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Vejo pessoas que já não existem.
Tenho esta capacidade desde criança.
Quando o meu pai morreu, soube antes de acontecer.
- Acho que tenho premonições. - Não estou louca.
Mas a tua mãe é muito determinada.
Queria que te comprasse comprimidos. Sedativos.
- Tornaste-me numa drogada! - Dei-te uma vida.
Estou preocupada com a Veronika. Ela não está bem.
Isto de remexer no passado não é bom para ela.
Disseste que acreditavas em mim. E agiste nas minhas costas.
Olá, somos da Polícia. Chamo-me Nassir Akim.
Esta é a minha colega Veronika Gren.
- Sou eu. Eu sei quem é o T. - Estou? Não te consigo ouvir.
São coisas da Ninni. Desculpa.
- Mas também a viste, não foi? - Mãe, vá lá.
Não podes falar disto a ninguém. Promete-me.
SEIS MESES DEPOIS
Veronika?
Estamos a instalar-nos, Nem tudo está no lugar.
Será esquadra, gabinete de apoio social,
serviço de emprego e biblioteca.
Tudo sob o mesmo teto. Mas acho que funciona bem.
- Olá, Veronika. - Olá.
Este é o seu lugar.
Viu a sala de pausa lá fora e a fotocopiadora está ali.
Os lavabos são ao virar da esquina. Estão como novos.
Desculpe a desarrumação, mas não sei.
- Pronto. Então, como está? - Bem.
Ótimo. Maravilha.
Isto vai mudar um pouco, isso é certo.
E concordámos que um trabalho de secretária é melhor, certo?
Certo. Bem, vou abandonar o navio.
Isso também é uma mudança, para todos nós a bordo.
Bem, não deixe que a impeça de começar a trabalhar.
A Lotta ajuda com as questões práticas.
Veronika, se houver alguma coisa, seja o que for, venha ter comigo.
Ou com o meu sucessor, mais tarde.
Correu bem?
Acho que está tenso com a reforma. Não tem hobbies a não ser...
- Ele disse que devias... - Sim, isso mesmo.
Aqui tem o seu cartão de acesso. O computador é muito simples.
Insere o código no post-it e depois começa com um desses.
Reescreva por cima e verá as referências à esquerda
e guarde-as para o ficheiro principal no computador, em cima, à direita.
Quando um colega em Malmö ou Umeå
quer ler um interrogatório ou uma investigação interna,
vai à central A, digita o número de segurança social de um indivíduo,
ou o número de coordenação, se for um cidadão estrangeiro.
Se não for nem uma coisa nem outra, temos o código pessoal da Polícia.
E está sincronizado com todas as redes internas do país.
Como o FBI.
Está tudo.
Ótimo.
NO MEDO, HÁ FORÇA.
No medo, há força.
Na obediência, a ordem cresce. No medo, há força.
Com licença.
No medo, há força.
Na obediência, a ordem cresce. No medo, há força.
Posso ajudá-lo?
Não pode entrar aí.
Olá. Quem é você?
Matei a minha mulher.
Pode tirar a mão do bolso? Mostre-me as mãos, por favor.
Obrigado. Diga-nos o que aconteceu.
Nós brigámos e eu...
Estrangulei-a.
Onde está a sua mulher?
- Onde está a sua mulher? - Em casa.
Está bem.
Estrangulei-a.
- Era 70 ou 17? - Não, sete.
Pronto.
- Aqui. - Sim.
É a Polícia.
Olá! É a Polícia! Vamos entrar!
- Vê lá em cima. - Sim.
POLÍCIA
- Olá. - Olá.
Deve ser uma filha. Encontrem-na.
Vê se temos os frascos de medicação no quarto.
Sim.
Estamos quase despachados.
Provavelmente estrangulada.
Vou ver melhor,
mas diria que está morta há pelo menos 12 horas.
- O que é isto? - Pinça.
Um bocado de fita-cola, talvez.
Deixaste-a aberta.
Bem, eu vi...
Calculei que estivesses a usar este fogão velho.
Isso é bom.
Mas já lá vão uns 20 anos
que ninguém verificou os resíduos de gases.
Não queres que haja um acidente.
- Quer café? - Diria que não.
Parece que ainda não te instalaste.
- Não. - Mas já vives aqui há algum tempo.
Sim, mas não vivo aqui há muito tempo.
- Ela tinha muitas coisas. - Espero que não deites nada fora.
Não. Não, estou a guardar coisas.
Raios.
Alguém tem fome?
- Tens trabalhos de casa? - Não.
O que é isto?
- Quando vamos ver a mãe? - Amanhã. Já falámos sobre isto.
Aonde vais?
- Nós vamos beber café. - Nós, quem?
- O Vidar e outros. - O Vidar?
Está frio lá fora, veste o casaco.
Isso é alguma piada?
- Causa da morte, estrangulamento. - Sim.
O marido disse-o ontem à noite, mas não é claro.
Sim, as horas coincidem.
Não há mais lesões no corpo, exceto uma ferida.
E foi depois de ela morrer.
Nota-se pela coagulação do sangue.
- Sabes quanto tempo depois? - Um par de horas depois.
Não há alterações na pele, só uma tatuagem e não tem cicatrizes.
- Ferimentos defensivos? - Unhas, à espera da análise.
- Sinais de atividade sexual? - Não.
- Então, nada de invulgar. - Não.
- Deixa-me ver a tatuagem. - Claro.
- Sabes o que pode significar? - Não faço ideia.
Um desenho tribal, talvez? Era popular há uns anos.
Esteve em casa a noite toda? Pode dizer-nos o que fez?
Sim, jantámos às 18h. Depois, limpámos tudo.
Íamos ver um filme.
- Nunca saíram de casa? - Não, ficámos em casa.
Conte-me tudo o que puder, por favor. O que aconteceu?
Começámos a discutir.
A Mona consegue ser um pouco...
- Ela não se sente bem. - Sobre o que estavam a discutir?
Coisas pequenas. Na verdade, não me lembro de como começou.
Mas depois escalou
e ela irritou-se e ficou cada vez mais...
... histérica.
O que aconteceu a seguir?
Pensei que ela se ia acalmar, mas só ficou mais perturbada.
Estava tudo mal e ela ficou furiosa.
E depois...
Ficou tudo escuro e ela ficou lá deitada, morta.
De certeza que a estrangulou onde a encontrámos
e não noutro quarto?
Foi na sala que aconteceu.
E esperou dez horas para ir à Polícia?
- O que fez nesse tempo? - Fiquei lá sentado.
E tentei perceber que ela estava...
Encontrámos frascos de medicamentos no seu quarto. O que são?
- Medicamentos naturais da Mona. - Está bem.
Ela toma-os para os nervos.
Gosta de remédios caseiros para se sentir melhor.
Tem uma filha.
A Henrietta. Não estava em casa.
- Onde estava? - Estava com a Paola, padre.
Liguei à Paola e disse que a Mona
não se sentia bem e pedi à Henrietta para...
passar lá a noite. - Ela resistiu?
Como a Mona estava tão zangada e chateada,
imagino que se tenha defendido.
Foi tudo muito rápido, por isso não me lembro.
Mas acho que ela... Acho que ela me agarrou as mãos.
Assim, enquanto eu...
Enquanto eu...
A ÚLTIMA VONTADE E TESTAMENTO
IRÃO PARA HENRIETTA LARSSON... IRÃO PARA HANS LARSON...
IRÃO PARA A FUNDAÇÃO ARCENIS.
Não deve demorar mais de uma hora.
Quando foi? Na próxima quinta-feira?
Sim, deve ser possível.
Pelo que sei, Veronika, submeteu-se a uma investigação
depois do que aconteceu no outono. - Sim.
Concluíram que sofre de distúrbio bipolar tipo 1.
Sim, é verdade.
Também é verdade que toma medicação?
Sim.
- Desde quando? - Há dois meses e quatro dias.
E voltei ao trabalho.
- Um pouco cedo. - Trabalho num escritório.
Sou capaz de cuidar da Liv e do Simon.
É melhor para eles viverem comigo a tempo inteiro.
Posso dar segurança e estabilidade
e é isso que importa agora.
Tens de melhorar muito mais
antes de falarmos das crianças.
Não vamos tomar decisões aqui
nem agora, mas sigam o plano.
Até à audiência, as crianças vão viver consigo, Tomas.
Depois é o tribunal que decide.
Veronika, vamos continuar as visitas marcadas com as crianças
e também uma visita domiciliária.
Porque mudou-se para casa da sua tia, certo?
Sim.
Olá, Veronika. Há quanto tempo?
- Como estás? - Bem.
Raios.
Olá, chamo-me Nassir Hakim. Sou da Polícia.
Sei que, neste momento, Henrietta está a viver consigo.
Sim, é verdade.
Tenho de lhe fazer umas perguntas.
Sim, compreendo. Ela está muito frágil.
Pode esperar uns dias?
Desculpe. Tenho informações que preciso de confirmar.
- Está bem, entre. - Obrigado.
Descalce-se, por favor.
Henrietta?
- Estás acordada? - Sim.
Tem cuidado.
Olá, Henrietta.
Senta-te.
Chamo-me Nassir. Sou da Polícia.
Tenho algumas perguntas e preciso de uma amostra de ADN.
- Porquê? - Porque há muito ADN na sua casa.
Para descobrir quem é quem, preciso do seu.
- É uma coisa rotineira. - Está bem.
Ótimo.
Abra bem, por favor.
Vive com os seus pais?
- O que fez anteontem à noite? - Ela estava aqui.
Agradecia que ela respondesse.
Eu estava aqui.
Estive a ajudar numa angariação de fundos. Fizemos uns envios.
Deu muito trabalho, por isso, pedi ajuda.
E a Henrietta ajuda sempre muito.
- A que horas chegou? - Por volta das cinco, acho eu.
Estudei em casa e o pai trouxe-me.
Viu o Hans nessa altura?
Não, ele deixou a Henrietta e foi-se embora.
Boa. Estão fantásticos. Obrigado.
É tudo por hoje. Vemo-nos na quinta-feira.
Meus amigos, quero anunciar que a Igreja estará aberta esta noite
devido à coisa terrível que aconteceu à nossa querida Mona Larsson.
Haverá aconselhamento e apoio para quem sentir necessidade.
Todos são bem-vindos, claro. Membros e não membros.
Obrigado, é tudo.
Obrigado, Tomas. Foi fantástico.
Tomas?
- Desculpa, mas tens um minuto? - Sim, claro.
Pensei que esta viagem de intercâmbio seria boa para nós.
Acho que todos iam gostar.
Se a nossa candidatura for aprovada, eles pagam tudo.
Não tenho muito tempo.
Mas posso tratar de tudo. Não há problema.
Está bem.
Está bem. Obrigado, Fanny. Adeus.
Raios!
Olá.
Olá. Desculpa o atraso, foi só que...
Não faz mal. Acabei de chegar.
Olá. Quatro pessoas?
Só três, tenho de ir.
Vais ficar aí parado?
Não, vou só resolver uma coisa.
O quê?
Importas-te que os leve a casa?
Só preciso de ir buscar umas coisas.
- Ela sabe mesmo conduzir. - Sim, eu sei, Liv.
Obrigado.
- Pronto. - Adeus.
Pronto.
- Sabem o que querem? - Sim.
Quero gelado.
- Como vai a escola? - Uma seca, como sempre.
- Bem. - Sobremesa.
Queres gelado e bananas, certo? Liv?
Não, estou bem.
Estou bem.
Estás bem, Liv?
Achas que podemos dormir cá?
Na casa da Ninni?
- Acho que não é boa ideia. - Isto é de loucos.
Salvaste-me a vida e agora não podemos dormir lá uma noite.
E quando pergunto ao pai, ele não diz nada.
Sabes que mais? Vai correr tudo bem. Vai mesmo.
Os vossos quartos eram muito bonitos nas fotos.
- Não é como a nossa antiga casa. - Muito mais pequena.
Vou à casa de banho.
Mas ainda gostas de lá estar, não gostas?
Passa-se alguma coisa?
Há uma rapariga.
Está bem. Na casa?
Não. Só no meu quarto.
Como assim?
Ela não é como nós.
- É uma espécie de... - Simon!
Simon! Não podes falar disto a ninguém. Está bem?
Nem ao pai. Muito menos ao pai. Só a mim. Promete-me isso.
De que estão a falar?
Dizia que tudo se vai resolver.
Olá.
Como foi? Divertiram-se?
- Comi gelado. - Numa terça-feira?
Porque não denuncias a mãe à Polícia?
- Atenção ao tom de voz. - Que tom?
Aquele que usas sempre comigo. Como se fizesse tudo mal.
Tu? Mas nunca fazes nada de mal, pois não?
Liv...
Que cheiro é este? Está alguma coisa a queimar?
Raios!
Bati várias vezes.
Trouxe-te jantar.
Já jantei com os miúdos no restaurante chinês e tailandês.
Chinês e tailandês? Mas isto é caseiro.
Obrigada.
Que chapéu...
Obrigada.
Não percebo porque queres viver aqui.
Seja como for, tens de te instalar.
- Estou a tratar disso. - Não estás a ir muito depressa.
Em breve, vou aí ajudar-te.
Para poderes ter as crianças aqui, precisas de uma casa agradável.
- É a primeira coisa para que olham. - Sim, eu sei.
- Não podes desistir. - É isso que não estou a fazer.
Estou a fazer tudo bem.
Só queria saber
se considerarias ter uma conversinha com o Tomas.
Não, acho que não é boa ideia.
Não, não quero interferir.
Bem, tenho de ir. Mas foi bom ver-te.
Como está ele, já agora? Sempre foi um pouco especial.
Passou por cá ontem à noite e queria ver o fogão.
Bisbilhotar?
- Talvez se sinta só. - Seja como for, devias ter cuidado.
A minha mãe é polícia.
Isso não garante que não te aconteça nada.
Não somos a prova viva disso?
Bem, agora tenho de ir para casa.
TAMBÉM QUERO DORMIR CÁ, TEMOS DE CONVENCER O PAI.
- Olá. - Olá.
Quero dar-te uma coisa, Nassir.
Há aí uma peça muito rara.
Uma Stumpjumper de 94.
Em ótimo estado para a sua idade.
Essa bicicleta está agora na tua posse.
- Não posso aceitar a sua bicicleta. - Podes, sim.
É melhor ficares com ela do que ficar a enferrujar no meu quintal.
- De nada. - Obrigado.
Como está o caso da morte por estrangulamento?
Estou a tentar encaixar tudo.
Algo não bate certo, mas ainda não sei bem o quê.
Encontrei um testamento que mostra que a mulher tinha dinheiro.
A filha herda algum, o marido algum
e uma fundação chamada Arsenis recebe 500 000 SEK.
Empolgante.
Mas já não preciso de me preocupar com isso.
A reforma aproxima-se.
Vai ser muito bom, mas também um pouco solitário.
Mas há uma coisa que gostaria de te pedir.
Podes ficar de olho na Veronika?
Trabalhamos juntos há muito tempo e preocupo-me com ela.
Quero que te certifiques de que ela tem algum equilíbrio na vida.
Claro.
Acho que vais precisar dela.
Adeus.
Vamos recomeçar do início.
O que aconteceu?
Porque discutiram?
Porque não acredito em si?
Parece assustado, Hans.
Alguém o ameaçou?
Tem de me contar o que aconteceu à Mona.
Eu estrangulei-a. Estrangulei-a, estrangulei-a.
ESTE LIVRO PERTENCE À NINNI.
No medo, há força.
Na obediência, a ordem cresce.
Tradução: Carla Marques
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