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No inverno de 1930, depois do fracasso da revolução anti...
monárquica de Jaca, um jovem soldado deserta e...
anda pelos campos, tentando viver sua própria vida.
FEVERElRO DE 1931 EM ALGUM LUGAR DA ESPANHA
Alto, é a Guarda Civil! Mãos para cima!
-É que eu estava... -De onde vem?
-De Madri. -Para onde vai?
Responda ao cabo.
-Para onde vai? -Não sei.
Por que desertou?
-Viva Galán e Garcia Hernandez! -Esse cara é de Jaca...
-Quieto! -Está dando gritos subversivos.
-Estava servindo em Jaca? -Não, senhor.
E então?
Eu sou a favor da República.
Não se entende mais nada, republicano e com a Bíblia!
-Um momento... Vamos soltá-lo? -A quem?
Não brinque!
-E se vier a República? -Mas a pátria é a pátria.
A pátria é o governo. E eu acho que o governo vai mudar.
-E daí? -Quanto antes nos pusermos a...
serviço do novo regime, melhor.
Temos que respeitar a ordem. É o que diz a lei.
Mas na revolução de 1854, nosso fundador, o Marquês de Ahumada foi...
deposto por defender o governo.
O comandante disse que não devemos nos meter em política.
E o 15 de maio de San lsidro?
Quem inventou o tabaco devia ser pendurado...
de cabeça para baixo.
Saúde e República. Dê-me as mãos.
Que vai fazer?
-Vai me soltar? -Parado aí!
Confie no seu sogro, idiota!
Não quero acabar num conselho de guerra!
Acabará fuzilado, se não baixar a arma.
Eu vou atirar, Sr. Juan!
Em mim? Vai atirar no avô dos seus filhos?
Se o soltar, abro fogo!
-Você não tem culhões. -Eu? Não tenho?
O filho da puta atirou!
Não atire! Não atire.
Está me ouvindo, Sr. Juan?
Sr. Juan!
Eu o matei...
Eu o matei!
E agora?
O que vou dizer à minha mulher?
Eu quero morrer...
Eu quero morrer!
Vou me matar...
Vou me matar!
Ele era um homem tão bom!
E por um impulso...
Sim, porque foi um impulso!
Estou cagando para a lei!
Cago pra quem estabeleceu a ordem pública...
ao Marquês de Ahumada... e à Virgem Santa!
Boa noite.
-Aqui tem putas, não? -Tem uma.
Mas ela é fogo.
-E quanto custa para dormir? -lsso eu não sei.
Tem que falar com a Polônia... lá em cima.
-Sessenta. -Passo.
Oitenta.
Com licença?
Que mania de subir a escada! Já disse que não os quero aqui.
É que me mandaram perguntar por Polônia.
Pode falar, meu filho.
-Quanto custa para passar a noite? -Para rapazes bonitos, duas moedas.
-Não pode deitar depois das 1 2:00. -Por quê?
Porque à essa hora começam a chegar os fregueses, panaca.
Que horas são?
-Vamosjogar ou não? -Já vou. Deve ser umas 9:00.
-Já jantou? -Não.
Bem, ainda tenho meio coelho no fogão.
Não deixarei minha sobrinha perder um rapaz assim.
Sente-se, bonitão.
Aonde você vai?
Dê um lugar ao rapaz.
-Frio, não? -No inverno é assim.
lsso não é sério. Se não respeita ojogo, que é sagrado...
-D. Luís, uma extrema-unção. -Bem, vamos lá.
-Um momento, um momento. E ojogo? -Lamento, mas você ouviu.
Eu, como alguazil, devo acompanhar D. Luís.
-D. Luís, o senhor num bordel? -Sim, senhor, exatamente. Aqui...
onde se peca, é o meu lugar. Por que trouxe esse panaca?
-Como é tão beato... -Quem está morrendo?
-Prudêncio. Levou um coice na cabeça. -Não somos nada, Dom Manolo.
E vemos que Deus existe. É só o padre estar ganhando e...
a Divina Providência lhe manda um viático para levar a grana.
-Uma extrema-unção. -E daí? Um viático, extrema...
Com o viático o moribundo tem a comunhão. Extrema-unção é ungir...
-com óleos santos. -Tome, filho, forre o estômago.
-Ele entende de lgreja... -E o melhor é que também sabejogar.
-Bem... mais ou menos. -Melhor para nós.
Vá. Coma isso logo e vamosjogar.
Caramba! O que é isso?
-O que você aprontou? -Nada... eu juro.
É que eu... desertei.
Eu estava em Cuatro Vientos. Abra a mala e verá.
Caramba, D. Cipriano de Valera.
-Você é protestante? -Não, senhor... Agnóstico.
Vamos lá, filho. É melhor vir para casa e eu lhe tiro isso.
E depois, volte para cá. Encarna espera por você.
Sinto o mesmo que o pobre cabo.
Essa história de disciplina é estupidez.
Por disciplina chega a se matar a própria mãe.
-É o que dizia o soldado. -Valente animal.
Assim são as coisas. Até que cantava bem o flamengo...
Eu tive três grandes frustrações na minha vida.
-Você se vira bem. -Mais ou menos.
Três frustrações me amargaram a vida. Está com bom aspecto.
O reitor do seminário gostava muito.
-Você era cozinheiro? -Quando se ganha uma bolsa é...
preciso se sujeitar um pouco. E eu me dava bem na cozinha.
Você falava das frustrações...
Ah, sim. A primeira é não ter nascido em terra de infiéis.
Como o batismo arruína pelo resto da vida...
-Por quê? -Os padres não dizem que o...
batismo imprime na alma um caráter indelével?
-Só estive 6 anos no seminário. -A segunda é: por causa...
dos pés me livrei do exército, não pude desertar. Vamos, beba.
É melhor se livrar logo desse uniforme e da corneta.
-Jogue-os no fogo. -Não posso.
Não vê que o comprometem?
Mas não são meus. Tenho que devolvê-los.
Uma decisão que o honra.
E como vai devolvê-los? Pelo correio?
Não. Quando vier a República. E sua terceira frustração?
Uma coisa terrível.
Como eu só tenho relações com a minha mulher...
não pude transgredir o casamento.
Viu só que paradoxo?
Como não pude me rebelar contra lgreja, exército e casamento...
que, fora os bancos, são as instituições mais reacionárias...
aqui estou eu, rebelde, infiel e libertino por natureza...
vivendo como um circunspecto burguês.
Mas esse é o melhor bacalhau que já provei na minha vida.
Entre. É melhor você dormir aqui que tem aquecedor.
Onde você quiser.
Vamos, pare com essa cerimônia.
Ponha mais um pouco de lenha no aquecedor.
Minha esposa.
Ela é demais.
Mas nós vamos dormirjuntos?
Se quiser dormir só vá para outro quarto.
Mas saiba que essa casa é uma geladeira.
Assim também pode ler algo para mim...
-Você é bicha? -Não... não sou bicha.
Já lhe expliquei que tirando minha mulher...
sou totalmente impotente.
Pode ser da idade...
Falo da insônia.
Vamos, leia algo da Bíblia para mim.
-Do Velho ou Novo Testamento? -Dá no mesmo, é para dormir.
Leia onde abrir, como fazem os ingleses.
''Porque o que acontece com os homens e com os animais...
é a mesma coisa, tanto uns, como os outros, morrem.''
O Eclesiastes... continue por aí.
''Assim morrem os outros, e todos têm a mesma respiração.
O homem não tem mais que o animal. É tudo vaidade.
Tudo vai ao mesmo lugar. Tudo é feito de pó, e ao pó voltará.
Quem sabe se o espírito dos homens sobe...
e o dos animais vai para baixo da terra?''
É aí que pega.
''Assim, não há coisa melhor para o homem...
do que se alegrar com o seu trabalho.
Pois quem o levará para ver o que há depois da morte?''
-Bom dia, D. Manolo. -Olá, Palomo.
-Que faz aqui o idiota do alcaide? -Espera a banda de Villabuena.
-Ela vem para o carnaval. -Que país, Fernando. Que país!
A Espanha numa nova era, e a cidade organiza carnavais.
Ó de casa!
-Bom dia, D. Manolo. -Olá, Jesusín.
Lamento que vá embora, Fernando.
-Esse dia chegaria. -Nesses dias não só...
comi como um padre, como tive com quem conversar.
Eu não me importaria que ficasse...
mas com minhas filhas aqui é diferente.
-Entende minha posição, não? -É claro.
Acho que como não tive filhos homens...
acabei sentindo grande afeto por você.
E eu por você.
-Quando tiver um endereço, mande-me. -Pode deixar.
-Chegou. -O meu ou de suas filhas?
Não sei. Agora veremos.
-Tome. -Não estou precisando.
Vamos lá, rapaz.
É o de Madri.
Aí estão!
Bem, mais uma vez... Saúde e República.
Boa sorte.
-Papai! -Clara!
-Violeta! -Como vai, papai?
Papai!... Mas como você está bonito!
Vocês é que estão lindas.
-Papai! -Luz, minha filha, um beijo.
-Sempre desleixado. -Não comece a implicar.
-Cheira a anis. -Que novidade.
Ela é igual à mãe. Vamos pegar as malas e ir para casa.
-E esse rapaz? -É um amigo. Vai para Madri.
Até logo, Fernando. Vamos, estou com a charrete aí.
O que deu em vocês para vir tão de repente?
Não está a par do que se passa? Em Madri ninguém pára: greves, tiros...
-Já o consertou? -Sim, só estava entupido.
Veja, pode pôr esse de mamãe.
Cansou da faxina? Deixe os vestidos e venha me ajudar. Não vou ao baile.
-Por quê? -Porque não danço com uma banda.
E os homens daqui são rudes.
Colocam um arado no baile puxado por 2 homens.
Papai nos contou, lembra?
-Falando em ruim... -Vá abrir, Luz.
Droga, sempre eu!
É o rapaz da estação?
Sim... é que eu perdi o trem... Manolo está?
Não, mas vai chegar logo. Suba por ali.
-Quem era, Luz? -Clara...
Este rapaz procura por papai.
Boa tarde. Eu não queria incomodar...
Não é incômodo... Entre, entre.
Como amanhã é domingo de carnaval...
É ele que estava na estação com papai. Perdeu o trem.
Fui até a vila, mas lá não tem acomodações.
E como morei um tempo aqui com Manolo, eu me disse:
''Acho melhor eu...''
Não, eu servia no aeródromo de Cuatro Vientos.
Mesmo com Galán e García Hernández fuzilados...
a revolta continuou e de madrugada. O rádio disse:
''Proclamada a República em Madri. Toquem Diana.'' Era o corneteiro...
-toquei. -Toque!
-Não ligue. Continue. -Aviões subiram pra chegar a Madri.
Lá não havia nem greve geral. E Ramón Franco, que devia...
bombardear o Palácio Real, nãojogou as bombas, havia crianças na praça.
-Anjinhos! -Quando você escapou?
Quando os soldados entraram em Cuatro Vientos. Nossos chefes...
fugiram para Portugal. Vesti-me à paisana, peguei a mala e fugi.
-Para onde foi? -Fui para a montanha.
Vaguei mais de um mês por lá.
-E o que comia? -O que encontrava.
Sobretudo couve... muita couve.
-Das hortas, é claro. E dormir? -Onde dava.
Nas igrejas. Escondia-me num canto...
deitava num banco e me aquecia com as velas.
-Onde ia quando o pegaram? -Para La Coruña.
-La Coruña? -Queria ir para a América.
-Por sorte, encontrou papai. -Vamos, toque um pouco.
Acha que um corneteiro é um saxofonista?
-Não vê que está comendo? -Ora, por mim...
-Preferem a Diana ou a Floreada? -Então, eu disse a Unamuno:
''Não, D. Miguel, nisso você está equivocado.''
Você sabe como ele é, não? lmagine como ficou...
Posso imaginar. Há quanto tempo não lhe escreve?
Que é isso?
Esse, querido Luís, é o seminarista que...
não tomou o trem e veio aqui ter com minhas filhas.
Que malandro!
-Divina. -E tão alegre!
-Que lindo! -E que pulmões!
-Boa noite. -Veja quem está aqui, papai.
-Você perdeu o trem, certo? -Como vai, Dom Luís?
Não tão bem como vocês, que estão cada dia mais lindas.
-E esse delicioso cheiro? -Nada, esse moço...
-Fernando, cozinha estupendamente. -Sim, eu já estou sabendo.
Saúde e República, filho. Ainda bem que não se foi.
-Que é isso? -Frango com ervas.
Fui à vila, e como não havia acomodações...
Podia ter ido à casa de Polônia.
Que está dizendo, pai? Naquele antro?
Não me ocorreu.
Lá tem a Encarna que deve estar esperando por você.
Aqui, mamãe.
Estão preparados?
Um, dois...
Parece que essa é uma noite musical.
Oh, sim, é o professor.
-Entraram. -Clara, espere!
-Diga! -Não vai abrir? Vim com a mamãe.
Este rapaz está cada dia pior da cabeça.
Acontece com os professores de tanto lidar com crianças.
Como está, sra. Asun?
Mal, minha filha. A Guarda Civil começou a se suicidar.
E aos pares! São tempos ruins para as pessoas decentes.
Mas você não estava de luto?
O luto se traz no coração, sra. Asun.
Eu não falo com o senhor. Viva Cristo Rei!
Viva... Viva!
Não sei como recebem um padre que é a vergonha da lgreja.
-E esse jovem? -É um primo nosso.
Muito atraente. E agora?
-A pulseira, mamãe. -Já a tirou?
-Então, entregue-a. -Não, mamãe!
A etiqueta manda que você fale antes.
Bem, eu preferia ter me ligado a uma família carlista.
Mas é melhor uma republicana, que uma seguidora dos Borbones.
Vá direto ao assunto.
Como Juanito é filho único, e atendo todos seus caprichos, aqui estamos.
-Luz! -Luz.
Sim, já sei... a porta!
-D. Manolo, dê-me um copo. -Continue.
Quando ele soube que suas filhas chegaram, arrumou-se...
todo e me disse: ''Vamos aproveitar que ela está aqui e ir...
à casa de Manolo e pedir a mão dela.''
-A mão de quem? -Da minha noiva, é claro.
-Mas não nos disse nada... -E o que ia dizer?
Com essa pulseira pediram minha avó, minha mãe e a mim.
Ele lhe disse que quando casarem irei morar com vocês?
Já chega, mamãe. Você gosta?
-Sim, é muito bonita. -Mas você quer se casar com ele?
Bem, eu não sei.
Vejamos, quando falamos de casamento?
-Eu lhe escrevi uma poesia! -Então, você não quer?
Obrigada, querida!
Venha para casa, estará melhor com sua mãe.
-Mamãe, espere... -A culpa não é minha, é da luxúria...
-que o tem cegado. -Queimaram a igreja.
D. Luís, o sacristão ficou louco. Ele queimou a igreja!
Merda! Onde está minha boina?
-O que deu nele? -É o exemplo desse padre.
-Deve tê-lo instigado! -Não enche o saco.
Não quis lhe dar aumento e como ele agora é anarquista...
-Vamos, Juanito. -Onde?
À igreja protestar.
Diga que somos noivos e como nos apaixonamos pegando caranguejos.
-Cuidado, há um degrau quebrado. -Sim, já o vi.
Você ficará bem aqui.
Veja, são feitos com folhas. Verá como são macios.
Dê-me os lençóis.
Viu só aquele tonto?
-Não há nada entre vocês? -Só uma boa amizade.
Bem, no último verão, balançamos um pouco. Mas foi só isso.
Sim.
O verão aqui é divertido. Se tivesse vindo no verão...
-seria outra coisa. -Por quê?
A gente vem todos os anos.
-E o que fazem? -Muitas coisas.
Fazemos excursões, piqueniques, tomamos banho no rio...
E pegam caranguejos.
Eu juro que não houve nada entre Juanito e eu.
Como ele é o mais rico daqui, acha que todas o queremos.
Dê-me o aquecedor.
Vai ficar bem quentinho.
-O que quer no café da manhã? -Sou eu que vou prepará-lo.
É verdade. Porque nós na cozinha...
-Papai deve ter dito. -Sim.
-O que vai fazer? -Como?
Quero dizer, no café.
-Você gosta de torradas? -Sim.
O que mais?
Se eu vier no verão, iremos ao rio?
Pegar caranguejos?
Se você quiser...
O que está fazendo? Está louco? Até amanhã, até amanhã...
Ah, ia esquecendo... Tome, assim não terá que descer.
Ai! O aquecedor! Não... não...
Não... não faça isso...
-Rocío, o que foi isso? -Nada.
Nada, já vou. Já estou indo, papai!
Disse que era bom passar o verão aqui. Talvez ele venha no próximo.
-Pegar caranguejos, claro. -Será que ele não pode vir...
-tomar um banho no rio? -Coitadinho!
-Quem, Fernando? -Não, Higinio.
Que seu marido tem a ver com a conversa?
-Ora, como Higinio se afogou no rio. -Sim, claro.
-Cada vez que me lembro... -Então, não se lembre!
Ai! Aquele dia a paella ficou tão boa! Lembram-se?
Tinha uma mão pro arroz!
-Sim, dojeito que era guloso... -lsso é verdade.
Devia ter feito um filho em vez de tanta paella!
Continue.
Aproveitou que estava distraída com os lençóis e me deu um beijo.
-Elejá estava nu? -Ouviu só essa menina?
Menina, nada. Só porque sou virgem devo ser idiota?
-Luz, por favor! -Ele tentou beijá-la e você correu.
Tonta. Um rapaz bonito como Fernando!
É como se fosse feio. Não vamos ter um desgosto.
Claro que não.
''Os assinantes colocam-se a seu serviço...
de forma supra-partidária, com o intuito de colaborar...
propondo-se a promover uma ampla unificação...
-a serviço da República.'' -E quem assinou?
José Ortega y Gasset, Gregorio Maranón e Ramón Perez Ayala...
-Quase ninguém! -E Dom Miguel?
Dom Miguel não. Não estou vendo.
Mas tanto faz. O rei aceitou a demissão de Berenguer...
-e recebeu Romanones. -Papai, já estamos aqui.
-Vamos, Fernando. -Até logo, Dom Luís.
Vejamos o que acontece com esse Romanones.
Se nem Unamuno assinou...
-Olá, Fernando. -Olá.
-Papai? -O padre tem bronca de Dom Miguel.
Ele não entende que Unamuno é um poeta, não um pensador.
-Papai. -Diga, querida.
Deixa-me ir ao baile?
-Claro que sim. -Está vendo?
Ficou grande para mim.
-Que faz? -Escolho fantasias pro carnaval.
-O que você vai usar? -Eu? Nada. Não pretendo ir.
-Como assim? Precisa se divertir. -Bem, não sei...
-Não tenho fantasia. -Acho que essa lhe ficará bem.
Não vou entrar assim, tenho vergonha.
-Você está ótimo. -Não seja tonto.
Vocês vão na frente, eu irei em seguida.
Você é mesmo um desastre.
Faça assim.
Está bonito.
Rocío...
Você está lindo. Que fantasia é essa?
-É o uniforme do meu avô. -Fica bem em você.
-Já sei, por isso o pus. Rocío... -Não quero dançar.
-Nem eu. Tome, suas cartas e fotos. -O que significa isso?
-Você ouviu só? E a noite passada? -Não tenho culpa...
-da sua mãe estar caduca. -Não fale da minha mãe!
Olhe...
''Querido Juanito, adorei sua sua poesia.'' Assinada por você.
-Sabia que queria me casar! -Pedir mão não é pedir 1 kg de filé.
Não tenho razão?
-Devolva a pulseira da mamãe. -Não, a pulseira não devolvo.
Como assim, não devolve?
Venha cá. Você é um bobinho. Não somos noivos oficialmente?
-Eu sim, você não! -Eu também, bobo.
As coisas precisam de um tempo, entende?
Traga dois refrescos e vamos conversar.
-Refrescos? -Sim, e bem gelados.
-Tenho pena dele. -Por quê?
Você o trata tão mal.
-Que posso fazer se ele é um panaca? -Bem, isso é verdade.
Com Romanones no governo, estou tranqüilo.
Essa história de República vai acabar.
Claro.
E você continua emprestando dinheiro ajuros de 50°/º.
Melhor eu do que um bandido como o sacristão.
-Que há de mal no novo governo? -O que há de mal? Nada!
Magnífico gabinete.
Ministro de Estado: Romanones...
Conselheiro do Banco Espanhol de Crédito...
E o que você quer?
Que suba ao poder um grupo de revolucionários?
Alcalá Zamora vai à missa e se comunga todos os dias?
Ora, vai cagar.
-Você não sente inveja? -De quem?
Dos dois.
Sim, eu sinto inveja.
Os refrescos... Eu a perdôo.
-Vamos dançar. -Não.
-Não disse que me perdoa? -Tango foi condenado pela lgreja.
-Não me diga! -Sim, Pio X o proibiu.
O Papa não entende disso.
O Papa sabe de tudo. Por isso é infalível.
Que vergonha!
-O que há? -Não quero mais dançar.
-Está só, pombinha? -Deixe-me em paz!
Pare com essa encenação, menina.
Vamos!
Espere, perdi o sapato.
-Comportou-se como um tio. -É o que sou.
Quieta.
Vamos lá, suba.
-Aqui? -Suba.
-E agora? -O que você acha?
Assim não, ponha a língua.
Ponha a língua... e sopre.
Força, sopre!
É um babaca. A noite passada não quis dançar nem um tango.
É a influência da mãe. Afinal, você o quer ou não?
Acho que sim. Ele se faz querer. Daí a gostar, tem chão.
Para se casar o importante é gostar, não?
lsso é na teoria. Acha que gostava dos pêlos e orelhas de Higinio?
-Bem, e daí? -Com o tempo me acostumei.
-E agora me faz muita falta. -Porque não vê os pêlos.
-Também teria pena de Juanito. -Nós não podemos ficar sem homem.
-Ainda mais à noite. -Oh, nem me diga.
-Nem mesmo Violeta. -O que está dizendo?
-Promete não contar a ninguém? -Prometo. O que foi?
Violeta...
Oi, Fernando!
-Oi. Você viu Violeta? -Não.
-Veja. -O que é?
Um lençol... Sabe o que vamos fazer com ele?
-Não faço idéia. -Então, venha ver.
-Onde? -No estúdio, vai gostar.
-Que estúdio? -De papai.
Não contou que é pintor?
Faz anos que eu não entrava aqui.
Parei no dia que compreendi que a pintura havia acabado.
Pra quê continuar se nada mais havia a fazer?
E optei pelo respeito à tela.
Minha última obra.
-Mamãe diz que ele é vadio. -Talvez tenha razão.
Sempre foi trabalhadeira. Um russo o copiou de mim. Chama-se Malevitch.
Mas eu o fiz um ano antes. Veja a data.
Manolo...
-Tenho que lhe dizer algo. -Fale.
Bem, eu... estou apaixonado.
Sim, eu sabia.
Por isso pedi que partisse quando elas chegaram.
Agora, com certeza, ganho um genro e perco um amigo.
-Sempre serei seu amigo. -Não se iluda.
Bem, e quem é a felizarda?
-Rocío, certo? -Não.
Violeta.
Violeta?
Se você for à vila, compre-me fósforos.
Compre você, sua fresca! Você é uma fresca!
-O que há com ela? -O que você acha?
Ela tinha suas ilusões.
-Não, estou em jejum. -Beba, você vai precisar.
lsso mais parece uma novela!
lsto é, esse amor é impossível.
Por quê?
Porque Violeta...
Bem, vejamos... Você contou a ela?
Contar?
Dizer o quê, depois do que houve a noite passada?
Não me diga...
Então, aconteceu uma trepada?
Milagre!
lsso é um milagre!
Violeta!
Violeta... minha filha... um beijo... um beijo!
-Por que isso? -Um beijo, filha.
Eu quero um neto homem. Estou cheio de tantas mulheres na família.
Você é um imbecil ou o quê... Por que foi lhe contar?
-Não podia enganar seu pai. -A noite passada não significou nada.
-Entendeu? Saia da minha frente! -O que há com ela?
-Eu quero me casar! -Como pode se casar com um homem?
Algum problema?
Como fui idiota.
Vamos, não fique assim. A culpa foi da minha mãe.
Quando Violeta nasceu, queria um filho.
E o enxoval era todo azul. A mania de querer um casal.
E sempre a vestiu como menino.
Mas, Manolo... seu pai não dizia nada?
Não. Ele estava obcecado pela pintura.
Mas foi o confessionário que influenciou muito Violeta.
-Vocês não são atéias? -Sim, mas fizemos a primeira...
comunhão. Só porque mamãe adorava nos vestir como bonecas.
Mas Violeta fez a comunhão vestida de marinheiro.
-Que houve no confessionário? -Como Violeta...
se confessava do lado dos homens, o padre lhe falava dos...
-atos impuros como se fosse homem. -Posso imaginar.
É por isso que... Juanito e sua mãe.
-Que houve? -Juanito quer que prove o vestido...
-de noiva da mãe. -Precisa ajustar.
No vestido não se mexe. E não o sujem.
-Mas eles vão se casar? -Juanito é um bom partido.
Bem. Coloque-as no pão, vou ver o que está se passando.
Está bem. Obrigado por tudo.
E lembre-se de dar a Bíblia ao seu pai.
Foi um bispo, tio meu, que me casou. O coitadojá morreu.
Tem tio bispo? Um cardeal seria melhor.
Não, não tenho.
-Juanito pode entrar? -Não.
Mas é o noivo. Que vestido lindo. E lhe cai muito bem.
-Está linda. -Mas não tem tio bispo.
Com um padre é casamento de pobre.
O importante é o sacramento. Não é, amor?
Concordo. Mas um bispo é melhor que um padre.
Já lhe falou da lua-de-mel?
Mamãe diz que devemos ir a Roma. Que acha?
Ficará encantada de ver o Papa e as catacumbas.
-Na verdade, eu... -Podemos ir a Paris.
Não, falo do casamento. Preferia esperar pela República.
Não? Porque quando vier a República haverá...
-divórcio, e poderemos divorciar. -Meu filho, divorciado? Jamais!
Tire esse vestido. Devolva-o. Mulher infame.
Não, mãe.
Com todo o prazer. Com todo o prazer.
Cuidado, por favor, senhora.
Sabe o que faz com essa merda? Enfie no rabo!
-Rocío, por favor... -E o véu também.
-Vou arrancar sua língua! -Calma.
Solte-me, maldita!
-Não se preocupe, amanhã estará bem. -Vá embora! Nunca mais quero vê-lo.
-Mas não lhe fiz nada, foi ela. -Saiam daqui!
Oh, Fernando, eu sou uma infeliz!
Não chore.
Você é que é legal.
A porta...
Esqueça a porta... Venha cá, canalha!
Você é um canalha!
-O que foi isso? -O vento. Continue.
E eu, como uma tonta, fazendo omelete pra ele.
O que foi? Não gostou?
É claro que gostei.
Mas como vou contar ao seu pai?
O quê?
Que eu amo você.
-E o que importa a ele? -Se não contar, abuso de sua...
-confiança, certo? -E se contar, abusa da minha.
-Não entendo você. -E Juanito?
Mas... então... você o quer?
Não é bem isso...
O que está fazendo? Onde vai?
Para Madri!
Já leu ''A Montanha Mágica?''
Esse livro explica muito bem a coisa.
''Oh, encantadora beleza orgânica...
que não é pintada, e nem de pedra...
e sim de matéria viva e corruptível.
Veja os ombros e os quadris...
os seios floridos de ambos os lados do peito...
as costelas emparelhadas...
o umbigo no delicado ventre...
e o sexo escondido entre as coxas.
Deixe-me sentir a exalação de seus poros e apalpar sua pele...
imagem humana de água e albumina...
destinada à anatomia da tumba...
e deixe-me morrer com meus lábios colocados nos seus!''
Quejuventude! Eia, Lucero!
Dom Luís!
-Por que a pressa? -Eu preciso lhe falar.
-O que devo fazer para renegar? -Renegar? Renegar o quê?
-A religião católica. Farei tudo. -Renegar, você?
Mas acaba de se benzer!
E o que faço agora? Cuspo em você? Canto o ''Hino de Riego''?
Se os padres soubessem a vida que vão levar...
Sairiam do claustro gritando: liberdade, liberdade!
Eu não agüento mais minha mãe! Quero ser livre... Livre!
Sua mãe não é fácil, Juanito. Bem, o que está havendo?
Quer que seja padre, falou com o bispo. Eu quero casar!
Não é má idéia. E para isso é preciso renegar a igreja?
Assim minha mãe me repudia e eu me caso com Rocío.
Bem, visto desse modo... mas negar a fé cristã não é brincadeira.
E ser padre? Sabe o que é voto de castidade?
-Nada de gozação, Juanito. -Desculpe.
-Você acredita no inferno? -Eu sim, mas ele não!
Eu farei o que mandar e o senhor me dá o certificado.
-Que certificado? -De que reneguei a lgreja Católica.
Mostro a Rocío, ela verá que rompi com minha mãe para sempre...
me perdoa e se casa comigo, entendeu?
Deve ser hora de comer, não? Ótimo, vamos lá.
-Mas não vai fazê-lo na sacristia? -Cale-se e venha comigo.
Ei, ajude-me a subir no cavalo.
-Onde vamos? -Comer.
-E o certificado? -O certificado será oral.
-Boa tarde. -Boa tarde.
-A igreja e o capital semprejuntos! -Ouça o padre, Rocío.
Rocío, eu lhe comunico que esse homem renegou a lgreja...
e acaba de ser excomungado. O que temos hoje, Fernandito?
Minha nossa... cozido!
-Que baboseira é essa? -Explique você.
Fui excomungado por amor a você. Vou pro inferno...
Não me toque! E vá com sua mãe que é o que você gosta!
Mas não entende? Por sua causa, eu reneguei...
-Espere, deixe-me explicar... -O que houve?
Nada. É que Juanito ficou de saco cheio...
Perdão... e virou ateu para se livrar dojugo materno.
-Oh, isso é próprio dos carlistas. -lsso é sério?
Tem um pouco de sopa? Cozido sem sopa...
-Já vou trazer. -Como vou formalizar um...
disparate dessa natureza? De qualquer modo...
assim que a mãe dele souber disso...
Vai matá-lo, com certeza.
lsso é o de menos. Pior se o deserdar.
Não devem rir de Juanito. lsso que ele fez, convenhamos...
nem em novelas de amor.
Não entende? Minha mãe não apita mais! A lua-de-mel será em Paris.
-E viveremos em Madri? -Como você quiser.
Não quero passar a vida neste vilarejo.
No verão, iremos a San Sebastián tomar banho de mar!
-Não fique assim, homem. -O quê?
Chupando o dedo.
Ainda está aí se torturando?
Rocío não tem o direito de escolher seu marido?
-Ela não o quer. -Claro que sim. A seu modo...
mas o quer. E ela precisa. Não é o caso de Violeta.
-Claro que não! -Não!
Quero dizer que ela, como veterinária, tem emprego.
Não precisa de ninguém. Mas Rocío, sem profissão...
o que vai fazer? Ser eternamente dependente?
-Ela disse que é datilógrafa. -Coitada... não.
Ela me ajuda na loja que meu marido me deixou. Ele era...
-Por que me trouxe aqui? -Eu?
Desculpe, acho que fui eu mesma.
Não, tampouco eu... foram meus pés.
Foi aí que o pobrezinho se afogou.
Seu marido?
No último verão. Viemos fazer um piquenique.
Eu insisti para que entrasse na água depois de comer.
Acho que ele teve uma congestão e...
Eu o estou vendo.
Estava aí mesmo.
E, de repente, afundou. E nada... ele não saía.
Eu achei que ele estivesse brincando!
E me deixou só... sozinha para sempre!
Bem, você tem seu pai, suas irmãs...
Mas, Fernando...
Um marido é um marido!
Sim, eu compreendo. Mas pode se casar de novo.
Tãojovem...
Tão atraente...
Tão bonita...
Clara, desde que a vi...
-Não! Sou uma mulher decente. -Sim, é claro...
-Está louco? -Eu a consolo.
Aqui no rio, não!
Oh, meu Deus! Fernando!
-Socorro! -O que faço agora?
-Uma corda! -Onde vou achar uma corda?
-Estou me afogando! -Não, você não. Fernando!
Aí está, segure!
Agarre firme!
Por favor, segure! Eu sinto muito!
Dê-me a mão... não se solte.
Dê-me a mão.
Eu bebi muita água.
Oh, perdoe-me! Dê-me um beijo.
Foi culpa minha... Está melhor? Diga que sim.
Eu estou bem.
-Venha cá! -Não, aqui no rio não. Oh, meu Deus!
Oh, Fernando... sim...
Antro de sem-vergonhas!
-De onde veio? -Circula por Madri.
O melhor é o final.
''Sua Excelência deve fazer com que o triunfo monárquico...
espelhe a opinião pública.''
-Que papel é esse? -Telegrama do ministro.
-Preparam fraude nas eleições. -Não é possível!
-Vá com eles. -Onde?
-Ao comício de Villabuena. -Não sou republicano.
-Vá como ateu! -Se tudo isso foi uma farsa...
Não... eu vou. lrei onde precisar.
Esperem, vou com vocês!
Adeus, Rocío!
Ei, esperem! Ajudem aqui!
-O que houve? -Fernando caiu na água.
-Onde? -No rio, onde mais?
E para quê foram ao rio?
-Por que foram lá? -Fomos dar um passeio.
O pior é o resfriado que ele pegou.
-lsso é uma pneumonia. -Como aconteceu?
Oh, quantas perguntas! É tão raro alguém cair na água?
-Eu sinto calafrios... -Está com febre alta.
-Tire essa roupa e deite. -É o que farei.
-E cubra-se bem. -Não seria melhor...
-tomar um banho quente antes? -Chamamos um médico.
-Basta leite quente com conhaque. -Não temos conhaque.
-Dê-lhe anis. -Não serve. Preparei o aquecedor.
-Garrafas com água quente. -Sim, para os pés!
-Que tal eucalipto? -O importante é ele suar bastante.
Você também caiu?
Não, eu me molhei quando o tirei do rio.
Que coincidência. Ele caiu bem onde Higinio se afogou.
-Que sufoco eu passei. -Luz, traga o anis.
Não vão acreditar.
Ele tentou me beijar e fui obrigada a empurrá-lo...
Não sei o que deu em mim. Lembrava de Higinio e Fernando me beijava.
Fernando teria gostado de ir ao comício.
-Dê-me aqui. -Estão disfarçando.
Mandaram-me buscar o anis para eu não ouvir.
-Do que acha que falávamos? -De Fernando, é claro.
Quando cheguei, pararam.
Está melhor?
Estou com pneumonia.
Não seja chorão. Tome o leite e as aspirinas para suar.
-Antes é melhor o eucalipto. -Vou colocar as garrafas.
-Os pés estão gelados! -Ele continua quente. Sente-se aqui.
Sente-se aqui e respire fundo e verá que alívio.
-Não, isso lembra a água que bebi. -Dê-lhe o leite e as aspirinas.
Agora é só suar.
Continuam gelados.
Não se preocupe, já vão esquentar.
Muito obrigado.
-Vocês são muito boas. -Vamos deixá-lo descansar.
-Estimo melhoras. -Não se descubra.
-Saúde e República! -Saúde!
-Abaixo o clero! -Enfio-lhe um par de hóstias!
Amanhã vou queimar sua igreja de novo para que aprenda...
-Bem, até amanhã. -Como assim?
-Não vai para casa? -Renego a religião, vou ao comício...
republicano, grito: ''Abaixo o Clero.'' Vou para casa, beijo a mãe e rezo:
''Que os anjinhos da guarda me protejam.'' Não. Vou ficar aqui.
-Onde vai dormir? -No sofá do salão.
-Sou eu, amor. -O que faz aqui?
-Vai acordar Luz... -Que quer?
Sinta como estão quentes.
Não faz mal que não nos casemos.
-Com a República virá o amor livre. -O amor livre?
Ouvi no comício. Pergunte a seu pai.
-O que faz? -O que está acontecendo?
Esse abusado quer o amor livre.
Você é um porco. Por isso tornou-se republicano, não?
Deixe-me explicar...
Abra, Rocío.
Nós terminamos para sempre, entendeu? Para sempre!
Eu me retrato.
Não renego mais.
Católico, apostólico e romano!
Nada de republicano! Sou carlista até a morte!
Você viu só? Enfiando-se na cama como um fantasma.
-Você não vai casar com ele? -Está louca? Com esse cara...
Que todo mundo fique sabendo!
Eu me retrato! Por Deus, a pátria e o rei,
morreram nossos pais... Por Deus, a pátria e o rei...
-morreremos também! -Morre de uma vez, idiota!
Custe o que custar, há de se conseguir...
que entre o rei D. Carlos pelas portas de Madri!
Até que enfim!
-Onde você vai? -Beber água.
Não... no rio, não...
No rio, não...
Não sei nadar...
Clara... Clara, Clara. No rio, não...
Fique calmo.
No rio, não... No rio, não...
No palheiro...
Eu a quero, Violeta...
Quero casar com Rocío...
Rocío...
Clara...
Violeta...
E eu?
Não, água não!
Amália!
Mamãe!
Mamãe.
-Mamãe! -Mamãe.
Mamãe!
Viu só, Danglard? Cada vez mais bonitas!
Amália!
Manolo! Manolo!
A zarzuela morreu?
Diga você, amor, como a América caiu aos meus pés.
-Conte. -lndescritíveis sucessos em...
Buenos Aires, Montevidéu... Santiago do Chile...
Rio de Janeiro, Caracas...
No México queriam me carregar nos ombros.
-Eu não deixei, naturalmente. -Para não parar o trânsito, imagino.
-Não fale assim, papai. -Não, ele tem razão.
-Você é mesmo um Otelo. -Sim, e me orgulho disso.
-E faz muito bem. -Vai contar ou não?
Teatros repletos, contratos prorrogados, toneladas de flores...
-Ganhou muito dinheiro? -lsso é com ele. Eu sou uma artista.
Gastos enormes. Deliciosas essas rabanadas!
Ótimas. Quando aprenderam a cozinhar?
-Essas rabanadas? -Fernando as preparou.
-Era cozinheiro no seminário. -Bonito, educado, bem disposto...
Umajóia de rapaz.
Já era hora de ter um amigo assim.
Espero que não esteja bebendo.
-Não, senhora. -Ótimo.
Agora, vou descansar. A viagem me cansou bastante.
-Até logo, meu amor. -Eu vou ficar com Manolo.
-E os presentes? -Assim que abrir as malas.
-Sua filha é uma egoísta. -É a idade.
-Um beijo, Violeta. -Bom descanso, mamãe.
-Coitadinha, tãojovem e... -Eu estou muito bem, mamãe.
Não sei, não. Dê-me ouvidos, precisa partir pra outra.
Muito obrigada pelo desjejum. Estava ótimo.
-Você vem? -Não, você não.
-E eu? -Aproveite pra dar uma volta...
tomar um pouco de ar e desfrutar a natureza.
Não é justo... não é justo!
-Sr. Danglard, não fique assim. -Já sabia que iria acontecer.
Quer um anis?
-Por que chora? -Não vê que é o amante de mamãe?
Não vá, sr. Danglard. Será pior.
Oh, que pressa!
Espere...
Não posso... Faz quase um ano que espero por você.
-Amália! -Oh, meu Deus, que cruz!
O que foi?
Acho que seria melhor você e eu descansarmosjuntos.
Não. E se continuar com isso, voltarei para Manolo.
-Não, isso não! -Calma, isso é coisa rápida.
Por que se tortura, se o nosso amor é para sempre?
-Verdade? -Juro... mas agora, vá embora.
Mas não demore.
Tenho pena dele.
Sim, eu o compreendo. Mas ele também tem que me entender.
-Tem certeza que vai conseguir? -Se vou conseguir?
-Consigo ou não? -Que barbaridade! E na sua idade!
-Quem é? -O empresário da mamãe.
-Oh, apresente-me. -Deixe disso e ajude-nos.
-Depois você me apresenta. -Saiba que não o perdoei.
Está aqui para que mamãe não saiba que acabamos. Certo?
-Não se preocupe. -E não me beije.
-Ei, Danglard! -Disse que seria rápido.
Quatro horas e quarenta e sete minutos!
-Você cronometrou? -Você não é um cavalheiro.
Não podia fazer isso comigo!
-Você me deve uma explicação. -E vou lhe dar.
Mas, quando?
A pobre Amália está exausta. Deixe-a dormir um pouco.
E o diz com essa felicidade? Seu pai não tem vergonha!
Sim, sr. Danglard. Papai, a República triunfou!
-Está confirmado? -São notícias de Madri!
-Todos vibram! -Vamos até a vila comemorar!
-E tragam a bandeira. -Sim.
Não me importa a República! Eu quero uma explicação.
-Que explicação você quer? -E ainda pergunta? A mim...
que gasto minha fortuna para que ela seja feliz e possa cantar?
-Então, o giro pela América... -Oh! Um desastre.
Por que não a proíbe de uma vez por todas?
-O quê? -A puta da zarzuela!
Um prejuízo enorme.
E o pior é que quando o dinheiro acabar, sua mulher me deixará.
Não, isso não... Amália o ama de verdade.
-Você acha? -Ela mejurou.
-Então, por que ela me...? -Ora, Danglard...
se não estivesse cego de paixão perceberia que o cornudo sou eu.
-Você? -É claro!
Sim, tem razão.
Tirando você, Amália não me enganou com ninguém.
Vá dar um jeito naquela santa. E saiba que não a merece.
O rei não tem coroa, a que tem é de papel
Aquela de ouro, ficou com Berenguer!
Com a conversa do amor livre queria ir pra cama comigo!
Fez bem. Porque os homens, mesmo aqueles como Juanito...
depois que tiram a virgindade da mulher, somem.
-Você sabe... -Claro, mamãe.
E você, Violeta, que me conta?
Com licença?
Mas que carrapato! O que há agora?
Nada. Só quero que saiba que estou aqui.
Muito bem, já sei.
Agora, quero ficar só com minhas filhas.
Claro. Masjá sabe que estou aqui.
Se eu topasse com um homem como Danglard, até pensaria.
Só falta pôr uma coleira nele, mãe.
Gostaria de ter posto no seu pai. Não, filha. O casamento seria...
fatal pra você. que não nasceu para aturar esses egoístas.
Porque todos o são. Precisa de uma garota que...
a entenda e que saiba cuidar da casa.
E você? Será que não entra nenhum homem na sua vida?
Eu acho que entra!
Só velhos. Não sei porque só os idosos têm dinheiro...
E o que vai fazer? Não percebe que não terá esse corpo para sempre?
E você, minha princesa? Vou enchê-la de beijos!
Ninguém liga pra mim. Além do mais, elas são aproveitadoras.
-Ainda não percebeu? -O quê?
-Não se atreva! -Ela está apaixonada.
-Cale-se! -Por quem?
Vai se arrepender!
Por Fernando, é claro.
O cozinheiro?
Está boa?
-Você gosta? -Sim.
-Bem melhor que a de Higinio. -Tenha um pouco mais de delicadeza.
-Viu, mamãe? Sempre me dando bronca. -O que foi?
Ela disse isso porque o marido de Clara...
Oh, bem... issojá não... Deixe-me experimentar.
Que delícia! O pobre Higinio nunca acertava no açafrão.
-O que deu nela? Está furiosa. -Vai passar. Ela é muito mimada.
Aqui estão os ingredientes da salada.
-E Violeta, conseguiu caçar? -Ela ainda não voltou.
Manolo, eu trouxe a mamãe, que se tornou republicana. Veja!
Contanto que Borbón se vá. O vermelho e o amarelo fiz...
com morango e limão, o roxo com beterraba.
-Obrigado, em nome da República! -República? Aqui vem o comunismo.
-Oh! Não diga isso! -É a verdade. Mas pego tudo...
-e volto para Paris. -Olha...
Assim me apresento em Nova lorque, que é o meu sonho.
Com trajes e decoração novos...
e uma orquestra de pelo menos noventa músicos.
Mas isso é terrivelmente caro!
Não se preocupe. Vai recuperar tudo quando perceberem que a...
Broadway não é nada comparada com a zarzuela.
Dona Amália é cantora de cabaré?
Deixe-me!
O que lhe fiz? Eu me preocupo com você...
-Luz... -Você é um porco!
Por quê?
-Sempre dá razão a elas! -A quem?
A Rocío, Clara e Violeta! Como não gosta de mim...
-Não gosto? -Não!
Gosto de você desde que a vi na estação.
Então, porque vive atrás delas? Ou pensa que sou cega?
-Bem, isso é diferente... -Ah, é? Pois fique com elas.
Deixe-me!
Vê se me escuta, não vê que é a você que eu quero?
-A mim? -Sim, a você... estúpida!
-Então... -O que está havendo?
Minha pobre menina!
-Que estão olhando? -Que belo casal eles formam.
Ah! O primeiro amor! Tão puro, tão casto, tão espiritual.
Espiritual, hein?
Oh, Jesus, Maria e José... O seminarista vai desvirginá-la!
Esse seminarista...
-Que vai fazer? -Só quero assustá-los.
E agora...
vamos casá-los!
Mas, Luz...
Preciso ter certeza.
-Certeza de quê? -De que você me quer.
-Mas você já sabe. -Sim.
Não quero que aconteça comigo o mesmo que com elas.
-Com quem? -Com minhas irmãs.
Com você é diferente.
É disso que quero estar certa.
E se depois não me quiser...
está em tempo de ir embora.
E nada direi do que fizemos.
Luz...
Mas antes quero que faça comigo o que fez com elas.
Manolo?
-Manolo! -O que foi?
Uma desgraça! Uma desgraça.
-O que aconteceu? -Dom Luís...
Castigo de Deus, Dom Manolo!
Que barbaridade!
Por que fez isso, se gostava tanto de comer?
''Quem tira a vida... perde o medo da morte.''
Acho que é Shakespeare.
Vamos, depressa!
-Que tal estou? -Divina.
Oh, Jesus, Maria e José!
-Que faremos agora? -Não se preocupe.
Vejam, como a Espanhajá é uma República...
vocês podem se considerar casados.
E você, Juanito, avise o juiz para que venham buscá-lo.
Manolo tem razão.
Se o casamento atrasar, perderemos o navio...
Nem pensar. Tenho que me apresentar em Buenos Aires.
Mas não cantarei a ''Ave Maria''. Eu tinha a ilusão...
Podem se beijar, e providenciem o meu primeiro neto.
-Depressa, vai partir! -Um beijo, papai.
-Escreva, mamãe. -Fique tranqüila.
-E vê se se casa... -Sim, mamãe.
Bem, que vocês sejam muito felizes.
Muito felizes!
Cuide bem dela, ou vai saber o que é um cunhado.
Lembre-se, sou o padrinho do primeiro filho.
O trem vai partir.
Muito amor e sofrimento ainda estão por vir.
Você é um grande patife.
Partir é morrer um pouco, dizia o poeta.
Pois eu acho o contrário. Aquele que morre é quem fica.
Não seja ridículo. Vamos, me dê um beijo.
Façam boa viagem. Um abraço, Danglard.
Quantos quiser, amigo.
Um beijo.
Dá uma pena ir embora. Não é, Fernando?
Então, não vão. Fiquem.
É o futuro do Fernando.
Vocês fazem bem. A América é o lugar das oportunidades.
Suba no carro.
Lembra-se do que disse quando pensou estar apaixonado por Violeta?
Que ganhava um genro e perdia um amigo.
lsso mesmo.
-Eu sempre serei seu amigo. -Vamos, suba.
Eia, Lucero!
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