All language subtitles for Quattordici Giorni – Una storia d’amore

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Original subtitles

Senhora, não houve um contato próximo

com quem testou positivo. Ou seja, o risco é mínimo.

Faça um check-up e ligue se tiver algum sintoma.

- Mas, doutor, eu posso sair? - Você é o marido?

- Isso. - E moram juntos?

- Moramos. - Serve para você também,

por ter tido contato.

O único contato que tivemos foi quando ela cuspiu em mim.

Olha, doutor, eu só fiz isso por raiva

e é o que mais sinto agora, que estamos nos divorciando.

Dá para parar de falar da nossa vida?

Foi você quem saiu contando que cuspi na sua cara.

Não sou esse tipo de pessoa, só cuspi essa vez.

- Com licença. - Diga, doutor.

Não é opcional, a lei manda ficarem em casa.

- Ou podem até ser processados. - Claro, doutor.

É questão de respeitar e entendo perfeitamente.

Como isso de "senhora" também, saiba que somos colegas.

Que loucura está dizendo? Não é médica, é massagista.

Não, eu sou osteopata formada. Portanto, médica.

Sei, como se você fizesse cirurgias de coração aberto.

O máximo que fez foi massagem para evitar a dor.

Você é um imbecil mesmo. Tempo passa, e você não muda.

- Com licença. - Fala.

- Entenderam? - Entendemos, doutor.

Obrigada e desculpa. Tchau

Até mais tarde, então.

PRIMEIRO DIA

Espera que compro uma passagem de trem para me jogar.

Olha, Lorenzo.

Nem ouse querer usar esses dias

para me dizer com detalhes por que queria ir embora

e todas as idiotices que já me imagino.

Já temos resolvido o que importa.

E é óbvio que dormirá no sofá.

Além disso, fingiremos que você já tinha ido embora na sexta.

Como estava prestes a fazer.

Estava prestes mesmo. Foram dois dias me humilhando.

Marta, eu queria ir embora sendo honesto.

- Honesto? - É.

Do que está falando? Faz seis meses que me traí!

São sei meses, pelo que sei.

Porque você a conheceu...

A conheceu durante o julgamento.

Quando ela perdeu o emprego

e se apaixonou pelo "Perry Mason" dos pobres.

E isso já faz um ano.

Um ano de traição, de mentiras e estupideces.

Não foi assim.

Não era que você não queria falar disso?

- Eu quero falar disso. - Falemos, então.

Quero esclarecer umas coisinhas, e você só me diz que sim ou não.

Veja se eu entendi.

Vai me fazer perguntas e respondo "sim ou não".

Exatamente isso.

- Se aquela... - Não! Se a Alessia.

Se aquelazinha não tivesse ligado 15 vezes lá em Paris,

eu não teria percebido e você continuaria com a amante

vai saber por quanto tempo.

- Não. - É verdade!

Responda que sim.

Então fique falando sozinha!

Faça as perguntas e responda também!

Estava na cara.

Ou para que ele ligaria de um número desconhecido,

a não ser que não quisesse que eu soubesse.

Até para mim, que sou distraída e filha da mãe,

se alguém liga 15 vezes de um número desconhecido,

eu perceberia. E foi o que houve, né?

Agora, faça-me um favor e ponha o nome dela no contato.

Nada de se esconder.

Ou pode pôr algum apelido, sei lá, tipo:

"Tesouro", "Vida", "Amorzinho" ou "Amada".

Marta, por favor...

"Por favor" o quê?

Você nem foi homem de me contar

após 15 anos de relacionamento.

Queria ter contado e ia contar,

era o combinado entre mim e a Alessia.

Entende? O nome dela é Alessia.

Vou chamá-la como eu quiser.

Tá, Marta, mas isso era questão de tempo.

Teria contado nessa semana, ou no máximo um mês.

Mas claro, afinal, você é um homem sério, não é?

Por que acha que não aluguei a casa lá de Gaeta?

Já era certo que eu ia passar o verão com a Alessia,

e não com você.

Mas, não entendo.

O telhado estava com goteiras...

O coitado do dono não tinha dinheiro para consertar.

E as frutas miúdas que deram por causa da geada...

Inventei tudo.

As frutas que dão são enormes, o telhado está perfeito

e poderíamos ter alugado a casa.

Ora bolas.

Mas se já tinha tudo reservado para passar as férias por lá...

Reserva nenhuma. E o que isso tem a ver?

Se já tinha decido me deixar,

por que não aproveitou quando eu o expulsei?

Eu já falei o porquê.

Não posso terminar as coisas dessa forma bruta.

Eu ainda amo você.

Nunca mais se atreva a dizer que ainda me ama. Ouviu?

NÚMERO DESCONHECIDO

Alessia?

É o Sr. Lorenzo Marziali da Plaza del "Xi"?

Não, é Pio XI, são números romanos.

Sr. Marziali, tenho uma oferta imperdível.

Vou interrompê-la porque não é uma boa hora.

Se mudar de operadora, terá a oferta de 50%...

Não me entendeu? Agora não é uma boa hora.

Ei, estou dizendo que não é uma boa hora.

Estou me divorciando...

Parece uma boa hora para aproveitar essa oferta.

E tem um brinde a mais. Você gosta de esportes?

Que homem não gosta, né?

Quando começar os campeonatos de futebol...

SEGUNDO DIA

Atum e óleo?

Óleo.

Bem, vamos comprar dez latas de atum

e quatro pacotes de massa. O que você acha?

É ela?

Está em Roma?

Sim, ela acabou de chegar.

Você falou pra sermos honestos e contar as coisas para o outro.

E, capaz, contarmos algo que nunca dissemos antes.

Sim, eu acho isso mesmo. Mas olha, em cinco minutos...

Ela mandou você ficar aqui, e não ir para a casa dela?

Não.

Foi você que decidiu ficar aqui?

Sim, eu que decidi ficar aqui.

Por quê?

Para que pergunta?

Estava com medo de infectá-la se você desse positivo?

Foi por isso, Marta.

Ela não hesitou?

Se conhecem tão pouco tempo

que ela se arriscaria por você, não é assim?

Você não quer conversar, só quer atacar.

Não, isso é o que você diz,

já que é um craque nisso. Mas bem, é da minha conta.

Escute bem como são realmente as coisas.

Ela veio aqui em Roma por causa de você.

Falou para você ir pra casa dela pois ela queria vê-lo

e que não se importava em se arriscar.

Foi isso. Livre, ousada e sem preconceitos.

Ela queria me ver, mas eu achei melhor não.

Vou ver isso aqui rapidinho.

Quero falar, mas você me interrompe.

Está aqui para protegê-la.

Prefere ficar aqui sofrendo para não colocá-la em perigo.

- Não. - Não?

Não, mas se quiser achar que é, faça isso.

Se sente melhor achando que estou aqui por isso...

O que posso dizer, hein, Marta?

Esqueci que está aqui porque ainda me ama.

Algo tão romântico que nunca vou me esquecer.

Não é errado dizer que ainda amo você

e que quero ficar aqui até saber se testamos positivos ou não.

Não inventa, Lorenzo.

Se você não fez isso nunca.

Igual quando lavava a louça.

Deixava as panelas na pia com água e sabão

toda a noite e no outro dia também.

Porque na sua cabeça, a louça se lavaria sozinha.

Só que novidade: Os pratos não se lavam sozinhos.

Alguém precisa fazer isso, nesse caso, eu.

Que vai enxaguar, secar e organizar.

Terminar o trabalho!

Tá, mas eu não entendo.

O que os pratos têm a ver?

É a mesma coisa. Me disse que ia embora

e que se apaixonou por outra. Que ia me deixar.

Mas continua estorvando aí.

Vai acabar eu te mandando embora e ainda arrumando as suas malas.

Espera aí, não sou um estorvo. Esta casa é minha.

E há uma pandemia lá fora, por isso estou trancado aqui.

Tudo bem? Trancado.

Mas vou embora assim que puder, fica tranquila.

Não precisa ficar me lembrando.

Eu mesmo faço isso, que podia ter me deixando antes,

mas vai me deixar logo no pior momento.

Até que enfim, o nosso casamento foi o pior momento.

Não, agora sim é claramente e universalmente o pior momento.

É o pior momento do mundo.

Daí, quando me deixar, eu vou ficar aqui sozinha.

Nem sei se conseguirei trabalhar de novo.

Sabe? Não sei se trabalharei, irei ao cinema,

verei minhas amigas ou terei uma vida normal.

Pois não sei se terei uma vida normal de novo.

E vou enfrentar tudo sozinha.

Me dá angústia ter que ficar sozinha.

Nunca estive sozinha na vida.

Droga!

E ainda sou jovem.

Claro que minha beleza é discreta.

Mas sou linda, ao contrário da sua namorada.

Se esqueceu das redes sociais?

Tipo: Facebook, Instagram...

Assim que eu soube o nome dela, fui procurá-la.

E, cá para nós, ela não larga o celular.

É selfie o tempo todo.

Não acredito que fez isso.

Quantos anos tem, 15?

Olha, posso dizer uma coisa?

Se fosse uma jovem e bonita, com uns seios e bunda maneira,

teria feito o que os homens da sua idade fazem, mas não.

Ela deve ser uns anos mais velha do que eu.

E olha, é mais feia do que eu.

Um segundinho. Compro biscoitos e mel.

E não digo só eu, a Francesca também acha isso.

Como é que é?

Ficam mostrando as fotos da Alessia para todos?

Ficaram doidas?

Que droga é essa? Se quer falar, vamos falar.

E o fato de ela não ser jovem ou bonita,

deveria deixar você feliz e aliviada.

- Aliviada? - Sim, aliviada.

Desculpa, mas não vê que isso mexe realmente com a minha vida?

É que não entendo por que ela, nem desejo justificativas.

Ela é professora de Letras?

É, na Universidade Católica de Paris.

Pelas dúvidas, a descrição dela não estava completa.

Então me explica, ela não é jovem nem é bonita.

Estou mais em forma do que ela.

Vou à academia todos os dias, vivo de dieta

e mesmo assim você a escolheu.

Isso mostra que o problema sou eu.

Você não gosta mais de mim, o problema sou eu.

Você não me ama mais.

Como eu posso ficar aliviada? Isso acaba comigo.

Eu vivia fazendo tudo por você, Marta.

Acabei ficando cansado e querendo mudar de rumo.

E esse rumo o levou alegremente à cama de outra mulher, né?

O que vejo ali na frente é o meu presságio.

Vou acabar igual a ela, dançando sozinha.

Na varanda parecendo uma louca.

Mas, tudo bem. Vou me acostumar, como sempre.

Tem suco de romã.

Só que vendem apenas no atacado. 12 garrafas de um litro e meio.

Vai quer?

O tempo está acabando, Marta.

Vai acabar, Marta.

E terei que fazer o carrinho de compras de novo.

Seria bom pode fazer isso.

É, seria mesmo.

Olha, pode acabar saindo pior, é melhor não arriscar.

Eu vou finalizar a compra.

- O quê? - Você apagou tudo.

- Eu apertei o verde. - Não, apertou vermelho.

TERCEIRO DIA

Pare!

Dez, nove, oito, sete, seis,

cinco, quatro, três, dois, um.

Isso! Continua!

Pensava com meus botões como você faria sem a academia.

Espera seis minutos, pode ser?

- Por que seis minutos? - É quando minha aula termina.

Malha apenas seis minutos?

Abaixar e levantar, algo científico.

E é um treino completo.

Pare!

- Oito, sete... - O que é isso?

- seis, cinco, quatro... - Descanso por dez segundos.

Não são seis minutos seguidos?

Quem é que está gritando?

- Para que tantas perguntas? - É que quero entender.

É um dos professores que tem.

Você pode escolher a voz.

Tem a professora bonitona,

o professor bacana e garotão

e o professor de ginástica, que é um pouco mais velho.

E você escolheu qual?

- É o sargento. - Sargento?

Seu besta, eu malho muito bem com ele.

Não é estranho um homem mandando em você a gritos?

Não, eu me sinto como na guerra.

Isso dá resultado?

Não, faço pra que gritem comigo, sinto falta de você gritando.

Claro que dá resultado.

São seis exercícios diários com dez segundos de descanso.

Não me faça falar.

Se tiver um ataque cardíaco, nem precisa ir ao hospital.

Vá embora daqui. Fora!

Não era para descansar.

Fiz isso para você se mandar daqui!

Não venha jogar a culpa em mim.

Isso! Vamos!

Não ria de mim ou lhe darei um tapa!

Não estou rindo, e sim, sorrindo.

Tá certo? Gosto de ver que você não desiste.

Só se eu for obrigada.

É o que Barbra Streisand fala em: "Nosso Amor de Ontem".

E continua: "Eu sei perder".

- Já você, não sabe perder. - Cale essa boca!

Fica mais difícil se não tem um incentivo.

Lembra daquele passeio na montanha em Piemonte?

- Era alta. Lembro. - Era.

Pena que não pudemos voltar por causa da sua alergia.

Não sou alérgico. Eu vivia mentindo para você.

Odiei aquele passeio e não queria fazer de novo.

Odeio montanha e tudo isso de natureza.

- Não queria fazer os passeios. - Como?

Eu juro.

- Por que está me contando agora? - Sei lá.

Ao vê-la cheia de energia me fez pensar sobre quem é você.

Sobre quem sou eu? Quem é você!

Você é um bosta e covarde!

Poderia ter me falando isso, né? Eu não ia te matar.

Aí você teria insistido,

e a gente teria feito.

Não dá para dizer não. Você tem energia demais.

Pare!

Parece que você aprendeu bem como mentir.

Cinco, quatro, três, dois, um. Vamos!

- Pode sair. - Não!

Lorenzo, saia daqui!

Não posso perder isso.

É isso.

Escuta. Eu não ligo para o que você pensa.

Eu faço isso aqui por mim, não por você.

Saiba que não será você quem desfrutará de me ver.

Espero que haja outra pessoa se não for assim,

eu mesma acariciarei minha bunda antes de ir dormir.

Não lembro de ficar checando se a sua bunda estava firme.

Não mesmo!

Na verdade, isso é algo que não lhe interessa.

Eu faço para Instagram.

Instagram?

Sim. Imagino a Alessia descansando nas termas

toda feia com aquele vapor. Enfim...

"Enfim..."?

Que apesar do vapor e tal,

dá para entender que ela esteja horrível.

É certo que ela não se esforça como você.

Dá para ver.

Foi incrível!

Certo. O show já acabou, pode sair agora, viu?

Pode me ensinar?

- O quê? - Esses exercícios.

Está falando sério?

Estou, sim. Tenho saudades de poder nadar...

Assim farei alguma coisa.

Mas você ia nadar de verdade?

Como assim?

Achei que mentia que ia nadar, mas se encontrava com a Alessia.

- Mas se há essa esperança... - Mas não há.

É claro que ia nadar

e preferia não falar disso.

Só quero que me ensine, nada mais.

Mas, olha, se você vai me zoar nem precisa me ensinar.

Tira os sapatos aí.

Bem, eu...

e você...

Vou pôr a professora bonitona, assim você presta mais atenção.

Dá na mesma. Pode pôr o sargento.

Não, vou pôr a bonitona.

Idioma italiano... e no ritmo intenso?

- São apenas seis minutos? - São.

Então, manda ver na intensidade.

A aula cansa.

Qual é, Marta. São seis minutos...

Vamos!

Bom, vem que já começou. Rápido!

- Ainda está no três. - Vem.

Se ela ficar chateada vai penalizá-lo.

- Quem? - Eu vou.

Encoste os dedos das mãos nas pontas dos pés.

- Começa! Um, dois, três... - Só isso?

...quatro. Abaixe a cabeça. Cinco, seis, sete, oito, nove...

Já ficou cansado?

Machuquei as minhas costas.

Mas é, né. Ué!

São apenas seis minutos, mas tem que aquecer primeiro.

Sim ou sim, você tem que fazer uns 20 minutos de aquecimento.

Avisam isso, assim não se machuca.

Você não me falou.

- Ué! Eu não falei? - Não.

QUARTO DIA

Ontem à noite enquanto jantávamos,

percebi o quão barulhento você é mastigando.

Faz anos que comemos juntos e só agora percebeu?

É sim e não.

No fundo eu sabia, mas pela convivência e amor...

fingia que não era nada demais, mas agora isso me irrita.

Posso ir comer em outro lado.

Não precisa, pode comer outro.

- É para eu comer outro? - Sim, isso vai me ajudar.

Não, obrigado.

Sério, isso vai me ajudar. Por favor.

Como quiser.

Vai me ajudar a perceber tudo que me irrita em você.

Mas não precisa exagerar, mastiga normal.

Sabe o que minha mãe falou para mim?

Que eu faço barulho quando mastigo?

Não, que você é meio rude.

Ela disse: "Ele é bonito e dá pra ver que ama você."

Me diz que é bonito e que me ama, mas é meio rude.

Sua mãe morreu faz seis meses,

e a gente nem vivia juntos. Ela nem me conhecia, tá?

Jantamos duas vezes com meu pai, não se lembra?

E eu fui rude nos jantares quinze anos atrás.

Eu não sei. Não me lembro.

Está na cara que foi intuição feminina,

porque ela tinha razão nisso.

O que quer com isso?

Continua ajudando você e mastigo mais um pouco?

Não, obrigada. Aquilo já serviu.

Hoje não consegui dormir nada.

Estava assistindo a um filme e não podia me concentrar, sabe?

Aí comecei a pensar

e lembrei de uma coisa que me dava nojo de você

e nunca disse.

- O quê? - As suas unhas.

Quando você corta as unhas em cima da pia, suja tudo,

limpa como a sua cara e sempre acho um pedaço de unha.

Um dia, acho perto das loções, no outro, na prateleira.

- Aquilo é nojento. - Que coisa rude.

Daí, acabei acordando e indo no banheiro

porque eu queria achar uma unha por lá

para provar o que estou dizendo.

Mas procurei em todos os cantos e não achei nada.

- Melhor assim. - É pior. Isso confirma tudo.

Confirma o quê?

De que nesta semana, você está melhor que de costume.

Está mais atento, alegre e ouso dizer,

que mais atencioso. Um adjetivo arisco para você.

Não entendo qual é o problema.

O problema é que o mocinho aí já sabia que ia embora de casa.

E ainda sabe, né? Aí só mostra a sua melhor parte,

e isso não me ajuda.

Vai saber. Não acho que fiz nada de diferente.

Mas, por favor!

Não finja que não é nada.

Não faz isso de propósito?

Um mês atrás, você chegou e me beijou de língua,

não o beijinho de sempre.

E então?

Então que faz isso de propósito.

E isso não me ajuda. É cruel.

Marta, eu só queria tomar café.

"Cruel", "rude"... E eu que sei.

Agora sou cruel só porque não achou minhas unhas jogadas.

Você acha isso normal?

Não vai me responder?

É que não sei o que responder.

Talvez que mastigo barulhento?

É.

Não faço isso de propósito.

Eu sei, obrigada.

Tudo isso é um absurdo.

Um absurdo.

Eu me sinto pequena, alguém mesquinha.

Tem gente lá fora com problemas, prestes a morrer.

Lutando porque perdeu tudo,

e eu passo a noite procurando uma unha no banheiro.

Procurando mais um motivo para odiá-lo e não amá-lo.

Enquanto eu faço isso, me sinto pequena

e me dá vontade de chorar.

Porque penso no mundo, que além da crise econômica,

e do vírus, talvez o mundo esteja em colapso.

E com tantas desgraças,

quem se importa se você me deixar?

Quem se importa?

Mas não é desse jeito, não mesmo.

Mesmo que assista as notícias,

apenas as mais catastróficas e pessimistas.

Por exemplo: Que disse que nós, nossos filhos

e netos viveremos com essa doença.

Quase como uma maldição bíblica.

Mas não, nem isso me ajuda.

Não consigo não ficar obcecada.

Talvez o mundo não seja mais como antes, mas...

Eu sou eu, você é você.

Só por causa disso, porque não enfrentaremos juntos.

Ou porque não me deixou há um ano.

Talvez tudo estivesse em paz,

e eu saberia como me virar sozinha.

Mas não, estou aqui procurando uma unha sua no banheiro

só para ter razão.

E lembro que você está com aquelazinha.

Que faz amor com aquelazinha.

Que seus corpos se tocam,

que você mete o pênis na vagina daquelazinha, e eu?

E é horrível lembrar disso.

Você me deixa com raiva.

E que não se importe com tudo que está ocorrendo no mundo.

Enquanto eu só penso em você.

Só que isso não é amor, talvez isso seja ódio.

Pequeno, mas é um ódio mesquinho de uma pessoa pequena.

Porque você está me deixando.

Você vai embora.

E faz com que sinta que sou pequena.

Nem venha me consolar ou mato você.

Deixe-me, mas que seja em paz, sem me magoar.

- Pode fazer isso? - Posso.

NOVA MENSAGEM DA ALESSIA

QUINTO DIA

Farei massagem no corpo todo. Está todo tenso.

- Todo duro. - Tirando aquilo do trabalho,

são cinco anos sem alguém me tocando.

Diziam que achariam alguém.

Já passou tempo demais para encontrar alguém, né?

- Não, assim, não! - O quê?

Olha só, assim não vai servir.

Você precisa relaxar, se soltar. Coloco música?

Não, prefiro o silêncio. Assim eu fico mais relaxado.

- O que foi? - Nada não.

Nem vem dizer que dói, não tem como.

Não é nada disso.

É bom demais.

Não achei que ouviria isso.

E eu que diria isso.

Deve ser que já faz tempo.

Uns 15 anos para ser exato.

Tenho minha regra de não trabalhar com familiares.

E há 15 anos, a gente não se conhecia.

Como não somos mais íntimos, não tem problema.

A primeira vez foi estranha.

Lá na casa da Gabriele, depois daquele jantar.

Na terceira vez, foi na nossa casa.

Sempre achei que aquilo era desculpa.

Que desculpa o quê.

Estava com dor e fui ver você.

Cá pra nós, não dava para tentar fazer algo na maca.

Seria algo estranho.

É verdade, você não tentou nada.

Nossa! Como isso faz tempo.

Sabe, eu achava que você estava me paquerando.

Ou não?

Bem, talvez.

Podia ter ido com outra pessoa, mas escolhi você.

Certo. Capaz teria sido melhor.

Bem, agora vira para fazer na frente.

Não vai virar?

Precisa mesmo?

Claro, tenho que fazer massagem na frente.

Seria melhor. Está doendo?

Não. É que...

- O quê? - Nada não, Marta.

Isso pode gerar...

uma situação um pouco estranha.

Poxa, não ria. Me sinto um idiota. Perdão.

Não estou rindo, e sim, sorrindo.

Não precisa se desculpar.

É algo normal, estou acostumada.

Não é o primeiro que tem isso.

Isso já aconteceu com você?

Nunca me contou. E isso não a deixa incomodada?

Isso é fisiológico e acontece quando se relaxa.

É que não achei que isso poderia acontecer comigo.

Mas olha, no seu caso, se poderia dizer que...

o corpo está revivendo algo.

O corpo tem memória, entende?

Não é algo apenas da cabeça, conta o que acontece no corpo.

O que foi?

Bobeira minha, é que deu vontade de chorar.

Só por que teve uma ereção indesejada?

Isso é normal

e existem muitos motivos para que aconteça, viu?

Ou é sentimento de culpa por causa da Alessia?

Não...

Não é sentimento de culpa.

Embora que... se ela souber não vai ficar nada feliz.

- Como assim? - Ela já está surtando.

Tem ciúmes de você. Ela é ciumenta demais.

Ela tem ciúmes de mim?

Que paradoxo! O mundo está de pernas pro ar.

- É só pensar. - No quê?

Ela não está tão errada se visse como estou agora.

Mas a gente vive brigando aqui.

Estamos trancados juntos na casa e não podemos sair.

Passamos dias brigando.

Mande-a vir aqui e verá como os ciúmes vão embora.

E, sinceramente, não rola fazer um problemão

por causa de uma ereção.

Sentir remorso, culpa e tal. Francamente.

Eu não queria chorar por isso.

Ué, não entendi. Por que era então?

Por quê? Sei lá.

Fazia tempo que não sentia as suas mãos em mim.

Nem lembro como me sentia.

Eu adorei.

Adorava sentir você.

Senti-la ao meu lado.

E não é algo sexual, não é disso que falo.

Senti-la realmente comigo.

- Obrigada. - "Obrigada" uma ova!

Não é um elogio!

Pelo menos, não agora.

Você vivia distante, Marta.

Eu ia para a cama e você se distanciava.

Pode acontecer algumas vezes, são de 12 anos de casamento.

Pra começar, não foram algumas vezes.

E não foi só na cama. Sentava no sofá, você saia.

Até na mesa, você ficava longe de mim.

Você não percebia o que fazia.

Parecia que a aborrecia, mas era algo corporal.

Olha, eu fiz vários testes.

Esfregava minha perna em você e tal,

nem tirava os olhos do livro e se afastava de mim.

É que eu fico concentrada quando leio.

Talvez, mas o problema era que eu não podia me aproximar.

E ficava no estúdio para poder evitar isso.

Ficava ali, querendo ou não.

Ou ia dar uma caminhada.

Tá bom. Você sozinho caminhando na praça.

Eu não conhecia a Alessia, se é isso que está insinuando.

Você não se lembra, mas isso foi anos atrás.

Eu sempre voltava para casa rezando para estar dormindo.

Mesmo o mais tarde que chegava, você sempre estava acordada.

Você falava que era por causa do trabalho.

Era verdade, mas podia ter trabalhado menos.

Mas eu evitava estar aqui.

Evitava ter que apagar a luz, virar para o outro lado,

e você continuaria lendo.

Sem nem dizer boa noite. Eu odiava aquele momento, Marta.

Por que não me disse antes?

Eu disse, sim!

E respondeu o mesmo que falou agora:

É normal perder a paixão após muitos anos de casados.

Não negue que isso é bobagem.

Está insinuando que é minha culpa

você ter ido buscar essa paixão em outro lado?

Só digo que ao me tocar agora, isso me fez chorar

porque não lembrava de como era.

E isso é triste.

Parece que não faço bem a ninguém.

Pode ser que tenha razão, eu deveria ter falado melhor.

Fazê-la entendesse na força e a prendendo na cama.

Já sabe o que direi, né?

Agora já sabe o que fazer ou não com aquelazinha.

Após 12 anos de jantares, de noites juntos,

de brigas e reconciliações, de férias,

de Natal, de aniversários...

Ela vai virar as costas pra você

e você vai falar: "Alessia, não pode ser assim,

ou nosso relacionamento já era."

Você deve tentar, sabe?

A experiência ajuda não cometermos os mesmos erros.

E isso era normal para você?

Fomos felizes e tivemos uma vida plena?

Acha que foi suficiente?

Não fomos muito felizes.

Pensei que nosso casamento era o suficiente

para podermos seguir em frente, sem importar o que fosse.

Não há como seguir em frente sem fazer nada, Marta.

Eu achava que viveríamos juntos,

que envelheceríamos juntos.

É uma pena que eu estava errada.

Mas eu continuo aqui,

me perdoe, mas foi você quem quis ir embora.

SEXTO DIA

Marta!

Marta, por favor!

Me ajude! Venha aqui, por favor!

Ai meu Deus!

Dessa vez é bem pior.

- É sempre pior do que o outro. - Não, desta vez é pior.

Está doendo demais o meu braço.

Sinto uma queimação e meu estômago apertado.

- Respire... - Estou com falar de ar, Marta.

Você precisa respirar. Tem que respirar fundo.

Tente se acalmar e respire.

Isso. Muito bem.

O que fará se algo acontecer?

Eu nunca tenho isso. Nunca!

Claro, a culpa dos seus ataques de pânico sou eu.

Você não ajuda...

O que eu faço aqui? Vou deixá-lo em paz. Boa noite!

- Estou implorando! Perdão! - Não, chega!

Tudo bem, desculpa.

Nunca mais direi isso. Não posso...

Brigamos a tarde toda e estou me sentindo...

mal, cansado e exausto, sabe?

Já, eu, adoro fazer isso, sabe?

Isso, respire.

Se você não tivesse respondido a Alessia...

- De novo isso? - ...não teria...

Só falei que estava dormindo porque tinha dor nas costas.

E que fez uma massagem em mim para melhorar.

Olha, sou osteopata, esqueceu?

Não sou a vizinha dando massagem. É meu trabalho.

Não tenho culpa que ela seja ciumenta.

Fiquei na varanda, mas isso não melhora.

Juro que não melhorou.

Tentei não pedir a sua ajuda, mas não foi possível.

- Não melhora. Eu sei. - Não melhora.

Eu já entendi.

Mas agora você tem que melhorar.

Fique calmo e se concentre, não podemos ir para o hospital.

- Não dá! - Não fala que é pior!

Vou enlouquecer sem poder ir para o hospital.

Lorenzo, tente se concentrar.

Pense nisso e respire.

Pense nas vezes que fomos ao hospital.

As enfermeiras da emergência já conhecem você

e o deixam passar na frente de todos.

E em todas as vezes, sempre falaram o mesmo.

Capaz elas estavam erradas,

ou estou infartando e não posso ir ao hospital.

Você não está infartando, está tendo um ataque de pânico.

Por favor, respire. Isso.

Isso, respire com calma.

Olha o silêncio, Marta. Não está percebendo isso?

É atordoante.

Quando pedem que faça silêncio. Aquele barulhinho.

É uma canção de ninar.

- Canta pra mim. - Me poupe!

Lembro que você cantou uma vez, e isso me distraiu e melhorei.

- Canta pra mim. - Olha, leia os meus lábios.

Eu não vou cantar para você, não vou.

Entendeu? Não vou. Eram outras épocas.

Fazíamos coisas absurdos um pelo outro, como cantar isso.

Sou desafinada demais.

Aquilo foi o passado e estamos no presente,

são dois mundos separados, que não tem ligação.

Respire.

Ouvi uma sirene.

Aí pensei no Gabriele, comigo.

Lembro que ele está no hospital sozinho, se pudesse...

Não, o Gabriele consegue.

Ele é forte, eu sei que ele conseguirá.

Não ajuda em nada falar do Gabriele!

Por favor, não faz isso.

Lembra... onde estávamos quando eu cantei para você?

- Não me lembro. - Não se lembra?

Mal tínhamos chegado ao Grand Canyon,

uma das sete maravilhas do mundo.

Eu sonhava ir ali desde pequena.

Assim que chegamos, você disse: "Tenho um ataque de pânico".

Lembra? Dizia que o lugar era remoto,

que os celulares não funcionavam

e parecia que as pessoas tinham se extinguido...

Aquele lugar é horrível demais!

Pessoas sensíveis não deveriam poder entrar.

Não sei como você se lembra,

se eu o carregava para que você não enlouquecesse.

Não pude apreciar nada. Nem as montanhas, ou redemoinho,

nem uma cruz ou alguém cuspindo. Eu não pude apreciar nada.

O Grand Canyon foi uma bosta para mim.

Ficava pensando em voltar lá.

Mas sabe de uma coisa? Farei o juramento de Rossella.

Aqui e agora, eu juro que irei de novo ao Grand Canyon.

Sério! Sozinha ou acompanhada, mas assim que puder, irei.

Eu sempre acabo rindo com o juramento de Rossella.

- Mas ela cumpre mesmo? - Quem?

Rossella, ela cumpre o que jura?

Você não a viu na casa do Alberto?

- Vi, o Alfonso me mostrou. - Então!

- Lembro de cor as linhas. - Mas que linhas?

Senhor, perdoe-o, ele não sabe o que diz.

Aqui está a linha. "Tara", a Terra.

Tara?

Essa não. Lembra onde me levou depois do Grand Canyon?

Sim, eu lembro. Não queria ir e depois ficou me agradecendo

do jeito que só você faz: "Las Vegas é vulgar".

"Que bagunça." "Só tem gente feia." E então...

Mas era vulgar mesmo.

Tenho uma recordação sua

entre as colunas de mármore, sob a estátua de Júlio César

agarrada como uma lunática que não ia soltar.

- Era nosso esquema: Eu e você... - Você e eu.

E juntos. Depois, ganhamos.

- Jacob. - Jack. Impossível.

- E quanto devemos ter ganhado? - Foi bastante.

- Mais ou menos... - Mais de 2.500 euros,

e nos deram um jantar.

Não foi só isso que nos deram naquela noite.

Voltemos aquele dia. Por que não aceitamos, hein?

Não. Eu não acredito nisso. Eu implorei a você, de joelhos.

Implorei como se fosse uma santa, Marta.

Não sabia que aquilo nos daria tanto prazer.

- Pois é. - Você tem isso engasgado.

Para mim, foi o Grand Canyon. Para você, o ménage com a loira.

Estávamos bêbados.

Comprei um vestido verde e feio que nunca mais usei.

Uma noite selvagem em Las Vegas. Só faltou nos casar lá.

Quase fizemos, já éramos casados e não queríamos documentos.

Éramos bem unidos nessa época e podíamos fazer qualquer coisa.

Claro, mas teve aquele ménage que você não quis fazer.

Verdade, mas não foi por causa disso.

Não achei que a volta à casa nos deixaria em crise.

Por que você não quis?

Eu tive medo porque ela era muito bonita.

Mas você era muito mais sexy.

- Sério? - Muito mais sexy. É sério.

Aquele vestido ficou lindo em você.

Não sei por que nunca mais usou.

E sabe, lembro bem que não foi fácil de tirá-lo.

Sério, me lembro de quando o tirei de você.

Está se sentindo melhor?

Estou, e não quero que você vá embora.

Eu também não.

- Boa noite para você. - Tá.

- Marta. - Quê?

Lembra como terminou aquela noite?

Lembro.

SÉTIMO DIA

Você precisa assistir a essa adaptação da Emma.

É boa?

A produção escolheu os atores

e será um filme mais moderno, mais, tipo, juvenil.

Diria que mais divertido.

Que bom que você gostou.

Sério, filmou tudo em 48 horas. Quer assistir?

Pode ser amanhã.

- Não quer assistir, né? - Sei lá. Isso é importante?

Não é importante, mas pude me distrair um pouco.

E sabendo que está preocupado com o Gabriele,

seria bom você se distrair, nada mais.

Um filme não vai me distrair.

Prefiro ajeitar isso para poder trabalhar depois.

Que coisa.

Você gostava de ir ao cinema no início do relacionamento.

Assistimos a retrospectiva de Kurosawa,

no cinema de Trevi.

E "Habemus Papam" com Nanni Moretti...

- É, assistimos. - Depois nada. Estranho, não é?

- O que foi? - Nada não.

- Tive um déjà vu agora. - Claro, sei.

É mesmo, vi que você ia me falar algo, e então...

preferiu não falar.

Não é nada disso, Marta.

Fala, assim eu posso conhecê-lo melhor.

O que poderia ser tão ruim assim?

- Nem é tão ruim assim. - Então fala.

Acontece...

Fala.

Não, é que...

Eu ia ao cinema, mas não ia por causa do filme.

Nem me importava com isso.

Enfim, se você tivesse querido patinar no gelo, eu iria.

Se você gostasse de cavalos, eu também gostaria. Era isso.

Eu não entendi.

Tudo aquilo que fazia com você era porque me fazia bem.

Como assim?

Você sabe, Marta.

Você falava sobre Moretti, eu pensava que depois do filme

e da conversa, a gente iria pra cama.

E quando conversamos horas

sobre o filme "A Época da Inocência"...

Sim, sabia que ao chegar em casa poderia dar uns pegas em você.

O que foi isso?

Sinceramente, eu não esperava isso.

Certo, mas você ficou feliz.

Feliz... e lisonjeada.

- "Lisonjeada"? - É, lisonjeada.

Isso quer dizer que houve

uma época que nada mais lhe interessava

porque só queria estar comigo, fisicamente.

Isso é lindo e eu gosto.

Gosta e fica lisonjeada

ao saber que em vez de assistir ao filme

ou ouvi-la falar e tal, eu pensava na sua bunda e seios.

É uma lembrança da época que...

Pensa comigo. Eu tinha medo de que soubesse.

Quero dizer: Foram 15 anos de discursos sobre feminismo,

pós-feminismo e a objetificação dos corpos femininos.

"Uma mulher é o que ela diz, é o que ela é",

- não é só um corpo... - O que importa isso agora?

E agora descubro, que no começo da relação,

o fato de não ter ouvido nada do que você dizia.

Falava até pelos cotovelos, não ouvi, e você gosta disso.

Por que faz disso algo político? Ou se eu sou feminista?

Não faço disso algo político, é algo pessoal.

Eu aceitei e a incentivei. Fui com você naquele protesto.

Fiquei com você nos três minutos de silêncio.

Era o único homem, e as mulheres me olhavam torto,

algumas pareciam até ter ódio de mim.

Do que está falando?

Foi importante para você, sim. E não era o único homem ali.

Mas foi importante que você tenha vindo comigo.

Nenhuma mulher olhava com ódio para você.

- Claro. - Você é paranoico.

Sim, claro. Foi importante...

- Foi! - Eu ter ido com você.

Escuta, estou feliz por poder me abrir.

Que bobeira minha. Agora sei que por três anos,

quando a considerada apenas...

Para transar, pode falar.

Uma companheira de sexo, é. E você gosta disso.

E por que não deveria gostar?

Não, você só gosta agora.

Se tivesse descoberto há 15 anos que eu fingia estar interessado

para poder levá-la para a cama, você teria ficado com raiva.

- Eu não sei. - Você não sabe?

Suponha que eu dissesse: "Dá um tempo e cala a boca.

Tô nem aí para o Kurosawa, vamos para casa para transar".

Não teria feito um escândalo?

Talvez naquela época, sim.

Mas agora, eu gosto. Só por isso vai me crucificar?

Não, de jeito nenhum.

- Só quero mostrar a contradição. - Que contradição?

Mas que pensamento pequeno.

Não me chateia saber aos meus 46 anos,

que antes o atraía muito e que queria viver transando.

Tudo bem.

Se eu fosse você, pensaria sobre isso.

Não deveria aceitar esse tipo de comportamento vindo de mim.

Sente isso pela Alessia?

O que ela tem a ver?

Quero saber se acontece com vocês.

Que ela esteja fazendo algo importante,

e você concordando para levá-la para a cama?

Acontece isso também com ela.

Não gosto de generalizar,

mas parece verdade que os homens pensam com o pênis.

- Não foi o que falei. - Não, mas eu estou falando.

Mas somos tipo máquinas!

Vocês, homens, são incríveis! E essas coisas me irritam!

Era de se esperar. Depois de 15 anos juntos,

você sai correndo de casa

pela primeira que faz seu pau levantar!

- Não foi bem assim. - Foi!

Uns minutos atrás, quando disse que sentia isso por você,

- você gostou. - E daí?

Dois pesos e duas medidas, Marta.

Seja firme nos seus propósitos.

Até parece que é fácil.

A vida é complexa.

É cheia de nuances, eu sou uma mulher complexa.

Não, você é contraditória.

Cadê a contradição então? Vejamos bem.

Só porque soube que fui desejada faz uns anos e gostei,

e que você deseja a outra, e isso me faz mal,

estou sendo contraditória?

Estou confusa.

Estou dizendo outra coisa.

Ter princípios são uma coisa, e a vida real é outra.

Não esperava isso vindo de você com seu passado, luta e esforço.

Ver você feliz porque eu achava a sua bunda bonita.

E o que descobriu com isso?

Que não se pode generalizar.

Não, que eu sou humana. Humana!

Que eu possa gostar de saber de algo tão banal e superficial,

que foi saber que você gostava da minha bunda.

E que ofende minha inteligência

ser considerada um objeto sexual.

Elas não são contraditórias, elas andam juntas.

Vão juntas. Mais ainda agora, do que aquela excitação antiga.

Será apenas uma lembrança daqueles velhos tempos.

Agora tenho 46 anos, não tenho mais de 31.

Nada mau! Parabéns mesmo.

Você acha que me deixou encurralada.

Eu acho que você está mostrando o quão cruel pode ser.

Desculpa, você tem razão.

Além disso, é bobeira discutir por essa lembrança.

Não é isso.

Vou foi conciso no que disse.

Também sabemos o quão inteligente é.

Só acho cruel lembrar disso logo quando está me deixando

pela outra que o excita mais do que eu.

Só queria provocar você, Marta.

Eu não sei. E sempre gostei do Kurosawa.

"Os Sete Samurais", aquilo que fala no final...

Não estou lembrando, mas bem...

Marta?

OITAVO DIA

- Não estou a fim de comer. - Coma.

O Gabriele não vai melhorar se você come ou não.

Valeu, mas eu sei disso.

Não precisa me tratar feito criança.

Não é uma comemoração, Lorenzo. É apenas um jantar legal

após uma semana complicada.

- Obrigado por cozinhar. - Não foi nada. Até gostei.

E chega de formalidades, não é nossa primeira vez juntos.

Se é para brigar, não como nada.

Não estava brigando. Eu juro.

Nossa vida era legal aqui?

Era, até antes de terminar.

O problema sempre foi a gente.

A casa é legal.

Deve ter muitas mais bonitas, mas essa casa era perfeita.

Não acha? Vou sentir saudades dela.

Para que está falando disso?

Francamente. O Gabriele está entubado.

Quer me dar culpa, é?

Juro que não estou reclamando. Acabei pensando e falei.

Mas não há pressa.

Pode continuar aqui por ora,

enquanto achamos uma solução.

Sei lá. Vendo a minha parte ou dou para você, não há pressa.

Obrigada, mas isso não.

Não pode ficar aqui em nome do nosso amor, por acaso?

Sério, não sou "O Fantasma de Canterville".

Sempre pensarei na gente, não importa onde eu more.

É que preciso fazer isso.

Seria como um final,

mas também o início de algo novo.

Isso é por vingança, não é?

Não, ouça com atenção, por favor.

É difícil o que eu pedirei, mas pense além do seu umbigo.

Até agora, você era tudo na minha vida.

E isso precisa mudar.

Eu preciso ser toda a minha vida.

Como dizem os psicólogos.

Quero mudar de casa, mudar de bairro...

Sei lá. Há uma parte triste, mas também há uma parte bonita.

Uma parte da aventura.

- O que foi? - Nada...

Estou esperando qual é a pegadinha.

Não tem pegadinha. Estou feliz por mudar de ares.

- Sério? - Sim, é bastante sério.

E a casa? Já pensou onde gostaria...

Bem, eu pensei em Testaccio.

Moraria mais perto do meu pai.

Isso traz vantagens e desvantagens.

Quero uma casa grande parecida a esta.

Uma casa confortável.

Devo achar um aluguel fácil.

Aluguel? Sempre dizia que era perda de tempo,

que com esse valor pagava um empréstimo e vai alugar.

Sim, eu pensava isso.

Mas para quem eu deixaria a casa?

É melhor morar em uma casa confortável e grande,

algo que nunca poderia comprar.

É sério.

Não estou dizendo isso por ressentimento,

eu estou animada mesmo.

- Acredita em mim? - Acredito, sim.

É importante para mim.

Você vai morar com a Alessia?

Talvez no começo.

Depois vamos procurar uma casa maior.

Algo de uns 40 metros quadrados.

Sei que é pequeno, mas será o suficiente.

Já pensou se nos encontramos por aí?

É capaz, estamos na mesma cidade.

Não, se nos esbarramos na imobiliária

- para pegar a mesma casa. - Espero que não.

Temos de superar a vergonha.

Não falo por causa disso.

Mas sim, que você ficaria com a casa.

Lembro de como conseguimos essa.

O que eu fiz de errado?

Você foi à casa do dono e pediu pra aceitar uma oferta

menor do que ele pedia.

Você implorou.

Dizia que não podia perder, que morreria sem o apartamento.

Não foi bem assim.

Eu disse ao dono que achava que seria feliz aqui,

antes mesmo de estar aqui.

E foi assim.

Sabe de alguma coisa?

Parece que já fez um futuro com a gente estando separados.

Quero dizer, já pensei nisso e não foi tão fácil pra mim.

Fiquei cabisbaixo e pensando demais.

Mas pensava coisas abstratas, hipotéticas, de um futuro.

E agora isso está acontecendo.

Está, sim.

Mas não é uma coisa ruim,

foi preciso ter coragem.

Você entendeu isso bem antes.

Ou seja, não nos separamos por causa da Alessia.

Estamos nos separando porque o nosso acabou

ou porque não fizemos por onde.

Não podemos ficar com raiva, a gente fez o que podia.

Eu sei, mas isso é estranho.

Sim, é mesmo.

Por favor, não fique triste.

Claro que dá tristeza, mas também tem sua beleza.

Tudo tem a sua beleza, Marta.

Até os furacões têm sua beleza, mesmo causando tantas mortes.

Vendo dessa forma, isso não significa nada.

É uma burrice fazer isso?

Eu acho que sim.

NONO DIA

Que alívio saber disso, estou muito feliz.

Já vou contar para a Marta.

Sim, vou ficar aqui por uns dias e depois vou embora.

Ótimo.

Sim, certo. Até mais. Até.

- Marta? - Quê?

É o Gabriele. Ele está melhor e deixou de estar entubado.

É, eu ouvi você falando. Que coisa boa.

Isso não.

Não é nada. Estou feliz e queria comemorar.

Tudo bem, mas melhor não.

- Poxa, ontem à noite fizemos... - Isso foi ontem à noite.

O que quer dizer com isso?

Significa que nada mudou.

Você tem uma amante, estamos nos separando

e você vai embora logo. Sendo assim, chega.

Então, ontem à noite...

Ontem foi uma noite especial e fizemos amor por isso.

Sim, tudo bem. Está trocando os lençóis...

Eu quero assim, entendeu? Quero assim.

Sei que ontem à noite já passou, e que hoje de manhã ainda não.

Eu fiz aquilo por pena! Prefere assim? Com licença.

Marta.

O que é isso? Você enlouqueceu, foi?

Não. Já que estamos aqui,

poderíamos trazer nossos amantes e dividir os livros.

Odiaria que viesse aqui quando não estou

e levasse algo que eu gosto.

Temos que dividir os livros agora?

Sim, temos, Lorenzo.

Não repita feito papagaio que me deixa maluca. Vamos!

Ótimo, vamos.

Já colocou as suas coisas aqui.

Não são "coisas". São romances

e contos que viraram filmes e seriados.

E eles estão ordenados.

Quando fez isso?

Quando estava uma pilha de nervos.

Mas como ia saber, né?

Devia estar com a Alessia e inventou desculpa esfarrapada.

Talvez tenha sido isso mesmo. O bom é que já ajudou.

- Pois é. - Bom.

"Romances que viraram filmes."

Sem sentido assistir a um filme que foi um livro que já leu.

Você sabe o que acontecerá. Então vai ao show das quintas,

com medo de perder alguma coisa.

E daí se você sabe o que acontece?

O que importa é a interpretação. Quanta ignorância.

Não é ignorância. Entendo isso da interpretação,

o que digo é que há um limite, não?

Você já viu seis filmes que vem do "Orgulho e Preconceito".

Foram quatro filmes, bem diferentes uns dos outros.

Tá, mas acabam do mesmo jeito. Eles ficam juntos. Estou errado?

Não sabia que Napoleão morre em Santa Helena,

Joana d'Arc é queimada viva, Kennedy é baleado,

Martin Luther King é assassinado brutalmente.

Lê biografias de pessoas mortas e sabe que morrem no final.

Que raciocínio é esse?

É o mesmo raciocínio.

O que importa não é o fim, mas como termina.

- Isso não o angustia? - O quê?

Ler sobre vidas que são mais interessantes do que a sua?

- Não. - Mas deveria.

Este livro aqui, do Agassi.

Ele ganhou várias taças do mundo.

O que você fez na sua vida?

O Agassi não ganhou taças. São 60 títulos ATP e oito Slams.

- Não sei do que está falando. - Se não sabe, não fale.

Entendo, ele ganhou bastante.

Já você, nem foi aceito na equipe que natação.

E isso? Eu nado para relaxar, não quero ir competir.

Claro, depois que soube que não entraria na equipe.

Não, todos sabiam disso antes.

Todos sabem que morando com você,

não me dá tempo de competir em outro lugar.

- Stephen King? Não! - São meus.

"O Iluminado", "Misery: Louca Obsessão"

e todos os outros que tem aqui, são meus.

Vão para a prateleira ordenada.

Ai, meus parabéns, espertinha!

- La Morante e Taylor, são meus. - Pode ficar.

Devia ler escritoras, não apenas escritores.

Talvez entenderia melhor sobre o humor feminino.

Acho que já entendo, sabe?

Estou dizendo que vou embora, não para virar casto num templo,

mas para ficar com outra mulher.

Desculpa.

Tudo bem. Você está certo.

Marta, faz a divisão você. Aceitarei o que vier, pode ser?

Não! Agora é a sua vez, eu vivia fazendo isso. Cansei!

E agora? Você tinha liberdade de fazer o que quiser.

Liberdade? Você lavava as suas mãos, a verdade é essa!

Ajeitei toda a casa, negociei o empréstimo.

Eu que escolhi este móvel. É só pensar.

Meu Deus, que chato, Marta!

Tá, vamos continuar. A História da Música é minha.

Imaginei.

Sabe de uma coisa?

Os ensaios sobre cinema e livros do Truffaut são meus.

Já falei pra levar o que quiser.

Carver?

Carver é seu, foi um presente.

Eu sei.

"De que falamos, quando falamos de amor?"

Presente de aniversário.

Não, foi um desses presentes sem motivos.

Em outras palavras, isso era um aviso.

21 de fevereiro de 2010. Tínhamos dois anos de casados.

- Mas veja só. - O quê?

A dedicatória. Depois diz que não faço coisas bonitas.

"Para minha esposa, a minha melhor amiga."

Não percebe o que significa? E só tínhamos dois anos juntos.

O que isso significa? Do que você está falando?

Passei de ser amante à amiga. Você me via como algo assexual.

Não demorou muito pra isso.

Do que você está falando, Marta?

Não sou eu quem está falando, foi você quem escreveu isso.

Você me pôs no papel de melhor amiga.

Se tivesse sido nas conhecidas, poderia ter rolado mais.

Onde já se viu que você transa

ou faz amor com a melhor amiga?

Agora percebo que você não entende nada.

Não do que falamos agora. Não entende nada em geral,

sobre a vida, Marta. Você não entende nada!

Não, eu entendo, só sou lenta para entender.

Deveria ter entendido na época que era o começo do nosso fim.

Eu era louco por você quando escrevi essa dedicatória.

Sim, claro.

Como é que não entende?

Que homem não gostaria de poder confiar tudo na mulher que ama.

Minha esposa e melhor amiga era uma só.

Como você não entende? É uma linda declaração de amor.

E o fato de não entender isso mostra que você não merece nada.

Nem deveria deixar esse livro com você.

Segura, é seu.

E peça a Deus para achar alguém que a ame como eu amei.

O que é difícil!

Muito difícil.

Lorenzo!

- Machucou a minha boca. - Sim.

Fico feliz por isso.

Sempre fica violenta ao saber que está errada, sempre.

Prefiro ter a boca machucada,

mas agora sei que você entendeu que só fala palhaçada.

Vou botar gelo na boca.

DÉCIMO DIA

O quê?

- Ué, estou tomando banho. - Eu vi.

Você acha isso normal?

O quê? Não entendo.

Que venha aqui como se nada tivesse acontecido.

E qual o problema? Conheço você de ponta a cabeça.

Até tive um revival no dia da massagem.

Você não me causa nada.

Desculpa, mas não vim aqui seduzi-lo.

Não pensei que queria me seduzir.

Melhor assim, faltam três dias para ir embora.

Você não entende que esse é o problema?

Que não quero seduzi-lo?

Não, você é o que fez tudo dar errado.

Eu?

Você estava acostumada comigo.

Entrava no banheiro enquanto eu fazia as minhas necessidades.

Era isso que você fazia.

O nome disso é intimidade.

Acontece quando duas pessoas vivem juntas.

É bem normal para muita gente.

E mais: É algo lindo. Muitos querem ter isso.

A intimidade não é isso.

Intimidade é quando...

Olha, não consigo pensar no quê.

Só digo que não é bom quando se invade o espaço do outro.

Não estamos jogando Batalha Naval

para eu invadir nada.

O nome disso é convivência. É aquilo que os adultos fazem.

Eles passam tantos dias juntos embaixo do mesmo teto,

que a necessidade de um é se completa com a do outro.

Claro, a necessidade...

E qual era a sua necessidade que não podia esperar?

- Fazer meu cuidado do rosto. - Exemplifique.

- E daí? - Responde.

Uso água termal para limpar o rosto da poluição residual.

Serve?

Poluição? Está todo dia em casa. Está vindo fumaça do teto?

Olha, isso é coisa minha. Me deixa em paz.

Tranquilo que na sua vida nova você não terá isso.

Alessia não faz isso.

Ela tem 50 anos, e a pele dela está pior

que a do índio de "Dublê de Corpo", lembra?

Tenha senso.

Foi brincadeira.

Como pode ficar de piadinhas se estou falando sério?

Eu sei, foi uma piada sem graça e já pedi desculpas.

Vá terminar de tomar banho.

Por quê? Eu não estou com pressa.

Foi você quem disse isso.

Tudo bem, não há problema.

É que não entendo por que se preocupa tanto.

Fomos casados por 15 anos,

para mim, é normal entrar enquanto você toma banho.

E você não quis outro banheiro quando reformamos.

Então fique com raiva de você mesmo.

Você sempre muda de assunto para me confundir.

Você estraga as coisas entrando quando estou no vaso.

Tento fazer e não consigo, ou pondo um supositório

ou a pomada de hemorroidas.

E você entra, indiferente, como se nada.

E aplica a loção para o cabelo. Você sempre faz isso!

O que está insinuando com isso?

Quero fazê-la entender como você matou o nosso amor.

A nossa paixão.

A nossa vida!

Como nos fez virar coinquilinos, que dividem o apartamento

e brigam para saber quem pagará o imposto.

Desde 2015 que os impostos estão em débito bancário.

Não. Quer me fazer responsável de ir embora com a outra.

Se você fosse diferente, teria aceitado essas mudanças.

Porque o amor se transforma.

Vira confiança e cumplicidade. Cresce e fica mais profundo.

Talvez se perca a paixão, mas ela está superestimada, né?

Para você, sim. Para a humanidade, não sei.

O que queria que eu fizesse?

Que comprasse brinquedinhos sexuais,

um chicote e outras coisas? Fala sério, viu.

Pessoas maduras não veem o relacionamento assim.

Elas se assumem.

A mudança está um pouco além.

Um pouco mais profunda do que o mistério.

Não tem como ter as duas juntas. E, o que é o mistério?

Claro, também está superestimado.

Não! Eu acho isso uma bobagem!

Dura um mês, dois meses. Quanto tempo pode durar?

E depois acaba.

Eu acho até melhor. Menos estresse e atrito,

mais sinceridade no casal...

Você não acha?

- Sabe o quê, Marta? - O quê?

Você disse que estava triste,

achava que íamos envelhecer juntos.

Mas escuta essa: Conseguimos, já estamos velhos.

Envelhecemos juntos,

como se tivéssemos sido casados até o fim.

Foi o que conseguimos:

Envelhecermos precocemente, não ter intimidade.

Não estou indo embora antes.

Estou indo e deixando para lá um casal de octogenários.

Do que está falando?

Assuma a responsabilidade.

Para você se sentir melhor?

Saia daqui. Isso vai me fazer sentir melhor.

Eu não vou sair.

Não me importa que esteja pelado ou com uma pneumonia.

Olhe bem para você.

Que droga é essa?

O que está querendo com "isso" molhado na minha bunda?

Estou curtindo o momento.

E quero me lembrar disso para sempre.

Por todas as vezes que me culpei pelo nosso fracasso,

vou lembrar que estava pelado,

enquanto você limpava o rosto de uma poluição imaginária.

Porque é o que somos, Marta.

É isso que nos tornamos, essa situação.

Que bom que você vai embora sem sentir culpa.

Sinceramente, se sentindo culpado ou não,

o único que quero é que você vá embora.

Bem... vou sair.

Porque já acabei, não porque você me pediu.

DÉCIMO PRIMEIRO DIA

Isso! Viu como se faz?

Sim, mas nem precisava. Isso aguentaria mais dez anos.

Eu me distraio fazendo essas coisas.

E eu gosto, me sinto útil.

Claro, é um novo sentimento. Posso entender você.

E "voilà".

Desde quando fala em francês? Agora que tem nova namorada?

Não começa.

Sempre tive um bom francês, antes mesmo de conhecer Alessia.

Ficou bom, né?

É estranho.

Não, por que estranho?

- Acho isso estranho. Sei lá. - Não, nada disso.

Eu me arrependo, Marta. Me arrependo por tudo...

- Do que você se arrepende? - De tudo.

Realmente, de tudo. Até disso...

vai dormir sozinha nela.

Não digo que para sempre,

eu não sei.

Adoraria que as coisas terminassem de outro jeito.

Me desculpa.

Acha que se fosse ao contrário, eu teria lidado melhor com tudo?

Teria.

Teria. Porque as mulheres...

- "As mulheres". Olha... - Posso terminar?

Tá, fala.

As mulheres são melhores. Eu não sei.

Vocês têm uma voz interior, uma consciência ou algo assim.

E pensam antes de fazer uma idiotice.

Alessia é mulher e não pensou. Poderia até ser uma assassina.

Não foi ela quem escolheu dar um passo a mais. Me perdoa.

Então as mulheres que pensam antes são as casadas.

Sim, é algo desse tipo.

Você... você não chegou a pensar

que pude ter tido tentações também nesse tempo?

Sim, claro.

Sim, digamos... Você diz isso, mas pensa nisso.

- Eu penso. Por que diz que não? - Não.

Eu disse isso, é como todo mundo.

Eu traí você.

Pois é.

Eu traí você, sim.

Você está me testando

para ver o que faço, se vou me vingar.

É o que acho.

- Você não acredita em mim? - Não.

Isso não quer dizer que acho que é impossível.

Porque acho que você teria me contando antes.

Por que eu deveria ter contado?

Para a gente se divorciar? Por que alguém contaria isso?

Para começar, você não perderia a chance

de esfregar isso na minha cara.

Essa é a primeira. E para ser sincera.

Barcelona.

Faz quatro anos, naquela viagem de carro.

Sim, a gente foi até Andaluzia.

- Exato. - Lembro.

Fomos daqui para Barcelona, eu dirigi toda a viagem.

Outra coisa para jogar na cara, enfim...

Quando chegamos naquele hotel perto da praia,

encontramos um casal de Milão bem bonito. Ele era advogado.

Falei para você me acompanhar, como sempre pedia.

E passamos aquela noite juntos. Se lembra?

Estávamos na praia e havia uma festa.

Era Ferragosto. Havia fogueiras na praia...

Não vi os fogos de artifício naquela noite na praia.

A gente ficava trocando olhares. Não conseguíamos parar.

Simone?

Quando voltamos para o hotel, eu não podia ficar no quarto.

Inventei uma desculpa para sair, para ir beber água, não sei.

Nem sei no que pensava ou queria realmente.

Fui até o bar... e ele estava ali.

A gente trocou olhares...

começamos a rir...

Tem uma coisa que não entendo.

No bar do hotel...

enquanto eu estava me preparando para dormir, como um imbecil,

você se encontrou com o Simone, no bar do hotel. E o quê?

Foram para um lugar e transaram?

Não fizemos isso. Não teria sido certo.

Pois bem. É verdade.

Trocamos nossos telefones.

Quando ele veio trabalhar em Roma dois meses depois,

ficamos juntos na casa que o amigo dele emprestou.

O que significa "juntos"?

Juntos, Lorenzo. O que fizemos na outra noite,

o que você fez com a Alessia, enquanto estava comigo.

Demos uma boa trepada dois meses depois. Só isso.

Você está falando sério? Não estou a fim de brincadeiras.

Não foi a única vez que ficamos juntos.

Nos encontrávamos sempre que ele vinha para Roma.

Quanto tempo durou essa historinha?

Eu quero saber.

Alguns meses, nos vimos quatro ou cinco vezes.

Depois nos escrevemos, falamos por telefone...

Já se passaram dez dias, Marta.

Dez dias jogando na minha cara,

me insultando, me fazendo sentir como um lixo, que cuspiu em mim!

E agora vem me contar história. E ainda me traiu por dois meses?

Bem, as coisas são bem diferentes.

Bem diferente. Você não percebeu nada,

e eu o protegi. Protegi nosso relacionamento.

Coisa que você não ousou fazer.

E talvez você esteja certo em uma coisa:

As mulheres pensam antes, sim. Você não disse pra quê e quando.

- Agora vamos falar das mulheres. - Vamos!

Temos essa capacidade de... não sei se todas, mas eu tenho.

De fazer o que desejava, medir as consequências e parar.

Nossa, como você é corajosa.

É sério, Marta.

Há quatro anos éramos felizes, não percebe isso?

E continuaríamos sendo, só que agora...

Agora não, você achou melhor não lutar mais por isso.

Mas eu fiz as coisas direito.

Fiz o que desejava, e você não percebeu nada.

É, você fez isso debaixo do meu nariz.

Mas não é verdade que você não mudou.

Depois daquele verão, você ficou insuportável.

Insuportável, Marta.

Eu mal tinha alugado o estúdio com uma assistente

e você ficou com ciúmes dela, bem naquele momento.

É que não sabia que você gostava de coroas.

Teria economizado muita energia. Ela tinha 24 anos...

Chega de piadinhas sobre mulheres velhas ou jovens.

Você e Cecília me cansam. Eu vivi seis meses infernais.

Toda vez que usava o telefone, eu via como você me olhava.

Você até mexeu no meu celular. Se lembra disso.

Você não era ciumenta, por isso eu não entendia.

Eu não a reconhecia, mas agora entendo o porquê.

Você sabia como era porque tinha feito também!

Enfim, só provou que eu estava certa.

Mas não há quatro anos!

Só havia sua mesquinhez, medo e sua baixeza jogada em mim.

Olha, você é bom em virar o caso.

Só podia ser advogado mesmo.

Agora está dizendo que...

por causa daquela minha aventura destruiu o nosso relacionamento.

Foi o começo do fim.

É você quem diz isso.

Só digo que quando aparece uma rachadura no relacionamento,

é normal que ela cresça.

Rachadura? Do que está falando?

- Não saberia, se não contasse. - É, não teria percebido!

Quantas vezes vai repetir, hein? Faz favor!

Não venha me dizer que sentiu ou percebeu isso.

Nem sabe quando estou de calça ou saia.

- Não. O fato é que você... - Ferrou a minha cabeça!

E depois de quatro, você cospe toda a sua merda!

Faz com que me sinta um idiota!

Um idiota que consertou essa bosta de cama para você.

Onde dormiu todo esse tempo!

Onde você dormiu todo esse tempo após ter dormido com ele!

Eu não dormi com ele, fiz amor com ele.

Conserta isso você.

DÉCIMO SEGUNDO DIA

- Por que desligou? - Cansei.

- Eu estava ouvindo. - Não aguento mais, fico nervoso.

Fica nervoso com isso?

Certo, não é nervoso, me deixa agoniado.

Faça como os suecos e finja que nada aconteceu.

Ou não vão parar de pensar.

Não teria como viver lá sem a vista para o Polo Norte.

Mesmo com tanta escuridão, porque é ali que o sol se põe.

- Não foi engraçado? - Não, por favor, não repita.

É meio contraditório isso.

Você desligou a TV, ou seja, queria se distrair.

Eu tento fazer você rir com isso dos suecos,

mas bem, posso fazer piadas mais alegres.

Eu não quero piadas alegres. Não é nada disso.

Só não quero ouvir a notícia

e ter que fingir que está tudo bem.

- Entende? - Sim.

Talvez você sinta isso também.

Mas é considerada, me vê mal e quer me ajudar.

Mas, por esta vez, não me ajude.

Certeza de que pode sozinho?

Olha que você não tem prática nisso.

Marta, por favor...

- Posso servir o vinho, então? - Eu quero.

Certo.

Eles são contraditórios no que dizem.

Essa ignorância, ao mesmo tempo, arrogância e presunção.

Todos acham que têm o direito de falar.

Isso me deixa nervoso.

Os especialistas voltaram atrás no que diziam.

É uma bagunça, não sabemos e não entendemos nada.

Não sabemos quando retornarão a vida normal.

Se isso os deixa em pânico, sentimos muito.

Mas como somos adultos,

diremos a verdade, em vez de mentir.

Seria mais honesto, né?

Além disso, estamos presos em casa.

Nem podemos ajudar de alguma forma.

Estamos quarentena.

Se saímos, nos mandam pra casa com um chute na bunda.

Eu sei. Mas quando a quarentena acabar

vou tentar ajudar com comida, ser voluntária em algum lado.

Mais útil do que pensar em você e em Alessia

comemorando carnalmente o reencontro de vocês.

- Muito mais útil, faça isso. - Eu farei mesmo.

- Abro outro? - Pode abrir, por favor.

Traz algo de comer da geladeira, ou do que você comprou.

- Tem muita coisa. - Não.

Comer nada, assim não limpamos depois.

- Quer entrar em coma alcoólico? - Quero.

É o mais sensato e útil que podemos fazer, eu acho.

Isso me assusta.

Não me chame de sou louca pelo que direi,

mas tem alguma coisa, não sei...

Chega a ser reconfortante, em termos.

Nos sentir brutos, pequenos e insignificantes,

como todo o resto.

Ou seja, não somos nada.

Estamos trancados nessa bolha, em casa, discutindo e brigando.

Mais brigas do que discussões.

Exatamente. Mas nunca me senti tão normal.

Bem, "normal" é um adjetivo feio.

Que nunca me senti assim, dentro de um grupo.

Junta do destino de tanta gente.

Pequena e insignificante, igual os outros.

Um pouco mais do que os outros, pra ser sincera.

Como não éramos fiéis, acabamos sem nada.

E se algo acontecer com a gente, só minha irmã e seu pai saberão.

Mas vai demorar alguns dias.

Não é algo fulminante, Marta. Todos percebem quando se adoece.

Não sei, viu?

Primeiro, os vizinhos.

Não vão ouvir a gente gritando e vão soar o alarme.

Vão pensar: "Ou estão mortos ou fizeram as pazes,

conhecendo-os, estão mortos".

Temos brigado muito ultimamente.

Evitou que pensássemos no que acontecia.

A gente brigava para não pensar?

Não, porque não suportamos mais um ao outro, e somos brabos.

Talvez por causa da sua amante. Tem que falar isso, né?

- É, mas a briga ajudou. - Bem, há de se dizer...

Posso trazer uma polêmica à tona para poder não pensar.

- Não, obrigado. - Sério, é só um segundo, juro.

Só pensar em alguma das coisas de você que me deixa com raiva.

Como... em Milão.

Principe di Savoia.

Finge estar com febre, resfriado para ficar com a Alessia.

Talvez na banheira perto da cama...

Você sempre me imagina em situações horrorosas.

Sejamos sinceros.

Fingir estar doente para dormir com a amante, é bem horrível.

Bem, é que naquela época, era tipo uma desculpa banal,

mas bem, não é horrível.

Não vou deixar.

Você não me fará brigar para não pensar.

Quero beber, para não pensar. O que pode ser meio perigoso.

Pelo menos, por momentos, porque fico mal quando brigamos.

- Você está com medo? - Estou.

Isso é estranho. Sempre dá a entender que você

quer que eu o deixe mal.

Juro. Minhas mãos ficam coçando para dar em você...

Olá, coisinha insignificante.

Olá, Lorenzo.

Que acha de ver quanto tempo podemos ficar aqui, mudos?

Tá, isso vai ser a última coisa que faremos juntos.

Que façamos bem, então.

DÉCIMO TERCEIRO DIA

O que é isso?

Precisava fazer isso após tantos anos.

Parece que estou morta. Por que isso?

Não, eu gosto de vê-la dormir.

Faz tempo que fica me olhando?

Achei linda agora, mas nunca tinha acontecido.

Já parou para pensar porque é estranho.

Talvez porque perde o sono.

Aí, você tem medo e se sente vulnerável.

Você sabe que nunca durmo bem. É algo menos poético.

E bebemos muito ontem e estou péssima.

- Vou fazer um café, licença. - Serviço de quarto.

- Como? - Pega o café.

- Obrigada. - De nada.

Não é fácil dormir aqui, já viu o barulho que eles fazem?

O menino faz bagunça e o grandalhão dá esporro nele.

Você fica espiando?

Pois é, eu sei tudo sobre eles.

Tomara que não façam o mesmo,

porque os shows que demos foram péssimos.

Sabia que o menino sempre foge da mãe?

Por quê? Você deve ter uma teoria.

Claro que tenho. Ela é a mais chata da casa.

Espera aí. E como você soube de tudo isso?

Fica em cima dele direto, mandando fazer isso ou aquilo

- com aquela voz estridente. - Ela não é irritante,

é o trabalho dela como mãe.

Nove de cada dez pais são ausentes.

Posso fazer uma pergunta?

Promete que não vai ficar triste nem com raiva.

Fala.

Como teria sido a nossa vida se pudéssemos ter tido um filho.

Um dia desses achei uma pasta entre os livros.

A amarela? Tinha um nome.

É, superoriginal. "O filho."

Tinha todas as listas de custos, tratamentos... todos os exames.

Sabe por que nunca mais olhei ali?

Parecia que aquilo havia sido há séculos,

mas foram apenas sete.

Teria a mesma idade que o filho dos vizinhos.

Você pensa nisso?

Sim, eu penso.

Agora tenho pensado muito mais.

Que se tivesse conseguido... se eu tivesse engravidado,

você não me deixaria.

Aí pensei que teria ido embora mesmo assim e seria pior pois...

teríamos brigado pela Alessia e por causa da criança.

Para ver quem ficaria no fim de semana.

Sabe? Eu teria...

Eu odiaria a ideia de ele ir à casa da Alessia.

Você teria ficado com raiva...

É como sempre. Fazer reflexões complicadas e,

pra piorar, otimistas.

Já você, sendo homem,

com essa natureza básica e otimista, o que pensou?

Que falta isso.

Que se tivéssemos um filho, gostaria de tê-lo em casa.

Não um filho qualquer, hein?

Não ache que não me importo porque sou homem.

Um filho com você.

Talvez teria sido do jeito que você falou.

Mas haveria um filho, sabe? Uma prova do que éramos juntos.

Então deveríamos ter feito como aqueles casais

que insistem e dão a volta ao mundo até conseguirem.

Não estou dizendo isso. Não me arrependo de nada.

Você não aguentava mais, e não podia tolerar vê-la mal,

como ficou depois do aborto. Nós fizemos o nosso melhor.

Lembro disso como se eu fosse livre.

Livre?

Sim, livre. Porque...

Lembro de onde estávamos quando decidimos isso.

No quarto dele.

Quando se tornou um estúdio, acabei não pensando mais nisso.

Foi como se me libertasse

daquele pensamento obsessivo de ter um filho.

Mas estou feliz da Alessia ser mais velha.

Não teria suportado saber que podiam ter um filho juntos.

Eu teria enlouquecido. É a mais triste verdade.

- Não saia daqui. - Aonde você vai?

Espere um minuto que já venho.

Anda, vem sentar aqui.

Quero dar um jeito nesse cabelo pra ir bonito para a Alessia.

Brincadeira. Nunca ajeite, porque eu não aceitaria.

- Senta aqui. - Poxa, Marta.

Eu sempre cortei direito. Tem medo de que faça besteira?

Deixa pra lá. Não acho que seja certo.

É íntimo demais?

Vamos fazer o que você quer.

A verdade é que não teria sido muito diferente.

E não teríamos sido mais felizes do que fomos.

Eu acho o mesmo.

Pela primeira vez, concordamos em algo.

É meio estranho.

- Posso? - Pode.

Só um pouco.

DÉCIMO QUARTO DIA.

A espuma de barbear.

Você se lembra de tudo.

Tem meias suas dentro do cesto de roupas.

Podia ter falado antes.

- Falta mais alguma coisa? - Eu que sei? A mala é sua.

Fala, Marta.

Não está faltando nada.

Você não quer atum, quer?

O atum, não.

Não vou comer tanto atum assim. Vieram latas enormes.

Não vou levar o atum. Além disso, a Alessia é vegana.

Ela é vegana? E só me diz agora, com licença?

Já tinha o bastante para rir da gente,

- não precisava rir disso também. - Eu não posso acreditar.

- Sabe que você ama mariscos? - Não.

- Que gosta de carne quase crua? - Não.

Não? Ela não sabe? E o que comem?

Tofu. Comem tofu.

Tofu, pizza? Pizza? Não.

Não rola muçarela. Pizza com tofu, não sei.

Vai querer falar disso no meu último dia?

São mentiras que a pele fica luminosa.

Que parece ter dez anos menos, tudo besteira.

E se analiso a foto que vi...

Marta, vou repetir: Vai querer falar disso no meu último dia?

Não.

Eu não quero. Desculpa.

Depois decidimos o que fazer com o resto, está bem?

Tudo bem.

Bem, dá para ver que é uma situação constrangedora...

Não fiz aquilo por pena.

- Como? - Não fiz aquilo por pena.

O quê?

Dormir com você quando entubaram o Gabriele.

Eu não fiz aquilo por pena.

Fiz aquilo porque queria e amava você.

E gostei muito, um pouco.

Fiz com medo de ser a última vez.

Eu menti também.

Eu tinha encontrado um lugar para ficar.

Apartamento mobiliado muito bom, parecia nas fotos.

Nem custou tanto. Poderia ter ido no segundo dia.

Não é agora que vai perguntar por que não fui?

Por que você não foi?

Porque não achei justo.

Queria ficar aqui com você, não fugir como um covarde.

Queria compartilhar tudo,

inclusive o risco e medo de se infectar.

Eu não queria ficar sozinho, e não queria deixá-la sozinha.

Não vai dizer nada?

Só consigo pensar em algo bem estúpido.

Fala, não seria a primeira vez. Você pode falar.

Obrigada. Obrigada por ficar comigo.

De nada.

Digamos que isso foi um gesto corajoso.

Sim, amansei a fera.

Não diga isso. Não.

Amansei a fera. É realmente...

Estava falando algo lindo, decente.

Quer dizer, não sei. Estava dando um grande discurso.

Não que fosse heroico, mas...

generoso, cuidadoso e faz essa analogia.

Quem é o touro? Eu seria os chifres.

- Mas não... - Por favor, não.

Você está certo, sou os dois. Não é elegante jogar na cara.

Perdão por não usar uma expressão feliz.

Mas meu gesto não foi ruim.

Não, foi muito bom. Eu disse que foi generoso.

Mas acabou mal, uma pena. Porque realmente...

Você está certíssima mesmo.

Não é comum que aconteça, mas dessa vez está certa.

Acontece direto, mas não importa.

Adeus, Lorenzo. Anda.

Bem, depois vemos o resto.

Se você aceitar, ligarei para saber como está.

Melhor você ligar.

Vai que a Alessia não gosta.

Quando liguei, ela ficou louca e quase teve um ataque. Parei.

Anda, tchau. Até logo.

Adeus, Marta.

- Apertei muito? - Sim, um pouco.

Quê?

É só um "adeus", calma.

Mas estarei sozinha com uma costela quebrada.

Acho melhor não.

- Adeus, Marta. - Até.

O que houve?

O que foi?

Nada.

Vou ficar aqui.

- Vai ficar? - Eu vou ficar.

Na verdade, você deveria perguntar: "Posso ficar?"

Não é automático voltar pra casa e eu aceitar você.

Tem que me perguntar se quero você...

Cale a boca!

Espere, Lorenzo, só um segundo.

Vamos parar um pouco pra pensar.

Brincadeiras à parte,

não vamos fingir que não passou e que a Alessia não existe.

A gente se beijou e fizemos amor.

E que agora tudo são flores

e viveremos felizes para sempre,

sem brigas e discussões até que a morte...

O último que quero nessa vida é parar de discutir com você.

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