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"OS PASSOS"
Aqui é Gunther. Fala Gunther.
Prof. Blackmann, está ouvindo? Câmbio.
Estou ouvindo.
Tudo segue como planejado. Os dados já estão entrando.
O experimento começou, Blackmann.
Volte imediatamente à base.
E alerte a organização.
Alice?
Sim?
Mas onde você está? Levou meia hora para atender.
Olá, Jean.
Não me diga que a acordei. Estava dormindo?
- Que horas são? - São 9h30.
Espere. Deixe ver. São 9h45.
Meu Deus.
Devo entregar um trabalho ao meio-dia e ainda não acabei.
De onde você está ligando?
Do aeroporto.
Os novos aviões são inacreditáveis.
Pense que há três horas eu ainda estava em casa.
Quando vamos nos ver? Tenho muita coisa para contar.
Esta manhã não posso.
Bem, preciso de minha máquina de escrever.
A sua está pronta?
Devo ir buscar hoje.
O que você vai fazer? Vai direto para o escritório?
Não. Antes vou passar pela biblioteca.
Então pego a máquina e a levo. É no caminho.
Ótimo. Posso esperar na biblioteca, se quiser.
- Está bem. Que tal 11h30? - Muito bem.
Há uma forte razão para crermos que daqui a pouco...
a pressão da opinião pública...
os problemas da sociedade, em geral...
e os do meio ambiente...
Prioridade absoluta...
Há uma forte razão para crermos que daqui a pouco...
SEGUNDA-FEIRA, 6 DE SETEMBRO
GARMA. HOTEL GARMA.
RELATÓRIO PROFESSOR JANEK
TERÇA-FEIRA, 7 DE SETEMBRO
Aquela noite, eu ia ao teatro com Filippo e a namorada...
sabe, a belga, que faz RP? Mas ele insistiu muito, e no fim...
Você quer saber?
Não está me ouvindo Está pensando em quê?
Pensava em um sonho que tive esta manhã...
e que já tive outras vezes.
Um sonho muito estranho.
Um homem é deixado na Lua...
como experimento de uma misteriosa organização.
Parece ficção-científica.
Realmente.
Sim. E me lembro.
Sonhei com a cena de um filme absurdo que vi há muitos anos...
e que me impressionou muito.
Tanto que saí sem ver o final.
Chamava-se "Sangue sobre a Lua".
Não. "Passos sobre a Lua".
Srta. Campos?
Sim?
Leblanche conseguiu.
Você não irá a Sidney. É uma conspiração.
- E como você sabe disso? - Larson acaba de me dizer.
Você não quis me ouvir. A Sra. Shweiss arrumou tudo.
E, para mim, não é justo. Você é muito competente.
Eu a ouvi há alguns dias.
Se quiser, posso falar com Hillman.
Ele é muito amigo de Dileo.
Talvez ainda se possa fazer algo.
Não, não é o caso. Mas obrigada.
Bom dia.
Eu trouxe a tradução do relatório Janek.
A Dra. Shweiss foi embora.
É mesmo? Então, posso entregar a você?
Sente-se.
Sabe quando deveria ter entregado o trabalho?
Ao meio dia.
Mas não de hoje.
Você conhece Leblanche?
Marie Leblanche?
Tivemos de chamá-la para seu lugar, na última sessão.
Você interrompeu sua tradução simultânea...
e saiu sem dizer nada a ninguém.
- Não pode ser. Eu vim ontem. - Ontem?
A última reunião do congresso de astronáutica, saiba...
foi na segunda-feira...
portanto, há três dias, não ontem.
A Dra. Shweiss foi à sua cabine e não havia ninguém.
Não, não pode ser. Eu participei da sessão.
Quem falou?
A Sra. Verdier.
Mas o discurso dela não está na sua pasta.
E você sequer veio pegar as fitas gravadas.
O prof. Janek falou um dia antes.
Eu e a doutora tentamos ligar para você várias vezes...
mas ninguém atendeu.
Mas...
que dia é hoje?
Veja o calendário. Há um ali.
Quinta-feira?
Não é possível.
Tem certeza de que este trabalho é adequado para você?
Não é a primeira vez que nos causa problemas.
E o pior é que eu...
- A sessão terminou. - Eu já vou.
Com licença, mas devo ir.
Posso voltar ao trabalho?
Quem decide é a doutora.
- Alô? - Sim?
Mary?
- Aqui é Alice. - Finalmente. Onde você andou?
- Preciso falar com você já. - Aconteceu algo?
Sim. Um fato inexplicável.
Esqueci os últimos três dias. Não me lembro de nada.
Fale-me da última sessão.
Você tem mesmo certeza de ter participado?
Sim.
Eu estava na cabine nº 5.
Disso eu me lembro bem.
O primeiro a falar foi o Dr. Gregorius.
E depois...
Sim?
Depois quem falou foi a Sra. Verdier.
Usava um vestido vermelho escuro.
Ela leu um relatório com os últimos dados...
emitidos por seus computadores em La Roche des Fonds...
na Bretanha.
"Assim, o homem dificilmente terá chance de sobrevivência..."
a menos que mude por completo seu modo de pensar e de viver...
e use de toda a sua energia para afastar os perigos...
que se precipitam sobre ele.
No ano de 1990...
os mares estarão biologicamente mortos...
em função da poluição e do envenenamento.
Nossos computadores também mostraram...
que no ano 2000...
a vida quase não será mais possível para o homem...
no planeta Terra.
O texto era longo, extenuante...
e na cabine, o ar ficou irrespirável.
A ansiedade me tirava o fôlego.
No salão também estava Leblanche...
Marie Leblanche, a amiga de Berti...
a que tomou meu lugar para Sydney.
Ela ficava me encarando como que para me fazer errar.
De repente, vi que não aguentava mais...
e fui tomada pelo pânico...
por um terror irracional.
Aliás...
de repente...
Continue.
No auditório...
aconteceu alguma coisa.
Procure se lembrar.
Sim. Muita gente estava virada para mim, me olhando.
Sim, eu me lembro.
Deixei a cabine e saí correndo por uma porta de trás.
Para ir aonde?
Não sei.
Não me lembro.
Sim.
Atravessei os jardins correndo...
como se fugisse de algo.
Depois...
Não adianta, não me lembro.
Você toma sonífero demais.
Aquele dia, você deve ter tomado um a mais...
- e dormiu até hoje de manhã. - O quê?
Dois dias seguidos?
Não é impossível.
Um enorme imperativo de descanso decerto agiu sobre sua vontade.
Que você está exausta não há dúvidas, e você sabe.
- Mas há outra coisa. - O que quer dizer?
Eu não lhe disse tudo.
Há uma coisa que não consigo explicar.
- Um cartão postal? - Sim.
Achei rasgado no chão da cozinha...
sem estar escrito.
Você conhece uma cidade chamada Garma?
Garma?
Sim, Garma.
Nunca ouvi falar. Por quê?
O cartão mostra um hotel e atrás está escrito...
Hotel Garma. Garma.
É estranho...
mas aquela fachada, a do hotel...
tenho certeza de já tê-la visto.
E poderia jurar que tem uma sala toda envidraçada...
com um belíssimo pavão pintado.
Essa sua obsessão de ser boa em um trabalho que você detesta...
é desumana.
É a pior maneira possível de fugir da solidão...
que, aliás, você impôs a si mesma.
Quando vai saber se pode retomar o trabalho?
Não sei. A organização decidirá.
Então, vamos nos telefonar e nos ver mais.
Você poderia vir jantar.
Tony ficaria feliz em vê-la.
Ele já vai à escola, sabia?
Está bem? Até logo.
Mary!
Desculpe-me se não vim ontem.
Tentei ligar várias vezes...
mas nunca a achei.
Não tem importância.
Não viu um brinco, por aí?
O par deste. Não sei onde está.
Não. Lamento.
- Você já terminou? - Sim, já.
Eu queria levar seu tailleur cinza para a tinturaria...
mas não o encontrei.
Deveria estar aqui.
- De quem é este vestido? - É a primeira vez que o vejo.
Talvez seja de sua amiga alemã...
que se hospedou aqui, mês passado.
Emma Bilimburst?
Não pode ser. Cedo ou tarde, eu teria notado.
Veja. Está manchado.
Parece sangue.
Alô?
Alô?
Alô!
Com licença. Uma passagem para Garma.
Garma?
- Sim. Sim, Garma. - Um momento, por favor.
GARMA: AEROPORTO MAIS PRÓXIMO: HINTON
Deve ir a Hinton. Garma fica a poucos quilômetros.
Por favor, onde posso achar um táxi?
Os dois que há costumam parar aqui na praça.
Obrigada. Então é só esperar.
Vou à cidade. Posso lhe dar uma carona.
Obrigada.
Sua mala.
É sua primeira vez em Garma?
Sim.
A cidade não é muito animada, nesta estação.
Não vou me demorar. O senhor mora aqui?
Um pouco aqui, um pouco em Muda...
a ilha a oeste da baía.
Temos em Garma uma casa velha que tento restaurar.
Mas não sou bom marceneiro. Vê-se, não é?
Pronto. Pode me deixar aqui.
Obrigada.
Boa tarde.
A senhora deseja?
Quero um quarto, por favor.
O quarto envidraçado, com o pavão pintado.
Não entendo.
O central, então, com vista para o mar.
Um momento, por favor.
Pensa ficar muito tempo?
Não. Volto amanhã.
Boa noite.
- Tome. - Obrigado e boa noite.
Olá.
Olá.
Hoje Fox não veio.
Quem é Fox?
Um cão vira-lata. Eu trouxe um osso.
Por que não se senta?
Seu broche diz Alice.
- Eu me chamo Alice. - Não. Nada disso.
E como me chamo, então?
Nicole. E eu sou Mary.
Nicole? É um belo nome.
Paola!
- Então você não se chama Mary. - Paola!
Já vou!
Pode me dar?
O broche? Não. Mas lhe dou isso, se gostar.
- É lindo. - É seu. Mas não minta.
Também me chamo Mary, Matthew me chama Mary.
Quem é Matthew?
Um homem. É de ouro?
Parece, mas não é.
Gostei. Tchau.
Lamento, mas não posso.
Srta. Campos?
Olá. Lembra-se de mim?
Eu...
Terei mudado tanto?
Sou Laurenti. Alfredo Laurenti.
- Bem, realmente... - Sou amigo de Guido Stein.
Nós nos conhecemos na casa dele. Lembra-se?
Sim, sim. Verdade.
Que estranha coincidência nos reencontrarmos em Garma.
É a primeira vez que venho.
O lugar é lindo.
Sim, muito, mas infelizmente, minhas férias terminaram.
Minha barca sai em dez minutos.
Pensei tê-la visto na terça-feira.
Terça-feira?
Sim. Na praia, perto do meio dia.
Eu só a entrevi.
Voltei para cumprimentá-la, mas já não a vi mais.
Bem, me desculpe, mas devo ir.
Se perder a barca das 14h terei de esperar amanhã.
Mande lembranças a Guido.
Sr. Laurenti?
Sim?
- Perdoe. Devo perguntar algo. - Mas é claro.
O senhor disse que me viu na terça?
Sim. Na praia.
- Tem certeza de que era eu? - Bem, não juraria, foi de longe.
Por quê? Não era você?
Cheguei a Garma ontem à noite.
Bem, obviamente me enganei. Até logo.
Paola?
O que você quer?
Por que você disse que me chamo Nicole?
- Porque é verdade. - Mas como você sabe?
- Foi você quem me disse. - Quando?
Terça-feira, na Praia Norte. Não se lembra?
Perto do muro.
Preciso fechar. Estão voltando.
Por favor.
Terça-feira. O que mais eu lhe disse na terça-feira?
Que procurava uma casa. Não se lembra?
Uma casa no bosque.
Olhe bem para mim.
Tem certeza de que sou Nicole?
Não... Não sei mais, agora.
Sim ou não?
Não, Nicole tinha cabelo comprido e vermelho...
- e você... - Eu o quê?
Você é mais agradável do que ela.
Vocês estavam sozinhos na praia?
Não. Havia a Sra. Hines.
Aquela de vestido branco, a que está sempre tricotando.
Estão voltando. Por favor. Vá.
Boa tarde.
Boa tarde.
Vem outro temporal. Ouviu?
Mas quase todos já se foram.
Quer um?
Obrigada.
Vou arruinar minha dieta. Sou muito gulosa.
Vem sempre aqui de férias?
Há mais de trinta anos.
Garma já não é a mesma.
Deveria ter visto então. Havia até um cassino.
Creio que a vi sentada aqui na terça-feira.
Pode ser. Venho todas as tardes.
Eu também estava na praia...
- com aquela menina... - Paola Belsen?
Uma menina encantadora, com imaginação extraordinária.
Imagine que, ano passado, ela só falava de seu amiguinho...
que, naturalmente, nunca ninguém pôde ver.
Crianças solitárias inventam, com frequência...
criaturas imaginárias com quem brincar.
Eu pensei...
Pensei que me tivesse visto também...
quer dizer, terça-feira.
Eu estava ali embaixo, bem perto do bosque.
Onde? Na Praia Norte?
Há ruínas de uma antiga vila sepultada, naquela baía.
Sabia?
Não. Não a vi na terça-feira.
Ademais, pobre de mim, como poderia?
Meus óculos para longe...
quebrei há uma semana e ainda não mandei consertar.
Olá.
Boa tarde.
Acho que me perdi.
- Queria voltar à praia. - Para a vila.
Também vou para lá.
Não é fácil se orientar, para quem não é daqui.
Pelo sotaque eu diria que é italiana?
Vivo na Itália, mas sou portuguesa.
Eu vinha aqui só de férias...
mas também acabei me rendendo a Garma.
O que você faz?
Biologia. Sou biólogo.
- Trabalho interessante. - Sim.
Mas de tanto ver a vida pelo microscópio...
há o risco de não participar mais do que há em volta.
A primeira vez que a vi...
eu teria jurado que você veio a Garma para ver alguém.
Ao contrário. Vim para ficar só e descansar.
Então, seria inútil pedir para revê-la.
De fato. Lamento, mas decidi ir embora amanhã.
Pronto. A praia do hotel é logo ali.
Há algo errado, não é?
O que o faz dizer isso?
Seus olhos.
Bem, pode ser sem razão.
Ou simples cansaço.
Até logo.
Até breve. De qualquer forma...
se houver uma razão e se quiser falar dela...
ao meio dia estou sempre no café da grande mesquita. Está bem?
Obrigada.
Alguém lhe fez uma chamada.
- Para mim? Quando? - Logo depois que saiu.
Só queria saber se ainda estava aqui.
Não quis deixar o nome.
- Era homem ou mulher? - Não sei. Era uma voz longínqua.
De homem, eu diria.
É um problema cardiorrespiratório...
pelo isolamento cósmico.
O Processo H da personalização do indivíduo...
não atuou no centro emocional fundo o suficiente...
para completar o condicionamento.
Teremos que selecionar novas cobaias.
Avise nossos agentes por toda parte.
Agora mesmo, prof. Blackmann.
Não quer mais falar comigo?
Eu lhe farei um belo castelo de areia, se quiser.
Um castelo oriental, com minaretes.
Está bem. Faremos aqui.
Mas quero muito alto e com um fosso em volta.
Está bem.
Então, vá buscar um balde d'água.
Por que não queria falar comigo?
Raffaella disse que não devo falar com estranhos.
É aquela senhora dormindo na cadeira.
E as pontes levadiças? Vamos precisar, para o fosso.
Mas é claro. Veja.
Não me parece uma ponte levadiça.
Espere. Não terminei.
- Fale-me de Nicole. - Raffaella vai acordar.
Por que você disse que eu era mais agradável do que Nicole?
Porque ela bateu em Fox...
quando ele a achou atrás do muro...
e agora Fox a odeia.
Por que ela se escondia?
Aí está Fox. Vou dar o osso dele.
Fox! Fox!
Venha cá, Fox. Fox!
Fox ainda não a conhece. Por isso não quer vir.
Precisamos de uma bandeira. Tome, ponha esta.
ASTRONÁUTICA
Onde você achou este pedaço de papel?
Era o papel do osso de Fox.
Sim, eu sei, mas onde você achou?
Venha.
Pronto. Encontrei o papel bem aqui.
Havia muito, mas o vento levou tudo.
Até as cinzas, ele levou.
Havia um grande fogo, ali. Via-se lá de baixo.
- Quem o fez? - Nicole.
- Você disse que ela se escondia? - Sim, estava escondida.
Estava sempre escondida e tinha algo nas mãos.
O quê?
Um pacote, pequeno e cumprido, assim.
E você sabe onde dormia?
Não sei. Talvez no bosque. Eu já lhe disse.
Ela dizia procurar uma casa no meio do bosque...
mas não conseguia achar. Por isso começou a chorar.
- Por que acendeu um fogo? - Ela queria queimar um vestido.
E o vestido era cinza?
Não quero mais ficar aqui. Vamos terminar o castelo.
Está bem.
Mas você deve me dizer por que Nicole se escondia sempre.
Quem é você? Raffaella diz que é uma estranha.
- Sou mesmo. E daí? - Fox não veio e eu devo voltar.
Deixo o osso, assim você faz amizade com ele.
Não. Você precisa me dizer por que Nicole se escondia aqui.
Porque não queria que a vissem.
- Ela estava com muito medo. - Medo de quem? De quê?
Nicole me pediu para não dizer nada!
Escute aqui.
- Eu sou Nicole. - Não! Não é!
Você não é Nicole! Ela usa cabelos ruivos e compridos.
Eu já disse!
Fox!
Aqui. Tome.
É para você, Fox. Tome.
Um café, por favor.
Ainda em Garma?
Como vê.
Adiou sua partida?
Só por um dia. Parto amanhã.
Vai voltar à Itália?
- Como sabe que vivo na Itália? - Você me disse ontem.
Sim. É verdade.
O que tanto a preocupa?
Eu sei.
Eu sei por que veio aqui. Você deve falar.
Engana-se.
- Passei por acaso. - Não.
Veio para me dizer algo.
Mas talvez não queira mais.
A noite em que nos encontramos...
no cais, a primeira vez...
você me olhou de modo estranho, como se já me conhecesse.
Não me lembro.
Você nunca me tinha visto antes, não é?
Não, não creio. Por quê? Podíamos já nos conhecer?
Não. Tenho certeza de nunca tê-lo visto.
Eu também.
Eu não a esqueceria.
Tem mesmo de ir amanhã?
Alguém a espera?
Ninguém.
Então fique.
Um dia a mais ou a menos vai mudar alguma coisa?
Eu a estava esperando.
Você não veio por acaso. Eu sabia que você viria.
Por que me fez aquela pergunta?
Sim. Por quê?
Está tudo pronto. Se quiser passar, o espero ás 16h.
- Lamento. - Vamos nos rever?
Não sei. Não sei.
Aqui.
Minha cara. Como vai?
Viu que clima impossível? A temporada acabou mesmo.
É uma pena. A propósito: soube da novidade?
Dubrowska está em Garma. Dará um único concerto hoje...
na igreja presbiteriana.
Eu a ouvi em Paris, em 60. Ela é sensacional. Sublime.
Podemos ir juntas, querida?
Matthew vai embora amanhã. Vou ficar sozinha no hotel.
Quer que eu a encontre para tomarmos um sorvete?
MARCEL GARMA
Um momento, por favor.
Boa tarde.
Sim, me desculpe. Não a reconheci.
Em que posso ajudá-la?
Bem, eu trouxe uma peruca.
Gostaria que a arrumasse.
Está em mau estado. Ela caiu na água?
- Na água. Sim. - Que pena.
Eu lhe disse que eram cabelos muito delicados.
Por aqui, por favor.
Sente-se, por favor. Não esperará muito.
Vejo que ignorou meu conselho.
- A respeito de quê? - Sua maquiagem.
A maquiagem muito leve da terça-feira...
estava mais de acordo com o que me pediu.
Em que sentido?
De parecer outra mulher...
mais jovem, mais feminina, diferente.
Principalmente diferente. Que tentar de novo?
Absolutamente perfeita.
Agora vamos pensar na maquiagem.
A transformação será completa.
Tire-a.
Devo ir. É tarde.
Está com pressa outra vez? Pode ficar com ela.
Não.
Mande-a para o hotel.
Ao Garma.
É muito pontual.
Entre, por favor.
Fizemos o melhor possível. Espero que fique contente.
Aqui está o chapéu.
O mesmo que provou, mas não gostou...
agora está muito diferente.
- Por que acha que gostarei agora? - Porque está mais simples.
Exatamente como queria.
E os sapatos que encomendou. Sente-se. Vamos prová-los.
Conseguiu encontrá-lo, afinal?
Quem?
O seu amigo.
Que amigo?
O seu amigo Harry.
Como sabe que meu amigo se chamava Harry?
Foi você quem disse.
- Eu? - Não se lembra?
Como pode ser?
Até me disse que ele jogava tênis...
e que sua cor preferida era o amarelo.
E o que mais eu disse?
Disse que veio buscá-lo em Garma...
mas que não tinha o endereço dele...
e só se lembrava que ele morava no bosque...
uma casa no bosque.
E devo dizer que me pareceu perturbada.
Deve gostar muito dele, não?
A bolsa ainda não está pronta. Perdoe-me.
- Como? - A bolsa.
Lamento, mas ainda não gravaram o nome.
Que nome?
O seu. Nicole.
Mandarei tudo para o hotel esta tarde.
Ao Garma, certo?
Está me confundindo com outra pessoa. Está errada.
Não me chamo Nicole e nunca estive aqui. Nunca.
Nunca!
Harry!
Harry!
Harry!
- Pode me dar a conta? Devo ir. - Sim, senhorita.
A Sra. Hines lhe deixou uma mensagem.
Sim.
Algo errado?
- Minha carteira. - Sua carteira?
Perdi. Não está aqui.
Tem certeza?
"Esqueceu sua carteira no Marcel."
Está comigo.
"Espero-a no concerto de Dubrowska."
Se deve ir ao aeroporto, a última barca parte ás 19h.
Sra. Hines?
Fez muito bem em vir.
Então? O que me diz de Dubrowska?
Não é fascinante?
Eu lhe disse que valia a pena.
Quero minha carteira, por favor.
É claro.
Vai me desculpar mas decidi ir embora...
e a última barca sai ás 19h. Devo me apressar.
Obrigada e até logo.
Receio que sua barca tenha partido.
Veja. São 19h05, querida.
Devia ter vindo antes. Que pena.
Bem, terá de ser amanhã.
Você sempre me mentiu.
Sobre o quê?
Não é a primeira vez que você vem a Garma.
Seu broche é obra de artesanato local.
Veja este. É de tartaruga, como o seu.
O mesmo tipo de trabalho.
Só um ourives daqui fazia isso, e por encomenda.
E ele está morto. Há muitos anos.
O bastardo não conseguiu!
Ele ficou instável.
Vamos tentar a Operação Alfa no próximo cérebro...
para neutralizar por completo os circuitos emocionais.
- Já acharam a próxima cobaia? - Nós a encontraremos, Blackmann.
Está pronta? Sou eu, Paola.
Então é você, Nicole?
Vai me contar tudo agora?
Vamos. Não tenha medo.
Vamos sair. Você não quer um sorvete?
Olhe para mim, Paola.
Você disse que me contaria tudo.
Eu não disse nada a ninguém. Juro.
De que eu tinha medo?
Você deveria saber. Estava sendo procurada.
- Por quem? - Certas pessoas.
Gente má, que queria lhe fazer mal.
- E onde estavam? - Aqui, você disse, em Garma.
- E ainda estão aqui? - Não sei.
Mas na terça-feira estavam.
Mas você tem certeza?
Foi você quem disse.
Depois você fugiu e voltou com aquele embrulho.
O que havia no embrulho?
Não sei. Não estava com você antes de você entrar ali.
- Bom dia. - Bom dia.
Lembra-se de mim?
Sim, é claro.
- A senhora já veio... - Sim. Terça-feira.
Sim, agora me lembro.
Comprou cartões postais e depois...
Depois?
Não serviram?
Não.
Quer de outro tamanho?
Sim.
Quer dizer, não. Podem ser o mesmo tamanho.
- Mas acaba de dizer... - Não tem importância.
- Quer que eu embrulhe? - Obrigada.
Quero voltar ao hotel.
- Por que comprei isto? - Eu não sei.
- Devo ter dito a você. - Não! Juro.
Não minta.
É a verdade! Eu não sei!
O que fiz, quando voltei para cá?
Você gritou muito e correu para o bosque...
porque havia um homem lá embaixo.
- E você o viu? - Não. Não vi ninguém.
E como pode dizer...
Foi você quem disse que ele a procurava.
Era ele. Ele mesmo.
Venha cá. Venha cá!
- Continua a mentir. - Não vi nada!
- Você gritou algo e saiu correndo! - O que foi que gritei?
- Trate de se lembrar. - Está me machucando.
- Você gritou um nome! - Que nome?
Não sei! Não me lembro! Deixe-me!
Você sabe sim!
Diga-me o nome.
- Diga-me o nome! - Não sei! Não sei! Deixe-me!
Sente-se melhor?
Eu a encontrei inconsciente no bosque, não longe daqui.
Espero que não seja nada sério.
Esta casa...
Eu já estive aqui antes.
Sim... há muitos anos.
No lugar deste espelho havia um quadro.
Com palavras.
Antigos ideogramas chineses.
"Um grou chama nas sombras.
E sua cria lhe responde."
"Tenho um bom cálice de mel.
Quero dividi-lo com você."
Então, você é...
Harry.
É impossível.
Impossível.
Aquele verão, você passou férias em Rimba...
a poucos quilômetros de Garma, na costa.
Sim.
Com tia Edna.
Ela acabava de voltar da Índia.
Meus pais tinham viajado e trouxe você aqui, um dia.
Com meu veleiro.
O Percival.
Sim. O nome era...
Percival.
Mas você...
todos esses dias, sempre soube quem eu era, não?
Sim.
Então por quê?
Não pude aceitar que não deixei marca alguma em você...
a ponto de você me ver como um desconhecido qualquer.
E a ideia de você não se lembrar de mim...
bem...
francamente me desanimava e me humilhava.
Por isso a trouxe aqui.
Queria que você mesma descobrisse, Alice.
Harry.
Harry, ajude-me.
- Ajude-me. - Sim, Alice.
Sim.
Essa sombra triste em seus olhos...
como se manda embora?
Alice!
Harry!
Harry.
Harry.
Ajude-me.
Ajude-me.
Alice!
Alice!
Alice!
Harry.
Venha.
Harry.
Harry?
Não. Lamento.
Sim, sim. Tudo como previsto.
Também tirei a bagagem dela.
Está dormindo, agora.
Deixe comigo. Desta vez, ela não fugirá.
Não desta vez. Se for o caso, aviso.
Sim. Manterei você informado.
Alice?
Alice!
Um momento.
Alice?
Alice!
Alice?
O que aconteceu?
Abra a porta.
Alice.
Escute aqui.
Sei que está ouvindo.
Abra a porta!
Estiva aqui na terça-feira. Por que você não disse?
Não me aproximarei, se você não quiser...
mas você deve acreditar no que vou dizer.
Você veio, terça-feira, e estava agitada, perturbada.
Disse que se chamava Nicole e que estava em perigo.
E estava mudada, para esconder sua identidade.
Você procurava Harry.
Você disse que só Harry poderia ajudá-la.
Eu lhe disse que era Harry, mas você não acreditou.
Não nos víamos havia anos.
Você procurava um rapaz que não existe mais.
Aquele rapaz sou eu.
Não. Não é verdade.
Desde que você voltou a Garma e não me reconheceu...
eu a segui para poder protegê-la...
e ajudá-la a descobrir sozinha a verdade.
Agora, ao telefone, com quem você falava?
Com meu amigo...
um médico que podia ajudá-la.
Eu o chamei para dizer que não precisava mais dele...
- que você estava comigo. - Não sou louca!
Alice.
Terça-feira passada você estava fora de si.
- Disse coisas muito estranhas... - O que foi que eu disse?
O quê?
- Agora já não importa. - Quero saber.
- Alice... - O que eu disse?
Que alguém a perseguia.
Quem?
Quem?
Uma organização.
Agentes.
- Eu disse algum nome? - Não.
Não é verdade! Que nome eu disse?
Blackmann.
Blackmann?
Ela não escapará!
Mas essa gente, Blackmann, não pode existir.
É só um filme.
A menos que você...
A menos que você seja um deles.
Esse corte em sua mão!
Fui eu, terça-feira, com a tesoura.
Foi um acidente.
Você mente! É um deles!
- Eles não existem, Alice! - Eu não estou louca!
Você veio, terça-feira...
porque precisava de proteção e amor.
Ainda posso lhe dar esse amor.
Venha.
Você não é Harry.
Você não é Harry.
Ela foi telerrastreada.
Escapou de onde se escondia usando o nome Nicole.
Mas ela não escapará! Ali está ela!
É ela! Ela aprisionou a si mesma!
Alertem os agentes! Ela não pode escapar!
Vamos! Rápido! Rápido!
Eu não sou Nicole!
Meu nome é Alice.
Os agentes não existem.
Desta vez, não fugirei.
Está na hora. Vamos.
DESDE 15 DE OUTUBRO DE 1971, ALICE CAMPOS ESTÁ INTERNADA...
NO INSTITUTO NEUROPSIQUIÁTRICO DE KUSTNAZT, SUÍÇA.
"OS PASSOS"
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