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Entendo que seja uma notícia ruim, mas há tratamento.
Seu caso é grave, mas pode ser tratado.
- Tá, mas... - Sim?
- Posso fazer uma pergunta? - Claro.
O tratamento é...
Vou ter que pedir licença?
Vai. Não agora, mas durante o tratamento.
Vou tomar comprimidos?
Não. Cirurgia ou radioterapia, e ambas têm efeitos colaterais.
Avise se quiser que eu vá mais devagar.
A cirurgia removeria a próstata, o que o deixaria estéril.
Mas a radioterapia também.
Os dois tratamentos afetarão sua função erétil.
Isso pode ser parcialmente corrigido com treinamento,
mas suas ereções jamais serão as mesmas.
Incontinência é outro efeito colateral, mas muitos não têm.
Eu recomendo a cirurgia, mas a decisão final é sua.
Isso acontece com muitos homens em algum momento.
Se o paciente é idoso, às vezes não tratamos, mas você não é.
Processe as informações.
Tem alguma dúvida? Pode perguntar o que quiser.
Não.
QUARTA-FEIRA, 6 DE AGOSTO
- Posso fazer uma pergunta? - Claro.
- Não sei se ele entendeu bem. - É mesmo?
- Não te deu essa impressão? - Não.
Não é incomum o paciente não conseguir...
Talvez mais que o normal.
Ele não tinha dúvidas, mas isso não é raro.
Próximo paciente?
Por favor, responda. O que ela te disse?
Não podem deixar você ir sem respostas.
- Bjorn Holm. - O que eles vão fazer?
Bem, eu não sei. Mas não é maligno, é?
Acho que não. Não entendi bem o que ela disse.
- Não perguntou? - Preciso pedir licença.
Você precisa perguntar até receber uma resposta clara.
- Por favor, venha comigo. - Por quê?
Você precisa ver uma pessoa.
- Eu vou perguntar. - Não vai, não.
- Sim. - Não.
Pode pedir aos dois para entrar na sala?
Oi.
- Oi. - Como vai?
SEX / DREAMS / LOVE
DREAMS / LOVE
LOVE
Todas as obras que vemos aqui nos dizem algo.
Eu acho essencial que vejamos
a decoração da prefeitura como uma mensagem à população de Oslo.
Com isso em mente, vocês verão
que o prédio todo irradia valores humanos.
Aquele friso, por exemplo,
mostra diferentes constelações de mulheres e crianças.
À esquerda, uma mulher solteira com uma criança.
Ao lado, duas mulheres juntas com uma criança.
Eu vejo como a aceitação das mães solteiras
e dos casais de mesmo sexo com filhos.
E uma inegável homenagem municipal à homossexualidade.
Não é maravilhoso? É a minha amiga Marianne, aliás.
Junte-se a nós. Veremos outros exemplos na parede oeste.
Neste país, adoramos as conquistas esportivas.
Adoro o fato de terem escolhido um esporte que,
de certa forma, apoia o lado feminino.
É a patinação no gelo.
- Aqui vemos o símbolo de Oslo. - A Garota de Oslo.
Ou Mulher de Oslo, como prefiro chamá-la.
Vejam como ela fica lá, só observando e ouvindo.
Olhando a cidade dela. Eu acho muito bonito.
Deste lado, quero mostrar duas esculturas
que se destacam. O Pescador, de Nils Flakstad.
Representa uma das mais importantes indústrias do país.
Mas lembrem que o pescador é um antigo símbolo de Cristo.
Por isso, vejo essa obra como uma imagem amorosa de Cristo
com a mão abençoando todos os cidadãos de Oslo.
Em todos os aspectos, seus sonhos, preocupações...
E necessidades, sobretudo sexuais, que quero ligar a uma imagem.
É a única escultura que lida explicitamente com sexualidade.
Vemos um encontro de três pessoas.
Um casal à direita, um homem sozinho à esquerda.
Este encontro mostra muita tensão sexual.
Há algo entre o homem da esquerda e a mulher da direita.
Mas, se analisarem o homem da direita,
o olhar dele também não vai em direção ao outro?
E vejam as mãos dele sobre a virilha.
O que significa? Será uma fusão sexual entre os três?
Um ménage? Essas coisas acontecem.
As pessoas têm necessidades e preferências diferentes.
E isso, Jesus vê e reconhece como parte da criação.
O que acho muito interessante
é que um local tão destacado seja dedicado à sexualidade.
Acho isso emocionante e atencioso.
- Mas não é meio limitado? - Como assim?
Parece um nicho...
Deveria ser a base da celebração dos 100 anos de Oslo.
Uma celebração nacional. Uma exibição e festa.
Sim, e planejamos muitos eventos com esse tema na cidade.
- Deve durar dias. - Sim, é um processo que nós...
O que estão imaginando, especificamente?
É difícil fazer orçamento sem saber com o que trabalharemos.
Temos sugestões específicas...
Mas não vai ser um dia só.
Deveria incluir todo mundo.
Claro, é pra todo mundo. Mas quem é todo mundo?
Nós não estamos incluídos?
Muitos nichos femininos e masculinos e vários...
Juntos, somos todo mundo.
Até amanhã.
- Tchau. - Tchau.
- Não foi muito bem. - Foi, sim.
Não foi. Podemos tomar um café em algum lugar?
Não temos que pegar a balsa?
Só precisamos estar em Nesodden em duas horas. Dá tempo.
- Foram as suas ideias. - Sim, minha apresentação.
Cada um apresenta sua ideia, e decidimos juntos.
Também há a empresa de consultoria com uma proposta, claro.
Mas deve se basear na preocupação com as pessoas.
Você acha?
- Eu? Você também acha. - Eu? Como?
Quando me inscrevi para este emprego, você disse:
'Trabalhar pro Município é uma chance de ajudar pessoas.'
- Eu disse isso? - Disse.
- Se referia ao seu trabalho? - Talvez.
'Talvez'...
Você fala sem pensar, Marianne.
'Quando fala meu nome, eu surto de alegria,
por saber quem eu sou.' Lembra que escreveu pra mim?
Pode apostar que sim.
É uma citação de Ragnar Hovland. Por que pensou nisso agora?
Sei lá. Deve ser porque você disse 'Marianne'.
Fale mais sobre hoje à noite.
O que vai acontecer hoje é...
Montei um grupo para resolver os detalhes.
Há um compositor, um arquiteto,
um coreógrafo e também...
Mas e o geólogo? Ele sabe que eu vou?
Sim, mas é claro.
Estou com um ótimo pressentimento.
Talvez seja só na minha mente, mas acho que vão se dar bem.
Vamos nos dar bem.
E é um ambiente legal pra você conhecer pessoas.
- Não vai ser tão formal. - Eu me dou bem com muita gente.
- O quê? Como? - Eu só...
Eu perco... Isso parece muito mais importante pra você.
Você conhecer alguém?
Não.
Não é isso.
- Não é isso. - Não?
Não falo que sinto falta de ter um namorado, falo?
Não.
Talvez seja o meu ponto de vista.
Fiquei tão preocupada em conhecer alguém.
Mas você disse que estava aberta a conhecer alguém.
E estou.
Mas quando você diz que se preocupa em não conhecer alguém,
qual é a sua preocupação?
Não sei exatamente.
Você adorava estar sozinha.
É a segurança que um relacionamento traz?
- Talvez. - Tenho pensado muito nisso.
Não me sinto insegura na vida. Nem você.
Não.
Eu gosto de estar casada.
Sou mais simples que você nesse sentido.
Depois de 7 ou 8 anos morando lá, decidiu comprar mesa de cabeceira?
Nunca tinha pensado nisso. Onde posso comprar?
Na IKEA. Ou uma usada on-line. De que tipo quer?
Deve ser baixinha e que combine com a cama.
- Precisa de duas. - Não.
Não pode ter cama de casal e mesinha só de um lado. É triste.
Quem se importa? Triste por quê?
Comprar duas não é...
Oi. Também vai para uma festa?
- Festa? - É mais uma resenha.
- Um encontro espiritual. - Estou indo pra casa.
- Em Nesodden? Eu não sabia. - Não, estou num chalé emprestado.
Estou passando o verão lá.
- Heidi, minha amiga. Tor, meu colega. - Prazer.
- Divirtam-se. - Com certeza.
- Nos vemos amanhã? - Claro. Tchau.
- Ele é médico? - Enfermeiro.
- Preciso de um espelho. - Vou lá fora.
Oi!
Precisa se preocupar que as pessoas entendam o que você diga.
Passei o dia pensando naquele paciente.
- Que bom que você notou. - Ele me lembrou meu pai.
- Também sou meio assim. - É mesmo?
É não querer perguntar pra não fazer papel de bobo.
- Sei. De onde você é? - Hobol, condado de Ostfold.
- Cresceu numa fazenda? - Não, mas minha mãe sim.
- Sei. - Mas não eram fazendeiros.
Eram pessoas comuns. Meu pai era da construção civil.
- E você se tornou enfermeiro. - Pois é.
Nunca pensei que fosse de Hobol, ou Ostfold.
Não? Por que sou muito bonito?
- Você se acha bonito assim? - Só brinquei.
Mas já ouvi de pessoas quando saio.
Sério?
'Você é bonito demais pra ser de Ostfold.'
- As pessoas dizem isso? - Não. Ou sim, aconteceu umas vezes.
Talvez seja o dialeto. É difícil nos levarem a sério.
- Não dá pra saber que é de lá. - Não.
Eu tento esconder.
Também não dá pra notar que somos de Dokka.
- Acho que não. - Onde fica Dokka?
Perto de Gjovik. Entre Gjovik e Fagernes.
- Onde fica o seu chalé? - Logo ali.
- O vermelho pequeno? - É, o primeiro.
- Pertinho do cais da balsa. - Sim.
- Tchau. - Tchau.
- Uau, é esta? - É.
- Que casa. Ele deve ser rico. - Rico?
- Oi. - Oi.
Como foi a sua apresentação? Não era hoje?
- Nada boa, não me entenderam. - Não, foi muito bem.
Tenho certeza que sim. Você fez parecer incrível.
Quase tive inveja das suas ideias.
- Oi. Ole Harald. - Marianne.
Você é a Marianne. Heidi nos falou de você.
- Você não é da... - Não, eu sou médica.
Veio acompanhar? O que vai servir a elas?
- Cerveja, vinho, petiscos. - Um churrasco. Ele é ótimo.
Não vou me meter. Vamos. Papai tem uma reunião.
Vamos entrar. Os outros já chegaram.
- Vamos para casa. Venham. - Não!
Já conversamos. Papai tem uma reunião.
- Por favor? - Vamos. Um, dois, três.
Hoje, o conceito de feminismo precisa englobar muita coisa.
Sim, foi diluído a tal ponto que perdeu o significado.
- Oi. - Que bom que veio.
- Oi, pessoal. - Ismael.
- Heidi. Você é o arquiteto? - Oi. Abel.
- Marianne. - Oi, Anna. Prazer em vê-la.
- Essa é a Marianne. - Não estou participando.
Então, eu ouvi vocês falando sobre feminismo.
Será que estamos chovendo no molhado nesse projeto?
- Não sei, depende. - Depende da sua visão.
Minha mãe me ligou ontem, e falei a respeito.
Falei que era um projeto municipal,
mas ela não se identifica com o feminismo.
Diz que não tem nada a ver com ela.
Ela precisa de home care,
mas não sabe como pedir. Ela liga, mas não dá em nada.
Então, devemos comemorar o aniversário
melhorando o serviço público e as soluções de internet?
- Uma coisa não exclui a outra. - Claro que não.
- Você é funcionária pública? - Sou, da Secretaria de Cultura.
E sou líder de projeto do aniversário.
- Sou historiadora. - Com ótima tese de doutorado.
- Uau. - Escrevi sobre a história da moda.
- Qual tema? - Per Spook. Já ouviram falar?
Oi, esse é...
Sim, oi.
Certo. Você quer? Não?
Como falei no e-mail,
esta deve ser uma reunião inicial, ou inspiradora.
São palavras parecidas. Ouvi agora.
Se começarmos pelo básico, o chão onde pisamos...
E como tenho um bom vizinho que é geólogo,
comecei a pensar nisso.
Talvez essa perspectiva possa trazer novas ideias.
- Não sei se você... - Sim?
Eu queria dizer umas palavras
sobre a formação geológica da cidade.
E por aí vai. Se gostarem da ideia.
Eu sugiro que a gente vá para o terraço,
onde a vista é melhor. Podemos ver toda a cidade.
Que legal.
- Me acompanhem. - Maravilha.
Essa camisa é linda.
- Obrigado. - Também reparei.
Fico envergonhado. É a minha camisa mais cara.
Não há guarda-corpo. Por favor, sentem-se.
Não quero que ninguém caia.
- Posso pisar aqui? - Claro, sem problema.
- Estamos pisando na cama de quem? - Na minha.
- Você dorme aqui? - Eu devia ter trocado os lençóis.
- Não. Por quê? - Não, eu só cresci aqui.
Bem, na antiga casa que ficava aqui. É onde ficava meu quarto.
- É o quarto do menino. - Sim, a cama do menino.
- Achou empolgante? - Um pouco.
- Me empolguei também. - Não é muito larga.
Não, mas o espaço dá se você quiser.
Se quiser, tem espaço.
Certo.
Pra começar, quero dizer que tudo está fluindo.
Constantemente. Nada é realmente fundamental.
Mas temos fatos históricos.
'O Caldeirão de Oslo' ganhou esse nome
devido aos montes Nordmarka e Ekeberg, que descem até a planície,
fazendo a forma de um caldeirão.
O que hoje chamamos de Oslo é formado por três rochas.
Temos a rocha base,
que consiste em tipos duros como gnaisse e granito.
Essa área se estende de Ostmarka até Ekeberg
e desce até Bunnefjorden.
Aí, temos o centro.
São basicamente cambriano e siluriano, rochas mais macias,
como calcário e ardósia. Muito depósito e argila.
E os altos arredores, como Nordmarka e Sorkedalen,
onde há espécies eruptivas, como lava e basalto.
São espécies de rochas que tendem a subir,
como me explicaram no ensino médio.
E isso tudo forma a topografia que lembra um caldeirão.
Não cabe a mim interpretar o papel da geologia em nossa vida.
Mas acho que onde andamos, onde colocamos os pés,
assim como o que nos cerca, prédios, flora,
tudo nos afeta mentalmente.
Podemos entender como o cheiro das roupas
de uma pessoa que não usa desodorante nem perfume.
Nós reagimos a esse cheiro.
Ele tem personalidade e nos desafia.
Sentimos no corpo.
Da mesma forma, impacta na nossa alma.
Podemos descer. Alguém aceita vinho?
- Sim, obrigado. - Ou outra coisa?
Certo. Vamos descer.
Cuidado com a cabeça.
Quando o arquiteto falou que a mãe não conseguia ajuda,
quando tanta coisa não funciona, essa celebração fica...
É como se eu não tivesse pensado direito. O foco é outro.
Está complicando tudo.
Uma coisa ser importante não torna outra menos importante.
Acontece sempre. Você tem uma ideia profundamente original,
que é totalmente sua, mas aí vêm as dúvidas.
- Ida, não serve. - Deve ser exaustivo.
Não pode fugir da mamãe. Vamos pra casa ler e dormir.
Eu sei que você precisa pensar bem em tudo.
Você já tinha escovado os dentes e já ia dormir.
Vamos ler uma história na cama.
- Vamos. - Oi, Solveig.
- Eu te ajudo. - Eu tô legal.
Cadê a Oda? Está sozinha em casa?
Está com Geir em casa. Estão dormindo.
- Vem. - Eu estou bem.
Eu que não consigo dormir. Vamos pra casa, meu bem.
- Vem. - Ela dorme aqui. Vá você.
- Mas é a minha semana. - Não, vai ser assim.
Solveig, vamos andando pra casa. Vou pegar minha bolsa.
- Tudo bem aqui? - Sim.
Não fez nada pra elas?
- Eu vou embora. - Que feio, Ole.
Comemos empadão de peixe, não é?
- E vinho branco. - Que ótimo.
Não gosto de jogar comida fora.
- Vamos pra casa, Ida. - Vamos, Solveig.
- Também vou. - Posso fazer uma pergunta?
- Claro. - Mamãe e titia tiveram câncer.
Sim?
Desculpe, eu só queria saber...
Desculpe, eu estou bem.
Você sabe de alguma relação entre câncer e insônia?
Nunca li nenhum estudo conclusivo. Não fique preocupada.
- Vamos. Consegue chegar à balsa? - Até amanhã, Ida. Durma bem.
- Tá, tchau. - Mando mensagem antes de quarta.
- Beleza. Tchau. - Até.
- Desculpe por isso. - Não se desculpe.
- Olá. - Eu queria conversar mais.
- Eu também. - Conhecer sua história.
Claro. Não sei se tenho história, mas...
Conhecer você. Gostei de conversar com você.
Eu também. Bom...
- Tchau, e boa sorte. - Tchau.
- Oi. - Oi.
- Você está me seguindo? - Eu que pergunto.
Três vezes em um dia?
Está indo para onde?
- Passear na cidade? - Não, não vou passear.
- Tá bom. - Não vou a lugar nenhum.
- Só resolveu pegar a balsa? - Sim.
Pego a balsa, vou e volto. Faço isso às vezes.
Como foi a festa?
A festa, bem...
Acabou de forma abrupta. Foi meio bizarro.
Só fui porque a Heidi quer que eu saia com um vizinho.
Ele é divorciado, e a ex-esposa mora na casa ao lado.
- Que droga. - Não faz seu tipo?
Sim, sem dúvida.
Talvez role. Vamos ver.
E você, só fica pra lá e pra cá de balsa?
É, quando fico inquieto e não consigo dormir,
eu pego a balsa.
Sobretudo para procurar...
- Pra procurar homens. - Tá bom.
- Conhece o Grindr? Ou Tinder? - Claro, conheço os dois.
Dá pra ver quem está online e quem está mais perto.
É bom estar em um espaço fechado, como uma balsa.
Pode ver quem está online.
Quando os vê na tela, é só procurar.
Podem estar bem na nossa frente.
- Tem alguém online hoje? - Agora não.
- Mas acontece. - Sim, sempre.
E o que você faz?
Às vezes, nada. Talvez uma troca de olhares.
- Ou vamos para o deque. - E transam?
Em geral, só conversamos.
Podemos marcar algo.
Eu gosto mesmo da emoção.
Trocar olhares com alguém e descobrir que está online.
Mas alguma vez já transou na balsa de Nesodden?
Algumas vezes. Mas a viagem é tão curta que fica limitado.
É mesmo.
- É meio tipo cruising. - O que é isso?
Nem imagina?
É ir a certos lugares para uma transa casual.
Há muitos locais de cruising em praças ou bosques,
- onde homens procuram homens. - E transam.
Sim.
Mas não é só isso. Aqui, basicamente conversamos.
Às vezes, em uma praça,
sentamos e conversamos depois do sexo.
Essa conversa pós-sexo é especial.
Porque há pessoas sobre as quais nada sabemos.
Talvez não saiba o nome delas, e nunca saberá.
E estar em um local neutro cria essa...
- proximidade estranha e gostosa. - Certo.
Acaba sendo natural a gente se abrir.
- Qual é o assunto? - Varia. Há todo tipo de gente.
Alguns ainda no armário.
Outros não se consideram gays, só gostam de transar com homens.
E há os tristes, cheios de culpa.
Talvez tenham escapado de jantares de família
ou festas infantis e precisem conversar.
Alguns só querem conversar sobre se assumir.
- Você é assumido? - Eu sou.
Pra mim, foi fácil. Mas há umas histórias loucas.
Pais que cortam o contato.
Pura maldade.
Hoje, o cara que eu deveria conhecer...
Ele não é o tipo de homem que eu consideraria.
Aí, fomos ao terraço dele. Ele queria nos mostrar algo.
Lá fora, comecei a sentir uma proximidade esmagadora.
Não consegui me controlar, peguei na bunda dele.
- E o que ele fez? - Nunca fiz nada parecido.
Bem, ele ficou surpreso. E eu também.
- Mas acho que ele gostou. - Você gostou?
- Eu gostei. - Legal.
Que tipo de homem ele é?
Inteligente, acolhedor e atrevido, tudo junto.
E que tipo de homem te excita?
Nem imagino. É totalmente imprevisível.
E você, o que te excita?
- Um tipo de pele, eu acho. - Tá.
É muito difícil de explicar.
Eu posso me excitar com... suor.
A pele na parte interna das coxas, quando está suada.
Sei.
Muitas coisas me excitam.
Você vai vê-lo de novo?
O cara de Nesodden? Vou.
Ou não. Eu não sei.
Não sei. É sempre tão complicado.
Eu queria ter transado com ele hoje, para nunca mais o ver.
Não está querendo relacionamento?
Sim e não.
- Você tem mesa de cabeceira? - Mesa de cabeceira?
Sim, tenho duas. Estão num depósito enquanto estou no chalé.
Por quê?
- Vai descer aqui? - Você vai seguir?
Boa sorte.
- Obrigado. - Tchau.
Oi.
Oi.
A noite está sendo boa?
A noite está boa?
Eu estava trabalhando.
- E vai pra casa, pro parceiro? - Não.
Não tenho parceiro.
- Por que trabalhou até tarde? - Tive um paciente.
- Sou psicólogo. - Uau.
Não é? Também acho.
Uau.
E como é?
Agora parece trabalho de fábrica, linha de montagem.
Como assim?
Como assim...
Quer dizer...
Se você cresceu
com a expectativa de que nada pode ser doloroso ou desafiador,
vai desabar no primeiro sinal de adversidade.
Pra você, ter um dia ruim não é normal.
Acha que precisa de tratamento.
Até parece errado dizer, mas eu...
Às vezes, tenho vontade de mandar eles tomarem jeito.
Seria muito mais barato.
Certo. Eu te vi no Grindr.
- Não estou interessado em... - Posso ir embora.
Não precisa. Pode ficar.
Tirando isso, você procura só sexo ou relacionamento?
- Sexo? Nada é 'só sexo'. - Não?
Bem, não...
Acho que não. Ao menos pra maioria das pessoas.
Mas você talvez seja alguém que faça muito sexo.
Sim. Acho que sim.
- Com muitos parceiros? - Sim.
- Não tem um fixo? - Não.
- Vou sentar aí, tudo bem? - Tudo bem.
Eu estou bem sem um parceiro fixo.
E como é isso?
Transar, hoje em dia?
Bem... Está fazendo piada?
- Não. - Não?
Como é transar hoje em dia?
É gostoso. O que quer saber?
Não sei. Você se sente seguro?
Seguro? Sim.
Mas nem todo mundo se sente.
Alguns ficam tão tensos
que a gente percebe a dificuldade que têm de soltar qualquer coisa,
sejam sêmen ou emoções.
- Mas devem ter visto muito pornô. - Você não recomenda?
Pornô? Claro.
No mínimo, pode te ajudar a descobrir do que gosta.
Suas taras?
Taras. O que é tara?
Não está principalmente aqui?
Não sei. Acho que a maioria das coisas pode ser legal.
Posso curtir que vários homens me comam ao mesmo tempo.
Ou que urinem em mim.
Os dois podem ser bastante excitantes.
Mas, quando acontece, não vejo como uma tara.
- Não? - É apenas gostoso.
É legal.
Mas talvez seja o que você chama de tara.
Não, eu...
Eu não sei.
Não está a fim de nada? Nem sexo, nem namorado?
Como se fossem opostos?
A maioria das pessoas não deseja ambos?
Muitos parceiros sexuais e alguém que as ame exclusivamente?
- Esse não é o dilema? - Não precisa ser.
Que cabeça. Nem perguntei o que você faz.
Ou se teve uma noite agradável, ou qualquer coisa.
Desculpe a minha grosseria.
Não costumo ser tão egoísta. Foi gentileza sua ter vindo aqui.
Saiba que eu fiquei agradecido. Mas estamos chegando.
- Vou voltar lá pra dentro. - Claro.
Boa noite.
Qual é o seu nome?
- É Bjorn. - Bjorn.
Meu nome é Tor.
Sei.
Adeus, Tor.
Adeus, Bjorn.
Eu vou morrer?
Não, você não vai morrer.
É que...
Não me sinto como alguém que tenha câncer...
Não.
Entendo que seja uma notícia dolorosa.
Mas você me procurou cedo. Veio aqui no início.
- Você vai ficar bem. - Tá.
Tenha em mente que o prognóstico é excelente.
Mas você disse que preciso fazer tratamento.
Vamos encontrar o melhor tratamento pra você.
Que será quimioterapia, radioterapia ou cirurgia, certo?
É bem provável.
Não consigo.
Eu não consigo fazer isso.
Não consigo ser o careca da TV falando abertamente sobre isso.
Mas não vai precisar fazer isso.
- Ninguém precisa fazer isso. - Eu não sou assim.
QUINTA-FEIRA, 14 DE AGOSTO
Eu acho que ele é assim.
Aqui diz que é comediante de stand-up. Você o conhece?
- Sim. Acha difícil ter empatia? - Não.
Tenho muita empatia por ele. Mas vai ser bom financeiramente.
Sentirão pena dele no Instagram, ele vai escrever livros...
De certa forma, é bom. Pode ajudar outras pessoas.
Ele será mais um exemplo de como lidar com a doença.
Talvez outros se sintam um fracasso por não conseguirem.
- Entendi. - Quem vai saber? Vai almoçar?
Não, vou tirar folga. Josef me substituirá. Chegou.
- Oi. - Joel acabou de te procurar.
- Joel? - Pessoal. Pediu pra retornar.
Pode ter sido Hoel? Ole Harald Hoel?
Não deu pra ouvir.
- Vou dar um telefonema rápido. - Beleza. Já vou.
- Tá bom. Tchau. - Tchau.
- Você conhece? - Talvez.
Oi. Está me reconhecendo?
- Da balsa. - Ah, é.
Está indo para casa?
Algum problema?
Deixa eu ver.
- Pode respirar? - Não sei o que há.
Consegue levantar o braço?
Pode levantar o braço? Tá bom.
- Eu estou bem. - Olhe pra mim.
Parece que está com algum problema.
Recebeu uma notícia ruim?
- Eu estou bem. - Está?
Obrigado.
- Ei... - Olha, eu estou bem.
- Tem certeza? - Absoluta.
'Tenho um amor inato pela humanidade.
Por todos os humanos.
E compaixão também.
Eu não fui feita para ter um homem só.
É quase infantil amar apenas um ser humano.
E eu também jamais conseguiria ser fiel.
Não pelos outros homens,
mas porque sou formada por muitas pessoas.'
Que livro é esse?
É um diário. O nome dela é Etty Hillesum.
Era o nome dela. Estou lendo os diários e as cartas dela.
Li este último vindo para cá. Gostei muito.
- Acha que é para mim? - Não sei.
Eu te empresto quando acabar.
- Você está lendo algo? - Leio literatura científica.
Não sou muito fã de ficção.
'Aí, isso aconteceu. Depois isso.'
- Não me parece real. - Sim, mas diário é diferente.
É imprevisível e consiste de coisas de passado e presente.
Não tem lógica retroativa.
Leio basicamente sobre rochas.
Também escrevo sobre elas. Mais do que leio.
- Sei. - Sento naquela cadeira.
- e escrevo. - Sobre rochas.
Sobre rochas. Enrolado num cobertor.
Experimente. É confortável.
Obrigada.
Então, é aqui que senta com seu laptop e escreve?
Bem, eu costumo escrever à mão.
Sério?
Me ocorreu que não vemos mais a caligrafia das pessoas.
A minha é assim.
Que tal?
PARECE AUSTERA. A MINHA É ASSIM.
Obrigado. Parece...
antiquada?
- Ora, ora... - Mas devo me desculpar.
Eu planejava fazer o jantar para você.
Eu gosto de cozinhar.
Mas nada saiu como planejado hoje.
O jantar estava ótimo.
Mas...
Urologista?
Sim, urologista.
Eu estava pensando...
O abdômen, esta parte do corpo...
é o que consideramos de mais íntimo.
Pode ser uma fonte de prazer.
Mas também associamos a urinar, defecar, tudo que dá nojo.
Logo, associamos a vergonha caso a área funcione ou não.
- Mas... geólogo? - Sim.
- Explique, por favor. - Bem...
Muitos estudam geologia para trabalhar com petróleo.
Talvez fosse o meu objetivo antes de começar.
Antes de entender o que é a pedra.
- Antes de ficar fã de pedras. - Sim. Sim?
Hoje, as pedras são o que há de mais importante na minha vida.
E eu consigo...
Eu ouço as pedras cantarem.
Se eu...
E eu adoro fazer isso.
Se eu deitar sobre uma rocha ou um monte perto do mar...
e pressionar o ouvido contra rocha, eu ouço.
Não há mágica envolvida.
É só uma combinação
da sensação física da pedra contra a pele
e tudo que eu sei sobre a pedra.
É uma fusão de conhecimento com sensação física
que dá a impressão de pulsação.
É algo que eu consigo ouvir, mas você também consegue.
Você pode ouvir.
Se aplica igualmente a você.
Quando comecei meu mestrado,
um amigo fez pra mim um modelo da topografia de Oslo.
Foi quando eu descobri o aspecto poético...
Eu adoraria ver esse modelo.
- Eu ainda tenho. - Sério?
Sério.
Sim.
Uau.
- É bem grande. - É.
- Legal, né? - Muito!
Adorei que cada espécie tenha uma cor.
Você tem uma noção de suas propriedades.
- O que é isto? - É xisto.
E isto aqui?
Calcário.
Em que está pensando?
Na sua pele. Gosto muito dela.
E adoro a sua paixão pela sua profissão.
É? Eu gosto de outras coisas também.
O que eu mais gosto no mundo é de estar com minhas filhas.
Elas são a coisa mais importante da minha vida.
Não disse que eram as pedras? Pedras ou filhas?
As duas. Não é como se precisasse escolher.
É a língua que nos engana a pensar assim.
Que foi?
Só estou te ouvindo. Você vai gostar deste livro.
Será que você gostaria de passar a noite aqui?
Sim, eu adoraria.
Mas acho que não vou ficar. Acho que vou embora.
- Posso sentar aqui? - Claro.
- Bem... - Sim?
- Sim... - Por que está pegando a balsa?
Fui visitar uma pessoa e estou voltando para casa.
- Quem foi visitar? - Um amigo.
- Jantar? - Ceia.
'Ceia em Nesodden?'
Parece um disco folk.
Velas, gaita...
- Teorias da conspiração. - Eu gosto de música folk.
Claro. Eu também.
E você? Estava trabalhando?
Estou reformando uma casa. Instalei piso o dia todo.
Caramba.
- Ia chover hoje. - É ruim não ter chovido?
É gostoso nadar quando chove.
Quando encerro o expediente, eu costumo ir nadar.
O pessoal que me contratou tem uma piscina.
- Não gosta de nadar? - Eu adoro.
O que você faz quando não está nadando?
Nada de mais.
- Faço palavras-cruzadas. - Palavras-cruzadas?
- Você também? - Não, eu leio.
Ah, entendi.
Gosta de palavras que se sucedem em sequência?
- Exato. - Eu as prefiro mais misturadas.
- Encontrar sentido no caos. - Certo.
Sua franja é muito bonita.
- Obrigado. - Posso...
Sabe o que podíamos ter feito se tivéssemos carro?
Ido até Paradise Bay para nadar e fazer amor.
Nós podíamos ter feito isso.
Podíamos mesmo.
Mas há outros lugares além de Paradise Bay.
Está rindo? Achou engraçado?
Estou feliz de ter te encontrado. Eu nunca tinha feito isso.
- Não tão espontaneamente. E você? - Ah, claro. Aliás... sim.
Com frequência. Aliás, depende.
Minha esposa está viajando. Foi ver o pai doente.
Isso me dá mais tempo para mim mesmo.
- Certo, você é casado. - Claro. Você não é?
- Não. - Imaginei que nós dois fôssemos.
Tá bom.
Tudo bem. Você parece casada.
Ficou surpresa? Parece.
Casada e surpresa? Talvez um pouco surpresa.
Por você estar no Tinder sendo casado.
- Não teme que a esposa descubra? - Ela não está no Tinder, né?
- Não sei, mas as amigas talvez. - Não, não.
Pode não acreditar, mas eu amo a minha esposa.
Estamos casados há 20 anos. Vamos a Voss no fim de semana.
- Você é de Voss? - Eu e minha esposa.
Onde eu cresci, havia 500m entre a casa e a caixa de correio.
Isso mexe com a gente.
Não imagina a expectativa que eu criava ao andar até lá.
- Eu sou de Dokka. - Então, você entende.
Sua caixa de correio devia ficar longe também.
- Mas não 500m. - Não, mas você entendeu.
Então, também entende que não existe relação
entre as expectativas e a vida que você leva.
Mas você não é casada? Não? Está bem.
Bem, se é o que diz. Você sabe de si.
Eu senti algo diferente em você.
Não sei você, mas mulheres solteiras esperam algo mais.
Talvez não admitam, mas...
Tenho um amigo, e discordamos nesse ponto, mas ele...
Pra ele, toda mulher no Tinder é prostituta.
Eu nunca estive com uma prostituta.
Ele sim, antes do Tinder. Mas eu não.
Para ele, o Tinder é um bordel gratuito.
De certa forma, é. Mas não é só isso.
Porque vejo muitas mulheres se prostituindo,
mas têm expectativas altas demais para conquistar.
Isso me faz sentir culpado.
E é por isso que eu... Não.
Para mim, se você é casado, as expectativas são mais baixas.
E isso...
- Me expressei mal? - Nem um pouco.
Não sente culpa com relação à sua esposa?
Claro. Demais.
Claro que sinto, mas é totalmente diferente.
Deve me achar o maior escroto do planeta.
Mas há muito sexo em mim.
E eu...
Eu gosto muito de pessoas. Pessoas são...
Você parece uma pessoa legal. E o que nós compartilhamos
é algo totalmente diferente
do que com outra pessoa.
Então, penso: 'Por que tem que ser errado?'
Claro que minha consciência pesa.
Acho que você estragou isso um pouco.
- Por quê? Algo que falei? - Não, eu só...
É melhor eu ir pra casa.
Você não me conhece de verdade.
Mas eu sou...
Eu sou um cara legal.
Eu acredito que seja. Você é um cara legal.
Com certeza. Mas...
Não pode ficar um pouco? Parece tão tenso.
Não. Vou pra casa.
- Obrigado pela noite. Foi ótima. - Obrigada.
Adeus.
DOMINGO, 17 DE AGOSTO
SEGUNDA-FEIRA, 18 DE AGOSTO
Ele realmente disse que o Tinder é um bordel gratuito?
- Disse. - Isso faz de você uma prostituta?
Sim. Ou ele. Eu não tinha outras intenções.
Eu só queria transar.
Nós queríamos a mesma coisa, e foi o que aconteceu.
Depois, ele disse coisas que nenhuma mulher teria dito.
Mas não sei se isso o torna uma pessoa ruim moralmente.
Bom, ele era casado.
Eu talvez não tivesse dormido com ele se soubesse.
- Isso realmente me incomoda. - O quê?
Que você ficou com Ole Harald e logo em seguida
transou com um desconhecido no cais.
Mas não foi nada problemático.
Eu fiquei muito feliz. Me senti livre, de certa forma.
A proximidade casual com um desconhecido foi agradável.
Fala como se nunca tivesse feito sexo casual, mas já fez.
Talvez tenha sido a situação, o encontro na balsa.
Foi muito mais sem compromisso que um encontro.
Não é como marcar encontro pelo Tinder, ou sentar num bar,
o que parece mais uma transação.
Não, era um espaço livre. Estávamos em pé de igualdade.
- Estou te entediando? - Não, mas precisa usar...
Coloque no ouvido, porque já vai...
- Oi. - Oi. Verifiquei os salões.
São bonitos, mas seria mais bonito fazer aqui em cima.
Com um sistema de som, terão a experiência na cidade toda.
- O projeto foi aprovado? - Não.
- Parece que será derrubado. - Por quê? Quando?
Hoje cedo. Eu ia te contar, mas você contou sobre a transa.
Mas queremos fazer alguma coisa. Um número aqui. Um show filmado.
Ficaria muito legal.
Veremos se o orçamento cobre.
Ainda não está decidido.
Agora há muito interesse em um projeto envolvendo
uma exposição de artistas durante a II Guerra Mundial.
Arte parisiense.
Vou falar com o carrilhonista e já volto.
Trabalhei tanto nisso. Me deu tanta energia.
Agora tenho que trabalhar com Knausgard e a II Guerra.
Me sinto péssima, seca por dentro. Só quero largar tudo.
Não pode largar tudo.
Também fico chateada com o que você está fazendo.
Não paro de pensar, Marianne.
Você ficou com o geólogo e foi transar com o carpinteiro.
- Você, tão responsável. - Acha isso irresponsável?
- Não sei. - Eu não acho.
Minha moral é bem rígida.
Só não com relação ao sexo, e sim com como nos tratamos.
É exatamente o que falou tão bem no tour da Prefeitura.
Você falou de liberdade, de liberdade sexual.
Sim, e boa parte vem de você.
Foi tudo sobre você. Claro que percebeu.
- Você faz coisas que eu jamais faria. - Mas gostaria de ter feito?
Não sei.
Acho que me sinto ameaçada, de certa forma.
Sua liberdade. Seu comportamento transgressor.
O que isso faz de mim?
Uma pessoa chata, tímida, submissa e com medo de viver?
- Não é isso, Heidi. - Lá no fundo, eu sei disso.
Mas quando falo com você, me faz pensar assim.
Não significa que minha vida seja tediosa,
mesmo eu não dormindo com carpinteiros aleatórios.
Dormir com ele não me faz livre, nem a minha vida maravilhosa.
Sexo nem me interessa tanto.
Simplesmente aconteceu, e eu gostei bastante.
Tá, mas aí complica pro meu lado, porque Ole Harald é meu amigo.
Eu o encontrei na balsa.
Ele gostou muito e está louco pra ligar pra você.
Sério? É muito bom saber.
Heidi, gosto muito dele. Ele é maravilhoso.
- Então, vai vê-lo de novo? - Talvez, quem sabe?
Mas tudo indica que não seremos um casal.
Ele disse que as filhas eram a coisa mais importante pra ele.
- Você quer ser mais importante? - Claro que não.
Só me dei conta de como isso é complicado.
As filhas devem ser a coisa mais importante pra ele.
Mas podem não pensar assim se outra pessoa entrar em sua vida.
- Não pode pensar assim. - Sou filha de pais divorciados.
Não pensar nas filhas seria egoísmo.
Se eu namorar Ole Harald, devo me envolver na vida dele.
Se envolver na vida de alguém não é bom? Elas vão te adorar.
Talvez, mas...
Me envolver significa assumir responsabilidade.
E aquela família tem problemas.
Duas filhas inseguras e uma ex-esposa vizinha que bebe.
Acha que Solveig tem problema com bebida?
- Acho. - Acho que não.
Foi um comportamento típico de alcoólatra. Lembrou meu pai.
Se você vê isso tudo, as filhas inseguras e...
- Não é exatamente quando... - Devo me envolver? Não.
Não é para mim. O passo responsável é me afastar.
Isso é cinismo, Marianne.
- Me envolver é mais cinismo. - Não. Não!
Acho, de coração, que você está errada.
Se eu me envolver, será com Solveig, que é quem mais precisa.
SEXTA-FEIRA, 22 DE AGOSTO
Está vendo o cronograma de cirurgias?
- Posso fazer uma pergunta? - Pode.
Posso ir até a ala dar um oi a um paciente recém-operado?
É um conhecido? Já esteve aqui?
Ele esteve, mas...
- Digo, ligado a você. - Não, aqui não.
E eu não o conheço, tipo...
Eu o conheci na balsa.
Primeiro no Grindr, depois no deque.
Nós só conversamos, e ele me deu um beijo na bochecha.
Mas foi só isso. E ele sabe que trabalho aqui.
Tá. Não sei o que dizer.
- Por quê? Está interessado? - Não.
- Não. - Não?
Eu só quero ver se ele está bem. Gentileza só.
Mas se ele interpretar mal...
Você acha legal aceitar um convite para jantar
de um cara com quem eu não quero me envolver?
Desde que não passe a impressão errada.
- Ah, só dizer sim já passaria. - Exatamente.
Bem...
- Visite como plantonista. - Ok.
Oi, Carina. Só vou ver um paciente.
Pode ir.
Oi, só vou dar uma olhada no seu vizinho.
- Oi. - Oi.
Eu só vim ver como estava.
Não acho o meu carregador.
É este aqui?
O próprio. Pode conectar pra mim?
- Obrigado. - Vou deixar aqui.
Eu soube que operou ontem e que saiu tudo bem.
Bem, a próstata já era.
- Espero que tenham tirado tudo. - Tomara que sim.
Como sabia que eu estava aqui?
Eu trabalho aqui. Vi no cronograma de cirurgias.
- Não sabe meu nome. - Não foi difícil descobrir.
Sei que se chama Bjorn e o encontrei após a consulta.
Pensei tanto em você após nosso último encontro.
- Eu não devia tê-lo deixado lá. - Não pense nisso.
- Vi como estava angustiado. - Eu queria ficar sozinho.
- Eu entendo. - Sim.
Mas que bom que fez a cirurgia logo no início.
- É, maravilhoso. - Como se sente?
Nada mal, só muito inchado.
Sim. É a pior parte.
Isso é porque inflam seu abdômen para a cirurgia.
Precisa andar. Soltar gases.
- Foi o que disseram. - Quer andar um pouco?
- Agora? - Claro, posso andar com você.
- Olha, não é... - Vamos.
- Não posso me levantar. - Eu ajudo. Isto é seu?
É, mas...
- Vamos lá. - Cuidado com isso.
Obrigado.
- O outro. - Pronto.
- Prontinho. - Segure aqui, por favor.
Claro. As rodas estão travadas.
- Assim. Pronto? - Sim.
Ok.
- Mais um pouquinho. - Eu quero voltar.
- Tá bom? - Tá bom.
Pronto. Você foi bem.
Não sei, não.
- Quando terá alta? - Depois de amanhã, eu acho.
- Não deve ser. - Provavelmente é.
Vai melhorar bem rápido.
- Você acha? - Acho.
Eu estava pensando...
Tem alguém pra te ajudar com compras e coisas assim?
Deve evitar pegar peso por umas semanas.
- Eu tenho amigos. - Claro.
- Uma amiga vai me ajudar. - Tudo bem.
E qual é o seu telefone?
É 90-25-22-13
Você não precisa...
- Agora tem o meu também. - Tá bom.
Se precisar de ajuda com compras ou o que for.
Pode me ligar. De verdade.
Afinal, nós dois moramos em Nesodden.
Se você morasse em Sarpsborg, eu nem ofereceria.
- Ande para soltar gases. - Vou me esforçar.
- Muito obrigado. - De nada.
Foi muita gentileza sua vir ver como estou.
Oferecer ajuda e tudo o mais.
Tchau, Bjorn.
- Vai pra Nesodden, pra casa? - Vou.
É o meu plano. Talvez um café no caminho.
Ou uma cerveja antes da balsa.
Não tem ideia da sua sorte.
Parece sensacional só porque a gente não pode.
Só sentar em algum lugar e tomar um café.
Observar as pessoas.
QUEM É VOCÊ, DE VERDADE?
TOR :)
NÃO VAI FUNCIONAR COM UM PSICÓLOGO.
ACHO QUE VOU ACEITAR A SUA OFERTA.
QUE BOM :)
SEGUNDA-FEIRA, 25 DE AGOSTO
- Viu Elvestad? - O paciente já está lá.
Com licença.
Eu tinha combinado com Egil. Acho isso estranho.
Jantamos esta semana e ele disse, aliás, prometeu...
- O senhor foi encaminhado a mim. - Encaminhado?
Posso verificar, se quiser.
- Viu Soyland? - Não está na sala de cirurgia?
Pensei que sim, mas este paciente tinha hora marcada com ele.
Deve ter havido um engano. Isso é muito ruim.
- Não pode bipá-lo? - Em cirurgia, não.
- Mas tenho o resultado do exame. - Não. Só com Egil.
Talvez você possa bipá-lo.
- Vou ver se está em cirurgia. - Ótimo.
A cirurgia seria feita em Hamburgo.
- É a melhor clínica que há. - Você deve saber.
- Exceto por Copenhagen. - Também são ótimos.
Mas falando com Hamburgo, eu disse que conhecia Egil.
Eles: 'Pra que vir a Hamburgo? Um dos melhores está na Noruega.'
O engraçado é que o tio do Egil, Hakon Soyland, tratou meu pai.
Mas não era a mesma doença. Ele era cirurgião cardíaco.
E o chalé dele ficava ao lado do dos meus pais, em Mysuseter.
- Olha, que coincidência. - Não é?
Egil é um cirurgião espetacular, claro.
Ele terminou agora e já vai descer. Atrasaram um pouco.
Ele vai descer em dez minutos.
Obrigado.
- O pai do Sverre viveu até 105. - Já morreu.
Faleceu nessa primavera, mas ágil e lúcido até o fim.
- É verdade. - Poucos têm essa sorte.
- Sim, e o irmão ainda é vivo. - Não o meu irmão, meu tio.
É, o tio dele. Bem, ele é gay, mas...
É uma pena, porque não tem herdeiros.
Ele está muito bem. Vivemos muito nesta família.
- É. - Vivemos, sim.
105? Tem gente tão desagradável que dá vontade de tomar banho depois.
Se sentiu ofendido?
Ela tem medo de perder o companheiro, como todo mundo.
- Você não se ofendeu? - Por que não quis que eu o atendesse?
Egil fala a língua deles. Eu os entendo bem.
Outra coisa. Visitou seu amigo do Grindr?
Sim, passei lá hoje.
Ofereci ajuda com mercado.
Entende que está passando do limite?
Não pode oferecer cuidados a quem conhece no Grindr.
Não é da minha conta, mas vale pra mim também.
Não posso dar tratamento especial só porque alguém é vizinho.
- Não. - E outra coisa.
Se fosse uma garota do Tinder, eu diria não na hora.
Mas agora não digo, o que é confuso para mim.
É porque vocês dois são homens e eu fico...
Mas esse é um paciente vulnerável.
Não...
Não estou dando em cima dele.
- Não estou interessado. - Não é da minha conta.
E não estou passando a impressão errada.
Só acho que ajudar alguém a fazer mercado é aceitável.
Não, você tem razão.
- Claro que tem. Mas ouça. - O quê?
Eu estava pensando e preciso falar. Outro assunto.
Não tem nada a ver com o Grindr, mas sempre penso nisso.
Atendemos muitos pacientes gays.
Com certeza, meu radar é melhor que o seu.
Eu percebo na hora, e o que vejo é...
Eu sei a consequência desse diagnóstico para eles,
e isso você nunca lhes diz.
Fala em disfunção erétil e esterilidade,
mas não fala em como retirar a próstata afeta o sexo.
Eles não perdem só a ereção, eles perdem...
No sexo anal, se alguém me pega por trás, sendo bem claro,
ele pressiona o pau na minha próstata, e isso é prazeroso.
É uma parte importantíssima do prazer que...
Que se perde sem a próstata.
E isso só...
Acho que sinto mais compaixão pelos gays que pelos outros.
Sei o que significa na prática.
É uma dupla perda.
Nunca me passou pela cabeça. Me desculpe.
Tudo bem.
- E não tem qualquer relação... - Não, não.
Pensei tanto nisso que precisei falar.
Que bom que me falou. Obrigada.
Recado dado.
TERÇA-FEIRA, 26 DE AGOSTO
Minha amiga ia me ajudar, mas vai levar o cão ao veterinário.
- A que ia ao mercado pra você? - Ela vai amanhã.
- Não vai ter comida pra hoje. - Tudo bem.
Eu te levo pra casa e vou ao mercado pra você.
- Não, não precisa. - Tudo bem, de verdade.
- Seu cateter está direito? - Incomoda muito.
- Está bem apertado? - Está aí.
Ei...
Não está cheio.
Te ensinaram a drenar?
- E vai comprar fraldas. - Vou.
- Pegou receita? - Todas. De Viagra.
- É pra ajudar a recuperar ereções. - Eu sei.
- Ficou chateado de ouvir isso? - Eu diria que sim.
Eles têm boas intenções.
Que bom que falaram a respeito. É importante.
Precisa ir no seu ritmo.
É melhor a gente ir.
Nosso foco é a recuperação dos pacientes.
Nós não temos capacidade
de lidar com a tristeza que sentem após a cirurgia.
O fato de alguém ter invadido seu corpo e retirado
ou consertado algo parece... Bem, não uma violação,
mas talvez uma invasão.
Você acorda e seu corpo está diferente.
Alguns têm a sensação de perda.
Não podemos mudar isso,
mas convém reconhecer que alguns se sentem tristes.
Essa tristeza precisa de tempo para sarar ou se transformar.
- Se transformar? - Sim.
Não sei, mas aprendi que o corpo é um campo de batalha.
Nos beneficiamos se levarmos isso a sério,
se tivermos calma e não lutarmos contra.
Não vale só para a doença, mas pra sexualidade também.
Minha primeira esposa teve câncer.
Foi antes de nos conhecermos.
Quantas vezes foi casado?
Duas.
Nunca pensou em se casar e ter filhos?
Não.
Eu me casaria de novo.
Por que acha que daria certo da terceira vez?
- Pensamos isso apaixonados. - Mas já viu que isso muda.
Não entendo essa necessidade de se casar.
Se há amor, e as pessoas querem ficar juntas, não basta?
- O voto tem algo de especial. - E você o quebrou duas vezes,
mas está disposto a fazer pela terceira vez?
O casamento começa com uma grande mentira.
E uma mentira é uma base instável sobre a qual construir.
Ela torna o casamento uma linha de produção,
e o propósito principal é ter filhos.
- É a sua visão? - É.
É basicamente isso.
Começa como um projeto conjunto, mas acaba recaindo para os filhos
assumirem o projeto quando os pais não querem mais investir nele.
Eles podem se separar e refazer a vida,
mas os filhos ficam presos ao casamento para sempre.
- Desculpe. - Você não tem papas na língua.
Minha consciência pesa, mas tudo bem.
É como eu me sinto sempre.
Se sente assim?
Sim, sempre.
Então, jamais devo pedir que se case comigo?
Tudo bem. Nunca vou pedir.
Obrigada.
Eu prometo, mas...
Tudo bem se eu disser...
que estou apaixonado?
Sim, pode dizer isso.
Você é sempre tão gentil?
Sempre.
A vida é muito curta, sabe?
Bjorn, precisa esvaziar a sonda.
Tem razão.
- Precisa de ajuda? - Não.
Ai, não...
Eu vou dar um jeito. Por favor, não entre.
- Olha, eu posso... - Pode deixar.
- Tem um balde? - Na cozinha.
- Sob a bancada. - Está bem.
- Quem são nas fotos? - Dag Hammarskjold tirou essa.
- Ficou boa. - Eu acho comovente.
A outra é de Palme.
Sutil homoerotismo.
- Não dormiu muito no hospital. - Não.
Não durmo bem desde a cirurgia. Passo a noite pensando.
Em quê?
Em tudo. Que nada fez nenhum sentido.
- Sem sentido algum? - Acha que não fez?
É horrível dizer isso, mas estou percebendo.
Na manhã da cirurgia, eu ouvi o noticiário no rádio.
Disseram que logo haverá uma vacina contra o HIV.
Ah, é?
A pandemia lhes deu a oportunidade de testar a tecnologia mRNA.
Eu soube. Não é incrível?
Claro, mas todo dia...
'Ironia do destino', é como se diz, não?
Logo após eu me assumir, no verão de 1986...
Eu nem era nascido.
- Sério? - É.
Logo depois, vi um documentário sobre a Aids.
Parecia filme de terror!
Era o discurso na época.
A Aids era uma doença terrível e fatal, principalmente dos gays.
Senti que era uma punição por eu ter me assumido.
Que eu merecia aquilo.
Isso mudou tudo pra mim. Fiquei com muito medo.
Se eu transasse e caísse gozo na pele, eu me apavorava.
Imagine dormir com alguém que não queria usar camisinha.
Eu não conseguia insistir, e também não gostava de usar.
Eu ficava louco depois e corria para fazer exame.
Sentava na sala da clínica, me sentindo sujo e com vergonha.
E nos três meses que levavam pra ter o resultado,
eu ficava paralisado de ansiedade.
Eu alternava entre medo de morrer
e como eu iria contar pras pessoas próximas.
Eu ficava acordado pensando nos meus pais e irmãos,
em como teriam que dizer às pessoas que eu tinha HIV.
Até que a frustração e o estresse ficaram tão sérios
que o melhor pareceu parar de fazer sexo.
Parar de vez.
Me poupar da ansiedade.
Mas surgiram os remédios. Não é mais sentença de morte.
Mas o medo ainda existe.
Contrair uma doença que precise de remédio o resto da vida.
E você não sabe o que fará com seu corpo, efeitos colaterais.
E PrEP? Por que não tentou?
Eu devia mesmo. Hoje eu sei.
Mas quando chegou, parecia que já era tarde.
Eu não sei. É que estou tão... desligado.
Mas está no Grindr.
- Só pra olhar, não faço nada. - Tá bom.
Nada mais em mim excitaria as pessoas.
Quando disseram que precisaria operar, e Soyland falou
que eu provavelmente não teria mais ereção,
foi o menor dos problemas para mim.
Mas aquele dia, a caminho da cirurgia e da impotência,
ou ao menos da esterilidade, nunca ejacular de novo...
Justamente naquele dia me disseram
que uma vacina para o HIV estava próxima.
Parece que fechei o ciclo.
Pensei no que me disse quando nos conhecemos.
Que as pessoas deveriam tomar jeito.
Não digo você, mas tente evitar ficar com pena de si mesmo.
Você ainda tem muito pela frente.
Venha para a cama.
Certo.
- Consegue? - Sim.
Obrigado.
- O que está fazendo? - Vou deitar com você.
- Por quê? - Porque me deu vontade.
Não vou fazer nada. Só quero deitar ao seu lado.
- Não faça por pena. - Não, eu quero ficar com você.
Pense nisso como algo bom.
Um analgésico. Para nós dois.
Estou falando sério.
Tente relaxar.
QUARTA-FEIRA, 27 DE AGOSTO
Eu vou pro trabalho.
- Como se sente hoje? - Nada mal.
Está bom. Mas tem que esvaziar logo.
Que foi?
- Vai ficar esquisito agora. - O quê?
Não se sinta obrigado a voltar só porque dormiu aqui comigo.
Bjorn. Bjorn, Bjorn, Bjorn.
Precisa acreditar mais nas pessoas.
Tchau.
Oi, Ida.
Oi.
- Está aqui fora há muito tempo? - Eu entrei, mas estavam dormindo.
- Ia ficar na mamãe esta semana. - Não quero ficar lá.
Eu entendo, mas...
Entre, vamos tomar café da manhã juntos.
Só vou me despedir da Marianne.
- Desculpe. - Não, eu que peço desculpas.
Ida sentada na varanda desde cedo, com medo de entrar em casa
porque eu estou na cama aonde ela vai buscar conforto. É errado!
Vamos resolver isso. Vou falar com Solveig.
Sabe o que eu acho que teria sido melhor?
Se nós tivéssemos nos conhecido na balsa uma noite.
Por acaso. Acha que é possível?
- Oi. - Oi!
- Está sentada aí? - Estou.
- Ah, é aí que você mora. - Estava na casa do Ole?
- Estava. - Falei pra Ida não ir pra lá.
- Desculpe se ela incomodou. - Não, não se desculpe.
Não. Acordou cedo?
- Eu vou trabalhar. - Certo.
- Então, tinha mesmo que ir. - Sim.
- Também acordou cedo. - Acordei às 3h.
- Nossa. - É...
Aceita um café? Me faça companhia.
- Só um pouquinho. - Tá.
Que ótimo. Venha.
Uma almofada? Obrigada.
Aqui está.
- Desde as 3h. Tem insônia? - Muita.
Já faz anos. Fiz exames.
Dizem que...
dormir pouco encurta a vida. É exaustivo pensar nisso.
- Eu entendo. - Você fica deitada, pensando:
'Minha vida está ficando mais curta.'
Não sei por que dizem isso. Não ajuda em nada.
Não.
E acho que muitos concordam.
Você é socialista?
Sou. Acho que sim.
Você é professora de música. Como faz se não dorme bem?
Sou terapeuta musical.
Mas estou desempregada.
É difícil arranjar emprego aqui. Pensei em voltar pra Oslo.
Vi um vaga em Bergen.
Mas Ole e eu combinamos de morar perto por causa das meninas.
Mas não sei se é bom, sabe?
Às vezes, acho que ter que viver aqui...
Eu alugo o primeiro andar.
Fico sentada aqui, pras meninas poderem correr daqui pro Ole.
Às vezes, parece castigo.
Você não tem marido, filhos, etc.?
- Não. - Não.
Parece tão calma.
Quando eu te conheci, te achei tão estável.
Não...
Não me sinto assim.
- Estou começando a chorar. - Me desculpe.
Tudo bem, é só...
Parece que sempre encontro uma barreira.
Sempre tentando encontrar meu caminho.
- Desculpe se falei algo errado. - Não falou.
Eu não vejo problema em me sentir assim.
É assim que tem que ser.
Sinto muito.
Não há necessidade.
Às vezes se sente sem saída?
Em uma situação, na sua personalidade ou expectativa?
Totalmente sem saída, pensando:
- 'Como acabei assim?' - Claro, com frequência.
Mas...
- Ouça. - Sim?
Mesmo que tudo pareça impossível e você fique desanimada,
nunca deixe de acreditar que existe uma saída.
- É só suportar? - Sim.
'Assim como os seus dias, sua força deve durar também.'
- Heidi? - É o que a Heidi diz.
Preciso ir, ou vou me atrasar.
Por que eu, você e Heidi não saímos um dia?
- Seria muito bom. - Vá para Oslo com a Heidi e...
- Sim. - Podemos sair para comer.
Não quero estragar as coisas entre você e Ole.
- Não se preocupe com isso. - É?
- A Heidi pode te dar meu número. - Heidi. Eu te ligo ou...
- Preciso ir. - Claro, vou falar com ela.
- Obrigada pela companhia. - Obrigada pelo café.
- Adorei conversar. Até mais! - Eu também. Tchau!
- Oi! - Vai de balsa pro trabalho agora?
- Não. - Não?
Passou a noite na casa do fulano?
- Sim. - Está tudo indo bem?
- Sim. - Você parece feliz.
- Estou animada de ir trabalhar. - Tá bom.
Não, estou muito feliz.
Parece que estou pensando com clareza.
Que maravilha.
- Você também parece feliz. - Ah, é?
Estou. Também estou animado de ir pro trabalho.
- Oi. - Oi.
Tão cedo?
Vou encontrar Anna e os músicos.
Dormiu na casa de Ole Harald?
Como vai o projeto? Já decidiram sobre a celebração?
Sim.
Tá bom.
Eu tive uma reunião horrível ontem.
Mas acabou que está tudo saindo como eu queria.
- Uau! - Não como você pensa.
Percebi como é burrice gastar tanto com uma festa.
Eu os convenci a gastar melhorando o acesso das pessoas ao conselho.
Pra conseguirem ajuda de forma simples.
Haverá um pequeno evento no terraço, como Anna sugeriu.
Compusemos uma canção para uma artista interpretar
e representar a 'Garota de Oslo'. É uma cantata.
Estamos ensaiando agora.
É muito mais simples e significativo.
Agora não quer mais largar tudo?
Eram os meus planos.
Pense no que conquistou com isso, Heidi.
Não pode desistir. Você tem ótimas ideias.
A prefeitura precisa de gente como você.
É inédito. 'A prefeitura precisa de você.'
- Também precisa de você. - E de você, não?
De mim? Claro. A prefeitura sou eu.
Tradução: CYNTHIA C. SOIBELMAN Revisão: NATHALIA FERRANTE
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