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Que história tenho para vos contar.
É uma história de Natal.
UM NATAL EX-PECIAL
Sou a Kate.
Aquela era eu há uns 20 anos.
Mal acabei o curso, arranjei emprego
numa incrível firma de arquitetura em Boston.
Queria mudar o mundo.
E o meu mundo mudou quando dancei numa festa
com um estudante chamado Everett.
Éramos loucos um pelo outro.
Aquele primeiro amor em que andamos nas nuvens
e nem conseguimos pensar.
Acontece a todos.
Quando ele decidiu abrir o consultório,
claro que fui com ele
para a sua cidade natal mágica chamada Winterlight.
Parece saída de um postal de Natal.
Era demasiado difícil sair dali.
Casámo-nos, tivemos filhos
e descobri que os médicos nestes locais são casados com o trabalho.
Parecia uma mãe solteira, mas de aliança no dedo.
E a minha carreira como arquiteta?
Surpresa. Em vez disso, tornei-me uma faz-tudo.
Os miúdos cresceram.
O Everett e eu afastámo-nos.
Já não nos divertíamos.
E quanto a mudar o mundo?
BEM-VINDOS A WINTERLIGHT
Mais vale contar a história.
17 DE DEZEMBRO
Então, têm a certeza de que querem divorciar-se?
- Sim. - Sim, sem dúvida.
Como presidente da câmara de Winterlight e vossa amiga, acho um erro.
Christina, o divórcio não significa que deixámos de ser uma equipa.
Legalmente significa.
Nem lhe chamamos divórcio. É um desacoplamento consciente.
Estamos separados há meses e somos mais felizes.
É uma forma mais saudável de encarar o fim de um casamento.
Podemos manter isto entre nós? Sabes como são as pessoas.
- Obrigado. - Muffins?
Não se podem divorciar de barriga vazia.
- Que bom. - Obrigada, Buck.
Não ouviste?
Não lhe chamam isso. É "desacoplamento consciente".
O que é tão engraçado?
- Pensei que se iam divorciar. - Não. É um desacoplamento consciente.
Não me digas.
Ouçam, o divórcio não tem de ser terrível.
Tem, pois.
Sei que é o nosso primeiro Natal separados,
mas vamos passá-lo juntos.
- Sim. - Em família, como sempre.
Com todas as tradições
da família Holden. - Exato.
Vamos fazer o jantar de Natal e todas as refeições juntos no Ninho.
Com vontade, é fácil.
Praticar total sinceridade
e começar todas as frases com
"Eu sinto."
Oh, meu Deus!
Não...
- Vá lá, querida. - Sim.
Pode pedir.
- Olá! - É bom ver-te.
Desculpa o atraso. Fiquei presa numa open house.
Olá.
Bem, uma microcasa, não é para qualquer um.
Especificamente, quem tiver mais de 1,50 m.
Então, como correu com a Christina?
Foi um evento meio público.
Mas o que esperar de um divórcio num café?
Contaste ao Everett que te vais mudar?
Bem... não exatamente.
Pensava que não tinham segredos.
Não temos, mas isto é diferente. Nem aos miúdos vou contar.
Este é o nosso último Natal nesta casa
e quero que seja feliz.
Nem acredito que vais vender o Ninho.
April, tenho um emprego à espera. Preciso que me apoies.
Estás a pedir-me para ser altruísta,
o que é pedir muito.
Minha amiga, passei metade da vida nesta aldeia. A fazer o quê exatamente?
A criar os filhos?
A abrir caminho entre os faz-tudo profissionais?
Pois, e a fazer minhocários em troca de bolos.
O Gabe acaba o secundário este ano
e a Sienna já está na faculdade.
É a minha oportunidade de sair.
Os ajudantes do Pai Natal chegaram!
- Convidaste os pais do Everett? - Vêm incluídos no divórcio.
Olá.
A nossa Katie.
Kate tomate.
Olá.
- April, não te acanhes. - Combinado.
Ouve, não sabia o que ias cozinhar, então trouxe um gratinado de batata-doce.
Que querido. Agora temos dois.
Não tentem superar a Kate no Natal.
Nem na Páscoa.
- Olá, avôs. - Olá.
- É bom ver-te. - Gabe, estás cada vez mais alto.
- Estás. - Mesmo?
Vocês é que encolhem sempre que vos vejo.
É por isto que ninguém atura adolescentes.
São eles. Chegam dentro de minutos.
- Eles? - Pois, já vais ver.
Está bem.
Queres ajuda?
- Querida! - Olá.
Pronto. Está bem, está bem.
- Olá. - Olá.
- Olá, Nigel. - Olá!
É um prazer... Pois, está bem.
Olá.
Muito bem.
Já conheces a minha mãe, a Kate.
- Sim. - Estes são os meus avôs, Mike e Daryl.
- Olá. - Olá.
- A minha madrinha, April. - Olá.
E este é o meu... Bem, já não tão pequeno, irmão Gabriel.
Pessoal, este é o Nigel.
- Olá! - Olá, Nigel.
Que prazer conhecer-vos. Não trouxe foi nada.
Esperem. Trouxe, sim! Uma varinha!
Accio, magia de Natal!
Andas sempre com uma varinha?
- Sim! - Anda.
Usei-a para enfeitiçar esta bela dama.
Wingardium leviosa!
- Wingardium levi... - Está bem, está bem.
Vamos para dentro.
Sim! Muito bem.
Essa foi boa.
Precisas de ajuda?
- Deixa-o estar. - Estou bem.
- Que bom. - A Katie?
Tenho de dizer que é incrível a semelhança entre vocês as duas.
Pronto. Toda a gente diz isso. Eu não acho.
Não somos nada parecidas.
Então, Nigel, também andas em Oxford ou noutra universidade?
- Não. O Nigel não anda na faculdade. - Mãe.
Bem, não anda.
Reparei no brasão do teu casaco.
O que diz? Gry... Gryfin... duff?
"Gryffindor".
Pois. O Nigel é guia turístico de Harry Potter a tempo inteiro.
Isso é profissão?
- Pelos vistos. - Tem muito jeito.
É verdade. Sou o melhor. Sei falar serpentês.
A Sienna diz-me que têm tradições de Natal pouco comuns.
Pois. Das quais passo este ano.
É a tua cena, mãe. Diverte-te, sim?
Aproveita.
E que tradições são essas?
Trocamos presentes criados por nós.
Os verdadeiros presentes vêm do coração.
Ao contrário dos outros, que vêm da Amazon.
E a Kate não compra enfeites.
É tudo pipocas e pinhas.
Os nossos são de materiais reciclados e achados.
- E os pássaros? - Eu adoro-os.
Fazemos pássaros de origâmi
e escrevemos em cada um algo pelo qual estamos gratos.
Soa tudo fantástico.
É uma forma de o dizer.
Embaraçoso é outra.
- Mas o livro é normal. - Verdade.
Na Véspera de Natal, os pais leem-nos o álbum da família.
É muito fofo.
O Everett manda cumprimentos.
Queria vir, mas teve um paciente.
Típico. Betty e o trabalho.
Quem é a Betty?
Os meus pais tratam-se por Betty e Al. Nem perguntes.
Estou entusiasmado por conhecê-lo. E a nova namorada.
- O quê? - O quê?
- O quê? - Ai! Porque me deste um pontapé?
Não digas isso.
- Está a olhar para mim. - Olha para o lado.
Kate, tenho lido sobre energia geotérmica.
- Adorava saber a tua opinião. - Não, não adoravas. Nigel?
Nigel? Ainda te estou a ver.
Nigel?
Nigel. Não... Nigel.
Desembucha.
O pai não te contou?
O pai não me contou o quê?
Que tem uma namorada.
Não. Acabei de ver o vosso pai.
Se tivesse namorada, tinha-me dito.
Então, o Everett tem namorada. E depois?
Sabiam disto?
Descobrimos por acaso.
Jurámos segredo, que tu sabes que detesto.
E vocês sabiam?
Acabei por perceber. Havia muitas pistas.
Os avôs contaram-me.
Não contámos!
Posso ter dito alguma coisa.
Também por acaso.
Bem... Aproveitem o almoço.
Tenho de ir fazer uma coisa. Desculpem.
Vamos falar sobre isto quando eu voltar.
- Queres saber mais? - Sim, sobre tudo.
E lá vai ela.
Devia ter-lhe contado.
Tens uma namorada? Acabámos de nos separar.
Al, estou com um paciente.
E já foi há nove meses.
Os teus pais sabiam. Os miúdos sabiam.
Até o namorado esquisito da Sienna sabia.
Eu sabia.
Vou vestir-me.
Não queria que soubesses assim.
Não encontrei o momento certo para te contar.
Eu sinto que, quando não és honesto comigo,
não posso confiar em ti.
Bem, eu sinto que sempre fui honesto contigo
em tudo, exceto nisto.
Simplesmente não conseguia contar-te, Al.
Desculpa.
Está tudo bem.
Vamos seguir em frente.
- Fala-me dela. - Chama-se Tess.
Estava cá em trabalho.
Foi às compras, escorregou e torceu o tornozelo.
Precisava de um médico.
E o médico sou eu.
Violaste o código de ética e começaste a namorar com ela?
Isso nem se discute.
Ai não?
Não...
- Não. - Está bem.
Bem, obrigada por seres honesto.
Mal posso esperar para a conhecer.
Ótimo.
Tive as minhas dúvidas quando soube do vosso desacoplamento consciente...
- Queres outro, August? - Não, não. Obrigado, doutor. Adeus, Kate.
18 DE DEZEMBRO
Devias pôr aí uns enfeites. Dar mais vida à casa.
O aquecedor avariou outra vez.
Nem o aquecedor, nem o marido funcionam.
E que tal instalar uma bomba de calor?
- O que é isso? - Um compressor.
- Usa termodinâmica para... - Lá vem ela com os palavrões.
Perdi-me.
Queres entrar e tomar um chá e eu explico-te a termodinâmica?
Chá, sim. Mas nada dessas tretas de ervas.
Então, como é ela?
Toda a gente nesta cidade sabe disto?
Estou num clube de leitura. É só fofoca e bebidas.
Não lemos um livro há uma década.
Ainda não a vi.
Não a foste procurar nas redes sociais? Mas que ex és tu?
- Não quero ir procurar. - Todas dizemos isso.
Nunca é a sério. Qual é o nome dela?
Tess Wiley.
Foi assim que encontrei a nova namorada do Herb.
Embora mal a tenha reconhecido ao vivo.
Era bem feia sem os filtros.
Encontrei-a.
- É com ela que o Everett anda? - É.
Tens a certeza?
É o nome dela.
Está bem. O que está ela a fazer?
Está a esculpir manteiga.
É uma arte aceite em algumas partes do mundo.
Nas mais disparatadas.
Bem,
bom para ela.
É só isso que vais dizer? Anda lá. A mulher dá dó de ver.
Estou feliz pelo Everett.
Se tu o dizes.
É bom quando eles arranjam pior, não é?
Pronto, materiais para as decorações.
Fiz duas listas.
Se forem rápidos, compro bengalas de Natal para todos.
Adoro o Natal!
Boa. Agora tenho de ir atrás dele.
Estes são grátis.
Está bem. Vai andando, Gabe.
Kate.
- Olá. - Olá. O que fazes aqui?
Como assim? Venho aqui quatro vezes por dia.
Tens daquelas garrafinhas de vidro reciclado?
Quero fazer o meu perfume este Natal.
E também preciso de pregos.
Bolas! Não temos nada disso. Tenho de encomendar.
- Porque não voltas amanhã? - Não têm pregos?
- Não. - Estão no corredor um.
- Não, não estão. Mudei-os. - O que é que te deu?
Não estão lá. Mudei-os.
- Para onde? - Vendeu-se tudo de repente.
- Estás confuso. - Não.
- Estão sempre no corredor um. - Kate, não.
Aposto que os pregos estão aqui.
Meu Deus.
Quem é aquela?
Kate.
Kate!
- Kate! - Isto agora não.
Olá, Kate. Sou a Tess.
O Everett falou-me muito de ti.
Olá.
Por acaso, fazes esculturas com manteiga?
Esculpir...?
Não. Bom, não com este traje, pelo menos.
Sei que estou demasiado arranjada numa loja de bricolage.
Em minha defesa, estava numa videochamada e alguém me convenceu a sair.
- Bom, quer dizer... - Comprar decorações de Natal.
Se me dão licença, tenho de ir matar a minha vizinha idosa, Doris.
Também cá estás.
Então, pai? Quem é esta?
- Tess, este é o Gabe. - Gabriel.
- É o meu filho. - O bombeiro corajoso.
- Sim. - Pronto, Gabe. Vamos.
- Mas... - Espera, mãe, viste o...
- Ali está ela. - Pai!
Olá.
É bom ver-te. Tive tantas saudades tuas.
Deves ser a Sienna.
Estudas Economia e Gestão em Oxford, certo?
- Deves ser brilhante. - Brilhante, ena... E tu quem és?
É a Tess e não esculpe manteiga,
já agora.
- Tenho materiais! - É o Nigel.
Cá está ele.
É um prazer conhecer-te finalmente.
- Muito bem. - O pai da donzela.
Tudo bem. Não faz mal.
- Tudo bem, amor. - Tudo bem.
- É um prazer. - Igualmente.
Deves ser o Nigel,
o especialista em Harry Potter. Certo?
"Tu és um feiticeiro, Harry."
Quem é a senhora?
- Esta é a Tess. - Tess.
Sou eu.
19 DE DEZEMBRO
Estava só a ver uma receita.
Pois, claro...
Já fizeste o texto para a candidatura?
- Não. - Não?
Queres assim tanto ver-te livre de mim?
Não, só quero que entres na faculdade.
Porque achas que isso é a solução para sair daqui, não é?
Qual é o mal de viver aqui? Não percebo.
E se eu quiser cá ficar?
- Não vamos discutir. - Claro.
Trata disso, pode ser?
Bom dia.
Olá. Gabe, estás pronto?
Sim. Espero no carro.
Toma, leva um destes, querido.
Olha para ti.
Podes falar com o nosso filho sobre a candidatura à faculdade
e às bolsas de estudo?
Ele quer ser bombeiro, salvar vidas.
Recorda-me porque é que somos contra.
Queres mesmo arranjar chatices comigo logo de manhã?
- Não. - Não é boa ideia.
Concordo, mas estou preocupado contigo.
Estás a refugiar-te nos bolos.
Já recuperaste do incidente?
Duvido que algum dia recupere.
Acho que talvez seja boa ideia jantarmos todos esta noite.
- Com a Tess? - Sim, com a Tess.
Onde sugeres que a ponha?
Sei lá. Onde a foste buscar.
Pronto, está bem,
acho que talvez seja boa ideia.
Foi desconfortável à frente das crianças e devíamos normalizar a situação.
Ótimo. Às 19h30 em minha casa, então.
Parece-me bem. Sim, às 19h30, em tua casa.
Boa. Acho que vou levar uns bolinhos.
E eu acho que gostas mesmo dos meus bolinhos.
NÃO ESPERES, LIGA À KATE!
É só este jantar, está bem?
E depois voltamos às nossas tradições habituais.
Ouçam, quero falar convosco.
Sei que esta nova fase da relação dos vossos pais
pode parecer um pouco estranha.
- Não é. - Pois...
Ver o vosso pai com outras pessoas pode ser difícil.
Vejo-o com outras pessoas a toda a hora.
- Eu também. - O quê? Não.
Refiro-me a alguém além de mim.
Eu e o pai não mudámos nada.
Somos os mesmos, com os mesmos valores.
Mas agora, em casas diferentes.
- Não acredito. - Uau.
Está bom.
O que acham da casa?
Sempre quis exagerar no Natal.
Parabéns. Até ouço os glaciares a derreter.
Ai que bom, vai tudo para a barriguinha.
Vivo de comida para levar. Adoro. Não sei cozinhar.
- Está ótimo. - Sim.
Obrigada.
Adoras mesmo pepinos.
Não, é a Betty. Ele detesta.
Desculpa, por curiosidade, porque se tratam por Betty e Al?
Eu explico. Foi a primeira ambientalista que conheci,
e comecei a chamar-lhe Al por causa do Al Gore.
É verdade.
E há aquela canção do Paul Simon.
Podes chamar-me Betty
E, Betty, se quiseres chamar-me
Chama-me Al
Tens uma bela voz.
Enfim, entusiasmámo-nos e ficou assim.
- É parvo. - Não! Acho muito querido.
Tive um namorado a quem chamava "O Canhão".
Mas era apenas porque ele era da Força Aérea.
- Sim. - Pois, pois.
Seja como for, devo dizer que vos acho fantásticos aos dois.
Tenho uma política rigorosa de não contactar nenhum ex.
A sério, é só bloquear, deixar de seguir, apagar, repetir. E desaparecem.
Boa. É bom saber isso.
Queres livrar-te de mim?
- Não. - Não?
- Não. - Queres que vá embora?
Não. Estou feliz por estares aqui.
- Como está o tornozelo? - Está ótimo.
Sarou completamente antes do Dia de Ação de Graças.
- Namoram desde esse dia? - Mais ou menos.
Namorar não, era só conversar.
- Sim, mas muito. - Muito.
Mesmo muito. Horas a fio todos os dias.
E quando o Everett me convidou para vir,
achei um bocado estranho, mas não sei.
Só senti que tinha de vir.
Sim. E tem gerido o império a partir da mesa da minha cozinha.
Império?
Bem, é uma organização sem fins lucrativos global.
Ajudo mulheres a criarem negócios. Tento fazer a diferença.
Uau! Que fixe. Como começaste?
É uma longa história.
Mas o melhor conselho é
encontrar algo que adorem e manterem-se focados.
Foco no objetivo.
Ver as distrações como desvios. Está tudo na minha TED Talk.
- E aí está. - Incrível.
É verdade. Olha, no outro dia,
sonhei que estava a desentupir um ralo.
Queria desistir, mas continuei,
e sabem que mais? Acho mesmo que tive um grande impacto
na vida daquele chuveiro.
Já me lembro. O Everett disse-me que és uma faz-tudo.
Uma pessoa habilidosa? Desculpa. Como te defines, Kate?
Principalmente envergonhada, Tess.
- Para. Não, não. - Não.
O Al é literalmente o que mantém Winterlight unida.
Sem dúvida.
Não sei o que seria desta cidade sem ela.
Desculpa, mas a forma como dizes "esta cidade" é tão encantadora.
Parece que estou num daqueles filmes americanos.
Rapariga da cidade chega a uma vila pitoresca, coberta de neve e apaixona-se.
Como em O Amor Não Tira Férias.
Embora, nesse filme, a ex-mulher tinha falecido.
Mas tu obviamente não estás,
e ainda bem, porque seria horrível
e ia odiar se estivesses.
E eu...
Acho melhor calar-me agora.
- Não faz mal. - Desculpa.
- Não faz mal. - Vives em Nova Iorque?
Sim, tenho lá uma penthouse
e um apartamento em Londres para quando atravesso o Atlântico,
que podem usar quando quiserem.
Tem uma localização incrível.
A dois quarteirões de Leadenhall Market,
onde, claro, filmaram...
- Diagon-Al, sim. - Beco Diagon-Al.
O quê?
Sabia que ias gostar.
- A sério? E chegou a visitar o set? - Sim, várias vezes, até.
Os produtores são meus amigos. Tive sorte.
Cinco pontos para Hufflepuff.
Obrigada, feiticeiro.
Digo-vos já que a Tess conhece toda a gente e já fez de tudo.
Bem, menos passar o Natal com um médico charmoso
e os filhos fabulosos.
Quando não estão contigo, claro como é suposto.
Bem, na verdade, vamos celebrar de forma muito especial, até invulgar,
com as nossas tradições.
Também podemos ir,
porque mudei as consultas todas para de manhã cedo. Estamos livres.
Que pena.
Isto é, que maravilha, mas amanhã de manhã, bem cedinho,
tenho uma surpresa especial para os miúdos. Não vais poder ir.
Mal posso esperar.
20 DE DEZEMBRO
QUINTA DE PINHEIROS
Nova tradição!
Não têm só pinheiros.
Têm um comboio,
sidra quente.
- Fotos com o Pai Natal. - Fotos?
Nem penses. Fotos com o Pai Natal? Somos algumas crianças?
É a gozar. Todos os adolescentes tiram.
Hashtag relaxa. É Natal.
Tínhamos de fazer isto de madrugada?
Queremos a melhor árvore.
Fugir às multidões.
Disseram que queriam um Natal normal. Isto é o normal! É assim!
Vamos encontrar uma árvore
e vai ser divertido!
Achas mesmo?
Gabe, pensa nisto como uma caça ao tesouro. Tu adoras.
Encontrar uma árvore com boa forma e espaço entre os ramos.
Como aquela?
Já está.
Não entendo.
Sempre quiseram escolher uma árvore a sério.
Traz-me uma sidra.
Para mim também. Obrigada, mãe!
Posso ficar, se quiser.
Como queiras.
Feliz Natal. Pode ajudar-me com a árvore?
Depende. Tem sido bem ou malcomportada?
Seja como for, o Pai Natal ajuda. Mas está curioso.
Que tal bem-comportada se me ajudar e malcomportada se não ajudar?
Resposta aprovada.
Quer levar um pinheiro vivo. É um pedido pouco habitual.
Deviam promovê-los.
Um pinheiro vivo sequestra toneladas de carbono.
São incríveis.
O Pai Natal acha-a a amante de árvores mais bonita que já viu.
Obrigada.
Vai mesmo continuar a falar comigo
na terceira pessoa?
Não, porque não me chamo Pai Natal.
Logo, ele não está a usar a terceira pessoa.
Chet Moore.
Recém-chegado de Portsmouth. Ficou demasiado chique.
Kate Holden.
- O que estás a fazer? - À procura de uma aliança.
Estás a fazer-te a mim?
Sim. És inteligente, divertida, gira e pelos vistos solteira.
Vá-se lá perceber...
Que idade tens?
Vinte e oito. Como tu.
Sabes muito.
Obrigado.
Experimentei Krav Maga. Era demasiado violento para mim.
É verdade.
E preferi ioga.
- Estou a ver. - Sim.
Obrigada.
Sem problema.
Instalo luzes de Natal exteriores, recarrego baterias de carros.
Até tenho um limpa-neves, se precisares.
- O trio maravilha. - É isso.
Obrigada pela tua ajuda.
Podias deixar-me agradecer levando-te a jantar.
E trair a Mãe Natal? Não posso deixar que faças isso.
Temos uma relação aberta. Não há problema.
O que não sabe não lhe faz mal.
Aqui está o meu cartão. Liga-me.
É o meu número. Sou pau para toda a obra.
"Chet Moore. Pau para toda a obra."
Sou eu.
- Adeus. - Até logo.
Obrigada.
Até logo, mãe.
Aonde vão?
Vamos ter com o pai e a Tess ao centro.
Mas é hora do origâmi.
Podemos fazer depois?
O pai nunca tira folgas e queríamos aproveitar.
Sim, não faz mal.
Divirtam-se.
- Até logo, mãe. - Até logo.
Nem acredito que o Everett tirou folga.
Pois é. Pelos vistos, é possível.
Vou ganhar uma fortuna com esta comissão.
É do meu sobrinho. É uma cabeça de alho chocho.
Se ele consegue, eu também.
- Vamos lá ver. - Cuidado!
- Desculpa. - Caramba, mulher!
Fica aí. Estou a tentar.
Meu Deus.
Quando abri o negócio, ele nem umas manhãs tirou para tomar conta dos miúdos.
Tive de isolar um sótão com o Gabe num marsúpio.
Eu sei. Foi o meu sótão.
Tens montes de painéis solares em casa.
Se houver uma tempestade, tenho energia guardada para...
Cuidado!
Desculpa.
Peço desculpa!
Credo!
Pronto, eu vou conseguir.
Dizem que tens energia para iluminar a baixa no Natal.
Bem, talvez tenha.
Mas que raio! O que é que se passa contigo?
Já consegui. Não, foi esmagado.
Fomos às compras com o pai e a Tess.
O quê?
E comprei esta camisola gira.
Mãe, olha. Olha só para isto.
Calças novas, casaco novo a condizer.
Acho que nunca tive nada a condizer.
- E já disse que é tudo novo? - Pois. Novo, sem buracos e serve.
Está bem, mas a roupa que vos comprei não eram trapos,
não tinha buracos e servia.
Era roupa seminova,
que é melhor para o ambiente, como sabem.
A Tess também disse que posso estagiar na empresa dela.
Disse que tenho as qualidades de liderança que procura.
Mas tu és uma líder. Já te disse isso.
E veja o que comprei.
O que é isso?
Uma lareira miniatura. Ora veja.
Acender, apagar. Acender, apagar.
Acender, apagar.
Já percebemos.
Pareço um dragão.
- É o pai e a Tess. - Espera, acabaram de chegar.
- Vamos andar de trenó. - Vou calçar.
Que emocionante!
- Não confio em ti com fogo. - Que emocionante!
Estou bem!
Olá, Kate.
Que gracinha.
Sim, que gracinha.
E quando se partir daqui a uma semana, vai diretamente para o lixo.
Que raio se passa contigo?
Bem, Everett,
sinto-me chateada
por ter passado a vida deles toda
a tentar que o Natal
fosse mais do que apenas uma oportunidade de consumismo.
Eu sinto que compraste uma árvore de Natal sem mim.
E eu sinto que não tenho de te dar satisfações.
Estes "sinto que"...
Estou farto!
- Olá. - Olá.
Voltamos a tempo do jantar.
Está bem. Então e o origâmi?
Fica para depois.
Está bem. Divirtam-se.
Devolve as roupas!
Devolve a árvore!
Devolve as roupas!
- Devolve a árvore. - Devolve-as!
Tu tratas das roupas e eu trato da árvore.
Divirtam-se!
Ele nunca teria feito isto sozinho.
Está a namorar com a Mãe Nataléfica.
É diabólico.
Está a usar diversão contra ti.
Eu sou divertida.
O que foi?
Eu sei ser divertida.
Eu mostro-lhes o que é a diversão.
Sabes quem é que deve ser divertido? O Chet.
Mas que sítio tão encantador.
Olha!
Então? Tudo bem?
- Olá. - Olá.
Al, o que fazes aqui?
Estou num encontro.
Comigo.
- Este é o Chet. - Então?
Estás num encontro.
Com ele. Com alguém chamado Chet.
Everett.
Estavas na quinta de pinheiros, não estavas?
- Sim. - Então, tudo bem?
Bacano.
- Muito bem. - Amor.
- Amor. - Que loucura.
- Meu Deus. - Desculpa.
- Sou a seguir. - Tá tudo?
Como é que é?
Que força.
Sim, ele é muito forte.
Tenho aqui uma coisinha. Chet Moore.
Pau para toda a obra.
"Chet Moore. Pau para toda a obra."
- É mesmo pau para toda a obra. - Tanta coisa.
Está ali escrito, não está? Mesmo ali.
Nos dois lados.
Pois é.
Ele é divertido. Mostra lá.
Faço aquilo com o... Sabes? Com o...
- Sim. - Está bem.
- Faz tu, anda. - Sim.
Parece uma família de castores a brincar ali em baixo.
Mãe, estás bem?
Nunca estive tão bem.
Vamos para a rampa.
- Vamos. - Bora!
- Sim. - Vamos lá.
Vamos lá deslizar.
Vais nessa? Então, até já.
Onde está o Chet?
A ter uma conversa profunda com uma árvore?
E a Tess? Numa reunião falsa com a ONU?
Estás chateada porquê?
Tirei folga para estar com os miúdos.
Coisa que nunca fizeste antes.
Aposto que nem trabalhas na véspera de Natal.
Trabalho, sim. É a noite mais atarefada do ano.
Para quem come demais
e podia ir ao médico em Newberry.
Estamos em Winterlight, entendes?
- Não és nenhum hospital. - Outra vez não.
Se não fosses tão obcecado com a tua carreira...
Lá vem o disco riscado!
... talvez eu tivesse tido uma. Mas não. Arrastaste-me para esta aldeia.
Não te arrastei.
Trouxe-te para o sítio que mais amo
porque és a pessoa que mais amo.
Amava.
Sabes o que quero dizer.
Sei sempre o que queres dizer.
É tão irritante.
Lá vai ele.
Era um bom trenó.
Bem, estás com sorte.
Anda.
Dou-te boleia.
A vossa carruagem, minha senhora.
Eu conduzo.
Porque tens de controlar tudo? Vá, senta-te lá.
Pronto, está bem.
Mas não toques em nada.
Não posso prometer nada.
Entre os meus braços e seja o que for, só há casaco.
- Já está. - Eu sinto qualquer coisa.
Ignora isso. Vamos lá.
Olha. A mãe e o pai vão descer juntos no trenó.
Cá vamos nós.
Espera, estás a ir depressa demais.
Estão a ir mesmo rápido.
E está todo agarradinho a ela. Fogo.
- Não controlo a gravidade. - Vais atingir o Nigel!
- Sai da frente! - Nigel
- Sai da frente! - Meu Deus!
- O Nigel caiu. - Há um obstáculo!
- Caiu! - Vamos bater.
- Larga. - Largar?
- Larga! salta! Agora! - Como assim, largar?
- Ai. - Estás bem?
Estou ótima.
Não estás nada.
- Já te conheço. - Está bem.
- Caramba. - Valha-me Deus.
Vês isto? Está muito fria.
- Pronta? - Sim.
Eu sei, desculpa.
Muito bem, inspira.
Isso mesmo. E expira.
Hora do óbito, 15h58.
Estás bem. Nada partido. Deve ser só um hematoma.
Eu disse que estava bem.
Desculpa. Devia ter-te ouvido.
Tens muito mais experiência médica do que eu.
Fui casada com um médico.
És tão bonita.
Betty?
Sim, Al?
Podes tirar a mão de debaixo da camisola?
Sim, claro.
Este fecho está encravado.
Quem quer comer?
- Sim. Estou esfomeada. - Ela está bem.
- Esperem! - Eu ajudo.
- Chet, segura aqui. - Sim.
Vamos lá.
Há algum problema?
- Sim. Vários, aliás. - Está bem.
Perdi os AirPods na neve.
Parti o trenó e não o podem arranjar.
Quanto aos AirPods, nada a fazer, mas posso tentar arranjar o teu trenó.
Talvez tenha aqui um parafuso. Espera.
Estás com sorte.
Não acredito.
Andas de trenó com uma chave de fendas?
Ando sempre com uma chave de fendas.
Há outra coisa em que talvez me possas ajudar.
O que é?
Bem, comecei recentemente a sair com um tipo,
e acabei de o ver muito íntimo
com a ex-mulher.
Aquilo? Não foi nada.
Não...
Caí com força e ele é o meu médico.
Foi apenas profissional,
a mão dele debaixo da minha camisola.
Pois. Não precisas de te preocupar.
Mas tenho uma pergunta indiscreta.
Qual?
Desculpa, mas...
Como é que o deixaste escapar?
Pessoal, quantos querem?
Dois?
Fico com tudo.
Sir Gandalf.
É Harry Potter.
Sim, não sei o que isso é.
August. Trabalhas aqui?
Sim, é sazonal.
Sou diretor de uma escola, não o Jeff Bezos.
Adorei-o em A Mosca. Foi espetacular.
Esse foi o Jeff Goldblum.
- É o mesmo tipo. - Desculpa.
Não. Bom, quero cinco sidras, cinco cachorros. Só com mostarda.
Perfeito. E para o novo homem da Kate?
Quero duas sidras. E dois cachorros vegetarianos.
Mas mesmo muito estaladiços. Como se fossem carne.
Não é o namorado da Kate.
- Não sou? - Não.
Não me importava nada. Como é que a deixaste escapar?
Não o deixei escapar.
Foi ideia minha.
Desculpa, então deixaste-o depois de ele dar uma de Clooney?
Ele não deu uma de Clooney... O que é isso?
O Everett é inteligente, simpático, engraçado, bem-sucedido. É pai de família.
É médico e, além disso, é uma brasa.
Quer dizer, é um unicórnio.
Um Clooney. Um Clooneycórnio.
- Para de dizer "Clooney", por favor. - Desculpa.
A Kate é inteligente, é linda. Tem um riso adorável.
E tem um berbequim que fura qualquer material.
Para de dizer "Kate".
Ele era casado com o trabalho.
Ele disse-te que passava todo o tempo fora de casa,
no consultório?
Sim. Disse que tinha saudades de eletricidade e papel higiénico.
Isso é ridículo.
- Tínhamos eletricidade e papel higiénico. - Segundo ele, não.
Ela preocupava-se mais com a compostagem do que com o casamento.
Achas que isso é um reflexo do vosso casamento?
Interessante.
Mais interessante ainda, a Kate contou-me
que perdeste aniversários dela e do vosso casamento.
Mais do que uma vez.
- Ela disse isso? - Sim.
Também falou numa regra de cinco minutos no duche
e que fazes a tua própria pasta de dentes?
Só os idiotas é que tomam duches de mais de cinco minutos.
E ele disse que gostava da minha pasta de canela.
Kate.
Ninguém gosta de pasta de canela.
Não sei. Acho que ela perdeu o interesse na relação.
- Lamento, deve ter custado. - E custa.
E como te sentiste?
Sozinho.
Sim, senti-me muito só.
E talvez o tenha chateado com coisas dos miúdos, da casa
e por nunca estar lá, por ter abdicado de tudo por ele.
Acho que ele perdeu interesse na relação.
Custava-te ter passado mais tempo com ela?
Custava-te ter-lhe comprado um grelhador?
Toma.
Obrigada. E, já agora, sem julgamentos nem queixas da minha parte.
No fim, o teu azar foi a minha sorte.
Azar o teu, sorte a minha.
22 DE DEZEMBRO
Adeus! Obrigado. Voltem sempre!
Para a próxima, comprem qualquer coisinha.
Katie! Vem cá, querida.
Estes aqui parecem estar à volta de uma fogueira
ou a fazer uma sessão espírita?
Querida... Eu posso mudar ou fazemos outra coisa qualquer.
Perdi os meus filhos.
O quê? O que disseste?
- Daryl, acalma-te. - Ouviste o que ela disse?
- Ouvi. - O que disse ela?
Respira. Ainda desmaias
e bates com a cabeça numa panela.
Vai lá fazer o inventário. Deixa-te sempre melhor.
Vou fazer o inventário e fico melhor.
Está bem. Só um minuto.
Aqui tens, Katie.
Pronto, já está.
Vá, conta-me tudo.
A Tess e o Everett levaram as crianças numa aventura de luxo com motos de neve.
De certeza que as vão devolver.
Gostam mais dela do que de mim.
Que disparate.
É como se a fada do Natal tivesse chegado à cidade.
O quê? A fada do Natal?
Sim, e anda a polvilhar as crianças
com magia consumista materialista.
Enfim, não sei.
Achava o nosso Natal especial.
Sabes, Katie,
acho que isto não é sobre a Tess.
É difícil lidar com o fim do casamento.
E vocês ainda gostam muito um do outro.
Moemos a paciência um ao outro.
O Daryl dá comigo em doido.
Por exemplo,
ele nunca sabe onde mete as malditas chaves do carro.
Como é possível?
Eu sei lá.
Mas eu e o Daryl sabemos como é o fim de dia ideal.
Cada um na sua poltrona reclinável, com umas cervejas,
a ver os nossos programas, com os pés a tocarem-se.
Isso é tão bonito.
Pois é.
Eu nem sequer queria divorciar-me.
E agora perdi o Everett e as crianças.
Katie, és uma mãe maravilhosa.
Achas mesmo?
E o Gabriel e a Sienna são miúdos normais.
Ficam fascinados com as novidades.
Mas isso passa, acredita.
- Passa? - Sim, sim.
- A sério? - Sem dúvida.
Daqui a uns dias é Natal e há prendas.
Pois é.
Preciso que algo me corra bem.
Ora bem...
Eu diria que a campeã absoluta do concurso de bolachas de gengibre dos Holden
devia ir para casa e meter as mãos na massa.
Boa ideia.
- Sim. - É isso mesmo que vou fazer.
- Sim! - Sim.
- Sim. - Sim.
- Sim. - Está bem. Obrigada, Mike!
Ainda estás a ouvir, Daryl?
- Não estava a ouvir. Foi muito bonito. - Pois.
23 DE DEZEMBRO
Que bom estarmos a fazer isto juntos.
Que tal vai isso?
Está a correr bem.
- Boa. Onde anda o Nigel? - Sim.
Está lá dentro a jogar Quidditch online.
- Mas há outro tipo? - Cala-te.
Ao menos leva aquilo a sério, há que respeitar.
- Obrigada. - Claro.
Oxalá pensassem todos assim.
Querida, eu gosto do Nigel.
A sério que gosto.
Mas tu és uma pessoa muito séria
e tens um futuro risonho pela frente.
- O Nigel é... - Divertido.
Tontinho.
O Nigel é mesmo o que eu preciso.
- Tu subestima-lo demasiado. - Passa!
Sim! Já a apanhei! Boa!
Sou o Daniel Radcliffe.
Estudou para ser chef.
E os pais têm um pub pequenino e giro numa aldeia em Yorkshire.
Vai trabalhar lá no verão.
- Vou lá visitá-lo. - Não.
As terras pequenas agarram-nos. Mantém-te longe.
- Olá, família. - Olá.
- Olá. - Já conhecem o meu docinho?
Como é que é, família?
Sou o Notorious B.I. Gengibre.
És mesmo.
- Adoro estas palhinhas. - Não são palhinhas.
Olá, olá, Sr. Natal.
Olá, senhora chefe do bar.
- Tenho um fato igualzinho. - A sério?
- Não assa lá atrás? - Sim.
- É, não é? Que loucura. - Olá.
Desculpem o atraso.
- Olá. - Alguém não queria vir.
Everett! Desculpem.
Eu não tenho jeito para estas coisas e não gosto de perder.
Obrigada por contares a toda a gente.
É por diversão, não é uma competição.
Que bom.
Pronto, Tess e Everett, fiquem aqui.
Os pais... Esperem lá. Onde está a casa?
Na verdade, deixámo-la na loja. Este ano, vamos ser os apresentadores.
Pode ser? Eu sou o Noel Fielding, do The Great British Bake Off.
- E tu? - Sou o Jeff Probst, do Survivor.
Ai, adoro essa banda.
- São ótimos. - Por uma música.
Já ouviste "Heat of the Moment"? É brutal.
- Boa! - Está bem.
Mas vocês adoram fazer a loja em bolacha de gengibre.
Menos concorrência.
Sim. Não é uma competição.
- Não é uma competição. - Não, não é.
- Que piscar de olho foi esse? - É para nos divertirmos.
- O que foi? - Não foi nada.
- Aí mesmo. Isso. - Assim?
Falta aqui um bocado. Perfeito. Fica mesmo bem.
- Fica mesmo giro. - Ainda bem.
Credo.
Está a fazer figuras a namoriscar assim.
Os miúdos estão a ver.
Acho que quer sentir-se melhor
por ter perdido o melhor que tinha.
Gosto de ti.
Continua.
Queres deixá-lo com ciúmes?
Achas-me assim tão imatura?
Não. Claro que não. Talvez um bocadinho. Queres?
Não.
- Vou pôr-te em cima da mesa. - Não é preciso.
- Acho uma ótima ideia. - Não.
Deixa-te levar, isso mesmo.
Emprestas-me isso por um segundo?
- Olá, tudo bem? - Olá.
- Como estás? - Olá, olá.
- Já está a olhar? - Não sei. Ah, já.
Está? Está a olhar?
Um bocadinho disto.
Ai... está bem.
Está só a fazer figuras tristes.
- O que importa? - Não importa.
- Baixa. - Sim, para baixo.
- Pum, pum, pum. - Para baixo.
Deixei cair alguma coisa?
Desculpe, menina.
Demasiado forte?
O que está ele a fazer?
Um dos meus biscates é como dançarino exótico.
Está bem.
Pasteleiros! Faltam cinco minutos.
- O estás a fazer? - Não espreites, bisbilhoteiro.
Isto não é uma competição, lembras-te?
- O teu par? - Aborreceu-se.
Está a entreter a April.
Estavam a divertir-se.
Tu também.
Olha, posso falar contigo?
Podes, mas rápido. Tens de me ajudar a levar isto.
Espera, anda cá.
É só um segundo, pode ser? Eu só...
- Queria pedir desculpa. - Não faz mal.
Os miúdos precisavam de casacos novos.
Não, não é sobre isso.
Desculpa não ter sido um marido melhor.
- O quê? - Tinhas razão.
Estava sempre a trabalhar.
E vocês acabaram por pagar por isso.
Estou a sonhar?
Isto é uma partida?
Não.
Tenho pensado muito, ultimamente.
Os meus pais foram o primeiro casal gay aqui da zona a ter um filho.
Como era invulgar, chamava a atenção. Por...
... boas e por más razões.
Era como se fosse uma experiência à vista de todos.
Conseguirá um casal gay criar um filho?
Acho que cresci com isso cá dentro.
Entendes?
Senti que tinha algo a provar por eles.
E isso acabou por me tornar um viciado no trabalho. Desculpa, Kate.
Lamento muito.
Nunca me tinhas dito isso.
Nem eu próprio o tinha percebido.
Foram precisos nove meses de separação.
Foi mais fácil culpar-te de tudo do que encarar os meus problemas.
E só espero fazer melhor da próxima.
Da próxima?
Sim.
Ser um marido melhor, um pai melhor.
Não estou a perceber.
Quer dizer, se eu e a Tess... Se eu voltar a casar,
se voltar a ter filhos,
serei melhor por tua causa.
Por causa do nosso casamento.
Obrigado.
Muito bem, vamos a isto.
Não capta bem o espírito, mas bom esforço.
Filho, tu preocupas-me.
Obrigado.
Muito bem.
E vocês, o que têm para mostrar?
Não, desculpem. Passo.
Deixa-te disso. Quão mau pode ser?
Preparem-se.
Qual é a história desta?
Falhámos.
- Sim. - Pois.
A tribo falou.
- Talvez para o ano. - Obrigado.
E agora, finalmente, chegamos à casa que todos esperávamos.
Katie.
BEM-VINDOS A WINTERLIGHT
Acho que já temos vencedora.
Quer contar-nos o que preparou?
Com todo o gosto.
Há anos, vim para Winterlight.
Casei.
E pus a carreira em segundo plano
e senti-me uma grandessíssima falhada.
Mas não faz mal.
Enganei-me acerca disso.
Achei que o meu propósito
era mudar o mundo com arquitetura sustentável,
e afinal o meu propósito
foi ensinar o meu ex a ser melhor pai e melhor marido
para a próxima mulher e para os próximos filhos.
Mal posso esperar por sair daqui.
O Chet fez as renas.
Pois é. E o cocó das renas dá para comer, portanto...
Bem visto.
Obrigado por hoje. Diverti-me imenso. Foi incrível.
Tenho de ir buscar os gémeos ao Tiny Toes.
- Espera. Tens gémeos? - Também trabalho como babysitter.
- Claro que és. - Força.
Liga-me. E...
bate aí?
A sério, a valer. Bate aí.
Está bem.
Fixe.
Obrigado, minha senhora.
Gostas?
Isto tem de sair.
- Não gosto disto. - Está bem.
- Tenho saudades tuas. - Adeus.
Como assim não vês a hora de sair daqui?
A sala de jantar estava a escaldar. Não estava um forno?
- Al? - Sim?
O que se passa?
Quando o Gabe acabar o secundário,
vou mudar-me para Boston.
- O quê? - Mãe.
Meu Deus.
Katie, porquê?
Recuperei o meu antigo emprego.
É uma nova oportunidade para mim.
- E a nossa casa? - Tenho de a vender para esta nova vida.
Espera lá. Estás a dizer que vais vender a nossa casa
e nem te deste ao trabalho de falar comigo primeiro?
É esta a tua ideia de honestidade total?
Ia dizer-vos a todos, a sério. Só queria esperar por depois do Natal.
Não queria estragar o Natal.
Pois eu não vou sair, portanto...
Vender o Ninho? Isso é como vender um terceiro filho.
Vais mesmo deixar-nos? Achámos que gostavas de cá estar.
Katie, que dia tão triste.
Logo a mim?
Não me podias ter dito?
24 DE DEZEMBRO
Fiz scones para vos pedir desculpa.
Continuo chateado. Isso não se resolve com scones.
Desculpa não vos ter contado sobre a casa.
Não queria que o Natal mudasse,
mas acabou por mudar na mesma, por outras razões.
Bem, eu perdoo-lhe. Estes scones estão deliciosos.
Obrigada, Nigel.
E decidi que já não vou insistir
para participarem nas tradições da família.
Podem fazer o que quiserem.
Já têm idade para decidir.
Ontem estavas passada. Agora pareces possuída.
Esta sou eu agora, Gabe.
Gabe, e a candidatura, como vai?
Quero ser bombeiro, mãe. Já decidi.
Pois, e quando entrares numa faculdade,
vais ver que tens muitas mais opções.
Pois.
Vou falar com ele.
Está bem. Obrigada, querida.
Como disse Albus Dumbledore,
- "Harry, tens de..." - Não venhas com isso.
Pronto, então digo eu.
Acho que o seu maior medo
é que os seus filhos acabem por ficar iguais a si,
o que, a meu ver,
não é assim tão mau.
Obrigada, Nigel. És muito gentil.
- Olá. - Olá.
Uau. Tu estás...
... lindíssima.
Obrigada.
- Tu também. Belo smoking. - Obrigado.
É daqueles com velcro. Também sou dançarino exótico.
Mostrava-te já, mas depois é uma trabalheira
pôr o velcro todo no sítio. É um pesadelo.
- Mostras noutra altura. - Está bem.
- Logo à noite, se quiseres. - Combinado.
Está combinado.
Pronto.
- Minha senhora. - Obrigada.
Deixei-me de banhos de água gelada, só uso pomadas.
- O quê? - Resulta mesmo. A sério.
- Olá, Chet. Eu ajudo-te com o casaco. - Está bem.
- Isso mesmo. - Calma, calma.
Está preso. Conheço aquele tipo! Ao lado do feiticeiro.
Como é que é? Tudo bem?
Segura aqui nisto.
Compraste uma lareira miniatura?
Sim, é para substituir a do Nigel que parti, lembras-te?
Engraçado... Não pareces bêbeda.
Podes ficar de olho no Chet?
Se posso!
Que bom. A Kate chegou.
E o Chet.
- Olá a todos. - Olá.
Juntem-se aqui um segundo, por favor. Obrigado.
Quero fazer um brinde.
Com sumo de maçã. Abro a clínica daqui a duas horas.
Queria só dizer
que estou feliz por ti,
porque vais finalmente ter a vida que queres,
e ninguém o merece mais.
Se pudesse voltar atrás, tinha tratado disso mais cedo.
Portanto, ao Al!
- Ao Al! - Ao Al!
- À Kate. - Kate!
E muito obrigada por terem vindo.
É a primeira vez que organizo um jantar de Natal,
normalmente estou numa cantina social,
a servir os pobres, os necessitados e os sem-abrigo,
mas isto também é muito bom.
Como estão mortinhos por abrir as prendas,
acho melhor irmos comer rapidinho.
- Vamos lá. - Está bem.
Vamos.
Vamos comer.
Essa é minha.
Que amável.
Obrigada.
São da Stella McCartney.
- Sabes quem é? - Sim, sei. Obrigada.
Bem, também tenho uma para ti.
Já sei o que é.
Não acredito.
Fui eu que fiz.
- Tu é que fizeste? - Sim.
Os meus gorros têm saída. São lendários.
Lá nisso, tens razão.
O gorro que uso sempre é da Kate.
Eu adoro o meu gorro.
Obrigada, pai.
Eu acho que isto é muito...
... quentinho.
Pai, abre aquela grande ali. É da mãe.
- Se calhar é um gorro. - Está bem.
É pesada.
- Precisas de ajuda? - Deixa estar.
- De certeza? - Sim.
- Ajuda-o. - Obrigado.
- O que é? - Sim! Espera lá... não pode ser.
Não acredito.
É um grelhador de interior.
Meu Deus! Calma, pessoal. Nada de palmas.
Não quero nada. Não olhem para mim.
Achei que era a brincar sobre querer tanto um.
Nunca brinco sobre grelhar em cuecas.
Pronto, desculpa lá.
Al, obrigado.
Desculpa ter demorado tanto.
Não faz mal.
Esta é para ti.
- Já está. - Sim.
- Mas é meu, atenção. Obrigado, Chet. - Obrigada.
O meu perfume.
É, sim.
Acho que acertei.
Sei que não foste buscar o frasco
e tentei replicar o cheiro que usas.
Não acredito.
É exatamente este.
Como?
Bem, já o cheiro há muito tempo.
Tess!
- Deve ser do perfume. - Vá lá.
Aqui tens.
Parece caro.
É bom que seja.
É um anel?
Então, o que é?
São uns AirPods.
- Boa. - Que fixe.
Porque perdeste os teus a descer de trenó.
Pois foi.
Desculpa, mas deste à tua ex-mulher
o perfume dela, feito de raiz,
e a mim deste-me uns AirPods.
- Não é nada de especial. - Claro.
A Kate não gosta de prendas compradas. Estou a tentar ser um bom ex-marido.
Pronto, tens razão. Desculpa lá.
Fui eu que tornei isto constrangedor.
Está a ficar tarde. Vamos indo.
- Faltam prendas. - Não.
- Vamos. Procura as chaves. - Adoro ir, é divertido.
Vamos lá, Chet.
- Porque é que nunca sabes das chaves? - Porque...
- Viram as chaves? - Estão aqui.
Ainda bem.
- Adoro-te. - Eu também.
- Adoro-te. - Fiquem para a sobremesa.
Eles querem ir, deixa-os ir.
Cuidado.
- Venham cá. Abraços. - Sim.
- Adoro-te. - Acho que nós também vamos indo.
- Adeus. - Está algo a arder!
Gabe, afasta-te!
Vão para a saída mais próxima e não voltem a entrar. Com calma.
Toda a gente para trás!
Afastem-se!
- Desculpem. - O que é que estás a fazer, Chet?
Mas que raio?
Graças a deus!
Para trás!
Não!
Não olhem!
Em segurança.
- As sobrancelhas estão a chamuscar! - A tua roupa? Sai da frente!
- Isso! Muito bem! - Sim!
- Isso! - Boa, Gabe.
- Muito bem! - Assim é que é!
Pronto.
- O que aconteceu? - Era uma prenda para o Nigel.
Para mim?
Sim.
- Nigel. - Nigel.
- A culpa é minha. - Ninguém tem culpa.
Não, refiro-me a tudo isto.
Orgulho-me de fugir de relações problemáticas.
Evito estereótipos de homem perfeito, que parecem bons demais para ser verdade.
E isto tudo é um grande sinal de alerta.
Não me meti nisto para andar com um médico da terrinha,
com a mulher dele e com seja lá o que o Nigel for.
- Eu percebo. - Mas obrigada pelos AirPods.
Acho que devias ir falar com ela.
Devia?
Devias.
Lamento por esta noite.
Na boa. Como costumo dizer, se não há discussão, não é família.
Olha, ainda bem que tu e as tuas calças cá estavam.
São à prova de fogo. Uso bonecos em chamas na minha atuação.
É difícil de explicar, um dia mostro-te.
Está bem.
Então, vais mesmo mudar-te?
Vou. Devia ter contado a todos mais cedo.
Estou totalmente aberto a uma relação à distância.
E Bosto é quase um museu da cerveja ao ar livre.
Não. Desculpa.
O Chet compreende e espera que mudes de ideias.
- Não vou mudar. - Bolas.
Mas obrigada por me fazeres sentir especial quando mais precisei.
És um tipo fantástico.
E tu também.
Pronto.
Adeus, Chet.
- Até logo. - Até logo.
Vemo-nos por aí.
Bom.
Acompanhaste-nos em tudo.
Nunca pensei que fosse tão difícil deixar-te.
Obrigada por tudo.
De nada.
Espera, o que é que eu fiz?
És uma filha incrível.
O barulho do vento não me deixa dormir.
Ai é?
- Fazemos conchinha? - Sim, por favor.
Aquele vento também vos acordou?
Sim.
Lá fora está péssimo, credo.
- Então? Gabe! - Pronto.
- Está bem. - Desculpem.
Caramba.
Também queres miminho?
Não.
Talvez.
Anda cá.
Podes deitar a cabeça no meu ombro. É permitido.
Está bem.
Isso.
Os meus bebés.
Quem será?
Aposto que é o Chet.
O que é que estás aqui a fazer?
Não estavas na clínica?
Deixei um aviso na porta para irem a Newberry.
Cheguei tarde?
- Para quê? - Para ler o livro da família.
Será que sou o único que quer manter as tradições da família?
Valha-me Deus. Com licença.
Vejam o que encontrei à porta.
Tudo bem, pai?
É o vosso pai.
Diz a verdade. Fui adotado?
Sou teu pai. O teu velhote.
Vou a caminho e vou com tudo.
Está na hora.
Não vamos ler isto tudo, pois não?
- Não. - Tem para aí mil páginas.
Nunca vos faríamos essa maldade. De modo nenhum.
- Pois. - Nada disso. Primeira página.
É a nossa primeira foto juntos. Eu e a mãe.
Que brasa. Vejam como a vossa mãe é linda.
Tu também não estás nada mal.
Estou comovido.
Ainda vou chorar.
Foi giro.
Pois foi.
Eu adorei.
Bem, é melhor ir andando.
Obrigada por hoje.
Claro.
Pensava que esta porta já estava arranjada. Casa tola.
Está tudo bem, Casa. Não foi por mal.
Desculpa, Casa. Não disse por mal.
É que há tanta coisa que não funciona.
E tanta coisa que funciona.
Pois é.
- Tão bom. - Delícia.
25 DE DEZEMBRO
Ovo no ponto.
- Feliz Natal, dorminhocos. - Feliz Natal.
É Natal, hoje há beijos.
Olá, mãe. Feliz Natal.
- Vou... - Para mim também.
Está bem.
Oh, Nigel. Feliz Natal.
Vou tirar a neve da carrinha.
- Tenho de vos levar a casa do pai. - Não vens?
Depois de ontem, dispenso.
Tenho muito que fazer aqui.
Mudança de planos.
Vamos a pé.
Então, família.
Está tudo bem?
Com o quê?
A tempestade.
A de cá dentro ou a de lá fora?
A de lá fora.
Não há aquecimento, luz e caiu uma árvore caiu no telheiro.
Portanto, ótimo.
Coitadinho.
Tess!
Fiz barulho?
Que se passa?
Vou-me embora. Vou para casa.
As estradas estão cortadas, não é seguro.
Se atravessei África a pé, também me safo em Winterlight.
Mas obrigada.
Está bem.
Sei que eu e o Everett temos de aprender a pôr limites.
E vão ser limites mágicos, é?
Daqueles que te tornam invisível?
Porque é a única maneira de ele não ficar com os olhos a brilhar
sempre que entras na sala.
Eu não consigo, mas obrigada pelo convite e pelo gorro.
Tenho mesmo de ir.
Credo, pensei que te tinha empurrado escadas abaixo.
Tess, aonde vais? Não há luz, está um gelo
e tens um impermeável.
Eu desenrasco-me.
Tenho o gorro fixe da Kate, não tenho, Betty?
- Nem queres falar disto? - Do quê? O que estamos a fazer?
Esperávamos o quê?
Quando torci o pé,
devo ter batido com a cabeça para achar normal vir parar ao Polo Norte
com um Marlon Brando de ocasião que mal conheço.
Se calhar tivemos um episódio de loucura a dois.
E acho que ninguém reparou
porque somos ambos altos e atraentes.
Pelo menos, o sexo foi bom.
Foi.
Estava a ir no bom caminho.
Pronto, vou andando. Deixo-te a lidar
com isto tudo.
Feliz Natal, Betty.
Feliz Natal.
Feliz Natal!
Mas que...? Chet?
Porque é que ele aparece em todo o lado?
Sou voluntário na proteção civil. Este é O Grande Leplowski.
Claro que és.
Tenho de chegar à autoestrada. Já deve estar limpa.
Ainda não cheguei lá.
Então que venha um helicóptero. Quero sair daqui.
Tenho de ir para Nova Iorque.
- O Chet adora Nova Iorque. - Claro que adora.
Esse fato é de um dos teus
de dançarino?
Pode ser, se quiseres.
Falamos disso depois.
- Adeus, Kate! - Adeus, Chet!
Adeus, campeão!
- É Everett, mas... - Sim, como queiras, Kate.
Vamos embora.
Não querendo parecer o Grinch,
se calhar adiamos até voltar a luz.
Ou cancelamos tudo.
De quantos mais sinais precisamos de que este não é o nosso ano?
Que conversa é essa agora? Não vamos cancelar nada.
É Natal.
- Vamos. - Para onde, exatamente?
Para casa, claro.
Como é que não me lembrei disso?
O Ninho tem bateria.
Temos calor e comida. É Natal!
Vamos bater à porta dos vizinhos a ver se alguém precisa de ajuda.
Boa ideia.
- Pois, pois. - E eu?
Vê das prendas.
Então faz dois montes e salvamos o que der.
Sim, senhora.
Vou buscar as botas. Já venho ter contigo.
Boa, boa.
- Querida? - Sim?
Desculpa teres uma família estranha.
Sim, bem,
eu não.
Agora que cresci, até gosto da minha família estranha.
Gosto de gente estranha.
Pois, o Nigel.
- Mãe. - Estou a brincar.
E nós somos superfixes.
Diz lá mais coisas que me deixem toda vaidosa.
Não te passes,
mas eu sou a presidente da Iniciativa de Sustentabilidade de Oxford.
E passo os fins de semana a descarregar o sistema de compostagem.
Estou tão orgulhosa de ti!
Oh, meu amor!
É a melhor prenda de Natal de sempre.
- Boa. - Obrigada por me dizeres.
De nada.
Quem é? Tenho um taser.
É o Gabe, Sra. West.
Venha connosco para o Ninho.
Temos eletricidade.
Não posso andar. Dei cabo do joelho a fazer Zumba.
- Zumba. - Pode apoiar-se em nós.
Pode?
Sim.
Qual é a piada?
Entrem.
Vá, anda.
Pronta?
- Obrigada. - Claro.
Feliz Natal!
Os ajudantes do Pai Natal chegaram.
Está aí alguém?
Que estranho. Fomos a todas as casas do quarteirão
e estão vazias. Como é possível?
Não sei.
Bem...
Mais uma?
Mistério resolvido.
Pois é.
Porque é que isto custa tanto?
Oh, meu Deus. Desculpa lá. Obrigada.
- Olá! - Olá!
- O que fazem todos aqui? - Sem ti, tinham congelado.
Todos acham que escondes uma central elétrica na cave.
Talvez esconda.
Não é por isso. Soubemos do incidente
com uma casa de gengibre indefesa.
- Pois. - E que ias embora.
E viemos dizer-te o quanto és importante para nós.
Oxalá aqueles arquitetos chiques te deem valor.
Diz-lhes que, desde que puseste um telhado verde na Câmara,
todas as aves locais regressaram.
É como trabalhar num conto de fadas.
Estava cética, como sabes,
mas os eletrodomésticos que me convenceste a usar pouparam-me imenso.
Aproveite e renovei o guarda-roupa.
Estou um espetáculo.
Estás, sim.
Bem...
Eu trato de lhes dizer.
- Vamos ter saudades tuas. Saúde! - Saúde!
Saúde!
Saúde.
Está a ferver!
Desculpe, já me instalei na sua cozinha. Velhos hábitos.
Se quiser provar,
adaptei a minha receita de tarte para uma versão vegana.
- A sério? - Sim.
- Que tal? - Meu Deus.
Está ótima.
Eu também acho.
Que alívio.
O curso de Pastelaria do Cordon Bleu não cobre gastronomia vegetal,
por isso vou batizá-la em sua honra.
- Obrigada. - "Tarty Kate".
Assim, sempre que pensar numa tarte, vou lembrar-me de si. Bem...
Vou tentar convencer os meus pais a servi-a no pub.
- Seria ótimo. - Pois seria.
És um doce, Nigel.
Obrigada por tratares bem da minha filha.
Vejo que a fazes feliz.
Que mais podia querer?
É um prazer ter-te connosco.
És adorável.
- E um bocadinho doido. - Sim.
Adoro isto!
Pai... então? Estás a dormir? Acorda.
- Amor? - Abri...
O que lhe fizeste ontem à noite?
Fomos dançar.
Foram dançar...
Mãe, tenho mais uma prenda para ti.
Terminei o texto.
É um milagre de Natal.
- Bem. - Não. Vá, levanta-te.
- De pé. - Rufem os tambores.
Isso mesmo.
Vá, lê lá isso.
Ai, não, não.
Pronto.
"Chamo-me Gabriel Holden.
Pediram-me para falar de alguém que admiro muito,
alguém que me fez mudar a forma como vejo o mundo.
Pensei no chefe dos bombeiros, Phil.
É um exemplo e, com os seus dois metros, está acima de todos, literalmente.
Mas há só uma pessoa cuja convicção,
garra e tenacidade
me fez mudar a minha perspetiva,
ou sequer ter uma:
a minha mãe, Kate Holden.
Acha que abdicou de uma carreira
onde podia ter tornado o mundo melhor.
Eu sei que já o faz todos os dias.
Nem sempre dá nas vistas,
mas foi ela que me ensinou, na prática, a melhorar a vida das pessoas.
Desde instalar à Doris uma sanita de compostagem
a divulgar uma empresa de limpezas ecológicas a uma casa de abrigo,
vai mudando o mundo, uma pessoa de cada vez.
A minha mãe diz sempre que os pequenos gestos fazem a diferença.
É por causa dela que quero dedicar a vida a servir os outros.
'Dá-me força para salvar uma vida' é o lema dos bombeiros."
Foi tão bonito.
Não o vou esquecer. Nunca.
Espero que não. Era a última cópia.
Agora, já não precisas dela. Vais ser bombeiro, certo?
- O quê? - É a tua paixão.
Quero que faças o que gostas.
Conta com o meu apoio.
Está bem.
E, Sienna, se quiseres ir conhecer a família do Nigel,
por mim está tudo bem.
E se um dia quiseres casar e viver lá...
Estamos só a namorar.
Então, já lhe posso chamar pai?
- Olá. - Olá, Betty.
Que fazes aqui fora?
- Estás bem? - Estou.
Estou só a pensar.
No quê?
No Chet, sobretudo.
Quer dizer...
Já falaste com a Tess?
Não.
Fiz o clássico bloquear, deixar de seguir,
apagar, repetir.
Bem...
Tenho novidades.
- Então? - Falei com o Chet.
Ele e a Tess têm bilhetes para ir ver O Rei Leão.
Que giro.
A sério. Fazem um par perfeito.
Estão prontos.
Os papéis do divórcio.
Olha, Al, não quero divorciar-me.
Nem desacoplar.
Repito.
Não te quero perder.
Leva-me para Boston.
E a tua clínica?
Fecho-a.
Por favor, Al, já fizeste tanto por mim.
Prefiro morrer a ficar sem ti.
Então devo dizer-te...
Decidi que não vou.
O quê?
Quando é que decidiste isso?
Agora mesmo.
Quem é que eu quero enganar? Nunca te conseguiria deixar.
- Estás a falar com a casa, não estás? - Estou.
Sinto que falhámos no desacoplamento consciente.
E eu acho que nunca mais quero ouvir essa expressão.
Betty, esta não era o futuro que eu imaginava.
Mas tenho a certeza absoluta
de que é o que eu quero.
Anda cá.
A minha épica história de Natal tem um final feliz.
Abri a minha empresa de sustentabilidade.
Faço a diferença na minha comunidade
e mudo o mundo, uma pessoa de cada vez.
UM ANO DEPOIS
E aquela sensação de primeiro amor, de andar nas nuvens
que achava ter desaparecido entre mim e o Everett?
Afinal, esteve sempre lá, à nossa espera.
Estou à espera há uma hora.
Trabalho, trabalho.
- Trouxeste os hambúrgueres? - Trouxe.
E as tuas coisas para o grelhador?
Já tenho as luvas.
Ainda bem que estás feliz.
E estou.
Quando foi o pôr do sol?
Os painéis fotovoltaicos que instalei têm sensores de luz e, quando escurece,
é suposto acenderem-se.
Aí está.
Lindo.
Amo-te, Betty.
Amo-te, Al.
Legendas: André Alves Ribeiro
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