de onde isso veio, eu juro.
Fala onde é que tá o resto, ô, sem-vergonha.
-As joias, você escondeu aonde? -Não, não... eu não sei!
Eu achei na rua antes de chegar em casa.
-Achou na rua? -É.
Acho na rua. Quem mais mora aqui?
-Ninguém, moço. -O tal de Jofre mora aqui?
Não, não, moço!
Eu moro aqui sozinha. Acredita em mim, moço, por favor.
-Vambora! -Não, não! Não, moço, por favor!
Não, não! Peraí!
Peraí! Eu juro, moço! Eu não roubei nada.
-Acredita em mim! -Você vai explicar isso depois.
-Não roubei! Me solta! -Vai explicar isso depois.
-Desce aí! -Não roubei nada! Me solta!
Vai cair, vai cair.
Vem cá, garota! Para, para! Me acompanha, me acompanha!
-Olha a gracinha! Desce comigo! -Eu não roubei nada!
-Eu não roubei! -Tá tudo sob controle, senhora,
pode subir.
-Acredita em mim! -Vai cair, vai cair.
[ininteligível]
Devagar. Vai se machucar.
Pega! Pega ela aí!
Pronto, dona Lucélia. Vai ficar tudo bem, viu? Fica tranquila.
Agora, a senhora vai tomar sua sopa
e dormir até amanhã, tá bom?
Fica tranquila.
-Obrigada. -Bom descanso.
Acabou que deu tudo certo, né, bro? Mas aí, teu pai vai chiar.
Deixa ele comigo, Breno.
O garoto tá fora de perigo. Agora... e o resto?
Você acha que ele é capaz de mandar todo mundo pra fora?
Ricardo Aguillar detesta um escândalo.
Já tô até pensando num lugar...
pra abrigar essas pessoas por uns dias.
Toda essa gente desabrigada? Mas aonde, bro?
Daniel, venha até o meu consultório, agora!
Só um minuto, pai. Deixa eu ver se a minha paciente...
Você prefere que eu fale aqui mesmo, na frente dos pacientes?
Bandidos, sim, senhor! São bandidos!
Eu não tenho essa sua visão romântica da vida, Daniel!
Você vai ver como, no futuro,
essa gente vai se aproveitar da sua boa vontade.
Vai se aproveitar da sua boa vontade,
da sua ingenuidade, da sua capacidade...
Você queria o quê, pai? Que eu botasse todo mundo pra fora?
Só pra não sujar os seus lençóis de 500 fios?
Cheguei aqui, estava todo mundo atendido já, pai!
Graças a Deus, o Guilherme e a Jane tiveram bom senso!
-Ah... -Uma criança quase morreu!
O Guilherme e a Jane?
E me disseram que foi uma favelada que tomou frente
nessa invasão, nessa baderna, dentro da minha clínica!
Quem é essa mulher? É alguma amiguinha sua lá do morro?
Nem conheço, pai! Só vi de relance!
Mas essa menina devia ganhar uma medalha pela coragem dela!
Todo médico promete ajudar quem tá precisando de ajuda, não é?
Não é isso que a gente faz na hora do Juramento de Hipócrates?
Esse Juramento, ele...
Olha, você consegue me tirar do sério, Daniel!
Você tem esse poder, esse...
Sabe o que você fez? Me largou plantado naquele congresso!
Você não teve coragem de se despedir da família do Vicente!
Nem isso você fez!
Sinceramente, eu não sei o que eu faço mais com você!
Realmente, eu não sei, pai, como você se liga nesses detalhes.
E não sentir pena dessas pessoas!
Elas perderam tudo, pai!
A casa, móveis, roupa. Tudo!
Eu sei! Mas o que você quer que eu faça, meu filho?
Quer que eu leve todos pra morar conosco, na nossa casa?
Eu quero que a gente leve elas pra casa de Petrópolis.
O quê?
A casa de Petrópolis é minha!
Minha mãe deixou pra mim em testamento.
E eles podem ficar lá
até arrumarem um outro lugar pra morar.
Olha, eu te proíbo!
Eu te proíbo!
Desde que sua mãe morreu, aquela casa está fechada.
Mais um motivo pra ela ser usada, pai!
Aquela casa me traz péssimas recordações.
E nós havíamos conversado, quando você fez 21 anos,
e você havia concordado em vendê-la.
Mudei de ideia, pai. Você não precisa fazer nada.
Eu vou lá, cuido de tudo sozinho.
Vou subir agora pra Petrópolis. Ver como é que tá lá tudo.
Você não vai a lugar nenhum!
Eu não vou deixar que você cometa um absurdo desses!
Aquela casa vai ficar fechada!
E vai continuar até encontrarmos um comprador pra ela!
A casa é minha, pai! Quem decide sou eu.
Eu tenho amigos influentes que podem vetar essa sua loucura,
esse seu absurdo.
Eu não vou deixar você fazer uma loucura dessa!
Entendeu? E chega!
Eu já decidi. E não tem força no mundo capaz de me impedir.
Vem cá, Daniel!
Daniel!
Aquela casa de Petrópolis não! Lá não.
-Não vai, Daniel. -Vou, Tunica! Vou agora!
Tem que ver o estado daquela casa,
que ela ficou muito tempo fechada.
Meu pai fez um drama com esse assunto!
Dona Francisca morreu naquela casa, você sabe disso.
Seu pai ficou com trauma, com uma cisma.
Mas ele não tem nada que se meter, Antônia!
Tô usando aquela casa agora, numa emergência!
Aí, depois, eu decido o que eu faço com ela.
E a Beatriz vai ficar ali piscando?
Vai!
Tchau, Antônia!
-Te cuida, hein? -Tá bom.
Vem, Pepe, vem!
Me vê uma água, por favor?
Só um minuto, Pepe, porque essa gasolina não vai dar
até Petrópolis.
Fica frio, companheiro.
-Dois reais. -Dois?
-Tudo o que eu tenho. Obrigada. -Obrigada.
[em off] Joias foram encontradas
e uma suspeita, Viviane Ferreira, escapou,
deixando no barraco documentos que comprovam sua identidade.
Viviane estava de posse de joias reconhecidas...
como fruto do assalto.
E é, agora, uma foragida da justiça.
A polícia já tem o nome de outros suspeitos.
-[latido] -Shh... calma, cachorrinho.
Eu sou do bem, hein. Shh... lindo!
Vambora, Pepão! Petrópolis nos espera.
[cantando "Parabéns pra Você"]
Parabéns, mommy!
Parabéns, minha cunhada querida.
Olha, muita saúde pra você. Saúde!
Um brinde à melhor mulher do mundo.
Com licença das presentes, é claro.
Obrigada, José. Obrigada a todos pela surpresa, né?
Foi difícil tirar essa mulher de casa, Magali.
Estava toda preocupada com o Daniel.
Ah, mas agora é hora de alegria.
Ô, Jair, bota aquela música pra alegrar a festa.
Deixa comigo, sogrão.
Fábio Junior, hein.
Huguinho, Zezinho e Luizinho, venham cá!
Vamos comer o bolo que a vovô fez.
-Recheio de chocolate. -Oba!
O Daniel saiu brigado com o pai.
Ah, daqui a pouco eles fazem as pazes.
Não é sempre assim, Antônia?
Não, dessa vez, a coisa é séria. Sabe onde o Daniel foi se meter?
Aonde?
Atende, Daniel, atende!
Seu avô Ricardo, Pepe. E aí? Atendo ou não?
[latidos]
Tá bom. Você manda.
-Oi, pai. -Daniel, onde você está?
A caminho de Petrópolis.
Volta pro Rio agora!
Desiste, pai!
Ei!
[freada brusca]
Quem é você?
Não, não, eu posso explicar.
Eu juro que eu posso explicar, eu juro.
Peraí, peraí! Eu tô te reconhecendo.
Você é a moça que trouxe os feridos lá pra clínica.
Não é você?
Quase não te reconheci.
Lá na clínica, você estava toda molhada, cheia de lama.
[risadas]
Ah, eu passei o dia inteiro na chuva, no lixo, na lama.
Achei muito bacana a sua coragem.
Como é que a gente nunca se viu lá no posto médico?
Ah, eu tenho boa saúde.
E bom apetite também, né?
Antes, eu fazia estágio lá na clínica do meu pai.
Mas apareceu essa chance lá no posto médico da favela.
Ah, eu achei muito engraçado o nome.
Como é que é o nome da clínica? "Reprodução assistida".
Pepe, senta aqui, vem. Senta.
Eu não entendi. Fica assistindo assim, na hora?
Claro que não. É que, lá, se usam vários métodos pra...
pras pessoas que não podem ter filho da maneira natural, sabe?
Você já ouviu falar em "bebê de proveta"?
Já, já. Eu vi na TV uma vez, mas...
não sei, eu acho que...
eu acho que se eu não pudesse ter filho, eu adotava um.
É, eu também. Mas cada um faz as suas escolhas, não é?
Eu acho bonito essa escolha de ser médico, sabe?
Eu queria estudar também,
mas, sei lá, eu tive que parar, começar a trabalhar cedo.
O meu pai tem esse vício, sabe? Meu pai tem vício em jogo.
Ele perdeu tudo. Casa, dinheiro, tudo.
Enfim.
Sei lá, mas roubar também, nunca tinha roubado, sabe?
Mas você sabe pra onde ele fugiu?
Eu vou ter que ficar sumida por uns tempos também.
Daqui a pouco, começo a procurar ele.
Com um bom advogado, você se livra dessa acusação de roubo,
limpa o seu nome.
Eu não tenho dinheiro pra pagar um bom advogado. Não dá.
Eu posso pagar pra você.
-Minha mãe, ela me deixou... -Não. Pode parar, pode parar.
Eu percebi que você tem dinheiro, mas eu não quero.
Não quero o seu dinheiro.
Deixa de ser orgulhosa, menina. É só um empréstimo.
Ah, como é que eu vou te pagar?
Assim, sem documentos, com a roupa do corpo,
quem é que vai me dar um emprego?
Eu.
Você bem que podia me ajudar lá na casa de Petrópolis.
Aquele lugar deve estar precisando de uma faxina,
de várias coisas.
Além de tudo, eu tenho essa ideia do abrigo.
Se você topar, você pode ser tipo a minha secretária.
O que você acha?
Você é um maluco, né? Só pode ser.
Vem cá, e se eu for uma ladra?
Se eu te assaltar, se eu te roubar?
Não. Você é uma pessoa legal.
O que você fez por aquelas pessoas na tempestade...
as coisas que me contou sobre a sua vida...
Eu gosto de gente que nem você, Viviane.
-Maluca? -Corajosa!
Capaz de lutar pelos outros.
Além de tudo, você é inteligente,
é engraçada, é espontânea.
E é muito linda também.
Ih, já está me azarando, né?
Homem é tudo igual mesmo.
Juro que eu não tô te azarando.
De verdade, assim, na boa.
Quero ser seu amigo.
Só não posso garantir que eu nunca vá me apaixonar por você.
Você quer me deixar sem graça, né?
Hum... sabe do que mais? Eu acho que eu tô é sonhando.
Daqui a pouco, eu vou acordar debaixo de uma ponte, assim,
na chuva.
Minha vida é sempre assim, né?
Então, agora as coisas vão mudar.
Você tem o Daniel Aguillar pra te proteger.
E esse anjo da guarda também.
É um presente.
Como prova das minhas boas intenções.
Tá bom?
É muito bonito, Daniel, mas eu...
Foi mal. Não posso aceitar isso não.
É um presente de amigo.
Presente de amigo não se recusa não, sabia?
É muita falta de educação.
Eu não sou mal-educada.
Então, deixa de frescura, vai.
Põe no pescoço. Eu te ajudo.
[música]
[burburinho]
Magali, quero levar um pedaço de bolo.
Já sei! Pro Daniel! Vamos lá, me ajuda.
Vamos levar pra cozinha pra eu botar numa vasilhinha plástica.
Deixa seu pai saber quem eu sou, deixa.
Ele é uma fera, né?
Lá na clínica, foi impressionante.
Todo mundo tem medo dele.
Que nada. Dr. Ricardo, no fundo, é gente muito boa.
Humm...
Quando minha mãe era viva, ele era tão diferente.
Ele era engraçado. Ele tinha até senso de humor.
Minha mãe sumiu no mundo.
Ela tinha uma casa boa, tinha uma vida boa...
papai vai e perde tudo no jogo.
Pega a minha carteira. Eu quero te mostrar uma coisa.
Eu quero que você veja uma foto da minha mãe
pra você ver como ela era bonita.
Ela era linda mermo. Mãe não devia morrer, né?
Nem sumir.
[buzina]
[freada]
[barulho de acidente de carro]
[barulho de capotagem]
[música]
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