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Original subtitles

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Uma caixa de granadas de mão francesas, modelo VB.

Cinco minas antitanque alemãs, asfalto e vidro.

E uma dezena de mísseis de 28cm.

Há quem saiba viver, não?

Recolhemos e voltamos para casa?

Não.

Há quatro cargas,

carregadas de fósforo.

Parece ser um enorme depósito da Resistência.

Tudo bem, rapazes?

São da Grande Guerra?

Na Bretanha, todas as munições não explodidas datam de 39-45.

Os alemães não chegaram cá na I Guerra.

Erwan!

- Forno? Fogo de artifício? - Nem um nem outro.

Procedimento 24 com perímetro de segurança duplo: 100 e 200 metros.

Pede à Margot que ponha ali um contentor e sanitários.

- Vamos ficar aqui algum tempo! - Que festa!

Duzentos metros, vai bloquear-nos toda a exploração!

A sua pedreira está carregada de explosivos.

E quanto tempo vão demorar?

Entre a recolha de resíduos, a desconta- minação, a verificação das escavações...

- Pelo menos, um mês. - Impossível!

Temos de entregar 60 mil toneladas de areia à D28!

E eu tenho de respeitar as normas de segurança.

Claro que conseguimos.

Destaca já o Jean-Marc com os dois mergulhadores.

E porque é que eles ainda não chegaram?

Eu preciso de 7 homens a tempo inteiro na pedreira.

Sim, e pede ao Christophe que traga o detetor.

A responsabilidade é deles, fizessem a deteção antes de começar os trabalhos!

Calcularam mal...

Propõe-lhes fazer um teste de magnetometria urgente.

Já te ligo.

Não podes chegar a horas por uma vez na vida?

Eu cheguei a horas, tu é que estás adiantado.

Quem é essa?

Não sei.

Como te chamas?

- Não falas? - Baya!

O que faz com a minha filha?

A coitadinha estava perdida no serviço de obstetrícia.

É lá que eu trabalho! Tinha que se meter?!

Desculpe a minha filha, ela é muito jovem.

"Muito jovem?" Estou grávida!

- Pronto, tudo bem! - Anda!

Já chega!

- Eu cheguei antes, posso explicar? - Não.

Bom...

Vamos lá ver o processo...

Pesquisa indireta em três gerações

duma possível transmissão de Ataxia Espinocerebelar do tipo 3,

blá, blá, blá...

Foi a irmã do seu pai que teve a doença, certo?

A minha tia. Acabou por ficar paralisada.

O resultado das análises feitas ao seu pai o mês passado

dão-no como portador do alelo patológico, mas de forma assintomática.

Ele está bem, sim.

Quanto a nós, até agora...

não estávamos muito inquietos...

mas disseram-nos que era melhor despistar todos os riscos para o bebé.

- É o pai? - Sim.

Daquela criança, sim, mas não sou do seu...

Já me perguntava...

E o pai?

- Não há. - Há sempre um pai.

É o que estou farto de lhe dizer! E além disso, ela quer criá-lo sozinha!

Deixas-me em paz?

Então a minha filha pode ou não contrair a ataxia da "Tia Coisa?"

Tranquilize-se, está tudo bem.

Vês?

- Inquietas-te por nada. - Eu é que me inquieto?!

Mas...

Há algum problema?

Pode deixar-nos, menina, por favor?

Porquê?

Preciso de falar com o seu pai sobre algo que não lhe diz diretamente respeito.

Pode dizer.

- Ela já é crescidinha. - Estou grávida e tudo!

Muito bem.

Senhor, cabe-me informá-lo que tenho a prova indiscutível

de que não pode contrair a doença da sua tia.

Muito bem.

Então qual é o problema?

É também meu dever dizer-lhe que posso explicar-lhe a razão

na condição de querer ouvi-la.

Não estou a perceber nada...

Diga lá então.

Sr Gourmelon,

as análises que efetuámos revelam que não é portador do gene nocivo,

pela simples razão de não ter qualquer gene em comum com Bastien Gourmelon.

Não tenho qualquer gene em comum com o meu pai?

De certa forma...

Isso é possível?

Está a brincar.

Bastien Gourmelon não é o seu pai biológico. Lamento imenso.

SÓ PARA TER A CERTEZA

Continua, é mais longe.

- Não posso, estou sem bateria. - Sem bateria, como?

- Quem tratou das baterias foi o Didier. - Quem é o Didier?

O estagiário que a tua filha nos impingiu.

O que fizeste à bateria do Cyclops?

Trouxe a que tinha o indicador vermelho. A outra estava vazia, estava mal carregada.

Ainda hesitei...

entre essa e a do indicador verde, mas...

Vai buscar o meu fato.

E o protocolo?

Para a próxima, lembro-me dos semáforos.

Que rural...!

O que fazemos? Torpedeamo-las?

Se fosse químico, ela já estaria cozida.

É um ovo, eu tinha razão.

Eu tinha a certeza!

Erwan!

- Que bronco me impingiste, Juliette? - O que aconteceu?

O Didier Morpain! Não tens lá gente mais qualificada?

Eu trabalho na Ação Solidária, não num Centro de Emprego.

Pois, mas o meu trabalho é incompatível com gente burra!

Não podes ajudar apenas as pessoas que te convêm!

Faço isto para te ajudar! Podias fazer um esforço, porra!

Custa-te assim tanto dar um pouco do teu tempo àqueles que precisam mesmo?

- As empresas não se gerem com boa vontade. - Dizes isso, porque nunca tentaste!

Há que confiar na humanidade.

A humanidade põe bombas em todos os cantos da rua.

Melhor, pois é disso que tu vives.

Pois, melhor...

Porcaria de caixote do lixo...

Isso dói! Doeu mesmo!

Senta-te lá.

- Tens de esfregar. Esfrega bem. - É aqui...

Não te preocupes, pomos-te um belo penso

e vai ficar super harmonioso, a condizer com os outros.

Vais falar com o Avô?

De quê?

Não tens curiosidade em saber quem é o teu pai?

Já tenho um e basta-me.

Quando penso no que me chateaste para eu encontrar o dela...

O que fazes quando um turista estúpido te entra bombordo dentro?!

A traineira pesa 5,3 toneladas, não consigo manobrá-la!

Olha para isto!

Merda!

Esta é boa!

E este barco não é... Já não é novinho em folha.

Mas eu queria morrer lá dentro!

Não sei quem é o pai do bebé que a minha filha espera.

Ele teve um caso uma noite, engravidou

e gostava de encontrar o genitor para o informar da gravidez.

Gostava ela ou o senhor?

Ela tem 23 anos, nem percebe nada de nada.

E o que diz a mãe dela?

A mãe da Juliette?

Não diz nada.

Já não está entre nós.

Cancro nos pulmões.

Foi-se em três meses, quando a Juliette tinha nove anos.

Lamento.

Não tem mal.

Tem graça, porque...

tem o mesmo nome que ela:

Cécile.

Agora me apercebo...

que não dizia o nome dela há muito.

Cécile...

Eu e a Juliette...

falamos pouco da mãe.

E seja como for, quando ela falava nela...

dizia Mãe...

e não Cécile.

Assim, voltei para França para cuidar dela.

Da minha filha.

Como ela já não tinha mãe, e eu tinha um trabalho perigoso...

Preferiu sacrificar a sua carreira?!

De modo algum! Não sacrifiquei nada.

Alguém tinha de cuidar da minha filha.

Portanto...

Gostava que eu encontrasse o estuporzinho que a engravidou.

É importante para uma criança... saber quem é o pai.

Para a construção da identidade...

Por exemplo,

no meu caso, o meu pai foi sempre...

muito presente.

Sim?

Sim.

Devo-lhe muito, apesar de tudo.

É um homem... formidável.

Deveras.

Imagino que seria um grande golpe, ele saber que afinal não é filho dele?

Sim.

Dois minutos, sete segundos.

- Está na média. - Que média?

De concretização.

Em média, 80% dos meus clientes começam por contar uma história

que nada tem que ver com a verdadeira razão da sua vinda.

Nada que ver...?

Adiante...!

Quer que eu investigue as suas origens

e que encontre o seu pai biológico, certo? - Não...!

O ginecologista pode ter-se enganado.

A minha mulher diz sempre:

"As vacas que vêm de longe têm tetas grandes."

A sua mulher?

A minha mulher.

- O que quer isso dizer? - Não faço ideia.

Vai registar tudo o que sabe

e depois não quero mais interação: serei eu a ligar-lhe.

Vou preparar um contrato.

Isto significa que o pedido de renovação foi recusado.

Recusado, como?

O atestado médico indica que o seu pai já não está apto a pilotar uma traineira.

Isso é impossível!

Eu navego desde que sei andar!

Erwan, ele não me pode fazer isto!

De certeza que não há nada a fazer?

As pessoas de idade nem sempre têm consciência das suas limitações...

É difícil aceitá-lo.

- Há que considerar o risco para os outros. - Que risco?

É um barquito de 9 metros!

Pode atender, se quiser.

Atende!

Está?

Sr Gourmelon?

Sim?

Identifiquei e localizei o seu pai.

Não só ainda está vivo, como vive a menos de 20km de si!

Passa cá, para eu o pôr a par?

Gourmelon?

Obrigado.

Preciso duma assinatura aqui...

Assim, o seu paizinho poderá ir para casa descansar.

Ouça...

O barco é aquilo que o meu pai tem de mais precioso.

Talvez possa mostrar-se um pouco mais flexível, não?

Limito-me a cumprir o processo.

Eu também já fui funcionário, conheço o processo.

Não te preocupes, Pai.

Vamos a outro médico. Ele arranja-te um atestado médico e isto resolve-se.

Anda, vamos embora.

Cordiais saudações, senhor.

Eu bem lhe disse, também não há bomba que me resista!

Boa sorte para todos e cumprimentos aos seus pais.

Há qualquer coisa a incomodá-lo?

Não, é que me perguntava...

Sim, se devia ligar-lhe? Ir visitá-lo? Escrever-lhe? Mandar-lhe um telegrama?

Vá!

Siga o seu instinto!

Parabéns a você

Nesta data querida

Muitas felicidades Muitos anos de vida!

Um, dois, três, pedra, papel, tesoura!

Um, dois, três, pedra, papel, tesoura!

- Estou farto... - Escolho sempre mal!

Ouça, Didier...

Posso perguntar-lhe uma coisa?

Diga.

- Tem pai? - Como toda a gente!

Imagine que um dia,

é apenas uma suposição, claro,

dizem-lhe que o seu pai não é seu pai,

mas sim um outro, que nem sabe da sua existência.

Escolhia ir conhecê-lo ou não?

Escolhia não o conhecer.

Muito bem, obrigado.

Não quer saber porquê?

Entra lá!

- Tire a senhora... - Muito bem.

Fui buscá-la à SPA.

Tem um medo patológico do abandono.

- É um braco alemão? - É arraçada.

- E como se chama? - Pinochet.

Mas é uma querida!

Muito obrigado, senhora.

O anterior chamava-se Pol Pot, e o anterior, Ceausescu.

Tem mais piada quando lhes damos ordens.

Pinochet, de pé!

Pinochet, deita!

Pinochet, isto, Pinochet aquilo...

Pinochet, vem aqui!

Para!

Espere! Deixe-me ajudá-lo.

Deixe-me fazer.

Que patifório!

Muito obrigado, jovem.

Está tudo bem?

Não se sente bem?

Posso ajudá-lo?

Na verdade...

Chamo-me Erwan Gourmelon

e descobri há coisa de um mês que o meu pai não é meu pai.

Mas está tudo bem?

Contratei uma detetive privada que investigou junto de muita gente...

Uma detetive! Que divertido!

Julgava-a uma profissão em desuso, como os carvoeiros ou os aguadeiros!

Tudo começou porque a minha filha está grávida...

Parabéns!

Então vai ser avô!

Joseph.

Joseph Levkine.

É a minha mãe.

Não tem um ar muito feliz. Embora casasse nesse dia...

Acha que ela está melancólica porque já conhecia o seu outro pai?

Na verdade, já estava grávida.

Mas parece que era a única a saber.

Um segredo bem pesado para uma mulher tão jovem.

Chamava-se Marie.

Marie Morvan, era o nome de solteira.

E pensa que eu posso ter conhecido o amante dela?

Não sei.

Parece que ela o conheceu na Centro Cultural da Juventude de Lorient.

Como o mundo é pequeno! Sabe que eu era um membro ativo?

Sim?

Éramos todos voluntários.

Não é impossível que me tenha cruzado com eles, com ela ou com o amante...

Está nesta fotografia?

- Onde a encontrou? - Foi a detetive.

Mas este sou eu!

E ali, lá em cima...

com o seu vestido florido...

está a minha mãe.

Este é o Gandaubert... e estes...

O Antoine e o Fabrice!

Posso ficar com ela?

Segundo a detetive, conheceu a minha mãe a 23 de junho de 1970.

Uma das amigas dela convidou-a para a festa de inauguração.

Quis beber um café comigo...

para saber se sou o seu pai? - Não me leve a mal.

Já ninguém se interessa pelos outros sem uma razão ulterior. E afinal...

estamos todos sós.

Dê-me licença....

Porra!

Você está doido?!

Tenha mais cuidado!

Está ferida...

- Não é nada. - Tem a certeza?

- Tenho um estojo de primeiros-socorros... - Isto já passa!

Merda!

Que estúpido o javali! Riscou-lhe o bólide todo!

Cuidado, é perigoso.

Está bastante ferido e pode...

- Devia ter cuidado. - Com quem?

- Deixe-me tratar disso. - Tem razão.

Vou só ver se o meu batom não caiu quando lhe bati.

É veterinária?

Pode agarrar-lhe as pernas?

É anestesia?

Chanel Nº 5.

Obrigada.

Adeus.

E o javali?

Matei-o.

Pai?

Tudo bem, Pinochet, sou eu.

Pai?

Estás às escuras... Porque não acendes a luz?

Não dei conta...

- Estás encharcada! - Sim, o que é isso?

Foi no CCJ. Eu só tinha 30 anos, olha...

- Ainda não almoçaste? - Comi sardinhas às quatro horas.

Preparo-te refeições equilibradas,

não é para depois comeres o que te der na gana noutros sítios.

Tomaste os comprimidos, ao menos?

Se os tomas sem comer, depois não te queixes do estômago.

Eu não me queixo.

Estás ferida?

Atropelei um javali. Ele não sobreviveu.

Tens a testa dura.

Deve ser...

- Posso perguntar uma coisa? - Diz.

Achas que um dia me podes vir ver, só porque sim...?

Não pela injeção, mas só pelo prazer?

Quando não tiver de te fiscalizar, sim.

Há de ser no cemitério.

Por correio, então?

Hoje sem falta. Está bem.

Adeus, senhor.

Desculpe, mas está ali...

Acho que é o seu pai.

O meu pai? E que horas são?

Calculo que umas 11h34.

Bom dia?

Bom dia.

Lamento aparecer sem avisar.

Incomodo?

Não me incomoda nada.

Foi o senhor que disse que era meu pai?

Na verdade...

Na verdade, queria dizer-lhe... Não me orgulho muito...

No dia da inauguração do CCJ, eu estava de tal forma febril...

de tal forma ansioso...

Bebi tudo o que pude!

Eu era um homem casado,

não era um valdevinos...

No dia seguinte, quando eu e a minha ressaca abrimos os olhos...

Havia uma mulher comigo, na cama da enfermaria.

Provavelmente, a sua mãe.

Joseph!

Por favor...

Espere um minuto.

Não se importa?

Didier?

Sim?

Tenho de ir, mande isto à DRIRE, por correio registado.

- Carta registada. DRIRE. - DRIRE é Direção Regional da Indústria.

Confio-lhe uma grande missão, uma verdadeira responsabilidade.

- Posso contar consigo? - Não o desiludirei! Está prometido!

Concentro-me tanto na estrada, que já nem reparo na beleza disto!

Estou claramente melhor aqui no lugar do morto.

Olá, Carole.

- Tudo bem? - Sim, e tu?

Onde está ele?

E o meu pai?

Está com o outro pai.

Ele não parecia ter a certeza de que era o pai dele.

- Enfim, é estranho. - O outro pai...

Juliette, que se passa com o teu pai?

Éramos para almoçar,

mas aqui o teu namorado não me diz onde ele está.

Ele não é meu namorado.

- Esqueceu-me... - Não te esqueceu nada!

Teve um contratempo.

E que contratempo impede um filho de ligar ao seu pai?

Uma urgência!

Alerta de bomba.

Terrorista.

- A sério? - Não, terrorista não.

Alerta de sequestro.

- Escondem-me qualquer coisa. - É altamente secreto.

Não podemos dizer-lhe nada: é segredo profissional.

- Teve um acidente? - Não! Não te aflijas.

Digam-me a verdade!

Conheceu uma pessoa.

E é sério?

O meu pai apoiou os bolcheviques com risco da própria vida.

Pode dizer-se que eu tinha a revolta no sangue.

Também participei, com Jean-Paul Sartre,

na manifestação proibida contra a guerra na Argélia.

Foi declarado estado de sítio. Papon tinha enviado as CRS

e tivemos oito mortos na Estação de Charonne.

Cinco dias depois,

éramos um milhão na rua, em homenagem às vítimas.

- E continua a militar? - Com quem?

Desfilei pela última vez há 7 anos, contra o desvio da estrada nacional.

Éramos 12 na manifestação

e eu era o mais novo...

Já nem sequer sou capaz de ir sozinho à cidade.

Fico a ver as manifestações na televisão.

Nos noticiários.

E eu que sempre pensei ter uma família banal...

E eu, há duas horas, era apenas um homem que tinha enganado a mulher.

Tenho de ir, Nicole. Bom dia, e até para a semana.

Menina...

Você, outra vez?

Sim...

Está melhor, o seu...

Sim.

Não teve mais acidentes desde ontem?

Mora aqui perto?

O meu consultório.

Mas tenho de fazer um domicílio, estão à minha espera. Adeus.

Espere, espere...

Queria convidá-la para jantar.

- Para me perdoar. - Para perdoar o quê?

Perdoar por...

não a ter convidado antes.

É casado? Tem filhos?

Não. E sim.

- Esclareça. - Tenho uma filha de 23 anos.

- Mulher? - Tive uma.

Mas morreu.

É que se quer dormir comigo, é melhor. Já tive a minha conta de homens casados.

Desculpe...

Espere.

Tem um pedaço de salada nos dentes.

Você tem jeito para as mulheres...

Espere.

É do outro lado.

É salsa.

- Obrigada. - Tem de reconhecer uma coisa.

O quê?

A tarde já vai no fim,

e depois do almoço ninguém se atreveu a dizer-lhe que tinha salsa nos dentes.

Fui o único.

Sexta, às 20h30, no Albergue de Magouëre.

Tenho de estar em casa às dez, levanto-me cedo ao sábado.

São muitas emoções...

Como é ele?

Pai!

- Como é ele? - É um velhote, Juliette.

- Onde mora? - Perto de Etel.

- Os arenques marinados não estão aqui. - É simpático?

- Não sei... Acabo de o conhecer. - E eu, quando o conheço?

Quando fizeres um exame de consciência.

Quando a tua filha for grande, há de querer encontrar o pai.

Vai encontrá-lo e depois vai abandonar-te.

Fala por ti.

Eu não abandono ninguém.

Que sentido faz procurar um tipo de quem nem sei o nome,

para lhe impingir um filho até ao fim dos seus dias?

Do ponto de vista da criança, faz sentido.

O que dirás à tua filha quando ela tiver idade para perguntar pelo pai?

Direi que foi uma queca isolada. A verdade.

E o que te diz que o tipo em questão quer ter um filho?

Na volta, é casado, pai de família...

Então não sabes nada dele?

Dormes assim com qualquer um, em qualquer altura, sem proteção?

Com o Zorro, num baile de máscaras,

contra um muro em ruínas, podre de bêbeda, se queres saber!

- Não quero saber! - Tarde demais.

São 25,80, por favor.

Ainda bem que ela escolheu o Zorro e não um Bernardo.

São 4,20, por favor.

Deixa, deixa, tenho muito gosto.

- Obrigado. - Tomem.

Obrigada, senhora.

A minha filha também é complicada em questão de homens.

Tem uma filha?

Sim.

- Sim. - Bom...

Cinco...

dez...

e com dez, faz vinte.

Desculpe, senhora. Acho que lhe dei 50 euros.

Quem julga que eu sou?

Desculpe! Não queria ofendê-la.

- Já não vejo bem, lamento. - Mas deu-lhe mesmo 50 euros.

Tem alguma coisa com isso?

Tenho, porque...

Porque sou filho dele!

Pronto, deixa estar.

- E trata o seu pai por você? - E você rouba os velhos, estúpida?

Erwan!

Vamos!

Vou vê-lo ao lar todas as semanas.

Falo-lhe da chuva e do bom tempo, mas não sei se ele me ouve.

Mas a dada altura, ele interrompe-me.

Pousa-me a mão no braço, assim, e diz:

"Sabes que isto que há entre nós é muito forte?"

E eu respondo-lhe:

"É natural, Frédo, és o meu melhor amigo."

Então ele olha para mim,

o olhar torna-se límpido, e exclama:

"Isso vem mesmo a calhar. É formidável!"

Coitado do Frédo. Perdeu completamente o juízo!

Que horas são?

Não sei.

Pai?

- Não lhe diga nada, por favor. - É a minha irmã?

Não lhe digas nada.

A minha filha, Anne.

Erwan Gourmelon.

Esta é boa...!

Pois é.

Conhecem-se?

Já nos cruzámos.

- Mas como? Onde? Porquê? - Encontrámo-nos no bosque, de noite.

- O que fazias no bosque, à noite? - O que faz aqui?

O senhor trabalha na Associação dos Reformados de Morbihan.

Anda a visitar os velhos, para combater o isolamento.

Anda a visitar os velhos?

E estão a beber Calvados?

Fui eu que insisti.

Está bem. Não apostaria um cêntimo em como você trabalha na área social.

É para ver como são os preconceitos...

Vou andando, ainda tenho muitas visitas a fazer. Adeus, Sr Levkine.

Tive muito gosto.

Voltamos a ver-nos?

Sim, sim. Mas tenho uns problemas de família a resolver.

- Eu acompanho-o... - Não é preciso.

- Sim, sim. - Não, deixe.

- Adeus, senhora. - Sempre jantamos amanhã?

Sim.

Até amanhã, Erwan.

Até amanhã.

Tens um encontro romântico?

Sirvo-lhe mais um?

Obrigado.

- Está adiantada. - Como assim?

Combinámos às 20h30 e são 20h22.

Como já cá está...

Eu chego sempre adiantado.

Assim, sempre que nos encontrarmos, chegamos dez minutos mais cedo.

- Faça favor. - Obrigada.

Boa noite.

Sim, desculpe. Boa noite.

Depois disso, a minha mãe foi viver para a Palestina.

Hesitou entre...

o Vietname, a Roménia e mais não sei quê...

Queria ocupar-se de todas as desgraças do mundo.

Exceto da filha.

Então eles mandaram-me escolher aos 10 anos:

pai ou mãe?

Tive de escolher entre um homem sozinho e desorganizado

e uma entusiasta 20 anos mais nova que ele que se estava nas tintas para mim.

Mas o seu pai parece ser boa pessoa.

Sim... enfim...

Mas diga-me lá...

É boa pessoa?

Que interesse tem no meu pai? É gerontófilo ou quê?

Não, mas por exemplo...

Ele dá-se com muitas mulheres?

O normal.

- E costumava enganar a sua mãe? - Podemos esquecer o meu pai?

Não podia ter arranjado um trabalho mais interessante do que cuidar de velhos?

Não, mas os velhos...

Não é o meu trabalho.

É uma coisa que faço como voluntário. Ocasionalmente.

Sim?

Então em que trabalha?

Sou desarmador.

Desarmador de quê?

De bombas.

De bombas...

Minas antipessoal, minas antitanque...

São tudo minas de pressão, ou de alívio de pressão,

porque têm todas por baixo uma chapa de pressão

e algumas têm até...

um sistema armadilhado irreversível.

Irreversível?

Quer dizer que mal a pisamos, estamos tramados?

Em princípio, sim.

Então, basicamente...

se ouvimos um clique...

Veja...

Tem um balão? Ou um saco de plástico?

Não.

Espere.

Infelizmente, não passei pelo loja de bricolage antes de vir para cá.

Para desativar, sondamos a praia toda,

assim,

a 45 graus.

É preciso ser super preciso,

para não correr o risco de pressionar a chapa.

Quando encontramos uma coisa dura,

estacamos, controlamos...

e desativamos.

E se fizerem uma sondagem a 50 ou a 60 graus?

Não é a mesma coisa.

Ora repare...

Ficou cheio de areia!

Obrigado.

O que estamos a fazer?

Não sei.

Aquilo que se faz quando um homem leva uma mulher a jantar!

Depois de a seduzir com esculturas de areia

e garantir que o seu encanto resultou, ele acaba por a beijar, não?

O natural é dormirmos juntos,

e acordarmos com uma ressaca sem saber bem o que recordamos...!

O básico, pá, fazemos o básico!

Lamento.

É simpático fazeres isso.

Já queria fazê-lo...

Mas andas muito ocupado, não?

Não especialmente.

Queres falar?

De quê?

A Juliette disse-me que conheceste...

Ela disse-te?

E então?

É bonita?

Sim.

É muito bonita.

Como se chama?

Chama-se Anna.

É daqui da zona?

De Etel.

- E faz o quê? Trabalha? - É médica.

Boa, médica!

E tem filhos?

Desculpa, sou muito curioso! Calo-me já.

Mas estou radiante!

Vou buscar umas cervejinhas.

E porque é que ainda não começaram a descontaminação química?

Tudo bem, amigo? Não estás com boa cara.

Fiz-te uma pergunta.

Aguardo a autorização da DRIRE.

Já mandei o requerimento há 10 dias.

Parece que não.

- Margot para Madjid? - Diz.

Há notícias da autorização da DRIRE? Pergunta o Erwan.

Vou perguntar à PA se tem notícias.

Didier!

Não recebemos nada, mas a Marianne pode ter arrumado mal. Ligo-lhe?

Esquece a autorização. Já percebi.

Onde é que eu pus aquilo...?

Sim, não é isto...

Tem graça!

Também não é isto...

Como foi a primeira vez que enviei uma carta registada,

fiquei tão orgulhoso que guardei ciosamente o talão. Tenho a certeza!

Onde é que o enfiei...

Tenho a certeza, tem de estar aqui.

Mas onde é que eu...

Muito bem!

"Don Didier de la Vega."

Não quiseram devolver-me a caução porque faltava isto.

Isso já é uma boa notícia!

Cá está!

Tenho a prova!

Já me estava a fazer duvidar!

Tem o carimbo,

a data,

código postal... Tudo.

O que é?

Tem aqui o comprovativo.

Do correio que eu ia enviar.

Sim, vejo que tem o carimbo, mas o campo destinado ao remetente é este.

E este ao destinat...i

Que estupidez!

Até pensei: porque é que enviam um duplicado pelo correio...

Não era um duplicado...

Vou resolver, não se aborreça.

Deito fora?

Engravidar dum dos casos sociais de que ela se ocupa é o cúmulo do envolvimento!

Só que ela não fazia ideia de quem era o mascarado.

É a paixão do sacerdócio...

A Anna é o mesmo com a medicina.

A propósito de Anna...

É melhor pô-la ao corrente.

Não me trates por você, eu não sou nenhum barão!

É melhor falares com ela.

Antes que ela saiba de outra forma.

Claro. Falo com ela.

Quando for oportuno.

O Madjid disse que queria falar comigo.

Bom dia, Didier.

Entre. Um café?

Com muito leite, então. Fiz alguma coisa mal?

Não... porquê?

Só queria conversar um pouco consigo.

- Vou ser despedido. - Não, porquê? Sente-se.

Tenho uma coisa muito importante para lhe dizer

que talvez vá abalá-lo.

Posso comer uma bolacha?

Sim, sirva-se, claro.

O que queria dizer-me?

Primeiro...

Fale-me um bocadinho das suas origens.

Disseram-lhe que estive preso?

Sim, já sabia.

E porque foi?

Violência em bando organizado, mas não fui eu.

O que queria dizer-me?

Queria dizer-lhe que estou muito contente com o seu trabalho.

A sério?

E penso propor-lhe um contrato.

A sério?

Como foi a sua filha que me propôs este estágio,

pergunto-me porque é que a sua família gosta assim tanto de mim.

- Talvez por o Didier o merecer? - Acha?

Há que ser realista!

Tenho 31 anos e meio,

durmo num centro de acolhimento, às vezes no meu carro,

não tenho namorada nem amigos...

Até hoje, não se pode dizer que a sorte me tenha sorrido muito.

Mas não lhe aconteceu nenhuma desgraça.

- Mesmo assim. - Não...

- Às vezes, a vida traz-nos boas surpresas. - A mim, não.

Agora, por exemplo, quer propor-me um contrato,

e eu não consigo impedir-me de pensar

que isso esconde qualquer coisa.

Não, não! Assumo desde já que sou incapaz de cuidar duma criança!

- Sou demasiado falhado! - Eu posso ajudá-lo.

Eu sou um tipo boçal! No seu lugar, despedia-me já!

Não diga disparates.

Se a minha filha não tivesse fé em si, nunca o teria posto aqui!

E sou um cobarde!

Só lhe peço que considere assumir a paternidade.

Se não o faz por si, faça-o pela criança.

Será vital para a menina crescer a saber quem é o pai!

É...

- É uma menina? - Sim.

Segundo dizem, Adolfo Hitler morreu no Brasil com 95 anos.

Protegido pelos amigos no Vaticano.

- Só faltava essa! - Juro!

Fugiu para o Japão num submarino

e depois foi para a Argentina, por Espanha.

Há muito disparate na Internet, não se pode acreditar em tudo.

Até têm uma foto dele nos braços duma preta lindíssima!

A fotografia está meio desfocada, mas vê-se que é ele.

Mesmo tendo rapado o bigode! Eu trago-lha!

- Fico à espera. Até breve. - Até breve.

Adeus, Sra Moussafir.

Próximo paciente.

Se me passar um atestado,

mal recupere a minha licença, levo-a a um passeio no mar!

Fuma?

Parei, quando me tornei pai.

E a Doutora, tem filhos?

Uma dezena de consultas pediátricas por semana...

O dobro na consulta de gastro...

Pode vestir-se.

O seu nome?

Gourmelon, Bastien.

É alguma coisa a Erwan Gourmelon?

Sim, é o meu filho.

Conhece-o?

Conheci-o há pouco.

Não me diga que é a Anna.

Ele falou-lhe de mim?

Está a brincar?

Passa o dia a falar de si!

Anna isto, Anna aquilo, Anna para aqui, Anna para ali...

Está obcecado!

Ele já me tinha dito que a Doutora era muito inteligente

e muito bonita,

mas agora percebo melhor porquê!

Que coincidência!

Estás contente?

Para festejar, preparei-te uma surpresa.

Que tipo de surpresa?

Tipo adiantada.

Esta calou-te!

- Veja, está comovido. - Bom dia.

Bom dia.

Conhecemo-nos por um acaso incrível.

Não me mentiste.

Ela é mesmo encantadora!

O seu pai preparou um piquenique três estrelas!

Vou abrir uma boa garrafa para festejar.

Não é rancorosa...

Porque sinto que há algo entre nós.

Dou três voltas,

passo a ponta pelo cabo de cima...

e ajusto!

Assim?

Magnífico!

Fez o nó à primeira!

Bravo!

Costumava levá-lo muitas vezes a velejar?

Quando ele era miúdo, eu e a mãe passávamos todos os fins de semana com ele no barco.

Foram os melhores anos da minha vida.

Lembras-te, Erwan?

Incomoda-o que eu esteja aqui?

Não.

- De maneira nenhuma. - A sério?

Sim, gosto muito, Anna. Gosto mesmo até muito.

Está contente?

- Posso fazer uma pergunta? - Sim.

Sente-se bloqueado pelas mulheres?

- Não, porquê? - Tudo bem, acontece.

Em adolescentes, retraímo-nos; aos 18, temos vergonha;

a pressão aumenta ano a ano; aos 25 anos, é inconfessável. Ficamos aterrados.

Com o receio de ir às putas aos 30 anos, é um círculo vicioso...

- Mas como teve uma filha... - Se não tivéssemos o mesmo pai,

eu já teria há muito...

O que disse?

Disse que temos o mesmo pai.

Que história é essa?

- Basta-me o meu, não preciso do seu. - Mas é o seu que é meu.

Se eu não lhe agrado, diga!

Escusa de vir com a tragédia dos Átridas, para eu o engolir melhor.

- A tragédia de quê? - Nada.

Vocês irritam-me, porra!

Pai?

Tudo bem, Pinochet, sou eu.

Pai?

Bom dia, filha.

- O que estás a fazer? - Estou a mudar de hábitos.

Ou tento.

Não me lembrava que isto era tão pesado.

E estou farto de estar de costas para a janela.

Estás bem?

- Pareces cansada. - Não, tudo bem.

- Queres um café? - Sim.

O que te traz cá?

Queria dizer-te...

Sim?

Estive com o teu...

Estive com o Erwan.

- Sim? - Sim.

Ele pôs-me a par. Já sei tudo.

Pai...

Sim?

Diz-me que não é verdade.

Infelizmente, sim. É verdade.

Bom dia, Sr. Montand. Soube que arranjou trabalho.

Bom dia, Emed, tudo bem?

Se não se importar, a Elsa vai assistir.

É estagiária e vai substituir-me durante a licença.

Assim fica a conhecer o processo.

Pelo contrário! Assim fica a saber tudo

e a Menina Gourmelon terá mais tempo para tratar da filha.

Como sabe que vou ter uma filha?

Como tem a barriga muito subida...

É uma menina, eu sei ver.

Está bem...

Como podemos ajudá-lo?

Não queria falar diante...

A Elsa sabe que está a estagiar na empresa do meu pai.

Como podemos ajudá-lo?

A sua gravidez está a correr bem?

Está, sim, Didier. Mas não estamos aqui para falar de mim.

Não, claro...

Já sei... Queria saber...

Quanto tempo dura a licença de maternidade?

A licença de maternidade são 16 semanas,

em princípio com um período pré-natal de 6 semanas antes da data provável do parto,

e uma licença pós-natal de 10 semanas depois do parto.

Fantástico! Obrigada, Elsa.

E para depois disso já arranjou alguém...

para cuidar da miúda?

Sim, vou resolver.

- Com o pai? - Entre outros.

Quem é?

Didier, quem faz as perguntas sou eu.

Seja como for, se fosse eu, ajudava com muito gosto.

E mesmo não sendo eu, como conheço a sua família...

E se fosse eu,

assumiria totalmente toda a minha responsabilidade.

É vital para o equilíbrio de um bebé ser reconhecido pelo seu pai!

Mas eu também saberia ser discreto.

Quero dizer, não sou nenhum idiota.

Seja como for,

no caso de... sei lá... a criança um dia perguntar:

"Quem é o meu pai?"

eu estaria sempre lá, sempre presente, de coração e alma.

Não estou a perceber. O que lhe diz que o bebé não tem pai?

Quero dizer...

Falava teoricamente...

Não tem pai?

Elsa, pode sair um bocadinho?

- Mas... - Por favor.

Foi o meu pai que te mandou cá?

- A tua filha precisa dum pai. - Didier Morai!

- E falas dum pai...? - Ao menos, já sabes.

O que é que achas? Soube antes de ti que ele era o Zorro!

Mas eu é que tinha de decidir se lhe dizia ou não!

Então porque correste o risco de mo confiar?

Não sei, para...

Para o observar.

E achei que o trabalho o ia fazer ganhar juízo!

E o capitalista que só pensa no seu interesse pessoal sou eu?

Não, mas o pai do meu filho é aquele que eu escolher!

Não, Juliette!

O pai do teu filho é o pai do teu filho!

É um facto, não é uma escolha! Se ele quiser envolver-se, envolve-se.

- E o que tens tu com isso?! - Vives em minha casa!

Queres livrar-te de mim.

Não digas disparates, Juliette.

Sei bem que sou um estorvo para ti.

Se eu não existisse,

ainda estarias a salvar vidas em vez de desenterrar obuses da I Guerra!

Eu sei que te estraguei a vida!

Sabes que mais? Liberto-te!

Para, Juliette!

- Aonde vais? - Vou dar uma queca com o Capitão Gancho!

Não me toques!

Anda cá, por...

És tu?

Que se passa, querida?

Tenho fome.

Entra.

Sempre gostaste dos meus cozinhados.

Em pequenita, a Avó chamava-te "a ogre." Lembras-te?

Eu detestava!

Tens saudades dela?

Era uma chata, rígida como a lei.

Comia como um passarinho...

- Nunca acabava o que tinha no prato... - Tal e qual o Pai.

É verdade.

Herdou os defeitos todos da mãe.

E de ti?

O que herdou ele de ti?

Diz-me tu!

Acho que à maneira dele, é generoso.

Como tu.

E é uma pessoa íntegra, como tu.

É verdade.

Modesto também.

Tem os seus segredos.

Como tu.

Não comeste as cenouras.

Tenho aqui peras, vão estragar-se.

Se ela não estivesse grávida, vocês tinham-se casado na mesma?

Claro!

Bolachinhas com leite quente?

Tu sabias.

Se já não tens fome, vou ver o noticiário.

Avô...

Tu sabias que ele não era teu.

Agora tenho a certeza que ele sabe.

Mas tinhas dúvidas.

Julgas que não sei o que é um teste de ADN?

A ideia já me estava a encantar...

Via-me na loja de brinquedos com a miúda,

a jogar flippers...

e mesmo no campo de futebol.

Se olharmos assim, semicerrando os olhos,

sem o capacete e com um bigode, é mesmo a cara do Hitler!

Veja!

- Ainda tem Tanakan? - Pouco.

Veja, ele envelheceu, mas...

É perturbador, não é?

- Precisa de Duphalac, ou ainda tem? - E logo com uma preta!

Não, já despachámos o campo de Tellermine Z43

do outro lado da zona 4.

Isso nunca mais acaba, é...

Despeja os resíduos contaminados no canto sul e liga-me quando souberes.

Tudo bem?

Que se passa, Pai?

Erwan!

Desculpa.

Que se passa? Falta-te alguma coisa?

Temos um problema...

Acabou-se.

Já não há retorno possível.

Sou o pai do bebé e quero ser reconhecido!

Se a Juliette não vier ouvir o que tenho a dizer nas próximas 24 horas,

salto.

Didier, sê razoável!

Sai daí!

Vamos conversar com calma!

Não desço, não tenho nada a perder.

- Aposto 50 em como não salta. - Agora não.

- Proíbo-o de se suicidar! - Pai, por favor...

Prometo fazer tudo para convencer a Juliette.

Ela é uma rapariga inteligente,

há de acabar por aceitar.

É isso, sim!

Ela que venha cá e que mo garanta pessoalmente!

Ela não quer nada consigo, rapaz!

Dê provas de dignidade e esqueça o assunto.

Não me venha com isso! Não tem moral para me dar lições!

Se tivesse tido a coragem de dizer a verdade ao seu filho,

ele não teria sido obrigado a andar à procura do pai dele.

Pai...

O que faz ele? Vai buscá-la?

Pai?

Mãe...?

Há que fazer face à adversidade!

Fala do atendedor do Bastien.

Isto grava?

Não percebo nada, merda!

Seria simpático atenderes.

Menina, sente-se bem?

É uma contração.

É normal.

Tudo bem, eu já sou crescida.

E o senhor, está bem?

Os táxis particulares não o têm prejudicado muito?

Não, aqui tem sido tranquilo.

Eu sou completamente contra. Acho que é concorrência desleal.

Vocês pagam um dinheirão pelo alvará...

Tenho fome! Não tens fome?

Pago eu. Anda.

Não...

Não pago eu.

Também não tenho um tostão.

Vês o mesmo que eu?

Eu trato da quiche e tu sacas os gofres.

Não me sinto bem...

Senhor!

O senhor ouve-me?

Está?

Está com a glicémia muito baixa.

Quando se é diabético, não se pode tocar em álcool.

Mate-me de vez, é mais simples.

Só sugiro que leve uma vida mais conforme à sua idade.

O que sabes tu da minha idade?!

Está cansado, tem de descansar.

Não me fale como se eu fosse imbecil! Eu não sou uma criança!

É filho dele?

Sim.

Não.

Já não sei. Estou perdido.

Não me lembro da tua mãe, Erwan.

Estás cansado, não faz mal.

Não me lembro.

Não me lembro.

Isso já passa.

Não está bem?

Tem 13/8, está muito bem.

- Sim, senhor? - A maternidade?

- É ali. - Obrigado.

- Leve o cobertor. - Obrigado.

Adeus.

Erwan.

Senhor.

Bom dia.

O que fazes aqui?

Procuro a maternidade.

- A Juliette tentou ligar-nos. - Como está ela?

Elas estão bem.

As duas.

Não a façam esperar muito.

Empresta-mo?

- A Anna não deve tardar. - A Anna?

É a minha filha.

Mas e tu?

- Ficas bem? - Vai!

Vai lá, vá!

Ele foi perfeito esta noite.

Estava perto, não tinha nada que fazer...

Mas estiveste aqui.

- Queres pegar-lhe? - Não, obrigado.

Pai?

Já que aqui estão, vou aproveitar para...

ir comprar cigarros.

Tu fumas?

Até logo.

Estás a ver...?

Afinal...

acabou por ganhar juízo.

Olha para isto!

Cheio de pelos! Bolas para o Pinochet!

O que te apetece comer esta noite?

Tens de ir, não?

- Pai? - Sim.

Dez mil.

Dez mil o quê?

Mais ou menos dez mil.

As refeições que me preparaste desde que a Mãe se foi embora.

Que história é essa?

Sabes o que acho muito triste...

com amigos que perderam os pais, quando eram novos?

É nunca terem tido oportunidade de retribuir.

Sim?

Se a tua mãe precisasse de ti, por exemplo,

tu não a ajudavas?

Sim.

E porquê?

Porque...

Porque apesar de tudo...

devo-lhe os primeiros dez anos da minha vida.

Devo-lhe...

Merda!

Deves-lhe?

Sim, devo-lhe...

O desejo de salvar vidas...

Devo à Mãe a minha paixão. E isso não tem preço.

E como a estúpida nem precisa de mim, tenho de compensar contigo, meu velhote.

Há fortes probabilidades de eu durar até aos cem anos,

e se queres que te diga,

não te quero ter sempre à perna, minha filha!

Lembras-te...

do que a tua mãe fazia com a fruta?

Lembras-te, minha querida?

Obrigava-nos...

a comer a fruta podre antes da madura para ela não se estragar.

Resultado?

Passávamos o tempo a comer...

Fruta podre.

Tratar dum velho que tem a vida pela frente

quando temos a vida pela frente,

é como comer um fruto ressequido

quando a vida nos estende os braços...

como um belo pêssego maduro.

Não impede que a gente se veja de vez em quando.

Só pelo prazer de nos vermos.

Se eu não estiver muito ocupado, claro.

Vai lá...

Vai.

Não a achas parecida com ela?

Com a Mãe?

Sim.

Nunca pensei tanto nela.

O que é?

Lamento...

Não, pelo contrário.

Penso como ela ficaria feliz e isso dá-me confiança.

E isso dá-me força, percebes?

Ela está aqui.

Também me dá força.

Registo a criança nos vossos nomes?

Não, é de pai desconhecido.

Não é assim tão desconhecido...

Ele já cá esteve a reconhecer a criança.

Didier Morpain.

É isso?

Sim.

Porque te interessas por cavalos-marinhos?

É uma das raras espécies em que o macho incuba os ovos e traz as crias ao mundo.

E isso seria uma espécie de pai ideal?

Se ser genitor basta para fazer um pai, sim.

Abra bem.

Se não forem irmãos, o que vão fazer?

Em princípio, vamos dormir juntos.

Anna!

Anna!

Reservei um quarto em nome de Anna Levkine.

Reservou?

Sim. Em nome de Anna Levkine.

Em que nome?

O que está a fazer?

Antecipo.

Se for meu irmão, vamos comer mexilhões fritos com o Pai,

e acabamos a noite a jogar Scrabble, a ouvir Léo Ferré ou...

ou Serge Lamas, se preferir.

Caso contrário, o que se passa?

Damos por nós feitos parvos, a fazer amor numa varanda?

Sinceramente, Erwan, já não temos idade para isso.

Quando vamos descobrir que o homem que amamos talvez não seja nosso irmão,

antecipamos um pouco. Só isso. E eu antecipei.

É 0%!

O que está a fazer?!

Erwan, larga-me!

Larga-me!

Erwan!

Também já começava a habituar-me à ideia de ter um irmão...

És tu!

- Posso sentar-me? - Claro.

E os testes?

Mas almoçamos juntos na quarta?

Como todas as quartas.

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