All language subtitles for The End of the Affair (1955) WEBRip Oldies

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Original subtitles

MOVIMENTO CINEMA LIVRE ...::: A P R E S E N T A :::...

Pelo Amor de Meu Amor (1955)

Come�ou em Londres durante a guerra.

Eu tinha sido ferido e dispensado do Ex�rcito.

Mas fiquei em Londres, porque era escritor...

e interessava-me um outro grupo que lutava pela sobreviv�ncia de Londres,

os homens na retaguarda, os funcion�rios p�blicos.

Uma semana antes fora apresentado a um deles, o Henry Miles,

que me convidou para uma festa de xerez que ele e a mulher iam dar.

Obrigado. Tem uma casa encantadora.

N�o o imaginava numa casa assim.

� m�rito da minha mulher, foi quem a encontrou.

- Qual � a sua mulher? - A de cinzento.

Adeus. Foi um prazer...

- Lamento imenso. - Sou t�o desajeitada.

- N�o faz mal. N�o... - Como est�, Jeffrey?

- Gostaria de a conhecer. - Sim, claro.

J� n�o a vejo h� imenso tempo.

Sarah, queria apresentar-te o Maurice Bendrix.

- A minha mulher. - � o escritor?

A fina mem�ria da mulher de um funcion�rio p�blico.

N�o o posso esquecer.

- D�o-me licen�a? - Sim.

Sim. Est� a escrever um livro sobre um funcion�rio p�blico, certo?

Receio que seja enfadonho. Quero dizer, devido � minha escrita.

� claro. Quero dizer, percebi o que queria dizer.

Esperava um tipo mais acad�mico, com o traje completo, de toga e gorra.

- Vejo que o Henry me tem difamado. - N�o o faria com essa inten��o.

- Trago-lhe um xerez? - N�o, obrigado.

- Vou passar v�rias horas a fazer isto. - F�-lo lindamente.

Bem, eu gosto.

- D�-me licen�a? - Claro.

D�-me licen�a. Bendrix.

- N�o se vai embora, pois n�o? - Tenho trabalho para fazer, Henry.

Invejo aos escritores esse dom de escreverem o que pensam.

Mas muitas vezes escrevemos o que n�o pensamos.

Acho que n�o conseguiria faz�-lo. Bem, talvez empenhando-me.

De novo, obrigado. E a sua mulher � encantadora.

- Ela ajuda-me imenso. - Estou certo disso.

Na verdade, creio que ela poderia falar mais sobre a minha vida do que eu.

� muito mais observadora do que eu e j� estamos casados h� 10 anos.

Talvez seja bom eu falar com ela.

Certamente. Porque n�o combina com ela?

- Acho que o vou fazer. Adeus. - Boa noite.

Ainda bem que n�o bebe sempre xerez. � uma bebida enfadonha.

Bem, na verdade, nem gosto, mas para algumas pessoas...

Especialmente, funcion�rios p�blicos?

Especialmente.

Queria perguntar-me algo?

Sim.

Sabe, independentemente do qu�o criativo um escritor ache que �,

h� sempre certas coisas que tem de saber.

Nos meus romances... Quais � que j� leu?

Bem, n�o li nenhum.

Bem, deixe-me pensar. E a rotina dom�stica?

A que horas tomam o pequeno-almo�o l� em casa?

Normalmente, por volta das 8:30, fora aos s�bados.

E o Henry vai para o minist�rio de metro ou de t�xi?

De autocarro.

Ou�a.

Quando o seu marido nos apresentou e ouviu o meu nome,

disse: "O escritor?"

Bem, li algumas cr�ticas aos seus livros.

E nunca lhe apeteceu ir mais al�m?

N�o gosto de romances e tenho de ler muitas coisas para o Henry.

Documentos e outras coisas.

Ele leva-os numa pasta com o bras�o real?

Bem, ele tem uma pasta, mas acho que s� tem as iniciais dele.

O Henry ficaria muito contente se escrevesse sobre ele num livro.

E voc�?

E tem confian�a para me falar dele, sem ter lido os meus livros?

A confian�a � uma qualidade vari�vel.

Limpe a boca.

A �ltima vez que a vi foi num espelho.

Foi?

Estava a beijar algu�m.

Estava? Foi por isso que me beijou?

Pensava que sim.

- Importam-se de me acompanhar? - A nossa mesa est� pronta.

Nunca conheci uma mulher com quem fosse t�o agrad�vel estar em sil�ncio.

Sabe, quando a convidei para jantar esta noite,

foi com a inten��o de extorquir informa��es � mulher de um funcion�rio p�blico.

Mas come�o a pensar que estou num territ�rio desconhecido sem um mapa.

N�o � assim t�o desconhecido.

Ao princ�pio tamb�m n�o achei. Talvez seja voc� a dar essa impress�o.

N�o consigo imaginar a sua vida.

� bastante vulgar.

� claro, a guerra mudou as coisas.

Para mim tamb�m.

- Sim, queria perguntar-lhe... - Porque n�o ando fardado?

N�o, se coxeia por causa de um ferimento.

- Reparou. - Importa-se com isso?

� s� quando estou cansado ou tenso.

Fui ferido na guerra, ao in�cio.

Vi-o a descer as escadas.

A� v�-se.

Pensei: "Ele vai-se embora."

- E tive esperan�a... - De qu�?

Senti que ficara algo por dizer.

Ent�o, apercebeu-se mais cedo.

Sim.

Est� ali um t�xi.

T�xi!

N�o a posso levar j� para casa.

N�o.

Para o Hotel Albion.

- Boa tarde. - Boa tarde, senhor.

A Sra. Miles est� l� em cima, na sala de visitas.

- Est� � sua espera. - Obrigado.

Parecia que o tempo n�o passava.

- Estiveste fora quase uma semana, sabias? - Cinco dias.

Tive tantas saudades tuas.

H� tr�s anos que vivo na tua rua.

A tua casa era apenas mais uma, um n�mero que nunca vi.

E agora, quando est�s fora, a rua parece ficar toda vazia.

- N�o me voltes a deixar. - N�o.

- O recolher. Quase me esquecia. - N�o me tinha apercebido que era t�o tarde.

N�o devia ter c� vindo.

- Porque n�o? - Com aquela criada por a�.

Ela nunca entra sem bater.

E o Henry podia ter chegado.

T�-lo-�amos ouvido. S� h� umas escadas e rangem sempre.

Mesmo assim, nos...

- Ainda n�o me disseste onde estiveste. - Num lugar muito chato.

Em Brighton.

- O que foste l� fazer? - Nada de interessante.

Algu�m que conheces h� muito tempo?

- H� mais tempo do que o Henry? - Muito mais.

Ele sabe onde estiveste?

- N�o propriamente... - Visitas secretas, �?

De certo modo.

Sabes, tem piada. Poderia estar a fazer estas perguntas,

num tom diferente e ter�amos uma cena de ci�mes.

Onde estiveste? Com quem estiveste? Qual � o nome dele?

"Qual � o nome dele?" Estive com a minha m�e.

- Est�s a gozar. - Porqu�? O que pensaste?

N�o estava a pensar. Estava s� a falar.

O Henry e ela n�o se d�o muito bem,

por isso, de vez em quando vou passar algum tempo com ela.

Olha.

Uma concha que trouxe para a minha cole��o.

Acho que afinal tenho ci�mes.

Tenho ci�mes de algu�m que te conhece h� tanto tempo e t�o bem.

Que te conheceu quando eras pequena e indefesa e sem complica��es.

O Henry.

- Sarah. Ol�, Bendrix. - Henry.

Como est�s, querida? E voc� como est�?

Como vai a guerra no seu departamento?

Bem, estou nas Pens�es, por isso, ando ocupado.

O Henry e as vi�vas dele.

Costumavam ser idosas, importava-me pouco.

Mas agora, todas estas vi�vas jovens, a maioria com t�o poucas recorda��es.

- � muito inquietante. - U�sque, gin?

Devia ir. Estou de vigia aos fogos esta noite.

- Precisa de beber. U�sque. - Sei que fazem um bom trabalho.

Tenho uma bela vista dos telhados de Londres. Se fosse pintor podia us�-la.

Isso lembra-me de algo que lhe queria sugerir.

- Algo que poderia usar. - Eu?

No seu livro do funcion�rio p�blico.

- Sim. - Obrigado, querida.

Muitos de nos t�m passatempos.

Parece ser muito comum entre os funcion�rios p�blicos,

a m�sica, a pintura, a escrita.

At� temos um ge�logo amador e um poeta bastante bom.

E o seu, Henry? Qual � o seu passatempo?

N�o tenho nenhum. Acho que n�o preciso.

Tenho de ir. Obrigado, Henry.

Foi muito gentil, pensar no meu livro.

Essas coisas equilibram uma personagem, n�o �?

- Ajudam. N�o se incomode. Sei o caminho. - Eu acompanho-o.

O que foi, querido?

- N�o te afetou? - Afetar-me?

Nem sabes do que estou a falar, pois n�o?

- Do Henry? - Para ti s� vale o momento, Sarah.

Primeiro comigo e agora com ele.

- Maurice, por favor. - Aqui n�o, Sarah, nunca mais.

Em qualquer lugar, menos aqui.

Nos meses que passamos juntos,

exploramos quase todos os recantos de Londres.

Agora sabia que por felicidade ou desgra�a, estava preso a esta mulher,

enquanto ela me quisesse.

E espantou-me que um amor onde entrei com tanta ligeireza,

pudesse tornar-se numa profunda e permanente paix�o,

que dominava toda a minha vida.

Tal como outros fizeram, convenci-me de que a Sarah era uma mulher...

que procurava tranquilidade, estabilidade e amor eterno.

Desde que fosse comigo.

A vida n�o � absurda?

Pensar que se pode comprar um dia feliz...

com 10 litros de gasolina.

A tua amiga tem bom gosto. Vens aqui muitas vezes?

Quando posso. Ela � muito hospitaleira. Al�m disso, passa muito tempo fora.

N�o est�s contente por te ter feito largar o trabalho?

Lembras-te de quando...

Gosto quando inicias uma frase com: "Lembras-te."

Porqu�?

Bem, d� continuidade � nossa vida juntos.

Significa que temos um passado, bem como um presente.

S� nos falta um futuro.

N�o somos os �nicos a viver um dia de cada vez.

- O que estavas a dizer antes? - N�o sei. Uma tolice.

Gosto de tolices.

No in�cio, � tudo t�o s�rio e tenso.

Depois surge o divertimento, as tolices. Diz-me.

- Mas eu... - V� l�, diz-me.

Bem, estava a pensar naquele dia de Inverno quando atravessamos os campos...

e estava tudo gelado.

At� a barba no teu queixo estava coberta de gelo.

E havia um buraco sob uma �rvore,

onde puseste um monte de folhas para eu me deitar.

E abra�aste-me e aqueceste-me.

E no regresso, vimos pegadas...

e percebemos que algu�m passara muito perto de nos.

- Nem demos por isso. - Est�s a inventar.

Podia ser real. Conosco qualquer coisa podia ser real.

O que te fez pensar nas pegadas?

- Tive de pensar em algo. - N�o pode ter sido imagina��o.

Maurice, toda a gente imagina coisas, n�o s�o s� os escritores.

� t�o bom estar aqui e amo-te mesmo.

Dizes isso como se dissesses: "Est� um lindo dia."

E porque n�o?

� um simples fato, � como dizer que o mundo � redondo,

que a erva � verde ou que a chuva � molhada.

N�o h� uma forma especial?

Bem, deixa-me ver.

N�o � porque �s bonito, que n�o �s.

N�o � porque �s esperto, que �s.

N�o � porqu�, mas como.

� como o sal na comida.

Quando n�o est�s comigo tudo parece ins�pido e sensabor�o.

Bem, Menina Palmer, mantive a minha palavra.

Mas tive de me esconder atr�s de uma sebe, quando o vig�rio passou.

Mas prometi-lhe a primeira que pudesse dar-lhe.

E � uma beleza, se posso diz�-lo.

Ora, � a Sra. Miles!

Sim, � um prazer voltar a v�-la, Sra. Tomkins.

Bem, igualmente.

E, desta vez, trouxe o Sr. Miles. Que bom.

Espero que se refresquem com o ar do campo, depois de tantas bombas.

- Ele estava a precisar de f�rias. - Ainda bem que guardei isto.

N�o h� pessoa a quem gostasse mais de dar este prazer,

do que a um dos homens que est� a vencer a guerra.

Lembrem-se, iremos vencer.

Querido, devias agradecer.

- � muito gentil. - Vou p�r isto na arca da carne.

- Posso, Sra. Miles? - Sim, obrigada, Sra. Tomkins.

Com todo o gosto. E � um prazer conhec�-lo, Sr. Miles.

Querido, confias em mim para te assar uma galinha?

J� tem a �gua quase a ferver, fa�o-lhe o ch�.

Obrigada. � uma boa mulher.

Mas acho que podias ter sido mais simp�tico com ela.

Que querias que fizesse? Que a convidasse a tomar ch� com os Miles?

Porque est�s zangado? Que fiz?

Que chegues a perguntar �... Deixares aquela mulher...

Mas foi ela que se enganou, querido. Desculpa.

Se lhe explicasse, envergonh�-la-ia,

al�m disso, n�o teria sido gentil.

- �s sempre gentil, n�o �s, Sarah? - Maurice, por favor.

Tens de me aturar.

Foi a primeira vez que te vi mentir. Isto �, que eu saiba.

Nunca a ti, Maurice. S� a verdade, sempre.

Mesmo enquanto o dizes, a tua cara � franca.

Tal como quando mentiste �quela mulher.

Pronto. Podem sentar-se e p�r-se confort�veis.

Digo sempre ao meu marido, quando tomamos ch� � lareira:

"� a melhor parte do dia."

Obrigada, Sra. Tomkins. Foi muito atenciosa.

- Vou andando. Adeus, Sra. Miles. - Adeus.

- Adeus, Sr. Miles. - Adeus.

Posso dar-te os parab�ns pela atua��o?

Maurice, querido, est�s a fazer uma tempestade num copo de �gua.

Ela enganou-se e eu n�o a corrigi. Qual � o mal?

S� o � vontade com que o fizeste.

Teres conseguido ficar a� a olhar para mim como se eu fosse o Henry.

Sem amor no olhar.

Senti-me transformado no teu marido chato e tu na minha...

Maurice.

E aquela hist�ria do dia no bosque. N�o acredito que a tenhas inventado.

N�o tens assim tanta imagina��o.

Foi algo que te aconteceu, com quem?

- Ou nem sequer te lembras? - N�o tens direito...

N�o tenho quaisquer direitos em rela��o a ti.

Sou apenas um passageiro na tua vida, algu�m que apanhaste pelo caminho...

e que largar�s quando te apetecer.

Meu pobre Maurice, como te atormentas.

� a incerteza de estarmos separados e de existir o Henry.

- Amas-me? - Sim.

Porque ficas com ele?

Preciso de tempo.

Tempo? Tempo para qu�?

Tempo para confiar.

Tu n�o confias em mim.

� porque n�o estamos sempre juntos.

� porque n�o sou o homem para este amor escondido.

Sarah, se estiv�ssemos casados, poder�amos ser felizes para sempre.

N�o podemos simplesmente ser felizes um dia de cada vez?

Entre.

- Sarah. - Afinal cheguei demasiado cedo.

N�o. Perdi a no��o do tempo. Largo j� o trabalho.

�s linda.

N�o consegui resistir-lhes. As flores n�o s�o not�veis?

O mundo inteiro num caos e elas continuam a florir.

D�-me uma certa f�.

- Em qu�? - N�o sei.

Os lilases florescem todos os anos e as macieiras continuam a dar ma��s.

� imposs�vel algu�m estar zangado num dia como este.

- Eu n�o estou. - N�o falava de ti.

Todos aqueles oradores de rua no parque.

Passei por l� e estavam todos furiosos com algo.

Capitalismo, servi�o militar, ajuda externa.

At� havia um homem que estava zangado com Deus.

Sim.

Na verdade, fiquei um pouco assustada ao ouvi-lo.

Pareceu-me arriscado, numa altura destas, tratar mal Deus.

Deves estar a imagin�-Lo pronto a atirar um raio.

N�o acreditas nessas coisas, pois n�o, Sarah?

� como n�o passar debaixo de escadas.

N�o, mas tamb�m n�o passo debaixo de escadas.

V� l�. Sai do teu canto. J� te armaste o suficiente.

Estava t�o ansioso por estes dias juntos,

que vim � janela umas doze vezes desde o meio-dia.

- N�o posso. - N�o podes o qu�?

Despentear-te. Acabaste de vir do cabeleireiro.

- N�o fui. - Ent�o, posso despentear-te.

Porque � que n�o foste ao cabeleireiro?

Baralhei os dias.

Foi o mesmo com o dentista na semana passada.

Sim, eu sei.

- �s um caso perdido. - Bastante.

Se vias que estavas livre, podias ter vindo para c�.

- Disseste que ias trabalhar o dia todo. - E assim fiz.

Vamos jantar ao Ruhl's?

E se reservasses uma mesa enquanto me arranjo?

Est� bem.

N�o parecem ser bombas normais. H� qualquer coisa diferente.

Por favor, n�o v�s para o p� da janela. � perigoso.

- Tenho cuidado. - Por favor.

Parecem avi�es a arder, s� que n�o s�o.

N�o sei o que...

� melhor sa�res daqui, enquanto est� calmo.

- N�o gosto do aspecto daquilo. - N�o, prefiro ficar.

Imagina que acontece algo e est�s aqui.

- Atravesso a pra�a contigo. - Deixa-me ficar contigo.

Se n�o vais para casa, vamos para a cave. � mais seguro.

A tua senhoria pode l� estar. N�o posso v�-la.

- Vou l� ver. - Maurice, n�o v�s. N�o me deixes.

Volto j�.

Tenho de ir, Sarah, enquanto � tempo. Volto j�.

Sarah?

Sarah?

Tu.

Meu Deus, Maurice, est�s vivo!

�s mesmo tu. N�o est�s morto.

Mas est�s ferido. Anda c�, deixa-me lavar-te a cara.

- Que fazias ajoelhada? - N�o sei. Estava a rezar, acho eu.

Devias ter ido l� abaixo.

Fui, mas n�o te vi.

S� o teu bra�o esticado debaixo da porta.

Achei que estavas morto. N�o consegui levantar a porta.

Tinha a certeza de que estavas morto.

A porta n�o me estava a prender.

Pelo menos, n�o parecia estar quando me arrastei c� para fora.

- Quanto tempo estive l� em baixo? - N�o sei. Cinco, dez minutos.

Tive uma sensa��o t�o estranha quando recuperei os sentidos.

Uma bela sensa��o de espa�o e dist�ncia, como se viesse de uma longa viagem.

- Quem me dera lembrar-me. - De qu�?

N�o sei bem. Era como um sonho.

Tudo isto parece um pouco irreal, mesmo tu.

Tenho de ir.

N�o me agrada que v�s com bombas a cair.

Mas tamb�m acho que n�o devias estar aqui. Atravesso a pra�a contigo.

N�o, Maurice. Por favor.

� quase dia. Al�m disso, tiveste um grande choque.

Come�o a pensar que tive. Vejo-te amanh�?

N�o sei.

Ent�o, este � o fim dos tr�s dias por que esper�vamos juntos.

Sim, � o fim.

Vemo-nos amanh�.

Talvez n�o seja seguro.

Sobrevivi a isto.

Sim, sobreviveste.

Mas quando te verei?

N�o fiques t�o assustado.

O amor n�o acaba s� por n�o nos vermos.

Sarah!

Ela desaparecera.

Era quase como se tudo estivesse a acontecer num pesadelo.

Mas depois come�aram a notar-se os efeitos da bomba,

descobri que n�o conseguia pensar claramente na Sarah.

Nos dias seguintes, tive o que os m�dicos chamam de "choque p�s-traum�tico".

Tinha contus�es dos ombros aos joelhos...

e n�o percebiam como n�o tinha todos os ossos partidos.

Mas pior do que isto era n�o conseguiu contatar a Sarah.

Assim que pude, tentei ligar-lhe.

Mas era sempre a mesma coisa.

A Sra. Miles n�o est� em casa.

A Sra. Miles n�o deixou nenhum recado.

A Sra. Miles est� fora.

E depois regressou a mem�ria,

a mem�ria daquela express�o da Sarah, quando disse: "Maurice, n�o est�s morto."

E de repente soube.

Soube que ela me mentira com aquela per�cia dela,

quando disse que me amava.

"Maurice, n�o est�s morto", disse ela.

E durante todo o tempo, ela desejara a minha morte,

para me poder deixar de consci�ncia tranquila.

E com aquele pensamento, o meu ci�me tornou-se �dio.

E o meu �dio virou-se para mim e ainda pensei em suicidar-me.

Mas o momento passou e decidi ir-me embora,

esquecer a Sarah e que a amara.

Passou um ano.

A guerra acabara e as luzes come�avam a voltar.

Regressei ao meu apartamento na pra�a,

visto que estava convencido de que tirara a Sarah da minha vida.

Pois pensava nela raramente e sempre com �dio.

Tinha trabalhado todo o dia no meu novo livro, mas tinha corrido mal.

As palavras eram pesadas...

e fui-as extraindo at� cair de exaust�o.

Precisava de esticar as pernas e fugir da minha pr�pria companhia.

A meio da pra�a, vi o Henry Miles a caminhar � minha frente.

O meu primeiro instinto foi evit�-lo, porque me convencera que tamb�m odiava o Henry,

tanto quanto odiava a mulher dele, a Sarah.

E depois foi como se uma m�o me puxasse o bra�o,

como se uma voz me sussurrasse:

"Fala com ele. Vai ter com ele. Fala-lhe."

- Henry! - Bendrix.

Nunca mais o vi. Que faz � chuva?

S� queria apanhar ar. E a Sarah saiu.

- Foi ao cinema? - N�o. Raramente vai.

Costumava ir.

H� muito tempo que n�o o v�amos, Bendrix.

- H� muito tempo. - Bem, bem.

Parecem felizes, n�o �?

Quando estamos infelizes, invejamos a felicidade alheia.

Est� infeliz?

Estou preocupado. Estou preocupado com a Sarah.

- Ela est� doente? - N�o.

Acho que n�o, doente n�o.

N�o posso falar aqui, Bendrix. Venha comigo l� a casa.

A Sarah vai voltar?

Penso que n�o.

Entre, Bendrix.

Sarah.

Ainda n�o chegou. Tire o casaco, Bendrix.

Vamos para aqui.

- Acho que nunca tinha visto esta sala. - � o meu escrit�rio.

- Passa aqui muito tempo? - Sim, bastante.

Sempre que a Sarah sai.

- Bendrix, tenho medo. - Tem medo de qu�?

Bem, sempre pensei que a pior coisa que um homem podia fazer,

a pior de todas...

Sabe que pode confiar em mim, Henry.

Leia isto, Bendrix.

"Em resposta ao seu pedido,

"sugiro que recorra aos servi�os de um homem chamado Savage,

"Rua Vigo, 159.

"Todos os relat�rios indicam que tem reputa��o de ser h�bil e discreto."

N�o fiz nada, mas essa carta est� na minha secret�ria...

a lembrar-me.

Parece idiota,

mas confio cegamente que a Sarah n�o a vai ler.

Entra aqui imensas vezes por dia, mas posso confiar nela.

Ela agora foi dar uma volta, Bendrix. Uma volta.

Quer um detetive privado para seguir a Sarah?

Sim.

Dizem sempre que o marido � a �ltima pessoa a saber.

Francamente, Henry, voc� espanta-me.

Um dos mais respeitados funcion�rios p�blicos de Sua Majestade.

Pensava que a sua cabe�a era t�o aprumada como as suas cal�as.

Hoje ao v�-lo na pra�a pensei que se lhe contasse...

e se risse de mim, talvez conseguisse queimar a carta.

- Acha que sou doido, n�o acha? - N�o, n�o acho, Henry.

Afinal, a Sarah � humana.

- Acha que � poss�vel? - Bem, eu...

Sempre achei que fosse um bom amigo dela, Bendrix.

S� disse que era poss�vel, Henry.

Eu sei. Desculpe.

Mas n�o imagina como t�m sido estes meses.

Nunca sei onde est� nem o que faz.

E fica fora durante horas, sem explica��es.

Porque n�o vai falar com o Sr. Savage?

A� saberia.

Mas imagine, sentar-me ali � frente de uma secret�ria,

onde se sentaram todos os outros maridos ciumentos? N�o poderia.

Ent�o, porque n�o me deixa ir, Henry?

- Voc�? - Podia fingir que era um amante ciumento.

S�o menos rid�culos do que os maridos ciumentos.

- Faria isso por mim, Bendrix? - Claro que sim.

N�o sei o que me passa pela cabe�a.

N�o se p�e um amigo a espiar a nossa mulher,

amigo esse que finge ser o amante dela.

N�o se faz, mas todos os dias se fazem coisas que n�o se fazem.

- J� as fiz quase todas. - N�o.

� um bom tipo, Bendrix, mas � impens�vel. � mesmo impens�vel.

S� precisava de conversar para esclarecer as ideias.

S�o os meus nervos, n�o tenho dormido bem, sabe.

Mas j� me sinto melhor.

Pronto. Deixe-me servir-lhe um copo.

O nome era Savage, Rua Vigo, 159.

C� est� a Sarah.

N�o, � a criada. Saiu esta noite.

S�o os passos da Sarah.

Tu.

� bom ver-te.

Sarah, querida. Encontrei o Bendrix na pra�a.

E trouxe-o para beber um copo e conversarmos.

Como te molhaste tanto?

Sabes, um dia destes apanhas uma bela gripe.

Fui dar uma volta.

Bela noite para passear.

Boa noite.

Presumo que estejamos a falar da Sra. Bendrix.

N�o, � a mulher de um amigo meu.

O marido pensa que ela o anda a trair.

- Disse que o marido o mandou aqui? - N�o.

- Ent�o o senhor e a senhora s�o... - N�o.

Vi-a uma vez em mais de um ano.

N�o percebo bem. Disse-me que era um caso de vigia.

A suspeita ou a curiosidade n�o podem valer isso?

Se preferir pensar em mim como um dos seus clientes ciumentos...

Ent�o, por favor, n�o h� nada de mal no ci�me.

Vejo-o como o sinal do amor verdadeiro.

Na verdade, meu caro senhor, isso completa o c�rculo.

Uma pessoa n�o pode ter ci�mes sem estar apaixonada.

Estar apaixonado � desejar e desejar � querer possuir.

E querer possuir � querer proteger.

E querer proteger � suspeitar dos outros.

E suspeitar dos outros � ci�me.

V�, tudo se liga ao amor,

a mais nobre fragilidade humana.

Al�m disso, sem esta nobre emo��o estar�amos desempregados numa semana.

Desconhe�o as suas tarifas.

Tr�s guin�us por dia mais despesas,

que, � claro, t�m de ser aprovadas, como o caf� ocasional.

Estou. A Sra. Miles est�?

A que horas pensa que voltar�?

Por volta das 14:30.

Ent�o, se puder, volto a ligar. Obrigado.

Sarah.

� uma surpresa encontrarmo-nos duas vezes em t�o pouco tempo.

Sim, n�o costumamos encontrar-nos.

Estive fora.

- Est�s com bom aspecto. - Obrigado. Tu tamb�m.

N�o � poss�vel. Tenho uma gripe horr�vel.

Andas na rua com mau tempo.

- Vais para casa? - Vou.

- Est�s a escrever um novo livro? - Estou.

Chegaste a acabar o outro? Aquele do funcion�rio p�blico, que eu odiava?

N�o.

Temia que tivesses acabado.

Um livro leva um ano a escrever. � dif�cil escrev�-lo s� por vingan�a.

Se soubesses o pouco que tens para te vingar.

Estou a brincar.

Passamos um bom tempo juntos. Agora podemos ver-nos como velhos amigos.

Afinal, somos adultos. Sab�amos que tinha de acabar.

O que nos aconteceu, Sarah? Porque n�o te vi este tempo todo?

Que fiz?

Nada. N�o fizeste nada.

A culpa foi toda minha. Eu...

- Desculpa. - Devias tratar disso.

Vou ficar boa.

Adeus, Maurice.

Entre.

Um tal de Sr. Parkis para si.

Sou empregado do Sr. Savage.

Sim. Entre. Estava a acabar de me barbear.

Tire um cigarro. Est�o em cima da mesa.

N�o, senhor, estou de servi�o.

S� se fosse por raz�es de cobertura.

- Agora n�o est� de servi�o. - Sim, enquanto fa�o o meu relat�rio.

- Tem algo a relatar? - N�o � propriamente uma folha em branco.

Bem, sente-se. Est� a deixar-me inquieto.

- Posso come�ar, senhor? - Sim. For�a. Estou mesmo a acabar.

Verifiquei, mais tarde explicarei como,

que a pessoa em quest�o estava a almo�ar num restaurante chamado The Bagatelle,

achei prov�vel que ela estivesse a almo�ar com a outra pessoa em quest�o.

- Por isso, eu e o rapaz... - O "rapaz"?

Sim. Ele ajuda-me quando n�o h� aulas.

Estou a trein�-lo na profiss�o.

- Quantos anos tem? - J� fez 12 anos.

Um mi�do pode ser muito �til.

N�o custa nada, fora uma ocasional banda desenhada.

Al�m disso, ningu�m repara nele. Os rapazes nascem vadios.

Um trabalho estranho para um rapaz.

Bem, senhor, ele n�o percebe o verdadeiro significado, sabe?

Quer dizer, se eu fosse entrar num quarto,

� claro que n�o o levava comigo. A m�e dele morreu.

Bem, de volta ao trabalho em quest�o.

Fiquei de vigia e n�o tive de esperar muito,

at� a pessoa em quest�o sair.

Mas ela vinha sozinha, senhor.

� claro, � costume...

que as pessoas naquela situa��o se separem dentro do restaurante.

Citando um velho ditado, se me permite: "A pr�tica faz a precau��o."

E depois?

A seguir chamou um t�xi.

E, obviamente, fiquei � escuta para ouvir a morada.

- Sim? - Mas ela mudou de ideias...

e foi-se embora apressadamente.

Eu e o meu rapaz seguimo-la a uma dist�ncia discreta.

Fiquei muito desapontado quando a vi apanhar um autocarro.

Quase abandonei a pesquisa.

� in�til seguir uma senhora at� casa, se me fa�o entender.

Mas num gesto impulsivo, por assim dizer, eu e o meu rapaz entramos no autocarro.

Mas ao sair, deu alguns passos...

e encontrou um cavalheiro que a esperava, obviamente por combina��o,

embora ele se fingisse surpreendido.

� um truque habitual, sabe?

Cumprimentaram-se de modo casual, indiferente.

Uma atua��o pat�tica, achei eu. E depois prosseguiram.

Nos seguimo-los enquanto caminhavam...

Para casa dela.

Bem, o senhor � muito arguto.

Fiquei com a impress�o de que havia uma grande emo��o na conversa.

- Da parte de ambos? - Sim, senhor.

Depois o cavalheiro fez, o que me pareceu ser, um pedido desesperado.

Ent�o, foi isso que pareceu.

A�, o meu rapaz ultrapassou-os a brincar com a bola.

E sabe, senhor, ele disse que a senhora estava quase a chorar.

- � tudo? - S� mais uma coisa, senhor.

Ap�s este incidente, achei que o cavalheiro fosse beijar a pessoa em quest�o.

Mas o momento passou e eles separaram-se, seguindo dire��es opostas.

O cavalheiro esbarrou comigo e fez-me cair o chap�u.

Sabe, ocorreu-me, que talvez se estivessem a separar de vez.

Um final muito feliz para esta investiga��o, se me permite.

� poss�vel.

Mas engana-se acerca da separa��o.

A pessoa em quest�o e eu separamos h� meses.

A s�rio, senhor? Bem, isso � muito...

Macacos me mordam.

Era o senhor.

- Isto � terr�vel. - De todo.

Visto de fora, at� tem bastante gra�a.

Sim. Mas estou por dentro, senhor. Quer dizer, � o meu rapaz.

Tem grandes ideias acerca de mim.

Sabe, as coisas que eles leem, senhor. O Nick Carter e esses.

Porque tem ele de saber disto?

Temos de ser honestos com as crian�as.

Al�m disso, ele n�o para de fazer perguntas.

N�o lhe pode dizer que consegui identificar o homem,

s� isso, e que n�o estava interessado?

Bem, lamento, estou a roubar-lhe tempo com os meus problemas.

Foi um prazer, Sr. Parkis. Tente n�o se preocupar.

- Vejo que o seu filho deve sair a si. - Bem, tem o c�rebro da m�e.

- Bem, boa noite. - Boa noite.

Fiquei a v�-lo da minha janela.

Na sua fina gabardina revirada pelo vento.

E senti uma certa pena deste trabalhador de turno.

No entanto, este homenzinho tinha uma estranha percep��o,

por exemplo, ao pensar que nos quer�amos beijar.

Ele pressentiu a minha esperan�a, o meu desejo...

e a mem�ria de tudo o que a Sarah significara para mim.

E com a rapidez dos pensamentos indesejados, a minha mente voltou a si,

e desejei, tal como tantas vezes, nunca t�-la conhecido.

Nunca ter ido a casa do Henry, para come�ar.

E a Sarah teria sido apenas um nome.

- Estou? - Fala o Parkis, senhor.

Estou numa cabina telef�nica � frente do n�mero 12 da Cedar Road.

Posso sugerir que venha ter comigo imediatamente?

Porque, dentro de momentos, a pessoa em quest�o...

ir� tocar a uma campainha no n�mero 12.

Tenho um t�xi � espera.

Podemos ficar l� dentro para n�o sermos vistos.

V�, a casa divide-se em quatro apartamentos.

Mas at� agora, n�o conseguimos apurar em qual campainha � que ela toca.

Mas hoje iremos descobrir.

Pus um pouco de farinha em cada campainha.

Quando a pessoa em quest�o entrar, veremos qual campainha foi tocada.

E saberemos quem � a outra pessoa em quest�o.

- Em suma, o homem. - Brilhante.

Obrigado. Mas h� algo ainda melhor, senhor.

- Melhor? - Sim, senhor.

Eu e o meu rapaz conseguimos fazer amizade com a dom�stica.

- Com quem? - A criada, senhor.

Uma pessoa muito importante nestes casos.

E ela disse-nos muitas coisas acerca dos h�bitos da pessoa em quest�o.

Nem sempre � f�cil.

Algumas dom�sticas s�o muito reservadas, mas, bem, eu tenho jeito com elas.

- Estou certo que sim. - Obrigado, senhor.

Bem, como resultado deste contato amig�vel,

pude inspecionar o conte�do do cesto dos pap�is da pessoa em quest�o.

E juntei algo que considero uma prova muito interessante.

Uma carta, senhor, escrita pela pessoa em quest�o.

N�o deve estar a perceber bem, senhor.

Uma carta, deste teor,

� algo que n�o se encontra facilmente.

Considero-a uma descoberta muito especial.

N�o a queime! Em vista de poss�veis processos,

todas as provas documentais dever�o ser preservadas e as observa��es anotadas.

Desculpe, senhor.

Sei que tenho de encarar as minhas velhas devo��es,

todos os meus velhos medos e promessas e v�-los na sua verdadeira perspectiva.

Pois sei que a �nica coisa que importa � que dev�amos estar juntos,

agora e para sempre.

C� est� ela, pontual�ssima.

Tenho de esperar um momento.

- J� devo poder ir. - Eu vou.

- Mas, senhor... - Espere aqui.

- Qual �, senhor? - Smythe.

Achava que era o Thompson.

- Vai surpreend�-los, senhor? - N�o.

- Prefere que eu v�? - N�o.

O Sr. Miles est�, por favor?

Estou, Henry? � o Bendrix.

Podemos encontrar-nos esta tarde? Penso que vai achar muito importante.

Podemos encontrar-nos no meu clube. �timo. Ent�o, �s 17:00. Adeus.

- Ol�, Bendrix. - Henry, como est�?

- Mandei-lhe vir um xerez. Sente-se. - � muito gentil. Obrigado.

- Como est� a Sarah? - Est� muito bem.

- E voc�, Henry? Ainda est� preocupado? - Preocupado?

- Estava preocupado. Foi o que me disse. - Estava?

- Chegou a consultar aquele detetive? - Esperava que tivesse esquecido isso.

Eu n�o estava bem. Estava sobrecarregado de trabalho na altura.

Sa�de.

- � um bom xerez. - Lembra-se que me ofereci para o contatar?

Est�vamos ambos um pouco exaustos.

Nunca tinha estado aqui no seu clube, Bendrix.

Fui v�-lo uns dias depois.

Bendrix, n�o tinha esse direito.

Mas confiou em mim, Henry. E tinha raz�o nas suas suspeitas.

Isto � indescrit�vel, Bendrix.

- A caluniar a mulher na cara do marido. - Eu sei, n�o se faz.

N�o devemos falar da nossa mulher. Mas voc� f�-lo. Falou comigo.

Acho que devia ler este relat�rio.

Se n�o for verdade, devia deixar a Sarah esclarecer a situa��o, se ela puder.

Deve-lhe isso, se acredita nela.

- Os fatos est�o a�. - N�o acredito que o sejam.

Nem por um segundo. E agora, d�-me licen�a.

Um momento, Henry.

Esta � a caligrafia da Sarah?

"Pela primeira vez na minha vida, n�o me sinto insegura nem temo o futuro.

"Pois sei que a �nica coisa que importa � que dev�amos estar juntos,

"agora e para sempre."

Agora deixa-me passar, por favor?

Desta vez, fui certeiro, senhor.

Foi arriscado, mas pensei que com tanta gente a ir e vir,

podia sempre dizer que procurava a casa de banho.

Tive de ser r�pido,

porque se a pessoa em quest�o visse isto na minha m�o,

estava tudo estragado.

- N�o compreendo. - Atrav�s da criada,

soube que o Sr. E a Sra. Miles iam dar um cocktail esta tarde.

E eu infiltrei-me na festa.

Ouve, rapaz, se vais incomodar,

vais para a rua e esperas l� por mim.

- Mas, pai, eu... - Faz o que te digo.

Comemos um gelado a caminho de casa, est� bem?

Lamento ter tido de falar rispidamente com ele, senhor.

Mas n�o gosto que esteja por perto quando revelo um feito.

E se este n�o for um feito, n�o me chamo Albert Parkis.

- O que tem a�? - J� vai ver, senhor.

Seria mais f�cil se o senhor tivesse uma faca.

Claro.

Se me permite, � em momentos como este...

que um homem sente que o seu trabalho vale a pena.

Obrigado.

- O que � isto? O livro das contas? - Melhor ainda.

Muito melhor. A pessoa em quest�o escreve uma agenda.

- Quer dizer um di�rio? - De certo modo.

E remonta a algum tempo atr�s.

- Leu isto? - N�o, senhor.

N�o � a minha fun��o meter o nariz em assuntos privados.

Mas certifiquei a sua natureza com base num s� registro.

Devo dizer que ela n�o � propriamente cautelosa.

Fico satisfeito por ter isto. Muito satisfeito.

Bem, obrigado, senhor.

N�o foi muito dif�cil. Estava l� imensa gente.

E a Sra. Miles pensou que eu era um amigo do Sr. Miles do minist�rio,

e o Sr. Miles pensou que eu era um amigo dela.

Contei uma ou duas anedotas engra�adas, que reservo para estas ocasi�es sociais.

Na verdade, mod�stia � parte, acho que contribu�...

grandemente para o enorme sucesso da festa.

- Mas... - Mas o qu�?

N�o sei se isto � relevante, mas...

N�o gostei do aspecto da pessoa em quest�o.

N�o gostei mesmo nada.

- Como assim? - Tinha muita tosse, senhor.

E a cara dela, bem, estava muito p�lida e abatida.

Achei que ela n�o devia ter sa�do da cama.

Compreendo. Bem, acho que podemos fazer as contas.

- Pago-lhe a si ou ao Sr. Savage? - Ao Sr. Savage.

Mas se tiver ficado satisfeito,

agradecia-lhe que escrevesse para o escrit�rio.

- Ajuda muito. - Escreverei.

Obrigado, senhor.

E obrigado, senhor, por ser t�o simp�tico com o Lance.

- O Lance? - O rapaz, senhor.

Como o Sir Lancelot da corte do Rei Artur.

- Escolheu uma estranha personagem. - Bem, foi ele que encontrou o Santo Graal.

Esse foi o Galahad.

O Lancelot apaixonou-se pela mulher alheia.

N�o sabia disso.

Fez um �timo trabalho. Darei boas refer�ncias.

Obrigado, senhor.

- Bem, adeus, senhor. - Adeus.

Enquanto escrevo esta p�gina j� � amanh�.

E receio chegar ao fim de ontem.

Enquanto continuar a escrever � hoje e ainda estamos juntos.

Acordei esta manh� inebriada de felicidade,

que se espalhou como a luz do sol por todas as horas do dia.

Nem estava impaciente por ir ter com o Maurice, porque, finalmente,

�amos ter algum tempo juntos sem preocupa��es.

Ao arranjar as flores, falei com o Maurice como se n�o tiv�ssemos melhor para fazer.

Nem sequer o beijei quando cheguei,

porque soube pelo cigarro aceso no peitoril da janela,

que ele tinha estado � minha espera e estava s� a fingir-se ocupado.

Querido Maurice.

Amo-o de forma t�o especial, quando ele pensa que est� a ser esperto.

Quando come�aram as sirenes, n�o prestamos aten��o.

N�o tinham import�ncia.

Est�vamos habituados �s bombas e n�o tem�amos morrer assim.

Mas o ataque continuou incessante e percebemos que n�o era normal.

O Maurice implorou-me que fosse para casa, mas n�o fui.

Ent�o, ele disse que ia � cave ver se estava l� algu�m.

Ele temia por mim e eu temia por ele.

Soube que algo iria acontecer.

Deus, n�o o deixes morrer.

Nunca mais ser feliz, com ningu�m.

Outra pessoa podia t�-lo amado e feito mais feliz do que eu fiz.

S� lhe trouxe desgra�a e suspeita.

Dai-lhe essa possibilidade.

Amo-o, farei de tudo, mas deixai-o viver.

Nunca mais discutirei com ele, nem o farei infeliz.

Serei doce, gentil e boa.

Serei boa.

Viverei como Tu queres que eu viva.

Desistirei do Maurice para sempre, mas deixai-o viver!

Deixai-o viver!

Sarah.

Sarah.

Imaginei aquilo tudo. Era pura histeria.

Isso e medo.

Ele n�o estava morto. N�o podia estar.

Foi tudo uma tolice, uma infantilidade, e amanh� tudo parecer� absurdo.

Contar-lhe-ei da minha promessa e ele rir� de mim,

depois poderei rir de mim mesma e esquecer aquilo tudo.

Cairei nos seus bra�os e recome�aremos onde t�nhamos ficado...

e tudo ser� como dantes.

Meu Deus. Ele est� a tentar recordar algo...

e eu sei o que �.

Est� a tentar-se lembrar de como era estar morto.

Meu querido, quem me dera que estivesses na seguran�a da morte, sob aquela porta.

Agora come�a a agonia de estar sem ti.

N�o � decente um homem aparecer perante Deus,

sem sequer uma ora��o a anunciar a sua chegada.

Podemos rezar agora.

Pouco mais podemos fazer por aqueles ali dentro.

Senhor, livrai-nos da morte s�bita.

Quer falar comigo?

N�o sou cat�lica.

- Perdeu algu�m no bombardeamento? - Sim.

Perdi uma pessoa.

Desisti dele.

� o que todos temos de fazer a certa altura,

desistir daqueles que amamos.

Mas n�o tinha de o fazer.

Desci as escadas atr�s dele, depois de a bomba cair.

- Lamento muito. - Mas ele n�o morreu.

Quer dizer, eu pensei que tinha morrido.

Encontrei-o debaixo de uma porta, uma porta pesada.

S� se via o bra�o dele.

O seu bra�o morto.

Toquei na sua m�o.

Podia jurar que era uma m�o morta.

Quando duas pessoas se amaram, n�o se devia reconhecer isso?

Era o seu marido?

T�nhamos planeado pela primeira vez passar estes dias juntos.

S� que nunca os chegamos a ter.

Apenas algumas horas.

Mas estava mais certa do que nunca...

de que poder�amos ser felizes para sempre.

Sabe, eu tornei-o muito infeliz.

Foi por isso que fiz aquela promessa.

Foi... � claro, era tudo histeria.

As pessoas ficam sempre hist�ricas em alturas como esta, n�o �?

O que prometeu?

Bem,

sei que agora parece absurdo, mas...

Achei que ele ressuscitara pelas minhas ora��es.

- � absurdo, n�o �? - N�o.

Mas as pessoas n�o ressuscitam. Quando est�o mortas, est�o mesmo.

De qualquer maneira, eu...

Eu rezei.

Fiz aquela est�pida promessa e depois ele...

Ele entrou.

Por isso, foi tudo um erro.

Lamento. N�o devia faz�-lo perder tempo desta maneira.

Deve ter dormido pouco. Parece muito cansado.

Sei quando estou a perder tempo.

Ainda n�o me disse o que prometeu...

ou a quem?

Prometi que se...

Deus o ressuscitasse,

quer dizer, se n�o o deixasse morrer,

eu nunca mais voltaria a estar com ele.

Imagino que n�o lhe pare�a um grande sacrif�cio,

mas fazer impulsivamente uma promessa daquelas...

e a um Deus gerado pelo meu medo...

N�o penso que tenha quaisquer problemas.

Se fez um voto a algu�m em quem n�o acredita,

porqu� mant�-lo?

Est� a dizer-me que o quebre?

Deus dotou-nos de livre arb�trio, para o usarmos por Ele ou contra Ele.

Deus, sempre Deus. Os padres n�o dizem mais nada?

N�o h� mais nada.

Se existir um Deus, ent�o Ele p�s aquela ora��o na minha cabe�a...

e odeio-O por isso.

Claro, apanhei o primeiro comboio de volta.

Bem, as informa��es no campo eram bastante surpreendentes.

N�o, a minha n�o foi atingida, felizmente.

Sim, h� bastantes danos na vizinhan�a.

Na verdade, a casa de um amigo meu.

Sim, temos de fazer uma declara��o qualquer.

Bem, as pessoas j� sabem que n�o eram bombas normais pela sua intensidade.

Sim, sem d�vida.

Bem, regressarei, mal veja a minha mulher.

Assim farei. Obrigado. Adeus.

Sarah, querida!

Sarah, estiveste na rua.

Passei horas �s voltas.

- Querida, sabes que isso n�o � seguro. - Quis ver o que aconteceu.

Passaste pela casa do Bendrix?

Espreitei, mas levaram-no para o hospital.

- Hospital? - N�o estava ferido.

Foi um choque p�s-traum�tico, como lhe chamam.

Sarah, querida. Pareces muito abatida.

Tens a certeza de que est�s bem?

- O seu ch�, senhor. - Traga mais uma ch�vena, por favor.

Sim, senhor.

Vim para a cidade, mal soube.

Felizmente, foi antes do amanhecer, por isso, estavas em casa.

Tentei ligar, mas n�o consegui linha.

Havia muitas chamadas priorit�rias.

Aqui tens, querida. Bebe isto.

O que te aconteceu �s m�os? Est�o todas arranhadas e sujas.

- Tentei ajudar uma pessoa. - Receio que haja pouco a fazer.

- A sua ch�vena, senhor. - Obrigado.

� a subtaneidade destas coisas.

"Senhor, livrai-nos da morte s�bita."

Sim, todos rezamos por isso.

Tu rezas, Henry?

- Todos somos ensinados a faz�-lo. - Mas rezas?

Na igreja, quando l� vou.

N�o achas que � tudo supersti��o?

A igreja, as ora��es, as promessas a Deus...

- e tudo aquilo? - Francamente, Sarah.

Em que acreditas, Henry?

Em todos estes anos casados eu nunca soube realmente.

Nem nunca perguntei.

Acreditas que existe um Inferno e um C�u?

E uma alma imortal e um Deus que recompensa, castiga...

e que responde �s ora��es?

Bem, n�o � algo que se discuta enquanto tomamos um ch�.

Bem, porque n�o?

Se existe um Deus, Ele fez-nos como somos,

a comer, a beber e a dormir.

E n�o apenas sentados na igreja aos domingos.

Qual � a tua religi�o, Henry? Em que acreditas?

Na verdade, � bastante simples. Uma pessoa d� o seu melhor.

Sarah, o que foi?

Sarah, querida, isto foi demasiado para ti.

Vais para o campo comigo. � in�til negares,

porque j� decidi. Vejamos.

Se fizeres as malas j�, ainda apanhamos o pr�ximo comboio.

Estarei fora em muitas reuni�es, mas � uma zona tranquila.

E poder�s descansar.

Digo-vos, � tudo uma ilus�o, um truque!

Acham que um Deus misericordioso ou Todo-Poderoso,

permitiria estes massacres? Estas mutila��es?

Se o homem foi feito � imagem de Deus,

foi para poder ser bombardeado?

As pessoas anseiam por uma mensagem de esperan�a.

Que esperan�a haveria se todos no mundo soubessem...

que n�o havia mais nada para al�m do que temos aqui?

Nenhumas recompensas futuras, compensa��es, puni��es.

Ent�o, come�ar�amos a tornar este mundo num verdadeiro para�so!

Dou aconselhamento privado

- Ouviu-me falar no parque? - Sim.

L� tenho de expor as coisas de forma simples, levar as pessoas a pensar por elas.

Come�ou a pensar por si mesma?

Penso que sim.

- N�o pertence a nenhuma igreja? - N�o.

- N�o tem nenhumas cren�as religiosas? - N�o.

Ent�o, n�o percebo porque se sente na obriga��o de cumprir essa promessa.

Bem, foi mais do que uma promessa.

Foi uma esp�cie de ora��o.

- E foi respondida? - Sim.

Por quem?

Por Deus, acho eu.

Acima dos bombardeamentos e das preces dos soldados,

um ser supremo ouviu a sua precezinha?

Faz isso parecer uma grande tolice.

Um ser que disse: "Ela pediu com tanto jeitinho,

"que � melhor arranjar tempo para tratar do que ela quer."

Minha cara Sra. Miles, n�o acredita nisso, pois n�o?

N�o quero acreditar. Por isso � que estou aqui.

Pelo que me conta, passou por uma experi�ncia muito traumatizante.

E � natural que esteja confusa.

Principalmente, depois de ter imaginado que a sua prece fora atendida.

� como uma crian�a que tem medo do escuro e grita: "M�e."

E quando a m�e acende a luz,

a crian�a acha que ela � toda-poderosa.

Mas poderemos ser crian�as toda a vida?

�s vezes, uma pessoa gostaria de ser.

Mas continue. Conven�a-me.

Nunca teve ningu�m com mais vontade de se converter.

E depois acabou, acabou a guerra.

E fui com o Henry para o St James Park...

assistir �s celebra��es do Dia da Vit�ria.

A multid�o no pal�cio estava bastante silenciosa.

Ningu�m gritou, cantou ou bebeu demasiado.

Estavam simplesmente felizes porque havia paz...

e n�o havia mais ataques.

As pessoas ficaram abra�adas ou de m�os dadas,

sem se preocupar se eram vistas ou n�o.

E depois a fam�lia real apareceu � varanda.

N�o eram l�deres como Hitler, Estaline, Churchill ou Roosevelt.

Eram apenas uma fam�lia que n�o fizera mal a ningu�m.

E houve um enorme sussurro carinhoso por parte da multid�o, como se dissessem:

"Conseguimos. Sobrevivemos. Mantivemo-nos unidos. "

E de repente, quis ter o Maurice ao meu lado.

Quis fazer parte da fam�lia.

Foi muito comovente, n�o foi?

Bem, agora j� podemos dormir.

Podemos?

Sarah querida, aconteceu-me algo bastante agrad�vel.

La contar-te, mas com tudo isto,

pareceu-me bastante insignificante.

- N�o queres saber o que foi? - Sim, claro. Desculpa, Henry.

Acabaram de me dizer que fui recomendado para Oficial do Imp�rio Brit�nico.

- Que bom. - � s� o primeiro passo.

Num ano ou dois, serei Comandante, e se correr bem,

quando me reformar, talvez me nomeiem Cavaleiro.

Parece ser muito importante, mas muito confuso.

- N�o podiam manter o mesmo nome? - Francamente, Sarah.

N�o gostarias de ser chamada Lady Miles? � tudo o que quero.

O pouco que alcancei,

n�o teria alcan�ado sozinho, tu sabes.

�s demasiado modesto, Henry.

Podias ter feito muito mais sem mim.

Sinto-me como se estivesse sem ti, Sarah.

Como assim?

Est�s sempre fora. Voltas tarde.

Sempre a dar longos passeios.

- Uma pessoa passa por fases agitadas. - N�o, receio que seja mais do que isso.

Deves dinheiro ao banco ou algo assim?

N�o. Quase n�o gasto nada.

- A tua m�e est� fatalmente doente? - N�o. Claro que n�o.

- Sarah querida, se te puder ajudar. - Sim, obrigada, Henry.

Ent�o, voltou.

- Lembra-se de mim. - Certamente.

Se me vai perguntar se mantive a minha promessa, a resposta � sim.

S� que sem qualquer virtude.

Faria muito melhor se voltasse a ser uma alegre pecadora,

do que continuar nesta tristeza.

Agora que sou o que chamam de boa, n�o fa�o bem a ningu�m.

Teve uma grande experi�ncia e est� a tentar rejeit�-la.

N�o pode.

Naquele momento de consci�ncia de Deus,

deu o primeiro passo de uma longa viagem.

Pode voltar atr�s,

mas nada mudar� o fato de que deu aquele passo.

Poder� vir a achar mais doloroso voltar atr�s do que seguir em frente.

N�o. O tempo � minha frente � intermin�vel.

Rezar poderia ajudar a torn�-lo mais curto.

J� rezei uma vez a mais.

Quando procuramos Deus, significa que j� O encontramos.

Mas n�o o quero. E o que quer Ele de mim?

O que Lhe posso dar a n�o ser um m�sero segundo lugar?

Receio que Ele esteja habituado a isso.

Que tristeza para Ele.

Enquanto sa�a, n�o conseguia perceber por que raz�o acendera a vela.

Por ostenta��o, imagino.

Mas j� devia saber.

Sempre que tenho um bom impulso, sou castigada.

Rezei e prometi uma vez, e olha o que me aconteceu.

E depois... Qual era o mal de uma vela de seis centavos?

E a ideia era bonita.

Uma chama t�nue que se eleva na escurid�o.

"Sarah, Sarah, claro inc�ndio, Nas selvas da noite ardendo"

Depois comecei a pensar se haveria alguma verdade no que o padre dissera.

Talvez devesse dar um passo. Dar uma oportunidade a Deus.

Afinal, se tudo fosse infundado, que mal podia fazer?

E se houvesse algum fundamento...

Pela primeira vez em meses, senti um leve tremor de felicidade.

Tinha quase medo de o dizer por temer que desaparecesse.

Quando voltei para casa, lembro-me de dizer:

"� apenas uma pequena centelha, do tamanho da chama de uma vela,

"mas d� luz e calor.

"Quem me dera conseguir mant�-la acesa s� por um bocadinho. "

Todos aqueles meses de perda e saudade...

e s� consegui dizer: "Tu."

Boa noite.

Usei todas as minhas for�as para conseguir subir as escadas e afastar-me dele.

N�o � justo!

N�o queres a minha f�?

Maurice, querido.

O mero fato de escrever estas palavras traz-te de volta para perto de mim.

E embora me seja dif�cil esquecer a tristeza no teu rosto,

quando nos encontramos na pra�a, sei que ainda me amas.

Pela tua vontade de me magoar.

E agora, meu querido,

pela primeira vez na minha vida, n�o me sinto insegura nem temo o futuro.

Sei que tenho de encarar as minhas velhas devo��es,

todos os meus velhos medos e promessas e v�-los na sua verdadeira perspectiva.

Pois sei que a �nica coisa que importa � que dev�amos estar juntos,

agora e para sempre.

Tinhas raz�o.

Podemos encontrar tranquilidade, estabilidade e amor eterno.

Maurice querido, esta � a primeira carta de amor que escrevo na minha vida...

e �-me dif�cil.

Demasiado dif�cil. N�o podia p�r aquelas coisas no papel.

Queria diz�-las todas, faz�-lo ouvir aquelas palavras...

para ver a desola��o a abandonar-lhe o rosto.

- Esperei por si toda a semana. - Sim, eu sei.

Tenho estado ocupada a fazer planos.

O que foi, Sarah? O que lhe aconteceu?

- Vim dizer-lhe adeus. - Adeus?

- Parece muito feliz com isso. - Sim. De repente, fiquei.

Bastante feliz. Sabe, vou voltar para o Maurice.

- Acabei por a convencer? - Ajudou.

Ajudei-a a encontrar uma sa�da desse p�ntano de medo e supersti��o?

N�o, Richard.

Ajudou-me a encontrar Deus. Ensinou-me a acreditar Nele.

- Ensinei-a? - Com o seu �dio.

Richard, n�o pode odiar algo que n�o existe.

N�o se zangue comigo. Eu tentei. Estive aqui e ouvi.

Sei toda a conversa e n�o acredito numa palavra.

Ent�o o monte de artimanhas acabou por vencer.

Mas fez um voto e agora tenciona quebr�-lo deliberadamente.

Bem, � isso que me tem tentado convencer a fazer, n�o �?

- Era por isso que vinha ter consigo. - Sim.

Mas que o quebrasse com fundamentos racionais.

Isso � acreditar em Deus e desafi�-Lo.

Isso assusta-o, n�o �? Mas a mim n�o me assusta.

Parece-me tudo muito simples.

Se posso amar Deus depois de tudo o que me fez sofrer,

porque n�o me poder� Ele amar, mesmo que O desiluda um bocadinho?

Para si � f�cil aceitar a ideia de Deus. N�o tem raz�es de queixa.

Mas porque deverei amar um Deus que me deixou nascer com isto?

Meu caro Richard, a sua cren�a � bem mais profunda do que a minha.

N�o suporto a sua piedade.

Adeus, Richard.

Sarah?

Sarah?

Onde est�s, Sarah?

- Sarah? - O que �, Henry?

- Est�s aqui. - Sim, estou aqui.

Chegaste cedo.

Sim. Fui beber um copo com o Bendrix ao clube dele.

E quando acabamos, j� n�o valia a pena voltar ao escrit�rio.

D�i a cabe�a.

� porque n�o tens os �culos postos.

Parti-os.

Amo-te, Sarah. Sabes disso?

Sim.

Sei que sou chato. Os meus amigos s�o chatos.

J� n�o fazemos nada juntos.

Em todos os casamentos isso acaba por acontecer.

- Somos bons amigos. - N�o.

N�o, nunca poderia pensar em ti como uma amiga.

Pode-se viver sem uma amiga e eu n�o posso viver sem ti.

- Henry, o que foi? - Nada.

- O Maurice disse algo que te perturbou? - Claro que n�o. Como poderia faz�-lo?

� s� que n�o consigo viver sem ti.

Porque, sabes, Sarah, � demasiado tarde para recome�ar de novo.

E eu n�o quero mais ningu�m.

N�o me importa n�o ter uma fam�lia, um filho,

porque sei que n�o podes ter.

- Quem te disse? - N�o interessa.

- A minha m�e? - N�o interessa.

E sabias, sempre soubeste?

N�o fazia diferen�a. Tinha-te a ti.

Querida Sarah, n�o tenho sido um grande marido,

mas aguenta-te mais uns anos. Eu vou tentar.

N�o te vou abandonar, Henry.

Prometo.

Mais uma promessa para manter.

E mais uma vez, fechava a porta ao Maurice.

S� que desta vez n�o podia culpar Deus. Fui eu a fechar a porta.

N�o posso continuar a escrever neste livro. Tornou-se apenas um registro de dor.

Quero estar com o Maurice, como estava nos velhos tempos.

Quero comer sandu�ches com ele.

Quero estar com ele a beber num bar. Estou cansada e n�o quero sofrer mais.

Quero o Maurice. Quero o amor humano normal.

Boa noite. Fala a Sra. Miles.

Eu sei. Reconhe�o a tua voz, Sarah.

Tu!

N�o. Por favor, n�o. N�o te posso ver. Estou na cama.

Estou a falar de l�. Isto �, estou doente.

Bem, n�o, n�o � nada. � s� uma grande gripe.

Ouve, Maurice, por favor, n�o venhas c�. N�o te posso ver.

Bem, n�o estarei aqui. Levanto-me. Digo � criada que n�o deixe entrar ningu�m.

Por favor, Maurice, pe�o-te.

H� muito tempo que n�o te pe�o nada.

Maurice querido, por favor, promete-me que n�o vens.

Juro-te que me levanto, me visto e saio de casa, se n�o prometeres.

T�xi!

Sarah.

Maurice.

Fizeste-me sair de casa, da cama.

Pelo menos, deixa-me em paz aqui.

- A paz � para os velhos e derrotados. - E para mim, se a conseguir.

Mas n�o � vida. H� paz e esquecimento numa campa.

- Sim. - Mas ainda n�o. N�o para nos.

� aqui que recome�amos de novo. Toda a tristeza fica para tr�s.

A culpa foi minha, Sarah. N�o confiei em ti.

N�o sabia o suficiente acerca de ti. Mas agora estou seguro.

E tu tamb�m, Sarah. Tu tamb�m.

- N�o, tenho medo. - J� n�o tens de ter.

Ouve-me, com muita aten��o. N�o podes andar por a� com uma gripe dessas.

Quero que v�s para casa e te trates durante uns dias.

Vou encontrar uma casa algures no campo onde podes estar tranquila e repousar.

N�o me aproximarei de ti enquanto n�o resolveres tudo com o Henry.

N�o me importo de esperar.

Posso esperar anos, agora que sei o final da hist�ria.

N�o, Maurice. � demasiado tarde.

Porque Ele n�o te deixa?

Tens medo Dele?

N�o encontraste a f�, mas o medo.

Por favor, deixa-me estar.

Para Ele te destruir? Chamaste-me amante ciumento.

Mas nunca exigi de ti o que Ele exige.

Disseste que o meu amor era demasiado possessivo,

mas n�o � nada comparado com o Dele.

S� queria o teu amor. Ele quer a tua vida!

- Tem piedade de mim! - Ele mostrou alguma?

- Ainda assim, agarras-te a Ele. - N�o ou�o.

- Porque temes a verdade. - Maurice, por favor.

Por favor, n�o me fa�as sair daqui.

Porque n�o? Este lugar n�o � um ref�gio, � uma pris�o.

Podemos ter uma vida juntos. Uma boa vida.

N�o deixes que Ele te tire isso.

Deu-te algo mais para al�m de sofrimento, solid�o e desespero?

Eu criei tudo.

Criei a minha solid�o e o meu desespero.

N�o procurei Deus. Inventei Deus para servir os meus prop�sitos.

N�o, Maurice, n�o me tentes.

Lutei mais contra a f� do que lutei contra o amor e perdi as for�as.

Amo-te, Sarah. Nunca ningu�m te amou tanto.

Vamos ser felizes.

O Henry s� ficar� ferido no seu orgulho. E o orgulho depressa se cura.

Encontrar� um novo h�bito para tomar o teu lugar.

Vamos embora, Sarah. Ningu�m nos pode impedir.

Amas-me. Vamos passar a vida juntos.

Ningu�m nos pode impedir.

Agora devias ir para casa, Sarah. Est� frio.

N�o me importa o frio.

E est� escuro. Posso acreditar em qualquer coisa no escuro.

Acredita em nos.

Era a isso que me referia.

N�o devias ter fugido de mim daquela forma.

N�o era de ti que fugia.

Por favor, Maurice, deixa-me agora.

- Devias estar na cama, Sarah. - Em breve estarei.

S� quero que me deixes aqui.

- Promete-me que n�o te demoras. - Sim, prometo.

Est�s a dizer-me a verdade?

N�o est�s a planear voltar a fugir de mim?

Maurice, querido Maurice, n�o tenho for�as para isso.

Vou tratar de tudo.

S� tens de pensar em ficar boa.

- Deus te aben�oe. - Deus te aben�oe.

Esquecera-me de t�o nobre � este terra�o.

E bastante abrigado do vento. A Sarah sempre gostou dele.

� estranho imaginar a Sarah doente.

N�o est� propriamente doente. � mais uma quest�o nervosa, penso.

Pensei em si por isso, Menina Palmer. Ela precisa de cuidados.

A Sarah sempre precisou.

Teve uma inf�ncia t�o inst�vel.

- Conheceu-a nessa altura? - Conheci o pai dela. O verdadeiro pai.

� muito parecida com ele, leal, afetuosa e alegre,

mas sempre a precisar de algu�m.

Ele morreu quando ela tinha dois anos.

A que horas a vai trazer amanh�?

Na carta sugeri o comboio do meio-dia. Assim posso regressar no mesmo dia.

A Sarah aqui p�e-se boa depressa.

Sabe como fazer-nos sentir em casa.

� um dom que as velhas criadas t�m. Para al�m doutro.

- Qual? - Ser intrometida.

Espere aqui. Vai haver bagagens.

Diz � Sra. Miles que estou aqui, por favor?

O Sr. Miles vai receb�-lo. Est� l� em cima na sala de visitas.

Obrigado.

Entre. Sou a m�e da Sarah, a Sra. Bertram.

- Chamo-me Bendrix. - Sim.

- Quer um c�lice de porto? - N�o, obrigado.

N�o costumo vir c�, mas a Sarah estava doente e o Henry mandou-me buscar.

- O Henry mandou-a buscar? � grave? - � uma gripe muito forte.

Anda assim h� semanas, a entrar e a sair da cama.

- � um mau Inverno para gripes. - Aqui est� o m�dico.

Bom dia, Sra. Bertram. Como est� a nossa doente?

A enfermeira diz que dormiu melhor.

�timo. Significa que est� a reagir � penicilina.

No entanto, deviam ter-me chamado mais cedo.

- A Sarah n�o gosta de m�dicos. - N�o. Como a maioria das pessoas s�s.

Sempre foi saud�vel. S� teve sarampo e varicela.

E n�o foram graves.

Isso agora ajuda-a. O Sr. Miles est� l� em cima?

Sim. Ele n�o a larga. Est� muito preocupado.

Ficou muito chateado quando ela saiu da cama...

a arder em febre e andou na rua � chuva.

Foi uma noite terr�vel. Foi quando chamou o Dr. Collingwood.

O m�dico n�o parece muito preocupado.

N�o e � um especialista. O Henry chamou o melhor.

Devo dizer, que ele deu tudo � Sarah. � o que me consola.

Quando as coisas correm mal, digo: "Pelo menos, a Sarah teve tudo."

Tudo menos uma coisa.

De certo modo, isso preocupava-me. Atormentava-me.

O qu�?

Nunca contei a ningu�m.

Acho que estou um pouco �bria.

- Acha que estou �bria, Sr. Bendrix? - N�o, claro que n�o.

Sabe, eu era cat�lica,

mas o meu marido n�o era e n�o me deixava ser.

E ele estava sempre a ver a sua primeira mulher, por isso, zanguei-me.

Disse � Sarah, tinha ela dois anos: "Vai ser o nosso segredo."

Mas foi uma bela vingan�a, n�o foi?

- Uma vingan�a contra quem? - O meu marido, � claro.

Est�vamos em Fran�a e eu n�o sabia bem as palavras,

mas o padre f�-lo e regressamos antes do almo�o.

- Fez o qu�? - Batizou.

Claro que ela n�o sabia o que era, mas eu sabia.

Sempre esperei que fosse como...

- Como uma vacina. - Sim.

Achei que a impediria de cometer os mesmos erros que eu.

Todos aqueles maridos e nem um que valesse a pena.

N�o se marca a vida duma crian�a de dois anos salpicando-a de �gua...

e murmurando uma ora��o.

Al�m disso, n�o parece que tenha resultado consigo.

Tive muitas tenta��es na minha vida.

Al�m disso, n�o acreditava muito.

Mas espero que no fim d� bom resultado.

Acha que devia ter contado ao Henry?

- J� � um pouco tarde, n�o �? - Sim, tem raz�o.

Agora percebo isso. S� se ela ficar muito doente.

- Preciso de lhe pedir um grande favor. - Sim, Sra. Bertram?

Cheguei hoje de Brighton t�o � pressa,

que me esqueci de p�r o dinheiro na mala.

Se estiver ao meu alcance.

- Pode emprestar-me � 2? - Claro.

De repente, ficou tudo muito sossegado l� em cima.

Voc� tinha tanta certeza.

Nunca vi nada assim. A vida dela parece que se esvaiu.

Pouco antes do fim, come�ou a chamar: "Pai."

N�o podia ser o pai dela, pois n�o? Ela nunca o conheceu.

Sarah, tenho medo.

Exmo. Sr. Maurice Bendrix 4 Astor Gardens - W. I.

Querido Maurice, escrevo em vez de telefonar.

N�o posso telefonar e ouvir a tua voz ficar estranha,

quando te disser que n�o vou partir contigo.

Porque n�o vou.

Amo-te e n�o te posso voltar a ver.

N�o sei como vou conseguir viver nesta dor e saudade...

e estou sempre a pedir a Deus que n�o seja duro.

Aprendi que temos de rezar como fazemos amor,

com tudo o que temos.

Maurice, meu querido, acredito que Deus existe.

Acredito em todas as artimanhas. N�o h� nada em que n�o acredite.

Ca� na f� da mesma forma que me apaixonei.

Nunca amei como te amo a ti.

E nunca acreditei em nada como acredito agora.

Maurice querido, n�o fiques zangado.

Estiveste sempre ao lado Dele sem o saberes.

Odiaste em mim as coisas que Ele odeia.

Contribu�ste para a nossa separa��o com a tua ira, o teu ci�me e o teu amor.

Como v�s, �s uma parte disto tudo, Maurice,

tal como �s uma parte de mim e ambos somos uma parte de Deus.

Adeus, meu grande, grande amor.

Como queiras, Sarah.

Acredito que est�s viva e que Ele existe.

Mas estou cansado.

D�-me um tempo, Sarah.

D�-me um tempo.

FIM

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